quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Assim



 É costume aqui onde eu moro as pessoas que sentem a patológica necessidade de passarem a ilusão de serem ricas comprarem Hilux. Ontem ouvi uma dessas pessoas, no círculo de iguais, dizendo que está procurando uma Hilux para comprar. A reação foi como uma festa viking: todos a congratulando, dizendo "nossa, agora você vai ficar metida, hein!", e gritinhos eufóricos. O segredo é comprar uma caminhonete dessas com dez anos de uso, pois a lei diz que são isentas de imposto. Como uma nova custa 300, esses testes de laboratório do vazio cósmico as compram por 190: uma economia de uma vida para isso. Daí esse cidadão-cidadã médio sai com seu belo tanque cromado, com pneus altos para dar-lhe a sensação de ser um faraó agraciado pelo deus sol, vendo o restante do populacho de cima, com a cabeça erguida dizendo de toda forma metafórica possível: "Viram? Eu sou Elite! Sou superior e detentor de toda glória eterna e divina!". E etc, etc. Há dois anos, duas dessas Hilux foram roubadas na mesma noite de domingo. Uma delas, seu dono estava na Assembléia de Deus agradecendo por ser um Escolhido. Como esses macacos de realejo não tem mais grana alguma para pagar o seguro astronômico desses veículos, um roubo significa um prejuízo imenso, lembrado por anos quando todo mês tem que pagar a parcela do financiamento. Daí eu faço igual o Hermann Hesse, me aprofundo na carência regressiva que fez surgir esse sujeito espiritualmente mutilado até achar a criança primeva que me possibilite ter alguma empatia, e penso na minha vida. Eu só não suicidei porque tive filhos. Não é uma frase de impacto. Eu não teria me dado um tiro na cabeça nem saltado do décimo andar. Eu só teria bebido e comido até que meu corpo, um belo dia, bum!, explodisse. E teria sido, a seu modo, muito divertido: cada dose de scotch vislumbrando um cenário cifrado no rock inglês ouvido na acolhedora sombra noturna do quarto. Antes eles teriam que me aposentar, os amigos que resistiriam por alguma ameaça cristã de reciprocidade, e eu teria que fazer alguma memorabilia para ser cantada em odes menores nos primeiros dias de luto, depois que o IML me retirasse com a porta arrombada: eu teria que dar um piti numa festa de confraternização, quem sabe cantando a esposa do dono da casa, com meu pescoço gordo e meus olhos empapuçados, mijado na churrasqueira, abraçado cada um até cair no chão enquanto declamava Whitman ("Ah, como ele era culto e dizia coisas elevadas que ninguém entendia..."), e na certa nem teria sido expulso. Coitado, abandonado, sem filhos, sem esposa, um solteirão nerd cujo cérebro se liquefizera nos livros. Mas não choremos. Uma moça se grudou em mim por algum motivo e me passou o golpe da barriga (ela não lê isso aqui, portanto não precisamos usar esse tom sussurrado). Quando minha mãe soube que eu seria pai ela falou: "Meu Deus, o que vai ser da criança...!". Mas, contra todas as expectativas, inclusive as minhas_ eu odiava crianças!_, eu me mostrei um pai bem acima da média. Já escrevi vários textos chorosos sobre isso, mas é verdade mesmo, fazer o quê?, quando vi a Júlia ali na sala dos bebês, pela primeira vez, eu senti claramente que estava tocando o sol. Foi algo tão devastador que eu fui esfolado de dentro para fora e sofri uma mudança irreversível. Esses dias revi por acaso a primeira foto entusiasmada que tiramos da Júlia e dei um pulo de susto: era um ratinho indefeso e fragilíssimo que apresentei para todos como eu sempre a vi, desde aquele momento transfigurado, como o ser mais perfeito e poderoso que algum dia existiu. Há um poema de Brecht que diz que ele iria se conservar saudável e atento para não morrer prematuramente, assim não deixando abandonada a pessoa que ama. Demorou um pouco para que eu consertasse as coisas, mas então eu me mantive sóbrio e saudável, pesando o mesmo tanto de quando eu era um jovem Hércules de vinte anos. Eu não aconselho a ninguém que seja pai e mãe. Aconselho o contrário: fiquem de boa, sigam seus propósitos, não entulhem o mundo de lunáticos de coração triste, a não ser que VOCÊS TENHAM TALENTO E PREDISPOSIÇÃO E DEEM TODA A SUAS VIDAS PARA OS FILHOS (pronto, agora poderemos baixar o tom de voz e voltarmos para o nível elegante). Eu doo toda minha vida para meus filhos. Não cedo a extorsões sentimentais e sou grosseiro quando quero estar em silêncio e em paz, e muitas vezes meu carinho é brusco. E eu me esfoço para que o amor não me perca na missão de ensiná-los a serem seres humanos dignos. E blá, blá, blá, isso aqui não é texto motivacional. E o que essa coisa toda tem a ver com Hilux? Eu não poderia ser bom pai e ter Hilux? A resposta é não. Conhecimento de classe, psicopatologia cotidiana, honra ao Espírito, sentir lucidamente as emanações do apocalipse ecológico, dinheiro como liberdade educacional e não como impostura, não viver a vida que se exibe, não abrir tão ferrenhamente as portas para a depressão diante o vazio cultivado, não seguir o senso comum, não ser parte da manada, etc, etc, etc.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Fissuras




 Tudo havia naquela manhã para fazer com que Natália Mendes não saísse de casa, o aguaceiro de proporções bíblicas que começara a cair do céu, a indisposição da vizinha em cuidar de sua filha doente, até mesmo a insurgência de um vírus que as autoridades sanitárias passavam a dar particular atenção; mesmo assim, Natália achou bastante justificável do ponto de vista da lógica passar por sobre essas circunstâncias e ir à agência de correios retirar uma fantasia de feiticeira que encomendara da China. Não lhe passava despercebido, porém, que essa teimosia disparatada escondia um indicativo de um transtorno mental. Em pé na fila de espera dos correios, após ter enfrentado um trânsito que o radialista pelo rádio do carro disse ser “uma troca de rancores não direcionados”, atrás de um senhor que era a metade de seu tamanho e seus olhos magneticamente se prendiam em sua tonsila  avermelhada que em nada poderia produzir uma distração de melhor nível, Natália se fazia uma análise do que poderia ser os sintomas de que seu aparato interno estava por implodir, com um estrondo talvez semelhante ao da tromba d`água que se chocava do lado de fora da porta rotativa. Ela era uma mulher que certa vez um namorado casual lhe descrevera ter uma estética retilínea, coisa que ela tomara como retrato preciso de seu caráter. “Se fosse uma obra de arte”, o mesmo sujeito prosseguiu em sua piada de gosto duvidoso ou sua cantada ruim, “seria um Modigliani com a inovação de umas pinceladas sombrias”. Ela tinha sobrancelhas retas, o porte alto e esguio, o queixo mais pronunciado do que gostaria, os lábios finos e retos que tanto a incomodavam na adolescência (mas que agora, fruto dos efeitos da hidrostática, já lhe eram resignadamente indiferentes). Reconhecia que era uma pessoa com arestas, seca, monotemática, autodisciplinada em modo espartano para conter uma profusa rede de compulsões, sem simpatia e sem potencial para ser odiada, com a deferência sem vantagem da neutralidade deixada em paz das ferramentas altamente funcionais. Ela se fazia essas avaliações sem qualquer culpa ou necessidade de estorno emocional, como alguém que contempla um frio jardim de inverno observando com langor o traçado do vapor liquefazendo-se no vidro de proteção. A verdade era que ela daria tudo para sair daquele apartamento de capa de cd de música de câmara, com a meia luz descendente que vai enfraquecendo com uma errática impressão de charme assim que se saía da sala para o quarto. O quarto de tantos sonhos ruins, aplacados com dois comprimidos de Amitriptilina todas as noites. 

           Não era fácil ela dizer isso, mas ali naquele ambiente de pobreza protocolar e descaso, com uma estante tripla na parede atrás do balcão com as depressivas caixas de encomenda e um boneco em uma cadeira de rodas com o uniforme dos correios, ela sabia que fugia de sua filha Sofia. Aquele ambiente não oferecia nenhum escoro estético, nenhum refúgio para dissipativas ilusões sobre outros mundos possíveis que estivessem lá fora, além da tempestade, a aguardando. Se havia uma fixação na ausência de eufemismos, aquela sala seria a borboleta mais exemplar pregada no isopor, a amostra perfeita. Natália sentiu algo como os músculos da nuca se contraindo sob o poder daquele tédio em estado puro, de forma que não teve como conter um suspiro. O homem da tonsila se voltou para ela dando algo como um muxoxo de reconhecimento e movimentou as sobrancelhas, como a dizer “o que fazem a gente suportar, não é mesmo?”. Mensagens mal interpretadas e a fugacidade da simpatia urbana, é o epitáfio da sociedade do século XXI, ela pensou. Era uma frase típica de Thomas, o seu marido, o que ele diria para ela se estivesse ali, com a voz propositalmente entonada o tanto acima do sussurro para que o outro pudesse ouvir. A sua estranha necessidade de audiência, não para ter algum tipo de fetichismo tolo de reconhecimento por sua perspicácia afiada, mas porque era esse o atendimento a algum protocolo interno que nem chegava a ser manutenção do amor próprio, mas uma espécie de registros catalogados de seu estoicismo diante o mundo. Ela fechou, dessa vez, bem forte os olhos, para ao mesmo tempo expulsar e reter esse diagnóstico, queria desviar sua mente daquilo e ao mesmo tempo preservar a frase para quando chegasse o momento inevitável que teria que confrontar o tema. E nessa hora ela apenas pensaria, em silêncio consigo mesma, que também o século poderia ser definido pela empáfia das frases de efeito que para nada serviam vinda dos homens elevados. Elevação! Fez um esgar alto com a boca a ponto de temer que algumas gotas de saliva tivessem partido para a ilha na cabeça do baixinho à sua frente, e ficou retesa esperando que ele se virasse novamente, não mais tão estupidificado pela solicitude. 
          Mas não, tudo transcorrera mais uma vez em seus circuitos particulares, tudo estava em sua cabeça. Todas as dores, a solidão, a sensação de um abandono anestesiado e docemente dispensado de transcendência, aquele descuido com a alma que talvez fosse outra marca do século, apenas que ninguém mais aceitava tais palavras sem uma culpa diante a prepotência, tudo isso dentro fervilhando, aumentando a pressão e logo tendo sua defasagem calórica em alguma atenuante oferecida por outras sublimidades comezinhas do pensamento dentro dela, provocando ruído que não se excedia nem um milímetro para o ambiente atulhado de tédio e falta de misericórdia, ela e os demais sete ou outro pacientes da fila com suas torrentes de angústias e ânsias e severas distrações, viajando naquele mundo afundado em uma tempestade cuja mais benemérita era a que se ouvia lá fora, balançando a placa de proibido estacionar de frente ao prédio. Pois bem, que calma, apesar de tudo. Que silêncio. Nos jornais se parara de noticiar as tragédias entre vizinhos por causa desse direito salutar já desistido de se ter, não se computava mais os assassinatos, os crimes passionais, motivados pela cobrança de um instante só de silêncio, de sono regido pelo apagar profundo sem interrupção de fora, e ela entendia que não porque o ser humano houvesse tido algum istmo luminoso e repentino de evolução no sentido da cordialidade e do altruísmo, mas porque os medidores sistemáticos da loucura, a polícia, os médicos legistas, mudaram o procedimento, lançaram aquela realidade inexorável na fluidez das estatísticas gerais, talvez eles mesmos precisassem desse consolo, dessa ilusão.
        E era em ambientes arruinados como aquele que ela conseguia esse silêncio. Aquele amarelo antigo, alguma tinta que apesar de tudo tinha sua qualidade primeva porque tantos anos e sob o ácido de tantos suores ela ainda resistia, como uma combalida vítima de radiação, mas resistia, conservando uma integridade de certa nobreza já que se via o efeito dessas fricções de décadas no esmorecimento de sua força mas não em descasques e fissuras. Será que eles repintavam aquilo?, ela pensou, com apreensão. Será que eles vinham com uma tinta cuja fórmula só eles detinham e repunham aquela tristeza fria, desprovida até o grau mais profundo de graça, em algum domingo em que a agência estivesse fechada e assim conservasse o teor secreto daquela secular conspiração. Ela sorriu, isso seria o tipo de observação que teria alegrado Thomas, o teria feito soltar seu sorriso residual da juventude, em que passavam tardes assistindo as cópias piratas do programa de televisão do Monty Python, o ministério dos passos idiotas, o papagaio morto, o futebol dos filósofos. 
         Ela pôde ouvi-lo, dessa vez falando baixinho apenas para que ela ouvisse, chegando a boca próximo ao seu ouvido não dispensando a insinuação sexual do arrepio, que ela não tinha jeito, que imagem de soberba leveza, era assim que ele falava, sempre colocando as grandes palavras esvaziadas para que elas voltassem a ter um sentido no anacronismo das ruas, soberbo. Natália olhou à frente e havia mais cinco pessoas, duas tinham sido dispensadas pela atendente. Ela recolheu seu queixo para dentro da gola do casaco de feltro, assegurou num lance rápido de olhar se não havia nenhum alguém pelos cantos que ela não tivesse visto anteriormente e que pudesse a molestar olhando-lhe naquela sua intimidade e não viu ninguém, assim pôde usar a mão enluvada para esconder do vazio o sorriso aberto que tais pensamentos lhe provocava. Tinham tido a sua porção de felicidade, era isso. A felicidade nesses termos pequenininhos, quase invisíveis, tracejado na nota de rodapé das situações bombásticas, era a mais democrática das sensações para todos. Tudo mais foi um grande mar de agruras e incomunicabilidade. Mas vamos lá, vamos fazer um diagnóstico, ela voltou a pensar. Seria a reinante depressive personality, a patologia com etiqueta, que enfim insistia para tomar rumos bem menos retóricos nela? Thomas fora acometido com isso, e como foi terrível seus últimos dias. Um filósofo catedrático, era esse o fim que sua mãe jamais suspeitara que o destino agiria com tanta desfaçatez para lhe oferecer, ele lhe dizia, um outro tipo de alacridade instalado em seu humor como aquelas usurpações corporais progressivas dos filmes de invasão alienígena. De tais ele não apreciava muito, o horror de uma ciência que não passava de crendice popular insuflada pela linguagem pomposa dos jornais. Toda a apreensão científica se deve à maquiagem das fotos, ao cinemascope. Quantas horas são precisas para filmar uma sequência em slow motion de um sapo projetando sua língua para pegar a pobre libélula, e era isso que ficava na mente das pessoas, essa fórmula fractal de uma perfeição de relojoaria suíça, escondendo a abjeção, as falhas, os acidentes de percurso, os dejetos biológicos, as chances minúsculas que a vida real tinha para se preservar. 
        Mas ela gostava desse tipo de entretenimento, a banalidade era uma salvaguarda, os efeitos especiais que a cada ano pareciam mais ridículos a adstringência ao requerimento de certezas e precisão. Thomas, Thomas, como ela gostaria que ele tivesse resistido um pouco mais, mais uns anos, camarada. Ela teria sido submissa a um nível humilhante, se ele precisasse isso, ele, tão loquaz e charmoso, tão na verdade cândido em sua aparente frieza, tão incapaz do mal em sua indiferença que muitas vezes a sufocava. Ele era um especialista excelso, doutor em história em um grau avançado o suficiente para que as pessoas sentissem aquela convecção de uma presença física de seu poder, sentiam que era alguém que elas não gostariam de imolar. Nos jantares oficiais que ela tinha que ir, sua arredia e silenciosa esposa, ela percebia numa observação perscrutadora o quanto o simples silêncio avaliativo dele entre uma fala e outra, ou quando se preparava para responder a uma pergunta, a mais trivial delas, todos ficavam em uma expectativa suspensiva, como se algum prejuízo pudesse sair daquele totem da sapiência que engendrava vários fios do futuro individual. Alunos, colegas, chefes em busca de votos para cargos da reitoria, as orelhas da imprensa nos informantes à caça do q eu pensam as mentes potentes sobre a situação mundial e as novas promessas da política. Natália era atrofiada nesse nível de influências, mas não era tola em não pensar que por sobre suas conexões obtusas a tensão sexual desses elos secretos e proibitivos pulsava entre mestre e alunas. Teria tolerado que ele tivesse um caso com algumas delas, se isso servisse para poupá-lo porá mais alguns anos, o suficiente para Sofia entrasse de vez dentro de uma maturidade que fosse razoável para ela. Talvez não fosse tão ruim se pensasse apenas pela ausência de competição animal visto que no departamento em que ele trabalhava todas as mulheres fossem iguais a ela mesma. Pare com isso, Natália, ela se admoestou, que infantilismo tolo. Teria doído muito, teria transfundido a depressão dele para ela com força total. Ela teria virado a histérica que sabia ser abaixo, bem abaixo, do seu autocontrole maciço. 
             A verdade é que ele desistira. Ela olhava agora um dos adolescentes se virando e saindo com os passos retesos, mascando um chiclete e esfregando o nariz com a mão, o moletom em cores escuras, vermelho e negro, má percepção da moda, ou será isso que os motoboys das empresas estão usando agora, um a menos na fila e um a mais no tumulto do trânsito lá fora. Estava próximo para ser atendida. Era uma tolice ficar na fila, já que alugava uma caixa postal e a atendente lhe ter dito várias vezes que o contrato reza a preferência, só entregar a notificação de chegada e assinar o documento de recebimento. Mas Natália gostava de seguir o modo operante básico. Não saberia o que responder se alguém a cobrasse de furar a fila. Suas arestas ficariam boiando na liquidez de suas estampa cubista e sua presença estudada sofreria um severo prejuízo. Quem sabe não era isso que estava dentro dela à espera para colocar os monstros para fora? Quem sabe ela não recorreria a uma fragilidade que tentaria fugir na surdina e seria uma forte candidata a aparecer nos vídeos de fúria da internet. Eram assim as pessoas ponderadas descobertas em seus redutos mais secretos, explosivas, surpreendentes, subitamente se vendo dominadas em seus atos libertários por eros e pela ira. Baseado nessa precaução de reconhecer que o animal antropológico não resolvido, provocado nessa prisão urbana opressiva em todo seu medo assassino, que existe dentro dela, era que a fazia esperar cordatamente a sua vez.
          Ela olhou à sua frente. Havia sete pessoas na fila, duas delas senhoras com casacos compridos e que, olhando-as pelo ângulo das costas, os ombros encolhidos e as perninhas com meias abertas a uma distância condizente com o nível seguro de equilíbrio da idade (um tanto comicamente afastadas uma das outras), podia-se saber que já passavam dos setenta. Os outros cinco se dividiam na malta de jovens ouvindo música por fones de ouvido, um rapaz muito magro de olhar nervoso que uma vez se virou para trás para trocar como ela um contato precognitivo, e o senhor calvo de baixa estatura com o desenho geográfico-cubista no alto da cabeça. Além delas, havia a moça que os atenderia, claro, que Natália conhecia e, em ampliadas perspectivas, poderia dizer que era amiga. Sopesou essa palavra, “amiga”; não era uma pessoa sentimental e se dava demasiadamente bem com sua solidão para se deixar aventurar por tais conceitos muito desgastados, mas olhando-a dali, no momento em que seu pensamento pareceu ter-lhe tocado em uma outra comunicação metafísica mais consistente, de modos que a moça parou o que estava fazendo e ergueu a cabeça do prontuário que preenchia de um cliente, devolveu-lhe o olhar e sorriu, Natália sentiu com uma acalorada certeza de que eram amigas. Uma ternura agradecida fê-la sentir o que havia por detrás dessa palavra, amigo, e porque de certo modo as pessoas que levavam tal palavra a sério destinavam-lhe tamanha importância. Talvez seu problema seja, afinal de contas, só a velha carência, a patologia social moderna do século XXI, ela pensou, com os olhos brilhantes voltando a averiguar a atendente em busca de um outro contato. (Contudo, ela se lançara em uma atarefada ocupação de digitar algum formulário no computador.) 
          Natália tinha dificuldade em lembrar-lhe o nome, um de seus defeitos sociais mais angustiantes. Precisava chama-la pelo nome assim que chegasse a sua vez e ela se pusesse de frente ao balcão; viu que era de sumária importância fazer isso, de modos que estava decidida a virar as costas e sair dali se não tirasse o nome dela do inconsciente. Sua mente ainda era uma massa de conexões fresca e saudável, felizmente, apesar de às vezes achar que a aproximação dos cinquenta a deixasse um tanto retardada e amortecida. Pegando o rumo de uma série de sinapses que vieram-lhe em ajuda, ela se lembrou de quando a amizade surgira, o que se tratava de um acontecimento de certa forma memorável. Foi há dois anos. Um motorista incauto direcionou sua banheira sobre quatro rodas, um Ford Galaxy branco de mafioso italiano, para uma vaga de estacionamento de frente à agência. O carro dera uma estabanada bruta de ré em uma adolescente que estava sentada em sua bicicleta esperando na linha da calçada, e a menina foi lançada para debaixo da grande raia esmaltada do para-choque do veículo, o motorista, um velho marujo de bermudas cáqui e camisa entreaberta no peito, não tendo-lhe passado por cima porque as pessoas começaram a gritar. A balbúrdia chamara a atenção de Natália, que estava entrando na agência com seu olhar fermentado de íntimas distrações, se preparando para o arroubo de sinestesia entediante que o ambiente lhe oferecia. Nesse momento da lembrança, como num flash, o nome da atendente lhe surge: Erica. Como pudera esquecer? Natália levou Erica e sua filha para o pronto socorro. Olhava pelo retrovisor a cândida atendente chorando representando tudo o que ela demonstrava ser detrás do balcão, comedida, voz suave, uma batalhadora que sabe o quanto custa a vida. Alguém que deveria ter tido uma educação severa, uma mãe que agora ela lhe saíra uma cópia em termos de monasticismo e aflição. Mesmo tendo ficado evidente, ao longo do tempo em que conduzia o carro numa linha equilibrada entre cautela e urgência, que a menina estava bem, que fora só um susto, a pobre criatura parecia uma pietá com a cabeça da criança no colo, e era algo belo de se ver. Não pode espantar os indícios de que aquilo era uma mensagem direta para ela, que os arranjos da aleatoriedade disfarçada de sentido fizera para a educar. A pessoa podia ser educada pela ação das circunstâncias, não podia? Natália aceitava esse caridoso cuidado, seja de quem fosse, numa altura de sua convivência com sua filha em que ela tinha tudo para reparar nos seus desmazelos como mãe, em sua incapacidade de digerir as péssimas influências que recebeu no ciclo descendente de filiação. Sua mãe havia sido uma triste sofredora, sem canais comunicantes que dessem lugar ao terno reconhecimento da miséria mútua, que Erica parecia tão bem ter tido comunhão com sua mãe. Erica chorava, puxava a massa líquida que se produzira no nariz, depois apertava os lábios com uma lisura composta e, lá de trás em sua moldura renascentista, erguia a cabeça e olhava-a pelo retrovisor. 
           A amizade se firmava ali, naquela troca de olhares que Natália fingia não ter tempo para levar a sério porque não queria lhe afligir ainda mais a fazendo pensar que poderia ocorrer mais alguma agrura no trânsito, entre motoristas tão ofensivos. O médico examinara os tornozelos da garota, olhara o fundo dos olhos com uma luz estetoscópica, e educadamente retirara quaisquer dúvidas que pudessem ficar nas duas mães. Não havia nada, nenhum trauma além do trauma psicológico. Natália levou as duas para um prédio de lajota azul, de quatro andares e sacada pequena (o tipo de detalhe arquitetônico que evidenciava o tempo da república nova em que fora construído, sem funcionalidade que coubesse um ser humano ali em pé à frente da janela, apenas um adendo que só numa aposta muito particular se veria alguma preocupação estética em desafogar o olhar dos moradores dos espaços quadriculados em série que tendiam ao vazio de suas linhas amplas e sanitizadas de humanidade). Fora convidada a subir pelas duas, que mal lhe falavam no carro, mas que trocavam afagos em voz baixa, e ela, talvez numa falha de etiqueta que suportara por uma necessidade angustiante de manter contato mais aprofundado com aquela mulher, aceitou. Ela observou bem no rosto dela mas não viu nenhum repúdio, saiu do carro pela porta traseira segurando a filha e depois lhe dando uma espécie de concessão de toque no ombro que a autorizava a andar sozinha, embora ela tenha pego a sua bolsa e a pasta de materiais escolares da menina. Subiram as escadas escuras e comprensadas até o terceiro andar, Natália se sentindo uma prestidigitadora convidada em uma apresentação ao ver que sua estatura e seus traços singulares ganhavam uma estranha áurea de graça na espiral e na sobriedade anacrônica, como um ser vampírico que se equilibrava bem sem se apoiar nas paredes. Era apenas dois apartamentos por andar e o apartamento, ao contrário do que se via de fora, não era nada deprimente. As duas, talvez mais por empenho da mãe, gostavam de plantas, espalhadas em ângulos

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Cary Grant



 A Dani me mandou ir a uma marcenaria hoje de manhã para finalizar a compra de uma mesa. Mostrou-me uma conta de facebook com a pessoa com quem eu teria que falar, dona da empresa. Eu olhei bem as fotos, parado com o celular ao lado da Dani. Instintivamente, olhei para a Dani e disse: "É com essa mulher que devo falar?". "Sim", ela respondeu, descansadamente. É claro que a Dani tem plena confiança em mim e somos lúcidos o bastante sobre os efeitos naturais da hidrostática corporal, mas por mais que ela tenha consciência que um homem de 50 anos como eu já está há muito fora do mercado libidinal eu me senti ofendido que ela não se importasse que eu falasse com aquela mulher.

A mulher das fotos era simplesmente deslumbrante. Era perfeita! O rosto dela era tão cheio de detalhes significativos que era impossível ver tudo de uma vez. Era preciso fazer pausas e retornar à cartografia daquele terreno de altíssima octanagem um sem número de vezes. Era como o rosto do Cary Grant, se o Cary Grant fosse uma deusa loira dos olhos azuis. Eu pensei que era muito desprezo por parte da Dani pelo meu lado icognoscível e fiquei pensando se haveria na história matrimonial algum episódio de desavença por ciúme antecipado e criado pelo próprio acusado. Eu mesmo jamais, JAMAIS, deixaria que a Dani chegasse sequer perto de certo ortopedista de queixo quadrado e enfadado ar ibérico que mora na cidade.
Mas tudo bem, vamos lá. Era uma incomodação ter que me haver de novo com já acomodadas áreas de uma antiga vaidade, e em vez de ir de bermudas e chinelas eu me vi com calças compridas novas e uma camisa social fina mas não o suficiente para mostrar premeditação.
Estacionei o carro a uma certa distância, me admoestando por perceber que o fazia para não mostrar à deusa que eu não vinha com um Porsche 911 mas com um carro popular normal. Entrei na marcenaria, me dizendo que era uma atitude estúpida eu andar espichando a incipiente escoliose para ressaltar meus 1,90 metros, e perguntei pela mulher a um dos funcionários, citando o nome da beldade. Fui até onde ele me indicou e entrei no pequeno escritório. Bom dia, eu disse à moça, a senhora M. está? A moça sorriu de modo simpático e respondeu: "Sou eu, em que posso ajudar?"
Comprei a mesa, efetuei o PIX, saí com os ombros relaxados e entrei em casa feliz. A Dani me esperava com seu sorriso sarcástico. Eu parei de frente a ela e suspirei aliviado. Não era um teste, era óbvio, mas ela contava muito com o pouco caso que eu dou às formas a que chegou o autoengano na era cibernética.
"Você já tinha ido lá, né?", eu perguntei.
"Não notou o tanto que a cadeira dela fica distorcida na região da cintura, nas fotos?", a Dani disse, rindo com um ar cheio de faceirice.
"Será que não é um estratagema comercial? A pessoa chega lá apreensiva, e tem o choque de achar alguém igualmente consoladoramente humano?", eu ainda insisti.

Virtù

 



Ser filho de um casal que se divorciou quando eu tinha 8 anos desenvolveu bastante a noção do que meus pais temiam fracassar em mim. Os dois tinham pavores opostos. Meu pai, nos nossos encontros mensais, na certa passava noites sem dormir quando ouvia minha voz fina, o jeito sensível que um menino na ingenuidade do deserto hormonal tem de caminhar e de se portar. Minha mãe via em mim um pervertido, na linha contrária, que apesar da minha timidez patológica sempre dizia para eu ficar longe das primas. A natureza da supressão nos torna maquiavelicamente lúcidos, e eu recebia essas coisas com um ar terno, ainda não conseguindo verbalizar a verdade intuída do quanto eles, que eram pais tão jovens, se rendiam ao desamparo.

Um dia eu saí do banheiro e minha mãe entrou, fazendo uma cara de nojo profundo, cheio de temor averiguativo, por ter pisado em uma gota fria.
_ Calma, mãe!_ eu disse_ É só sabão.

A real

 



Cheguei à meia idade com a descoberta que só tenho um talento. Eu assobio muito bem. Uma coisa que não serve para nada, não atesta superioridade em relação a nada, e que sempre incomoda. Ao longo da minha disciplina por não assobiar perto de outras pessoas eu venho percebendo que o assobiador equivale ao cara que tem suvaqueira da braba: todo mundo faz cara feia e repudia mas nunca faz o que deveria fazer, que é chamar o sujeito num canto e falar a real para ele. O assobiador e o suvaqueiro, por isso, podem levar toda uma vida de má fama e ser enterrado como uma lenda nefasta, na completa ignorância de seu problema.

E, olha, não é por nada não, mas eu assobio que é uma beleza (aiiii!). Sei assobiar sonatas para flauta de Bach inteiras, assim como o concerto número cinco para flauta de Mozart (agora mesmo, enquanto escrevo, estou fazendo o bico). Esses dias, por uma grave falha, assobiei uma canção do George Gershwin, "There's a Boat That's Leaving Soon for New York ", no trabalho, e vi que alguém lá no fundo da sala assobiou em protesto, imitando, como um "cala a boca!", ou um "vá limpar esse suvaco!". É um dom que tenho que manter em segredo, sem nenhuma esperança de reconhecimento póstumo.

Pois bem, vou chegar onde quero. Não podendo exercer minha genialidade asquerosa senão em casa, aqui eu me dou a liberdade de ser uma Anne-Sophie Mutter dos beiços estendidos. Ando pela casa, que é grande, espaçosa, com quintal, me sentindo como se estivesse no Carnegie Hall, como se fosse uma noviça rebelde livre e solta, e só não estendo os braços para os passarinhos pois como bom conhecedor da minha arte sei que tal não é a posição propícia para o uso correto do diafragma para que ela se externize plenamente. Então assobio, assobio, assobio, até que...

...até que a Dani se vira para mim de súbito e solta um: "Nossa, mas assim você vai ficar bicudo!". Assim mesmo, na lata! Quinze anos de casamento, e só agora, ela me joga essa sobriedade inesperada na cara. Eu disfarço, rio sem graça, recolho meu instrumento passando a língua para umedecê-lo: a umidade da vergonha. Vou para o quintal e me sento na cadeira para digerir aquela revelação. Então a Dani suportou isso por 15 anos. 20, se contarmos as vernissages que eu fazia nas nossas andanças apaixonadas de madrugada, quando éramos namorados, eu assobiando o Principe Kalender enquanto a levava na garupa da bicicleta. Fi fufi, fifufifu, fi fu fi fi fu fi fu fiiiiii...

Eu ensaio ficar amuado, tentando acender um ressentimento manhoso. Penso em contra atacar mandando uma indireta no estilo "nossa, mas assim você vai virar uma Maria Callas", em referência à sua mania de cantar o dia inteiro. Mas, infelizmente, já passamos há anos por essa fase, e eu já me peguei deitando o livro no peito e cochilando embalado pela voz dela. A Dani canta muito mal, e ela mesma sabe disso, mas eu gosto de ouvir sua voz pela casa, cantando.

Nem estou com vontade de me vingar. Só me vem na cabeça uma música. Também é de um álbum do Miles. Como é que é mesmo?
A Don't Wanna Be Kissed (By Anyone But You). Firulivi fi, firulivifirí...



segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Insignificâncias




Eu antes desprezava psiquiatras. Achava que era coisa de rico vazio, etc, essas coisas. Daí com a pós-covid eu tive um quadro de depressão preocupante e minha irmã ligou para um amiga dela, psiquiatra em Brasília, e uma antiga amiga minha também de quando eu era estudante. Essa amiga me mandou um email marcando a data de uma consulta pelo zoom, em caráter de urgência e que ela não receberia um não como resposta. Isso me deixou com noites sem sono atormentado por aquela imposição ridícula e pelo desconforto de ter de ficar de frente a ela pelo computador falando o quê? Eu não sabia como deveria me comportar. Daí aconteceu, chegou o dia. Uma hora de consulta e eu tinha chorado e revelado coisas que nem eu sabia que tinha guardadas lá no fundo. Eu até brinquei dizendo que ela tinha que trabalhar era para a PF. Ela me passou a quetiapina, e mais um outro remédio para loucos brandos. Esse segundo remédio eu tomei por um mês e não senti efeito nenhum, a não ser a mudança da percepção das cores de algumas flores no quintal e a tendência de ficar falando para a Dani como a vida era maravilhosa. Olhei na bula para ver se tudo lá estava legalizado, vai se saber! A mulher era uma das minhas amigas da juventude! Eu fiquei satisfeito e feliz por me desobrigar daquilo com dignidade: eu havia chorado e tal mas havia a ética profissional, ela não iria me sacanear. Daí ela me manda um email por mês avisando que seria consultas mensais. Eu passo por todas, choro sempre, e descubro o quanto o ser humano é frágil. Cada movimento que fazemos, cada pensamento, está alicerçado numa coisa ruim por qual passamos. Eu pude falar da morte do meu melhor amigo de covid, que eu, numa reação estupidamente condicionada, fazia esforço por não me atingir tanto porque, afinal, eu era Homem (sim, se vocês caíram nessa balela de me acharem um sujeito culto, eis aí a matéria da qual eu sou feito). No final de cada sessão eu estava quase em posição fetal, entrado numa zona proibida tensa e sombria do meu espírito atormentado. Eu fui ficando liberto, sentava na mesa do café da manhã e falava com a Dani como nunca tinha falado antes, sem proteção, sem a crítica exagerada que eu colocava sobre mim mesmo. E tem o lance dos pesadelos: eu recorrentemente tenho um pesadelo horrível, de que estou só, absolutamente só, como se eu fosse um fantasma em vida. Neles, eu ando sem rumo pela grande cidade, à noite, sem nenhuma pessoa com quem conversar. Eu jamais imaginava possível confessar esse medo para alguém, e lá estava eu o destrinchando para a médica. Lembrei de escrever sobre isso nesse post hoje porque, depois de quase um ano de tratamento, voltei a ter esse pesadelo essa noite. Acordei angustiado, fui de cama em cama beijando a Dani (dormimos no mesmo quarto mas em camas separadas), a Júlia e a o Eric, para ter certeza de que eles estavam lá. Faz dois meses que não falo com minha médica. Cada consulta dela é o olho da cara, que ela se recusou terminantemente a cobrar. Pelo terceiro mês eu disse que não poderia continuar se ela não cobrasse, que isso seria motivo de um outro trauma e só ficaria pior pois eu teria que passar uma sessão inteira chorando para ela me livrar daquilo também, e só teria um jeito, se ela me cobrasse. Ela disse então que cobraria metade, o que, não tendo outro jeito, topei. Ela estava grávida e, durante uma das sessões, ela deu um gritinho porque a menininha havia lhe dado um chute por dentro. Nós rimos bastante e eu contei como havia sido maravilhoso quando a Júlia e o Eric faziam isso na barriga da Dani. Era a primeira gravidez dela. Há dois meses ela perdeu o pai e, há um mês, no último ultrassom que ela realizou para ver como estava o bebê, os médicos espantados demoraram nos exames recorrendo a todos os recursos e disseram a ela que sua menininha não tinha nenhum sinal vital, que eles teriam que fazer uma cesariana naquele exato momento. Ela estava no nono mês de gestação. Desde então ela desmarcou toda sua agenda profissional e está incomunicável. Não há como mandar nenhuma recado de pesar, e nem sei como seria isso, para alguém com quem eu descrevi com detalhes todos meus mais profundos horrores.
Todas a

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Miriam


Ontem me lembrei com certo saudosismo da Miriam. Há mais de vinte anos eu fiquei desempregado e resolvi atacar os bancos. Saquei toda a grana que tinha no meu limite e gastei toda a margem do cartão de crédito. Não tinha com o que pagar e não estava nem lixando para isso. Vivi um ano de uma renda de poupança que eu tinha e desse dinheiro do banco e do cartão. Ficava em casa, dormia bêbado de madrugada e acordava todo dia depois do meio dia. Era solteiro, vivia sozinho e não tinha que prestar contas a ninguém. Daí apareceu a Miriam. Não, não era uma mulher fatal que apareceu para complicar ainda mais minha vida, mas uma funcionária da seção de cobranças do banco. Era uma terrorista esquizofrênica, para resumir. A primeira vez ela me ligou, a voz aguda, parecendo de uma das irmãs da Marge Simpson, e já direto me disse que eu era um miserável de um vagabundo e que tinha que arcar com minha dívida no banco. Eu fiquei sem resposta diante essa técnica crua de convencimento, e confesso que, pelo estágio psicológico em que estava, quase chorei. Desliguei na cara dela. Ela ligou de novo, cheia da alegria da vitória por ver que eu era um bunda mole sensível, e me disse: "E além do mais é um viadinho chupa rola de um derrotado que não aguenta a verdade na cara. Paga o banco, sua bicha!". Vi que eu tinha que adotar outro método de reação e tentei argumentar, perguntando porque ela agia assim, que não precisava me ofender. Ouvi um suspiro do outro lado, e um silêncio, crente que a havia enternecido, mas então ela disse: "Eu não sou sua mãe, seu retardado, pra ficar com pena de você. Eu não tenho nenhum filho bandido estelionatário e ladrão que dá cano em banco. É graças a merdas como você que as taxas estão tão altas nesse país, para compensar a cara de pau". E ela dizia essas coisas todas com fúria, mas sem perder a compostura. Parecia que fazia as unhas ou dava o peito para um filho (aquele que jamais seria como eu), enquanto me descascava todo. Eu é que comecei a ficar puto com aquilo, e quando devolvi na mesma moeda ela recorreu a um nível de profissionalismo tão elevado que se eu reproduzir no Facebook eu seria bloqueado por um semestre. Eu não deixava por menos, chamava ela de puth4, bisch4te, mandava ela lavar a bwc3tt4, coisas que eu nunca disse a ninguém mas um desempregado não é um ser humano então que tudo fosse para a pqp. Ela deveria ganhar muito bem ou tremendamente mal, porque me ligava todo o dia ou por excesso de eficiência reconhecida ou para descontar em mim a vida dura que tinha. Eu esperava o telefone tocar, sabendo que só podia ser ela, porque com o desemprego eu me tornei invisível e muitas pessoas só foram saber que eu não tinha morrido quando ressurgi, um ano depois, concursado. Então, paradoxalmente, eu só tinha a Miriam. Uma vez a gente estava gritando um com o outro (ela já estava apaixonada, já levava a coisa para o nível pessoal, já tinha jogado o bebê para o berço e esbravejava com aquele seio pingando leite para fora do vestido), e ela disse algo de um grau de escatologia tão abjeta, tão impossível de ser colocada no limite do verbo, que ambos paramos para reavaliar aquela joia nascida do nada e começamos a rir. Ela ria que quase chorava. Ela disse: "depois dessa não dá, eu te ligo amanhã". Eu disse: "então tá, tchau". Passaram três dias e nada dela ligar. Eu fiquei ressentido por ter talvez dito algo inconveniente, que não tivesse sido demasiadamente ofensivo, que a tivesse feito desistir de mim. Mas eis que o telefone tocou, de noite, quando eu preparava uma linguiça para comer com um pão, enquanto ouvia um cd do Doves que eu havia comprado com o dinheiro roubado do banco. "O pilantra tá aí ouvindo musiquinha de marica. Vai pagar o que você deve ao banco, seu travesti de esquina". Eu corri para abaixar o som, feliz da vida, e devolvi o xingamento colocando a moral dela em dúvida e definindo certas partes de sua fisiologia de maneira nada meritosa. Recordo que bebi as quatro doses de Caninha da Roça com Coca-Cola, me sentindo cheio de animação por ter "falado" com a Miriam, e desmaiei. Acordei no outro dia com a Ana Maria Braga narrando os atentados às Torres Gêmeas, ao vivo, e vi que o resto de esperança que eu tinha se desmoronava, o que me causou muito alívio. Eu estava com o passaporte pronto para ir aos EUA trabalhar numa empresa de distribuição de propaganda em sinal de trânsito de um tio meu, mas o Osama bin Laden havia mudado meus planos. Mesmo novamente empregado, eu nunca paguei as contas do bando e do cartão. Fiquei cinco anos livre da escravidão do crédito, até que um dia o Serasa me mandou um comunicado, dizendo que minha dívida havia expirado. E ontem, não sei por quais razões psicológicas, assistindo à série Caleidoscópio, me retornou a Miriam à memória. Vai ver porque é uma história que trata de assaltantes de banco.