Anselm voltou para sua mesa. Sentou-se, olhando a paisagem dos prédios de frente. Queria restaurar os movimentos alarmistas com que iniciara o dia anterior, mas seu corpo não achava justificativas. Janete estava sentada na mesa ao lado e olhava pela janela, os olhos que sempre se pareciam com dois botões de uma flor exótica postados atrás dos óculos grandes para algum detalhe nos encaixes quadrangulares além. Anselm olhou caçando algo entusiasmante, sabendo que se houvesse qual seria a reação dela? Se houvesse um homem nu se enxugando displicentemente, o que o espírito feminista daquela renegada dos padrões da sociedade faria? Por um momento ele julgou que sua predição iria por uma sorte maluca se confirmar, pois resolvendo-se no ajuste de contração de sua pupila os reflexos de luz em uma janela se abriram para um rapaz parado olhando para baixo, no prédio de frente. Anselm se encolheu na cadeira, aceitando que aquele detalhe pueril viera para lhe manter por mais uns minutos ali, longe dos distúrbios sensoriais de Esvertina. Pos-se a olhar o homem, cruzando os braços e tossindo, como se estivesse em um cinema. Por uma degradação ligeira, que ainda mantinha o rapaz em foco, ele confirmava que Janete se ocupava com afinco com a cena.
O rapaz, olhando bem, tinha traços médio
orientais. Tinha uma barba muito incipiente, que se via mesmo daquela distância tracejando o alto de sua boca e o queixo com a falta de estilo de certas
juventudes. Anselm pensou: não vai fazer diferença ele ter barba, com um rosto
tão delicado e moreno. A biologia mesmo sem ser seu propósito acerta na
estética. Os cabelos, pelo contrário, eram fartos e muito negros, como é típico
às pessoas como ele. Estava tão concentrado em algum pensamento que parecia não
ver nada a seu redor. Na certa, uma janela tão grande, recortada no centro de
uma parede de outras janelas do mesmo porte, não poderia lhe passar
despercebido. E dois rostos incomumente embrenhados na intromissão de repará-lo
ao máximo seria mais que silhuetas em uma perspectiva reta que se finalizava
onde o rapaz estava. Contudo, que distração sublime. Ou ele se negava a
participar de um conluio anônimo que o tinha como alvo, que a perspicácia de
ondas curtas das interações humanas já devia ter-lhe aventado que estava sendo
visto, ou estava mesmo em uma estágio de alheamento tão profundo que se alguém
pusesse a tocar um trompete a seu lado não interferiria. Anselm pensou que
excelente oportunidade perdida para um fotógrafo registrar aquele enquadro de
dor oriental segregada nas mediocrizações saudáveis da arquitetura proletária.
Até o jogo de sombra e luz vinha de graça, perpetrada com generosa distração
pela natureza daquelas paredes descascadas e aquela fremulação do ar que por
mais que fosse flagrada pelo olhar estava sempre num passado de sépia,
saudosista, de amplas sugestões esotéricas inapreensíveis. E aquele semblante
de mil e uma noites, sherazadesco, transliterado para uma masculinidade
delicada, não poderia ser mais condizentemente sensitivo com sua erraticidade e
inadequação à crueza esbravejante daquilo tudo, daquelas janelas pobres,
daqueles pombos canibais, daqueles dois rostos do outro lado, que deveriam
parecer-lhe, se ele tivesse a mesquinharia sem sentido de se importar em
vê-los, com os enfatuados rostos dos mortos em vida seguindo como todo mundo
seu destino cegamente até o desaparecimento. Mas no jornal não havia
fotógrafos, não profissionais, os registros do cotidiano sendo feitos para
chamar a atenção nas bancas para as manchetes com os celulares comuns. Não
cabia o uso de um instrumento tão estúpido para emplastrar aquele flagrante da
eternidade, aquele momento desterrado do infinito, para parafrasear uma acertada
expressão de Baudelaire.
Então aconteceu. Anselm pensou por tanto
tempo como iria descrever a abrupta e grosseiramente efêmera cena na coluna no
jornal, e teve que se exigir um esforço sobrehumano para fugir à tautologia
vazia dessa frase “então aconteceu”. Mas a frase retornava com todo seu poder
de concisão em instigar o iminente anúncio de que algo realmente acontecera, porque é nisso, nessa
pressuposição absurda que se ampara o significado da frase, de que algo novo
possa acontecer na sensaboria previsível da existência, algo que vá abalar
mesmo que nas mínimas instâncias essa coesão instransponível, essa rigidez
dentro da qual o número medido de alternativas já está ajustado, mesmo que
bilhões de combinações sejam possíveis, mas serão sempre só as que o cosmos
estudou colocar no início dos tempos. Pois o que poderia acontecer? Ou o rapaz
voltava para o interior daquela saleta incognoscível para cumprir os
itinerários de seu dia, ou faria o que então ele fez. Diante os olhares cada
vez mais aturdidos de Anselm e Janete, o rapaz saiu de sua imobilidade pictórica,
de seu congelado instante eterno rembrandtiano. A mágica opalescente se
quebrou, aqueles olhos enfunados no interior de si mesmo acordaram, não havia
outra palavras menos fiel mas ao mesmo tempo mais cabível à situação. Se ele
estava em um reino interior de sensações solipsistas, quem sabe trazidas da
infância (que não muito o separava no tempo, talvez uns dez anos, visto ele ser
bem jovem), sentado em inadmoestável solidão dentro da caverna onde dormia o
urso hibernante de sua consciência, não seria acordar a expressão correta. Pois onde melhor se empregaria a
vigília senão para essas idiossincrasias valiosas, para esses mundões seculares
da personalidade contra a qual o sujo olhar alheio não tinha poder? Mas ao
mesmo tempo, a atitude inédita daqueles olhos de uma renascença orientalista (e
o historiador Anselm sabia que não era de todo um oximoro) terem retornado às
evocações empobrecidas do seu entorno só seria descrito como um acordar, o que
trouxe os aspectos pueris do rapaz. Dele evanesceu-se a postura sonhadora e
viera um acúmulo de meneios empobrecidos de significados. Se via o interesse
mais imediatista dele em abrir a janela, se fazer livre de uma vez daquela
missão a qual se impunha. Seus olhos se reviravam ora para o encaixe da janela na
linha cinética de baixo, empurrando a janela o mais fundo possível para que ela
desse o devido espaço para o abismo de fora. Depois, com uma segurança técnica
impressionante, como se o que o impulsionasse não fossem os resultados de
sinapses musculares e o sistema ósseo de guindaste biológico, mas fios
invisíveis que o erguiam do alto, com total convencimento por parte dos dois
expectadores do outro lado de que nenhuma lei física estava sendo
desrespeitada, ele subiu no peitoril da janela com um pulo conciso. Justiça
seja feita em dizer que por um microssegundo seu corpo tombou para trás, para o
interior do cômodo, mas ele se ajeitou com a mesma instantânea quantidade de
tempo, ganhando enfim uma imobilidade com o corpo dobrado no quadrângulo que
bem poderia compor um outro registro pictórico. (Dessa vez com os componentes
de atenção já em suave início de alerta, piscando diante a cobrança racional do
porquê um rapaz como ele estaria dobrado dentro de uma caixa aberta como se
fosse um homem de borracha de um circo em duas dimensões.)
Nisso, Janete deu um pulo e correu para a
janela. Anselm já se punha a fazer o mesmo, movido mais pelo instinto de
repetição diante uma abrupta quebra de imobilidade, quando, a meio caminho de
se erguer, olhando fixamente a cena, o rapaz se lançou. Anselm iria repassar
aquele momento durante meses, iria se silenciar e guardá-lo no núcleo de sua
análise velada a título de crer que um enigma de tal porte só poderia se
abrandar com aplicada seriedade introvertida, e depois iria descrevê-la por
escrito. Lembraria, enquanto durasse sua vida, que acontecimentos assim tendem
a ter uma simplicidade impossível, uma superfície diante a qual se tem que
recuar para que os tentáculos do que nunca se conseguirá dizer puxem junto para
a destruição. São atos que foram feitos na forja universal para ocorrerem
sozinhos, sem testemunhas, e talvez sendo recorrentemente vistos por
observadores intrometidos é que confere ao suicídio um tom sagrado. Pois como
Anselm poderia explicar, por exemplo, o segundo inicial da queda, em que,
estando o rapaz ao mesmo tempo ainda seguro no equilíbrio do limiar da janela, não o estava seguro, mas já em um
estágio flutuante, naquela fugacidade enlouquecedoramente inepta de ser
apreendida pela realidade em que parece que a gravidade se põe a ponderar:
“Puxo-o, conforme faço por bilhões de anos, ou o poupo, o recolocando em
segurança de volta?” Quem sabe o milagre existiria se não fossem Janete e ele
estarem o presenciando, dando assim total liberdade para a potestade-caos
refazer aquele lapso de vetores eventuais de modo que só sobraria o rapaz com
sua mente para dobrá-la e fazê-la esquecer rapidamente que fora poupado, que
todo o universo deteve por um momento só leis inexoráveis por meras questões
morais que envolviam seu sofrimento insignificante. Se havia tanto poder nas
mãos desse deus incriado, por que ele não poderia infligir alguma regras muito
de vez em quando, para provar a si mesmo o gosto de sua onipotência? E o rapaz,
nesse fugaz instante, olhou para Anselm. Foi um olhar direto, em que Anselm
pode sentir com veemente força os vestígios da ternura que havia dentro do
rapaz. E ele sorrira, era um sorriso. Claro que uma contração fagulhar, mas
prenhe de um significado que não era outra coisa que uma disposição sincera
para a possível alegria que lhe esperava. Ele subscrevia o momento de dor com o
contato de toneladas da calçada, que as pesquisas que na certa havia feito
mostrava que não teria um sofrimento significativo, e nutria a expectativa de
um deleite final_ ou um deleite aduaneiro, da fronteira instalada na entrada de
um país desconhecido.
Janete dera um grito, tampando a boca logo
em seguida. Anselm emitira um “Meu deus do céu” e recuara. Janete olhou pela
pontinha dos pés lá embaixo, mas Anselm saíra para a cozinha, completamente
abalado. Só então notara que estavam apenas os dois, Políbio e Afrânio haviam
saído. Na mesma hora, uma buzina se fez ouvir disparada na rua, sem cessar.
Talvez o incidente vitimara um carro, era uma nova gama de possibilidades que o
leque fractal da vida com sua calma força imponderável produzia para contornar
aquele elemento desistente e seguir adiante, como um regato cobrindo uma pedra
atirada por alguém. Não se poderia interromper o fluxo por nada, e era por isso
que não haviam milagres. Uma lei violada despenderia uma quantidade monstruosa
de energia, e talvez já houvesse sido testado antes, há muitos anos, com
resultados terríveis. Sons de vozes de todos os tipos e em todas as modulações
subiam até os dois. No limiar havia como que por congruência crescente as vozes
de mulheres que teciam calmos mas indistintos comentários, cheios de uma quase
musical interjeição, e sons de crianças. Talvez fosse a alucinação técnica que
todo acontecimento provoca, arregimentando as paletas da orquestra para o scherzo
atonal. Janete chorava, e se voltou para ele, os óculos tortos por sobre o
nariz embaçados.
_ Anselm! Anselm.
Anselm piscava, sua mente disparava
pirotécnicos exames eruditos sem significado algum. Era a forma de sua mente se
proteger dentro dos arquétipos sonoros de uma compreensão que ela mesma sabia
terem apenas fins terapêuticos. Ele foi até Janete, abriu os braços e ela
entrou dentro deles, encolhida.
O último componente daquele cenário em
proporções reais enfim apareceu: a sirene do carro de polícia nitidamente
exigindo passagem com uma quase inapreensível delicadeza diante o que se
reconhecia não ter o caráter emergencial de um crime comum.
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