sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O oco da árvore da criança órfã foragida



A vovó Flora não tinha empenho nenhum na mesa na hora do café da manhã. Passou algum tempo depois que eu cheguei e a coisa ia desse jeito.
     Como algo que eu tenho que reconhecer pelo esforço tão acima de suas forças, ela mudou_ impôs-se uma mudança. Sua filha Helena, minha mãe, era uma moça loira que sumiu uma bela tarde em que tinha alguns anos mais do que eu tinha na época,  e só voltara quando a textura juvenil de sua pele havia se transformado em um estudo criminal de sua degradação. Com isso, causara o sério problema para a vovó dela também ter que encarar a incômoda verdade de sua total incompetência na vida adulta. Pela medição que minha avó fez apressadamente enquanto arrumava pela primeira vez em uma década o quarto do segundo andar para que nós ficássemos pelos seus prometidos apenas três dias, a menina, que já deveria ter 25 anos, não estava gorda. Era um ponto pra ela. Seu corpo adivinhava a escultura que tinha sido antes dela ficar grávida de mim, pois ainda era bem apresentável, sem culotes saindo pra fora da calcinha, os pequenos seios bem firmes sem qualquer artifício suspensório de sutiãs e enchimentos, as pernas surpreendentemente lisas como as da garota que havia abandonado a casa. Mas o rosto entregava tudo. O rosto de minha mãe se tornara deplorável. A gravidade agira nele sem a mínima ponderação. Pelo penúltimo dia da estadia de Helena no quarto, minha avó disse isso a ela; não poderia ser só a ação de surras eventuais sofridas nas relações humilhantemente subjugadas com os alcoólatras e arruaceiros; talvez fosse uma doença, uma velhice precoce. Minha avó lhe informara, com um tom engraçado e infantil, demonstrando esse tipo de interesse sagrado que as pessoas sem instrução tem pela ciência popular, com a mesma credibilidade com que se aceita como verdade o chupa-cabras e a invasão alienígena exponencial e silenciosa no planeta, que o pai da minha mãe talvez tivesse essa doença, que isso só podia ser genético e não vindo dela, já que ela, se não tinha o despudor de se achar bonita aos 68 anos, pelo menos suas rugas e sua tonicidade de pele correspondiam com precisão a cada um dos seus anos.
      Minha mãe não se importava uma migalha com seu rosto. Tinha uma distante lembrança do pai, um homem de olhos verdes que pelo fato de ter tido a honradez de assumir sua decisão de nunca mais voltar, nem para atazanar a vida delas, merecia o respeito de ambas. Talvez nem fosse isso. Talvez fosse um mero exagero da minha avó em tentar aliviar ali a decepção por vê-la de volta quando já a dava por morta, e ir suspeitando paulatinamente o esquema que minha mãe armava pra cima dela sobre ter que me criar por uns tempos, pois não tinha condições, estava na penúria, se morresse com quem ficaria o pobre diabo. Minha mãe não estava assim tão velha, ainda que muitas vezes eu presenciei os homens buzinando ao verem-na por trás e gritarem xingamentos alcoolizados e alegremente selvagens quando se viravam nos volantes e a viam de frente. "Vá fazer uma plástica, traveca!". Helena acendia um cigarro, puxava a fumaça, cansada e solenemente acostumada com a eterna avidez daquela fome que nunca terminava, as unhas pintadas descascando-se e a velha pulseirinha de couro com cheiro de escama grossa de pé, a dignidade de todo fumante em o tempo lhe respeitar o ato de fumar, nem sequer se preocupando em ouvir minha vovó, sua cabeça estando muito longe, uma mulher madura, dona de si, havia perdido há muito a capacidade de se zangar com as coisas triviais. Se precisasse beijar a vovó ela beijaria, se precisasse lhe pedir desculpas por seja o que fosse, pelo desaparecimento ou pelo reaparecimento, ela pediria, se precisasse olha-lá nos olhos e corresponder milimetricamente a cada ofensa que ela lhe pretendesse jogar em cima, desde a sua feiura ao seu fracasso amplo e descomedido, ela o faria. Era uma espécie de economia espiritual, a vida estava além disso; a vida era triste e dura e não colaborava com nada, mas estava suficientemente mais elevada do que esse nível rasteiro de besteiras irrisórias. Minha avó a olhava intensamente, apertava a boca e fazia um leve muxoxo, estendendo o lençol e o batendo no ar para a poeira cair e as pequenas exsudações do corpo evaporarem, e mudava de assunto, se rendia. Sentia um certo orgulho por sua filha ser assim; isso vinha dela, ela também era assim, fácil de lidar, sem preconceitos e sem superstições, apenas que a velhice traz esses vícios e a gente só percebe que deve se exorcizar deles quando vê que está os colocando em prática.
       Por isso vovó emprestou duzentas pratas para minha mãe ir resolver aquela parada na capital e aceitara ficar comigo por uns tempos. Não havia parada, a vovó sabia. Poderia ser um aborto, apesar do que a barriga tanquinho de minha mãe teria sido fácil de detectar. Poderia ser uma dívida com o ex-namorado que a estava ameaçando. Minha avó não quis saber e minha mãe não quis explicar, nem tocaram no assunto. Ela só disse à minha avó que precisava da grana, não pediu e não usou de subterfúgios. Agora estávamos há meses apenas nós dois e o Capitão Bombo, e nenhum de nós nunca voltou a falar de Helena. Era a família das despedidas impronunciadas sem prazo de duração; a família da época em uma idade da infância em que a maturidade compulsória se mostra com a porta aberta da casa, ir sem olhar para trás; dos adeuses sem ressentimentos, sem dó nem lamúrias, como a família dos lagartos em que a mamãe lagarta bota seus ovos em um buraco no meio das britas ou no lixo e não liga a mínima para o que vai acontecer em seguida, deixa que o relógio da evolução siga seu lento curso milenar com suas altas cifras de rejeição natural e fracasso.
     Minha avó durante os meus primeiros meses ali nunca acordava antes das 10. Os dias de trabalho dos dois_ dela e do Capitão Bombo_, exigiam muito, eu não os via senão quando a tarde caía e o ruído da casa vazia e do fluxo de carros da avenida em frente formavam uma nebulosa sonora indistinta, programada a se romper com a porta sendo aberta e os dois velhos entrando cansados e satisfeitos, com sacolas e a bolsa da vovó acrescida de peso produtivo que eles lançavam sem muita cerimônia por cima da mesa da sala. Eles entravam com o Fiat Uno cinza na garagem, sempre dirigido pela minha avó, que ia de queixo colado no volante e o banco puxado ao máximo para a frente, nunca olhando para os lados e usando os espelhos retrovisores com uma espécie de prestidigitação premonitória que contava mais com o bom-senso dos outros motoristas em não se aproximarem do que da necessidade da vovó de deslocar o pescoço da imutável posição retilínea a fim de ver a concorrência nas vias públicas, o velho Fiat amassado dos lados e de pneus sem calotas mostrando o metal calcinado das rodas. Minha avó parava o carro na contramão, o motor ligado, e da porta do passageiro saia o Capitão Bombo, com uma vagareza ritualística que lembrava o palhaço do circo do fusca que se parte ao meio em uma labareda de fumaça, indiferente aos contratempos e o menos serviçal possível às atualizações da tecnologia, a barba cinza batendo-lhe no peito, o chapéu de praia deixando entrever o rosto afundado nas duas faces pela ausência dos molares, a calça caqui de brim comprada no brechó e a camisa verde escura e desbotada aberta até o quarto botão para combater o calor; ele se aprumava sem parar o trote e ia bamboleante e esperto até o portão gradeado, puxava o trinco e o abria de par a par, e com um gesto sério e divertido fazia uma vênia cavalheiresca para a vovó entrar com o carro, e assim que ela o fazia (sem lhe prestar a mínima atenção com os olhos maníacos dirigidos para a frente, talvez como prevenção para que os eventuais acidentes que amassaram as portas não se repetissem em um momento tão delicado), ele apressadamente entrava e fechava o portão, olhando para os lados com o que me parecia uma encenação dos filmes policiais assistidos nas madrugadas dos finais de semana de folga.
     O Capitão Bombo tinha mais de 70 anos, mas vou tratar dele depois. Agora quero dizer de uma vez por todas sobre o maldito café-da-manhã com que comecei esse relato. Como minha avó não havia previsto a entrada de um menino de 12 anos no seu cotidiano, ela se comportava como vinha fazendo desde sempre antes da minha presença. Ela retirava o que havia de sobras da janta do dia anterior da geladeira e colocava na mesa da cozinha, cobria com um pano de prato e era isso. Eu acordava geralmente na mesma hora que eles, porque velhos fazem um barulho descomunal até que consigam endireitar a homeostase dos corpos, com pigarros, bocejos, afinamento das vozes, flatulências, etc, mas sabia que era mais prudente fingir que acordava depois de deixá-los ir para ter a casa toda para mim. Quando não havia mais som algum depois que o portão era fechado e o casquejo do Fiat sumia na distância, eu me levantava do pequeno quarto, ia mijar no banheiro, escovava os dentes, e espionava o corredor até a sala. Olhava os montes de objetos sem nome atulhando os sofá e a mesa de centro, os pratos com cascas de banana que fazia dias estavam ali, as latas de refrigerante amassadas jogadas no chão, a poeira acumulada no armarinho do canto com seu jarro de flor artificial que retinha de uma maneira triste e hipnótica um raio de sol. E o silêncio que era a única manifestação de alguma plenitude, a calma profunda e inviolável que eu não conhecia em meus anos de peripatetismo com minha mãe por apartamentos no centro e quartos em repúblicas cuja rotina eram brigas internas e externas e muita televisão ligada no último volume e muita música chorosa e áspera vinda de todos os lados. Entrava na cozinha minúscula, com uma mesa de fórmica e duas cadeiras e a geladeira de duas portas rombuda e manca, que dava um agudo quando era aberta, e via o que tinha pra comer, que era, invariavelmente, a carne de porco da noite anterior envolvida em uma névoa gelatinosa de gordura, o brócolis murcho reduzido de suas proporções naturais por um cozimento exagerado, cenouras anãs, um pedaço de bife preto, uma garrafa de leite que dava um piparote no nariz quando se chegava perto do gargalo. Mas isso não me importava_ às vezes eu limpava a carne de porco da gordura, espremia um pouco de ketchup e comia_, eu nunca acordava com fome.
    Eu amava ficar na casa solitária observando o silêncio por horas. Talvez houvesse uma fome íntima, muito incrustada para ser percebida, e ela potencializasse aquela languidez, me fizesse ver coisas que só um doente e alguém à beira da morte vê. Eu nunca, conscientemente, tinha desmaiado e não poderia saber a diferença entre um sono à tarde e um desmaio. O que acontecia era que aquele silêncio aos poucos me fazia dormir; eu deitava entre as caixas e as roupas na sala, espichava os braços e pernas até o máximo e me entregava. Acho que eu me tornei magro demais e minha avó passou a perceber isso. Ela me fazia sanduíches generosos quando chegava de seus afazeres, e duas horas depois ela e o Capitão Bombo preparavam o jantar que era a única refeição importante para eles, o Capitão Bombo se dedicando às verduras e a vovó se ocupando com as carnes. Os dois não eram nada bons nisso, ou melhor, eram destituídos por inteiro de qualquer talento para a cozinha, e não sei como sobreviviam há tanto tempo a uma dieta fundamentada na gordura e na transfiguração das propriedades nutritivas dos vegetais. Mas alguma coisa a fez ter uma súbita lucidez sobre a diferença entre as necessidades de um organismo velho e de um organismo jovem, talvez ela tivesse se ocupado em ler algum artigo sobre o assunto em uma das revistas que apareciam em sua bolsa e nas sacolas que trazia, ou alguém lhe dissera sobre as obrigações legais que se tem que ter com uma criança, aquelas exigências estatais sobre saúde e educação que se confrontadas pode levar a problemas relativamente sérios com a justiça, e então, um dia, quando me levantei e dei meus passos cautelosos até a cozinha, vi que haviam pães por sobre a mesa, uma sacola cheia deles, e além disso um pote de requeijão cremoso na geladeira e um litro de leite fresquinho, e mais roscas e algumas bolachas recheadas sabor limão em uma cesta ao lado dos pães. Eu não duvidei de que aquilo tudo era para mim, mas entendi a mensagem nessa outra ponta da comunicação familiar da forma como tinha que entender, que aquilo não era carinho mas uma boa reconfiguração na busca por eficiência e facilitação que eram as leis do nosso sangue comum, a mesma coisa que estava na calma estoica e superiora de minha mãe, o mesmo desapego ao sentimentalismo.
      Eu descobri depois o sacrifício de ter aqueles café da manhã para minha avó. Ela passou a acordar de madrugada, às seis da manhã_ madrugada para ela. Ela vestia seu jeans batido amassado nos fundilhos, o jeans de borracheiro muito lavado e escoriado nas pernas; vestia uma camisa de babados no fundo decote entre os lautos peitos os quais outrora haviam sido parte de seu vantajoso aparato sexual; colocava um cachecol vermelho berrante nunca lavado e de cheiro imemorial de guarda-roupa destoando por completo de qualquer noção de moda ou juventude que na certa ela não pretendia nem um pouco ter mas que talvez alguém de fora achasse ser sua intenção. Ela calçava as chinelas baixas, muito gastas e seguras, imunes a poças de água e a todos os perigos do instável relevo das ruas; apanhava sua bolsa de couro parecida com um alforje de muitos compartimentos de um caçador de grandes mamíferos africanos, e saía pela porta com seus cabelos crespos tingidos de amarelo amarfanhados como um ninho de pomba, os óculos gordurosos com lentes bi-focais a auxiliando com a maçaneta e o molho de chaves, no que ela soltava murmúrios reflexivos demonstrando seus cálculos mentais, seus pequenos desvanecimentos de atenção que a faziam voltar para pegar algo esquecido, a carteira talvez, e saía pelo portão para a assombrosa atmosfera desconhecida do amanhecer progressivo. Há quantos anos não via aquele tom de luz, aqueles nuances de sombra, não via que tipo de pessoa se entregava à labuta já nas primeiras horas da manhã, velhas paradas no ponto de ônibus da esquina com caras de que tinham um longo dia na cozinha de alguma bodega pela frente, motociclistas passando com indolentes ziguezagues entre os carros, só ainda não exercendo toda a fúria porque o sono não permitia, todo mundo esquentando as turbinas. Ela deveria ter sentido um enfado profundo por se expor a esse mundo de pessoas triviais e ditas honradas, ter se colocado entre os motoristas de táxi e as empregadas domésticas na fila para pegar o pão. Isso deve ter sido demais para sua capacidade de abstrair-se da realidade.
       O fato é que ela, uma semana depois que as coisas mudaram, me informou na mesa de jantar que teria que achar uma escola para mim. Ela falava um tom mais baixo sempre que se dirigia a mim, como seu eu fosse uma peça de um protocolo ainda não estudado, conservado à parte, reavaliando algum subproduto de sua imaginação de como seria uma avó ajustada em suas estimativas sem ser ridículo. O Capitão Bombo, que picava um tomate assado semelhante a uma grande bunda de formiga enegrecida, sorriu e me olhou rapidamente; eu devolvi o olhar à procura de significados, se ele estava zombando de mim, se achava a situação fantástica demais eu sentado em um banco de frente ao quadro, mas era apenas um sorriso, sem nenhuma consequência. Eu estava disposto a cair na chacota com ele, mas era apenas um sorriso.
        No outro dia, uma segunda-feira empoeirada e aparentando ter mais horas do que o permitido, a vovó acordou às seis horas e foi comprar o pão. Eu me levantei e fiz minhas abluções antes que o Capitão Bombo começasse com seus concentrados aquecimentos corporais, e me sentei numa área do sofá desocupada, afastando para o lado uma echarpe azul piscina. Era o último dia em que eu ficaria no silêncio orbicular da casa e eu tentava aproveitar, pegar algumas informações extras, mas só senti uma nostalgia antecipada de uma fase da vida ficando para trás. Olhei a flor de pano e o mesmo raio de sol começando a se intensificar por sobre ela, e senti uma vontade imensa de ter direito a apenas aquele dia a mais entre aqueles objetos órfãos eles mesmos de tudo que vicejava e competia entre si lá fora. A luz por sobre a flor descia lenta mas decididamente, ciente de que cumpria uma lei cósmica, e ia aos poucos se equilibrando até achar a mesma configuração modular de todos os dias, e ficaria como uma redoma por sobre aquele triste a manchado pedaço de pano que a vovó devia ter comprado ainda na época em que minha mãe morava com ela, até que, vencido as horas estipuladas, começaria a desvanecer com a mesma delicadeza, retornando para seu limbo no meio da escuridão, tudo na mais perfeita e inviolável ordem, sem labutas, sem gritarias, livre das obrigações do charme, da beleza e da vida. Eu queria que a vovó me concedesse a permissão de pelo menos aquele dia eu poder me deitar entre a bagunça dos panos e dos pratos sujos e dormir em uma paz opiácea e feliz.
      Mas aí o Capitão Bombo já se arrastava pelo corredor, me lançando de lá um cumprimento ríspido de marinheiro, distraído e enebriado pelas neves eternas de seu caleidoscópio mental. E minha avó chegou com os pães, me disse algo em sua voz média que era o mais próximo ao carinho materno que sua imaginação oferecia sem cair no ridículo; e sentamo-nos à mesa e comemos fatias de pão quentinho e delicioso com colheradas generosas de requeijão cremoso por cima. E ela e o Capitão Bombo conversavam esquematizando como seria o trabalho naquele dia, ela falando alto para o que deveria ser algum problema de surdez reconhecida do Capitão, e ele respondendo em sua voz de fiapo de fumante que se tornara tardiamente abstêmio, em grunhidos de preguiça malandra de velho que escondia de propósito sua inteligência real. Minha avó falava ao velho que as escolas abriam às oito horas e eles deveriam me levar para uma escola que ela conhecia por ouvir dizer que ficava na zona leste da cidade. Pelo visto tudo relacionado à educação era um planeta desconhecido para ela e mesmo bastante insólito, e minha mãe não havia deixado nenhum tipo de informação sobre as minhas escolas passadas, e parecia que me perguntar diretamente sobre o assunto era algo que ela não pensara em fazer. Disse-lhe que na cidade de I., onde morei nos últimos 3 anos, cursei até o sétimo ano, ao que ela me olhou pelos seus óculos bifocais como se eu tivesse dito algo inapreensível e sem a mínima lógica, como se tivesse dito que cursei ourivesaria ou estudado fisiologia de marsupiais. Em seus circuitos mentais exercitar o avatar de avó não passava pela hipótese de que o objeto justificador do conceito pudesse ter voz ou consciência própria: eu tinha que ser um menino mais dependente possível para assim ela ter uma real dimensão das assombrosas e indeterminadas responsabilidades do cargo. Ela associava aprendizado a afogamento.
        Estávamos todos vestidos, o Capitão com um macacão manchado limpo, cobrindo-lhe a camisa de brim marrom, um boné ressaltando seus grandes olhos de louco suspensos no reino da barba branca, minha avó com uma camiseta com uma estampa de um rosto feminino de óculos de praia e lábios sensuais mordendo um canudinho de um drink, e a calça jeans gastas na parte anterior das coxas, e as sandálias baixas super-práticas que eram suas marcas registradas. Eu me vesti com uma bermuda bege, que Helena me dera em meu aniversário, uma camisa polo azul, e os tênis que foram mais um agrado intuitivo que minha avó trouxera para mim. Eram uns tênis novos, brancos, com o logo da Nike pintados um pouco distorcidos_ com aquela distorção que a gente não sabe como explicar mas não é sutil o bastante para que o olho do inconsciente coletivo fiel às defesas do sagrado mercado internacional não o perceba como uma falsificação apreensiva.
       Entrei no banco de trás do Fiat e minha avó se sentou em seu lugar de piloto. Ela ajeitou o banco bem para a frente, como se alguém além dela o tivesse movido para uma posição inconveniente, soltou um xingamento quando viu que as engrenagens não possibilitavam ir mais além, se virou para mim e esticou o braço para colocar a mecha do meu cabelo de volta colado à cabeça. O Capitão Bombo abriu o portão de par a par, olhando para o dia radioso com uma indefectível saúde, como se o mar estivesse à sua frente e não o ruído sujo e atulhado da cidade cinza. Fechou o portão e entrou no carro, e fomos para o primeiro dia de serviço em que eu poderia assisti-los.
      Não achamos a escola. Minha avó ficou contornando ruas do centro e nada. Ela falava para o Capitão Bombo ficar atento aos números nas plaquetas, e o Capitão Bombo colocava o cabeça para fora espremendo os olhos, e depois voltava com um murmúrio de dúvida. De hora em hora perguntava se tinham dado o endereço certo para a vovó, lançando, quando ela estava suficientemente concentrada nas buzinadas e nos xingamentos que os outros motoristas soltavam quando ela os fechava, afim de não levar uma bronca, se ela havia copiado a coisa certa. Por fim, a vovó estacionou o Fiat debaixo de uma castanheira anã de frente a uma das pequenas e soturnas casas de uma rua que parecia idílica demais para realmente existir, e suspirou fundo. "É melhor darmos uma pausa e irmos almoçar", disse, jogando com uma força surpreendente o manche das marchas na posição de ré, ao que ele soltou um trinado horrível como de um porco sendo estripado. O Capitão Bombo sorriu, aparentemente feliz com algo que não era desse mundo; averiguei se ele sorria porque o destino encaixava as coisas de forma benemérita para todo mundo, poupando o absurdo de um sujeito como eu de frequentar a escola e das eventuais professoras terem de me suportar, e estava prontificado a dividir o sorriso em concordância, mas, pelo que parecia, não era isso. O Capitão Bombo era uma figura! Como se adivinhasse meus pensamentos, se virou no banco e me encarou, abrindo ainda mais o sorriso, mostrando pela primeira vez os dentes tortos, fortes, negros e sobrecarregados. Eu sorri da mesma forma, não de todo contagiado por causa do incompreensível deslumbramento que me tomou, mas senti um toque de concordância entre nós que destoava da regra, menos fria e funcional.
      A vovó estacionou de frente a um restaurante popular. Estava lotado de gente, as mesas todas ocupadas, em silêncio feérico e diligentemente combativo, testando a aliviante educação de não se atracarem por causa da comida. A vovó me cutucou indicando uma mesa desocupada lá no canto, de frente ao banheiro masculino. Sentei-me em uma das cadeiras enquanto os dois se posicionaram na fila de se servir da comida, e logo as outras cadeiras da mesa em que eu estava foram ocupadas por dois homens e duas mulheres. Fique levemente em pânico diante a estupidez de não ter reservado de alguma maneira aqueles lugares, e fiquei com uma timidez estagnante em anunciar que eu estava acompanhado. Mas minha avó chegou, para minha total surpresa, abruptamente a meu lado, com o prato cheio e arrumado com aprumo em suas porções de arroz, feijão, verduras e frango ao molho, como por uma mágica ou por um gesto ensaiado, e indicou que era a minha vez de pegar o meu prato na fila. Sentou-se em meu lugar, limpando a garganta com o que imaginava ser uma delicadeza social para noticiar as pessoas à mesa que ela concordava em dividir o momento com elas. Havia um eletricidade contida, um prazer dissimuladamente predatório em seus modos, que eu atribuí à fome. Procurei o Capitão Bombo e não o encontrei. Fiquei num lugar bem distante do balcão com as bacias fumegantes de comida assim que peguei um dos enormes pratos na estante junto a duas moças nas caixas registradoras da entrada; a linha humana, em uma sobrenatural simetria, se movia vagarosa mas categoricamente; eu não precisava me mover com consciência que minhas pernas o faziam como por uma relojoaria instintiva. Eu tornei a procurar o Capitão Bombo, averiguando por todos os lados e na mesa onde estava a vovó, mas ele havia desaparecido. Um cara com a aparência dele, setentão, barba de sargaço e olhos de assassino, jamais passaria batido na multidão. Deveria estar no banheiro, pensei. Na minha vez, coloquei um pouco de arroz, dispensei o feijão, enchi o máximo que uma tênue noção de etiqueta me permitia o canto do prato com batatinhas fritas, resgatei uma sola de bife acebolado que se esfriava no fundo da bandeja de inox, e fui navegando entre os corpos até a vovó. Ela havia acabado de comer e se dedicava a estucar os dentes com um palito, usando a mão para tampar em sigilo a ação que transcorria em sua boca, e seus olhos tinham a mesma estranha dissimulada contenção focal que na verdade parecia estar em elevada observação a picuinhas secretas e indistinguíveis em torno. Ela se levantou com uma calma profunda, que me lembrou ao mesmo tempo minha mãe e uma amiga da minha mãe que vi um dia e que vivia sob uma pesada camada de estupefacientes, e me indicou com um gesto que era a minha vez de se sentar ali e almoçar. Com um olhar ela me comunicou que me esperaria no carro, assim que eu terminasse. Seria mesmo uma espécie de íntimo entendimento genético que na nossa família tinha, de lermos nossas mentes recíprocas?
      Impus-me a lembrança de olhar o nome do restaurante quando saísse. As pessoas, a conversa, o retinir dos pratos, o som das bocas mastigando, foram me envolvendo. Demorei para comer as batatinhas, salgando uma por uma e despejando o ketchup da mesa em cada uma delas antes de devorá-las. Era o oposto do que eu estaria fazendo na casa da vovó, deitado entre as anáguas e as camisolas e os triângulos de panos recortados, mas ao mesmo tempo equivalia em muito, como a outra face de uma moeda. Dei conta do que começou a acontecer ao meu lado, a mulher que se levantou eufórica e esbravejante, o homem que a acompanhou no levantar e passou a andar daqui para ali procurando por debaixo das mesas e em seguida por cima das outras mesas. Logo depois todas as pessoas estavam também em pé, e se olhando umas para as outras com caras de estarrecimento e tédio, como se aquilo que acontecia não deveria acontecer naquele local e principalmente enquanto almoçavam. Eu continuei depositando ketchup nas batatas e as enfiando com os dedos pela boca, respingando-lhes uns jatinhos de sal do saleiro, e as mastigava com gosto sentindo o quanto se pareciam com papel, tinham a tecitura e o sabor de papel, sem me desiludir porque havia comido centenas, talvez milhares daquelas mesmas batatas insípidas e gordurosas com gosto de papel pelos 14 anos da minha vida. E a mulher que primeiro se levantara parou agora em um desespero transmodificado, iluminado por uma revelação súbita, e daí ela olhou para onde eu estava, com um ódio que era puro assombro, e ficou me olhando pelo que me pareceu um minuto inteiro, embora naquele restaurante que eu deveria me lembrar de ler o nome na paliçada de frente assim que eu saísse, para me certificar se não se chamava Hades, ou Usher, ou que diabo fosse, o tempo não contava, o tempo nem o espaço contavam, vigoravam ali tempos e espaços próprios e destituídos das mesmas leis que regem o tempo e o espaço correntes e conhecidos_ ou talvez se chamasse, o restaurante, Limbo, ou o que fosse. Eu encarei a mulher com uma preguiça incrível, fruto do calor estonteante que fazia ali, sentindo um medo pré se formando, mas daí percebi que o que ela olhava não era a mim, mas os enquadros anteriores que voltaram no tempo diante seu olhar e mostraram a velha senhora septuagenária que ali se sentara alguns distendidos minutos antes de mim, embora minha avó fosse taxativa em dizer que tinha 68 anos e ainda não era uma septuagenária.
       Foi aí que eu vi o Capitão Bombo, estacionado em uma imobilidade insolúvel e irradiando uma impressão aflitiva de paz, parado em pé junto ao balcão a uma distância de três metros, parecendo que escolhera de propósito o holofote solitário de um raio de sol que vinha de uma pequena janela acima das moças da registradora para o distinguir em uma equívoca condição de ícone. Ele me olhava com um ar de total ausência, como se usasse a indistinta figura em borrão que eu devia formar no canto escuro de frente ao banheiro como escoro mental para se concentrar em alguma profunda meditação. Não havia sombra de pratos perto dele e um de seus braços se escorava com uma elegância raquítica no tampo de fórmica. O raio de sol o tornava ridiculamente feio, lhe retirava uns três quilos de seu já minguado corpo de velho, clareava em uma assepsia sem consagração toda a sujeira e entremeamento que dava robustez à sua barba. Nos fitamos longamente no meio da balbúrdia, e antes que a polícia chegasse para averiguar aonde fora parar a bolsa da mulher e não sei mais o que que davam por sumido a cada instante, ele saiu de seu alheamento e me fez um sinal para irmos embora, saindo à minha frente. Deixei o prato como estava, com alguma batatinhas encurvadas sobrando, peguei um guardanapo a título de ter algo para fazer com as mãos e fui furando o bloqueio.
        Lá fora não dei pelo Fiat. Desci a avenida e virei à esquerda. Havia um vendedor de limpadores de para-brisas do outro lado da rua, um negro com uma barraquinha de rádios de pilha, duas mulheres com lenços na cabeça esperando com diligência sabe-se lá o que sentadas num banco de madeira de frente a uma loja de produtos agropecuários, um grupo de agiotas conversando com muito ânimo nos degraus de uma agência bancária. Parei na esquina e fiquei uns bons cinco minutos sem fazer nada, só olhando os carros e as pessoas passando. Segui adiante e vi duas viaturas da polícia parados na rua perpendicular, fechando o Fiat cinza da vovó. Uma pequena multidão foi se formando em torno e eu me aproximei de um moreno troncudo, que parecia estar ali esperando por serviços ocasionais de chapa, e ouvi o que ele dizia sobre a situação para um senhor careca com ar de general aposentado. Nessas horas há uma simpatia irresistível e um senso de comunhão entre as pessoas, e senti que poderia ser amigo do sujeito e ficar ouvindo-o por horas. Ele usava um tom de voz que na certa não era o do seu dia a dia, um tom afável e prontificado. Dizia que a policia encontrara um casal de velhos que roubou uma bolsa no restaurante do Zé Bigode, uma mulher de 70 anos e um velho com uma barba imensa e com cara de louco. Então era esse o nome do restaurante, pensei, decepcionado. Desci até o centro da ação e me espichei nos tênis Nike para ver se via a vovó por sobre as cabeças dos espectadores, e a vi no final do meu movimento panorâmico debaixo de uma marquise, esplendorosamente digna, segurando a alça de sua bolsa no ombro e falando algo ao policial. O sujeito, rombudinho e com uma irrefreável tendência à mais vulgar força bruta, passou a gritar com ela. "A senhora está me desacatando; a senhora vai entrar sim na viatura". Então o sujeito fez algo deplorável: pegou o braço da minha avó e o torceu para trás, dando-lhe um torniquete desajeitado aprendido na academia, e lhe passou uma das algemas, e em seguida minha avó cedeu o outro braço e ele passou a outra algema e a imobilizou. Os cabelos da minha avó saíram de seu coque personalizado e ficou como um feixe de fumaça congelada apontando para o céu. Os óculos dela ficaram tortos mas não caíram. Ela foi colocada dentro da viatura, o sujeito tendo que empurrar sua cabeça para que ela, que era bem mais alta do que ele, pudesse entrar no banco de trás.
           Não vi o Capitão Bombo, mas na certa ele já estava sentado no outro carro.

3 comentários:

  1. Gostei muito, Charlles! Belos personagens. Bela trinca pois, além de cada um deles, a sua combinação também faz tudo funcionar. Muito boa atmosfera do mundo visto pelos olhos do narrador.

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    1. Grato, Luís! Semana passada eu estava esperando minha esposa e meus filhos, que estavam em uma loja, e vi a última cena desse conto acontecendo, milimetricamente como procurei narrar. Daí fiz um exercício livre em torno. Abraço.

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  2. Fiquei pensando se o Capitão Bombo existe mesmo ou é uma figura imaginária. Em qualquer dos casos é muito bom. Também gosto da forma como você incorpora elementos do cotidiano (as roupas, as tralhas da casa, o Fiat). Abraço!

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