quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Divan, o bobo

 




      Meu nome é Divan e todos aqui hoje dizem que eu sou um homem honrado, apesar de antes todos dizerem que eu era tão bobo que tinha a inteligência de um menino de oito anos. Moro em uma cidade pequena, onde as pessoas ficam no café da rodoviária papeando de manhã à tarde, as mulheres levam seus filhos à escola pentecostal e há número suficiente de homens trabalhando na construção para dizermos que há alguma prosperidade. E todos, talvez com uma ou outra exceção que se mantem em silêncio, sabe-se lá por asco ou sentimentos piedosos reais, gostam de gritar e fazer troça comigo. Divan, você sabe que na represa o pescador Simão pescou um jacaré de três cabeças?, um me fala, esperando que eu fique tão assustado que pare de pescar na represa municipal. Divan, você sabia que agora o governo decretou que o valor do tesouro nacional é computado em caixas de fósforos e rico é quem tenha um grande estoque de caixas de fósforos em casa, e não dinheiro no banco?, me disse o agiota Miltinho, o que me fez me espantar por ele mesmo não estar preocupado por ter tanto dinheiro no banco.

   Como eu sei que todas essas pessoas no fundo me querem bem e são cidadãos que zelam pelo bom andamento da sociedade, eu limpei a caixa do que ganhei vendendo picolés no carrinho pela cidade e comprei no armazém do Ernesto dois pacotes de caixas de fósforo. Foi o que deu e eu pensava em passar mais duas horas da noite diante as portas dos botecos para ver se vendia mais picolés para converter o dinheiro em caixas de fósforos quando Pequete, o sobrinho do Ernesto que passa os produtos pela máquina registradora, me disse que era mentira, que o governo não havia tirado o valor do dinheiro.

  Só achei que ele deveria ter me contado isso antes de concluir a venda, assim evitaria de eu ter que levar aquele tanto de caixas de fósforos para casa e com meus bolsos vazios. Fiquei toda a semana sem ter o que comprar o arroz e a carne de sol para meu almoço, mas não se pode ir contra a norma sagrada do comércio. Miltinho dava convulsões de riso e os rapazes que sempre ficam atentos a tudo que ele fala de frente à padaria, desocupados e felizes por tantos momentos de alacridade, zombavam de mim perguntando se eu poderia acender a ponta de seus cigarros. Eu até poderia, eu respondi a um deles, mas as caixas de fósforos ficaram em casa. Eles riam ainda mais, quase elevando a capacidade de seus pulmões a um nível sobrenatural. Miltinho me chamou, ainda com a voz cheia de ginga e os olhos cheios de possibilidades humorísticas a serem exploradas comigo, e me pagou um pastel e uma tubaína. O que me foi bastante compensador pois eu não tinha absolutamente nada para comer naquele dia, graças às benditas caixas de fósforo, que ficaram estocadas sem poderem ser usadas pois eu não tinha por que acender a chama do fogão.

  Uma dia, a dona Odene, dona do barraco onde eu morava, me chamou à casa principal e disse que seu filho iria se casar.

  _ O Souza vai se ajeitar com a Marlene. Não era o que eu queria. Que futuro pode ter se casar com uma ensacoladeira de supermercado, ainda mais ele que não tem trabalho nenhum. Mas Deus proverá_ e suspirou aparentemente sem acreditar muito.

 Eu fiquei com o chapéu apertando nas mãos, procurando alguma palavra de congratulação para dizer, uma vez que se ela me chamara ali para contar isso era porque queria ser parabenizada.

  _ Fico muito feliz. Que Deus abençoe seu filho e sua respeitável esposa, E que venham muitos netos saudáveis.

 Eu tinha ouvido essas palavras ditas pelo padre no casamento da Bianca com o Salomão da loja de móveis, na festa da praça, e fiquei envaidecido por inesperadamente poder usá-las. Mas Odene me olhou contraindo a boca e dando um muxoxo.

 _ Não é para te convidar para esse acidente em percurso que eu que te chamei aqui, Divan seu tonto. Os dois vão ter que morar em algum canto, e não há outro lugar além do barracão.

  Então, eu tive que sair do barracão dois dias depois. A sorte é que eu só tinha o colchão, que o candidato a prefeito Filisboa Nunes havia me dado ano passado em troca de que eu votasse nele. Foi uma pena eu ter chegado na mesa de votação e sido informado pela moça que recebia as assinaturas que eu não tinha título eleitor e por isso não poderia votar. Sempre que eu via Filisboa Nunes pelas ruas, uma vez que ele teve que voltar a mascatear tecidos saindo anunciando pelo alto falante do carro, eu achava que ele tinha perdido por conta da falta do meu voto. Eu não sabia como contar isso para ele e me sentia muito mal ter que desviar o rosto e me fingir de desentendido. Eu não tinha nenhum peso que tivesse que levar comigo e o fogão que eu não usava há uma semana era do morador anterior ou mesmo da dona Odene, eu não sei. Dei as duas caixas de fósforos para ela, não conseguindo evitar uma sensação de que deveria agir com mais discernimento quanto à possibilidade de que o que o Miltinho dissera não poderia ser uma profecia que nem ele soubesse e elas um dia viessem a valer uma fortuna. Eu sabia que Deus não me dera uma cérebro de um homem adulto, mas por Seus desígnios secretos que pegam de vez em quando até mesmo os anjos de surpresa essa era uma daquelas intuições que só as crianças tem, o que cabia a mim tal mérito, mesmo eu não passando de um tolo e não sendo uma criança.

   A dona Odene pegou as caixa de fósforo e me viu com o colchão e sem nada mais e me olhou espantada. Fez uma cara como de quem gostaria de ter o braço amputado a ter que fazer a pergunta, mas mesmo assim perguntou se eu tinha um lugar para ir. Ela sabia a resposta, pois antes que eu pudesse controlar a gagueira e dizer que não tinha, ela pegou o telefone da sala, com o qual era um dos objetos mais importantes e não luxo, uma vez que ela recebia os pedidos de costura que fazia por ele, e fez uma ligação. Discou o dial com muda decisão, esperou com o fone no rosto olhando para o teto, ao que eu acompanhei seu olhar e vi as teias de aranha flanando sob o vento que vinha da porta da sala. Quando enfim alguém do outro lado do telefone atendeu, ela tampou o bocal e falou numa voz bem pequena, para que não ouvisse. Ela só falou uma longa frase no início para depois só ficar escutando por um bom tempo. Lançou um olhar para mim como se me visse pela primeira vez, e então disse um hãhãm balançando a cabeça e desligou o telefone.

  _ Você tem sorte, Divan.

  _ Um homem que tem Deus no coração não tem sorte, mas preminação._ eu respondi sem ver, de forma automática, pois é assim que os devotos falam.

 _ Um homem como você, Divan, não importa a predeterminação. Os bobos são naturalmente protegidos de alguma forma por deus.

  Eu não me ofendi pois não era a primeira vez que eu era chamado de bobo, mas era a primeira vez que dona Odene me chamava assim. Ela sempre preferia o “tolo”, falando em tom como falava com seus netos ainda crianças de sua outra filha, a Lara. De modos que eu vi isso como algo que tinha a ver com a graça que ela disse que eu recebera, pois pelo telefone ela conseguira que o asilo de velhos mantido pela igreja presbiteriana me aceitasse.

  Eu fiquei sorrindo sem falar nada, temeroso que tivesse alguma outro motivo raivoso por ela ter escolhido me chamar por aquela palavra logo depois de três anos morando no seu barraco. Uma Kombi da igreja chegou e o homem forte barbudo, que era tão alto como dizia-se na Bíblia que Sansão o era, que dirigia, me disse para entrar. Eu não o conhecia e fiquei em dúvida, mas a dona Odene me explicou, jogando a frase entre a fumaça do cigarro, que era o novo pastor assistente. O pastor Duarte. Ele não me sorriu, pois deveria ter confirmado assim que me viu que eu era realmente um bobo como dona Odene teria dito pelo telefone, e na certa pensou que eu o era de uma forma tão avançada como o Dedé da Sanfona, que não fala nada e só fica com sua sonfoninha de baixo para cima mexendo com as meninas. “Bibom”, Dedé dizia para as alunas do curso secundário que voltavam para casa, o que alguns dos pais o ameaçaram com os punhos e ele então passava a se esconder detrás do pé de manga fazendo sabe-se lá o quê. Isso tudo porque alguém tinha decifrado por fim que “bibom” era uma palavra incompreensível mas cheia de maus pensamentos, um palavrão enfim. Eu me ressenti de que aquele homem tão sério, que na minha cabeça ao ser anunciado como pastor já me veio a imagem de um ser sem máculas como Jó, pensasse que eu pudesse ser um pervertido como Dedé. De modos que quando íamos eu e ele na Kombi, em absoluto silêncio, eu inventei de conversar, para deixar pelo menos insinuado que eu era bobo mas não àquele ponto.

  _ Eu gosto de pescar na represa e não gosto de música.

 Dessa vez ele sequer deu algum indicativo de ter me ouvido. Isso me fez pensar que ele estava tão certo de eu ser uma espécie de Dedé mais magro e com uma cara menos ou mais aturdida, sabe-se lá, o que me deixou seriamente preocupado. Foi um desses momentos que eu sempre estou disposto a cair, pela má compleição da minha inteligência, vítima de um resto de vaidade ofendida que eu sei que alguém como eu não deveria ter. Eu estiquei a mão e o cutuquei, sentindo na ponta dos dedos o quanto seu ombro era rígido como uma pedra. Ele era mesmo um Sansão.

  _ Eu não toco sanfona e não falo nada para menina alguma. As enfermeiras do orfanato da Conceição diziam que eu nunca fui de olhar torto para mulher algum. Que meu negócio era o mesmo de Jonathan, de Davi.

  Para vocês que nunca ouviram falara do orfanato da Conceição, é onde fiquei desde quando me entendo por gente até quando me acharam com a idade suficiente para trabalhar. Talvez vocês não tenham por que saber sobre isso, pois fica em outro lugar, bem distante da cidade onde eu moro, e foram tantas as coisas que acontecerem desde então que eu não tenho como explicar mesmo para mim mesmo como eu já há muito não sou mais jovem e há muito moro nessa cidade, a ponto de todos me conhecerem e dizerem de forma unânime: Divan, seu tolo! Divan, seu mente mole! Divan, seu cérebro de galinha!

 O pastor não gostou que eu o tivesse tocado, seu corpo cheio de músculos e sua barriga grande mas contida por músculos igualmente fortes dando um inesperado pulo. Mas o que eu disse pareceu ter ultrapassado toda possibilidade de insulto, pois ele pisou no pedal e estava por parar a Kombi. Mas na última hora, ele só me olhou com a cara que a mim pareceu cheia de fúria bíblica, usando o espelho retrovisor do centro e no alto para não perder a direção do carro. Eu só tinha repetido o que eu ouvira da enfermeiras, e não sabia quem era Jonathan e só sabia que Davi tinha sido um rei que dançava para Deus. Na minha primeira noite no asilo, eu sonhei que o pastor estava usando o pano branco solto que não escondia suas vergonhas, que diziam que Davi costumava usar, e em meu sonho o corpo forte e cheio de revolutas de firme gordura do pastor se cabriolava dançando para Deus, enquanto Dedé tocava sua sanfona e gritava com sua boca banguela e seus lábios sujos despejando baba gritava : Bibom, Bibom.

  Mas esse meu sonho, pelo que veio logo em seguida, foi talvez o mais ameno dos meus pecados. No outro dia, assim que amanhecera, dois funcionários do asilo, vestidos de uniforme azul, me acordaram na ala comum onde ficava minha cama junto com os outros, e me conduziram até uma sala. Eram outros dois rapazes, diferentes dos que me receberam no dia anterior e disseram que eu não poderia entrar com meu colchão com o risco de eu distribuir uma peste de piolhos. Os da tarde anterior já tinham a cara cansada e pareciam mesmo que seriam logo substituídos no plantão, pois deveria ser uma tarefa e tanto lidar com todos aqueles velhos e tontos como eu. Haviam até mais tontos do que eu, do nível do Dedé, o que em uma noite só de convivência ali eu pude perceber. E era de todo incompreensível como não tinham pensado em mandar Dedé para ali também, assim ele não teria mais como importunar as meninas.

   Os dois rapazes me conduziram até a sala do diretor. Este era um homem que tinha uma cabeleira tão vasta que deveria ser um motivo e tanto para ele se olhar no espelho, uma vez que normalmente homens na idade dele já há muito passaram pela queda dos cabelos e sendo donos de calvícies de todos os tipos. Em vez de deixar os cabelos mais soltos para mostrar o quanto tinha nascido com uma boa sorte, ele os penteava de forma a ficarem todos os fios presos e encerados em uma franja curva grudada na testa. Seu rosto era cheio de rugas e os olhos tinham algo que só me inspirava a responder o que ele tivesse para perguntar. O rosto e os cabelos excessivamente negros e ensebados não combinavam, o que passava a perigosamente imagem que convidava ao riso de um homem com um gato dormindo na cabeça. Ele não pediu que eu me sentasse e não me cumprimentou.

   _ O pastor Duarte disse que você tem tendências contrárias às leis divinas. Ele não entrou em detalhes mas deixou claro o que pode ser.

  Eu fiquei tão grudado à minha decisão de só falar se ele fizesse uma pergunta, tão grudado quanto os cabelos estavam no cocuruto dele. Como não havia nenhuma pergunta, me mantive silencioso.

 _ Não podemos dizer que aqui só tenha gente decente. Isso seria um delírio tresloucado.

 Eu prestava muita atenção ao que ele dizia pois ele, por estar sentado atrás em uma mesa, tinha uma monte de palavras que eu nunca tinha escutado antes. Quando ele as falava, ele não olhava para mim, mas para um local no chão que era como se refletisse sua imagem e o inspirasse. Junto com o cuidado com os cabelos, ele usava roupas muito limpas, que mesmo no final do dia e depois dele andar entre as alas e mesmo perguntar a algum dos velhos como estavam, as mangas da camisa e o colarinho ficavam como se ele mal os houvessem vestidos.

 Colocando os olhos em mim de uma maneira que me fez gelar a espinha, ele me disse, antes de me dispensar:

 _ A Terra é um local natural para os desavergonhados e os sodomitas, mas não aqui em meu asilo. Não aqui entre meus internos. O senhor ficará sob constante observação nessa primeira semana. De modos que qualquer deslize de comportamento o senhor será devolvido às ruas.

  É claro que eu fiquei tão amuado como uma cachorrinho que tivessem jogado um balde de água fedorenta em cima. Eu fiquei de cabeça baixa o olhando com os olhos bem próximos das sobrancelhas, coisa que de alguma forma fez ele ficar ainda mais bravo.

 _ Os desviados costumam se esconder debaixo das pedras. É preciso que você sinta o poder do braço de deus para conter seus vícios e suas vontades apodrecidas. Levante essa cabeça e faça uma postura descente.

 Ele alteou tanto a voz que acontecia o fato curioso de seus cabelos ficarem imóveis, como se não fizessem parte de sua cabeça. À medida que ele colocava mais ódio no que dizia, mexendo a pele enrugada, parecia que seus cabelos eram uma espécie de chapéu, o que a falta de uma aba que o juntasse com o conjunto fazia flutuar como um barco. Eu não conseguia desprender meus olhos daquilo, e por minha boca o susto foi dando lugar a uma vontade incontrolável de riso.

  Eu sempre procuro escutar os conselhos que as boas pessoas querem me dar, para me pouparem de que minha falta de capacidade de pensar como um homem adulto me meta em enrascadas. Fiquei tentando adivinhar o que o Ernesto do mercado me diria, e mesmo Miltinho, com aquela zombaria cheia de bossa, teria para me aconselhar sobre como me conter diante aquele homem, mas o fato é que eu fui dominado pelo demônio que tanto me passa rasteiras perversas e caí numa gargalhada descontrolável.

 Como se a traição da minha boca não bastasse, minha mão e minhas pernas entraram no mesmo festim que criaram para me destruir uma apontando para os cabelos dele e as pernas dando pisadas de alegria no chão.

  _ O senhor está usando um chapéu em forma de cabelos. _ eu dizia, repetindo três vezes ao mesmo tempo que apontava e convidava aos dois rapazes para entrarem comigo no gracejo.

  O que resultou dessa minha pouca firmeza de espírito foi que aquele homem, que me disseram depois ser o senhor Sérgio, o diretor do asilo, mandou que me levassem até às portas do asilo e me liberassem, dessa vez sem mesmo ter direito ao meu colchão, que os que estavam no turno da noite queimaram na caldeira atrás do pátio. O diretor havia ficado vermelho com a minha atitude vil e mesmo em minha pouca capacidade de pensar como homem adulto eu maldizia ser tão ingrato. Enquanto eu andava pelo corredor para a saída, já sem um pingo de vontade de rir, tendo aquele demônio pulado fora de mim assim que cumprida sua função de me escorraçar, eu ia olhando as caras daqueles seres doentes, vestidos de camisolas, de cabelos esfiapados envolvendo as cabeças deformadas pela idade, e rezando a deus para que o meu erro não respingasse neles. Eles nada tinham a ver com meu grau de tontice, e eu pedia a deus que a raiva do diretor se queimasse rapidamente sem descontar em cima daqueles coitados. Se havia maldade na forma como as crianças e as pessoas lidavam comigo, como às vezes alguma alma compadecida me dizia, seria muito mais que justo, pois eu era mesmo a mais boba das criaturas.

  Como se deus quisesse fazer de uma forma boba comigo o que fizera com Jó ou Jacó, me mandando sofrimentos bobos que se vestissem com o que eu merecia, assim que eu fui colocado de fora do asilo, uma tempestade começou a cair. A placa onde estava escrito em letras azuis o nome do asilo começou a tremer e a encavalar a lata do meio para as beiradas, com a língua do vento passando pelo espaço entre ela e parede como um djin enfurecido. As duas palmeiras ainda jovens e não crescidas até a altura em que estavam ditas que cresceriam, jogavam suas cabeleiras verdes para a frente e soltavam gemidos grossos como se fossem aquelas árvores gordas da idade de cristo que tem na terra dos negros do outro lado do atlântico. Toda a rua de fronte, onde as casas em uma iluminação diurna de calmaria se mostrariam num plano inclinado para os quarteirões abaixo, tinham todas desaparecidas em um borrão polvilhado pela poeira do terreno vago onde haviam patrolas e montes de cal onde a prefeitura construía uma creche. Os pregos e ferros e sabe-se lá o que que estavam acumulados nesse terreno começaram a rugir e a se moverem, como se a tempestade os tivessem descoberto antes de colocar seus pés de vento de vez na estrada e resolvesse brincar com eles. Não precisava ter a cabeça no lugar para saber que eu tinha sido tolo pela última vez na minha vida, pois aquela garganta sedenta da natureza iria me devorar, me mastigar e jogar o que sobrasse dos meus ossos para bem longe. Como eu estivesse numa tristeza profunda, na hora que essas coisas aconteciam nada dessas verdades tinham passado pela cabeça e eu não pensava sobre esses perigos, mas em como eu era um bocó, um miolo mole, um toleirão. Eu seguia andando direto para a boca da fera e uma mão me pegou pelo ombro e me levou correndo de volta para o asilo.

   Era o pastor Duarte, que pouco faltara para me elevar com seus braços fortes e me atirar no pátio dentro do portão. Logo se fez claro que eles não poderiam me entregar àquele fim terrível e tinham que me aceitar, o que não deixava de me deixar surpreso diante essa graça de deus comigo.

  O diretor não quis saber de mim, pelo que o pastor disse. Finalmente pude ouvir a voz do pastor e era bem agradável, eu ficava com vontade de fechar os olhos e dormir. Eu notei que o demônio me rondava com esse tipo de pensamento e me encolhi, torcendo para que o pastor desse logo o fora dali e me deixasse em paz, antes que minha língua começasse a funcionar sob o comando de minha tolice.

  A segunda noite caiu sobre o asilo. Eles me retiraram da ala onde ficava todo mundo. Eu sabia que não ficaria por menos aquela história da minha risada, mas estava preparado para o que viesse. O principal era que eles não me chutariam mais para fora. Haviam dado um fim em meu colchão, e não iriam da um fim na minha vida. Outros dois rapazes que não os outros quatro que eu conhecia me levaram para os fundos do prédio. Bateram de leve em uma porta, que ficava sozinha numa parede que não tinha mais muro a não ser o que segurava a porta, tudo o mais dos lados sendo os corredores. Uma enfermeira abriu a porta, uma senhora muito velha, tão velha quanto os outros pacientes. Ela me olhou sem que seus olhos dissessem alguma coisa e dispensou os rapazes. Pediu com uma delicadeza que amoleceu meu coração e me deixou com vontade de chorar para ocupar a cama. O ambiente era minúsculo, entrando-se pela porta, como se tivessem aproveitado uma dispensa e colocado duas camas de forma muito apertada. Eu me deitei na cama que ela mostrou, mantendo os braços ao longo do corpo. A cama era menor que meu corpo e meus pés ficaram para fora. Ela pediu que me virasse de lado e encolhesse as pernas, e aí eu coube por inteiro na cama. De lado, eu vi pela primeira vez que na outra cama havia um homem de barba comprida tão branca quanto os longos cabelos. Não o tinha visto porque, mesmo com a lâmpada que pendia de um fio estivesse acesa a luz fazia mais sombras do que enclarecia. Ele tinha os olhos arregalados e olhava imóvel para mim. Também estava deitado de lado, embora desse para ver que era menor do que eu, e duas mãos muito magras saíam do lençol que ele se cobrira e ficavam juntas ao queixo dele. Eu não consegui desgrudar meus olhos do dele, tendo um medo profundo de que ele estivesse morto.

  _ Doutora, eu não posso dormir com um cadáver. _ eu disse, contando as palavras para que uma profusão delas não saísse de novo da minha boca e me colocasse a perder.

_ Ele está tão vivo quanto o senhor._ ela me disse, com a voz calma. Lembrei de uma professora que eu tive no orfanato, a tantos anos, quando minha idade correspondia à idade em que ficou para sempre a minha cabeça. Por me lembrar de uma pessoa que deveria ter me feito bem, meu medo foi embora.

  A enfermeira saiu com o passo de quem tem muito o que fazer. O turno dela deveria ter começado junto com o dos rapazes mudos que levavam e traziam os velhos de um lugar a outro. Ao abrir a porta ela apagou a lâmpada, e depois fechou a porta. O vão entre a porta e a moldura da parede era espesso, de forma que a luz que vinha dos corredores entravam a iluminar um pouco o quarto. Fazia muito calor lá dentro, o que a chuva que continuava muito forte deveria ter alguma influência, mas tanto eu quanto meu companheiro não tirávamos os lençóis. Eu fui perdendo o jogo, não conseguindo manter os olhos fixos nele, e o sono veio até me dominar por completo.

  Dessa vez eu não tive nenhuma sonho, o que me pareceu ser algo muito bom, uma vez que se meus sonhos continuassem a pegar emprestadas pessoas reais daqueles dias o diretor com seu cabelo poderia me fazer cair na gargalhada novamente. Se eu tive sonhos eles ficaram na região em que eles ficam quando a gente acorda, que um simples movimento de despertar os jogam para o fundo do esquecimento, mesmo o véu que os separa seja tão fino. Já eram altas horas, como se costuma dizer, uma vez que não havia um pingo de ruído lá fora, fora o de goteiras que sobraram da chuva e caíam aos montes em filetes do telhado. Os passos dos funcionários e o arrastar dos pés de algum velho, que mesmo quando o sono uma hora e outra se desfazia e os olhos se deparavam com a semi escuridão para em seguida recaírem de volta nele os percebia, há muito se tornaram só lembrança, seus donos estando babando nos travesseiros e balbuciando os ocos disparates. Eu me sentia entre acordado e dormindo, pois em minha cabeça fraca uma névoa prendia memórias, sonos ouvidos ao longo do dia, um pouco de aflição e um pouco de assomos de alegria, tudo junto, sem que nada tivesse peso suficiente para me saber ligado a esses pensamentos. Era como se minha cabeça pensasse por si só, descolada do corpo, e eu a visse flutuando no teto, o que era uma sensação agradável. Uma vez o Nepomuceno, o sargento da cidade, insistira para que eu tomasse com ele uma talagada de cachaça, e foi algo parecido que eu senti ao voltar me segurando pelos muros e postes, para a grande gargalhada que todos os policiais que estavam presentes no boteco me observando. “Divan, agora além de cabeça mole é um pé de cana”, diziam, a ponto de desfazerem as pregas bem passadas das fardas de tanto se contorcerem a cada vez que eu quase caía, colocando uma perna mais alta que minha cintura. “Só falta ir para a zona da Folha pra completar a vida boa, hein Divan?” E eu voltara o rosto, todo feliz, o que aquelas palavras de admiração pela minha desenvoltura em conseguir me manter em pé me enchiam de satisfação, e eu respondia: “Não, não! Um varão ungido não vai para a zona da Folha”. Que era o que o pastor costumava dizer do alto do seu púlpito, na igreja. Aí que eles riam à socapa, não se aguentando mais. E era assim que eu me sentia naquela noite, embora eu não tivesse tomado nenhuma bebida e estivesse assim sem muita consequência se eu tivesse que me colocar em pé.

  Desse modo, nessa sonolência descompromissada, eu olhei para onde estava meu parceiro, só me lembrando onde eu estava por puro acaso, e o vi, em pé. Não era o melhor espetáculo para se ver, eu devo dizer a vocês, pois se antes ele estava deitado e não passava de um outro velho dos mais feios mas ainda assim dentro de uma feiura suportável, em pé ele estava bastante assustador. Isso porque se via suas pernas, suas costas, e mesmo metade de seus fundilhos, uma vez que ao se levantar, a camisola dele arranjara por ficar presa dentro da anágua de maneiras que ele estava nu em uma das metades do corpo. Uma de suas pernas apareciam, muito magra, branca como se ele não fosse um humano mas uma cria entre figuras demoníacas. Como se a lepra e o câncer, se fossem figuras corporais, fossem se parecer com aquilo. Uma rede de raios negros subiam das canelas às coxas, o que não poderiam ser apenas varizes, mas algo como se tivesse trincado por dentro e toda sua perna fosse se partir a qualquer momento em mil pedacinhos. De certa forma seria impossível para alguém que não soubesse, como eu já o sabia, que se tratava de um velho, saber se na verdade não estaria ali em pé uma versão de uma bruxa das mais perversas e más, uma baba yaga, uma Zelda Nariz de Verruga. E o mais pavoroso era a sua anágua, que na verdade não passava de uma pano muito sujo que mal envolvia a sua virilha, e que de onde eu estava não podia ser só impressão minha o fedor de fezes e urina. O aparafusamento das cabeças dos ossos de sua coluna apareciam nas costas como calombos que faltavam furar a pele, o que deveria ser a causa dele emitir gemidos altos e que não paravam mais. Aquele corpo miserável não tinha forças para soltar para fora o grande grito que era certo estar dentro dele, pois os foles dos pulmões e a boca deveria estar quebrando e podridão, e por isso se continha com aiais de fazer gelar a alma, e xingamentos e pedidos de que o diabo o levasse de vez. Ele estava de costas para mim, com aquelas formas deterioradas quase por se esfregarem na minha cara, uma vez o espaço ali ser muito apertado, e erguia os braços de aflição para passar as mãos pelos restos de cabelos que tinha e os puxar. Como acontece com os últimos pelos que sobram na carcaça depois que toda a juventude foi embora, eles não arrancavam, eram tão fixos quanto as ervas daninhas na beira do rio. De modos que ele fazia uma força enlouquecida, revirando-se para os lados, e seus braços longos como tentáculos de uma lula velha saíam por cima sem os tufos que ele pretendia arrancar para alcançar algum alívio.

  Não se tinha como contar as horas diante um quadro medonho desses, mas deveria ter passado uma boa meia hora. Era estranho que ninguém ouvisse, pois eu ficava na torcida para que alguém aparecesse enfim para o fazer deitar novamente. Eu julguei que o dia era tão cheio daqueles ataques e gritos contidos que quando era chegada a permissão por dormir os enfermeiros apagavam de exaustão, seus ouvidos treinados a não darem atenção para mais nada. O que eu poderia fazer? Dormir eu já não conseguiria. Eu estava tão desperto quanto um cervo atocaiado numa noite de caça da onça. E eu estava tremendo de medo. Eu não podia desgrudar os olhos daquela criatura, pois ela de uma hora para outra podia partir para cima de mim.

  Foi então que aquele velho, de tanto resfolegar e chorar como o diabo Malaquias, arranjou por sentir sede. Seus olhos gigantes e estuporados ficaram se colocando em cada objeto que se dava para enxergar no escuro, passando várias vezes pela minha cabeça encolhida no lençol, e por final, para meu alivio, ele encontrou uma cabaça descansando no canto, logo atrás da cama dele. Em seus ataques de fúria, era bem possível que ele mesmo a colocara ali e se esquecera. Calando-se um pouco, para grande alegria dos meus ouvidos e dos meus nervos, ele andou com uma inesperada calma até a cabaça. Parecia que não era o mesmo sujeito afetado até as raízes dos dentes pelo delírio e alucinação. Andava balançando os braços como um lorde. Seus espichados pés chatos cheios de protuberâncias, tocavam do dedão ao calcanhar o piso, como na cabeça dele dava para adivinhar que se passava a ideia de como um cavalheiro andaria. Ele se inclinou, estendendo o braço para a frente, e por sua gengiva pelada passaram umas palavras sem sentido, mas que eram subitamente gentis. Uma hora ele, antes de pegar a cabaça, em sua loucura, se virou para mim e balançou delicadamente a cabeça, como aqueles bonequinhos de mola que os ciganos vendem, os olhos estatelados e os cacos de dente se mostrando para ninguém. Eu fechei com mais força os olhos e só os abri quando, no silêncio que se seguiu, eu pude ouvir o som da garganta dele ingurgitando a água e os glute glute indicavam que ele estava virando a cabaça toda pela boca. Ele sorria e dizia mais palavras impossíveis de ouvir, enquanto bebia com um desespero de um sedento que tivesse atravessado o deserto. Chegou um instante em que ele errou o buraco por onde deve entrar a água e sair a fala e a coisa toda se inverteu, a água entrando direto onde não devia. Ele jogou a cabaça para a frente, que bateu na parede e caiu por sobre a cama dele, ensopando o colchão da água que restara, o que ainda era muita. Ele tentava puxar o ar, num som que na minha cabeça desmiolada me pareceu como o de um mudo gritando, como se Dedé faria se quisesse dar um berro. Ele parou com as baboseiras de se mexer e girar os braços, como havia feito, e ficara estatelado em pé, na mesma posição, com os braços abaixados, as mãos crivadas, o que com a nudez de seu corpo muito magro e branco tinha algo de um desses monges sagrados, como João Batista dando o batismo no Jordão. Ele puxava o ar e parecia que entendia que iria morrer, naquela calma que os doentes tem na cama quando o padre dá a extrema unção. Foi assim que o Fabiano, o dono da loja de pneu ficou, com essa calma que parece dizer que não há muita coisa pra se preocupar, quando todos os tratamentos para o cancro que o comia não deram e nada e ele se entregou para a morte.

  Deus não criou apenas a inteligência pra poder ajudar o homem, mas também criou aquilo que faz o homem pular do nada e partir sem planos e sem saber direito o que fazer numa hora dessas. E mesmo um ser tolo como eu, naquela hora, fui tomado por essas outras qualidades pouco valorizadas, e dei um pulo e antes de dar por mim, eu já havia agarrado aquele pobre fantasma pelas costas e o abraçava com todas as minhas forças. Eu era mais alto do que ele, o que foi uma surpresa descobrir isso, por todo o medo que a aparência de um espectro de pernas e braços grandes me fizera passar, de modos que eu o erguia todo do chão e jogava ele e a mim para trás, me mantendo bastante firme com os pés no chão. Fiz isso umas dez vezes e iria fazer sabe-se lá quantas vezes mais, no desespero que a procura pela vida nele me contaminara, quando então a porta se abriu de súbito e um bando de gente entrou.

  Eu só tive tempo de ver dois ou três dos funcionários de uniforme azul caindo em cima de mim e me atirando num bolo de pernas e braços junto com eles por cima da cama do velho. Por reflexo, eu soltara o meu companheiro assim que eles praticamente chutaram a porta, e minha cara estava afundada no lençol que eu sentia todo molhado sem saber se era de mijo, da água da cabaça ou dos perdigotos dos homens que me seguravam como se eu fosse um Hércules e precisasse de tanto. Eles travavam os dentes e dois deles me xingavam e me ameaçavam, um dizendo que eu teria que pagar por retirá-los da cama no meio da noite e no melhor sono.

   E foi assim que eu tive minha quarta ou quinta danação do dia, se é que vocês estão contando, por causa da minha tolice. Às vezes acho que não é só a burrice que leva um homem que tem o cérebro de uma criança a ser um desgraçado, sendo como se a burrice atraísse outras péssimas forças que ficam suspensas no ar esperando, pois mesmo para minha cabeça de piolho de cobra essa quantidade toda de má sorte em um único dia parece exagerada.  Era como se quando dona Odete me disse que Deus ajuda os tolos eu tivesse atiçado o Criador para ver se era verdade, jogando sobre ele tudo que eu podia fazer para me estrepar. Era como seu dissesse, muito bem, Senhor, me tirou dessa enrascada, mas vamos ver se essa proteção vale mesmo para alguma coisa, e então eu partisse para outra besteira ainda maior.

   Os homens me levaram para uma sala onde só havia uma cadeira. Tinha uma janela que dava para a área onde estavam as patrolas da prefeitura, e eu pude ver que a tempestade acabara de vez, não tendo nenhum traço de que existira com aquela fúria toda, como se tudo quisesse voltar a atenção para o que enfim eles fariam com um bobo como eu. Eles iriam me atirar no olho da rua agora, uma vez que eu poderia ir atrás do meu deplorável destino sem o risco de morte.

   O pastor Duarte apareceu. O rosto amarrotado. A barba naquela cara de profeta que ele tinha crescia em uma velocidade assustadora, pois ele só era reconhecível por detrás do negror por causa daquela sua voz grossa, que fazia até o mais corajoso dos mortais parar de medo. Eles me colocaram sentado na cadeira e me deixaram sozinho até ele chegar. Ele me olhou como se olha para um cão que se esperava incapaz de atacar mas que havia tascado uma mordida feia na mão do dono. Tinha uma grande decepção dos olhos dele. Eu fiquei tão triste que abaixei a cabeça, mas continuava olhando para ele com os olhos bem próximos das sobrancelhas. Ele bufou quando me viu olhando assim, o que me dei conta de que deveria ter me controlado pois na Kombi ele quis parar para me tirar esse olhar da cara. Vai ver na cabeça dele trazia recordações ruins. Eu não via os loucos dali olhando assim. Eles olhavam bem direto, de forma que me constrangia. Olhava a alma da gente. E o meu olhar era só covardia e pedido para que não me batessem. Embora, justiça seja feita, eu nunca tinha apanhado, a não ser em tempos distante de criança que eu sabia ter merecido. Mas eles riam de mim, tiravam chacota de meu rosto, babavam de deleite diante minha reação de patetice, mas nunca me batiam.

 _ Deus nos diz para perdoar setenta vezes sete. E é isso que eu procuro fazer, Ele mesmo é testemunho._ o pastor disse, como se para si mesmo.

  Eu procurava olhar agora com a cabeça erguida. Ergui tanto o queixo para não ofender a sensibilidade daquele generoso homem, que era difícil sorrir com os músculos do pescoço todos esticados. Minha mente entendeu que ele acabara de falar algo que era do culto da igreja, uma espécie de reza que os pastores costumam atirar para cima da congregação esperando uma resposta reverente.

 _ Amém, varão! Amém. Ashalabalaia!

 Ele me olhou com uma mistura de que não acreditava muito nas minhas palavras e as entendia muito bem, mas eu tive a sensação de que não eram as palavras ideais. Eu forcei minha mente a procurar outras palavras que eu costumava ouvir aqui e ali entre as beatas e os velhos quando saíam das igrejas nas noites de domingo, mas não consegui.

 _ Eu deveria ser o varão santo que deus gostaria que eu fosse, mas a pederastia é um pecado para o qual eu não tenho o conhecimento requerido para exercer o perdão. O pecado de Onã e de Sodoma, eu não consigo contemplar com a devida elevação do espírito.

  Eu não entendia nada do que ele falava, mas sabia que eram palavras compridas demais para não serem da mais alta pureza e beleza espiritual. Com o rosto o mais entortado para cima que eu conseguia, eu respondia com tudo que me vinha à cabeça.

 _ Glória aos Céus, ashalabalaia, são longuim três pulinhos vosmecê mequetrefe.

 Sem que esperassem amanhecer eles me colocaram para fora do asilo. Eu não vi o diretor, mas a enfermeira que me mandara deitar na cama me deu uma sacolinha de plástico com uma maçã e uma caixinha de leite com chocolate. Quando eu me sentei na calçada dois quarteirões abaixo, já sem ver ninguém daquele lugar amaldiçoado que pudesse me seguir, eu abri o pacote e vi, contente, que por detrás da caixinha de leite ainda tinha umas bolachas. Eu não estava com fome mas eu abri os pacotes e comi tudo mastigando rapidamente. Minha cabeça não tem inteligência mas é cheia de brincadeiras de passa tempo, pois eu imaginei que aquele lanche fora me dado por um castelo de um rei, e aquelas bolachas tinham poderes mágicos que a maga vestida de enfermeira havia nelas enfiado a título de me dar alguns prodígios. Eu comi a maçã e ria, com a boca cheia de casca e sumo branco, estendendo a mão para a frente e dizendo: Sinsalabim, e a pedra pintada de branco que alguém colocara de frente a uma casa para servir de banco perdia a noção de seu peso e flutuava cinco centímetros acima do chão. Depois, eu juntei três bolachas de uma vez na boca, as empurrando com os dedos para caberem, e eu estendia a mão para a velha macieira e de repente uns olhos antigos, cheios de uma perigosa sabedoria, surgiam no meio das galhas. Não era um gnomo e nem Rapapim, o mestre dos leprechauns, mas a própria árvore acordando de seu sono de dezenas de ano. “Olá, Divan, seu tolo!” Ela disse, “Como ousas me interromper de meu sono?”  E eu, para que ela não atirasse sua indignação sobre mim, já bebia pela metade o leite e disparava cuspindo gotas marrons em direção a ela, ordenando que ela obedecesse ao seu novo senhor. E ela então se inclinava, com os fios dos postes elétricos que atravessavam sua copa soltando faíscas, e com a voz cheia de temor respondia: “Me perdoe, ó nobre senhor Divan, o rei dos bobos. Sou sua serva para sempre e todo o sempre”.

  Eram sonhos tão bons e se deus quisesse resolver de vez essa lei que o obriga a cuidar de pessoas como eu, bastava ele nunca me acordar. Seria uma dor de cabeça a menos entre as tantas que ele deve ter em um mundo em que em cada canto tem um pecado, alguém pedindo para que lhe deem o pão, ou a vitória sobre o inimigo, ou a amada de volta, ou que deus lhe conceda que um filho, ou um pai ou uma esposa retornem do reino dos mortos e voltem a sorverem o ar com suas respirações da carne restabelecida. Se deus me desse ouvidos e cumprisse essa última e única coisa que eu ousava em lhe pedir, depois que ele foi tão bom comigo mas eu atirei tudo na lama, ele só faria um movimento com sua mão gloriosa e eu ficaria nesse sonho para sempre.

 Mas não foi o que aconteceu. O sonho havia prosseguido em uma série de danças de todos os objetos que ganharam vida naquela rua, não só a grande mangueira, e que se converteram ao amanhecer ao que eu demorei alguns segundos para perceber ser a ponta de um sapato. Eu abri os olhos assustado, e vi que era o sapato de um menino, um no meio de um bando deles que iam naquela hora para a escola. Estavam todos vestidos de uniforme branco e azul, e me cutucavam com a ponta do calçado e me convocavam com palavras entre raivosas e zombeteiras para que eu acordasse. Eu acordei sentindo antes um cansaço profundo do que tristeza por ter que repetir tudo de novo as tramoias e as sensaborices desse mundo sabe-se lá por quantos dias ou anos ou séculos a mais. A dor da terra não parecia ter mais fim, e tudo para o qual eu lançava meu olhar era duro e sem afeto e paciência. Eu pensei: para que viver? Os meninos, que se fossem um pouco só dispostos a ouvirem suas consciências, pois haveria de ter alguma luz de caridade ou mesmo de tino que os fizessem ver a grande perda de tempo de azucrinarem um bobo como eu, teriam me deixado ali com minha devastadora tristeza, em vez disso pareciam ter ficado mais motivados ainda. Fizeram um cerco em torno de mim e ficaram gritando, cantando, vociferando, jogando pedaços de pontas de lápis que eles retiraram dos apontadores de dentro de suas mochilas, como se fossem confetes para comemorar algo que eu deveria representar de muita alegria e muita honra. Eu com muito custo consegui me levantar. Eles gritavam: “Divan seu bêbado, emborcou todas essas noite”, e coisas assim.

  Coube a deus zelar mais uma vez pelos bobos, me dando a parcela que me cabe, e em três dias perambulando sem rumo pelas ruas, eu fui acolhido no Centro Betel. Eu tinha ido até o Osmar, para voltar a vender os picolés levando o carrinho pelas ruas, mas o Osmar disse que as vendas tinham sido tão ruins que ele tinha que fechar. Ele apontou um cartaz feito com papelão que ele grudara na parede, para que eu confirmasse, mas daí ele se lembrou que eu só conseguia assinar meu nome. Ele leu para mim que era o anúncio do congelador que ele colocara à venda. Iria fazer uma doação de todos os sorvetes e picolés que sobraram para a festa da igreja, e me deu um de morango para que eu não ficasse tão triste. Mas, como eu disse, depois de dormir no banco da rodoviária, um senhor me acordou e perguntou se eu não queria morar no Centro. Eu disse que qualquer lugar que tivesse um teto estaria bom para mim, pois duas noites de frio me pareceram terríveis demais para suportar. Ele me colocara em seu carrinho pequeno, que parecia desses carros que se veem em filmes em preto e branco.

  O centro era onde algumas pessoas invocavam espíritos. Não foi isso que o senhor me disse, mas eu me lembrei na mesma hora, assim que vi a pequena casa de telhado em bico, que era o que Marcinho e as pessoas falavam. Era um lugar amaldiçoado, que todas as pessoas evitavam. Assim que eu entrei eu vi que os dias na rua e aquela tempestade me ensinaram a não dar conversa para antigos medos, e assim eu só senti um leve frio correndo pelas minhas espinhas. Eu havia associado àquele lugar tantos fantasmas, bruxas, pretos velhos, macumbas e bodes nascido com duas cabeças, que agora eu me sentia como se algo da minha cabeça pequena realmente tivesse crescido finalmente. Eu via aquele lugar pelos olhos de um adulto, e não os adultos que normalmente falavam tantas coisas ruins.

 Era um pequeno asilo. Haviam só cinco pessoas. Havia um corredor de quatros ao lado da pequena casa onde os pastores que rezavam ali invocavam os espíritos. O velho que me levara se chamava Fagundes, e ele mesmo me disse que o nome não era pastor, mas que no fundo era quase a mesma coisa. Ali o nome certo era médium. Eu firmava minha boca bem fechada, e qualquer um que tossisse ou mostrasse o mais distante possível perto de um engasgo eu saía fora. Aquele lugar era bom demais, apenas mais quatro pessoas como eu, para que eu colocasse tudo a perder.

  Uma delas era uma moça. Era muito jovem. Na ficha de inscrição que eu tive de preencher com o secretário do centro, eles me disseram que pelo documento que eles pediram na prefeitura, eu tinha 62 anos. Eu deixei o queixo cair, e vi que minhas contas haviam parado aos trinta. Talvez fosse um engano, de modos que não levei a sério. Ou a prefeitura havia feito os cálculos errado ou de alguma forma os espíritos já queriam me receber me passando uma zombaria. Mas a moça, ela tinha vinte e dois anos. Seu rosto era bonito, muito branco. Seus cabelos chegavam à cintura, como se fosse uma larga cinta negra lisa. Os outros três eram um senhor magro, que vivia com um cigarro de palha na boca, um negro magro que era visto sempre com um livro em mão, e uma outra mulher também velha. Eu já era velho, então, o que me fazia ver aquelas outras pessoas torcendo para que minha pouca mente pudesse me colocar mais novo do que eles.

  Minha função era varrer e retirar os restos de comida da mesa do almoço. A comida era farta. No café da manhã se podia comer quantos pães se quisesse, embora por uma questão de não querer ser chamado de glutão cada um se limitasse a no máximo dois. Eu gostava muito de café, que eu costumava tomar em bares e padaria oferecido pelas pessoas e pelos donos, mas o senhor Fagundes disse que todo tipo de bebida que alterasse o humor não era servida ali. Eu fiquei tentando entender isso, pois o café nunca havia me parecido algo tão perigoso assim a ponto de se relacionar com a pinga e com a cangibrina. Mas de todo modo sem café eu me sentia realmente mais calmo. Todo o lugar era de uma calma de fazer a gente ficar com sono. E se podia dormir à vontade no meu quarto, desde que estivesse em pé e pronto para as tarefas do dia.

  As coisas iam indo assim, sem que o demônio quisesse me engambelar, durante semanas. Eu cumpria tudo que me cabia fazer à risca, e me prontificava a trabalhar mais. Não sei porque falam tão mal dos espíritas, pois eles sempre foram justos comigo, não me desgastando. “Preste atenção no pecado da preguiça, Divan. Você está indo muito bem”, o senhor Fagundes disse. As sessões espíritas eram nas quinta feiras, e no começo eu tinha muito medo. A moça bonita, Sara, me consolava dizendo que não havia razão para eu ter medo. Os espíritos eram seres como a gente, apenas que estavam desencarnados, não precisava mais do corpo. Eu sentia inveja deles, mas isso não diminuía meu medo. Eu estava esperando que ela dissesse algo no sentido de que eles não atravessariam a parede do centro e resolveriam dar uma voltinha pela frente dos quartos. Mas ela não estava ali para me consolar e o modo como deixava muita coisa por dizer me renovava o medo. Eu ouvia os rumores vindos do centro. Era como se todos ali estivessem de quatro e uma força animalesca saísse de seus corpos, produzindo um som como de vários “us” encaixados uns nos outros. Às vezes eu sentia um vento vindo de não sei de onde, e chegava a sentir uma espécie de sussurro em meus ouvidos. Eu pedia licença, que assim nos ensinara o senhor Fagundes, e seguia para meu quarto com os passos contados. Assim que fechava com delicadeza a porta, me jogava na cama e me rebuçava dos pés à cabeça, temeroso que alguém sem corpo fosse me puxar pela perna.

  Mas daí veio o fim da paz e o demônio resolveu mais uma vez prestar atenção em mim. E ele veio na figura da Divina. Era uma morena forte e desbocada que veio parar no centro. Não sei de onde o sr. Fagundes desencavou tal criatura, aliás todos nós sabíamos mas não o falávamos por vergonha. Ela tinha vindo da zona do Folha. Ela era o que se se diz “mulher de vida fácil”. Embora não tenha algo mais mentiroso do que isso, pois ela veio parar ali justamente porque a sua vida não era nada fácil. Diziam que ela esfaqueara um homem. O homem quis fazer não sei o que com ela e ela disse que por dinheiro nenhum faria isso. O homem cometeu o erro fatal de lhe dar um tapa na cara, ao que ela pegou uma faca de ponta e a enfiou no bucho dele. Ele estrebuchou como um porco, e morreu em poucas horas. A sorte de Divina é que ela era louca desde sempre e de forma tão nítida que até o juiz não questionou que lugar dela não era na cadeia. Ela tinha uma mente tão infantil quanto a minha e seria uma injustiça de tal tamanho leva-la para a cadeia que seria como um outro assassinato. O juiz mandou uma equipe de três enfermeiros para cuidar dela. Um psiquiatra vinha consulta-la todas as semanas. Nos primeiros dias ela era só sorriso, pedia desculpas onde ia, se nos via sentados pedia desculpas, se nos via na fila do café da manhã ia para o último lugar, atrás até dos funcionários, e de lá ficava com seu sorrisinhos que ela não removia da cara. Até o psiquiatra começava a dizer que ela havia se curada, o que fez com que o parente do homem esfaqueado, sua esposa ou seu filho, pedissem ao juiz para rever o caso e leva-la para a cadeia.

  Não precisou que o juiz atendesse o pedido, pois em poucos dias a Divina ficou tão louca de novo que até os espíritos deveriam ter abandonado o lugar. Ela era negra como chocolate, e seu cabelos eram amontoados de fios encardidos apontando cada lote para o alto. Era baixinha mas pesava mais que três mulheres comuns, e dispensou as roupas de cores claras do centro para vestir suas roupas escandalosas. Não se sabe de onde ela pegou de volta essas roupas, mas tudo era possível para uma pessoa que era o próprio demônio em pessoa. Ela acordava aos berros. Os enfermeiros iam bater em sua porta, e elas dizia nomes tão feios que alguns a gente só sabia que eram xingamentos porque não havia palavra de outro calibre que era pronunciada com aquele tom furioso.

  O pior de tudo é que Divina se apaixonou por mim. As pessoas diziam isso, de um modo brincalhão, antes de ela voltar a ficar louca. E eu tinha percebido isso, pois ela era sempre gentil com todos mas comigo o era de uma maneira diferente. E nós dois ficávamos até altas horas conversando na varanda, nas noites em que não tinha culto e os outros internos jogavam dominó e o negro Leo lia uma pilha de livros que colocava ali à mostra para nós ficarmos impressionados com ele. A Divina tinha a voz mais doce, e ria com suavidade. Era difícil, fechando os olhos, associar sua voz com seu corpo, que era rústico e gordo. E quando a luz era fraca, pois o zelador apagava a luz de frente à varanda para não junta aleluias nas épocas de chuva, eu fazia isso, fechava os olhos e a ouvia. Era como uma fada, de modos que me acostumei a quando abria os olhos ver a riqueza das variações das criaturas de Deus, pois passei a achar Divina tão bonita como se realmente fosse uma fada.

  Ela nunca falava do que tinha feito, e nunca falava de sua vida antes dali. Falava de seus tempos de criança, que haviam sido belos, e de seu primeiro namorado, ao que se limitava a dizer que era um tocador de viola. Havia tido três filhos, que moravam com o pai violeiro, e sua voz então ficava cheia de tristeza, o que a faiza mudar de assunto. Eu ficava feliz dela parar de falar daquelas épocas tão distantes de sua vida, e no fundo do meu coração era como se ela estivesse agora ali só para aquelas conversas comigo.

   O senhor Fagundes reconheceu que aquelas conversa s que ela tinha comigo faziam bem para Divina, e as incentivava. Um dia ele apareceu num domingo, onde estávamos nós seis internos reunidos, e disse, em um tom respeitoso e ao mesmo tempo com um fundo de inocente brincadeira, que naquele dia faria a celebração de um casamento. Logo a Sara perguntou, com seus olhos frios que não emitiam nenhuma emoção, mas eram prenhes de bondade, de que seria o casamento. Ao que o senhor Fagundes disse que seria entre o senhor Edinaldo Divan e a senhora Maria Divina do Rosário. Ele falava com as voz um pouco trêmula, e seus olhos tinham uma tendência somente naquela ocasião a pararem no ar e só voltarem a prestar atenção nas coisas depois de um sorriso. Era claro que ele havia bebido conhaque, que era a bebida que se servia no centro para agradar os espíritos, e sua cabeça estava endiabrada ou pelas taças que tomou ou por algum espírito desocupado que viera ali se divertir de alguma maneira. Não custou muito para que Divina e eu soubéssemos que se tratava de nós dois, o que pode parecer algo óbvio para vocês mas experimentem ter seus nomes pronunciado assim com todas as letras se vocês não pensam que se trata de um desconhecido. De modos que, por brincadeira, o senhor Fagundes nos colocou lado a lado e nos “casou”. Para que a encenação ficasse ainda mais realista, ele pediu que o velho Simão pegasse o caderno na saleta da administração em que se anotava as contas do mês e escreveu nossos nomes nele. Divina repetiu que ficaria comigo na saúde e na doença, e eu fui levado a dizer o mesmo. Quando chegou a hora do beijo, o senhor Fagundes disse que não haveria problema algum que Divina e eu nos tocássemos com mais demora os lábios, pois mesmo que o alto grau de embriaguez daquela noite tirasse alguma seriedade da cerimônia os espíritos sacramentavam os laços reais no plano de lá, o que talvez eles tratassem até com mais atenção o fato de tudo ter acontecido de modo despirocado. Assim, eu com muita vergonha mas Divina com uma determinação que a fazia parecer uma garotinha pronta para estourar um balão cheio de doces, nós dois nos beijamos. Eu nunca em minha vida tinha beijado uma mulher, e até hoje eu sinto aquela gotinha de água como se a fada Midalba me tivesse despejado uma filigrana de néctar dos lagos nos lábios. O senhor Fagundes olhava tudo num retraimento bonachão, como se seus pensamentos estivessem muito longe e, quando tentava se concentrar no momento, ficasse se dizendo algo do tipo de que, apesar de todas as circunstâncias, aqueles dois infelizes solitários que éramos Divina e eu merecíamos aquela felicidade, ainda que meu cérebro havia se maturado um tanto suficiente, para minha surpresa, para enxergar a fantasia naquilo, o doce engodo.

   Ao longos dos dias, porém, se via que Divina não levara a coisa da mesma maneira. No fim das conversas em grupo daquela noite, ela se despediu e voltou para seu quarto, com o rosto conservando um sorriso mas com aquele ar de que entedia ter que voltar para a vida real, de que tudo não passava de uma brincadeira. Ela sequer se despediu de mim, abaixando a cabeça, e perguntou ao porteiro Simão se podia lavar as louças. Simão respondeu que ele mesmo iria lavar e depois fechar a cantina, que ela voltasse tranquila para seu quarto. Eu voltei para o meu e assim que me deitei na cama caí em um sono profundo, que só teve fim na completa restauração do descanso na manhã. Fui para a fila do banheiro, escovei os poucos dentes que tenho, retirando a prótese dos dentes da frente da parte de baixo da boca e os escovando também. Assim que me sentei na mesa para o café, vi que Divina estava na outra mesa, separada de todos, e com o rosto todo transfigurado. Ela não olhava para ninguém e sempre que tinha que o fazer, emitia um sorrisinho nada bom. Por sua cabeça se via que passava um sem número de coisas.

   Ela me evitou por todo o dia, ainda que eu não a procurasse. Algo em mim dizia para ter cuidado com ela, e eu pensava naquela faca com que ela perfurava o bucho do homem que ela matara. No fim da tarde, quando eu varria o alpendre dos fundos do Centro, cantando baixinho um velho jingle que eu ouvia quando criança de uma casa de tecidos que anunciava pelo rádio, levei o maior susto ao virar e ver Divina atrás de mim. Ela me olhava com os olhos sem piscar, com uma concentração enlouquecida, como se sua visão atravessasse o meu corpo.

  _ Não podemos ficar aqui, temos que ter uma casinha com um jardim de gardênias na frente para quando o Zezinho nascer._ ela disse, com a voz tão sem os tons descansados e belos que ela costumava ter e sim com uma firmeza trêmula e apavorante.

 _ Zezinho? Seu filho vai se chamar Zezinho?_ eu arranjei por responder, o que meu cérebro sem rédeas ajuntou um sorriso de deboche infantil involuntário como se fossemos dois meninos mal criados tripudiando com outro na escola.

 _ Entre tantos nomes bonitos você arranjou por dar a seu filho o nome de Zezinho?_ eu disse ainda, percebendo a tendência que eu tenho de tampar o sol com a peneira me refugiando por detrás da minha bobice.

  Como eu disse, eu vinha reparando com assombro que, aos 62 anos, meu cérebro resolvia ora e outra sair de sua idade parada de menino de oito anos e avançar, pegando fagulhas inesperadas de entendimento. Pois eu entendi com a absoluta clareza da compreensão o que Divina dizia. Eu entendia tão bem que resolvi não interferir com o pensamento, uma vez que alguma coisa dessa súbita meia inteligência insinuava que tudo tinha a ver com o ato fanfarronesco do casamento. Se Deus protege bobos como eu e loucas como a Divina, e conserva na terra o velho sonâmbulo que eu ajudei a desengasgar com a mesma desenvoltura de como conserva pessoas normais como o Miltinho e pessoas boas como o senhor Fagundes, dando a todos nós o direito de compartilharmos a beleza e a graça do mundo, com qual direito eu negaria a sacralidade dessas chacotas, dessas zombarias, dessas brincadeiras às custas de minha cara?, com que ousadia eu negaria que tais coisas não são sagradas e sérias?

  Então eu entendi. Eu e aquela mulher estávamos realmente casados no céu. Não era para menos que acontecera em uma casa onde os espíritos do outro mundo andam soltos e à vontade como se fossem internos como nós, pois o casamento entre Divina e eu, o beijo que nós demos na frente de todos, não fora firmado para sempre apenas nesse mundo, mas em todos os outros mundos possíveis. Não era para menos que me acontecera essa série de desgraças e acossamentos pelo demônio, desde o dia que eu gastei todo meu pobre dinheirinho com as caixas de fósforos, fui informado pela dona Arnete para sair do quarto e passei por tantas atribulações no asilo dos velhos. Eu estava sendo, na verdade, conduzido em proteção para aquele momento, para aquela mulher e para o filho meu que ela levava na barriga. Eu, Divan, o bobo, ia ser pai. Eu vi com toda clareza como são os esquemas de Deus, além da algazarra e das macaquices zombeteiras dos homens, e como a palavra “proteção” é bem mais profunda em seu significado do que a simples prevenção contra as tempestades e os chutes na cara que haviam me dado os moleques. Deus protegia os bobos não de forma a guardar-nos em seu manto, mas nos conduzindo ao longo de um caminho que parece apenas às nossas insuficientes inteligências um caminho acidentado mas que na verdade desde o primeiro passo se tem definido o ponto fixo onde irá se concluir, E meu ponto fixo era junto àquela mulher e àquele filho.

   Não vou me estender mais nessa minha história porque ela também já acabou. Vou contar de forma resumida tudo o que aconteceu em seguida. Seu Fagundes levou Divina a um médico que atestou que ela realmente estava grávida. Disseram que fazia já seis meses que o bebê estava instalado em sua barriga. Eu não posso dizer da maneira como seria excluída do escárnio das pessoas de frente à padaria que a criança é minha. E foi isso que de primeiro todo mundo dizia, com ar de gozação, alguns soltando gritos pelas minhas costas e pela minha frente, me dando os parabéns. Divan, você vai ter um filho lindo pois não tem como o menino não ser lindo sendo metade sangue seu e metade sangue da Divina. Mas no fundo, numa região além de qualquer contato com as palavras empobrecidas que estão à mercê do uso do entendimento humano, eu sei que eu sou o pai. Na verdade nasceu uma menina, que não pudemos colocar o nome de Zezinho, pela glória de Deus, mas colocamos Maria Celestina, como o quis Divina. Ela não deu mais crises, se tornou uma mãe calma, algumas vezes isso sendo resultado dos tantos remédios que o doutor Cardoso lhe passara. E foi nos dado pelo prefeito uma casinha na parte mais afastada da cidade, com dois quartos e uma salinha onde Maria Celestina brinca com as bonecas. Ela é tão negra quanto a mãe, e tem os olhos que nem se viessem todos os especialistas em bom senso me dizer o contrário eu não deixaria de ter certeza que são os meus olhos. E é tão bonita que as pessoas deixaram de falar pelas costas e pela frente. As pessoas de frente da padaria nos cumprimenta quando saímos os três juntos, com cordialidade e respeito, e os meninos, que cresceram e foram substituídos por outros meninos, estes e aqueles nunca mais saíram correndo em perseguição dizendo xingamentos e bobeiras.

   Todos aqui hoje dizem que eu sou um homem honrado, apesar de antes todos dizerem que eu era tão bobo que tinha a inteligência de um menino de oito anos.  

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O mendigo do inverno

 

     


      Sua mãe havia sido uma defensora pública. Quando morreu, foram prestadas homenagem a ela pelo estado. Escritórios de advocatícia mandaram coroas de flores com os sobrenomes dos sócios escritos. Olhando-a no caixão, o rosto maquiado para atenuar o inchaço dos anti-inflamatórios, não era para qualquer um a insinuação do quanto foram inglórios seus últimos anos de vida. O seu segundo marido, César, o pai de Lia, havia requisitado uma perícia médica para suas atitudes estranhas. De modos que enquanto vasculharam em todos os setores da sua vida, ela mesma se rendera. Diante César, aceitou que algo não estava bem. Sua forma de ser desrespeitosa com os clientes, por exemplo, que gerara um processo de maus tratos por uma viúva; suas birras; até mesmo seu modo de suspirar acintosamente mostrando sua incompatibilidade com os colegas, só poderia ser uma afecção mental. Anselm tinha certeza que não era preciso ir muito fundo para saber que ela mentia. Mas por mais que tentasse achar uma lógica, o arranjo de colocá-la em um manicômio não se coadunava com uma reviravolta em que ela pudesse sair vitoriosa. A única explicação é que quando ela era uma simples advogada, ganhando três vezes menos, ela se sentia autorizada a aprontar seus pequenos teatrinhos, a erguer a estrutura piedosa de seus escândalos. Os outros advogados apenas a olhavam, com o nível de assombro despencando a cada renovada encenação, e deixavam para lá. Queriam saber de seus salários e voltarem para suas famílias. E talvez a questão fosse essa. Para qual família a mãe deles iria voltar? Não era questão do abandono parental que ela havia sofrido desde muito pequena, mas os indícios mostravam que ela não havia tido sorte nesse quesito. Lia era uma adolescente rebelde, com a cabeça cheia de nada. A mãe encontrara anotações em uma agenda sobre dois abortos feitos em uma clínica clandestina. E ele mesmo, o que havia oferecido a ela? O álibi de uma omissão diante as tentações da juventude não se sustentava quando se considerava que de uma forma ainda pior ele abalara o coração da mãe. Ao menos haviam momentos em que as duas se desarmavam, um hormônio de harmonização feminina escorria dentro delas, mas quanto a ele, era só silêncio e uma opressiva solidão. Uma vez fizera a mãe gritar do nada, um grito animal, cheio do fermento do câncer que deveria já estar iniciando nela anos antecipados.

  A mãe nunca gostara dele e nunca disfarçara isso. Quando Cesar percebeu esse fato político no cerne da família, os dois conversaram. Era um homem gigante, lhe dizendo que ele era um peso demais para a mãe. “Angela não merece nessa instância da vida sustentar um filho já entrando na idade de sair de casa”, ele disse. Cesar tinha os olhos azuis, o rosto balofo, os braços recurvos e grossos evidenciando uma dinastia de embuchadores médio europeus cuja genética procurava ansiosa por pragmáticos melhoramentos cerebrais sem abrir mão de seu caráter étnico de vassalagem a raças imperiais dominantes. Sempre arvorava que seus pais eram descendentes diretos de alemães, aqueles caipiras obtusos com a  impressão sagrada de superioridade como se fossem os detentores de uma imagem santa achada num ribeirinho. Cultivavam palavras pequenas, consonantais, que defendiam ser denominações usadas por defloradores de olhares bonachões em idílicas aldeias cheias de vacas leiteiras. Era uma atração poderosa essa que sua mãe sentia por homens caricaturescos. O pai de Anselm, ele mesmo, era um protótipo do estancieiro moreno elegantemente selvagem. Anselm respondeu que precisava de um tempo, que assim que entrasse na faculdade iria dar o fora. Não achava que ele lhe repassasse uma sugestão da mãe; achava que ela conservava alguma reserva de calor que não lhe permitiria aquilo. Mas Cesar aceitou, de forma mesmo considerável. Perguntou que curso ele se preparava para entrar, se fosse medicina os anos de espera por um aprovação no vestibular poderiam ser estendidos indevidamente, o que não seria o mais certo a fazer com a Angela. Anselm disse que faria história, o que não se exigia muito para passar. E assim fora. No final do ano ele obteve uma nota média para ser aceito pela federal, e no meio do semestre seguinte arranjou emprego em uma distribuidora de bebidas. Foi morar em uma quarto em frente à praça universitária. O que para muitos seria um ritual de passagem traumático, para ele era um grande impulsor de felicidade. Na primeira semana ele se deitava no chão, colocando dois livros pegos com seu cartão de biblioteca como escoro da cabeça, e tinha sonhos esfuziantes. Nos finais de semana, que não tinha para onde ir, ele ficava ali, olhando os losangos impraticáveis que a luz vinda pelo canto da janela brincava ser possível no teto, pelo menos naquele seu reduto onde o absurdo era uma cláusula contratual que fizera com a sua divindade. Foi um prosseguimento para um nível de alta proficiência de sua paz interna, que sempre lhe havia acompanhado, e que agora ele tinha suficientes motivos para saber que era o componente mais poderoso de seu caráter. Nos primeiros meses a mãe seguia uma cartilha de emancipação progressiva, ligando para o telefone fixo do corredor entre os quartos, falando com uma voz forçadamente chorosa que ele tinha que voltar “para sua casa”. Uma vez recebera uma cesta de bolachas. Encaixado como um gesto de humor incompreensível entre os pacotes havia um pênis de chocolate em volta de uma camisa de um time de futebol. Dera as bolachas para a faxineira que vinha limpar os corredores toda semana e o chocolate ele comera, mordendo a cabeça tão empreendedoramente exagerada para parecer obscena que no final parecia um elmo de história em quadrinhos. Um legionário romano de Asterix que despejou uma gosma de leite condensado demasiadamente doce em sua língua. Por final ela parou de ligar, e ficaram sem contatos por dois anos. Foram anos de uma liberdade que ele achara de uma plenitude meritória para ter-se atrasado tanto em obtê-la. De certa forma deveria agradecer a César, por aquele ultimato viril, que um garoto desprovido da figura autoritária de um pai precisaria ter para ativar sua testosterona adormecida pela inércia doentia do tom materno.

   Mas voltando à mãe, quando então surgiu a oportunidade dela pegar a vaga recém criada de defensora pública, oferecida por ser a mais velha da sala de advogados, ela aceitou. Não parecia em nada uma vantagem, pois teria que tratar com os seres mais degradados da esfera criminal e os acréscimos salariais que distinguiriam a nobreza da função não era uma expectativa certa. O governador sobre o qual caíra a obrigação judicial de montar a defensoria era um notório corrupto envolvido com as máfias de licitações mais perigosas do estado, de forma que todos sabiam que era uma furada. Seus colegas, os mesmos que fugiam de seus chiliques e fúrias intermitentes, consideraram que seria uma boa compensação cósmica ela quebrar a cara dessa maneira didática, e não lhe aconselharam sobre o que parecia o cumprimento de um carma evidente. Mas aconteceu algo inesperado. Em dois anos ela foi efetivada como primeira defensora pública do estado, com o estado abrindo concurso público e formalizando toda a ortodoxia do cargo. Em um mês sua mãe se tornou tão distinta quanto juízes, e o termo “doutora”, normalmente usado com um leve tom de desprezo crítico, passou a ser uma nomenclatura cheia do temor sagrado que se tem diante um alto representante da corte. Seus colegas ficaram em uma pane conjunta em que repetiram em um quadro epidêmico circunscrito as caras de incredulidade ofendida. A louca iria ganhar três vezes mais que eles, mais os penduricalhos que vem com abonos salariais e horas extras. Lia contara a Anselm que quando a mãe, já vestida com um terno feminino com corte especial feito em uma alfaiataria de magnatas jurídicos, fora até sua antiga sala pegar seus pertences, seus cinco ou seis companheiros de anos de regime concêntrico ficaram estacados, como se uma esfinge improvável estivesse andando em fulgor lumínico entre eles. Calados, olhavam-na com o estarrecimento que no mais profundo âmago de suas memórias remetia a seres condenados à subserviência daquela geografia. A certeza da vitória da tolice espalhafatosa sobre a impressão de seus grandes e indescobertos méritos próprios diluída no sorrisinho de ódio aquiescente. E sua mãe se despedira deles usando um tom inédito de comedimento, um comedimento irritante, que deveria destruí-los continuamente toda noite diante a pobre mesa de jantar, o comedimento que era o propulsor das brigas com suas esposas e maridos, que os levavam a ser paus no cu nos trânsitos. Falara com uma voz na qual surgira do nada, de regiões ignotas do caráter, uma doçura de aristocrata falando com seus serviçais. Esvertina ria alto ao contar que a mãe passara de mesa em mesa dando-lhes um abraço, para o qual aqueles seres profundamente derrotados tinham que se levantar, cônscios de suas silhuetas paquidérmicas sedentárias, obrigando-os a emularem o mesmo tom um nível só acima do falsete descarado. Anselm se compadeceu daqueles seres, sentiu uma comunhão profunda com eles. Sentiu que era uma injustiça descomunal, inumana, que o destino fazia com eles, e tanto era mais dolorosa por ter sido uma chance extraordinária oferecida a todos e que eles abriram mão por suspeita de que só uma tola estúpida teria caído nela. E naquela altura de suas carreiras, um enredo de suspense compensatório e de redenção do patinho feio feito de maneira tão inesperadamente tardia, era de deixar qualquer um enlouquecido. Aqueles seres haviam sofrido de maneira sem igual o horror que era viver com alguém como sua mãe que nem ele e nem Lia haviam experimentado.

  Mas a história, obviamente, não havia acabado aí. Houve uma continuação. Houve espaço para um segundo volume das  aventuras extraordinárias de Angela Duarte, seu “Vinte anos depois”, após suas proezas sem igual de Dartagnan eleita de forma gloriosamente bastarda para fazer parte da comitiva do rei. Anselm reconhecia os traços da comédia que a mãe estava acostumada a infligir quando era mais uma do rebanho apascentado do baixo funcionarismo público, acrescido da novidade do que ela jamais intuíra dos tons sombrios de tragédia quando ascendeu-se para sua posição de patinho feio. Se tivesse sido inteligente o suficiente para se acomodar a essa imagem, se tivesse lido algum manual de conduta do guerreiro da luz ou do sábio conselheiro bélico dos tempos do Japão imperial, que aliás não era uma literatura estranha para a classe de jovens defensores públicos que se atribuíam uma predestinação celestial por terem passado no concurso, estes a teriam visto como uma excentricidade obsoleta mas tolerável. Teriam mesmo uma reverência típica a que se destina a uma mascote levemente cômica por sua doidivanice semiletrada. Veriam o seu descompasso de instrução técnica e seus momentos em que trancava os músculos do pescoço ao lado de seus clientes, não conseguindo soltar a voz, de frente às altas cortes, como algo de certa forma natural que aquele estado da federação que tinha muitos atributos das atrasadas leis da metade do século XX lhes colocava pelo caminho da modernidade. Era um empecilho que, olhando da posição correta do alto de seus narizes esnobes (que uma dia a mãe chorou de angústia ressaltando para Anselm como eles eram prepotentes e esnobes!), era algo que até devotava o mérito às suas capacidades éticas de convivência com a obsolescência a ser varrida. Sua mãe lhe dizia sobre o que eles sussurravam nas primeiras semanas pelas suas costas, sobre sua idade, sobre sua tartamudez, sobre sua ignorância a princípios básicos das leis, até mesmo sobre seu modo excessivamente plebeu de conversar. Na festa de confraternização de fim de ano, a defensora pública colega dela que saiu com o seu nome no amigo secreto, no ato de descrição antes que o nome fosse anunciado típico dessas brincadeiras_ em que os demais tem que decifrar e anunciar em voz alta assim que todos os aspectos do retrato estejam suficientemente pintados_, descreveu sua mãe com termos incisivos a tal ponto que a simpatia subjacente ao humor foi destruída na maneira como todos riam em chacota. A moça falara coisas como “meu amigo um tanto tontinho”, no momento inicial onde não tinha limitado a questão para o gênero feminino, ao que, depois, usou termos de uma prolixidade tal que Angela disse que lhe doía mais por saber que ela exagerava o efeito da bebida para justificar sua falta de reservas. “Minha amiga confunde mandado de injunção com mandado de busca”, e no final, quando já estava claro há muito com quem ela saíra, quem entre todos aqueles distintos profissionais com taças na mão e o riso eximido de freios civilizados para a crueldade era a única que cabia dentro da descrição jocosa, a colega de sua mãe deu a estocada, o passo de esgrima covarde sobre a adversária já caída no chão que ficaria no memorial glorioso da categoria a ser lembrado para sempre. Ela disse: “minha amiga vem com roupas tão exuberantes e vitorianas que muitas vezes parece a rainha mãe de uma corte de Maria Joaquina”. E todos gritaram: “Angela Duarte!”. Com os sorrisos lupinos incendiados da juventude de peles com a resplandecente camada subcutânea de gordura dos bem nascidos, dos que nunca sofreram na vida, dos que tinham todo o tempo do mundo para se enfiarem debaixo dos cobertores em suas camas continentais e estudarem dezoito horas por dia para o concurso. Enquanto sua mãe, que se formara em direito com muito custo quando Anselm era ainda criança, trabalhando meio período como escriturária em um cartório, em uma universidade de quinta categoria, teve que traçar seu caminho para a investidura no cargo pelas portas do fundo. Ela se levantou, encolhida de ódio e vergonha, e foi até o núcleo das mesas onde a moça estava com os braços estendidos e com uma expressão cênica simulando ternura para com aquele espécime de serviçal estrangeira de baixo nível que algum erro piedoso do estado instalara entre eles, os vencedores, os cultos, os poderosos e endinheirados. A moça era alta, de uma beleza protocolar fria que em outras circunstancias Angela dissera a Anselm que nem seria vista na multidão, com suas bochechas demasiado infladas disfarçadas pela diminuição de peso que a função lhe fizera se impor com uma dieta, o corpo silhuetal metamorfoseado em fêmea sexualmente seletiva que despertava o perigo congratulatório nos homens em serem destruídos por aquela comunhão de mulher e divindade sob a qual recaía a decisão na balança de várias vidas e vários destinos. Ela lhe entregara o pacote floreado com um laço dourado, dando no rosto da mãe o toque sutil de face com face em que simulava um beijo de intimidade, e todos riam e transformavam os gestos em suas caras progressivamente em elegantes contrações contidas de asco e incredulidade. Tinham a ciência exata de aspergirem as quantidades certas de emoções de repúdio e solércia nas sinapses daquelas fibras nervosas ultracalibradas de seus músculos faciais. Tudo em nome da sofisticação de seus nomes de doutores, Angela disse a Anselm. Ela não era nada tola, ao contrário do que eles achavam. Ela aliás tinha um jogo de cintura de descobrir a melhor solução para casos complicados de defesa que os livros não cobriam, mas sua experiência de trinta anos como auxiliar de promotoria sim. E esses mesmos colegas tinham o distanciamento de admitirem isso, se não fosse a soberba faraônica que crescia dentro deles pela fusão nada autoelucidatória de hormônios da juventude e ego exacerbado. Quando sua mãe abrira o presente, na frente de todos, caiu-lhe no colo uma blusa branca de mangas compridas, ofensivamente amorfa, que não adiantava um espírito de boa vontade procurar nos mais estapafúrdios catálogos de moda que não encontraria um nicho social que a visse de outra maneira que não uma camisa de força. Nisso ninguém riu, como se todos tivessem combinado que a mensagem seria melhor difundida se impusessem caras sérias, averiguativas, como se fizessem uma metalinguagem para aumentar o efeito catártico de um humor elevado, como os grandes humoristas fazem ao conseguirem contar uma piada extremamente engraçada sem contraírem uma ruga de riso de suas bocas desproporcionalmente severas.

  “Uma camisa de força, Anselm”, Angela lhe dissera, em uma tarde em que estavam no apartamento dela, ele, Helena, Lia, Luiz e os dois filhos do Luiz. Era aniversário de 65 anos dela, e ela lhe mostrara a peça ganha no amigo secreto, a retirando de um plástico barato, que Anselm não soube se era um envoltório que  Angela substituíra o original para dar maior figuração à crueza da ofensa, ou se a roupa é que era absurda o suficiente para retirar qualquer possibilidade de atenuantes. Angela a desdobrara, estendendo uma manga em comprido pelo forro da cama e logo em seguida a outra, como se estivesse desembrulhando um componente de alguma formulação culinária secreta e mágica, ao que seria até mesmo lógico que no centro do pano branco levemente já encardido houvesse uma caixinha enferrujada, contendo um pedaço de noz moscada. Eles não podiam ter feito isso com ela, Anselm se lembrou de ter pensado. Aquilo era mesmo uma camisa de força. Eles tinham tripudiado de maneira violenta para cima de sua mãe. Cesar apareceu no quarto, olhou para a roupa na cama com os olhos cheios de seu treinado poder de achar uma síntese libertadora para tudo, e riu, dizendo que tinha sido uma ótima piada. “Para uma advogada com altos índices de fiança conquistada para seus clientes, era uma boa metáfora associá-la a uma louca”, ele disse.

   Anselm admirara tamanha capacidade de inventar uma metafísica para atos materialmente mesquinhos por parte de César. Era óbvio que os colegas da mãe não estavam querendo dizer isso, não era mesmo um elogio. Mas não fazia mais parte de sua vida. Ele desceu os olhos para onde estava Angela, sentada, e viu com a nitidez exclusiva dos filhos, que só o embrião reformulado e desenvolvido dentro das esferas biológicas de um progênie masculina seria capaz, que ela sofria, que ela sorria procurando seguir a solução civilizada do marido mas cujo sorriso não conseguia mais conter tanto inferno que havia dentro dela. Naquele instante Anselm soube que teria notícias sobre o que ela vinha fazendo naquele meio de abastados, pois era inevitável que o ambiente não havia favorecido nenhuma possível tentativa de mudança, de calma transfiguração, que ela tivesse se disciplinado a realizar. Anselm teve a nítida certeza de que ela havia aprontado das suas, que as loucuras que fazia entre os vira-latas encardidos iguais a ela no antigo gabinete da promotoria onde ela era tolerada por uma comunhão motivada pela economia de energia, haviam se promulgadas naquele olimpo judicial.

   As duas notícias ruins tinham vindo juntas. Foi na mesma semana que Helena perdeu espontaneamente o bebê que Lia lhe ligara dizendo que Angela havia solicitado oficialmente tratamento psiquiátrico. Tinha-se passado seis meses do aniversário da mãe, quando ela lhe contara sobre a “camisa de força”, e Anselm teve a impressão de que o roteirista que estava escrevendo aqueles enredos secundários de sua vida havia acionado um ponto morto no quesito imaginação. Parecia uma trama de algum romancista francês oitocentistas que bebesse de forma enviesada influências das reviravoltas balzaquianas, colocando rimas pobres de eventos narrativos. Falar de camisa de força e logo em seguida ser enredado por uma era uma solução bastante preguiçosa. Anselm jamais esperava que sua mãe estivesse de alguma forma associada a doenças mentais, o que analisando posteriormente era quase uma ingenuidade seletiva do modo como ele a enxergava. Ele apostava que era um estratagema de Angela, aquela astuciosa atriz que usava com tremenda eficiência as instâncias mais piedosas de seu papel de coitadinha intelectualmente limitada. Lembrava de um filme em que Al Pacino, encenando Satanás, vaticinava que os verdadeiros detentores do poder requerem para si os disfarces de aleijados. Ele mesmo, o Pacino-diabo, entortava seu frágil corpo pequeno todo para um lado, para assim exercer sua maldade na invisibilidade que o manquejamento lhe outorgava ao sair do metrô. E era com essa mesma paleta manipuladora que Angela se materializava para o mundo. Mas depois Anselm pôs-se a finalmente limpar sua visão para ver com lucidez sua mãe. Quando Lia lhe contara, pelo telefone, que Cesar a havia internado sob a concordância dela em uma clínica psiquiátrica cara, ele estava em volta com a conclusão da outra ponta da tragédia, em que Helena estava passando por uma curetagem em um hospital público.

    Enquanto Angela era colocada em um quarto privado, com ar condicionado, com cortinas beges que adensavam a textura da sombra envolvente de maneira rumorejante e confortável, com um aparato de especialistas e enfermeiras para lhe atender, Helena fora se livrar dos tantos vestígios que o feto lhe deixara ao escapulir de seu útero na ala de enfermaria do Hospital Municipal. Enfiaram-lhe espátulas de aço galvanizado pela vagina e o giraram de um lado para o outro, enquanto uma cânula de plástico sugava o material biológico que o menino desprendera em seu ato de fuga da existência: natas de sangue coagulado, tecidos amnióticos, grumos de células de um vermelho denso que não parecia de natureza humana, ao mesmo tempo que diante o olhar espantado de Helena eram as coisas mais profundamente humanas que ela já vira por virem com um traço de podridão inerente que mostrava algo do destino final daquilo tudo, de toda a carne e da vida. Era evidente que quando Helena lhe descrevera essas coisas, em uma carta que lhe enviara meses depois que o relacionamento deles acabara de vez, ela estava sob o direcionamento de uma depressão profunda, não se poupando desses termos niilistas. Um filho nunca fizera parte dos programas dos dois, mas em um moto contínum para salvarem a união eles passaram a desconsiderar os métodos profiláticos de impedir uma gravidez. Helena tinha o costume de brincar que Anselm era a última esperança num cronograma de relacionamentos terríveis dela ter um casamento. Ele não deixava essas indiretas disfarçadas de leveza escoarem pelo ralo dos ouvidos e concebia em seu profundo inconsciente os arranjos para que aquela mulher tão destruída pelo restolho de homens ignóbeis e estúpidos não saísse de mãos abanando. Helena era deslumbrante de linda. Tinha olhos azuis esotéricos, era impossível se olhar para eles sem sentir um afluxo de correntes elétricas metafisicas atravessando o corpo. Era alta, morena, magra como uma guerreira egípcia, o que a fantasiação dessa figura absurda compensava pela sua inexistência histórica, pelo que tinha de correção pelo poder do verbo. Se alguma vez uma guerreira feminina egípcia tivesse existido, seria esplêndida de elevados atributos físicos manifestados nela. Não era uma mulher difícil de se sentir elogiado por ela trapacear em um jogo de conivência mútua para se engravidar dele. Que ariana de pele oliva, saída das fontes vigorosas do princípio da genética, haveria de querer levar no ventre senão de um homem que tivesse passado por algum critério de escolha?

      Ela encenava uma peça de Pinter no teatro, fazendo o papel de uma estóica social superior, com aquela impiedade implacável e santificadamente violenta típicas de Pinter, e vê-la no palco havia debilitado toda concepção estrutural da paixão de Anselm. Ele passara a ir assisti-la todas as noites de sexta e sábado, chegando mais cedo para se sentar na fileira da frente. Sua rendição a toda salvaguarda diante aquela cada vez mais clara armadilha do desejo que ele estava construindo para si atingia níveis tão sérios que ele delirava ao pensar que sentia as gotas de saliva caindo-lhe no rosto, cada vez que a personagem passava numa contenção de fúria a poucos centímetros dele. Apresentou-se ao diretor da peça, um sujeito tão arquetípico em sua fremência dispersa em não conseguir prestar atenção em nada por mais de poucos segundos que de longe qualquer um poderia sentir sua áurea de visionário anarquista imune ao envelhecimento, alegando que estava escrevendo um texto para seu jornal sobre feminismo libertário e crime. O sujeito não se entusiasmou nem um pouco pela eficiência promovedora que um jornal inexpressivo do qual ele nunca tinha ouvido falar teria para a peça, e nem essa tinha sido a impressão pretendida por Anselm, mas deixou que ele entrasse no camarim quando a encenação terminara para entrevistar a artista principal. Anselm então pode ver Helena pela primeira vez, desfeita da encarnação de frieza maquinal repetitiva cujas frases lacônicas ele já estava por decorar de tanto as ouvir em sua posição próxima ao palco, com os cabelos curtos se mostrando surpreendentemente enevolados e crespos sem os aparatos da personagem, e falando com os funcionários do teatro com tanta desenvoltura que por um momento acreditou que era uma espécie de mediunidade dessas em que o agente físico costuma ser escolhido pelo espíritos por ser o mais simplório possível, como se o fator de baixa sofisticação do hospedeiro fosse determinante para não macular a pureza do transe. Ela ria alto, em uma voz surpreendentemente masculinizada, e usava expressões debochadas que revelavam uma consciência exacerbada de sua sexualidade franca, não policiada, não competitiva. Talvez por Anselm estar no extremo oposto dessa consciência, vendo-a com o poder do fetiche renascido por uma mulher que faziam anos que ele se achava imune de retornar a sentir, que ele achou aquilo desamparadamente ofensivo, como se essa espontaneidade fluídica estivesse dizendo que ele não tinha nenhuma chance de vir a ser visto da maneira como desejaria por ela, que ela não iria voltar a se armar dos arsenais do antigo jogo entre macho e fêmea apenas por causa dele, armas que ela havia deliberadamente desprovido do uso por uma série de experiências elucidativas quanto à estultice dessas abjetas danças de acasalamento.

    Não foi uma boa conversa. Pinter não fazia parte de suas leituras, o que lamentou pelas opções que poderiam ter surgido para conduzir aquela atmosfera para alguma zona filosófica que lhe desse as diretrizes de como adentrar aquela muralha de prosaísmo. Talvez um memorial de duas leituras bem aplicado tivesse poupado a total impotência de como voltar a se aproximar dela nos próximos dias. Ela foi muito protocolar com ele, respondendo às perguntas com atenta educação. Ele viu que as unhas dos pés dela estavam com restos de antigo esmalte, e lhe impressionou que a cor fosse azul. Talvez fosse uma concordância não destituída de nonsense entre as partes mais equidistantes de seu corpo, os pés e os olhos, ou fosse mais um indício do pouco caso que ela fazia naquela época à etiqueta sexual. Os dedos dos pés logo acima das unhas eram tortos, sofridos, expressando uma rusticidade de árvore de deserto ao mesmo tempo que um utensílio técnico cujo sentido não estivesse imediatamente explícito. Pés pictóricos, vangoghianos. Ela havia posto um vestido de algodão negro, com as alças enlarguecidas pelo uso, mostrando a parte de cima dos seis, que eram concisos, atléticos, de uma maneira atrativamente insípido, como se estivessem restritos a um adendo de somenos importância ao resto suntuoso de beleza do rosto e do corpo. Como alguém como ela estivesse sozinho em um camarote à meia noite, conversando com um estranho jornalista como ele, enquanto umas cinco pessoas, a maioria homens, que fechavam o teatro, não eram passíveis de serem destruídos pelos seus encantos, é que era um mistério? Sem nenhum pretendente ou noivo ou esposo ou namorado a esperando do lado de fora, com os olhos averiguadores da batalha contra eventuais usurpadores daquele tesouro.

   Encerrando a entrevista, ela se despediu e ambos saíram mudos, um pouco constrangidos, pela porta de trás do teatro, onde o zelador os esperava para trancar a fechadura. Ela não tinha carro e ele se ofereceu para pagar-lhe um taxi, sem antes perguntar onde ela morava. Ela acenou, os olhos pesquisando mais um objeto interior que tinha o destino de permanecer alheio ao mérito de interesse de Anselm. Resultou que a casa dela ficava em um quitinete próximo ao centro, enquanto o apartamento em que Anselm morava ficava seguindo por uma das vias principais quilômetros abaixo. Ela desceu do carro dizendo um tchau que era a própria metáfora das condições climáticas da noite sem vento, sem frio, amorfa e atonal, uma despedida que não tinha a capacidade de se impregnar do menor grau de dramaticidade que os envolvesse nem distantemente da condição de futuros amantes. Anselm voltou para casa olhando as ruas desertas, as luminárias de um depósito de bebidas gigantesco, a concessionária de carros alemã, catalogando aqueles pontos de fixação que lhe ocuparam a vida inteira sem significado algum e que agora transiam de uma aura metafísica que prometia ceder a alguma espécie de síntese se fossem pressionados.

   Não teve tempo de dar ouvidos à sua voz interna de que estava sendo ridículo. Comprou em uma livraria do centro, que foi na tarde do dia seguinte, dois livros contendo quatro peças de Pinter. Leu-as no mesmo dia, sentindo como se em vez de em celebração com a sinestesia de um autor de percepção superior ele estivesse prolongando em uma realidade alternativa interminável a conversa com ela. Arrancou sorrisos que seu conhecimento cênico sabia só serem possíveis depois que muito decantados por conversas direcionadamente tolas, sorrisos que soavam a voz incomumente barítona para uma mulher tão bela. E então ele voltou à casa dela, de madrugada, e se sentou na esquina, debaixo de um cajueiro mirim cujas frondes tombadas sobre um muro baixo com uma cerca artesanal de ferro o obscurecia, sentindo-se um Cyrano de Bergerac. Não tinha o sonho disparatado de que ela fosse aparecer, apenas queria nutrir aquela redução de maturidade e de razão que aquele sentimento súbito por um mulher o fazia sentir. Talvez tivesse ficado muito tempo na seara do intelecto e o que se passava consigo fosse um mecanismo de compensação psíquico que exigia controle, e ele estava receoso por desconhecer o quanto ele mantinha de áreas confiáveis de si que permitiria frear na hora certa.

   Ele voltou para casa andando a pé. Demorou para que encontrasse os sem tetos, deitados dois quarteirões à frente da concessionárias, sob a marquise de um grande shopping de produtos importados. Subiu para seu apartamento, disposto a esquecer. No elevador, olhou-se no espelho, desprezando a câmera pela qual o sonolento porteiro com cara de capanga menor da Cosa Nostra, com sua afilada mandíbula não confiável, deveria estar lhe olhando, com um deboche satisfeito pelos atributos distintos da baixa classe comunal que aquela moradia barata exsudava. Entrou no apartamento, que ainda estava no espectro etário do desmazelo do final de sua vida de solteiranice, antes que o aprendizado sobre os benefícios da economia da organização sistemática pessoal lhe fosse herdado de seu casamento, e se deitou no colchão fino estendido por sobre o piso liso da sala. Coçou a barba, pensando se não era ela, a barba, que tinha posto tudo a perder, não tendo mais a suficiente ancoragem em seu distanciado auto-escrutínio para ficar imune a esse tipo de conjecturas imaturas. Que se danassem Pinter e suas mulheres impiedosas, partícipes agraciadas da escumalha masculina. Era um poço de atração irresistível, ele pensava, que mexia com todos os entulhos traumáticos e tribais que ele levava dentro do seu torturado coração juvenil. Que ele exortasse de si todo coração juvenil, toda juventude, toda necessidade efervescentemente deleitosa de destruição por uma nêmeses. Tudo o que importava para ele era aquele apartamento suburbano, aquela comunhão de pessoas pobres que andavam com seus ressaibos de orgulho cívico pelos cantos, se olhando de esguelha com sorrisos intimamente pedindo misericórdia. Ele era um daqueles leões castrados, ornamentos do circo falido e mambembe da sociedade a qual tinha sido uma piedade imensa ter-lhes aceito se integrarem nela com esse disfarce. Ele queria a invisibilidade e havia trabalhado herculeamente por ela a vida toda, e não seria uma recaída ignóbil a um fetiche mal digerido, aparecido do nada, com a fulgurância do lixo dessensibilizante que a sexualidade extrema da mentalidade midiática impunha, que o faria perder tudo aquilo. Com isso em mente, Anselm passou a esquecer de Helena, com a mesma isenção de drama que acondicionara todo o imobiliário de seu mundo particular. E teria ficado assim, tudo tendo sido evitado, se ele, dois meses depois, por pura afasia, pura falta do que fazer, não tivesse voltado ao teatro da praça, onde uma outra peça de Pinter estava sendo encenada, sentando-se dessa vez na última poltrona, e quando as luzes se apagaram e o público ralo composto em sua maioria por universitários provavelmente sem outra coisa melhor para fazer do que usarem suas meia-entradas foi embora, ele foi sem pedir a ninguém ao camarim e bateu à porta. Ele percebeu sons de pessoas detrás das outras portas, falando com uma euforia de fim de expediente. Não havia dessa vez nem o zelador do prédio, o que lhe pareceu de uma estranha solidão pictórica que ela estivesse sob a convergência daquelas obrigações regulamentares, ao vê-la sentada na cadeira em frente ao espelho, ao lhe dizer de lá de dentro um “pode entrar”, como se aquela mesma solidão fosse a garantia compensatória de que num limbo como aquele seria impraticável que quem estivesse a lhe bater à porta fosse um perigo de qualquer natureza. E Anselm foi até ela, procurou algum outro assento que pudesse usar para dirimir o súbito aspecto desagradável surgido de um homem inesperado como ele se interpondo com sua estatura ao lado de uma figura feminina quase servilmente sentada, mas não achou. Haviam cadeiras dispostas ao longo da parede com outros espelhos, mas todas estavam ocupadas com peças de roupas coloridas, fustons, cachecóis, bonés de imigrantes sicilianos, echarpes, uma peruca loira bastante artificial que ele não lembrava ter sido utilizada no palco, e mesmo um gato, que transparecia sobre a insistência espantada de um segundo olhar averiguativo os olhos espectrais que pareciam mantidos em Anselm até que Anselm o notasse, como se fosse essa a única culminância aceitável da brincadeira, podendo ele então retornar à observância secreta de outras realidades inapreensíveis através dele.

   Helena se endireitou na cadeira, sentando-se com os dois lados dos glúteos, e antes que se virasse de todo para vê-lo com a opulência daqueles olhos azuis que tinham tanto cabalismo que talvez fosse pela competição injusta que o gato se mostrasse tão borocoxô, ela esfregou com força enfática um lenço umedecido no rosto. Ela parou um instante, o observando.

  _ Olá, eu conheço você!_ ela disse.

 Aquele jeito de populacho, aquele espírito de ralé pinteriano, sempre deixava Anselm desconcertado. Exprimia um poder espontâneo com tanto direito que seria inútil lhe causar inveja. Ele se sentia descompensado diante aquele modo de falar, que na verdade era mais do que isso, um posicionamento filosófico. Por mais que ele se violentasse em seus textos para retirar uma fístula daquele traquejo indolente do mais fundo de si, aquele desleixo satisfeito diante o que a vida tinha de mais perverso e incontrolável ele se sentia uma criança. Fascinava-o e o incomodava ao mesmo tempo, fazendo nascer nele uma espécie de melindre reacionário. Por que ela não se comportava como uma mulher decente se comporta?, ele pensava, com truculência defensiva.

   Ele respondeu o que tinha na língua, e não na mente esvaziada de artifícios diante a artimanha distribuída hipotenusicamente entre ela e o gato. Disse que havia vindo para vê-la e perguntar se ele poderia mais uma vez acompanhá-la em casa. Talvez evitassem alguma eventualidade indesejada do destino, ele juntou sem o menor sentido, pensando, nem ele mesmo sabia, que uma insinuação dos velhos modelos clássicos de proteção feminil pelo macho lhe diminuísse o temor que sentia diante a independência dela. Ela lhe olhou séria, pensando de modo calculado sobre a oferta, o flerte, ou o simples pedido de companhia em um universo que para um homem com o aspecto desamparado dele devia parecer inamistoso e solitário, e colocou o papel umedecido por sobre o balcão em frente ao espelho. Estudava as inconveniências dessa proposta, sem nenhum traço de medo, apenas pelo prisma de causas e efeitos. Anselm por um momento pensou se não poderia violar aquela irritante segurança dela, aquela empáfia de intangibilidade, segurando-a pelos braços, erguendo-a da cadeira e a atirando em cima de uma das pilhas de tecidos disformes do chão. Talvez ela fosse uma dessas mulheres, que eram de certa raridade afinal de contas, essas que são soberbas até um ponto em que o homem adequado restituam-lhes a ordem natural administrando-lhes uma dose bem dada de truculência. Seria algo do tipo que os fins justificam os meios, e toda a brutalidade resultaria à força de alguns minutos em quebrar o gelo em um nível conquistado de entendimento. Se ele partisse para cima dela e deferisse-lhe um soco no rosto, não seria uma economia gigantesca de energia para chegaram logo à ternura?

      Nisso ele ouviu um rumorejar de alerta, uma interjeição feita com uma desenvoltura profissional na garganta, vindo do canto esquerdo de onde ele estava. Com espanto, Anselm viu sentado por detrás de uma mini parede levantada ali sem propósito algum a não algum obscuro atendimento a treinos cênicos particulares antes que os atores entrassem no palco, um homem careca, rotundo, de porte mediano que em vez de diminuir acentuava sua musculatura, bem munido de braços que de tão hiperatrofiados deixavam as mangas da camisa de sarja a ponto de explodirem. Ele olhava Anselm com uma malícia veemente, fixando-lhe diretamente a alma, como dizem, o que fez Anselm ter ciência de que lera-lhe aquele pensamento bárbaro, e por isso o brilho assassino de cão de guarda nos cantos das pupilas, como se falasse através dele “tente”, “ouse tentar dar um murro na cara dela”. A cabeça dele era incomumente cheia de arestas, como se algum arquiteto não muito certo da cabeça tivesse-lhe esculpida e firmado arcobotantes como base de alguma peça maior, incongruente e incompreensível, que nunca fora concluída. Anselm pensou em Aleister Crowley, uma figura que despertava-lhe medo em algum momento da infância.

  _ Esse é Ernesto, meu segurança_ ela disse, notando o desconforto.

  Ernesto não moveu um braço, nem mesmo quando Anselm fez um gesto de cumprimento. Em resposta seu olhar ficou ainda mais malicioso, como se a solução lógica fosse ele denunciar as intenções da imaginação impraticável de Anselm. Ela se levantou, pegou o casaco que estava pendurado em um suporta na parede, e disse “vamos”. Se movimentava como um lince. Sua cintura era incomumente fina, a ponto de se não fosse a iconografia libidinosa da fera poderia parecer um defeito.

   Lá fora, andando ainda sem programação certa, ela lhe disse que Ernesto era gay. “Mas duvido que você faça seu tipo”, ajuntou, sorrindo alto e escorando a cabeça no ombro de Anselm, em um gesto cuja fugacidade acentuava seu coloquialismo. Talvez ela estivesse mais predisposta a fazer os ritos sociais com aquele sujeito tão travado. Mais tarde ele saberia que ela o vira como um estudo clínico, como parte de uma atitude altruísta em evitar suicídios, ou colorir com tons menos lúgubres um filtro de depressão. Os dentes dela eram muito amarelados e ligeiramente tortos, não tão ligeiramente a ponto de ser a única coisa que lhe tirava aquela soltura toda. Era seu calcanhar de Aquiles. Ela havia tido um acidente no laboratório de química do curso de enfermagem com sulfato ferroso, ou pelo menos foi isso o que ela lhe dissera. Ela era formada em enfermagem mas nunca exercera.

   _ Ele também é telecinético_ Anselm disse, enquanto cortavam pela praça do General, onde o Mendigo do Inverno estava sentado no mesmo local inadmoestável de sempre.

   Anselm o via sempre que passava pela praça. Um templário de casaco amarfanhado, bem fechado no pescoço e punhos, com uma barba samarcanda à altura do pomo-de-adão. Tinha olhos de quem reza segurando uma cimitarra por debaixo do pano grosso que o protegia da chuva e do sol. Naquela cidade em que se fazia campanhas com pequenos cartazes afixados ao lado dos semáforos, onde se lia “não deem esmolas aos mendigos”, a secreta proteção divina que atendia à sua fidelidade o mantinha invisível.  Talvez só Anselm o visse, fosse uma espécie de djin que se materializava toda vez que ele cruzava por ali. Helena, porém, deveria ser partícipe da mensagem que um dia ele estava destinado a revelar, pois ela também o viu. Olhou-o com genuíno interesse, como se tivesse uma sinestesia reversa de identificação. Talvez fosse um Aleph, um portal para um ponto futuro. Talvez depois de tudo, depois que o drama que se iniciava ali fosse concluído com todos os purgativos morais da compreensão, Anselm fosse descobrir que era um espelho temporal, que não estava vendo nada mais do que a si mesmo.

   _ Ele parece ter uma áurea espiritual_ ela disse, o homem não a ouvindo dentro da bolha de concentração em que estava._ Parece entender alguma coisa que está alheia a nosso nível de frequência.

   Mas Anselm disse que falava de Ernesto.

 _ Ele leu meus pensamentos e viu um momento em que minha imaginação traçou um rumo muito ruim para essa noite.

 _ Humm_ ela soltou-lhe o braço, que vinha segurando para poder andar por sobre as pedras desencaixadas sob a sombra da praça.

  Foi o momento em que ela se mostrou mais objetiva. Seria fácil descartá-lo se aquilo se mostrasse de alguma maneira inconveniente. Umas duas palavras em sua linguagem interseccionante com o submundo e a ausência efetiva de ponderação e aquilo tudo seria subtraído de seu horizonte de eventos. Seria uma brincadeira de mal gosto salientar um humor impossível por detrás de um ato de violência.

 _ Ernesto é leão de chácara. Trabalha em estâncias e boates da alta sociedade. Não é por ser gay que ele não teria lhe dado uma chave de braço que te enviaria para o hospital. Ser gay na verdade aumenta o potencial deletério dele.

   Ele esperou se era uma frase de efeito que teria uma explicação, mas ela se calou, olhando o chão com os olhos bem abertos. Calçava uma sandália de salto alto que em qualquer outra confluência de razões seria um erro terrível à sua incolumidade física. Para ela não interessava o mínimo, mas para alguma vertente incognoscível de presciência cósmica, aqueles sapatos eram como o jarrete de uma força divinatória, que transformava aqueles bloquetes desconjuntados e lombadas de raízes das grandes ceibas em uma barreira sobre a qual ela flutuava em um equilíbrio infalível. Um passo em falso foi possível em todo essa estrutura sincronizada, mas que resultou apenas em um salto que as longas pernas dela se firmaram em um espaço de terra antes da calçada. Como se precisasse de um instante para computar aquele erro solucionado no improviso de sua memória corporal, ela parou e se virou para ele, de olhos baixos. Seria a despedida, era o que estava escrito naquela silhueta de uma gazela salomônica, que voltava a negar qualquer tipo de direito a Anselm.

  _É claro que eu não sou esse tipo de homem. Jamais machuquei nenhuma mulher na minha vida_ ele disse.

   Ela sorriu diante o tom juvenil dele e por um breve instante deixou ver que toda sua zanga era uma trapaça.

 _ Nem em situações em que um certo machucar fosse bem-vindo?_ ela perguntou, recolhendo o sorriso para que o arrulhar que este fazia no espaço fechado da boca estivesse à altura de expressão de um certo erotismo.

   Se ela esperava algum constrangimento por parte dele como seguimento à sua timidez juvenil, a sinceridade com que ele respondeu a desarmou.

 _ Não. Nem isso. Para todos os fins eu sou um macho alfa fracassado.

 Ela então, para tentar restituir algo de sua superior indiferença, resolveu arriscar.

 _ E se aparecesse alguém agora, nessa hora da noite, um homem que transpirasse masculinidade de forma irresistível, um trânsfuga, um bandido, e se mostrasse uma ameaça que iria me subtrair de sua companhia. Se aquele homem vestido como um templário ali viesse atrás de nós com uma faca e me violentasse. O que você faria?

  Anselm olhou o céu, povoado de estrelas, e suspirou em silêncio. Pela primeira vez ela abaixou os ombros e se tornou natural, de uma forma que pôde ver como ela deveria ser na verdade. A naturalidade de mulher desleixada, sexualmente liberada, de ideias de gênero radicais, era uma última carapaça que ela usava. Ele pensou quantas máscaras ela havia posto em prática e desistido, em sua atuação política na existência, para chegar até aquela, inamistosamente solitária e polida. Naquele momento os dois nutriram, em um intervalo que não deve ter durado um minuto, uma intensa admiração mútua, como dois jogadores de xadrez que reconhecem de súbito após uma série de disputas imperturbavelmente consensuais os atributos verdadeiros debaixo das técnicas aprimoradas e dos embustes posturais.

  _ Bom, eu iria me esfolar todo e sairia com muitos ossos quebrados, dependendo de se você quisesse ou não ser levada por esse bandoleiro.

  Ela caminhava lentamente, somente agora ele percebeu isso, que estavam caminhando já não prestando atenção nos passos, e ela emitiu um sorriso que Anselm computou como finalmente o primeiro sorriso dela para ele. As pontas dos lábios se estenderam, mostrando o traçado dos dentes dela, e os olhos ficaram cheios de uma alacridade simpática. Daí em diante, por alguns meses, oito ao todo para ser exato, eles então se conheceram e se entregaram um ao outro, e seis desses meses foram incomumente felizes, cheios da sensação levitacional do amor. Seis meses entre oito, para qualquer perspectiva matemática, era uma boa estatística, mas o inferno dos outros dois meses fora tão devastador que toda a memória ficara comprometida pela mácula deles advinda.