sexta-feira, 9 de maio de 2014

Nick Drake



Os três álbuns lançados em vida por Nick Drake, Five leaves left, Bryter Layter e Pink Moon estão, fáceis, entre o que de melhor se produziu na música da metade final do século passado. Escutar a música de Drake sempre foi algo espiritual para mim, de uma suavidade, delicadeza, rusticidade, sofisticação, força. Talvez eu gaste tantos adjetivos para conceituá-la porque, quando a escuto, como acontece com a grandes músicas, a necessidade da palavra se perde por inteiro, e tudo seja apenas a alegria poderosa e a tristeza diáfana que ela desperta. Escutar Northern sky, por exemplo, me deixa em estado de uma precipitada atenção, como se estivesse por pegar um trem noturno que me é muito conhecido, ou como se, assim que as primeiras notas da canção são executadas, eu estivesse por encontrar, entrando pela porta, algum amigo ou amiga muito amada. Sempre me movo para uma posição de descanso en garde para ouvir mais uma vez aquelas notas de puro cristal lunar sem peso, que me soam impossíveis de que algum instrumento e alguma mão humana tenham-nas realizado_ é como poder transmitir para a partitura o frio do céu nórdico, a aurora boreal, ou o brilho inapreensível de todo o cosmo visto em uma noite excessivamente translúcida. Northern sky me deixa com a alma limpa; me revela algum mistério universal com o qual eu jamais conseguirei dizer mesmo a mim mesmo do que se trata: um mistério não verbalizado, tão importante que eu não posso senti-lo por inteiro, só por fagulhas_ fagulhas que atravessam o céu diante um rosto desfigurado por um sorriso que é tanto de alívio quanto de plácida loucura.

Alguém disse uma vez que não conseguia aceitar que alguém que tenha composto uma música tão impregnada de amor pela vida quanto Northern sky tenha se matado. Estranho que eu escute Drake sem que esse detalhe sobre sua biografia venha à minha mente; ao contrário de Kurt Cobain, Janis Joplin e Jim Morrison, cuja departida no auge da juventude parece ser a prerrogativa primária para se entender o que eles falavam. Drake não me traz nenhuma pista em suas músicas, mesmo na beleza quase prostrante de Fly, cuja letra filosófica e o cello crepuscular tenham servido de trilha para uma cena de suicídio no cinema. Mas, claro, eu sei que a depressão impactante foi o mote dos últimos dias de vida de Drake; sei que seu altíssimo Q.I. e sua família abastada que o prometeram às melhores faculdades inglesas sucumbiram diante seu quarto em que ficava isolado, sem se prestar a ver ninguém. Sei que era um músico dotado de um talento em um grau avançado que poucos, só os gênios , tinham, e que isso refletia também em sua perícia na guitarra e no violão. Desejei muito escutá-lo mas seus álbuns eram inacessíveis ao mercado nacional. No início da internet democratizada, quando o download se arrastava, eu pedi em uma lan-house que baixassem algumas músicas de Drake para mim. O rapaz colocou no som ambiente para testar a qualidade do som, e o que tocou foram as primeiras notas de violão e orquestra de Introduction, do Bryter Layter. Aquilo me arrebatou, aquele som preenchendo sem álibi nenhum a saleta da lan-house. Anos depois, eu consegui comprar a caixa com 4 cds Fruit tree, que traz tudo que Drake gravou, inclusive as músicas não editadas que ele compôs no quarto isolado. A sensibilidade em estado puro.

7 comentários:

  1. Fagulhas… Fagulhas
    de um mistério não verbalizado
    ou quem sabe seja só um rosto
    desfigurado por um sorriso
    de alivio ou por plácida loucura.
    Fagulhas. Fagulhas…
    Nunca as decifrarei por inteiro.

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  2. Ramiro Conceição9 de maio de 2014 21:38

    Para você, Charlles, e também à sua saudade do Miles...

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    1. Obrigado pela delicadeza e a sensibilidade, Ramiro.

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  3. Charlles, que filme é esse com a cena de suicídio?

    Não sei porque, me lembrei imediatamente da cena da tentativa de suicídio em Os Excêntricos Tenembaum, com uma canção que na época me arrebatou, de Elliot Smith (outro suicida).

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    1. João Antonio Guerra10 de maio de 2014 12:41

      O Wes Anderson tem sempre uma trilha sonora deliciosa. Não sei se é dos Tenembaums que o Charlles está falando, mas é bem capaz: há a música do Elliot Smith quando aquele rapaz corta os pulsos, e logo após, baixando sobre a sua fuga do hospital e reencontro com Margot, há Fly, do Nick Drake -- Please give me a second grace/ Please give me a second face.

      A escolha de dois suicidas para cantarem o durante e o depois da tentativa de suicídio é de uma puta doçura, um carinho enorme tanto pelo Elliot quanto pelo Nick (quanto pelo suicida do filme, que esqueci o nome, como já perceberam), e principalmente pela diferença entre eles dois (três). Esse momento e aquele do Hey Jude, para mim, são duas das ocasiões mais mágicas do rock acarinhando uma obra de cinema.

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    2. É dos Tenembaum mesmo, e faço minha essa última frase do João.

      (Acho que já havia falado sobre essa música do filme aqui, antes.)

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  4. As trilhas de Anderson são muito bem calculadas. Em Viagem a Darjeeling, grande parte das músicas foi composta por Satyajit Ray, grande diretor indiano.

    Por sinal, o primeiro filme da trilogia de Apu tem uma das cenas mais tocantes de todos os tempos, com uma trilha simples, uma nota perfurante que nos atinge direto no coração. Se não me engano, o Herzog de Bellow fala dela. Aquele momento eterno e destruidor em que o pai chega de viagem e mostra à mãe o presente à filha que ele ainda não sabia que morrera. Pode ser vista aqui a partir de 2m40. http://www.youtube.com/watch?v=cwas1NhwxVM

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