Gravidade é uma antítese dos filmes sobre o espaço. A começar que não trata do espaço, acontecendo no limite estratosférico em que os personagens purgam uma angustiante batalha entre a desconexão com a gravidade e o anseio para retornar a ela. Ao contrário da grande maioria dos filmes sobre o espaço, a tecnologia não é mostrada em toda sua acintosidade evoluída e infalível, para deslumbre do expectador sobre o alcance da genialidade da mente humana, mas como um quebra-cabeça desconjuntado cuja lógica vigorante é a predisposição a sucumbir à ruína iminente. A cientista encenada por Sandra Bullock se mostra incapaz de consertar a conexão da nave espacial já no início, suspensa em sua roupa de astronauta a milhares de quilômetros junto ao outro único personagem da trama, interpretado por George Clooney, mesmo tendo a alta formação científica que pressupõe a garantia que ela é a melhor escolha para estar ali. E se nos valermos da norma da última fronteira e do último homem super-cerebral da escala darwiniana, que costuma enternecer nossa vaidade em demais filmes do gênero, o acidente que move a tensão do filme é resultado da destruição programada de um satélite russo feita sem a análise de riscos e com a truculência de um vizinho primitivo que atira o lixo no meio da rua_ e os fragmentos da explosão resultante acabam com os sistemas de comunicação em massa do planeta ao mesmo tempo que reduz para quase zero as chances de sobrevivência de Sandra Bullock e seus colegas. Gravidade é o equivalente a O velho e o mar da arte do novo milênio, sendo que as forças de uma natureza descomunal e absolutamente indiferente ao destino humano são transportadas do mar para o que existe um pouco acima e no interior do cone dessa outra grande força imisericordiosa chamada gravidade, e o solitário pescador Santiago com seu peixe gigantesco são trocados pela astronauta à beira da morte que leva contíguo a seu desolamento o peixe vazio da limitada ciência terrena. Assim como o pescador Santiago duvida que, se sobreviver às inconstâncias do oceano e retornar à terra, ninguém acreditaria que conseguira pescar o maior peixe do mundo se não o levasse como prova, a astronauta sabe da história inacreditável que teria para contar se conseguisse voltar para a sua pequena cidade natal em Illinois. E ambos, o pescador e a astronauta, levam uma morte nas costas que é como um ponto a mais de desistência na vitória inconteste da natureza sobre eles. E, também na contramão das grandes produções cinematográficas que envolvem tanto deslumbre visual, Gravidade tem meros e felizes uma hora e meia de duração apenas, como Hemingway também se serviu de uma rígida concisão para contar uma das mais belas histórias do mundo. E Sandra Bullock, que nunca me pareceu ter um padrão de beleza maior que o clichê de celebridades hollywoodianas, me deu a sensação nesse filme de ter visto poucas mulheres tão belas quanto ela_ mas de uma beleza sem pudores e frágil, da mesma ordem de exsudação glandular da Sigourney Weaver em Alien, com suas lágrimas e suas salivas (que no caso desse filme em 3D, sai das narinas da atriz e vão em direção à tela). Gravidade foi uma das minhas maiores surpresas dos últimos anos no terreno do cinema americano. Um filme belo, que tem a grandiosidade inevitável de toda história bem contada cujo núcleo é a condição humana e a ternura inerente à nudez em que vivemos equilibrando por sobre o caos.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
A Cidade das Pessoas Feias
Depois que o vizinho da frente deu término a seu propósito de construir um bunker, coisa que mobilizara, já a partir das seis da manhã em três anos consecutivos e ininterruptos, uma trupe de uns dez pedreiros sem nenhum freio nas línguas, o quarteirão onde moramos se afundou em um silêncio descomunal. Agora mesmo, no início de segunda-feira, o único som que ouço, apurando bem os ouvidos, é de uma serra elétrica distante, de alguma soldadeira a umas três quadras, e mesmo assim o estranhismo em que esse novo ambiente me envolve faz pressupor se tal ruído não seria fruto de uma alucinação auditiva. Os pássaros, misericordiosos, continuam a cantar, e um cão neste exato momento, como se querendo por telecinese fazer parte desse texto, pôs-se a latir, testando os limites de sua experiência canina, na irretocável frase de Saul Bellow ("Pelo amor de Deus, que o universo se abrisse um pouco mais!"). Ontem minha esposa abriu abruptamente a porta do banheiro e me disse enquanto eu tomava banho que, estendendo as roupas no varal, flagrou sem querer a conversa do vizinho do lado. O sujeito contava a alguém, em volume baixo, quase em sussurro (recordo bem esse detalhe), que havia ido ao culto em uma igreja pentecostal no sábado, levando inadvertidamente por esquecimento uma cruz dentro do bolso. A Dani é uma primorosa contadora de histórias; não raras as vezes eu sinto inveja dela, e raiva por se tratar de um talento tão natural que ela vê com uma indiferença soberba; ela fez uma pausa esperada nesse momento da fofoca (o termo em inglês soa menos comezinho, gossip), para deixar que as ressonâncias dos efeitos das trivialidades me atiçasse ao máximo a curiosidade (aumentada por seu êxtase infantil em usar de tanta urgência a ponto de não poder esperar que eu encerrasse o banho para me contar), e prosseguiu, deixando explícita a sua felicidade puramente feminina com aquilo. O sujeito sussurrara que assim que entrara na igreja, o pastor, do alto do púlpito, perguntara em alta voz mercurial quem dentro da platéia trazia uma cruz escondida dentro do bolso. Retesado, ele na mesma hora se denuncia. Mas como é que o pastor sabia que eu levava uma cruz no bolso?, foi a última parte da curta narrativa alheia que a atenção gaiata da Dani conseguira apreender por cima do muro e no silêncio lunar de nossa nova rotina caseira. Eu fiquei olhando fixamente para ela, com a espuma do shampoo descendo por meus olhos, sentindo que no mundo real as conversas fiadas (idle talk) são criadas naturalmente para morrerem na inconclusão, e que sua intuição perfeita em aceitar de bom grado as reticências mostrava que para ela a piada acabava aí, era excelente como um gênero narrativo sem mais pretensão do que o riso que ela esperava de mim como uma forma de aplauso. E então?, eu pergunto, desalentado pela inutilidade de inquirir mais do que ela tinha; o que o pastor disse, deu uma bronca no sujeito?; e o que o sujeito, se for evangélico, estava fazendo com uma cruz no bolso?; e que forma mais primitiva de mostrar poder nesse arranjo patriarcal de repreender por parte do pastor. A Dani fecha a porta diante a evidência de que eu incinerava toda a leveza do mexerico (gossiping).
Isso revela como funciona a mente de alguém martirizado pelas letras. Salman Rusdhie, em sua autobiografia, fala sobre a intersecção permanente entre o escritor e o leitor e a identificação que esse último tem com os grandes personagens e as grandes narrativas, citando na mesma linha de importância Madame Bovary, Leopold Bloom, o coronel Aureliano Buendía, Raskolnikov, Gandalf, Oskar Matzerath, miss Marple e "o mensageiro mecânico do planeta Tralfamadore em As sereis de Titã, de Kurt Vonnegut". Me surpreende e me delicia como grandes nomes da literatura defendem sossegadamente os romances de gênero, sobretudo os policiais. Rusdhie e Borges, e Bolaño e Bellow (que era fã inveterado de Elmore Leonard). Na mesma autobiografia, Rusdhie no final vira as costas para a política, após tantos anos perseguido pelo lado mais assassino dela (coadunada com o fanatismo religioso), e escreve: "Seria sábio retirar-se do mundo do comentário e da polêmica para voltar a se dedicar àquilo que mais amava, a arte que havia dominado seu coração, mente e espírito desde jovem e viver de novo no universo do era uma vez, do kan ma kan, era assim e não era assim, e fazer a jornada da verdade sobre as águas do faz de conta". Essa jornada da verdade sobre as águas do faz de conta me mostra o quanto a percepção da existência através da literatura é algo gratificante, mesmo, ou em razão, da propensão de se enviesar pelo nonsense e pelo absurdo. Sentado em uma cadeira na varanda ontem, após a Dani ter me contado a história da cruz no bolso, sentindo o radiante frio que a inversão térmica mundial vem transformando o cerrado em zona hibernal, e por isso mesmo motivado a tomar um chocolate quente acompanhado com um bom livro policial, eu apurava os sentidos por cima do muro, à caça dos sinais subsônicos que me dissesse mais sobre a tal história. Me veio um monte de cogitações absurdas, conceitualmente implausíveis, mas que se inflavam de sentido quando na premissa de serem traduzidas por sobre as águas do faz de conta. Um dia antes, sentados ali na varanda bebendo café, vendo as crianças brincando e absorvidos no silêncio de nossas conversas, nós dois nos demos conta do quanto aquele silêncio tinha proporções cosmicamente assustadoras. Brinquei com a hipótese de humor negro se a Dani não tinha esquecido o gás ligado uma noite dessas com todas as janelas fechadas, pois é assim que devem sentir os fantasmas. A Dani me repreendeu, após um sorriso nervoso, e eu, provocado, continuei: pois suba por cima do muro e perceba se do outro lado não há uma velhinha sentada à uma mesa rústica de madeira, com uma chávena de chá ao lado enquanto borda, e, por mais que você acene ou grite, ela não dará a mínima por sua presença; e a Dani, não gostando daquilo mas aceitando o desafio, me respondendo que talvez, por cima do muro, ela não veja nada além de uma zona de energia cheia do mais amplo vazio, como em Solaris. Eu me calo, mais uma vez deslumbrado em segredo com a inteligência da Dani em me fazer calar quando vê que é preciso, pois ela sabe que a única resposta da minha parte nesse xadrez verbal seria apontar o fato de que em Solaris era o marido que olhava por sobre o muro, pois a esposa havia se suicidado. São formas ricas de percepção, grotescas, mas ricas, e isso é a raiz da literatura. Uma vez eu e um colega de profissão descobrimos erraticamente uma cidade na qual jamais tínhamos tido conhecimento dela antes, ao enveredarmos na procura de uma granja de suínos. Paramos na cidade para almoçarmos e ficamos fazendo a sesta consciente sentados num banco da praça principal, olhando o intenso movimento das pessoas indo e vindo para as lojas. Não havia uma pessoa que, para nossos padrões de jovens solteiros, era minimamente sexualizável. Botamos o nome na cidade, para uso particular, como a Cidade das Pessoas Feias. Nosso fascínio era tanto que eu soltei minha teoria então recente sobre se em nossas andanças da manhã, não havíamos passado pela incômoda situação de termos capotado o carro em uma curva da estrada e agora estarmos vendo tudo de uma outra dimensão externa à nossa tão antes confiável pressão terrestre. Brincamos e rimos bastante com essa hipótese retórica, mas em um determinado momento, um momento fagulhar que se dissipou rapidamente, tanto eu quanto meu amigo fomos realmente tomados pelo terror de que o que estávamos dizendo fosse mesmo a verdade, e estivéssemos ambos mortos em uma zona dantesca de pecadores que pagavam no purgatório por serem feios, pois as pessoas que passavam não se dignavam a perder tempo em investirem um olhar para nossas tão combalidamente defendidas belezas. (E há uma cidade magnífica em O último suspiro do mouro em que os heróis da história se perdem, em que tudo acontece do avesso).
Pois o que se escondia nessa história da cruz? Em um conto de Chesterton, o pastor se revelaria um mágico do oriente ou um arabesco mefistofélico vingativo, ele mesmo tendo montado a situação da cruz no bolso para reverter a atenção de um iminente assassinato. Em um conto de Conan Doyle, o pastor teria aproveitado que o fiel tivesse contado anteriormente o esquecimento da cruz a um delator mancomunado e usado o incidente para botar-lhe uma culpa tão grande, com fins de retirar dele alguma herança vultosa recebida ou em vias de receber. Em um conto de Sheridan Le Fanu, tratava-se de uma quimera inventada por um demônio em que não existia nem o pastor, nem a cruz e nem o fiel distraído, mas tão somente ele e minha esposa, que seria ao mesmo tempo isca e vítima. Em um livro de Javier Marías, tudo seria um engano mais profundo, que incrivelmente remeteria ao passado mais crepuscular da família da Dani. E, depositando o livro do Padre Brown no colo, sorrindo diante todas esses ramos bifurcantes, eu parei por um segundo, um micro segundo de irrealidade, ao pensar no detalhe esquecido: por que tudo foi narrado em sussurro?
domingo, 23 de fevereiro de 2014
O mais triste dos tristes escritores
"A melancolia é a felicidade de se ser triste" (Victor Hugo)
Não há como não ver como uma estupidez com indigerido traço etnocêntrico o pouco caso que Coetzee faz a Mia Couto em seu livro de ensaios Mecanismos internos. Por mais que eu goste de dois ou três romances de Coetzee a ponto de usá-los como recorrentes presentes a amigos, a única frase que ele dedica a Mia Couto, de forma ostensiva e prepotente, alegando que o moçambiquense não era representativo da literatura produzida no continente africano, estraga um tanto a imagem desse prêmio Nobel que é indiscutivelmente um dos maiores autores vivos da língua inglesa, mas que esbraveja a sua carteirinha de esnobismo elitista de autor europeu (mesmo adotado), de aristocrata que tem sua importância medida e aceita sem reservas acima do senso comum mais idiota dos excêntricos e periféricos. Tal atitude, que por ser explicitamente gratuita (já que ele cita o nome de Mia Couto sem nenhum propósito além de sentencia-lo como descartável), é semelhante em sua violência segregacionista a de escritores como Kingsley Amis ao apontar José Saramago em uma reunião de escritores e dizer a um amigo alguma festiva frase sobre a mediocridade de tais pessoas como o português em se tornarem escritores. O que há por detrás de pontos de vista inerciais como estes é algo constrangedoramente simplista: o mero preconceito; o preconceito mais baixo que junta no mesmo cesto de identidade fechada de casta a proeminência financeira de uma nação sobre a outra, o valor comercial de um idioma sobre o outro, até as mesquinharias mais provincianas como aspectos de cor e raça.
O leitor que conheça o potencial de escritores que exorbitam o eixo de glamour intelectual das regiões cosmopolitas vinculadas à riqueza financeira, sabe bem que dificilmente Coetzee deva ter lido Couto. Ainda mais que um dos ensaios de Mecanismos internos fala minuciosamente sobre o pior livro de um escritor que teria tudo para ser enquadrado nas esferas de subdesenvolvimento literário que Coetzee parece atribuir a Couto: o Memórias de minhas putas tristes, do colombiano Gabriel Garcia Marquez. Coetzee faz uma radiografia pedante sobre esse fraquíssimo livro, para no final dizer o que qualquer leitor menos devotado já tem por certo: é um romance descartável entre a bibliografia em três títulos prodigiosa de GGM. Gastando tanto tempo em um livro constrangedoramente menor de um cultuado autor, e relegando toda a obra com momentos imortais como Terra sonâmbula de outro com uma frase absurdamente derrisória, Coetzee mostra, apesar da sofisticação utilizada na maior parte de seus ensaios, uma visão medíocre, cerceada pelo mais atrasado selo de qualidade senhorial, pela sutileza mais gritante que remete a pensarmos o quanto o autor de uma obra como Desonra sucumbe ao clichê da pior espécie, talvez pela velhice ornamentada com seus importantes prêmios (mas não menos velhice), e sua empáfia diante o que ele pressupõe ser o extremo oposto de si mesmo (ele, um autor africano branco, que escreve uma prosa realista seca, que transita por esferas intelectuais assepsiadas de sentimentalismo, e Mia Couto, um autor africano branco, que escreve uma prosa barroca com cores sinestésica e profundamente poética). E se quisermos sair desse diagnóstico como algo precipitado, basta ver o ensaio no mesmo volume sobre Sándor Marái, em que suas palavras, agora prolixas e diretas, são assim mais pesadas em seu descarte em dizer que Sándor é um péssimo romancista (ele dedica várias páginas em destruir o romance, para já no final, como se estivesse cansado daquilo, empregar seu carimbo definitivo por sobre o autor, dessa vez segregado tanto por sua origem étnica como pelo passar do tempo, como se Coetzee estivesse a dizer que estilos assim já estão ultrapassados, que o que conta é sua linguagem dilapidada de adornos desnecessários).
Pois bem. Essa lembrança de Coetzee me veio hoje ao ler uma resenha do Luís Augusto Farinatti sobre Bolaño, que me fez passar boa parte da tarde desse domingo folheando Os detetives selvagens. Assim como eu, Farinatti teve que passar pelo desgaste que o culto a Bolaño cria em quem quer ler Bolaño, a excessiva exposição do autor chileno. Eu li quase tudo de Bolaño, e há tempos não ouço falar dele. Assim, foi com surpresa que li sobre a iniciação feliz de Farinatti, ele que adora literatura latino-americana e produz bons contos, pois me fez retornar ao Bolaño nessa hora que, percebi com certo espanto, parece que passou o fervor em torno da figura do autor de 2666. Ou eu é que, de tanto me esquecer dele, não ando acompanhando os tantos sites dedicados à sua celebração. Para mim, pois, Bolaño agora atingiu sua plenitude, pode-se_ ou posso_ voltar a ele com a virginalidade de quem o descobre por iniciativa própria, sem os ecos de tantas opiniões translativas. Reli o primeiro capítulo de Os detetives selvagens emocionado, devo confessar. Depois reli as últimas dez páginas, que a mim afiguraram como o melhor desse romance, quando o explorei há seis anos. Eu achei bastante ruim Os detetives selvagens, por uma série de razões que já expus a exaustão. Na verdade a palavra correta é que desgostei-me dele, pois aguardava um escritor extático, e encontrei o mais triste dos tristes escritores. A última página desse romance é belíssima, sublime, estranha e ambiguamente eloquente. Passei muito tempo entendendo o que ela diz, e ela diz muitas coisas de várias maneiras. Mas, como ia dizendo, o livro_ tido por uma legião de pessoas sérias como uma grande obra-prima_ me desgostou porque era triste demais, latino-americano de uma forma sem subterfúgios, pura e intranscedente. Talvez porque na época me causava desespero pertencer ao país mais latino-americano dos latino-americanos, e Bolaño pregasse o dedo em minhas feridas com sua lucidez insensata. E o fato de que o celebravam em todo o canto do mundo como o novo Garcia Marquez, isso me doía ainda mais: era a celebração de tudo que eu via em torno de mim como atraso, a celebração de sua visão já sem redenções do latino-americano. GGM criou uma mitologia própria ao latino-americano, e Bolaño, seu substituto legal, vinha acabar com tudo falando da extrema violência e primitividade, dos jovens poetas predestinados à morte precoce, dos detetives selvagens do título que traziam nessa outorga o sarcasmo de serem detetives sem a possibilidade de desvendarem nada, e selvagens porque eram frágeis demais em seus sonhos, revolucionários obsoletos, poetas de uma era em que o vocabulário não tinha mais a mínima importância. Bolaño, me parecia, era a última concessão dada à expressividade de todo nosso continente, e ele assumia saber disso em sua intenção de sepultar de vez as letras.
Devo admitir hoje, após o post do Farinatti e minhas releituras descansadas de Os detetives selvagens, que só agora eu perdi certo receio contra Bolaño, eu passo a compreendê-lo melhor. Acho que isso tem a ver com meus esforços mais concentrados em escrever um romance, uma tarefa mais madura e auto-combativa (afastando e destruindo uma série de bobeiras aprendidas também pela inércia). O mais triste de todos os tristes escritores é também de um visceralismo só tido em raros companheiros seus de profissão. Após ler o último romance de Martin Amis, por exemplo, a impressão de artificialidade artística, de bater as teclas da máquina com proficiência mas sem muito coração, é algo que vejo impossível em Bolaño. Amis é um escritor muito bem pago, e sua obrigação é vencer o enfado do conforto de viver no extremo mais rico do mundo, cavar uma experiência que ele não tem, e dar vida a essa simulação com todos seus hercúleos esforços retóricos. O mesmo ocorre com McEwan, que há muito não escreve nada que se pareça com a realidade lá de fora de seu gabinete. E Coetzee, o meu amado e festejado Coetzee, já distante de seu auge da palavra, vem construindo suas zonas mentais aprimoradas, suas fábulas complexas kafkianas, e que cansaço benéfico ao final da tarde deve tomar conta de seus olhos míopes que caem por um tempo gratificante por sobre o aveludado tapete por debaixo de seus pés. Essa percepção de cavar a verdade passou pela cabeça do Philip Roth de Entre nós, quando ele confessa a inveja que tem de escritores como Ivan Klíma, que tem todo o provimento de assuntos capitais oferecidos pelas agruras cotidianas de sua pátria política. Tentar escrever tem me dado uma piedade de visão e uma profundidade muito mais reveladora que a passiva aquisição da escrita pela leitura. Um humanismo que me faz rever conceitos imediatos que se colam com uma facilidade parasita e assustadora em minha mente. Uma nova ciência do olhar muito útil nesses nosso tempos em que se prende menores infratores em postes com trancas de bicicleta, e a primeira sensação demanda uma insensível e brutalizada comemoração. Vendo o vídeo de Mia Couto falando sobre o medo_ a sua integridade, a sua segurança, a sua calma e cordial e cavaleiresca presença, a sua seriedade e auto-confiança_, e repassando Bolaño, e lendo Saramago, e Bernardo Carvalho, e na iminência de ler tantos escritores que ficam do lado de fora dessa batalha ignóbil de etnocentrismos, eu penso, feliz, que a tristeza de Bolaño é, em contrapartida, uma alegria libertária da expressão. Isso reforça de uma maneira indizível minha fé na literatura.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Lionel Asbo, de Martin Amis
Venho lendo Martin Amis desde que me deparei com boa parte dos formadores de opinião dizendo que ele era o maior escritor do mundo. Isso foi em 1999, creio que no ano do lançamento da edição nacional de A informação (na verdade, A informação foi lançado pela Companhia das Letras em 1995) . Amis era acolhido com todas as previsões inevitáveis de mimo pela mídia cultural como uma espécie inusitada de astro do rock das letras. Ele se dava ao luxo até de ter sua parcela de suspeição moral, típica da vida maculada das grandes personalidades do show-business, ao ser apontado como réu em um escândalo envolvendo plagio e pelo final tumultuado de um relacionamento não exclusivamente amoroso com uma famosa editora. Era difícil para um leitor desvincular o escritor Amis do homem excessivamente público Amis, mesmo porque o próprio autor fazia questão de apagar as linhas divisórias ao se inserir como personagem em um de seus livros (em Grana, Amis aparece inteiro e com o próprio nome para se assumir como ghost-writer do anti-herói da trama). Por isso, quando li A informação, era com esse condicionamento ambíguo na cabeça que me vi testando o que era real e o que era quimera publicitária. O que de imediato percebi foi o enorme domínio das técnicas narrativas em Martin Amis: ele conhece como ninguém todos os andamentos da escrita, todas as quebras sutis para acentuar a tensão da trama; ele escreve usando uma percepção subliminar contínua dos movimentos mais prosaicos da realidade; em seus livros um céu nunca é apenas um céu, mas algo acintosamente perigoso, "uma névoa de saibro, a textura da gaze, com ciscos, pontos cegos, rugas, como cicatrizes de vacina" (Lionel Asbo, p.324); ele demonstra essa qualidade superior de apresentar rostos e paisagens com definições anacrônicas espantosas, como Faulkner bem sabia fazer com seus personagens com olhos como maçanetas, e seus desenhos de Londres tem a profundidade caleidoscópica de uma cidade sombria carregada de detalhes percucientes miniaturizada e inserida em uma esfera de vidro. Ao contrário de vários outros escritores que são alicerçados para um plano de visibilidade comercial absoluta, Amis tinha algo a oferecer, mesmo que fosse apenas o cacarejar erudito de frases soberbas que olhando-se mais detidamente, não diziam nada (como a famosa incógnita da abertura de A informação, bela e impactante, mas quase genialmente oca). Em um mundo hipotético como o de um dos contos de Amis, em que os poetas estão no topo da cadeia alimentar financeira e os banqueiros purgam uma dura vida de ostracismo, os livros de Amis seriam o best-seller número um da lista de leitores superdotados.
Martin Amis é sim um escritor que não pode ser desprezado. Mas o leitor experiente aprende com as leituras sucessivas de seus livros que ele não é o maior escritor do mundo. Numa escala pessoal de relevantes romancistas de língua inglesa contemporâneos, em que a excelência apical fica com Saul Bellow, descendo pelas escalas elevadas de Thomas Pynchon, Philip Roth, Naipaul, Rushdie, até chegarmos às bases de uma Jennifer Egan e um Jonathan Franzen, Amis ocupa um plano mediano de um Paul Auster apimentado e muitíssimo mais divertido. Um diagnóstico com afiada precisão foi dado por um jornalista britânico: Martin Amis é um grande escritor que nunca escreveu um grande livro. Com Lionel Asbo, Amis deixa claro que ele tem plena consciência disso, demonstrando uma auto-crítica lúcida quanto até onde ele pôde chegar como criador. Aos 65 anos, ele sabe que jamais lhe darão o Nobel de literatura, e por isso ele repete mais uma vez, com vigorosa honestidade, tudo o que sempre fez, podando os excessos de virtuoses que por vezes entulham seus outros romances. Há mesmo uma leveza, uma despretensão em Lionel Asbo, que torna essa obra um tanto maior que as outras; maturidade sem sisudez, mestria sem empáfia. Os personagens continuam primorosamente construídos: Lionel Asbo, que certamente entrará na galeria de figuras memoráveis de Amis (junto a Richard Tull, o escritor fracassado e corroído pela inveja de A informação, e o obeso mórbido ultra-libidinoso John Self, de Grana), é um delinquente juvenil de uma imaginária cidade satélite de Londres, tão bem cinzelado e imprevisível que causa um misto de sentimentos no leitor: nojo, terror, admiração involuntária pelo primarismo escatológico, mas nunca ternura, mesmo nos momentos finais da história que, astuta e enganosamente, parece direcionada para pieguismos redencionistas.
Lionel Asbo começa com o visceralismo não isento da intenção de chocar típico de Amis. Já nos primeiros parágrafos aparece uma situação desmesurada que o leitor fica tentado a achar ser um artifício cômico forçoso. Eu vi tal coisa como um exemplo de humor pueril, uma traquinagem para se manter ousado e provocador, para arrombar o bom senso. Parece que Amis foi compondo espontaneamente esse início, como uma brincadeira, e com uma perícia de enxadrista treinado foi tecendo uma rede de coerência em torno, de tal modo que essa leviandade de gosto bastante duvidoso acaba por se ligar fundamentalmente com a desfecho da narrativa. Mas o que verdadeiramente desconcerta nesse livro_ para não dizer incomoda_, é a explícita falta de generosidade por parte dos personagens. Não falta de generosidade na construção narrativa, que aqui temos uma prosa imbatível e de primeiro time. Mas falta de generosidade humana, de coração terno. Lionel Asbo é um ser monstruoso, um ególatra patológico, uma encarnação de determinismo criminoso que remete às teorias lombrosianas; em outras épocas ele seria um guerreiro perfeito, um bárbaro quiçá fundador de civilizações, um instrumento evolutivo potente pela sua falta de sentimentalismos. Mas no subúrbio de Diston Town, ele é um animal brigão que passa constantemente longas temporadas na cadeia, e que martiriza a vida de todos que estão à sua volta, principalmente de seu sobrinho Desmond Pepperdine. Há aqui um antagonismo pouco trabalhado (insinuado mas lastimavelmente abandonado pelo autor) entre inteligência e bestialidade: a inteligência de Des, o sobrinho, que volta as costas para o modo de vida de Lionel, ingressando-se na faculdade e imaginando uma biblioteca como um mundo em que pudesse viver, e Lionel, cujo principal esforço é abolir voluntariamente todo traço de inteligência que queira aparecer em sua mente. Desde criança, Des percebe essa voz libertadora da inteligência acendendo no interior da sua cabeça, vindo não sabe ele de onde, uma voz calorosa, recolhida, cujas fagulhas intensas o deixa sequiosamente ansioso por mais. Mesmo quando Lionel Asbo, por uma mera trivialidade, ganha na loteria, e se torna um multimilionário famoso perseguido infatigavelmente pelos paparazzi, a inteligência que poderia vir no tempo de sobra de uma vida isenta da labuta da marginalidade, é severamente combatida. Com a riqueza financeira, Lionel Asbo fica mais disforme, como um imperador romano, como Calígula.
É aqui que entramos na falha de Amis em não conseguir escrever um grande livro. E precisamos, assim como ele, aceitar isso, para aproveitarmos tudo que ele tem a oferecer. Lionel Asbo é um romance fascinante, divertidíssimo, prendendo o leitor às suas páginas. Uma obra que mexe não só com a providão de risos, mas com o asco e o desassossego. Só isso já posiciona Amis, com toda seu inequívoco virtuosismo e seu talento para a artificiosidade, acima dos outros escritores que se acomodam na medianidade congratulada das letras. Temos que ler Amis sem procurar interpretações políticas e filosóficas, e assim vamos querer ler Amis sempre. Há uma linha lá para o meio de todos os seus romances, em que os personagens ficam caricaturescos por demais, repuxados na ultra-realidade pretendida pelo autor. Isso torna a coisa toda bastante implausível, como nas repetitivas cenas de A informação em que a esposa do escritor famoso é adestrada no volante por um vigarista suburbano que só lhe ensina como certo tudo o que não se deve fazer na direção de um veículo: ainda que no princípio tenha um humor pastelão, fica impossível ao leitor acreditar que uma mulher seria tão constantemente estúpida a ponto de achar que ameaçar velhinhas atravessando as ruas é a coisa legítima a se fazer com um carro. Essas cores fortes aparecem em Lionel Asbo, o que pode fazer pensar que tal inércia renitente seja não um defeito de visão em um magnifico mágico da escrita como Amis, mas uma parte de seu estilo, assim como a estupidez cósmica dos personagens de Beckett são uma das assinaturas de Beckett. Mas o cacoete de Amis está mais para um abuso no recurso dos filmes de terror nas cenas em que a mocinha perseguida por uma psicopata assassino cai por terra e demora uma eternidade para se levantar (enquanto o expectador fica silenciosamente gritando "levanta daí e corra, porra!"). Assim, fica a angustiosa pergunta no leitor do por que Des insiste em ser sobre- humanamente passivo, a um nível que diminui um pouco a verossimilhança da história contada. Assim, aceitando que os romances de Amis são distorções muito bem escritas, caricaturas que algum dia podem suscitar a interpretação icônica de uma nova forma crítica de enxergar o mundo dos homens, tais romances são leituras valiosas.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Sobre um conto de Bernardo Carvalho e um livro de José Saramago
Um dos pesos de consciência que tenho como leitor é jamais conseguir ler de cabo a rabo uma revista. Tentei várias vezes, mas sou incapaz desse exercício severo de disciplina. Sou um leitor bastante indisciplinado e, convenhamos, nessa altura da vida tenho que me resignar com alegria a esse traço irretocável de caráter. Meus amigos leitores da vida real, por ironia do destino, são patologicamente dogmáticos. Estava caminhando com um deles ontem e ele recuou um passo diante o susto ao me ouvir dizer que estava lendo cinco livros de uma vez. "Eu jamais faço isso", ele disse, "pego um livro apenas e vou nele até o final". E tem a questão dos sublinhamentos, que sempre pensei em fazer um texto específico sobre isso; nenhum desses meus amigos sublinham seus livros, enquanto eu risco, sem dó, usando uma régua e uma caneta respeitosas, todas as partes que me tocam e que, se eu não as individualizasse entre as milhares de páginas que tenho na biblioteca, jamais tornaria a rever a maior parte delas, ficariam perdidas para sempre. O que é que faz com que tais amigos não sublinhem seus livros? Um temor de que algum dia tenha que vendê-los? De que, se os emprestar, a pessoa portadora vai se incomodar com os riscos? Pois eu jamais venderei o menor e menos amado de meus livros, assim como raríssimas vezes empresto algum deles (também tenho uma opinião misógina sobre empréstimo de livros; trata-se de uma questão delicadíssima, na qual me vi muitas vezes vilipendiado pelo costume do vulgo em não dispender o mínimo respeito a livros, como se livros fossem sacolas de pão que não exigem melhores tratos do que jogá-los por sobre a mesa e consumi-los dentro de um prazo de validade; não empresto e não tomo emprestado livros, visto que sempre que tomo emprestado sinto a compulsão de adquirir o volume).
Mas esse texto solto e irresponsável de sábado, que escrevo não para o deleite dos esporádicos frequentadores do blog mas para retardar um pouco mais a inglória tarefa que tenho pela frente em limpar sozinho a casa (a patota chega de volta amanhã; qual música ouvir durante a limpeza?, tendente a Crosby, Stills & Nash, ou Crosby, Stills, Nash & Young, e mais um The Jayhawks que se casam bem com o ar chuvoso desse começo de sábado). Então vamos lá. Uma vez me propus enfim a ler toda uma revista Piauí. A começar pelo início_ sempre leio de trás para diante. Mas me detive diante um artigo sobre futebol, o que atrapalhou definitivamente o processo. Eu não leio nada sobre futebol, essa é uma das poucas certezas insofismáveis e bem resolvidas da minha vida.
Ontem me detive novamente diante um conto curto de Bernardo Carvalho, na edição da Piauí desse mês. Leitor sistemático da Piauí, mesmo pulando páginas, sei que há arranjos nessa revista para se fazer de interessante e cool que me causam bastante suspeita. E ver um texto do Bernardo Carvalho, curto, intitulado "Deus é burro?", me fez puxar mais uma vez o laço do cavalo. Não perderia tempo com um texto astucioso, colocado ali por obrigações compulsórias de ambas as partes, do autor e da revista (afinal, para o padrão da Piauí, que publica textos infindáveis, ter um de apenas duas páginas como aquele afirmava sua função de tamponamento de espaço sobrante). Mas eis que começo a lê-lo, o acho a princípio fraco, mas logo, lá pelo final, Bernardo (que é, mesmo na opinião desse insuficiente leitor de literatura brasileira que sou eu, o melhor de nossos autores, disparado) solta aquilo que já foi definido por um importante ficcionista metalinguístico, a "estocada repentina que o autor dá em seu leitor", aquilo que faz os cabelos da nuca arrepiarem e a mensagem ser entregue com catarse satisfatória e imprevisível. E o que ele disse, consubstanciava-se ao romance de Saramago que eu estava lendo, "O homem duplicado". Carvalho, das poucas coisas que li dele, sempre se me mostrou um autor profundo. Ele sempre tem algo para dizer, tocante, relevante, sério. Daí que foi essa fé de meu inconsciente que fez com que eu lesse o conto dele até o fim. O texto é mais uma narrativa em forma de prólogo a uma suposta obra de Blaise Pascal esquecida e recém descoberta pelo papa Francisco. É um exercício temático borgeano, (embora o autor se restrinja a não copiar o estilo de Borges), em que se é mostrado um Pascal de uma terceira fase de revelação mística cujo mote surpreendente é uma definição deísta que aponta para um total ateísmo. Até aqui, um texto bem costurado, sem sarcasmos ou humorzinho fútil de diversão, com um tom que beira coisas contundentes ditas por Dellilo e outros autores. Mas o que me provoca a catarse nada tem a ver com as questões religiosas levantadas. Talvez eu seja mesmo um leitor espantosamente lúcido e excepcional, pois adquiro daquele textinho toda a astúcia que Bernardo parece querer passar, usando a superfície inteligente da questão irrisória da contradição pascaliana. Bernardo está a falar sobre literatura e seus poderes em nossa época de boçalidade virtual, eu penso, mas como muito já foi dito sobre isso, muito se critica sobre a geração facebook e tal, ele, grande escritor que é, utilizou um escorço na escrita, caminhou pela senda muito caminhada para então dobrar por um atalho súbito e não visto; usou o tema da religião para falar sobre o quanto a linguagem vem perdendo seus condimentos históricos, suas nuances e suas riquezas. O Pascal de Bernardo é um Dimitri Karamazóv, um profeta niilista absoluto. Não sou adepto a citações, mas seria um crime se eu não colocasse aqui toda o grandioso coração do conto de Bernardo Carvalho:
"Pascal, nostálgico das suas façanhas de jovem inventor, imagina uma máquina de se expressar que leva os homens a tornar tudo imediatamente público, a começar por suas vidas íntimas, seus sentimentos menos elaborados. Os sentimentos mais egoístas, que antes só eram expressos na esfera privada, porque manifestá-los em público significa comprometer-se (uma vez que esses sentimentos também expõem uma burrice e uma truculência que já não disfarçam o objetivo de destruir tudo o que não estiver a seu serviço e a seu favor), passam a ser proferidos simultaneamente, com orgulho e empáfia, em alto e bom som. A vergonha e o pudor moral foram banidos desse mundo e não fazem mais nenhum sentido na distopia imaginada pelo filósofo. E, como em princípio cada um desses indivíduos, além de exprimir seu interesse incompatível com os interesses dos demais, também fala em nome de Deus e o define de um modo incompatível com os demais, sendo o que todos dizem, ao mesmo tempo, acreditar num único e mesmo Deus absoluto, como hoje dizemos da democracia, fica clara, a um só tempo, não apenas a exigência de uma igreja unificadora de sentido, mas que esse Deus simplesmente não existe nem poderia existir. Nunca."
E aqui entra as dificuldades que eu estava tendo para chegar ao fim de "O homem duplicado", de José Saramago. Trata-se de um dos mais elogiados romances de Saramago, convertido em cinema por um cineasta holywoodiano. Li até a metade com deleite, sentindo o quanto retornar à prosa do autor português era uma alegria. Encomendei-o pela livraria local e veio dois, e um de meus amigos leitores o comprou e marcamos de lê-lo em comunhão para futuras conversas. Mas empaquei na metade para o final. Uma pulga saltou-me para trás da orelha e me lançava mensagens sobre se Saramago ali não estava me enrolando. Se Saramago ali não era mais o grande escritor de romances recolhidos como o magnífico "O ano da morte de Ricardo Reis", mas um comerciante nobeliado que aproveitava da grife que se tornou seu nome para fazer mais uns excelentes trocados. Pois o romance parecia estacado em volta de sua própria cauda. E depois da leitura desse conto de Carvalho, volto com afinco para as páginas do romance de Saramago, já desconfiado do leitor de merda e de pouca fé que eu sou. (Aqui entram elementos subjetivos da leitura: o assustador preconceito de alunos portugueses da Universidade de Coimbra contra estudantes brasileiros, aparecido nos jornais nacionais há poucas semanas, e a troca ainda mais assustadora de xingamentos entre brasileiros e portugueses pela internet devido a isso; e um link que o Matheus me mandou por e-mail de um artigo de jornal português falando sobre o passado de possível comunista truculento de Saramago, quando Saramago era diretor do Jornal de Notícias de Portugal; tais notícias me indispondo sem que eu veja e pondere racionalmente o peso de tais questões, me enquadrando no diagnóstico pouco alentador do conto de Carvalho.)
Leio até o final "O homem duplicado", com ira, tentando enfim tardiamente me inserir nas fileiras dos leitores de correção militar e me ensinar à marra um pouco de ortodoxia. Dispenso os afazeres comprometidos do dia, coloco para tocar as sublimes sonatas para piano executadas por Ronald Brautigam, e me assumo em férias diante o romance de Saramago. E Saramago aqui me surpreende mais uma vez. Se durante a leitura venho medindo forças entre ele e Javier Marías para ver quem é o melhor, Saramago faz aqui o mesmo nível de mestria que Marías faz em "Os enamoramentos". Abandonar Saramago pela metade seria um erro enorme. O homem duplicado é uma obra fechada, seleta, minuciosamente construída, e que só revela seu sentido e coesão quando chegamos às belíssimas últimas páginas, assim como acontece com o romance de Marías. Ali a força da escrita renovada, o acontecimento gratificante da palavra, e uma das formas de levar os melhores genes adiante da humanidade, de confrontar sossegadamente a bestialidade do que jaz lá fora. Tudo o que Saramago ia fazendo que a mim parecia excessiva dedicação aos movimentos cotidianos de seus personagens, não era outra coisa que reafirmar conscientemente em sua arte o papel de individualidade em um mundo em que, nas palavras de Carvalho, força-se para imperar a "burrice e a truculência". Por isso eu, um leitor tão auto-arvoradamente primoroso, deixei escapar por elementos discriminativos vagos e vazios, o que Saramago estava a dizer, deixei que me faltasse a perspectiva certa para apreender o quanto profundamente significantes eram os movimentos de Tertuliano Máximo Afonso, o personagem do livro, em seu apartamento, em sua sala de aula como professor de história. É muito bom sentir o ensejo e a paixão da literatura legítima em tais exemplos com equívoca e maquiavélica roupagem trivialesca nessas duas obras.
E aqui entra as dificuldades que eu estava tendo para chegar ao fim de "O homem duplicado", de José Saramago. Trata-se de um dos mais elogiados romances de Saramago, convertido em cinema por um cineasta holywoodiano. Li até a metade com deleite, sentindo o quanto retornar à prosa do autor português era uma alegria. Encomendei-o pela livraria local e veio dois, e um de meus amigos leitores o comprou e marcamos de lê-lo em comunhão para futuras conversas. Mas empaquei na metade para o final. Uma pulga saltou-me para trás da orelha e me lançava mensagens sobre se Saramago ali não estava me enrolando. Se Saramago ali não era mais o grande escritor de romances recolhidos como o magnífico "O ano da morte de Ricardo Reis", mas um comerciante nobeliado que aproveitava da grife que se tornou seu nome para fazer mais uns excelentes trocados. Pois o romance parecia estacado em volta de sua própria cauda. E depois da leitura desse conto de Carvalho, volto com afinco para as páginas do romance de Saramago, já desconfiado do leitor de merda e de pouca fé que eu sou. (Aqui entram elementos subjetivos da leitura: o assustador preconceito de alunos portugueses da Universidade de Coimbra contra estudantes brasileiros, aparecido nos jornais nacionais há poucas semanas, e a troca ainda mais assustadora de xingamentos entre brasileiros e portugueses pela internet devido a isso; e um link que o Matheus me mandou por e-mail de um artigo de jornal português falando sobre o passado de possível comunista truculento de Saramago, quando Saramago era diretor do Jornal de Notícias de Portugal; tais notícias me indispondo sem que eu veja e pondere racionalmente o peso de tais questões, me enquadrando no diagnóstico pouco alentador do conto de Carvalho.)
Leio até o final "O homem duplicado", com ira, tentando enfim tardiamente me inserir nas fileiras dos leitores de correção militar e me ensinar à marra um pouco de ortodoxia. Dispenso os afazeres comprometidos do dia, coloco para tocar as sublimes sonatas para piano executadas por Ronald Brautigam, e me assumo em férias diante o romance de Saramago. E Saramago aqui me surpreende mais uma vez. Se durante a leitura venho medindo forças entre ele e Javier Marías para ver quem é o melhor, Saramago faz aqui o mesmo nível de mestria que Marías faz em "Os enamoramentos". Abandonar Saramago pela metade seria um erro enorme. O homem duplicado é uma obra fechada, seleta, minuciosamente construída, e que só revela seu sentido e coesão quando chegamos às belíssimas últimas páginas, assim como acontece com o romance de Marías. Ali a força da escrita renovada, o acontecimento gratificante da palavra, e uma das formas de levar os melhores genes adiante da humanidade, de confrontar sossegadamente a bestialidade do que jaz lá fora. Tudo o que Saramago ia fazendo que a mim parecia excessiva dedicação aos movimentos cotidianos de seus personagens, não era outra coisa que reafirmar conscientemente em sua arte o papel de individualidade em um mundo em que, nas palavras de Carvalho, força-se para imperar a "burrice e a truculência". Por isso eu, um leitor tão auto-arvoradamente primoroso, deixei escapar por elementos discriminativos vagos e vazios, o que Saramago estava a dizer, deixei que me faltasse a perspectiva certa para apreender o quanto profundamente significantes eram os movimentos de Tertuliano Máximo Afonso, o personagem do livro, em seu apartamento, em sua sala de aula como professor de história. É muito bom sentir o ensejo e a paixão da literatura legítima em tais exemplos com equívoca e maquiavélica roupagem trivialesca nessas duas obras.
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