sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A Águia Raspando o Bico



Existem duas crenças adquiridas por minha esposa sobre mim que ao longo dos anos se tornaram verdades inquestionáveis, ainda que sejam completamente mentiras sem fundamento. Uma delas é que eu tenha o costume de enfiar a colher nas panelas de feijão e colocá-la na boca, para depois enfiá-la de volta na panela sem me preocupar em limpá-la. Eu nunca fiz isso em toda a minha vida, nem quando morava com minha mãe antes de meus 25 anos, nem mesmo quando era um solteiro  e podia ser relapso quanto às normas de higiene pessoal. Mas a Dani sempre me vem com uma dessas, de que teve que jogar o feijão fora por eu tê-lo azedado. Não se trata de uma acusação, e nada tem de ofensivo, já que ela usa a voz enleivada da distração da esposa que opera dentro dos fundamentos tradicionais e mesmo religiosos de seu zelo doméstico. Talvez_engraçado que me venha meio que assustadoramente só agora, enquanto escrevo_, ela esteja projetando uma ironia finíssima de eterno estoicismo feminino ao dizer isso com calibrada ausência, e talvez isso possa algum dia se converter numa causa acumulada mais séria de um divórcio_ algo na linha da psicopatologia social mais indevassável e insuspeita que revele minha tirania nunca auto-percebida de macho insensível. Mas eu nunca nem liguei em desmenti-la, corrigir de que eu jamais me prontificara a cometer esse pecado caseiro. Não sei mesmo por que sempre fui conivente com essa crença derrisória; talvez por achar o fato de uma sensaboria completa e insignificante, e ver que ela também o ache, e saber que certos mitos devem ser ignorados para não enaltecê-los e transformá-los em problemas maiores. Talvez por haver uma inteligência do casal, uma áurea atmosférica poderosa nunca alcançada pelas palavras, e nós dois termos a presciência espontânea de que se trata de uma linguagem por si mesma, um mimetismo (quantas coisas eu acredito sobre ela que ela nunca me desmentiu?).

A segunda coisa, porém, foi naturalmente desmentida hoje. A Dani sempre achou que eu tenho medo de dentistas. Ela direto brinca comigo sobre minha "fobia de dentista", um homenzarrão desses com medo de um motorzinho, etc. E acontece que minha infância foi tão povoada por dentistas dos mais surrealísticos tipos, que me desvaneceu na origem qualquer medo ou apreensão que eu pudesse ter deles. Me recordo de salas ensombreadas e homens com aparências dickensianas de devassos mal ajambrados e de aventais sujos, abrindo a porta da sala de canais e obturações após despachar o último cliente aturdido, e sinalizar para minha mãe, enquanto esfrega as mãos numa toalhinha encardida, para que me conduzisse até eles. Não sei mesmo a razão por eu ter sido tão descuidado com meus dentes na infância, e a coisa que mais me enche de intuições tardias sobre a real vigilância materna é não entender como minha mãe pôde ter sido tão conivente. E eu tenho uma boa dentição, mas se meu cadáver fosse descoberto e não houvesse maneiras mais simples de levar os peritos à minha identificação, o estudo de minha arcada dentária deixaria com certo fascínio a um perito mais imaginativo. Se tal perito fosse um poeta intuitivo, iria rezar na beira de meu saco de indigente em honra às evidências de meu sofrimento juvenil atestado pelo palimpsesto de revelações apreendidas pelo estudo dentário. Os dentistas da minha vida foram quase sempre crápulas gananciosos; os piores deles se passavam por senhores abnegados que atendiam por um terço do preço a crianças cujas mães já haviam gastado todo o resto da apertada renda familiar com bolachas recheadas e jujubas coloridas, sabendo que suas soluções garatujadas para aquele universo de bocas doloridas e sorrisos falhos eram apenas um paliativo temporal: em dez anos, ou mesmo vinte anos, o adulto no qual a criança se transformaria estaria apto pela experiência a ver que seus dentes não foram salvos, o que se fez foi adiar o martírio para a maturidade, de forma que quase sempre não havia mais solução. Mas eram crápulas até isentos de maiores artifícios de dissimulação; bandidos que se entregavam pelo próprio descuido, mas cujas mães dos moleques queriam esconder para si mesmas que suas faculdades haviam sido porões e garagens e a experiência corajosa nos protótipos humanos que essas senhoras lhes levavam. Muita conversa fiada e muita da desinformação onde proliferou o mercado negro de todas as coisas no Brasil dos anos 70 e 80.

Pois uma dessas bombas programadas estourou na minha boca faz uns cinco anos, e eu só arranjei de ir consertá-la hoje, após saber da morte de um amigo em decorrência de um abcesso dentário. O dentista é o melhor da cidade. Um cara esclarecido e humanista, dr. Eli. Como todo clichê clássico, ele colocou uma pala azul em minha boca, após anestesiar o lado direito da minha mandíbula, e enquanto tratava o canal, pôs-se a falar sobre filosofia, política e assuntos pessoais_ e a me fazer perguntas e aguardar uma absurda resposta em silêncio, olhando para mim como se à espera de como eu passaria por aquele teste interno de maneira digna, com fios e plástico na boca arreganhada. Quem ganharia a aposta entre os outros hipotéticos dentistas que nos observavam por detrás de uma parede falsa ou por câmeras escondidas (se balançar a cabeça, a cotação é de dez reais para o apostador; se eu gesticular com a sobrancelha, vinte; se eu nervosamente erguer a cabeça e colocar tudo a perder tentando falar, cem reais e um Urra! do vencedor vindo de detrás da porta)? Ele, uma determinada hora, perguntou o que eu achava sobre os que acreditam que os EUA são um país mais rico por serem protestantes, pois ele havia discutido essa afirmativa com seu filho, um aviador militar, e eu sabia o que ele respondera? Nessa hora ele chegou a tirar a broca da minha boca, quase a afastar a máscara de seu rosto, e esperar mesmo que eu vencesse as mil traquitanas enfiadas no canal para lhe responder. A moça que segurava o ejetor de água também não conseguiu manter a cara de quem não estava ali e me lançou um olhar atento lá de cima. Eu sou um desses caras que tem uma educação subserviente compulsiva; jamais venci aquelas disputas raivosas entre pessoas que não se gostam de esperar que a outra lhe cumprimente, sempre vi sair o oi, tudo bem e o bom dia! da minha boca, mesmo me arrependendo logo a seguir por ter sido respondido por uma cara voltada com empáfia. Há um desenho da Warner em que o coelho põe a perder o seu esconderijo por não se conter em concluir a frase musical anunciada em voz alta pelo seu caçador: tchã tchã rã rãn tchãn..., ao que o coelho espicha a cabeça para fora da toca, após tentar  em vão reter a fala na garganta inchada pelo pânico, e esguelha tchãn- TCHÂÃÃÃNNN. Pois eu respondi: Zvueler. E o dr. Eli: o que você disse?, e eu: Zvveler, Max Zvveler. Ah, sim, ele respondeu, isso, concordo plenamente com você e foi isso que disse a meu filho, há teorias que abalizam isso, como a de Max Weber, você tem razão, mas não quer dizer que Deus esteja do lado deles.

Acontece que esse doutor Eli estava cotado para ser candidato a prefeito da cidade, e ele explicava toda a trama dos bastidores que lhe impossibilitara tal intento. Retirava a mão oficiosa que ora estava na minha boca, para gesticular afim de tornar mais veemente alguma parte de sua exposição; parava tudo e encolhia os ombros, e me mostrava o quanto a política real o desgastava. De maneiras que num dado momento me distraí e viajei olhando a lâmpada alaranjada voltada para meu rosto. O dr.Eli falava, falava, e quando eu percebia a deixa para minha vez, eu apertava as sobrancelhas num sinal equivalente a mas não é! Daí me lembrei de uma conversa que eu tive ontem com um colega de serviço. Eu lhe falara de meu tratamento e ele me disse, de forma ameaçadora, para que eu nunca fosse ao dr. Wagner, o pior dentista não só da cidade como de um raio geográfico de três mil quilômetros quadrados. Esse colega chegou a me mirar como aquele profeta cego dos idos de agosto do Julio César, firmemente, com sua carinha de tartaruga simpática de olhos aumentados por lentes de dez graus de miopia, e exigir que eu nunca, jamais fosse me consultar com o tal dr. Wagner. Para tornar o anúncio mais enfático, pois-se a contar os eventos traumáticos que lhe ocorreram quando esteve nas mãos desse facínora com diploma de odontólogo. O dr. Wagner lhe anunciara, quando esse meu amigo já estava deitado na cadeira para receber o procedimento, de que estava faltando água no consultório, mas que iria fazer o canal assim mesmo, sem mais problemas. Daí começa com a broca a perfurar o dente dele, o zum-zum-zum do pino rotativo muito alto raspando e retirando a parede interna do dente até chegar na raiz e, de repente_ esse amigo continua contando_, o que acontece?, o dente começa literalmente a pegar fogo! A fricção da broca fora tão forte que queimou o dente e a boca do meu amigo. Sai dentista, auxiliar de dentista e cliente em polvorosa, cada um desesperado à sua maneira e para um lado. Aliás, meu amigo não sai, fica estático com a cara de desespero preso à cadeira, sem saber direito o que estava acontecendo. Aparece, depois de alguns segundos que pareciam longos minutos, o dr. Wagner com uma garrafinha de água mineral e lança a água toda pela boca do meu amigo, o que lhe causa um engasgo violento diante a repentinidade da coisa e quase o mata. Seria uma morte atroz, das piores, por ser carregada de dor, por ser coaptada a um afogamento, e por ser dessas mortes que após o período de duas semanas ligeiras de respeito no memorial popular passa a perder seu veemente aspecto de tragédia para afundar o morto na mais indigna das lembranças do anedotário paroquial. O dr Wagner não só o mataria, como desonraria seu nome por todas as futuras gerações, como do infeliz que se afogou numa garrafinha de água mineral enquanto seu molar se parecia ao edifício Joelma. Capaz até de daqui a uma década esse amigo seria alvo de encenações escolares em que o gordinho da classe seria amarrado na cadeira diante a um público de pais embevecidos e entediados enquanto lhe jogam água de uma garrafinha pet na cara, e o filho da putinha do demônio simula colocar os bofes para fora ao mesmo tempo em que outras pestes de oito anos inflamam labaredas feitas de papel celofane em torno, simulando a parte sagrada da piada do fogo no molar. Uma espécie de malhação do judas.

Quando meu amigo me contou isso, eu fiquei chocado, percebi o ar humorístico acentuado por detrás, mas, por alguma razão de estar com o pensamento voltado para outras bandas, não ri mais que um leve ensimesmamento labial. E não é que me lembrei dessa história na cadeira do dentista e a graça toda me veio de forma incontrolável? Senti os pulmões agitando-se, querendo ir além da dimensão torácica usual. Ouvi minha voz interna se surpreender com a alegria errática demonstrada ao se deparar com a oportunidade rara do Grande Riso, do riso convulsivo, do gargalhar do choro. Êba, taí o Grande Riso de volta! Só que não era, definitivamente, o momento oportuno. Cada vez mais em que eu tentava me concentrar em outros pesamentos, mais a imagem do meu amigo na cadeira, com os olhos arregalados e o dente em chamas, se apresentava com uma clareza impressionante. O dr. Eli estava falando sobre algo relacionado a mulheres e organismo humano, do organismo humano não reconhecer certas raízes dentárias e as atacá-las, tão inesperado como o são as mulheres, e eu num franco desespero por não conseguir controlar a maldita de uma gargalhada que prometia tacar tudo instalado na minha boca para fora. Dei engasgos que o dr. Eli parava de falar, me olhava atentamente e perguntava se a anestesia não havia pego, se eu estava sentindo alguma dor. Impus-me uma concentração budística, onde imagens da natureza me vinham na cabeça, folhas com orvalho, colibris, céus de tormenta. Mas o meu amigo surgia inadvertidamente invadindo esses exercícios, com seu dente de fogo. Arrebanhei tragédias, a fome da África, mas nada adiantava. A onda subia em grande velocidade. Aí me lembrei, como última esperança, de um professor do colegial que um dia na sala de aula brincou com o público masculino sobre métodos de controle de inconveniências hormonais da adolescência em ônibus e outros locais que, apesar de nada serem estimulantes, resultava em incentivos estáticos de determinados músculos masculinos. Pense na águia americana que, no frio extremo de algumas regiões montesinas, raspa o bico e os pés de contra as pedras até minar sangue, para se aquecerem. Pensei na bendita da ave, majestosa, encolhida no ápice da montanha, com muito frio... e o sangue vindo à carne em sua auto-imolação. Com uma força mental, só isso aplacou o forno que saía da boca de meu infortunado amigo.

(E isso me fez recordar uma crônica lida com deleite há muitos anos de um esquecido autor de best-sellers, chamado J. M. Simmel. Trata-se da história de um crítico de cinema que entra num cinema para assistir a um drama lúgubre e, sem mais nem menos, na cena mais séria, é tomado por um ataque de gargalhadas. A coisa se transforma em uma possessão sensorial que por fora tem a aparência infernal de alegria, mas por dentro a consciência sem controle do corpo do homem entra num pesadelo terrível da premonição do fim. Ele é convidado a se retirar pela administração da sala, erra pela cidade como um louco, o riso aumentando ainda mais, e consegue entrar em sua casa para morrer na cama.)

9 comentários:

  1. Não li porque pretendo ver o filme

    http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/08/08/ditadura-do-proletariado-em-gotham-city-artigo-de-slavoj-zizek-sobre-batman-o-cavaleiro-das-trevas-ressurge/

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    1. Caramba, não sabia desse artigo. Muito obrigado.

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  2. ahuahuahuaauhauh
    rachei o bico aqui!
    tu sabe contar uma história como ninguém, charlles

    como disse no outro post, a bi, minha esposa, é dentista, a melhor que conheço. e ela tbm é dada a ataques de risos inesperados, como da última vez em q estivemos no Theatro São Pedro para assistir Bach Eterno, uma orquestra de câmara tocando bach. não contávamos com o grand finale, qdo entrou um homem altíssimo, de semblante demasiadamente sério, olhos arregalados disparando sobre cada um de nós da plateia: com gestos mínimos, muito secos, robóticos, ergueu seu caderno e saiu-se com aquela voz, não sou um entendido, essa voz dos cantores de ópera, q é mto engraçado de ouvir (vendo) qdo não se está acostumado. A Bianca lutou em vão contra a gargalhada, q ainda conseguiu cortar um pouco enquanto levantava e saía pro corredor. a mim só restou lhe dizer "saúde!", como se ela tivesse espirrado.

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    1. Obrigado, arbo.

      Nossa, tenho vários micos desses. Uma vez, quase perdi uma namorada maravilhosamente linda na sessão de estréia de O Mentiroso. Ri tanto nesse filme que eu era quem puxava a platéia. Passei mal, literalmente, e perdi todo o charme teatral que havia feito na conquista. E você não conhece minha risada, cara, é explosiva, longa e barulhenta.

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  3. huahauhauha
    tbm chorei de rir no cinema com esse filme. anos depois, tu revê na tv, e ainda por cima, dublado, e vê q é tudo uma besteira, claro.
    acho q vou tanto ao cinema por causa da minha primeira impressão. o primeiro filme q fui ver na telona (sem os pais né) foi Top Gang 2. eu acho q nunca ri tanto na minha vida.

    eu sou um cara q ri mto qdo acho o negócio mto engraçado, eu não entendo as pessoas q se contêm e perdem uma das melhores sensações da vida. tem um pessoal da mtv aí fazendo mto bom humor. ontem escrevi "comédia mtv" no youtube e fiquei tempão a gargalhar.

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    1. Vou ver isso aí na MTV. Engraçado essa nossa intimidade virtual, excelente em vários aspectos, mas não nos deixa ver esse detalhe importante de o quanto e como é os sorrisos. Eu também sou um cara que ri muito facilmente e muito.

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    2. Principalmente da desgraça dos outros...

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  4. Eles colocam os programas (muito bons!) divididos em partes aqui:

    http://mtv.uol.com.br/programas/comedia/videos

    Aqui um dos melhores momentos deste ano:

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=PniYbDC4SOA

    Divirtam-se!

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  5. Escreveu o cara que não tem tempo para bobagens...

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