terça-feira, 24 de abril de 2012

Experiências de Leitura (II)


Tomando um retumbante clichê clássico para o início deste post, por muito tempo desprezei Umberto Eco e tratei-o como um best-seller voltado para um público pretensamente sofisticado. Talvez essa antipatia tenha sido reforçada ainda mais por Eco ter virado febre entre os acadêmicos de humanas da minha época de universitário, e eu via com estranheza que eles muitas vezes colocavam o italiano no patamar de Kafka e Thomas Mann. Tentei mesmo ler O Nome da Rosa lá pelos idos dos 90, mas meu preconceito não conseguia vencer aquelas páginas e páginas de erudição sherlockiana cujo mote era atender a uma graça anacrônica proposital, no melhor estilo pop dos anos 80. Pois bem! No natal ganhei de presente de minha irmã, que sabe do meu gosto para livros mas não diferencia Nicholas Sparks de Elias Canetti, a nova sensação econiana O Cemitério de Praga. Claro que agradeci com veemência e até expressei uma alegria sincera pelo engano não ter sido tão grave, e a capa chamativa fez-me render à ficção de Eco. É um livro divertidíssimo e acho que o li na época certa, com as luzes e a leveza mercadológica onipresente das comemorações de fim de ano. Nas pesquisas pelos blogs literários confirmei que se tratava da mais simples criação do autor, o que reafirmava que minha proximidade dos 40 anos (idade que os gregos diziam ser o ápice das potencialidades físicas e mentais, o que me deixa sempre na expectativa de que enquanto carrego a caixa d´ água escada acima para o telhado da casa me venha a fulminação de um enredo genial para um romance) me deixou mais aberto e feliz à apreensão do mundo sob uma ótica límpida (feche o Corão, olhe livremente céu e a terra). Eco me pareceu nesta primeira leitura um mestre do thriller, com a modéstia de salientar que seu modelo, apesar da erudição incontestável da escrita, era Dumas pai.

Fui atrás imediatamente de O Nome da Rosa, contrariando minha rejeição a tomar livros emprestado, conseguindo-o de um amigo. Na metade do romance já me coçava a compulsão patológica de que eu tenho que ter esse livro. Mas me segurei e ainda não comprei um dos tantos exemplares a dez reais disponíveis pela Estante Virtual. Em vez disso, adquiri o Pêndulo de Foucault pelo mesmo preço e a descompostura da alegria que Eco causa me fez encavalar a leitura de um na rabeira do outro, como antigamente meus anos de fumante me obrigava a fazer com as gimbas acesas na ponta inflexionada de um novo cigarro. O Nome da Rosa tem 600 páginas mas parece não ter mais que 200, tamanha a agilidade da prosa. O mesmo acontece com o Pêndulo de Foucault, o melhor Eco que li até então. E é aqui o ponto a que quero chegar e o grande aprendizado que Eco tem a oferecer.

Em um ensaio introdutório de Marcelo Backes, ele ressalta o quanto Kafka é um exímio estilista da língua alemã mesmo usando apenas umas 300 palavras do idioma. Não há palavras difíceis em Kafka. Sua simplicidade é um dos méritos de sua genialidade. É uma afirmação que se fica pensando durante muito tempo, ao menos eu ainda a tenho como um fato misto de espantoso e lógico. Para o maior analista da burocracia terrena, espiritual, cartorial..., o maior conhecedor da opressão paternalista dos sistemas de controle humano, é natural que Kafka fosse o menos proparoxítona dos escritores (o que talvez seja uma contradição inerente à gramática alemã, mas tem todo sentido nas traduções para as línguas latinas, o que me faz agradecer a tese de Bernhard em Extinção de que muitas traduções são melhores que os textos originais). É de uma astúcia exemplar que o homem que espera por toda a vida ser recebido diante a Lei e que tem a sumária resposta de que a porta que lhe separa do juiz supremo foi feita só para ele e só para ele permanecerá fechada por toda a eternidade, nos leve a esse cúmulo do pesadelo com palavras fáceis e coloquias. Pois uma das minhas sismas enquanto escritor (qualé, não publiquei ainda mas sou escritor, porra!) sempre foi a que nunca devem ser usadas palavras difíceis. Hemingway diz isso, agravando a coisa ao ajuntar que também não se deve usar as palavras fundamentais (o que me fez lembrar aquele piada do homem que se vira para o motorista e diz "eu te amo", em resposta à placa colada acima da janela do ônibus que manda só falar ao motorista o necessário); Churchill disse que sempre se deve substituir as proparoxítonas pelas alternativas mais simples; Tolstói sentenciou algo parecido (quem nomeia uma das maiores criações humanas como Guerra e Paz não poderia afirmar outra coisa).

Então...Eco é uma afronta completa a essa norma primordial. Mann já contradizia esse preceito, mas Mann é Mann (sem trocadilhos) e ele pode fazer isso sem nenhuma contestação de nossa parte. As primeiras seis páginas de O Pêndulo de Foucault, por exemplo, são arduamente legíveis. Eco não só usa as palavras mais herméticas possíveis como segue por uma descrição exaustiva e minuciosa do pêndulo referido no título. O prodígio é como ele consegue vender seus livros igual a água, tanto que o pêndulo está esgotado, mesmo sua edição econômica, lançada dez anos depois do ano de publicação, não se acha mais. Em O Nome da Rosa, Eco nos dá cenas formidáveis da prosa mais paroxítona em que narra desde as técnicas de reprodução de livros na idade média, a perseguição de um assassino pelos salões oclusos da biblioteca do mosteiro, até uma saborosa compilação de anedotas de santos no diálogo impagável entre William de Baskerville e Jorge de Borgois lá para o final do romance. Eco desfaz de forma saudável toda repressão em torno do uso pleno da palavra. Sua erudição se torna, assim, seu maior trunfo. Ela que arma o cenário, tornando-se um elemento imagético dele na forma em que torna o leitor íntimo da palavra, no interior confortável da concha do idioma. Eco constrói o ambiente do mosteiro usando a palavra como pixels; cada detalhe físico e emocional é absolutamente visível dentro da pessoalidade construtiva de cada leitor. Essa maravilhosa competência de Eco, esse amor pela palavra e pelo conhecimento_ essa alegria imensa de escrever, como bem diagnosticou o Aguinaldo Médici_ me fez rever minha negação sobre a aceitação futura de Eco entre gente como Kafka e Joyce.

Novamente, minhas leituras espontâneas dessas férias me fez ter mais uma face do aprendizado de que a escrita jamais acabará. Entenda-se isso como a sobrevivência do romance e demais freguesias do discurso. O deleite de ler a narrativa literal ao extremo de Eco, sua imaginação, me trouxe a motivação rejuvenescida de que escrever é a mais essencial e livre, a mais solitária e fundamental das artes.

5 comentários:

  1. Respostas
    1. Mann é Mann, sem contestação. Um de meus autores preferidos. Estou menos preconceituoso em vários sentidos. Uma despreconceituação dirigida. Não que isso vai me fazer ler Paulo Coelho. Aliás, em literatura eu gosto de prismas múltiplos, romances policiais, Kerouac, etc. (Só nunca gostei de ficção científica.)

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    2. P.S.: Eco no sentido de que a literatura dele é um tanto reverberativa...

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