sábado, 29 de setembro de 2012
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Uma Lista Despudorada de 20 Melhores Contos (I)
Os prazeres da literatura são amplos e comportam os extremos dos casamentos prolongados dos romances de mil páginas e os casos de amor ligeiros dos contos de dez parágrafos. Contos se vendem como coisas descompromissadas, que nos custam o tempo de uma sesta ou da hora que precede o sono da noite, mas que, os melhores deles, tem uma provisão de pequenas armadilhas que reverbera em nosso interior por toda a vida e por vezes nos vemos retornando à intensa presença que incorporaram em nossa lembrança. Os contos relacionados abaixo são o que pude pensar de melhor que já me fora apresentado ao longo de quatro décadas, muitos deles sendo minha iniciação na leitura, e muitos deles sendo ligados ao gênero de contos de terror, o qual está diretamente por detrás da fundamentação dessa espécie de narrativas. A lista abaixo contém apenas contos, não comportando narrativas mais extensas que, antigamente, costumava-se chamá-las de novelas.
Esse conto apresenta diversos títulos em suas traduções para o português. Encontrei-o com o nome Nadja, outra vez como Brincadeira. É dificílimo, senão impossível, escolher o melhor conto de Chécov; poderia fazer uma lista dos meus 50 contos preferidos desse maior contista de todos os tempos, e ainda assim teria a impressão de incompletude. Mas esse conto, além de ter sido uma das primeiras incursões minhas na leitura, tem uma carga de emoção, uma nostalgia, e uma perfeição estilística que pode bem representar toda a grandiosa obra desse autor. Primeiro, por ser um de seus contos mais curtos (tirando os contos quase crônicas da primeira fase de Chécov, esse talvez seja mesmo o seu conto mais conciso), tendo uma página e meia; segundo, por condensar nesse milagre espacial o ultraje de ter todos os maiores temas de Chécov: sua ironia, seu coração terno, seu compadecimento pelos mais simples, seu humor doloroso, e até uma de suas subliminares críticas sociais. A história é sobre as descidas de trenó entre o narrador indeterminado e a moça Nádia, em que, no auge da velocidade da descida, o narrador interpõe a brincadeira de dizer aos ouvidos de Nádia a frase Nádia, eu te amo. A moça, repetidas e repetidas vezes, insiste para que os dois desçam novamente, para confirmar se tal declaração vem mesmo do narrador. É uma sonata, e deixou em mim a marca perpétua da beleza da escrita de Chécov.
Poe foi um genial escritor irregular. É um autor para adolescentes, mas isso diz mais que o errático pejorativismo inerente ao rótulo. Não conheço adolescentes que se iniciaram na leitura através dos contos de terror e detetivescos de Poe que não sejam adultos apaixonados em leitura. Poe foi grande poeta, (na minha lista de maiores poemas, O Corvo ocuparia o segundo ou terceiro lugar), um ensaísta fraco, e um produtor regrado de poucos contos que se tornaram fundadores de uma das escolas da literatura. Nunca vi nenhum escritor dizer ser influenciado por Poe (tirando seus filhos estilísticos como H. P. Lovecraft), mas o débito que se tem às suas atmosferas, à sua maldade extraterrena, a seu inferno particular generosamente oferecido em suas ruas parisienses soturnas (curioso que o fog londrino clássico criado por Poe aconteça, na verdade, na Paris de Auguste Dupin) e seus assassinos perturbados pela culpa. E o Coração Denunciador me afigura como exemplo dessa tensão e desse fator inesperado que tanto foi imitado pelos contistas que se seguiram a Poe.
W. W. Jacobs é um autor desconhecido por completo, afora esse conto de terror que é um verdadeiro tesouro raro e uma maravilha indiscutível. Em três páginas ele constrói um crescendo que enche de esperança aos pobres pais de um filho morto, para se transformar em uma ameaça inenarrável que parece vai levar os personagens e ao leitor a se defrontar além do limite que consegue suportar a razão. Um dos contos mais perfeitos e impactantes que conheço.
Não saberia expressar o quanto amo esse conto de beleza indescritível. É um conto mais longo dessa lista. Escrito pouco depois da morte da filha do autor, cada linha tem uma intensidade e uma carga emocional única. A história é narrada em primeira pessoa, começa com o narrador dirigindo seu carro pelos campos da Inglaterra (Kipling foi um dos primeiros automobilistas da Europa), e chegando involuntariamente a uma casa suntuosa onde mora uma mulher cega que tem como companhia ruidosa um grupo de crianças que nunca são vistas, mas entrevistas. No meio do conto, quando estão a mulher cega e o autor conversando no jardim, tomando chá, acontece uma dessas reações de atemporalidade suspensiva no leitor, um desgaste severo da linha da realidade: um efeito de estocada rápida de uma verdade inapreensível que sugere um infinidade de oportunidades ao pensamento. A conclusão do conto é arrebatadora, mostrando o quanto a desolação pessoal do autor se interligava à tragédia suscitada das perdas humanas para a guerra. Um importante crítico sentenciou que estas páginas são as maiores da literatura inglesa; não ouso contradizê-lo. Kipling é um contista genial, em toda acepção do termo; não à toa Borges anunciou ser uma das felicidades de sua vida.
Hemingway, se não está esquecido por completo como romancista, caminha a passos largos para isso; mas poucos contistas foram tão certeiros quanto ele no século passado. Este conto, também muito curto, repete de forma eficaz o poder de não-dizer do estilo insinuador de Henry James. Toda sua força se concentra no diálogo entre um homem e uma mulher, enquanto esperam o trem chegar na estação. O homem aos poucos tenta persuadir à mulher que o aborto que ela está por fazer é seguro e a melhor coisa para o futuro de sua relação. É estupendo como Hemingway, um potro-macho muitas vezes ególatra e narcisista, que tratava a literatura como sendo um prosseguimento sem ruptura da prática da caça e do boxe, e que dedicou boa parte de sua produção a falar sobre os sabores dos drinks infinitos que tomava e sobre culhões, consegue transmitir tanta densidade emotiva e tanta miríade de interpretações, utilizando o que há de mais prosaico e coloquial na escrita. Estas três ou quatro páginas concentram um universo dramático que remete às guerras, ao existencialismo, à paz em separado, ao exílio, à efemeridade das relações humanas, à violência dos atos sociais instituídos. Páginas como esta, e outras como as de Os Assassinos, Gato na Chuva, Fora de Estação, estão acima de Hemingway, no mesmo nível da arte esotérica mais refinada produzida em qualquer tempo.
6. Arábia, de James Joyce.
Um dos contos de Dublinenses e uma pílula onde está embalada em poucas páginas o estranhamento, o flaneurismo, a Dublin mítica, a falsa frieza impassível diante a imensidão da existência, e a escrita inigualavelmente plena que viria em Ulysses. Tal como nos outros contos do volume, há uma lucidez aqui de arrepiar os cabelos da nuca; é dado uma visão translúcida de manhã após a chuva (uma chuva irlandesa) ao leitor, e todos os objetos são vistos em sua integridade infinita (para citar Morrison e, em decorrência, William Blake). A história fala de alguns garotos que cabulam a aula para vadiarem pelos portos e vielas de Dublin. São nesses contos com enganosa estrutura pueril que os milagres acontecem, e Joyce é o maior santo milagreiro da literatura. No núcleo do conto está o mal entendido de um encontro entre o garoto principal da história com uma espécie de marujo mendigo, onde tudo se insinua mas nada fica claro, e por mais que se continue pensando por todos os anos que ainda durar a vida do leitor, as interpretações se complicam e tudo se obnubila. Fala-se tanto das maravilhas de Ulysses, que o gigantismo de Joyce_ talvez o maior escritor do século XX_ escamoteia a beleza de suas obras que ficam à sombra de seu grande romance, como é o caso destes contos.
7. Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luis Borges.
Borges, como é de conhecimento geral, nunca escreveu romances (apesar de certo presidente que alegou ter lido todos eles escritos pelo argentino), mas é o único contista que tem como característica mais significativa ter produzido contos que contradizem a própria norma de episodicidade e foco que define o gênero. Os contos de Borges valem por romances, outros valem por epopeias e tratados científicos, outros bebem com igual fecundidade nas fontes que criam as religiões, outros ainda estacionam numa região anterior à ironia e parecem objetos consolidados na realidade e não as brumas de sonhos retóricos que realmente são. Todos tem a marca do labirinto que forjou os sonhos desse cabalista que dizia não ser factível ao homem conhecer os mistérios da existência, e o orientalismo setecentista das listras do tigre nas quais esse mistério se revela em todo seu enigma inalcançável. Por isso seus contos são infinitos, e os que estão em Ficções e O Aleph possuem a mesma perfeição e assombro. Tlön, Uqbar, Orbis Tertius me parece ser um dos mais maravilhosos e instigantes, em que Borges se coloca como narrador e personagem central, junto a seu amigo Bioy Casares, e descobridor por engano de páginas da British Encyclopedia que existem em variantes geográficas e nas quais conta-se sobre a cultura, a política, a religião e varias particularidades da terra de Uqbar. Todo o conto é o estudo centrípeto e periférico de nações e povos que escolheram para si uma realidade alternativa, com valorações que são quase o negativo das nossas, tanto no contar das horas do dia quanto das intermitências de sua metafísica.
8. Uma Coisinha Boa, de Raymond Carver.
Um magnífico conto. Desses que limpam a alma. Desses que trazem apaixonados para a literatura. Uma peça de delicadeza e sensibilidade tocante. Tem aqui um texto meu dedicado a este conto integral e a seu espelho assombroso produzido pelo editor de Carver.
9. Na Colônia Penal, de Franz Kafka.
Relutei se o melhor conto que já li de Kafka é este, ou O Artista da Fome, ou Diante da Lei. O que exerceu maior impacto sobre mim foi, indubitavelmente, Diante da Lei, por sua inércia desesperadora, sua impotência total. Aquele indivíduo diante os enormes portões do palácio da justiça, com o vigilante impávido que lhe diz que aqueles portões foram feitos para ele e por isso ele jamais poderia entrar por eles, é, talvez, o símbolo mais poderoso do século XX; daí suas inúmeras interpretações políticas, religiosas, divinatórias, filosóficas. Tal passagem, que tem força em si mesma, na verdade é o cerne do romance O Processo, o que, óbvio, não tira em nada o mérito do conto (existem vários contos em que seus autores os estendem em obras maiores). Mas este Na Colônia Penal realmente é uma das produções mais estilisticamente perfeitas de Kafka; os personagens estão desenhados com tanta propriedade que vemos os gestos que fazem com as mãos e as idiossincrasias de suas feições. Nestes efeitos de cena acontece o humor um tanto pérfido do conto, pois estamos diante uma máquina diabólica de tortura, que tatua no corpo de miseráveis famélicos, internos da colônia penal, os crimes pelos quais estão sendo acusados. Kafka chegou a realizar uma leitura pública deste conto na Galeria Goltz de Munique, ocasião na qual duas senhoras desmaiaram com o impacto.
10. A Enxada, de Bernardo Élis.
Já é muito gasta a informação nas contracapas das coletâneas de contos do Bernardo Élis o anúncio que Guimarães Rosa fez de ser computado a Élis a criação de cinco dos maiores contos do mundo, em qualquer língua e em qualquer época. Rosa estava sendo absolutamente sincero _ não havia razão para que ele gastasse um preciosismo com um autor que vinha de uma das áreas da federação menos literarizada, como Goiás. A Enxada é um desses cinco contos. A história do trabalhador rural Supriano, que tenta de todas as maneiras adquirir uma enxada para realizar suas labutas no campo, e nunca consegue, é uma obra de gênio, inigualável, ácida e violenta em sua denúncia da opressão humana medieval que acontece nas tantas searas do coronelismo do país. Mas esse não pode ser reduzido à categoria de literatura regional, mas inserido entre as melhores páginas da literatura latino-americana do século XX. A tragédia dessa obra alcança uma proporção clássica, universal. Sua escrita é dura, direta, sem meios termos; o final é tão chocante quanto grandes outras obras políticas carregadas de feridas abertas típicas dos países sub-desenvolvidos como os das Américas, os africanos, asiáticos e do leste-europeu. É uma das maiores penas Élis ter sucumbido a esse sub-desenvolvimento: deixou que perdesse seu talento, foi acometido por uma enorme afasia literária em que chegou a produzir obras oficiais do estado, e no fim da vida lamentou em público, em uma entrevista para um jornal, não ter dinheiro para comprar as obras de José Saramago. Mas A Enxada ficará como uma das obras mais poderosas da literatura.
6. Arábia, de James Joyce.
Um dos contos de Dublinenses e uma pílula onde está embalada em poucas páginas o estranhamento, o flaneurismo, a Dublin mítica, a falsa frieza impassível diante a imensidão da existência, e a escrita inigualavelmente plena que viria em Ulysses. Tal como nos outros contos do volume, há uma lucidez aqui de arrepiar os cabelos da nuca; é dado uma visão translúcida de manhã após a chuva (uma chuva irlandesa) ao leitor, e todos os objetos são vistos em sua integridade infinita (para citar Morrison e, em decorrência, William Blake). A história fala de alguns garotos que cabulam a aula para vadiarem pelos portos e vielas de Dublin. São nesses contos com enganosa estrutura pueril que os milagres acontecem, e Joyce é o maior santo milagreiro da literatura. No núcleo do conto está o mal entendido de um encontro entre o garoto principal da história com uma espécie de marujo mendigo, onde tudo se insinua mas nada fica claro, e por mais que se continue pensando por todos os anos que ainda durar a vida do leitor, as interpretações se complicam e tudo se obnubila. Fala-se tanto das maravilhas de Ulysses, que o gigantismo de Joyce_ talvez o maior escritor do século XX_ escamoteia a beleza de suas obras que ficam à sombra de seu grande romance, como é o caso destes contos.
7. Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, de Jorge Luis Borges.
Borges, como é de conhecimento geral, nunca escreveu romances (apesar de certo presidente que alegou ter lido todos eles escritos pelo argentino), mas é o único contista que tem como característica mais significativa ter produzido contos que contradizem a própria norma de episodicidade e foco que define o gênero. Os contos de Borges valem por romances, outros valem por epopeias e tratados científicos, outros bebem com igual fecundidade nas fontes que criam as religiões, outros ainda estacionam numa região anterior à ironia e parecem objetos consolidados na realidade e não as brumas de sonhos retóricos que realmente são. Todos tem a marca do labirinto que forjou os sonhos desse cabalista que dizia não ser factível ao homem conhecer os mistérios da existência, e o orientalismo setecentista das listras do tigre nas quais esse mistério se revela em todo seu enigma inalcançável. Por isso seus contos são infinitos, e os que estão em Ficções e O Aleph possuem a mesma perfeição e assombro. Tlön, Uqbar, Orbis Tertius me parece ser um dos mais maravilhosos e instigantes, em que Borges se coloca como narrador e personagem central, junto a seu amigo Bioy Casares, e descobridor por engano de páginas da British Encyclopedia que existem em variantes geográficas e nas quais conta-se sobre a cultura, a política, a religião e varias particularidades da terra de Uqbar. Todo o conto é o estudo centrípeto e periférico de nações e povos que escolheram para si uma realidade alternativa, com valorações que são quase o negativo das nossas, tanto no contar das horas do dia quanto das intermitências de sua metafísica.
8. Uma Coisinha Boa, de Raymond Carver.
Um magnífico conto. Desses que limpam a alma. Desses que trazem apaixonados para a literatura. Uma peça de delicadeza e sensibilidade tocante. Tem aqui um texto meu dedicado a este conto integral e a seu espelho assombroso produzido pelo editor de Carver.
9. Na Colônia Penal, de Franz Kafka.
Relutei se o melhor conto que já li de Kafka é este, ou O Artista da Fome, ou Diante da Lei. O que exerceu maior impacto sobre mim foi, indubitavelmente, Diante da Lei, por sua inércia desesperadora, sua impotência total. Aquele indivíduo diante os enormes portões do palácio da justiça, com o vigilante impávido que lhe diz que aqueles portões foram feitos para ele e por isso ele jamais poderia entrar por eles, é, talvez, o símbolo mais poderoso do século XX; daí suas inúmeras interpretações políticas, religiosas, divinatórias, filosóficas. Tal passagem, que tem força em si mesma, na verdade é o cerne do romance O Processo, o que, óbvio, não tira em nada o mérito do conto (existem vários contos em que seus autores os estendem em obras maiores). Mas este Na Colônia Penal realmente é uma das produções mais estilisticamente perfeitas de Kafka; os personagens estão desenhados com tanta propriedade que vemos os gestos que fazem com as mãos e as idiossincrasias de suas feições. Nestes efeitos de cena acontece o humor um tanto pérfido do conto, pois estamos diante uma máquina diabólica de tortura, que tatua no corpo de miseráveis famélicos, internos da colônia penal, os crimes pelos quais estão sendo acusados. Kafka chegou a realizar uma leitura pública deste conto na Galeria Goltz de Munique, ocasião na qual duas senhoras desmaiaram com o impacto.
10. A Enxada, de Bernardo Élis.
Já é muito gasta a informação nas contracapas das coletâneas de contos do Bernardo Élis o anúncio que Guimarães Rosa fez de ser computado a Élis a criação de cinco dos maiores contos do mundo, em qualquer língua e em qualquer época. Rosa estava sendo absolutamente sincero _ não havia razão para que ele gastasse um preciosismo com um autor que vinha de uma das áreas da federação menos literarizada, como Goiás. A Enxada é um desses cinco contos. A história do trabalhador rural Supriano, que tenta de todas as maneiras adquirir uma enxada para realizar suas labutas no campo, e nunca consegue, é uma obra de gênio, inigualável, ácida e violenta em sua denúncia da opressão humana medieval que acontece nas tantas searas do coronelismo do país. Mas esse não pode ser reduzido à categoria de literatura regional, mas inserido entre as melhores páginas da literatura latino-americana do século XX. A tragédia dessa obra alcança uma proporção clássica, universal. Sua escrita é dura, direta, sem meios termos; o final é tão chocante quanto grandes outras obras políticas carregadas de feridas abertas típicas dos países sub-desenvolvidos como os das Américas, os africanos, asiáticos e do leste-europeu. É uma das maiores penas Élis ter sucumbido a esse sub-desenvolvimento: deixou que perdesse seu talento, foi acometido por uma enorme afasia literária em que chegou a produzir obras oficiais do estado, e no fim da vida lamentou em público, em uma entrevista para um jornal, não ter dinheiro para comprar as obras de José Saramago. Mas A Enxada ficará como uma das obras mais poderosas da literatura.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Malignidade Infinita
Ontem acompanhei meu sogro na capital para que ele fizesse certos exames médicos. O juiz, o terceiro pelo qual passa em mãos a já longa saga de seu pedido de aposentadoria, instituiu que ele refizesse todos os exames. Alguns homens bons cercam meu sogro, apesar de tudo, e o melhor deles é, contra todas as probabilidades, seu advogado. Esse homem é um senhor de 60 anos que vive na verdade dos rendimentos de uma lanchonete de comida mineira e não praticava a advocacia há 30 anos, mas pela amizade que deposita no cordato sr. Gercino, prontificou-se a pegar a causa sem cobrar nada. Pelo puro exercício da filantropia da boa vizinhança, esse senhor retirou-se dos afazeres pessoais e bateu nas alas do prédio do Ministério Público durante meses, na tentativa de fazer com que meu sogro tivesse o direito constitucional de parar com a labuta e viver seus últimos dias sobre essa terra garantidos por uma fração ínfima do espólio que por toda vida rendeu ao Estado. É um homem gordo, com uma raia de cabelos brancos que cai por sobre sua face esquerda quando está suado e com a respiração parecendo uma locomotiva prestes a soltar os pistões antes de chegar à estação_ e sempre está suado, com uma pasta marrom desgastada presa à mão que na certa é a mesma que julgara nunca mais precisar em que levava os pedidos de vistas de antigos e esquecidos clientes, antes de se desiludir com aquilo e se ocupar apenas com o paraíso dos temperos do arroz com galinha. A sua abdicação ao direito o cerca num grau espiritual tão inequívoco que as pessoas não conseguem, por puro instinto diante um dissidente convicto, dirigir-se a ele com o tratamento ditado pelo pedantismo formal: não é Doutor Joaquim, mas Seu Joaquim. Minha esposa quando fala com ele por telefone, diz "Seu Joaquim, como está o processo?", ao que ouço de longe a sua voz barítona agitada, o seu rosto sanguíneo dando os indicativos de que desta vez a caldeira da máquina explodirá sob o calor inclemente de sua desesperançada milésima visita à ante-sala do Juíz: "Hoje o juíz pediu para ver mais uma vez os laudos médicos".
Meu sogro, Seu Gercino, apesar dos agentes da estúpida e desumana e brutalmente negligente burocracia, ainda cativa mais homens bons em seu martírio. Os exames que exigiu que se repetissem um juiz que nunca viu o sr. Gercino, que se algum momento se ocupou em pensar sobre esse nome não foi além do mero léxico de sete letras iniciais grudadas em um ofício, tem o custo de mais que dois mil reais pelos laboratórios particulares. Mas o médico que o atendeu desde que foi dado o diagnóstico de seu problema realizou todos esses exames pelo sistema público de saúde, gratuitamente, desde que o Seu Gercino ficasse internado por quatro dias no hospital. Os exames ficaram prontos hoje, e o médico disse que só os mostraria para o advogado, Seu Joaquim. Assim foi. O Seu Joaquim me comunicou no corredor do hospital, quando estávamos para levar de volta meu sogro para sua casa, que dessa vez a aposentadoria se resolverá de forma imediata. E o médico disse à minha sogra, à minha esposa e suas irmãs, que o Seu Gercino pode comer de tudo, beber de tudo, passear, ficar noites sem dormir cantando, dar cabriolas. Lembrei imediatamente de um texto lido nos bancos da escola, que na época eu não pude descobrir seu significado e por isso me pareceu um texto profundo, com alguma singeleza cruel, em que o paciente pergunta ao médico o que lhe sobrava fazer, e este responde algo assim: "dançar um fandango".
Ontem em casa me caiu em mãos a referência de um há muito esquecido escritor que me entusiasmara na adolescência. Sheridan Le Fanu. A referência falava de um conto que tive a oportunidade de ler (cujo volume era um montículo azul de papel publicado nos Açores, por si mesmo bastante misterioso, e que fiz a graça de acentuar o mistério perdendo-o nas minhas mudanças), mas que me lembro vagamente ou quase nada, a não ser o impacto que me produziu a impressão do mal absoluto que agora via no comentário de um crítico. A história do conto era sobre um doutor que se vê perseguido incessantemente por um macaco que não para de rondar em cima de sua cabeça. Algo de "uma malignidade infinita", diz o comentarista. Li-o há 25 anos ou mais, e ainda me ficara a sugestão dessa força incansável e obcecada, surgida com o único propósito de ser o mais excepcional e idôneo possível na ação de levar tormento a um homem. Essas palavras por pouco não me reativaram todo o conto, ou pareceu ser capaz de fazer isso, tamanha a presciência que aos 15 anos tive de que existe a malignidade infinita, que dita a loucura, a indiferença e a alucinação. Há muito disso em Kafka, mas não da forma tão maniacamente sem contenção como em Le Fanu; há um conto de Kafka em que duas bolinhas saltitantes surgem do nada e seguem um funcionário de um cartório, determinadas a não abandoná-lo jamais. E não sei bem porque isso me abalou ontem. Minha atitude quanto a meu sogro é o não me envolver, não dar opinião, mas minha esposa insistiu tanto para que opinasse se seria certo aceitar que lhe fizessem quimioterapia, que só pude dizer: Se pudesse voltar, não admitiria que fizessem tal coisa a meu pai. Não precisou; o médico já vira isso. Me abstive de me meter no assunto porque, de forma que nunca supus antes, o sofrimento de meu pai me desestabilizou muito além do que estava preparado. Tenho uma desconfortável certeza de que não sou um dos homens bons a cercar meu sogro. O único exercício bem conseguido por mim foi o de parar de ver por detrás de sua presença humilde o marido e pai excessivamente severo que foi quando tinha saúde exagerada e energia descomunal. Há algo aí severamente intenso ou insustentavelmente leve, que pode ser muito eloquente ou não dizer nada, que quando penso me deixa cansado de ter um cérebro. Fica a imagem um tanto simplória demais, e que nego a explorar, de que o macaco não para de rondar a cabeça de um homem que pesa igual a uma pluma, e que pelos corredores dos tribunais e das bancadas dos juristas, vai um homem com uma esfacelada pasta de couro e sem títulos reais, tresandado de suor, em cujo encalço seguem duas bolinhas saltitantes.
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Eu e a Charlize Theron em uma Ilha Deserta
Tenho um grande amigo que gasta uma substancial parte de seu tempo e uma considerável quantidade de seu dinheiro em apostar religiosamente em um dos jogos da lotérica. Quando eu era solteiro, e não havia qualquer impedimento para que ele viesse à minha casa a qualquer hora, mesmo nas horas que os povos ocidentais arranjaram para coincidir o translado do planeta com a conciliação do sono, ele chegava já do batente da porta falando em voz alta: "Agora achei! Agora não me escapa! Não, não! Agora pode ficar tranquilo que dessa vez é tiro e queda!" E eu, que sabia pela exposição exacerbada a tais jactâncias de exclamações do que se tratava, afastava a cadeira para que ele se sentasse e desdobrasse por cima da mesa o seu novo código sonambulicamente rascunhado por todas umas cinco páginas de um caderninho de espiral, onde ele arvorava sempre haver conseguido arrancar da sorte os números que daria na semana o prêmio de dois milhões de reais. Ele aparecia com uma miscelânea das mais disparatadas somas algébricas tiradas de fontes tão tresloucadas quanto frases de João Figueiredo ouvidas em programas de televisão, ou quantas vezes uma mulher desconhecida dissera a palavra "somenos" em uma conversa de rua quando ele passava, ou quantas placas de carro com o final 6 ele vira transitando de frente à sua casa em uma fração de meia hora, ou quantos dias haviam se passado desde que seu filho não lhe telefonava, e quando seu filho o fazia, quais números correspondiam às cinco primeiras letras da palavra dita inicialmente por ele pelo telefone; de forma que, se seu propósito não se sustentava além de sua inexorável fé quando os verdadeiros números eram anunciados no resultado do prêmio, ao menos ele demonstrava que sua genialidade extravagante o eximia do tédio, pois era só as apostas se abrirem para o novo jogo que ele já se embrenhava em seu universo de decodificador de sinais cifrados do destino. Certa vez questionei a ele se não tinha medo que, numa dessas, ele errasse numa intuição terrivelmente certeira e descobrisse a face de Deus nos números, ao que, com o olhar arguto perdido no ar, talvez somando os algoritmos dessa minha frase para ver se satisfazia sua estética de apostador, respondeu: "Rapaz, se eu ganhar a bolada nessa semana, eu dispenso Deus; será um a menos para ele se preocupar. Aliás, Ele pode até passar a agir contra!"
Mas duas vezes ele acertou os números corretos. A primeira estava em um boteco em São Paulo e de tanta felicidade, arremessou o antigo rádio do dono do bar pelo qual conferira o prêmio direto na rua, passando por cima dele com o carro até reduzi-lo a uma pasta, e anunciara que todos iriam beber e comer ali o dia todo por conta dele. O dinheiro ganho, ele disse, não deu para pagar o rádio, pois o campeonato de futebol que gerava os resultados fora tão previsível que meio estado acertara junto com ele. A segunda vez ganhara o equivalente hoje a 50 mil reais, que os irmãos levaram um ano depois quando a loja de tecidos que tinham em sociedade falira e só sobrara ele, dispensado da realidade pela compulsão das adivinhas matemáticas, para pegar a bomba no colo.
Eu nunca joguei na lotérica e nunca ganhei prêmio algum, até o natal do ano passado, quando a distribuidora de vinhos aonde compro meu Gato Negro me sorteou com duas garrafas de Pata Negra. Depois, passados três meses, meu advogado me liga dizendo que conseguiu um mandado de penhora on-line por parte do ministério público, com o qual eu tinha o direito de retirar um valor substancial das contas de um banco pelo processo ganho de danos morais que eu havia aberto contra este banco. O mesmo advogado, um ou dois meses depois, me liga dizendo que o outro processo que eu havia movido para revisar os juros cobrados no financiamento de meu carro havia sido dado causa para mim, com o que eu já saía ganhando a restituição de uma outra bolada. Eu abracei minha esposa na noite desse dia, perguntando-me se minha estrela havia mudado inadvertidamente e eu passara a ter azar no amor e sorte no jogo, e não o oposto, que havia sido demonstrado por quatro décadas de bilhetes de amor recebido por moças abnegadas que aceitavam sair comigo a pé, sem que eu tivesse ganho nenhum carro em lugar algum.
Pois nesse ano ganhei livros de amigos, como disse em outro texto, e a Companhia das Letras me contactou com a proposta de me enviar dois livros por mês, sob a minha escolha, para que eu os resenhe, sendo que os primeiros serão o assim manifestamente desejado por mim em outro post, Joseph Anton, do Salman Rushdie, e Os Enamoramentos, do Javier Marías. Tenho absoluto receio de que meu senso de humor desavergonhado me leve a apostar na mega-sena, só por brincadeira, para não passar pelo pesadelo de ver minha esposa saindo com meus dois filhos pela porta da frente, me deixando sozinho para sempre em uma mansão no Guarujá adquirida com a fortuna do prêmio. E este é o propósito deste post: contar essas últimas boas novas. Sinal um tanto demonstrativo do incansável ser humano mesquinho que hora em hora surge de mim; pois, semelhante àquela batida piada de que do que serviria a alguém ficar naufragado em uma ilha deserta com a Charlize Theron, se não tivesse a quem contar a imensa sorte, do que valeria para mim se não contasse a alguém?
O Carpete
Neste sábado compramos um carpete para colocarmos no chão da biblioteca aqui de casa. A ideia de comprá-lo surgiu de supetão na noite de sexta-feira, enquanto a Dani e eu víamos nossa filha Júlia deitada ao lado das estantes, de bruços, a folhear o muito manuseado Asterios Polyp. A revolução mais impactante que tanto a Dani como minha mãe viram na minha personalidade após eu me tornar pai, foi a súbita despreocupação que surgiu não sei de onde em mim quando meus filhos vão até as estantes e pegam um de meus livros. Todos sabem do fanatismo fundamentalista que eu tenho quando qualquer outra pessoa pega em meus livros; eu mudo minha fisionomia, algo do lobo se encorpora em mim e eu fico rondando o intruso intrometido até subtrair de suas mãos o volume recolhido e recolocá-lo na estante. A Dani percebe imediatamente o sinal de alerta quando alguma visita inadvertida se aproxima com ineptas intenções de manuseio dos livros aqui de casa. Uma tensão de catástrofe passa pelo semblante dela e seus olhos dançam entre a visita em estado de paulatina ameaça de aproximação e meu paralisar paranoico.
Certa vez, recebíamos um casal de tios da Dani, e a recepção ia bastante bem, dentro da mais cordial normalidade, quando, num daqueles oásis de silêncio que beira o constrangimento, após todos os assuntos diplomáticos sobre escândalos das vidas dos vizinhos, casamentos, chuvas e aquele defunto que todas as tias trazem com alegria para nos surpreender e que só agora sabemos que deixou esse nível de existência fazia meses foram repassados, e que tudo, enfim, poderia acontecer, a tia da Dani inventa de olhar fixamente e de forma prolongada para uma estante pequena de livros que ficava no canto da sala, e solta essa: "Dani, por que você não limpa aquela estante desses livros e não coloca uma coleção de peças de cristais ali! Ficaria tão bonito." Só me cortou o humor para prosseguir naquela farsa, e eu me abstive a ficar apenas nas margens da coqueteria dali para diante, pensando em colocar as três vassouras da casa atrás de uma porta para ver se a mandinga arranja de funcionar pelo menos dessa vez. Pior mesmo foi a vez em que um dos primos da Dani veio nos convidar para seu casamento (não é birra contra a família dela; eles moram mais próximos de nós que os integrantes da minha família), e, com uma admirável capacidade de prestidigitação, o rapaz cata sem nenhum de nós vermos um livro que eu havia deixado sobre a mesa da cozinha e, com um pedaço de folha apoiada na capa, põe-se a desenhar o mapa que nos levaria até a fazenda onde se realizaria a cerimônia. A Dani ficou pálida e eu fui adotando um aveludado tom azul, devido ao momentâneo interrompimento instintivo de fluxo de oxigênio, e, culpados por nossa falta de atenção, não pudemos dessa vez fazer nada além de esperar que o dito terminasse o seu trabalho de GPS na capa do livro. Até hoje está ali gravada, na capa prateada de um Michael Chabon, quantos mata-burros e quantas porteiras deveríamos atravessar, e o primoroso traçado do rio que o inspirado noivo desenhara para nosso maior esclarecimento, para chegarmos à festa que, por vingança tardia, não fomos.
Certa vez, recebíamos um casal de tios da Dani, e a recepção ia bastante bem, dentro da mais cordial normalidade, quando, num daqueles oásis de silêncio que beira o constrangimento, após todos os assuntos diplomáticos sobre escândalos das vidas dos vizinhos, casamentos, chuvas e aquele defunto que todas as tias trazem com alegria para nos surpreender e que só agora sabemos que deixou esse nível de existência fazia meses foram repassados, e que tudo, enfim, poderia acontecer, a tia da Dani inventa de olhar fixamente e de forma prolongada para uma estante pequena de livros que ficava no canto da sala, e solta essa: "Dani, por que você não limpa aquela estante desses livros e não coloca uma coleção de peças de cristais ali! Ficaria tão bonito." Só me cortou o humor para prosseguir naquela farsa, e eu me abstive a ficar apenas nas margens da coqueteria dali para diante, pensando em colocar as três vassouras da casa atrás de uma porta para ver se a mandinga arranja de funcionar pelo menos dessa vez. Pior mesmo foi a vez em que um dos primos da Dani veio nos convidar para seu casamento (não é birra contra a família dela; eles moram mais próximos de nós que os integrantes da minha família), e, com uma admirável capacidade de prestidigitação, o rapaz cata sem nenhum de nós vermos um livro que eu havia deixado sobre a mesa da cozinha e, com um pedaço de folha apoiada na capa, põe-se a desenhar o mapa que nos levaria até a fazenda onde se realizaria a cerimônia. A Dani ficou pálida e eu fui adotando um aveludado tom azul, devido ao momentâneo interrompimento instintivo de fluxo de oxigênio, e, culpados por nossa falta de atenção, não pudemos dessa vez fazer nada além de esperar que o dito terminasse o seu trabalho de GPS na capa do livro. Até hoje está ali gravada, na capa prateada de um Michael Chabon, quantos mata-burros e quantas porteiras deveríamos atravessar, e o primoroso traçado do rio que o inspirado noivo desenhara para nosso maior esclarecimento, para chegarmos à festa que, por vingança tardia, não fomos.
Assim, quando o Eric começou a pegar os livros da estante, e a Júlia o repetiu mais tarde, qual foi o espanto da Dani ao ver que meu comportamento não mudava em nada, como se nada de perigoso estivesse acontecendo. A Dani comunicou tal prodígio pelo telefone à minha mãe, ao que o pasmo foi equivalente. E isso ficou sendo a maior alteração indiscutível que a paternidade fizera em mim. Meus filhos já amassaram capas, já riscaram à caneta uma folha da Mafalda Completa, já destruíram literalmente um volume raro e muito amado das viagens do Cousteau pela Amazônia, já sujaram de molho de tomate a auto-biografia de Gunter Grass, e já deixaram um copo com água cair por sobre um Cees Nooteboom. Agora que estão mais grandinhos, não oferecem mais grandes perigos (afinal, o que faltam fazer?). Passam as páginas com cautela, já são manuseadores treinados, e tal sacrifício, penso com orgulho, valeu a pena: cada vez mais demonstram que serão grandes leitores. Eu me vi como esses pais que não planejam as carreiras profissionais dos filhos; que eles sejam o que quiser; nada mais distante que a preocupação que sejam juízes de direito ou cirurgiões plásticos; só os deixo à mercê plena dos livros, da música, de alguns filmes, de tudo que 40 anos me abalizaram saber que pode conduzi-los para um discernimento mais independente e eficaz sobre o mundo que os espera, e que eles estejam muito bem preparados. Assim, eles terão pouquíssimas chances de caírem no equívoco do filho de 16 anos do meu dentista, que deixou os estudos e partiu para uma escola de treinamento de jogadores de futebol em São Paulo, sob o olhar impotente e chantageado do pai.
Daí que a ideia do carpete partiu da cabeça da Dani, pois as chuvas e o frio estão chegando, e o carpete protegerá nossos filhos enquanto eles passam longas horas na biblioteca. Mas devo confessar que o que primeiro passou pela cabeça desse pai contido aqui, foi: Por que não pensei nisso antes? O branco da capa do Asterios Polyp estaria bem menos encardida!
domingo, 23 de setembro de 2012
Bob Dylan, Poeta Laureado
Mais uma vez a espera da data sempre antecipada de outubro em que se revelará o às vezes muito insuspeito ganhador do Nobel de literatura, e mais uma vez a bolsa de apostadores Ladbrokes coloca suas fichas despirocadas em Bob Dylan como o provável vencedor. Ainda que o mundo nunca deixe de estar de ponta cabeça e as ainda mais desmedidas sandices estejam sempre na iminência de acontecer, me parece bastante improvável que, apesar de Dario Fo, os juízes de Estocolmo cometam o desplante de arregaçarem as barras dos fardões, colocarem os pés por sobre a mesa, e ouvindo o revirar das garrafas de whisky vazias pelo piso dos salões da Fundação Nobel (ou assistindo a fumaça vestigial das substâncias mais ilegalmente odoríferas subindo pelos cinzeiros), decidam pegar a cédula ou seja qual método próprio de marcação de voto, e rabiscarem em consenso um "sim" do lado da foto de Dylan, enquanto acompanham em uníssono pelo MP3 a todo volume em cima de uma das veneráveis estantes de cedro (provavelmente a que sustem o busto de Hermann Hesse), o refrão "how many roads must a man walk down before you call him a man?".
Minha veia fiel de roqueiro já maduro, mas que parte do mobiliário espiritual é composto pela catarse dos tempos de juventude em que uma letra de música tinha níveis eclesiásticos de arrebatamento, sabe do enorme valor que Dylan tem como artista superior, seja o que isso queira dizer (o que superior queira dizer), mas não ressente de afirmar sem o mínimo desconforto que o que ele faz não é literatura. É natural que grandes mercados editoriais alimentem esse tipo de paródia criada por parte do público de leitores que leem apenas o trivial de listas de mais vendidos ou de livros descolados da hora, como os mercados ingleses e, sobretudo, o gigante mercado americano; isso, no mínimo, é divertimento na certa para consumidores mais exigentes que sabe discernir sem dificuldade entre um Ian McEwan e E. L. James, ou entre Margareth Atwood e Bono Vox; e, no máximo, é ótima propaganda para as vendas da legítima literatura de qualidade. Ter um quadro de ânsia mundial em torno de quem ganhará o maior prêmio de literatura é algo tão proporcionalmente equivalente quanto a final de um campeonato de futebol. E as honras do bom senso estão asseguradas visto que, entre os apostadores do Ladbrokes, Dylan está em segundo lugar: perde para um escritor que, apesar de eu ainda não o ter lido (me ressinto muito por isso), é alguém de peso e qualidade inegável: Haruki Murakami.
O Brasil, em que as letras são tão pouco efervescentes, ainda assim tem cenário em escala suportável para repetir tais arroubos de uma lisergia militante em que frequentemente apontam Chico Buarque como o escritor mais calcado para receber honrarias e prêmios literários. Como eu poucas as vezes fui exposto à música de Chico em minha fase formativa _ meus amigos de escola gostavam mesmo de tudo que vinha ou se relacionava com o que Dylan fazia, numa ampla gama que englobava os Beatles, Joan Baez, Led Zeppelin, até Jethro Tull_, vejo essa apologia a Chico como uma institucionalização pobre e forçada, firmada em uma espécie de paroxismo de massas em que mesmo o machismo menos condescendente parece se derreter diante os olhos verdes irresistíveis. Vejo o quanto a aposta em Dylan é compreensível para grandes apaixonados mas leitores medianos, assim como vejo o quanto as pessoas que tiveram os ouvidos calibrados pelas letras de Chico dão de ombros e afirmam que se a língua portuguesa não fosse tão periférica, Chico estaria garantido também em Estocolmo.
O fato é que Salman Rushdie deu a melhor explicação para o que representa a letra de rock na cultura escrita e cantada. Tais letras são valiosas, canônicas, no universo íntimo a que se limitam representar, que tem muito mais a ver com encaixes na melodia, atitudes pessoais do cantor, leveza e humor, do que com o distante e inapropriadamente comparativo universo da literatura. Vejo como um reforço ao interesse à literatura as aproximações das histórias em quadrinhos (ou Graphic Novels, em sua nomenclatura que se esforça para ser mais condizente com tal aproximação) com a literatura, ainda que para mim sempre haverá uma enorme distância entre Watchmen, ou Maus, ou Asterios Polyp, e livros como os escritos por Philip Roth e Gunter Grass. Eu gosto muito de quadrinhos e já li estes citados como muitos outros, mas vejo com humor benfazejo e inofensivo que certas revistas coloquem Watchmen entre os cem maiores romances do século passado.
Minhas apostas para o Nobel desse ano estão em Philip Roth _ torço para que eles deixem Javier Marías em paz por bons dez anos, antes de darem-lhe o seu, para a felicidade do que virá da pena dele sem as intervenções notórias do enfado da criação que advém com o prêmio_, mas me imagino inabalável se as expectativas mais malucas se confirmarem e as editoras tenham que preparar as pautas e as capas enseladas dos Poemas Escolhidos de Bob Dylan.
Assinar:
Postagens (Atom)



.jpg)











