quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Semana Grandes Escritores: Quarta-Feira de Saul Bellow



A ambição de Bellow era usar uma linguagem semelhante às músicas de Mozart: simultaneamente ágil e profunda. A construção de sua carreira literária, já partindo desse primeiro intento, exigia uma reavaliação das pesadas heranças que recebia, tanto da literatura da primeira metade do século XX, que tinha seu centro em Faulkner, tanto das tradições do judaísmo que mantinham ainda sólidos padrões de conduta  culturais e religiosas em sua  fortalecida repaginação  no capitalismo norte-americano . No conselho de Hemingway, Bellow tinha muita coisa para matar. Era um judeu canadense erradicado em Chicago, assimilado pela vida frenética dos E.U.A, apaixonado pela vertente imperial das revelações de alcova da insurgente indústria da fofoca sobre os homens e mulheres do poder, enebriado com o vício de consumo de ideias que a indústria cultural havia determinado seu  país de adoção como o porto de chegada para os mais importantes intelectuais do pós-guerra. Sua alta inteligência tinha plena liberdade para materializar o novo escritor que a América precisava, que estivesse condicionado a defini-la em seus novos ciclos evolutivos, sabendo que o regionalismo mitológico de Faulkner já havia sido esgotado por Faulkner, e que a heróica távola de grandes escritores sociais formada por Steinbeck e Dos Passos já não produziria descendentes para os novos problemas que a América ultra-capitalista requisitava. Na verdade, Saul Bellow era o mais acabado produto dessa América espiritual que se vendia ao oportunismo de ser a nação dirigente do mais luminoso estágio da democracia neoliberal da História, e teria sido consumido por ela, se não possuísse a voz de desbravar tudo que havia de deletério, efêmero e devastador subjazendo sobre o seu hedonismo babilônico.

O mais incrível de se observar no estilo de Bellow é que ele é altamente vendável. Na maioria das páginas de seus livros acontece tanta coisa, expressa-se tantas ideias, trafega-se por cenários cosmopolitas de tantas descrições de prédios, escadas de incêndio de subúrbios, tribunais rescendendo a decisões do poder sobre  a vida de cidadãos anônimos, carros e os aparatos luxuosos dos muito ricos, que essa euforia cativa o leitor, resgatando-o da literatura existencialista, sombria e comparativamente inerte, que se fazia até pouco tempo antes dele. Bellow se tornara ágil e profundo como as sinfonias e concertos de Mozart. Suas frases são curtas, seus personagens, apesar de super-cerebrais, são entidades que acreditam na realização do impossível que há por debaixo da trivialidade cotidiana, lançando-se em aventuras que sempre estão na contramão do manual de Wall Street sobre sucesso financeiro. São ingênuos intelectuais de Q.I. altíssimos que estão nas mãos de beldades femininas dominadoras e esquizofrênicas, de gângsters que usam os ternos mais caros e depredam Mercedes com tacos de beisebol, e que são tão jocosamente grotescos que os seguram pelos braços enquanto fazem suas necessidades em banheiros públicos. Bellow abraçou a heresia de não se deixar influenciar diretamente por nenhum dos grandes escritores canônicos, nem Thomas Mann, nem Kafka, nem Faulkner, nem Joyce. Apesar de seus dois primeiros romances serem expressões de suas leituras de O Processo e Metamorfose, quando finalmente alcança seu estilo independente, é a  vigorosa natureza espontânea  dos poetas beats, dos escritores marginais da contracultura, dos autores de policiais noir urbano, que se vê em seus livros. Como um empresário que domina com total controle desde a linha de produção, as cores da propaganda que agradam ao público, até a venda sedenta do produto acabado, Bellow entregava ao mercado editorial romances em que escrevia o que queria, contra o que queria, e eles vendiam milhões de exemplares. Herzog, uma de suas cinco ou seis obras-primas, por exemplo, renova o gênero do romance ensaio e fica por 54 semanas encabeçando a lista dos best-sellers do New York Times.

Quando da espera de que a Academia Sueca notificasse o prêmio de literatura de 1976, vários jornalistas se posicionaram diante a casa de Jorge Luis Borges, pois era fato consumado que aquele ano o Nobel seria dele. Saiu para o Bellow. Perguntado o que achava dessa decisão, se era algo injusto, Borges respondeu que não poderia avaliar, pois nunca tinha lido o laureado. Essa afirmação só conta como demérito para a vasta cultura livresca do grande argentino. Alguém que já havia traduzido boa parte da produção de Faulkner para o espanhol, e que por muitas vezes fizera resenhas que evidenciavam sua admiração por Faulkner, desconhecer o único sucessor à altura do autor de O Povoado, era uma brecha vazia em sua vida de leitor profissional.

Bellow, como escreveu Philip Roth, no indispensável Entre Nós, alternava seus romances entre os que mostravam sua veia extrovertida, expansiva e exuberante (desculpem a aliteração), e os que mostravam seu lado introspectivo e filosoficamente desencantado com o mundo. Na linha dos primeiros, temos As Aventuras de Augie March, O Legado de Humboldt, Trocando os Pés pelas Mãos, Henderson, o Rei da Chuva; enquanto entre os últimos, temos O Planeta do Sr. Slammer, Herzog (que tanto pode ficar entre os primeiros quanto entre os segundos), A Mágoa Mata Mais, e Dezembro Fatal.


Bellow certa vez escreveu que todos os grandes livros são esotéricos. Suas análises deslumbrantes sobre a América espiritualmente decadente e promíscua, que recheiam seus romances, mostram que era não só o maior escritor em língua inglesa da metade final do século passado, como o mais independente. Numa época em que dizer-se ateu ou agnóstico, apegado aos milagres da Ciência, é um dever dos intelectuais, Bellow falava que as certezas produzidas por nosso pensamento tão limitado a essa faixa da existência nunca o convenceram. O inesquecível sr. Sammler, em um de seus maiores livros, um judeu exilado na vida moderna de Nova York, sobrevivente de um campo de concentração, desiludido e cético quanto às crenças iluministas da superioridade humana, se compraz a ler, diariamente, na biblioteca municipal, o mesmo trecho do frade medieval Meister Eckhart, sobre os pobres de espíritos abençoados por Deus. "O Sr. Sammler não podia dizer que literalmente acreditava em tudo o que estava lendo. Podia, porém, dizer que não desejava nenhuma leitura a não ser aquela", Bellow escreve.


Cada livro de Bellow passa essa sensação, de se estar lendo algo muito moderno e assimilável, mas de que, na verdade, vem de uma mente para a qual a última palavra sobre as coisas ainda está longe de ser dita, de um senhor indignado com o rumo que a situação humana tomara e que só aparenta estoicismo, de uma alma antiga, em suma.

"E tudo isso deverá continuar. Simplesmente continuará. Haverá mais seis bilhões de anos de vida da humanidade. Chega a paralisar o coração o contemplar tamanhas cifras. Seis bilhões de anos antes que o Sol venha a explodir. Seis bilhões de anos. E o que será de nós? Das outras espécies e de nós? Como chegaremos àquele fim? E quando tivermos de abandonar a Terra para seguir em direção a outro sistema solar, que dia mais portentoso será esse! Mas, então, a espécie humana terá se tornado muito diferente, pois a evolução continua. Olaf Stapleton calculou que cada indivíduo do futuro viverá milhares de anos. A pessoa do futuro, de tamanho colossal, seria de um lindo colorido verde, com uma mão que terá evoluído, transformando-se numa espécie de caixa de instrumentos, ferramenta forte e sutil, o polegar e o dedo indicador capazes de exercer uma pressão de milhares de libras. Cada intelecto pertenceria a uma maravilhosa, analítica e coletiva mente, estudando e resolvendo seus problemas matemáticos e físicos, participando de um todo sublime. Seria uma raça de gigantes semi-imortais, esses nossos verdes descendentes, parentes e aparentados, levando, porém, em si, inevitavelmente, alguma forma das nossas amargas características, tanto como dos nossos poderes espirituais. A revolução científica estava apenas com trezentos anos. Como ficaria dentro de um milhão ou um bilhão de anos? E Deus? Continuaria escondido, mesmo entre irmãos poderosos no espírito, continuaria fora de alcance?"
                                ( O Planeta do Sr, Sammler, p. 186, tradução de Denise Vreuls, editora Abril)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Semana Grandes Escritores: Terça-Feira de Thomas Bernhard




Quando eu tinha 14 anos, um amigo metaleiro me apresentou a uma música chamada Paranoid, do grupo de hard rock britânico Black Sabbath. Foi uma catarse! Assim que a agulha tocou nas ranhuras do vinil e a guitarra propagou seus disparos sincopados pelas caixas de som, no último volume, meus pêlos da nuca arrepiaram-se e eu senti uma espécie de arrebatamento. De pronto, percebi que o jeito melhor de curtir a música era seguir o que meu amigo fazia, balançar a cabeça freneticamente de cima para baixo, e, com os braços simulando segurar uma metralhadora invisível, ficar como no centro de uma baliza girando o corpo e disparando bala em direção a todo os nossos desafetos _ desafetos mais ideológicos que reais, devido a nossa pouca idade. Toda vez que punha essa música para tocar lá em casa, me vinha a mesma encarnação de assassino serial desmedido, com sua felicidade sem culpa em exterminar o máximo de entidades que travavam a possibilidade de uma vida mais fácil no mundo real, professores, diretores, o FMI, a fome na África, Margareth Thatcher. Eram menos de três minutos em que Ozzy Osbourne gritava "can you help me? Occupy my brain ? Oh yeah!" e que eu tinha para promover um banho de sangue e a explosão de prédios federais. E o curioso era que a sensação compartilhada por todo pré-adolescente que ouvia Paranoid era a mesma, o que tornara essa música um hit mundial que atravessara as décadas de 1970 e chegara com a mesma força ao final dos anos 1980. Mais tarde, depois que esse estilo de música já não só me oferecia  mais desabafo algum como não suportava mais seu encanto circense, (Nick Hornby dizendo o quanto a maturidade o fizera mais triste por não poder mais ouvir Rat Salad, do Sabbath, e Heartbreak, do Zep, sem peso de consciência), já tinha todas as leituras de Marcuse e Adorno para saber que o massacre real era a inteligência imperdoável da Indústria Cultural em conhecer essas fases da insatisfação humana e simular provê-la com bugigangas inúteis. Era o mesmo princípio tanto de controle social quanto de vendas exorbitantes que estava por detrás de adolescentes apascentados de serem violentos pela evocação fantasiosa da violência, e de crianças de um ano e meio como o meu filho o qual vídeos de homens vestidos de palhaço pulando numa felicidade eterna fazem o serviço doméstico de hipnotizá-los enquanto a mãe cozinha o almoço, e, não menos importante, inoculam já o princípio da saturação para que se compre o mais novo e melhor vídeo em que, dessa vez, os homens vestidos de palhaço prometem uma felicidade mais intensa, um controle social mais inescapável. Em suma, algo complicadíssimo!

Em seu livro Cultura de Massas no Século XX, Volume I, Neurose, Edgar Morin escreve que por mais que a Indústria Cultural emplastifica e padroniza na fria escala da produção em série uma ideia, extirpando-lhe o risco da genuinidade e tornando-a o produto seguro, sem ideologismos e transcendências, ainda assim _ diz Morin_, algo da intenção espiritual de seu autor subjaz, numa réstia de brilho autêntico. Ou seja, por detrás da inocente reverberação de Paranoid, ainda assim a fúria marginal do pobre testador de sinos que trabalhava no centro industrial londrino antes de se tornar o rock star Ozzy Osbourne, transparece por sob as poses demoníacas e os teatros de macumba que envolvem a indútria do hard rock.


Baseado nessas novas vacinas adquiridas contra a catarse oferecida pela indústria, em qualquer nível, que eu demorei mais de dez anos para ler Thomas Bernhard. Tinha a convicção, alimentada pelas loas e reverências da imprensa e dos meios acadêmicos após a sua morte, que ele não passava de mais um desses produtos dotados de brilho interno que a confecção da cultura viam por bem ter que preservar, mas que servia plenamente aos objetivos dessa indústria e dessa cultura de consumo sofisticada. Era francês demais, e nunca suportei os franceses, excluindo Stendhal. E seu mote era o pior possível, uma versão adulta do que Paranoid fazia ao nível da meninice, ou seja, botar ao chão todas as partes da sociedade que ele escolhia como deletérias e não deixar sobreviventes. Eu estava envolvido demais com a literatura legítima dos norte-americanos, hispano-americanos, e os alemães célebres da metade inicial do seculo XX, que falavam sobre personagens e situações verdadeiras, sentimentos e agonias relevantes, para perder tempo com um eleito monotemático, um queridinho de professores universitários. Bastava-me como esclarecimento geral ler algumas análises sobre seus livros principais saídos na imprensa miúda, o que não mudava minha decisão de que o austríaco genial, o maior autor alemão dos últimos tempos, não passava de um caluniador minimalista, rancoroso, ao estilo do pobre do Onfray atual. Decididamente o esqueci, até que o Milton Ribeiro ou um dos comentaristas de seu blog citou o enterrado Bernhard com uma entonação especial, que me fez procurar um de seus romances cultuados, O Náufrago.

O Náufrago, que adquiri por birra de não ficar para trás do público letrado do Milton, poderia ter sido o único livro de Bernhard que eu leria. Um romance competente, grandioso, forte, alucinado, o que já serviria para derrubar o preconceito, do alto de meus trinta e cinco anos, que se represara em mim contra o autor. Mas o Milton estabelecera que O Náufrago não era nem a metade de Extinção, o romanção escatológico que era a súmula das qualidades de Bernhard, o que atiçava mais ainda meu desejo o fato de Extinção ser um dos dez títulos mais procurados e difíceis de se encontar no mercado de livros usados nacionais. A Companhia das Letras lançou uma só edição, que se esgotou rapidamente. Foram meses de consultas diárias a sites de sebos sem que o achasse, o próprio Náufrago tendo sido uma sorte imensa tê-lo comprado num supetão, pois também não aparecia quem quisesse abrir mão de seu exemplar para a venda.

Comprei Extinção por um preço salgadíssimo, trêmulo de medo de que o vendedor me mandasse um pedido de desculpas pelo equívoco de não informar antes que o exemplar já havia sido vendido. Li em três dias e, como é óbvio na confecção não-gostava-passei-a-gostar desse post, a coisa atingiu fundo, me trouxe a sensação de que a crise da beira dos quarenta anos fora atenuada por ainda poder-se descobrir livros tão vivificantes e empolgantes quanto esse. Realmente não havia me enganado com minha ideia de que Bernhard tinha apenas um tema. Da primeira à última página (a começar antes, pela mensagem concisa do título), Bernhard não faz outra coisa que desconstruir e atacar a instituição hipócrita da família, a medianidade inculta da Áustria, o vazio vaidoso da cultura alemã, a conivência simpática da população aos nazistas, o catolicismo, a burguesia, o capitalismo, o comunismo, toda a vida humana em si com seus arquétipos falhos de normalidade e, sem que essa aversão unânime lhe fizesse cair a crítica de que a lucidez de ver a corrupção torna o denunciante o único que se salva, o personagem de Extinção fecha a fila com sua própria destruição. E o estilo de Bernhard, carregado de síncopes, de frases aliterativas, de uma compulsão constrita que faz lembrar o depoimento de um louco, de um doce de tão apurado ódio aos limites tacanhos da existência imposta, serve a endossar além do gesto do leitor em encerrar a última página, fechando o livro, a alta qualidade de sua ficção de que o próprio volume faz parte do contexto ficcional, por ser o diário de um homem ao extremo da saturação. Extinção é como ver o quadro por inteiro de um Pollock, ou de um Picasso (não importa a escola pictórica), e saber que todo ele é uma obra em concordância intrínseca desde os pequenos detalhes  no centro até a moldura. Por isso, e pela absorção e pelo prazer que me proporciona (já o li mais duas vezes), considero-o um dos mais perfeitos romances.

Extinção, entre os livros de Bernhard _ por mais que O Náufrago, Árvores Abatidas, O Sobrinho de Wittgenstein sejam grandiosos _, só é alcançado pelas biografias de Bernhard, compiladas em Origem. Origem chega a ser superior a Extinção, (uma felicidade), principalmente por a biografia servir melhor à força da prosa de Bernhard do que a ficção. Há páginas em Origem que de imediato o leitor treinado identifica como entre as maiores produzidas em todo século XX, como a do bombardeio das frotas aéreas dos Aliados a Salzburgo, e dos percalços do jovem Bernhard pelos muitos hospitais em que tenta se curar de sua doença dos pulmões.

Origem mostra um Bernhard terno, profundamento compadecido da condição humana que atola o espírito do homem na mais insondável alienação e bestialidade. As várias partes que dedica a descrever seu avô são muito tocantes. A relação de Bernhard com o avô, a única pessoa que verdadeiramente o escritor amou sem reservas, atinge um patamar tão alto de sinceridade, que não poucas vezes me deixara emocionado. A descrição de sua pobreza absurda na infância, quando moravam sua mãe, seu pai, um ou dois outros filhos do avô, e o avô e a avó, numa casa minúscula, dão a conhecer o Bernhard não ficcional, o que não é o Franz-Josef Murau de Extinção, o Bernhard que se revela nos vários momentos em que escrevera as 5 partes dessa biografia como um homem cuja vida toda fora não deixar-se absorver, não deixar-se apanhar pelas circusntâncias sociais, pelas correntes forjadas do espírito, pelos cabrestos catedráticos e políticos, partidários e patrióticos. Assim como ninguém daquela casa paupérrima perturbava o avô de Bernhard em suas perseverantes tentativas de escrever um romance que lhes trouxesse a liberdade financeira, Bernhard também promovia a sua escrita isento das responsabilidades prementes do mundo, tendo absorvido a vontade do avô de que fosse um grande intelectual, alguém distinto da massa de idiotizados e levados em infinitas conversas que compôe a sociedade dos homens.

"De tempos em tempos, as doenças, reais ou não _ nas palavras dele_, eram necessárias para que as pessoas refletissem sobre coisas acerca das quais  não pensariam se não tivessem adoecidos temporariamente. Se não éramos obrigados de forma natural, ou seja, por nossa própria natureza, a frequentar esferas propícias a tais pensamentos, como sem dúvida o eram hospitais como aquele e hospitais de modo geral, precisaríamos recorrer a artifícios para visitá-los, ainda que tivéssemos de descobrir, inventar ou mesmo produzir artificialmente em nós mesmos a doença que nos obrigasse a procurar os hospitais _ argumentou ele _, do contrário jamais teríamos aqueles pensamentos de importância vital, decisivos para a existência. Na verdade, nem precisavam ser hospitais, admitiu, cadeias também nos possibilitariam aquele tipo de reflexão, ou talvez monastérios. Mas cadeias e monastérios, prosseguiu, nada mais eram do que hospitais."
                                (Origem, p. 353, tradução de Sérgio Tellaroli, Companhia das Letras) 


Amanhã: Saul Bellow

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Semana Grandes Escritores: Segunda-Feira de William Faulkner



Os romances de Faulkner acontecem em quatro fases, cujas mudanças espontâneas e quase indistintas surgidas ao longo da narrativa são uma das excepcionais e superioras características do estranhismo de Faulkner.

A primeira fase é a da apresentação dos personagens e dos cenários, as primeiras tintas , respectivamente, de suas maldições históricas e da natureza indomesticável  avessa à presença do homem;

A segunda a inter-relação dos personagens entre si e destes com a natureza espacial mítica criada pelo autor;

A terceira, que tem a enganosa aparência de ser mais importante que as outras (tudo em Faulkner se complementa com o mesmo grau de relevância), é quando tudo se reviravolta e ganha rumos inesperados, quando as certezas estabelecidas com as quais o leitor tem a sensação de firmar o olhar seguro são desfeitas e o enredo passa a transitar por passagens surpreendentes, onde a complexidade geral surge por sob a suposta linearidade dos eventos;

A quarta e última fase é quando reinicia a repetição do ciclo, e o estranhismo _ traço essencial a um grande escritor _ se assenta, com seus ares de que está prestes a solucionar os enigmas propostos ,  mas que na verdade impõe o que uma arte que se iguala ou ultrapassa a casuística da vida tem a determinação de expressar: a de que não somos destinados a existir em um universo seguro, com regras pré-estabelecidas, e não nos será revelada a solução dos mistérios. 

Qualquer um com aptidão física para repetir essas prestigitações da escrita pode simular fazer a mesma coisa, mas Faulkner, como poucos criadores _ e estando em um patamar acima dos bem sucedidos entre eles _ , consegue jogar por sobre suas páginas o jorro luminoso da uma poderosa autenticidade; seus personagens são tão reais no que tem de erráteis, e sensíveis ao soco propulsor de seus primeiros contatos traumáticos com o mundo,   tão defensivos em repetir cegamente a violência que sofreram em cantos escuros da infância e propícios a serem vetores da infindabilidade do medo e do abandono, que suplantam os esquematismos técnicos da ficção genialmente urdida para ganharem ossos, carne e espírito.

Os piores entre os piores homens de Faulkner sempre tem um passado em cuja  indequabilidade a um mundo corrompido ativam seus recônditos potenciais de adaptação, eximindo-os de compreender, e os tornam proficientes a falar o mesmo idioma da rejeição sofrida. Em algum momento deixam de ser ternos, assustadiços e silenciosos, principalmente quando uma etapa da sucessiva violência a que são vítimas demonstra-se brutal demais para que possam prosseguir com a mesma integridade, e se tornam mesquinhos, inumanos e silenciosos. A maior parte dos homens-demônios de Faulkner tem essa constituição: ser quase por completo silenciosa. O silêncio torna-se um escudo físico que mesmo para Faulkner ( que era o primeiro a se assustar com suas aparições de erradiações sinistras, antes de moldá-los no discurso) era uma barreira indevassável que não conseguia tornar efetivamente translúcida, daí que, nessa fase de construção degradativa dos personagens, Faulkner passa a descrevê-los utilizando elementos instrumentais de um materialismo duro, férreo, industrial. Os olhos de Popeye, em Santuário,  parecem-se com maçanetas de porta, a mulher de Palmeiras Selvagens possui o rosto vítreo de insondáveis móveis domésticos, Joe Christmas, de Luz em Agosto, parece a encarnação pétrea da geografia do sul dos Estados Unidos, tanto no que ela tem de carvonesca, quanto do maquinário explorador do trabalho dos sub-assalariados exaustos e  da inamistosidade sem vida das indústrias e das oficinas paupérrimas dos povoados de beira de estrada.

São propostas às criaturas de Faulkner as duas únicas alternativas de um mundo imisericordioso: o suicídio, ou a participação ativa na promiscuidade reinante. Os que rejeitam a primeira opção tem o benefício excruciante de progredir até o máximo que a torpeza e a inumanidade lhes permitem, e se tornam senhores  escravocratas, donos do condado, beneficiários dos galardões de uma sociedade covarde e amesquinhada diante suas opressivas estaturas de poder, de forma que são os homens que se venderam para ter seus nomes nos jornais, contas nos bancos, e juízes marcados nos bolsos do paletó.

São inteligentes e carnais demais para desaparecerem da existência por suas próprias mãos. Do ponto de vista das engrenagens sociais, não há muito a se condenar neles: são os promotores do que confere graça à vida, os que conseguem iludir que acabrestaram a furia caótica da natureza  pondo sobre ela o sinal do falso domínio do homem, os que simulam preencher o Nada etéreo e desesperdor com o pesadelo reconfortante da forja de tradições e mitologias para as quais se oferecem como alimento para o povo que os investem dos temores devocionais das divindades.

Os indefesos, os puros, indomáveis e incorruptíveis (como Boon Hogganbeck e o velho urso Old Ben, de Desça, Moisés, Quentin Sutpen de Absalão, Absalão!, e o retardado de O Som e a Fúria ), optam pelo suicídio, ou, na melhor das hipóteses (o que não configura uma terceira opção, mas uma abrangência da primeira), suicidam-se ao tomarem para si o silêncio das mortalhas em vida que os isolam do mundo. Daí tantas tias solteironas trancadas para sempre em casarões desabitados, diante as janelas das quais os vizinhos depositam diariamente um prato de comida, ou como o odor de putrafação de santidade que se desprende do pastor caído Hightower, ou como o retardado que narra a primeira parte de O Som e a Fúria para quem o instante perpétuo é a única sobrevida que ilusoriamente tem antes que o mundo o trage e destrua. O povo constrói os seus deuses, como também seus santos.

Por detrás do mundo de cores ásperas de Faulkner, de suas chuvas desoladoras, de suas florestas altissonantes, herméticas e pré-históricas, de suas vilas onde o tédio de antigos vícios sedimentados alimenta o veneno de velhos ressentimentos, de todo condado de Yokanapatawpha que reflete o provincianismo e a conjunção irredutível a um conservadorismo ultra-violento dos primórdios do coronelismo e dos amores patrióticos à terra; por detrás desse mundo onde tudo ressende a desumanidade, paira o que distingue Faulkner de todos os outros grandes escritores antes e depois dele, e o que determina a sua herança: a força de sua linguagem apoteótica, única, devastadora,  de sua beleza poética e de seu alcance esotérico, seu estranhismo, para o qual não se achou outro termo melhor  que "moderno", mas que não se enquadra aos meros exercícios de originalidade dos novos desbravadores da lingua e não se coapta a academicismos e teorias facilitadoras; sua imponência bíblica, sua carga de maldição profética, sua solidão intocada de ter nascido no país que talvez não fosse o certo para comportar seu orientalismo moral e sua inconformidade messiânica se não tivesse em sua linha genealógica pregressa antepassados como William Blake, Melville e Emerson, e cujo único filho futuro merecedor de ombrea-lo numa nova versão urbana e dessacralizada sendo o também não catalogável Saul Bellow.

 Quem tenta conhecê-lo através do inapropriado romance que a crítica oficial elegeu como o seu melhor livro, O Som e a Fúria, tem enorme chance de odiá-lo. Mas quem tem a felicidade de se desatrelar das ideias pre-estabelecidas, e parte para o universo faulkneriano através do cartão de apresentação mais fácil de Santuário, Os Invictos, O Povoado, ou o soberbo Luz em Agosto (que fez com que Sartre dissesse que "Faulkner é Deus"), é muito passível de acontecer o que Borges decretou em um de seus prefácios: não se sai ileso de um livro de Faulkner. Eu mesmo fui mudado em definitivo após ler Absalão, Absalão!, seguramente um dos três maiores livros que já me passaram pelas mãos. Absalão, Absalão!, assim como Desça, Moisés, são os títulos que oferecem com plenitude o tão famoso estilo faulkneriano, num primeiro momento obscuro, difícil, intrincado, mas que, à custa de uma atenção absoluta e de uma persistência recompensadora, torna-se fluido, mágico, com sua abrangência que oferece um nível de informação e interação que dá inéditas capacidades à literatura ( muito copiada tanto por ficcionistas quanto por filósofos modernos, historiadores e cineastas).

É difícil identificar quais foram as influências de Faulkner. Parece que ele inventou um estilo do nada, sem dever nada a antepassados. Os únicos sinais perceptíveis são o da retórica do Velho Testamento. Sabe-se que Faulkner relia religiosamente a cada ano Dom Quixote, o que serve para atiçar mais a questão e não resolvê-la. Mas há muito de Shakespeare, algo de Henry James, Joseph Conrad, Dostoiévski e, de forma a complementar e não de tomar para si, muito de James Joyce. E não só esse estilo atlântico e sinfônico serviu a reconstruir toda uma potente literatura latino-americana surgida na última metade do século XX, caindo-lhe na necessidade de seus propósitos, como a temática social dos romances de Faulkner instruiu a voz denunciadora de escritores que aprenderam muito com ele, como Garcia Máquez, Vargas Llosa, Sábato, Ricardo Piglia, entre outros.

Para finalizar, confesso que nada foi mais impactante nesses meus longos anos de leitor profissional do que a súbita visão, no meio de uma narrativa caudalosa que não dá tréguas e retira o fôlego de tanta intensidade, da causa do por que o Coronel Henry Sutpen eximiu-se do que identifica um homem para um outro homem, e optou não tão livremente ao dedicado massacre de sua alma e da alma de seus semelhantes. Naquela clareira repentina  oferecida em uma das páginas do meio de Absalão, Absalão! , um jovem  Henry Sutpen, que progressivamente não tinha muitos motivos a apostar na bondade humana, decide, tenaz e disciplinadamente, a devolver em quádruplo dali para frente, a humilhação, a afronta e a dor inexorável que sofreu, quando ainda era tão imaculado e incorruptível.

O belo excerto abaixo eu o sei de cór desde quando o li pela primeira vez, há vinte anos. Trata de um hipotético encontro espiritual das almas cansadas do Coronel Henry Sutpen, após sua morte, com o seu assassino vingador, o velho e servil criado Wash, morto em seguida. Confesso que ainda me são tão belas essas palavras, que me vem lágrimas nos olhos. Está na página 170 e 171, da tradução de Sônia Régis para a Editora Nova Fronteira:


"Ele seguira o demônio doze horas depois, naquele mesmo domingo (e talvez tenham ido para o mesmo lugar; talvez lá onde estão agora ainda possam tomar um vinho de muscadínea, sem mais compulsão pelo sustento, ambição, fornicação ou vingança, e talvez até nem tenham de beber, apenas sintam falta do vinho de vez em quando, sem saber do que sentem falta, mas isso não é sempre; serenos, agradáveis, não-marcados pelo tempo ou pela temperatura do dia; apenas de vez em quando alguma coisa, um vento ou uma sombra, faça o demônio parar de falar  e Jones parar de gargalhar e eles se olhem, procurando às cegas, sérios, concentrados, enquanto o demônio diz: "O que foi que aconteceu, Wash? Alguma coisa aconteceu. O que foi?"; e o Jones, olhando para o demônio, atento também, também sóbrio, diz: "Eu num sei, Coroné. Que foi?"; e olha para ele. Depois, a sombra se apaga, o vento se extingue e Jones diz, sereno, sem nenhum triunfo: "Eles devem de ter matado nós, mas eles 'inda num pegaram nós, num é?)"


Amanhã: Thomas Bernhard

sábado, 8 de janeiro de 2011

Cronograma Para a Semana



Nessa semana que adentra, procurarei centrar a atenção desse blog exclusivamente a questões literárias. Será um desafio, pois escreverei os textos a cada dia, impondo-me uma certa disciplina que me afasta do drink noturno e me aproxima a uma média maior com a esposa, visto que estarei cordatamente escrevendo no notebook em vez de curtindo Charles Mingus aos goles desregrados de Johnny Walker ou Gato Negro. Por meu planejamento calculado, a organização será a seguinte:


Segunda-feira: William Faulkner
Terça-feira: Thomas Bernhard
Quarta-feira: Saul Bellow
Quinta-feira: V.S.Naipaul
Sexta-feira: Philip Roth

Serão textos apaixonados e os mais coerentes possíveis (sic), sobre autores os quais li toda a obra e domino plenamente a temática. E um exercício não tão apiedante quanto possa parecer: quando, há dez anos, deixei de fumar, não haviam tais recursos virtuais como auxílio.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Primeiro Coro de "A Rocha"



Paira a águia no alto do céu,
o caçador e a matilha completam seu círculo,
Oh, revolução incessante de configuradas estrelas!
Oh, perpétuo curso de estações determinadas!
Oh, mundo do estio e do outono, de morte e nascimento!
O infinito ciclo das ideias e dos atos,
infinita invenção, experimento infinito,
traz conhecimento da mobilidade, mas não da quietude;
conhecimento da fala, mas não do silêncio;
conhecimento das palavras e ignorância da Palavra.
Todo o nosso conhecimento aproxima-nos de nossa ignorância,
toda a nossa ignorância aproxima-nos da morte,
mas a aproximidade da morte não nos aproxima de Deus.
Onde está a vida que perdemos em viver?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde o conhecimento que perdemos em informação?
Os ciclos celestiais em vinte séculos
afastam-nos de Deus e aproximam-nos do pó.

(T. S. Eliot)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

On Grief and Reason


Vocês ficarão entediados com seu trabalho, seus cônjuges, seus amantes, com a vista de sua janela, a mobília ou o papel de parede de seu quarto, seus pensamentos, com vocês mesmos. Por conseguinte, tentarão imaginar maneiras de fugir. Além dos dispositivos de auto-satisfação mencionados anteriormente, vocês podem assumir novos empregos, residências, empresas, países, climas, podem assumir a promiscuidade, o álcool, viagens, aulas de culinária, drogas, psicanálise...Na verdade, podem juntar tudo isso, e por algum tempo vai parecer que está funcionando. Até o dia, é claro, em que você acorda em seu quarto em meio a uma nova família e outro papel de parede, num estado e num clima diferentes, com uma pilha de contas do agente de viagens e do psicanalista, mas com o mesmo sentimento de fastio em relação à luz do dia que se infiltra pela janela...

(Joseph Bródsky, citado por Zygmunt Bauman em Vida para Consumo, p. 144, Zahar editora, tradução de Carlos Alberto Medeiros)