domingo, 16 de dezembro de 2012

Natal no Gabinete do Sr. Hightower


Apesar de tudo, gosto do natal. Há alguns dias uma amiga de infância da minha irmã teve um AVC. Ela tem 26 anos, é médica. As duas passaram por todas as etapas colegiais e da faculdade juntas. Recordo levando-as às boates e a shows musicais, enfrentando quilômetros de congestionamento na ida e na volta, quando elas me ligavam e pediam para ir buscá-las. Essa amiga tem o pai riquíssimo. O pai foi prefeito de determinada cidade durante vários mandatos. O nome dele está relacionado a determinados escândalos de desvio de verbas públicas que, como é de praxe, caiu no esquecimento jurídico e nunca mais se ouviu falar deles. Uma mansão de 16 quartos, fazendas, carros de luxo. Quando as duas eram estudantes e eu estava com meus 30 anos, essa amiga uma vez me disse que não namorava comigo apenas por eu ser um sujeito muito reservado e que não gostava de festas. Apenas por isso. Eu ri, surpreso, pois nunca a vira mais que uma amiga da minha irmã e uma semi-irmã minha a qual nunca cogitara possibilidades além disso. Ela se casou, teve dois filhos. O segundo, uma menininha, nasceu no começo do mês. Poucos dias depois, essa amiga sofreu um quadro de hipertensão altíssima, um dos vasos do cérebro se rompeu, ela teve que passar por uma cirurgia de emergência para drenar o sangue da cabeça, e está em coma, em estado grave. O facebook dela está cheio de mensagens sobre virgem marias, sobre seus sorrisos, sobre sua força de vida, sobre anjos arregimentados em seu quarto da UTI, sobre a providência infalível de deus. O pai dela foi atendido certa vez pela minha irmã Aline, em sua clínica de fisioterapia. Dois dias depois a mãe dela apareceu na clínica dizendo à minha irmã que não aceitaria que ela continuasse seduzindo seu marido, com aquele jaleco fino e com insinuações corporais. A Aline ficou muito chocada. Havia passado estadias na grande mansão, em companhia da amiga, desde quando era criança. A Aline disse que só me contava agora, depois de muito tempo, receosa que eu fosse tomar satisfações com a mulher. E ela não contara à minha mãe pois sabe que minha mãe iria mover todo o judiciário e um arsenal de palavras sem a mínima compostura que só ela tem um talento legítimo para criar, para cima da mulher. Meu sangue ferveu, mas vi que a Aline estava bem e levara a história com humor. Sua delicadeza e elegância é tal que ela nunca externou o que ficara evidente: a velha mulher patronal decaída mortalmente enciumada da jovem mulher no esplendor da beleza.

O natal é uma das épocas do ano em que acontecem mais suicídios. Para a festa aqui em casa, virá apenas a minha irmã. Minha esposa fica procurando alguma receita especial para fazer na ceia. Ela encomendou como presentes para mim os livros A Visita Cruel do Tempo, da Jennifer Egan, e Tolstói ou Dostoiévski, do George Steiner, enquanto para ela eu comprei dois vestidos. Para as crianças, DVDs do The Backyardigans e não sei mais o que de última hora. Para minha irmã, daremos um celular de 50 reais com chip da Oi, para que ela não perca a comunicação com a gente, visto que ela quebra ou some ou é furtada todos os celulares de 500 reais que compra. Minha mãe não virá. Os 60 anos não andam fazendo bem para ela. Tememos um Alzheimer. Ela manda mensagens de alegria para nós, e minutos depois uma lista de acusações. No começo assustava, mas agora desperta um estranho enternecimento. É como se ela se visse numa batalha reincidente com todos os seus antigos fantasmas. Está absolutamente sozinha. O tipo de solidão contra a qual não há o que terceiros possam fazer. Triste realidade a qual um filho relaciona-se com a mãe como terceiro. Leio o diário da Susan Sontag e vejo o quanto a relação dela com a mãe foi turbulenta. Mas ela dizia para a mãe o tempo todo que a amava. Eu nunca disse isso para minha mãe, e a meu pai eu só o disse num momento de covardia que invalidou o efeito, beijando-o na testa seca quando ele estava poucos dias para morrer. Eu só disse à minha esposa que a amava quando ela estava em situação de risco com a última gravidez. A meus filhos eu digo todos os dias. 

Ontem sonhei que estava respondendo perguntas em um programa de televisão, Marília Gabriela ou algo assim. P: Você bate em seus filhos? R: Nunca bato, mas não sou contra o pai amoroso que tem que fazer isso. Meu pai nunca me bateu, mas minha mãe acabava comigo na pancada. Eu era um diabo. Sumi na missa um dia e me acharam na sacristia comendo todas as hostes do saco. Outro dia invadi a despensa da casa da minha avó e enchi minha mão de doce de coco e os enfiei na boca. Não era doce de coco, mas soda cáustica. Não morri por um milagre. Limpeza estomacal, e o trauma de nunca mais comer nada que tenha coco_ ou soda cáustica. Foi a unica vez que minha mãe não me bateu. Eu vi, vingativo, a gana dela em não poder me retirar da cama do hospital e me aplicar uns cascudos. Na sacristia, pelo contrário, ela salivou de satisfação. Gritei na frente do padre enquanto ela socava minhas costas, o diabo do padre feliz e com alguma daquelas reações freudianas de compensar o que ele mesmo queria fazer em mim, se tivesse chance. Outra vez não quis tomar uma injeção e fugi da farmácia, com um carrilhão de gente atrás de mim e minha mãe monitorando da esquina com pega o desgraçado!; um moleque pouco maior do que eu que estava passando por lá me deu uma rasteira e eu me ralei todo no chão. Me levaram de volta para a saleta da injeção como se eu tivesse assaltado o local e fosse enfrentar um linchamento público_ havia mesmo um monte de curioso do lado de fora torcendo para que fosse isso que acontecesse mesmo. O rapaz me aplicou a agulha e, depois que minha mãe confirmou que estava tudo bem comigo e eu balançava a cabeça em concordância convalescida, ela me desce o cacete na frente de todo mundo. A multidão de fora por pouco não dando um hurra! de prazer orgástico. Um dia, apanhei de um garoto bem maior do que eu, fingi que o desculpava o fazendo ir até lá em casa, sedento por reparação, e fechei a porta quando ele entrou, mostrando-o para minha mãe que era ele que me batera covardemente. Minha mãe me desce o sarrafo, pede desculpas ao garoto e o dispensa, não sem antes ele me lançar um olhar de repúdio por eu ser tão mesquinho.

P: Você guarda mágoa de sua mãe por isso?; R: Nem um pouco. Minha mãe me teve quando tinha 19 anos. Todos a abandonaram, desde longa data. Não lhe ofereceram treinamento nenhum para a vida. Internaram-na numa dessas escolas de tortura dirigidas por freiras, na qual ela apanhou, na qual a colocaram de castigo, a torturaram sob a conveniência da aceitação regimentaria, a privaram do vagar e da lentidão. Minha mãe deveria ter sido tão diabolicamente avessa a regras quanto eu sou. Genético. Nos parecemos muito, fisicamente, espiritualmente. A arte e a leitura teriam feito um bem tremendo para ela, mas a privaram disso também. Seu tédio infinito hoje cobra o Proust que a mutilaram de forma definitivamente nos quartos escuros, os tantos quartos escuros pelos quais passou. Ela deve ter dado tantos problemas por sua indisciplina quanto eu, e quanto meus filhos, que também são a cara dela, dão. R: a única consequência disso é que nunca, em hipótese alguma, eu conseguiria dizer eu te amo para minha mãe, tanto que é um assunto resolvido, não precisa vir com conselhos psicologicamente bonitinhos para que eu o diga agora, nem ela espera isso, seria aterrorizante demais para ela ouvir isso de mim. Mas eu bater em meus filhos, isso sim seria um crime. Demorei para ser pai, me treinei 35 anos para isso, 35 anos aprendendo o vagar e a lentidão que minha mãe perdera. De forma que essas leis intrusivas de violência doméstica não serviriam para grande parte das famílias. Grande parte das famílias é desfragmentada, destruída, imperfeitas, fragilizadas ao extremo. Tirem a surra da minha mãe quanto a mim e tirariam a própria mãe de mim. Era a única maneira de me controlar. Mas eu não. Eu tenho o dever de resgatar o que minha mãe perdera, e isso ela espera de mim. É a forma de dizer que eu a aprovo e não a censuro por nada, que a compreendo, o que é muito melhor, mais forte e verdadeiro do que uma frase de revista vazia e sem sentido de eu te amo. Meu filho aos dois anos derrubou a máquina de lavar, e eu peguei-o no colo, dei-lhe uma bronca pontual, e expliquei o que havia de errado nisso.

Quando eu trabalhava em uma cidade de mil habitantes, em um de meus primeiros empregos, vi meu primeiro suicida. Dependurou-se pelo pescoço em sua casa aonde não ia ninguém. O homem mais solitário da cidade. 50 anos. Sem filhos, sem esposa. Faltavam 10 dias para o natal.

A ganância, a usura, o egoísmo, a loucura do suicídio conjunto da espécie (um genosuicídio), continua à toda. Minha vizinha de frente é uma professora de quase 40 anos. Arranjou de namorar um homem de cor escura, dois metros de altura, ex-presidiário e canavieiro. Parecia tão fartamente clichê, que eu achei mesmo que iria dar certo. Há um mês que não a vemos. Luzes apagadas, garagem vazia. Há três dias uma velha senhora bate à porta aqui de casa. A mãe dela. Como o senhor é alguém respeitado na rua, queria que nos ajudasse. O homem voltou a usar drogas, invadiu a casa da professora e disse que iria matá-la se ela a abandonasse. Desde então ela está foragida em algum local, com medo do homem.

Semana passada foi aprovada aos juízes de direito do estado o auxílio-moradia e o auxílio-livro. Cerca de 2.100 reais o primeiro, e 2.700 reais o segundo. Para uma classe que ganha 42 vezes mais que o trabalhador padrão brasileiro, que, só com salários, ganham cerca de 24 mil por mês, o que se acrescentam gratificações às tantas, isso seria um insulto em qualquer outro país mais esclarecido que não o nosso. 2.700 reais para uma classe que se situa no mais alto patamar do funcionarismo público, que não precisa de livros para melhorar o atendimento ao público _ se a teoria do aumento passasse por essa exegese. Precisaria que dessem segurança a que a professora acima_ que ganha seus 3.000 reais sofridos por mês quando na carga máxima de 60 horas semanais, e que jamais tem um centavo de gratificação para a compra de livros_, para que ela não fugisse, mas tivesse segurança em confrontar junto aos direitos civis oferecidos pelo estado aquilo que absurdamente a ameaça.

Mas o natal ainda é a época do ano que mais gosto. Ainda que a sensação seja a de que passo cada vez mais os natais no gabinete do sr. Hightower, o padre decaído e exilado em sua casa soturna do romance Luz de Agosto, de Faulkner.

17 comentários:

  1. Minha mãe não me abraçava e eu sentia muita falta. Quando entrei na faculdade (sabe com é, psicologia), me recomendaram abraçá-la, mesmo ela nunca correspondendo, porque pessoas assim tem vontade de contato físico e não sabem externar. Passei a abraçá-la com gosto. Um dia ela ficou nervosa e gritou:
    - Você vive me pegando, me abraçando, me tocando. Eu não gosto disso, me incomoda. Não quero que você me beije, não quero que você me abrace, não toque em mim!!!

    É por isso que eu bebo.





    (mentira, eu não bebo, nunca. É que eu precisava de um fim à altura)

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    1. Parece muito com as coisas que a Susan Sontag diz da mãe (Piauí 73).

      Mas...já reparastes que as pessoas interessantes vem de famílias desfragmentadas?

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    2. http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-73/diario-susan-sontag/a-consciencia-atrelada-a-carne

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    3. Pior que eu não acredito nisso, sobre as pessoas mais interessantes. O Milton, por exemplo, passou longe dessas coisas.

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    4. Eu prefiro as pessoas que tem certa dose de perturbação. O Milton é uma pessoa simpatissíssima, mas eu acho que o Marcos Nunes, p. ex., é mais interessante. Interessante não quer dizer necessariamente que seja socialmente tolerável. E basta ver uma lista de artistas e personalidades criativas, a grande maioria, se não todos, provem de famílias infelizes e infâncias infelizes. Aliás essa era a prerrogativa que Hemingway achava necessária para um escritor: ter uma infância infeliz.

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    5. Entendo o que você quis dizer, e acho que concordo.

      Essa prerrogativa de Hemingway me faz pensar que não fui infeliz o suficiente...

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    6. Famílias fragmentadas se tornou algo tão banal...
      Tragédias pessoais da magnitude do orfão David Copperfield de Dickens antes... ou então o talento para inventar tragédias pessoais e torná-las verossímeis ou descrever o banal com prodigalidade etnográfica, abstraindo-o assim da esfera das banalidades cotidianas.
      Outro dia desses mesmo tentava fazer uma lista mental de escritores memoráveis que tiveram vidas banais. A lista, alfabética, começava com Jane Austen...

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    7. É o que eu digo, Luiz. Estamos na era das famílias destruídas e infelizes faz tempo, e somos (a minha) a maioria. Tanto que não vejo isso com assombro, nunca vi.

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  2. Charlles, sinto muito pela sua amiga. O que deve tornar as coisas mais difíceis ainda, penso, é o divórcio entre as tantas mensagens de esperança, fraternidade e paz que acompanham os rituais das festas cristãs de fim-de-ano e o mundo que se recusa a adequar-se às mesmas.
    Por aqui, alguns absurdos pessoais também. Morreu de insuficiência cardíaca há umas duas semanas, um amigo meu e scholar de sânscrito. Um rapaz de 31 anos, inteligentíssimo, dono de uma inteligência das mais caridosas que conheci. Ensinava sânscrito vedanta e medieval de graça para os colegas do departamento.
    Em janeiro desse ano outro amigo perdeu a vida. Nick era simplesmente brilhante. Formou-se em matemática abstrata numa universidade dos Prairies do Canadá, mas acabou por se interessar por história antiga. Era meu colega de doutorado. Um sujeito de 1,90m de altura, corpulento, de barba e cabelos fartos. Porte de jogador de hockey mas de andar e cadência desengonçados. Saltou da sacada do seu apartamento. Décimo andar. Self-inflicted, disseram os amigos canadenses.
    De vez em quando ainda o vejo andando pela St. George St. ou sentado na biblioteca...

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    1. Eu realmente sinto muito por ela e pela família dela. Não sei as estatísticas de recuperação de um AVC, ainda mais de uma pessoa tão jovem (problemas genéticos me parecem ser mais determinantes e brutais), mas torço para que ela retorne sem sequelas. O que quis fazer neste texto é um cobertura sincera, no estilo corrente de pensamento. O facebook dela parece um altar ou um santuário; dói nas vistas tanta doçura aureolada. Não me escapa o papel da responsabilidade nesse tanto de gente pedindo por socorro divino numa hora dessas, sem olhar para o passado, sem olhar para a corrupção obscena que mancha os benefícios conseguidos às custas do sofrimento dos outros. Queria não pensar nisso.

      Sinto muito pelos seus amigos. Estranho isso, não? Não há algo de errado na inteligência humana quando, potencializada, não vê motivos para a vida? O tal do Adam Lanza me faz lembrar os assassinos no corredor da morte descritos brilhantemente pelo Truman Capote em A Sangue Frio: a maioria de uma inteligência esplêndida, e desencantados até as profundezas com a vida, a ponto de matarem os pais, e matarem simples passantes desconhecidos que tiveram o azar de passar de frente a eles. Há algo de desvirtuadamente descontextualizado neste tipo de inteligência. Um excesso que é uma retroação à estupidez esnobe de se achar superior e conhecedor dos segredos (ou da ausência deles) do universo. Nesse balaio de gato, penso também na afirmação de Faulkner, na sua entrevista histórica à Paris Review, de que se Dostoiévski e Tolstói e Cervantes vivessem 300 anos, não seria necessário que ele escrevesse, pois eles teriam dito tudo. Já aos 60 a pessoa se cerca de negrura e desesperança, imagine o que os 300 faria.

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    2. "Não há algo de errado na inteligência humana quando, potencializada, não vê motivos para a vida?"

      Não sei ainda me impressiono com o herói do absurdo de Mito de Sísifo que recusa a feia cara da morte e do suicídio.

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  3. Conheço várias pessoas que sofreram AVC's (se não me engano chamam isso agora doutra coisa, como antes chamavam AVC simplesmente de derrame cerebral; na verdades todos já sofremos AVC's na vida, mas muito são ínfimos e nos causam, às vezes, meras dores de cabeça ou um breve período de distraimentos esquisitos), e sei que a recuperação carece de muitos fatores distintos, mas dá para dizer que, entre mais jovens, de acordo com a gravidade, o grau de recuperação é alto.

    É, chamo minha mãe só de Dona Neide, e só digo "eu também, mamãe!" quando ela exclama "Filho, eu te amo!" com aquela entonação de teatro infantil; é a concessão máxima a que me dedico, e somente pelo humor da coisa. As restrições são muitas, e não é porque ela é minha mãe que certas coisas intoleráveis se tornam aceitáveis. Perdoar a gente finge que perdoa, enquanto as mágoas ficam e a compaixão tenta dar cabo de algumas delas, sem êxito na maioria das vezes.

    Pessoas muitas vezes não sabem do que e porque riem; pessoas, muitas vezes não sabem porque se matam; alguns se recuperam da tentativa e depois se lembram do desespero diante da morte; no geral, o medo passa a ser maior que a vontade de se furtar aos problemas da vida; algumas vezes, ainda assim, elas tentam mais uma vez, e conseguem o intento. Se não conseguem, ou são muito azaradas ou boicotam o próprio ato de suicídio. Não há heroísmo nele, nem em viver. Não há heroísmo em nada: cultivar vícios ou virtudes no afã de se elevar da mundanidade é menos eficiente que plantar cebolas.

    Natal é uma data tão memorável que eu viajo todo final de ano para me afastar dela.

    Ahn... não me acho socialmente intratável. Na Internet um chato comum, como eu, se torna mais chato, pois o meio e as distâncias permitem maiores encheções de saco. A cordialidade, apesar de tudo, ao vivo ou virtualmente, também pode ser um puta ato de covardia, e até de arrogância. Tudo depende de ocasiões, temas, ideologias. Sei lá. O ser humano na maioria das vezes é tão escroto quanto um personagem de comédia italiana representado pelo Alberto Sordi. Daí a simpatia.

    Por fim, bom final de ano para todos que lerem isso aqui; a partir de amanhã estarei alegremente incomunicável, sem qualquer conexão midiática e internáutica. No paraíso do silêncio o tédio encontra sua necessária irmandade.

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  5. Me defino sempre como rústico e reservado, isso, para não dizer antissocial, arredio e rebelde. Não suporto hipocrisia e babação de ovo, assim, socialmente me considero um fracassado. Minha "ingenuidade" na sinceridade sempre me afastou das "conquistas" sociais. Uma caminhada franca e intensa, uma vida de fidelidade voluntária ao que é amado, sem rodeios, sem conversa fiada. Sou um advogado que odeia mentira e falsa austeridade... mesmo assim, continuo advogado...E agora, com 45 anos, e quase nenhum amigo, o que me resta é um estado de espírito contemplativo, parecido com o do príncipe André, quando caiu do cavalo e ficou admirando o céu em Guerra e Paz de Tolstoi. Nada mais do homem moderno me interessa, me sinto feliz na roça com meus cães, minha enxada e em cima do meu cavalo Visconde.
    Faz dois anos que minha mãe me revelou um segredo que elucidou as minhas dúvidas relacionadas a formação da minha personalidade. Esse foi o dia da minha queda do cavalo.

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    1. Tenho uma personalidade um tanto parecida à sua, Wagner, ainda que me apraz a companhia de amigos sinceros, que na verdade são pouquíssimos. Quanto à modernidade, há muita coisa boa na minha opinião; eu era avesso ao extremo, mas me curvei à filologia da internet (tanto que estamos nos comunicando).

      Das profissões, jamais pensei nem distantemente ser advogado. Toda a minha família é composta de advogados. A parte boa seria a clássica defesa dos oprimidos...mas a batalha é hercúlea e utópica demais, pelo menos para mim.

      Engraçado! Minha mãe certo dia mandou uma mensagem um tanto erraticamente reveladora do que teria acontecido na infância dela. Minha esposa e eu nos entreolhamos sem saber o que dizer. Me lembrou um dos contos do Cortazar.

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  6. CAPETA CADUCO
    by Ramiro Conceição
    .
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    Comunicar-se
    é muito fácil.
    Interagir?
    Muito difícil.
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    A música de surdos é vasta
    e o diálogo de mudos prolixo.
    Nunca tanto nada sobre tudo.
    Nunca tanto tudo sobre nada.
    .
    .
    De fato, o novo lixo
    é um capeta caduco.

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  7. Natal. Meu velho pai foi atravessar a rua fora do sinal, correndo, sempre ansioso para voltar pra casa e sentar no sofá a fim de reclamar das notícias e de aguardar o amanhã, caiu, quase foi atropelado e quebrou o cólon do fêmur. Uma semana no HPS, dividindo quarto com outros 15, local barulhento, no aguardo de transferência. Agora ele está num hospital bem melhor (achei que o convênio ia meter bonito no nosso), com cirurgia marcada (para depois do natal, pois os médicos SUMIRAM faz 2 semanas) e tudo. Dos males, o menor pior (ainda tenho medo de operarem o lado errado, afinal aqui é Brasil-sil-sil). Mas foi só com essa situação que parei e olhei meu pai, seus trejeitos, seus movimentos, seu rosto envelhecido e amedrontado, seu sorriso ao me ver, analisei com grande carinho e ternura, como não fazia acho que desde criança, quando, também no Natal, meu pai quase morreu e teve de operar o coração. Passa logo, Natal.

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