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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Benjamin Lay

 


Eu sempre fui cristão. Estudo religião desde muito tempo. Minha estrutura mental e espiritual é religiosa. Leio a Bíblia todos os dias e já a li duas vezes por inteiro. Eu digo com toda certeza que estamos vivendo a era do anticristo. Bolsonaro é o anticristo. É um fato que grita aos olhos. Pela sua obviedade não vista pelos que o seguem se pode ver que o anticristo vem se fantasiado de cristão. O anticristo é um Cristo vazio, de pesadelo, que repete palavras vazias e faz o contrário. É um cristo palhaço, pornógrafo, pervertido, simiesco, demoníaco. É um predador perverso e sem piedade, cuja missão é a destruição completa. Os Bolsonaros são essa pessoa. O anticristo detesta o verdadeiro Cristo. Toda sua mensagem é uma zombaria da palavra de Cristo, é uma distorção cínica, brutal, violenta.  Minha visão sobre isso não vem de igrejas, que é de onde o anticristo tem seu púlpito, e nem se baseia em maniqueísmos simplistas. Essa guerra espiritual, esse domínio do anticristo, é um evento material, político, intrinsecamente cotidiano e presente. Por isso esse momento exige interioridade, concentração, e a estranha paz do que sabe estar do lado certo, do lado do verdadeiro Cristo.


Meu Jesus não é o do Malafaia, não é o dos evangélicos e dos católicos. Meu Jesus é o do apóstolo Tomé e seu evangelho, é o de William James e John Milton, o Jesus de Benjamin Lay, de Swedenborg, de René Girard, de Kazantzakis, de Dostoiévski e Tolstói, de Jung, de Jack Miles e Rudolf Bultman. Um dia (e vou contar isso não por hipocrisia da minha mão esquerda ver o que fez minha mão direita, mas porque sinto que devo contar), um dia..., eu estava em Goiânia, num posto de gasolina, abastecendo meu carro. Um mendigo se aproximou de mim e me pediu ajuda. Eu tirei míseros 25 reais (que era o único dinheiro que eu tinha) e lhe entreguei. Ele simplesmente não acreditou. Ele agradeceu, se afastou até a esquina, para que eu não o visse, estendeu os braços e orou. Ele chorou e rezou. Eu fiquei tão tocado com isso pois vi que ele tinha mulher e filhos, e aquela mixaria faria uma diferença enorme para ele. Meu Jesus é o desse cara. Meu Jesus vem do intelecto e da arte, mas também da pieguice e da simplicidade mais rasteira. Vem de Buda, vem do zen, vem do Desperto. Vem da comunhão mais profunda. Vem do padre de Os miseráveis, na cena mais linda da literatura, convertendo Jean Valjean. Eu tenho uma alma e a conservo íntegra nesse tempo em que quem não a respeita e não a leva a sério será destruído. Meu Jesus é Platon Karataev e o débil mental de Bulgákov. Meu Jesus é esse ser de uma tristeza infinita pelo estágio de atraso espiritual humano desse quadro de Ivan Kramskoi.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Olavo de Carvalho sem demônios



Descobri ontem em uma página privada do Facebook que o Olavo de Carvalho, o filósofo tiririca que só existe para uma turma seleta de eugenistas nacionais, disse sabe-se lá onde que Paulo Bezerra, o conceituado tradutor do russo de obras de Dostoiévski, fez de sua tradução de Os demônios uma plataforma para mensagens subliminares de doutrinação esquerdista.
Na verdade, alguém que se diz pesquisador, e óbvio seguidor do astrólogo brasileiro, fez um post dizendo que ia escrever sobre Os demônios, e perguntava aos inscritos na página se a tradução de Bezerra era confiável, dado seu "notório" (nas palavras dele) esquerdismo. Isso é para rir. Isso mostra o quanto a indigência mental é uma constância entre os brasileiros médios.
Penso o que levou Olavo de Carvalho a falar tal coisa, e concluo que o astrólogo nunca leu Dostoiévski. Nunca leu mas, como todo mundo, sabe que o russo escreveu livros intitulados "Gente Pobre", e "Humilhados e Ofendidos", logo, para o cultor das flagrantes superfícies, Dostoiévski deve ter sido esquerdista, comunista, adepto das teorias marxinianas. Ninguém que não o fosse daria tais títulos a seus livros. E, juntando os pontos, se Paulo Bezerra foi chamado para traduzir um autor comunista, logo ele aproveitou disso para perverter ainda mais o texto e fazer dele um amuleto hipnótico irresistível para converter o máximo de pessoas possíveis à causa. É o que se poderia chamar de Literatura com Partido.
Sei que Olavo é o rei das sandices, que fala muita abobrinha. Mas essa avaliação infantil sobre Bezerra mostra que ele desconhece por completo "Os demônios". Este romance é o ataque mais devastador contra a esquerda revolucionária, tanto que até hoje assusta o poder premonitório que ele tem, lançado 35 anos antes da revolução russa. Seria impossível para qualquer um fazer deste livro uma propaganda comunista. Mesmo que Bezerra fosse o professor Xavier e tivesse um cérebro mutante turbinado, seria impraticável que ele subvertesse de maneira tão extrema uma obra com fins tão evidentes. Seria o mesmo que um tradutor radicalmente machista e misógino transformasse o "Queer", o brilhante romance de William Burroughs, a obra mais homossexual que eu conheço, em um panfleto do macho supremo.
Dostoiévski, sob vários aspectos, poderia ser enquadrado nas frentes de um pensador de direita: em seus textos no Diário de um Escritor, ele defende a pena de morte e critica a abolição dos escravos. Mas vamos lá: retornemos ao acadêmico que pretende escrever sobre Os demônios, mas que pergunta de maneira tão pueril sobre uma tolice dessas. Imagine se isso for um demonstrativo do que está sendo produzido nas faculdades brasileiras. Gente que não lê, que acredita em conspirações sem pé nem cabeça, e que escuta nulidades cômicas como Olavo de Carvalho.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A verdadeira vida de Sebastian Knight



Terminei hoje A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Vladimir Nabokov. Como tudo relacionado a esse autor, estou bastante embevecido mas com uma indeterminada impressão de logro. Tem partes tão maravilhosas e belamente escritas que, sem dúvida, é a melhor coisa que li dele: mas não muito, fica um tanto apenas acima das memórias e dos contos. Embora não seja tão exuberante quanto Lolita, é nítido o ébrio e inatacável deleite que movia o autor em seu ofício. Nabokov escrevia com incrível alegria; imagino o estado em que deveria ficar quando encerrava o expediente, com a nítida certeza de ter vencido o mundo ao qual não sem espanto tinha que retornar após a recolhida labuta. Aliás, aos grandes escritores como Nabokov não cabe a palavra "labuta"_ nunca caí nessa mentira de que a escrita para eles é um martírio. Ele brinca, ri como um louco excessivamente inteligente, se entrega a todos os tipos de descomposturas: é uma criança em sua própria órbita, em que nada fora dela tem a ver com ele. A impressão de logro é suscitada pela adivinhação de que para ele bastava esse jogo estético intrincado, essa música em que fazia sua desforra com toda a escrita tão disciplinadamente estudada em seus intensos anos de leitor. Há uma suspeição de falta de experiência espiritual que tornaria a arma de seu talento incontestavelmente legítima, e por isso o que o leitor vê é uma vingança sistemática contra todos aqueles escritores cuja a História não privara do exílio purificador, contra todos que não foram atirados ao confinamento mais estúpido de todos em um Estados Unidos que nada poderia oferecer ao espírito, como ele o fora. Lendo esse romance, compreendi melhor as 200 páginas de road-movie, sem sentido e gratuitas, em Lolita, em que se pretende retirar a película de intranscendência da paisagem americana e tentar inutilmente ver alguma redenção nos hotéis de beira de estrada e nas cidadezinhas afundadas em uma chuva entediante e estupidificadora: ali Nabokov tentava chegar à frente do ambiente carregado de generosos significados de seus gloriosos conterrâneos falecidos em um país que não mais existia e do qual ele fora expulso sem tempo de reavaliar suas sensíveis novas diretrizes: seus amados Tolstói e Turguêniev, e seu farsescamente admitido como adversário impróprio, Dostoiévski. Há uma certa tristeza por detrás dessa felicidade narrativa inexorável, a mesma tristeza que derruba o observador enternecido com a prodigiosa imaginação de uma criança solitária. 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Nabokov e Dostoiévski



Em um vídeo sobre o álbum Bitches Brew, um músico de jazz depõe que achava estranho os críticos de jazz mais radicais, na época de seu lançamento, terem desprezado e condenado esse trabalho, pois, segundo esse músico, essa música já não era mais jazz, era algo novo, sob o qual não cabia mais o direito de ser criticado por um nicho específico. Essa é uma das minhas constatações corriqueiras quando li o leviano e excessivamente ácido texto que Nabokov fez sobre alguns dos principais romances de Dostoiévski. Como é de se imaginar, Nabokov destrói por completo qualquer possibilidade de que algum dia uma pessoa como Dostoiévski tenha tido talento literário. Tudo, aos olhos aristocráticos do autor de Ada ou ardor, perpetrado pelo autor de Os demônios, é grosseiro, infame, mal escrito e tosco. Das dezenas de páginas dedicadas em decantar Dostoiévski, as únicas que se ocupam com o que se pode chamar para os padrões nabokovianos de elogios são atribuídas a uma cena específica de Memórias do subsolo, nas quais o russo expatriado nos EUA reconhece justamente o que pouco é apontado: que Dostoiévski era uma grande comediante. Para firmar que realmente gostara apenas dessa cena, Nabokov a reproduz em toda sua extensão, o que ocupa 3 páginas do ensaio. No restante das avaliações_ que só se lê porque, afinal de contas, foram escritas por Nabokov, e porque para um leitor contumaz de literatura russa soam de uma desfaçatez e suprema arrogância divertida_, a impressão que se pretende passar é a de que Dostoiévski era algo assim como um sujeito pouco inteligente, desprovido da mínima capacidade de refinamento intelectual, e que é tão mau escritor e tão irrisório que sua imortalidade só se explica através da constatação óbvia de que a humanidade é uma ralé reflexa do autor. Nabokov chega à graça melíflua da bravata colegial de afirmar que a tese do assassinato e da vontade de potência por detrás de Crime e castigo é mal costurada e absurda, o que ele teria que rever toda a literatura do século XX que nela se embebedou à farta se alguém lhe confrontasse para se explicar (a questão limitante de todos esses textos, contidos no volume Lições sobre literatura russa, é que ele os escreveu para ministrara em obscuras aulas universitárias para alunos americanos, antes da fama).

Sim, Nabokov é um escritor extraordinário. Cometeu 3 obras primorosas, a autobiografia, Lolita e os Contos Reunidos. Também escreveu livros rasteiros e sem expressividade alguma. Mas no todo, Nabokov é algo um nível acima do excepcional virtuose estilista. Em sua autobiografia, Fala, memória, por exemplo, há páginas e páginas sobre espécimes de borboleta e sobre a personalidade de seus tutores educacionais, o que deveriam ser de uma chatice sem igual mas são absolutamente fascinantes. Há cenas de uma futilidade sublime em que ele se deleita em rememorar nostalgicamente os anos em que sua família era da aristocracia dos Románov; descreve o perfil nobiliárquico da mãe, o porte marcial do pai, os vestidos e roupas e detalhes sobre etiqueta. Descreve com minúcias a escrivaninha de seu gabinete de trabalho. E tudo é igualmente interessante e parece alimentar o leitor, ainda que Nabokov não esteja fazendo outra coisa que se vangloriando. Tudo nele é vaidade e exibicionismo. É por demais evidente que ele sabe que é um dos maiores estetas do século, e na delícia calma e onanista de se consumar em seus próprios poderes, ele acaba oferecendo isso aos leitores. Se formos estudar a fundo seus principais romances e contos, eles não dizem muita coisa: mas brilham com uma luz indizível. Lolita é uma caso patológico, aliás clinicamente não muito diferente do caso do Raskólnikov, que ele acusa de implausível, e que contêm uma história que, escoado o caráter equivocadamente erótico que serviu para potencializar sua fama, hoje soa banal. Seus contos são, quase todos, o que Picasso fazia: uma infindável exposição de genialidade artística que se afirma mais na metalinguagem e na anatomia estrutural da composição do que no enredo_ em um dos mais representativos, o personagem está viajando em um trem e o autor explora em 3 páginas as opções de que ele seja assassinado ou de ser inserido em algumas das formas clássicas da literatura.

Já Dostoiévski é o contrário extremo de Nabokov. Neste mês li O adolescente da única forma que se pode ler Dostoiévski, concentradamente, em uma semana. E para recuperarmos a comparação não finalizada que inicia esse texto, Dostoiévski não pode ser alvo de uma crítica literária, pois o que ele fez vai além da literatura. Em O adolescente, romance soberbo que mostra de ângulos inusitados porque Dostoiévski é um gênio superior, já no início nos pega em uma das páginas mais magníficas em que o personagem do título confessa que é dominado por uma ideia; que por essa ideia sacrificou todos os outros referencias de sua vida, a ponto de voluntariamente passar fome. O narrador faz algo que Nabokov nem em delírios ousaria fazer: se admite um sujeito com pouca inteligência, que não sabe descrever as coisas e que purga a deficiência cognitiva natural de seu 22 anos. O que ele faz ali, tanto o autor quanto seu narrador, é confessar sem brios que não é literatura, numa sucessão de afirmações de que é incapaz_ ou são incapazes_, de dizerem minimamente o que pretendem dizer. Mas é justamente assim, nessas insuficiências e nessas declarações de astuciosa ingenuidade, que Dostoiévski transforma seu livro em algo impagável, em algo extraterreno e para o qual as formas de estilo se mostram incapazes e empobrecidas para emoldurar. Se Dostoiévski parece não cumprir a tarefa insinuada de transformar seu narrador em um monstro moral equiparável a outros de sua extensa legião de casos espirituais, já que ele se abstém ao longo da obra em ser o mega capitalista desalmado que freme de vontade infernal no início, o romance não perde em qualidade ao ser desviado para o estudo de caso sobre o alvo cabal que é a juventude em uma sociedade politicamente fragmentada. E é aí que Nabokov se engana, assim como se enganou ao afirmar que eram medíocres escritores como Mann, Cervantes e Faulkner. Dostoiévski é uma bomba cerebral tão seriamente engajada em sua missão exploratória sobre deus, a humanidade, a política, as aberrações e deformações a que nos prestamos sob o cotidiano, etc, etc, que sua estética é muito mais profunda e pretensiosa que o mero luminar linguístico. Ele é muito mais visceral como escritor que não se estaca nas regiões mais baixas do profissionalismo: não escrevia apenas pela arte. Em seus textos maravilhosos no Diário de um escritor (lançado aqui em uma edição indispensável da editora Hedras, da qual se espera o cumprimento da promessa de editarem os outros 5 volumes da coleção), vemos nitidamente seu método de trabalho, ao tratar temas como a libertação dos servos na Rússia imperial e a severidade das penas capitais aos crimes contra a vida por todos os lados possíveis, suscitando nos mais distraídos a impressão de incorreção política.

Não há como comparar Nabokov com Dostoiévski. Pode-se passar bem sem Nabokov, ainda que se sinta falta de suas proezas da mais alta prestidigitação estética, mas Dostoiévski é indispensável. Nabokov, mesmo em seus momentos mais delirantes, é o mais rigoroso controle. Dostoiévski, o que soa um clichê, é uma fúria deliberada, uma profusão de energia e vigor. Nabokov, em seu ponto-morto idiótico, diz que Crime e castigo é literatura juvenil rasteira, cuja frase que lhe marcou como sintoma da mediocridade da obra foi: "A vela bruxuleava no quarto miserável, iluminando precariamente o assassino e a prostituta, que liam juntos o livro eterno". Ele nada fala sobre Dostoiévski escrever os melhores diálogos da literatura; de ter trazido para a literatura os mais amplos questionamentos filosóficos, ou o de ter criado algumas das entidades mais definidoras do homem do século XX. O que soa como imperfeição e pieguismo para Nabokov, na verdade é a sinceridade nua e plena de um escritor que, para parafrasear Nietzsche (um admirador de Dostoiévski, por sinal), sempre escreveu com sangue. Nabokov não fundou uma literatura; Dostoiévski sim. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Comentários coloquiais sobre leituras dos últimos dois meses

O vermelho e o negro, de Stendhal



Romance magnífico que passou ignorado quase por completo em sua época, mas que seu autor vaticinou com estoica tranquilidade que só seria entendido pela posteridade. O livro inaugura seguramente a maturidade sobre o estudo escatológico do ser humano, e imagino o espanto que deveria ter causado em sua época pelas estarrecedoras coisas que conta. Quando o li pela primeira vez em minha adolescência o abandonei, com grave hostilidade, na página 279 (tem meus comentários, meus sublinhamentos e meu marca página enterrado nessa página na minha antiga edição de banca, de quando eu tinha menos que 20 anos); recordo que o livro me pareceu como a mais terrível história de terror, de tão opressiva, desaerada, soturna e desumana que era. Não é para menos que o romancista mais diabólico que existiu, Elias Canetti, reverenciava Stendhal (o capítulo sobre a imortalidade que Canetti escreve em seu insuperável Massa e poder é uma ode a Stendhal). E isso tudo apenas porque Stendhal descreve a sociedade e a alma humana como ela é, e de uma maneira sem espanto, perfeitamente equilibrada. Há corrupção e ânsia de assassinato por toda parte, e o amor é uma impostura da fraqueza ou da ambição. Há a pobreza atroz e a adaptação animalesca a ela, quando o pobre Julien Sorel é internado em um seminário, como último recurso para sua ascensão social, e seus companheiros cujo estado de espírito transita entre a indiferença e a crueldade se revelam com o propósito de existirem apenas para suprirem diariamente a paixão de seus estômagos. Quem ainda cultiva algum respeito pelas religiões, esse livro é uma destruidora libertação. Nenhum escritor escreve tão bem em francês quanto Stendhal; ele reina absoluto sobre a língua. Como esteta, é inigualável, assim como psicólogo e frio denunciador da empáfia da política e da sagração; é também um arauto de unívoca lucidez sobre o poder do tédio, e se tivesse que resumir todo seu tema em uma única palavra, seria essa: tédio. Não sei quem foi quem falou com precisa assertividade que o único páreo para ele é Dostoiévski.

Morte em Veneza, de Thomas Mann



A maioria dos grandes romances purga títulos canhestros. Esse não foge à regra. É como se Agatha Christie tivesse optado para um de seus romances pelo título de O detetive é o assassino, ou Nabokov para seu grande romance O narrador enlouquece. Até quase a metade dessa curta novela fiquei em suspense se Mann conseguiria erguer e encerrar toda a conhecida trama que ela comporta, porque até então a obra cai em uma divagação solta sobre a estética e a preparação do escritor para seu ofício. É como se Mann tivesse programado um de seus caudalosos fôlegos de 600 páginas mas, na última hora, determinasse que a coisa se encerrasse rapidamente. Isso não exclui o fato de que esse livrinhos seja uma obra-prima, e mais ainda que tais páginas pré-trama estejam entre as melhores que já li sobre o ofício de escrever. A tal morte em Veneza é descrita com uma singularidade que ressalta a genialidade do autor pela delicadeza com que ele equilibra o foco da narrativa do amor do velho escritor pelo jovem fisicamente perfeito sem que se entreveja qualquer traço de vulgaridade ou de pre-conceitos formalizados. É tão bonito esse livro que, na ânsia de que a história se inicie, ele acaba sem que o leitor deseje outra coisa senão que as páginas se prolongassem pelas centenas. É precioso também ler as antecipações de Doutor Fausto nesse livrinho.

As sementes da revolta e Os anos de provação, de Joseph Frank



Essas duas primeiras partes da biografia de Dostoiévski são puro deleite. Interessante ver que os dois últimos volumes tiveram o dobro da tiragem do restante, 3000 exemplares, como se o interesse se limitasse ao Dostoiévski do período de seus cinco grandes romances. Pois perdem bastante os apressados em não saberem como é ótimo seguir Dostoiévski em sua infância e juventude, em sua paixão pelas ideias humanistas (centrada na extinção da servidão na Rússia), a publicação de seu primeiro romance, Pobre gente, e como isso foi ao mesmo tempo a glória e a perdição para um jovem escritor que não soube conviver com a fama e se indispôs com todo mundo por sua terrível prepotência. A cena que inicia o segundo volume é a de Dostoiévski, mais seus 20 companheiros do círculo de Petrachévski, que conspirara contra o czar Nicolau I, sendo retirados após 8 meses trancados na fortaleza Pedro e Paulo e levados até a praça Semenóvski para serem executados pelo pelotão de fuzilamento. Creio que a escrita de Frank nessa parte se ombreie com as melhores páginas da literatura do século XX (ou ao menos assim parece para esse leitor apaixonado pelo tema, pela atmosfera e pelo escritor russo). Dostoiévski é encapuzado e amarrado em um poste, mas antes ele se vira para seu amigo Spechniev, também nas mesmas condições, e diz: "Estaremos em Cristo", ao que o colega niilista lhe responde: "Um punhado de pó". A pena se revela uma encenação e é convertida, para o autor de Crime e Castigo, em 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria, mais a obrigação em servir após esse tempo como cabo no exército russo. E os anos na Sibéria nunca foram contados com tanto provimento de detalhes e com tanta profundidade como nessa biografia. A paixão enlouquecida de Dostoiévski por María Dmitriévna, sua solidão dos centros culturais do país, sua fé nunca perdida de que seria um grande escritor. Estou iniciando o terceiro volume hoje.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Indiferença



Não é para menos que o fascínio diante os cinco livros da biografia  de Joseph Frank tenha motivado David Foster Wallace a alertar os escritores contemporâneos sobre a necessidade de reaver a atmosfera espiritual apaixonada da Rússia de Dostoiévski. A leitura do primeiro volume da biografia me provocou aquela contrapartida recalcada que sentem os que, destituídos da felicidade, recebem uma maciça lembrança dela. Olhando desse lugar do tempo, com tanta metástase monstruosa da história entremeada, a impressão é que todos daquela época sofriam de uma ingenuidade enternecedora ao assumirem grandes ideias hoje cadavéricas, discutiam com veemência assuntos hoje tornados impossibilidades decretadas. Não é para menos que esse livro tenha fundamentado a lucidez em Wallace do quanto a ironia é a sobra fraca e auto-deletéria do mundo vazio de paixões em que vivemos nesse século. Vemos Dostoiévski atravessando as ruas de São Petersburgo, sob uma temperatura de 20 graus negativos, com o coração inflamado da felicidade de todas as possibilidades abertas pelo discurso, indo se reunir à Plêiade de Belínski, e sentimos o quanto nos custa a ausência dessa imunidade espiritual. Foi inevitável lembrar, no transcorrer da leitura, o poema de Eliot evocando nosso elmo cheio de nada, embora Eliot o tenha escrito no alto do século XX em que ressaibos dessas grandes ideias ainda podiam se manifestar em um niilismo combativo.

Deve ter provocado uma profunda angústia em Wallace, assim como me provocou a mesma angústia, ver o quanto a espiritualidade se reduziu ao silêncio de tal maneira que a alusão a certas palavras provoca uma retração sarcástica dos músculos faciais: espiritualidade, socialismo utópico, defesa dos humilhados e ofendidos, a opressão do bezerro de ouro, e várias outras. Não nos parece gritantemente infantis tais termos? O livro de Frank é generosamente povoado de nomes que nos causa um involuntário asco diante a fé descabida em abstrações anacrônicas. Fiquei impactado com a confissão de Wallace do que esse livro lhe provocara, a tal ponto que tinha que lê-lo o mais rápido possível. E esse livro é um ensinamento do que nos tornamos, o homem em geral, o ponto decíduo da história em que estamos em um processo de evolução cujo único lema definitivo é que a evolução nada tem a ver com melhora. O júbilo que o homem atual tem é o de expressar sua indiferença, emulando o Calígula de Camus que conseguia afirmar além do murmúrio e do constrangimento que a indiferença era seu único sentimento para com a existência. E Calígula cai bem na comparação a pessoas conectadas em um universo cibernético que nada tem a ver com a realidade, mas que lhes trazem a impressão cada vez mais sedenta de que são déspotas sensualistas prostrados diante seus computadores e celulares.

Terminei ontem o segundo volume dos cinco da coleção de Frank, e até completar todas as três mil e quinhentas páginas estou impossibilitado de me desviar para qualquer outra leitura. Não é só o deleite de se transportar para a geografia e a atmosfera ali tão bem revelada, mas tudo que o livro provoca em questões. Questões como a de que o escritor sem um tema legítimo é o mais vazio e mecânico dos artífices; da importância da fé sincera nas ideias fundamentais para poder escrever; de como os escritores e o mundo atual estão despovoados dessa fé. Questões históricas elucidativas como a comparação entre o sistemas penitenciários czarista e o soviético: como John Gray escreveu, os três primeiros anos do stalinismo matou mais que nos quase 400 anos do czarismo, e vemos sinais disso no quanto as prisões antes de 1917, por mais atrozes que fossem, eram bem mais humanas e permissivas que as que se seguiram. Dostoiévski, por exemplo, se preso fosse sob o domínio de Stálin, teria sido exterminado nos primeiros meses; e Stálin dizia que as prisões czaristas pelas quais passou fez dele um homem culto, pelo provimento de leitura que nelas havia. E vai ver foi por essa reavaliação dos níveis de agruras que fez com que o chefe absoluto de estado soviético fosse muito mais impiedoso com seus inimigos.

Ontem fiquei surpreso por falar sobre Rafael Saddi a um esclarecido amigo professor, e ver que este amigo não sabia do que se tratava. Saddi deveria ser importante no cenário nacional, mas ninguém o conhece, e deveria ao menos ser relevante entre a classe dos professores estaduais daqui, mas é quase um completo desconhecido. O fato alardeado de sua prisão política provoca a mesma sensação de anacronismo histriônico de certas palavras que ressaltam que vivemos em uma realidade de brinquedo. Também ontem eu e a Dani dissemos à Júlia que ela não deveria mais dividir o lanche com os coleguinhas de sala, porque a Júlia nos contou que ela dividia o lanche, mas as amiguinhas não faziam o mesmo porque seus pais lhes diziam que não era para dividir. O mundo de Dostoiévski e o nosso nos mostra o quanto o ser humano é adaptável, e o quanto o automatismo realiza essa característica nos níveis mais rasteiros.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Quanto mais Dostoiévski melhor


Ontem reli Memórias do Subsolo, que só o tinha lido em meus 18 anos. Reli de uma sentada, exultante como uma criança. Senti como Nietzsche disse ter sentido ao conhecer tal livro, irradiado por uma "alegria sem limites". Esse é, sem a menor sombra de dúvida e com todos os gritantes sinais visíveis, o livro fundador da literatura do século XX. Sob alguns sérios aspectos, é mais importante que os Karamázov. É maravilhoso, engraçado (principalmente as últimas páginas, em que aparece o impagável Apolón), sombrio, catártico, cheio de uma esperança e de uma fé paradoxal, de um desespero refinado. Tal livro, assim que se o lê, se percebe sua influência em Céline, Kafka, Bernhard, Beckett, etc. Estou lendo O adolescente pela manhã, e As sementes da revolta à noite, o primeiro volume da biografia de Dostoiévski escrita por Joseph Frank. Dostoiévski nunca é demais.

Um excerto que está por detrás da ideia de "2001" e "O Clube da Luta"

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Meus 10 melhores romances (lista alternativa)_ um post carregado de superlativos

Já que minhas férias acabam hoje, e não terei tanto tempo livre para me dedicar ao blog_ não de forma programada_, vamos a um desses post preenche lacuna bem engraçadinhos. O início de uma lista alternativa de meus melhores romances. Preparados, fãs?

1. Os irmãos Karamázov, Fiódor Dostoiévski.



Convenhamos, a arte parasitante que sempre se alimentou de Dostoiévski é tétrica. Não me refiro nem ao trabalho que os acadêmicos fazem para causar terror no propenso leitor e desmotivá-lo para toda a vida quanto a um autor que é o maior barato, como Dostô, transformando-o em algo como um filósofo rancoroso complicado e sombrio. Me refiro aos desenhos, seja lá por qual firmada e bastante equívoca tradição, que atulham a grande maioria de edições da obra do moscovita. Nada contra ilustrações, aliás eu adoro quando são boas, mas as que desenham para Dostô segue uma odiosa estética monotemática de que devem ser pesadas, depressivas, sempre de um abstracionismo opressivo, sempre fazendo menção direta a patologias e maldição espiritual. Pegas isoladamente, sem que se saiba ligadas à obra para a qual foram feitas, podem facilmente ser confundidas com ilustrações de algum desses livrinhos pentecostais cheios de danações da alma e predigas de nociva atenção contra o pecado. Podem bem servir para figurarem também nesses panfletinhos que nos entregam nas esquinas falando sobre Madame Tal que lê as mãos e desfaz ou faz encostos. São realmente muito assustadores. E não são criações do mercado editorial brasileiro, sejamos justos. Já conheço muitas edições de Portugal e da Espanha, assim como de outros países de língua espanhola, em que o mesmo horrorama é fielmente seguido: loucura, depressão, esquizofrenia. Nas edições russas que já vi, também, como não deveria deixar de ser, estão lá: o velho trem fantasma que precede e muitas vezes encerra a vontade de ler Dostoiévski. Se me sobrasse tempo, interesse e verba, eu poderia fazer um estudo pormenorizado do porquê dessa aberração. Será uma contra-propaganda inteligente e perversa do regime soviético, para afastar o leitor? Ou será a recorrente obra dos ignorantes, que são armas de perversão mais antigas da Terra, que não leram a obra antes de trabalharem com ela, ou a leram bem mal, ou não a entenderam? Dostoiévski, meus irmãos (àqueles pequeninos que futuramente acharão esse blog de um autor já morto nas arqueologias das pesquisas pela net), nada tem a ver com esse negror e essa tristeza inexorável. Eu também, graças a essas pinturas, por muito tempo, na adolescência, fiquei afastado do Escritor Maníaco que me parecia ser o Dostoiévski, ou por me achar burro demais para um existencialismo tão expressivo, ou porque não queria que meus dias no reino inóspito da juventude ficassem ainda mais difíceis de serem vividos com aquelas dúvidas mefistofélicas que os desenhos demonstravam haver nos livros.

O mesmo ocorre com os livros da Editora 34. Caramba, o livro dos Karamázov tem excesso de ilustrações. Tem partes, no volume 1, em que elas aparecem a cada três páginas. Se somadas, creio dar um volume considerável de páginas que poderia bem ser retirado sem prejuízo algum para a estética da edição, além do benefício de diminuir substancialmente seu preço. Como disse, nada contra, mas por que os desenhos para Dostô não podem ser bonitos e refinados como os clássicos desenhos dos livros do Dickens, por exemplo? Por que algum discípulo do Gustavo Doré nunca fez desenhos para Dostô? Na certa, seria barrado pelos editores, que tem uma convenção a cumprir. 

Encontrei um texto sobre o David Foster Wallace em que ele escreve para um amigo que os escritores atuais deveriam escrever com paixão e humanismo como fez e viveu Dostoièvski. Escreveu sobre isso após ter lido os cinco volumes daquela clássica biografia do Dostô (que ainda não li, mas é um dos planos para esse ano, fazer uma boa economia e adquirir tais livros, que são ofensivamente caros no Brasil). DFW tem se demonstrado um guia lúcido e valioso para novos escritores, que contudo esses tem seguido logo as características de DFW que ele mesmo deplorava e tratava com ironia sublime (como eu rio ao ver escritores enchendo seus livros de notas de rodapé, à maneira de DFW, mas demonstrando uma completa falta de compreensão do humor auto-destruidor de notas de rodapé do Wallace). Pois é isso aí, meu caro Wallace (que vontade que dá conversar com um cara desses, quando vejo seus profundos insights), a literatura estaria bem mais interessante, bem mais propícia a mudar os corações e os espíritos das pessoas, se Dostoiévski fosse mais lido e seguido. Nenhum livro que eu já li tem a octanagem sensorial e sensitiva, a verdade de frente e a paixão e o amor desencorporado, o enraivecido e bombástico abraço, que tem os Karamázov. É o livro mais humano que já li, o mais terno, o mais ferino. Isso não é um exagero. Podem vir os idiotas sofisticados que condenam os superlativos. Os Karamázov é superlativo, me curvo diante ele. O maior dos escritores escreve contra todas as pompas, contra os empolamentos, contra as etiquetas, e se declara humano, se rebaixa à condição pura do homem. Toda a literatura do século XX é filha de Dostoiévski, sobretudo dos Karamázov, o que demonstra o quanto a liberdade de seu autor em escrever um romance libertário foi revolucionária. Mas claro que, assim como os seguidores de DFW tendem a seguir as coisas erradas de seu mestre, os seguidores de Dostô retiraram essa franqueza da alma, essa comunhão, esse desnudamento dos Karamázov, decretando o que faz a grandiosidade do livro como algo brega, emotivo demais, e transformaram a escrita em algo progressivamente desumanizado, coisificada, pura em seu materialismo radical, em sua falta de glândulas, em sua robótica carnal intuída, em sua numerologia serial de fábrica. Tudo o que Dostô combate e abomina em Karamázov. O existencialismo desinibido e sem freios de Karamázov se transforma na sequidão destinada à derrota e à tristeza da literatura do século XX. E é contra isso que DFW ataca, o que não é um bom sinal que isso venha de um grande escritor que desistiu da vida. Sejamos frágeis sem vergonha alguma da fragilidade, como disse um dos mais devotos seguidores de Dostô, Tarkóvski. Voltemos a nos concentrar no homem, no humano, nessa época em que o relativismo ampara a destruição do mundo e a preparação já acionada do aparecimento de uma Coisa inimaginável para suplantar o homem (suplantar o homem no homem). Sejamos emotivos, falemos sobre o que interessa. Assim se sai dos Karamázov, transformado, com a certeza fecunda de que isso não é apenas um romance, transcende, arrebata, mexe. E é, por incrível que pareça, um grande romance que enche de felicidade diante as coisas estabelecidas, os obstáculos severos demais e intransponíveis demais. Nada é mais difícil para o homem do que fazer o óbvio, o que tem que ser feito. O que tem que ser feito para a preservação da identidade humana. Lembremos disso quando os carros pipas chegarem.

2. O homem sem qualidades, Robert Musil.



Um romance escrito por um matemático. Já viram isso, asseclas? Concebem o estranhismo de tal coisa, pequenos gafanhotos? Deixe-me ver... Primo Levi e Canetti foram químicos (o primeiro trabalhou isso em sua obra, o segundo confessava abominar quando passava de frente à antiga faculdade). Na história da literatura, talvez esse seja o único caso de um homem das ciências exatas a escrever uma grande obra, uma das maiores obras da literatura. E todo o livro contêm uma prosa maravilhosa e única em que apresenta a constância da análise espiritual com a abstração totalizadora da matemática. Ulrich, o herói, tece ensaios sobre a indústria cultural, sobre a história, onde o que mais aparece é sua compreensão de que na modernidade (o tempo é o pré-primeira guerra) cada vez é mais difícil às pessoas terem uma alma. As reflexões de Ulrich, apresentadas em terceira pessoa, são tão belas e profundas quanto o melhor de Nietzsche. Essas reflexões, tecidas durante as andanças de Ulrich por Viena, compõem várias das páginas mais bem escritas da literatura dos últimos cem anos. No meu entendimento, esse é o suprassumo, o ápice, dos romances-ensaios, gênero que detêm os melhores trabalhos de escritores como Thomas Mann, Philip Roth, Saul Bellow, Saramago, etc. Os que quiserem fazer um test-drive, leiam o capítulo 72, intitulado "O dissimulado sorriso da ciência, ou primeiro encontro detalhado com o mal" e me digam se não é impossível não ficar cativado pelo poder das palavras de Musil. É difícil resumir o livro, mas aventuraria em dizer que se trata de personagens em diversos graus comprometidos com a necessidade de terem uma alma. Desde Ulrich, um matemático ultra-inteligente que se nega a ter as qualidades requisitadas pela sociedade da vida que se exibe_ um dos personagens mais livres da literatura (o fato de ser matemático não o faz cair na pobreza conceitual de liberdade-clichê do existencialismo e das demais escolas da depressão requintada)_; Arnheim, o rival intelectual de Ulrich, um empresário multi-milionário com sofisticadas ideias sobre a redenção neo-liberalista do homem, para quem todo o progresso anunciado no século é motivo de otimismo sobre os bens a serem colhidos para a humanidade (as más línguas dizem que Musil tomou Mann emprestado para criar este personagem)_ Arnheim também é responsável por capítulos extraordinários de reflexões contrárias às de Ulrich; até personagens díspares mas imortais, como o assassino no corredor da morte Moosbrugger, e as quatro mulheres com quem Ulrich se envolve. São personagens que trazem esse vínculo em comum: a procura pela legitimidade de uma alma, habitando um mundo no qual a destruição de todos os valores e a revelação de algo monstruoso e intolerável está para acontecer, um mundo que também busca desesperadamente por um significado, uma direção. Em todo o romance, os personagens estão empenhados na construção de uma liga mundial sedimentada na cultura germânica, chamada Ação Paralela, organização em que se revela ainda mais o vazio e o engano que são as reais forças a conduzirem a sociedade. Apenas Ulrich, em seu isolamento cerebral, se conserva íntegro, em um novo estoicismo. O homem sem qualidades é um dos maiores e mais deliciosos romances de qualquer tempo.

3. O mestre e Margarida, Mikhail Bulgákov.



Os capangas do capeta vem à Terra para acabar com a massacrante corrupção da União Soviética. Quem saboreou o gosto da vingança impossível de filmes como Busca implacável, O protetor e Lucy, vai adorar esse livro. Todas as outras pessoas também, desde que tenham ao menos 0,00001% de sangue nas veias. Aliás, todos os humanos vão adorar este livro. Quem não gostar, digo, quem não amar fervorosamente este livro e não o tiver entre seus preferidos, entra naquelas cifras de gente perigosa que não gosta de criança e cãezinhos. A diferença é que com estas últimas ainda dá para levar um papo descontraído na fila do banco. Bulgákov é bem melhor que Luc Besson. Outros autores russos são mestres na felicidade (Tolstói), no paisagismo com contestação social (Turguêniev), nas profundezas da alma com romance policial (Dostô), na ternura da visão sobre as grandes limitações humanas (Chékov), Bulgákov é mestre incomparável na arte da vingança. Notem bem: a vingança de Bulgákov é algo tão supremo que pode transformar a política, depor ditadores, acabar com injustiças. Não à toa esse seu romance foi condenado e perseguido por décadas. E o humor.... Deixe eu me sentar (como se eu estivesse capaz de digitar em pé depois de duas doses regradas de canjebrina): ninguém é mais engraçado que Bulgákov, ninguém. Há cenas nesse livro que provocam cãibras na barriga, sem exagero. Os demônios do livro são contrabalanceados com a narrativa dos últimos momentos de Jesus, o que localiza esse romance entre as grandes narrativas ficcionais sobre Cristo. O Cristo de Bulgákov é um personagem doce, simplório e sublime, que desconcerta os poderes instituídos. O Cristo de Bulgákov é todo o povo russo, que se conserva em uma primitiva ingenuidade protegida da perda total do ideal da revolução apodrecido por Stalin. Um belíssimo livro, que tem a mesma grandeza dos romancistas russos do século 19.

Aqui reproduzo um texto meu sobre esse romance:

Uma das minhas mais gratificantes leituras dos últimos tempos foi O mestre e Margarida, de Bulgákov. Relinchei de tanto rir o romance todo. Cheguei a babar em grande parte dele. Há um capítulo em que toda uma repartição pública, dessas repartições públicas stalinistas que conhecemos bem por aqui, é possuída: a visita de um dos asseclas do diabo faz com que os funcionários dela passem a cantar uma ópera (baseada na obra) de Púskhin. Ri tanto nesse capítulo que achei mesmo que a possessão demoníaca extrapolara as páginas e caíra sobre mim. Imaginem as pessoas em um prédio do governo não tendo como se controlar, com os olhos desesperados, todos cantando em alto e bom som toda uma obra operística, até serem internados em um manicômio_ e os ônibus que os conduzem passando por uma plateia de populares que acham que é alguma das marchas marciais acontecendo na avenida? Outra cena espetacular é a transformação de Margarida em bruxa, seu voo pelas paisagens noturnas magníficas da Rússia até um distante rio da Sibéria, onde ela se encontra com outras das instigantes figuras infernais para uma espécie de batismo. De imediato, Bulgákov se tornou meu mestre. Anos e anos para que ele chegasse até mim dessa forma sem formalidades, como se não fosse um dos acontecimentos da minha vida, mas uma trivialidade a mais. 

O mestre e Margarida tem também uma narrativa sobre os últimos momentos de Cristo. Em certa época de minha juventude, eu lia tudo na alta literatura sobre Cristo: Barrabás, A última tentação, O evangelho segundo Jesus Cristo. Esses capítulos estão entre as melhores páginas apócrifas sobre o Cristo_ empatam com o magnífico e esotérico livro do Kazantzakis. Por que Bulgákov conta os momentos finais de Jesus em seu livro? Por que, em uma crítica fantástica que faz contra a corrupção do estado soviético, ele intercala esses momentos estranhos, deslocados? Seu cristo tem só um apóstolo, o cobrador de impostos Matheus. Todos são mencionados com seus nomes originais, o que causa uma maior ambientação humana no calor arrogante da Judéia, entre homens brutos cujas barbas parece que sentimos nas mãos: Jesus é Yeshua Ha-Notzri, Barrabás é Bar-Raban, Judas é Judas de Kerioth. Jesus está lá, trocando em miúdos, da mesma forma que Jesus está em Stalker, de Tarkóvski: um homem comum, bastante lelé da cuca, bastante medíocre em sua simploriedade constrangedora, inculto, mas que deixa Pôncio Pilatos fora dos eixos por suas enormes e inusuais palavras inéditas sobre o perdão, sobre a bondade intrínseca do homem. Jesus de Bulgákov é um homem que ninguém suporia, nem nos sonhos mais disparatados, ser algo mais que um louco de bom coração, vítima de sua própria desprovidão de astúcia. Mais uma vez, o Jesus de Bulgákov se encontra com o Jesus de Tarkóvski: em sua aposta de que a fragilidade é a verdadeira força.

Mas o mais fascinante aqui é a comitiva de seres infernais do romance. Bulgákov é um gênio visual: seu romance se assiste, não se lê (estudei métodos de leitura dinâmica que defendem a imaginação da leitura como forma de rapidez sem perder concentração, e nenhum escritor se emprega melhor a essa técnica que esse russo). As cenas são tão ricamente descritas, seus personagens são tão vivos e naturais, que lembro das cenas como se as tivesse visto: na audiência de Yeshua diante de Pilatos, quando Yeshua fala com Pilatos informalmente, como se fossem íntimos, o escrivão que anotava as palavras pára a pena e olha de queixo caído para seu chefe, e isso é oferecido com tanta maestria que dificilmente o cinema seria mais elaborado que a mente do leitor. E os diálogos!: meus irmãos, tenho sido presenteado com o que há de melhor em diálogos em minhas últimas leituras, e Bulgakóv é uma festa à inteligência, é uma overdose. Que prazer e aprendizado saber, mais uma vez, que a literatura pode ser tão libertadora e ensinar tanto.

Os demônios de Bulgákov_ demônios sem nenhuma misericórdia, maus até a medula, e fascinantemente sarcásticos e elegantes_, são como agentes da transformação, como se Deus, após ter mandado os arcanjos para Sodoma e Gomorra, cidades cujo nível de pecado quase perverteu essas criaturas imaculadas (lembro de minha avó pentecostal me lendo a famosa passagem em que os habitantes avaliam o potencial libidinosamente consumível da carne desses seres etéreos), ficasse mais receoso e enviasse dessa vez capangas incorruptíveis, fascinados pelo cumprimento dos terríveis expurgos. Ver as maldades que Azazello, o ser mais feio do universo, Behemoth, o famoso gato preto que anda sobre duas patas, Korôviev, e Hella, uma mulher nua com uma extensa cicatriz no pescoço, fazem sob o comando de Woland, o próprio demônio que se apresenta como doutor em magia negra, é uma maravilha. Nietzsche, que adorava Petrônio, teria adorado Bulgákov. Este romance é um relicário, desses que os fiéis apertam contra o peito à espera de justiça divina, e Bulgákov dá uma ostensiva justiça luciferina em que a hipocrisia da sociedade e a corrupção generalizada que parte do estado soviético se cumpre com decapitações de intelectuais do partido, oligofrenia de poetas ponderados, a loucura de agentes da burocracia. Seria uma vingança meramente placebo, se Bulgákov não fosse tão superior e magistral, tanto que seu romance foi censurado, abreviado, condenado, rasgado, desprezado. Em sociedades tão encalacradas na corrupção e na idiotice como a nossa, Bulgákov ensina, otimista, que a única salvação é o humor libertário, o humor corrosivo, iconoclasta, satânico, insubmisso, subversivo, violento e visceral. Se eu ainda tivesse capacidade de rezar, rezaria ao Santo Bulgákov que intercedesse por nós, para que o Demônio expurgasse esse nosso triste e intranscedente país.

4. A quarentena, Jean-Marie Gustave Le Clézio.





A situação de falta de água em São Paulo é uma dessas realidades difíceis de acreditar. Li em uma matéria que faltam menos que 50 dias para acabar de vez a água em São Paulo_ não que vai faltar, mas vai acabar toda a reserva de água. Os lenitivos para amenizar esse quadro de horror traz uma sensação de que o horror ficará mais acentuado ainda: serão enviados carros-pipas cheio de água colhida nas regiões interioranas com reservas ainda não esgotadas para a grande cidade, e esses caminhões distribuirão baldes de água em quantidades regradas para os moradores. Para diminuir o impacto da cena, essa frota de caminhões adentrará pela cidade de madrugada_ o que me lembra a fantasmagoria de Ensaio sobre a lucidez.  A autora do artigo aventa todas as consequências que pode haver com esse estratagema: violência, desespero, roubo de caminhões, segregação. Ela retira um véu por sobre um detalhe incômodo: as pessoas se sentirão ofendidas em suas dignidades de não poderem dar descargas nas privadas, e isso aumentará ainda mais a situação de guerra. Creches, indústrias, empresas, escritórios, terão que dispensar seus funcionários por causa da falta de água, e isso descambará para uma crise econômica em avalanche e sem precedentes na história do país. Um convidado em um programa da Globo News desse final de semana tocou em mais uma das tantas feridas inesperadas que apareceu no corpo combalido da nação nesse começo dramático de ano: o Brasil se tornará, em questão dos próximos meses imediatos, a nova Grécia. Essa realidade se repete, em menor expoente mas não com menor gravidade, em Rio e Minas, e tudo indica que logo a calamidade estará instalada em todo o restante do país. A situação poderia em muito ser acautelada se os governantes de todas as instâncias tivessem alertado a população e tomado as precauções de racionamento certas, mas o ano passado era ano político e os políticos dessa nação inglória são o que são. Nas redes sociais e nas caixas de comentários dos informativos virtuais, é assustador ver os xingamentos entre pessoas que se dizem de São Paulo, e as que se dizem da região nordeste do país.

Após ler isso, minha filha deitou em meu colo e eu pensei o que eu faria para protegê-la, até onde eu iria. Imaginei-me abatido com um tiro nas costas junto a outras pessoas que invadiram residências de lotes fechados de alto luxo para roubar água. Imaginei o quanto foi terrível para os pais de Auschwitz ficarem impotentes diante o sofrimento de seus filhos. Imaginei o quanto essas reviravoltas da história é que são os nós por onde saltam as mudanças.

Esse livro trata de uma história de miséria e segregação e violência similar. Le Clézio imagina os meses em que seu avô ficou exilado em uma ilha, quando jovem, junto a um grupo de pessoas, em quarentena, porque sua família caiu em desgraça com o dirigente das Ilhas Maurício, para a qual não podia retornar. Nessa ilha fica a comunidade de doentes e os escravos. Nessa ilha, sediado pela fome, o avô conhece uma garota índia pela qual se apaixona. Le Clézio prova através da literatura a força da perseverança para não ver o fim quando a desgraça atinge um elevado grau de opressão. Tudo é mágico e intensamente poético nesse livro. E uma lição de vida. E um potente sopro de esperança, como aliás são todos os livros de Le Clézio. O tema desse grande escritor sempre foi a esperança efetivada dos pacientes, dos simples, dos que não se desesperaram, para os quais todas as janelas e portas se fecharam e toda resposta foi um impiedoso não. Mas que se deparam sempre com um novo e imprevisível caminho. Inesquecível!

5. Coração tão branco, Javier Marías



Coração tão branco é um progressivo suspense em que seu autor faz o que bem quer com o leitor. Começa com um capítulo onde é narrado com um assombroso coloquialismo um suicídio em família, segue capítulos que tem a melíflua dissimulação de nada terem a ver com o tema, e se encerra com o perfeito amarrar de todas as pontas soltas em uma tensão que lembra a coda de uma sinfonia clássica. Entremeando a narrativa, o livro está recheado de reflexões desse autor cujo sofisticado talento para a digressão se tornou uma assinatura. Minha porta de apresentação para Marías, esse romance me pareceu há cinco anos quando o li, o exemplo de uma obra genialmente elaborada, e me surpreendeu ainda mais saber que vendeu milhões de exemplares pelo mundo. Os títulos da maioria dos livros de Marías são belos e sonoros enigmas retirados de Shakespeare, e o deste remete a um momento de Macbeth de insuportável remorso. Tem a leveza de retratar enganos singelos de gestos de desconhecidos vistos pela janela, de crimes intuídos em rumores apreendidos pela parede que divide vizinhanças, e tem o peso quase macabro de descobrir que dessas supostas abstrações pode vir um horror por demais concreto.

6. Ruído branco, Don Delillo



A morte é um tabu nunca mencionado na sociedade mais hedonista do planeta, e esse romance sarcástico é um estudo cruel sobre as formas mais eficientes de um americano padrão descobrir que ele irá morrer. Tem a velocidade de incontroláveis acidentes fatais e um adstringente riso do estranho alívio que é se saber a um passo da morte. Os personagens mantêm a compulsiva ocupação de se distraírem da realidade da morte, com seus trabalhos regimentais, suas famílias justificadoras de um propósito de servidão injustificável, suas televisões e seus teatros frenéticos de consumo, até que um acidente em uma indústria química os confrontam com a perda total do eufemismo. Nessa epifania de insights de humor sombrio que o romance se torna, com alguns dos diálogos mais inventivos da literatura do último meio século, surge a possibilidade de se obter no mercado negro o milagre de não pensar mais na morte, através de uma pílula de um cientista maluco. Delillo consegue a proeza de tornar uma história que aparenta ser corriqueira (com um primeiro parágrafo propositalmente desmotivador com sua sufocante descrição de manobras de caminhões industriais), em uma mirabolante fábula urbana sobre a procura pelo Graal. O autor desvela a hipocrisia narcotizada de uma sociedade que simula se julgar imortal, dando a seus leitores a única evidência de permanência através da supressão lenitiva do medo da extinção, com freiras que cumprem sua função social de fingirem crer em um deus, de uma ciência cuja única conquista é aceitar da mesma forma o segredo de que não existe qualquer tipo de transcendência. E de homens e mulheres comuns cujo destino milenarmente aceito é a de animais intimamente cansados da prepotência de acreditarem deter uma fagulha de luz inorgânica. E como todas as grandes conquistas, Ruído branco, apesar_ ou devido a_ de sua acidez, de sua inteligência impiedosa, passa a dedução de que essa fagulha possa estar na obra.

7. Visível escuridão, William Golding



O leitor de Faulkner vai reconhecer neste livro uma versão inglesa mais radical de Luz em agosto. Há aqui todos os elementos desse grande romance de Faulkner: o exílio imposto a uma criança deformada (espiritual em um caso, e espiritual e fisicamente em outro); um zelador de colégio dotado de uma maldade genuína; em servo de deus que atinge um nível de reclusão auto-santificada que vai além da psicopatia; uma mulher que cumpre a contrapartida de ser a insígnia da liberdade em um mundo caótico. Esse é um dos poucos romances que conheço para o qual se pode usar o conceito de ser verdadeiramente assustador.

8. David Copperfield, Charles Dickens



Wislawa Szymborska diz em um poema que prefere Dickens a Dostoiévski. Li este livro a primeira vez quando tinha 17 anos, e fiquei deslumbrado. Desde então meu amor pela Londres de Dickens se tornou um dos constituintes de minha personalidade. A segunda leitura, feita nos últimos dois meses, foi ainda melhor. Merece um post, no momento certo.

9. Fome, Knut Hamsun




É uma pena que este romance esteja há décadas fora das prateleiras das livrarias nacionais. Hamsun aqui é todo eletricidade; esse livro exuma uma felicidade e uma juventude única, mesmo que seu tema seja os anos de fome e solidão terríveis que o jovem autor passou na Noruega, antes de se emigrar para os Estados Unidos. Tem a fé inabalável do primeiro Dostoiévski, e a pureza de se enxergar como um ser agarrado em suas convicções de incorruptibilidade em um mundo pérfido. É magistralmente bem escrito em sua antecipação da literatura beat, e desses romances que, lidos na febre da juventude, se tornam icônicos para toda a vida. Fui imensamente feliz quando o li em uma biblioteca, pois há nele a mesma paixão irrefreável pela literatura que eu sentia, a mesma vontade de abnegação em busca de aventuras de descobertas, a mesma percepção de que o mundo era maravilhoso demais para que eu não saísse em completa desobediência às convenções sem rumo certo para pertencer verdadeiramente a ele. O alter ego de Hamsun aqui é um vagabundo, despejado de pardieiros e com uma fome brutalizadora constante. A cada página o vemos apertar mais o cinto para que a calça não lhe caia pelas pernas magérrimas. E mesmo quando ele está atolado em total abandono e miséria, ele passa suas longas horas ociosas de segregado (sofrendo estalos no lombo de chicotes de cocheiros e apitos de guardas de praça) escrevendo um ensaio cujo propósito é desmistificar Kant, que para ele é um fanfarrão. Em todo o livro o narrador está sempre em volta com a escrita, mandando contos para revistas que na maioria das vezes os rejeitam. Hemingway escreveu certa vez que seu único propósito quando se lançou no mesmo empenho de suicida radical na escrita, era escrever tão bem como Hansum escrevia. Hamsun purgou fracassos terríveis, até que conseguiu provar para o mundo inóspito que sempre salientava não ter nenhum lugar para ele que sua tremenda prepotência em ser grande escritor se cumpriria. Era um escritor tão livre e concentrado, que quando recebeu o Nobel que consagrou toda sua gigantesca obra, esqueceu o polpudo cheque do prêmio no elevador do hotel.

10. VALIS, Philip K. Dick


Resenha em algum lugar do blog.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Leck mich im Arsch



Nos extras da edição em blu-ray dos 30 anos de O sentido da vida, há um vídeo de 1 hora de duração feito no ano passado em que os python fazem uma mesa redonda onde se dedicam a falar livremente sobre vários assuntos. Estão sentados em uma pequena sala em Londres, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones e Terry Gilliam, enquanto em um monitor de tv colocado ao centro aparece on-line um Eric Idle com os olhos inchados pelo fuso horário de ter que acordar às 3 da manhã em sua casa nos EUA. É uma dessas ocasiões em que se sente a nostalgia antecipada de estar vivendo talvez um último momento histórico promovido por esses artistas inigualáveis e intelectuais do humor para os quais chamá-los de revolucionários é recair em um clichê empobrecido. Ainda que essa tristeza que o expectador sente diante a impossibilidade de resgatar essa uma hora do efêmero parece não ser sentida pelos 5 septuagenários ali presentes, pois estes falam e contam piadas e relembram com um poder mental que não equivale ao prejulgamento de suas idades, e planejam fazer um filme com os sketches não filmados de O sentido da vida. O grupo fala que grande parte do que fizeram seria impossível de ser feito hoje em dia, devido ao politicamente correto. Cleese diz sobre seu espanto da primeira vez que lhe falaram que  o sketche Ministry of Silly Walks seria condenado por ser ofensivo aos deficientes físicos, ou de que a cena do papagaio morto seria uma apologia à violência contra animais. E Gilliam diz que o mundo atual padece de uma indeterminação, de um anuviamento, em que as pessoas, por terem somente noções indeterminadas de pre-conceitos, usam julgamentos exacerbados como escudo de prevenção contra a falta de conteúdos gerais.

Assim como recentemente vi em uma entrevista com o Mario Vargas Llosa, eles, como o escritor peruano, demonstram uma total indiferença quanto à morte, o que configura a todos uma tardia  e perpétua juventude na qual cabe uma série de planejamentos futuros. Eric Idle diz que espera não haver uma vida após a morte, com a qual se revelaria muito cansado; já Cleese, que parece ser o eterno enfant terrible do grupo, diz não descartar a hipótese, e põe-se a narrar, com uma erudição prodigiosa, sobre experiências científicas de consciência além do corpo, ao mesmo tempo que ridiculariza o ateísmo desesperadamente iconoclasta de gente como Richard Dawkins. Cada um dos python conserva uma inocência, uma predisposição ao assombro, um maravilhamento, de tal forma que parece que tentam controlar isso para que a espontaneidade do momento não sobressaia à astúcia de terem de se mostrar bem situados na maturidade. No final, um deles diz que seria bom tornarem a se encontrar todos juntos novamente, mas dessa vez sem as câmeras, ao que um outro, com uma ironia sempre provocadora, responde: "Mas daí qual seria o sentido?"

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Alguns tem dito sobre a grosseria das charges da Charlie Hebdo. São desenhos mesmo os mais grosseiros e muitas vezes sem a mínima calibragem de humor e bom gosto. Causariam repulsa se, ao mesmo tempo, não houvesse a clara evidência de serem deliberadamente idiotas e infantis. Uma charge* como a que acabo de ver, em que a trindade cristã é representada em uma atitude escatológica que parece ter nascido de uma criança de 7 anos paupérrima em saúde mental, só poderia suscitar discussões sérias a respeito se fosse um produto isolado, uma exceção. Acontece que toda a temática da Charlie Hebdo é essa: a da iconoclastia sem método, sem charme, sem compostura, sem sutileza, propositalmente sem inteligência. A infâmia pela infâmia. E aqui, os críticos que caem na relativização dos atentados ao colocarem a culpa no barbarismo iconoclasta dos chargistas, críticos estes que se julgam muito cultos e conhecedores do que é bom gosto em termos de cultura, revelam uma drástica limitação, pois parecem desconhecer a verdade de que a grosseria, o mau gosto, está na raiz não só da cultura, mas da alta cultura. Se a Charlie apresenta um personagem santo, ou o próprio deus, na situação inconcebível de ter o ânus penetrado seja por um triângulo de luz, seja por qual objeto for, a memória do douto defensor de que os desenhistas de uma tal descompostura fizeram por merecer o destino que tiveram, deveria se lembrar de James Joyce, Rabelais, Shakespeare, Mozart, Dostoiévski, Petrônio, Pynchon, Gunter Grass, e uma série interminável de outros criadores.

James Joyce, não só em suas cartas a Nora Barnacle, que talvez sejam pessoais demais para serem exemplos de "mau gosto", mas em várias passagens de Ulisses. Eu poderia citar vários exemplos de grosseria em Ulisses, mas me limito a uma mesma cena de penetração anal por uma leguminosa no capítulo final da parte 2, capítulo esse recheado de situações com o mínimo do mínimo de etiqueta e bom gosto. Rabelais, em um dos capítulos iniciais de Gargântua, faz seu gigante promover um longo discurso sobre qual a tecitura ideal para um limpador de bunda perfeito. Shakespeare é, conforme Tolstói disse em um saboroso ensaio a respeito, o exemplo talvez máximo das letras do que seja o mau gosto e a ausência de finesse. Mozart tem em seu catálogo, extenso em peças obscenas, um cânone para seis vozes intitulado Leck mich im Arsch (Lamba meu cu). Dostoiévski é povoado de personagens grosseiros, como os que promovem uma cena em O idiota de cuspes mútuos. Quem aguentar ler as primeiras páginas de Satyricon sem embrulhar o estômago merece um prêmio, principalmente as descrições de um banquete em que sobressaem vulvas de todos os gêneros cortadas e coladas por cima de porcos assados e sobremesas exuberantes; e Petrônio foi um dos escritores preferidos de Nietzsche. Pynchon escreveu uma das mais grotescas (e talvez única) cena de coprofagia da história da literatura, entre as tantas desfaçatezes que escreveu em seus livros. Gunter Grass nem se fala. Garcia Márquez nem se fala.

É uma desculpa à apologia ao terrorismo dizer que o mau gosto justifica o massacre. É tão grosseiro ver a gritante desumanidade de um argumentos destes, que a mente esclarecida passa a enxergar o quanto uma revista como a Charlie Hebdo é imprescindível. Gente como o cartunista Latuff, como alguns outros oportunistas que pegam carona para se promoverem com o fato, dizendo que jamais trabalharia na Charlie Hebdo, e expedindo um discurso pseudo-engajado cheio de tons pomposos. Personificam o islã como vítima ao mesmo tempo em que não veem a incoerência de representarem o islã nos terroristas ao relativizar-lhes a culpa. Não tem o bom senso de afirmarem que os que professam com seriedade a religião de Maomé nada tem a ver com esses terroristas, mas confundem ainda mais o discurso de suas cartilhas de correção política ao condenarem os cartunistas massacrados, porque eles mexeram indevidamente com o islã. Se fosse em um tribunal de júri, eles seriam as principais testemunhas de acusação contra o islã, e não seus defensores, como supõem. Em contraposição a essa pelica exagerada, a essa assepsia do toque, a essa intelectualidade de salão que vemos no Brasil, uma revista como a Charlie Hebdo é um soco no estômago desses esnobes oportunistas, esses carniceiros engajados em sobrepujarem a falta de talento com suas vozes de carpideiras solenes. O que sobra disso tudo é que a Charlie Hebdo passa a ser um ícone de genialidade, fundamentada pela prova de que o riso é muito mais perigoso do que a doença dos que não sabem rir e tem uma exagerada noção de suas importâncias; passa a ter a próxima tiragem, de uns poucos mil, para mais de um milhão, e reforça a até então indeterminada função exercida de ser o sub-consciente livre de uma sociedade cada vez mais obstruída pelo enrijecimento mental. É claro que alguém como o Latuff jamais trabalharia lá.

* Ao ver um desses cartuns da revista, me voltou na lembrança a época em que eu tinha verdadeiro horror diante a proibição taxativa na Bíblia de que o único pecado realmente sem perdão era blasfemar contra o espírito santo. Poderia-se fazer tudo, matar, desejar a mulher do próximo, traficar drogas, cometer um genocídio, que bastava pedir perdão à misericórdia divina e estaria tudo resolvido, mas se a mente incauta, ainda mais com o cérebro diabolicamente provocado pela sentença, resolvesse associar o espírito santo a um xingamento, aí seria só esperar o inferno para toda a eternidade. Passei por verdadeiros martírios com isso, pois por mais que vivesse me policiando, uma vozinha em meu interior debulhava um sem número de imagens inenarráveis em que o espírito santo aparecia metido em todo tipo de putaria e viadagens.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A terceira sinfonia de Fiódor Dostoiévski



Novamente estou sendo direcionado em um novo caminho na minha vida através da literatura. Minha vida, literal e totalmente, gira em torno da literatura, respira literatura, observa o mundo através da literatura. Meu filtro de contato com toda forma de experiência vem da literatura. Por isso, nada mais natural que a cabala que tece códigos pessoais que me chegam apontando direções através de enigmas tenha como chave giratória o universo da escrita. Essas fagulhas lineares que eu frequentemente encontro atrás dos meus passos mostrando o retorno pelo chão do labirinto, topam com meu destino cotidiano de uma maneira tão presente que já não me causam qualquer espanto. Sempre há um livro que rima com meus dramas pessoais. E cabe agora que esse livro seja, em primeiro plano, Os irmãos Karamazóv. Seria exagero para o olhar alheio eu dizer que parte da angústia atual e recorrente que me cai em cima em relação à existência (e tudo em geral, o que é uma redundância de humor involuntário), foi resolvida pelas 50 páginas que precedem e contemplam O grande inquisidor, e os discursos do padre Zóssima no final do primeiro volume. Essas páginas me trouxeram um imenso alívio e uma terna e insubordinada compreensão. Digo insubordinada porque essas poucas páginas provocaram um misto de certeza e independência (apesar do que nada há de mais distante no propósito de Dostoiévski do que incutir certezas) em mim que me vejo imune a qualquer tratado filosófico ou opinião muito conceituada que pretenda rebatar a verdade destas páginas. Ler Karamazóv aos 17 anos me ajudou apenas a preparar o terreno do interesse quase acidental de relê-lo com a real capacidade de aproveitamento aos 41. Se me limitasse à leitura de quase 25 anos atrás, ainda o acharia o mais chato livro da literatura russa e o que traz os mais irritantes cacoetes de Dostoiévski. (Onde estava com a cabeça e que distração de péssimo leitor me fez ter essa opinião?). 

Pois lendo-o agora, vejo que se trata de um desses livros raros que transcendem os limites fisiológicos do autor, dessas obras de tão arrebatadora independência que antagonizam o mero ser humano que a compôs com a entidade incognoscível que lhe está por detrás. E digo isso não apontando um objeto perfeito: Karamazóv é desconcertantemente imperfeito e frágil como são os outros grandes romances de Dostoiévski. Está um tanto abaixo da eufonia estética de Guerra e paz; carrega um frenetismo que beira o caos onde convivem em tumulto hipóteses de absoluto impacto original sobre a psicologia humana (ou, mais assertivamente, a psicose); filosofias em estágio de delírio sobre a existência e a não existência de Deus; subliminarismos sobre a piedade que revelam uma inquietante personalidade masoquista de quem escreve. E há_ o que me parece revolucionário ainda hoje_, algo que eu não sei definir, uma espécie de pieguismo dostoiveskiano, um descaramento astucioso (diria maquiavélico) em usar e abusar conscientemente dessa fragilidade; uma afirmação constante (e quase exultante) da pobreza do modelo criador em cima do qual o autor escreve. Um livro em que seu criador não demonstra o menor pudor em se revelar por inteiro, em se desfragmentar e se oferecer a um nível de total desinibição em que cada parte de si é um personagem e um cenário. Faz isso de um modo tão obsceno, que é nítido que o caramanchão onde se encontram, no jardim dos fundos abandonado e coberto de hera, Dmitri e Alioscha, é uma projeção do mais recôndito setor do espírito de Dostoiévski. O livro inteiro, com essa extravagante vida diabólica, chega então a se tornar carne nas mãos do leitor. Essa fraqueza, essa pequenez assumida, essa falta de vergonha, esse martírio auto-consentido, tem o poder de certa forma aterrorizante de tornar Dostoiévski fisicamente vivo para o leitor. Como se ele acabasse de escrever o livro; como se sua ressurreição vencesse permanentemente o tempo, e estivesse como um corpo respirante envolto em uma mortalha sentado ao lado da poltrona do leitor. Há algo de espectro lazariano e versão mais pessoalmente urbana de um Virgílio drogomano em Dostoiévski. Como se, por uma lei nova do magnetismo, os fragmentos crus e desavergonhados do autor se colassem aos fragmentos do leitor, e com isso jogasse tudo à visão denunciatória por cima da mesa da feira, aos olhos de todos (aos terríveis e cruéis olhos de toda a plebe). Dostoiévski parece sempre um escritor insuficiente, alguém sem talento para a escrita, alguém insuficientemente armado para a arte, mas que, em desespero de morte, transforma sua puerilidade em um arrebatamento do estágio final de tudo que sente e pensa, sem concessões à gratuidade. Como se tudo fosse compensado pela sua ultra-acelerada sinestesia de ser espremido por um compressor cósmico em que consegue como nenhum outro ser destilado na página em sua mais distante e inacessível última palavra. Não seria para menos que, numa hipótese de resiliência da sociedade pela palavra, Dostoiévski seja visto no futuro ao lado de gente como Jeremias, Oséas um sincero e muito mais perturbado fundador de religião.

Ivan Karamazóv, nestas cerca de 50 páginas citadas acima, começa com um conceito inédito sobre Deus: Ivan diz (para um Aliocha cada vez mais estarrecido) que, como homem, com um cérebro treinado pela lógica euclidiana, era incapaz de conceber a existência de Deus. Por conseguir pensar limitadamente apenas usando três dimensões, era algo impossível para o cérebro humano no estágio atual da evolução, pensar sobre Deus. Sendo assim, é uma ocupação vã pensar sobre Deus. Como homem que aceita suas apertadas fronteiras biológicas, ele aceita que Deus exista. E é aqui, a partir daqui, que começa a nona sinfonia de Dostoiévski. Ou, talvez, de forma não menos grandiosa, a terceira sinfonia de Dostoiévski (em referência ao modelo beethoveano em que uma frase musical quase ridícula em sua infantilidade e pobreza proposital, descamba para um desenvolvimento orquestral de imprevisível riqueza e profundidade). Mas apenas um adendo: só essa frase sobre os limites euclidianos da mente já fundou toda uma área da literatura do século XX (junto ao espectro amortalhado, aparece ao lado do leitor uma gama dos maiores escritores como Huxley, Camus e Bellow, bebendo avidamente das palavras do russo). Pois bem, daí Ivan segue dizendo que ele pode acreditar em Deus, mas não pode aceitar. Ele nunca, jamais, vai aceitar. Ele diz que ele pode aceitar Cristo na cruz a o universo afunilado que avança por séculos de bons e maus ladrões lutando pela sobrevivência, beneficiados pelo sacramento revolucionário de a partir de então não mais ser julgados pelos seus pecados, mas ele não pode aceitar uma coisa: que as crianças, que os pequeninos do Criador, sofram. Ele narra uma série de episódios reportados na recente imprensa russa sobre abominações acontecidas contra esses pequeninos, pais que enxotam sua filha para o porão da casa, a colocam ajoelhada no barril no frio intenso, só porque ela derrubou a sopa no forro da mesa, e fecham os olhos e dorme a noite toda em boa consciência. Ele não pode aceitar os vários massacres cotidianos em que esses frágeis e puros seres de Deus são esquartejados em caçadas pelos senhores de terras, que morrem de fome, que são assassinados imaturos aos 7 anos, todos sob os olhos de Deus e sob a conivência irretocável das inexoráveis leis cósmicas que não podem ser suspendidas nem por um milésimo de segundo. Aqui o leitor já se encontra abduzido: é uma lucidez tão pura oferecida que eu mesmo depositei o livro no colo por um momento para armazenar a carga de tudo isso de forma que não se perdesse em meu cérebro, que fosse segurada por muito tempo na memória. Não era só o fato de eu ser pai: era mais do que isso. Dostoiévski estava tocando na mais profunda razão da barbárie humana, de maneira que, se ele fosse alguém dotado de uma colossal capacidade estética, toda a pureza do que estava dizendo se perderia. É algo meio estúpido e inconsequente afirmar isso, mas Tolstói não conseguiria dizer isso com esse poder solar, com esse grito retumbante e primitivo. Seria outra a música, uma música senhoril, perfeita, vinda de um gigante; uma música que calaria a alma. Já a música de Dostoiévski vem de baixo, e por isso atinge com uma proeminência muscular única. Tolstói nos faz espectador, Dostoiévski nos faz cúmplices. Tolstói tem uma grandiosidade de alma que nos contempla com esperança de cura, Dostoiévski nos mostra a nossa brutal falta de eufemismo ao nos conduzir além do discurso. Eu amo mais meus filhos _ como se isso fosse possível, e por um momento supremamente incômodo de auto-avaliação Dostoiévski torna isso possível_, após ler essas palavras. Depois disso, a modulação da minha voz com eles ficou ainda mais tangivelmente terna.

E o padre Zóssima, no final do primeiro volume, diz uma frase que é o que de mais verdadeiro serve como epitáfio da humanidade: "É imensamente difícil para o homem fazer o óbvio". A frase não é literalmente esta, mas quer dizer isso (não estou agora com o livro em mãos). Essa frase tem me feito pensar muito, tem frutificado muita coisa dentro de mim. Quase impossível para o homem fazer o que deveria ser feito, realizar o óbvio. ("Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.")

sábado, 11 de outubro de 2014

Alma



Encerrei ontem o primeiro volume de Os irmãos Karamázov, na edição da Editora 34. É um dos livros mais maravilhosos que já li. Estou sobre o forte impacto dele. Lá se encontra de tudo, e, muito possivelmente, propostas sinceras sobre a inviável salvação da sociedade. As páginas sobre a vida do Padre Zóssima são de tremer a alma, são absurdamente tocantes e verdadeiras. Doistoiévski, meus caros; não houve nenhum escritor como ele. A ele é permitido fazer isso, impregnar as páginas desse seu grande romance com essas palavras que hoje soam tão relevantes e atuais, mas ao mesmo tempo tão escamoteadas e ensurdecidas pela moda. Em determinada parte, Zóssima diz que nada é mais difícil para o homem do que enxergar o óbvio e adotar a mudança de comportamento necessária; nada é mais difícil ao homem do que realizar a coisa mais simples e fácil. São palavras poderosas demais e ao mesmo tempo enlouquecedoras, pois indica que nada mudará no coração do homem. Mas Zóssima tece um consolo: acredite no homem; se houver um igual a você, com a mesma fé na bondade humana, então a situação já será bastante otimista. E as páginas, aquelas 50 páginas quase insuportavelmente lúcidas e extremamente inteligentes, aquelas 50 páginas arrebatadoras que antecedem e incluem o capítulo do Grande Inquisidor? Não há, em toda literatura_ sem exageros_ nada que se compare a estas páginas. Ao lê-las, vi que me acompanhavam os olhos deslumbrados de todos os grandes criadores intelectuais do século passado. É uma comunhão. Eu havia lido este livro quando tinha 17 anos, e não havia gostado. Não sei por quê. Por isso, só fui comprar esta edição mês passado, quando já tenho toda a bibliografia de Dostoiévski em mais que uma edição na minha biblioteca. E que bom que tenha sido assim. O livro me chega na melhor hora da minha vida para poder absorver seus infinitos significados. Começo a entender a frase de Dostoiévski que tirou Solzenítskin de seu centro de equilíbrio: "a beleza salvará o mundo". Há muito para se falar, e creio que nos próximos dias, assim como me ocupei de Tolstói há alguns anos, vou tratar aqui em maior grau sobre Dostoiévski_ e aqui entra as correlações com 2014 o ano mais quente da história, e o caos e o suicídio social. Um livro que tem transformado profundamente minha alma.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Algumas observações sobre traduções e sobre traduções de Dostoiévski



Eu sou um desses leitores que acreditam existirem traduções tão boas e que não devem nada às obras em seus idiomas originais. Acredito que uma tradução exemplar faz mais bem ao leitor, no que tem de fluidez das nuances da língua para a qual foi convertida e à percepção da riqueza de pensamento e estilo sem as obstruções de ritmo de uma língua alheia, do que a obra em seu idioma original. Em países da língua inglesa há mesmo um respeito tão grande pelas traduções que as melhores delas são apontadas pelo nome do tradutor, o que torna uma espécie de grife em que não estabelece a traição da co-autoria, mas a excelência reconhecida do tradutor ter sido um canalizador fiel para o obra legítima. Assim temos o Quixote de Edith Grossman, o Proust de Lydia Davis, o A Montanha Mágica de John Woods. Há um ensaio primoroso de Borges sobre as três traduções inglesas clássicas de As Mil e Um Noites, e aqui o argentino faz uma ponte sobre as gritantes diferenças entre elas, assinalando que mesmo a corrupção da norma, em casos célebres e esparsos, acaba por conduzir espontaneamente ao cânone; afinal de contas_ o leitor é levado a concluir_, Borges, assim como a grande maioria dos que foram mudados para sempre com as narrativas de Sherazade e que desconhecem por completo os idiomas árabes, só as leu através de traduções. 

Há também casos em que escritores notáveis reafirmam suas predileções pelas obras traduzidas. Numa famosa passagem de Extinção, Thomas Bernhard faz seu alter-ego ousadamente defender traduções de vários exemplares da grande literatura, dizendo que o inglês, ou o francês, deram uma vida insuspeita e um frescor adstringente ao que o idioma alemão obstruía com seu peso e sua seriedade. É fato também que Garcia Marquez em certa entrevista reportou que a versão em inglês de Cem Anos de Solidão transmite uma beleza clássica e uma presciência de perenidade que não é imediatamente tão visível no romance em espanhol. Há coisa de um ano, trocando emails com um amigo que eu só conheço pelas plagas virtuais, tal amigo me deixou espantado ao me dizer que um de seus professores do curso de letras rechaçou duramente sua iniciativa de escrever uma tese sobre Thomas Mann. Ou ele se prontificava a aprender a língua alemã, disse-lhe esse professor, situação difícil para as suas condições financeiras e a distância que estava de uma escola de idiomas eficiente, ou ele se restringia à sua insignificância técnica e se calava. O tipo de estupidez da qual só se pode adotar uma reação histriônica pelo pedantismo ególatra e ignorância de tal professor. Se seguíssemos essa premissa, não teríamos um dos maiores e mais extraordinários estudos sobre Tolstói e Dostoiévski publicado no século passado, pois George Steiner, assumidamente, disse nunca ter lido esses autores no original para cair sobre a obra deles, já que desconhecia o idioma russo. Não teríamos, simplesmente, parte considerável da ensaística e da ficção que hoje amamos e consideramos indispensável, pois seus promotores escreveram, foram influenciados, divagaram, sobre pessoas que conheciam profundamente, mas que se as encontrassem pela frente mal saberiam lhes dizer bom dia em sua língua.

Aliás, os russos foram um dilema de cem anos para os leitores brasileiros, em especial Dostoiévski. Os tradutores nacionais tem tratado criminosamente Dostoiévski. Antes da verdadeira revolução do universo da leitura acontecido no início desse século, com as aprimoradas e excelentes traduções feitas diretamente do russo da obra de Dostoiévski pela Editora 34 (que contratou, principalmente, Paulo Bezerra para tal missão), o que se via nas edições de Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov, Noites Brancas e A Casa dos Mortos, é de fazer tremer qualquer leitor aficionado e desmontar por completo a tese sobre o veículo produtivo da tradução exposta acima. Ninguém nunca leu Dostoiévski no Brasil antes do lançamento de Crime e Castigo da Editora 34, em 2001, pode-se afirmar radicalmente. Parece que o idioma russo era uma espécie de código marciano inexpugnavelmente intrincado para os tradutores nacionais, que nunca chegaram a se importar em aprendê-lo ou a buscar sequer uma aproximação mais intimista das cercanias dele. Eles escolheram percorrer pelo caminho mais fácil e sociologicamente revelador, através das traduções francesas, que mesmo naquela época pregressa eram já consideradas péssimas e cheias de maneirismos pomposos; mas mesmo assim optaram pelo francês por ser o idioma das elites (!). Depois que li Crime e Castigo traduzido do russo, comparei o texto de Bezerra com um Crime e Castigo antigo que tenho aqui. Cheguei à conclusão que é por isso que muita gente acha Dostoiévski um escritor de estilo medíocre, pois os dois livros são absurdamente diferentes. O francês mostra um escritor quadrado, cheio de adverbiações, com uma linguagem que pretende não chegar a seu objetivo mas ficar dando voltas em torno de um núcleo escritorial. Nada parecido há na tradução do russo, em que mostra um Dostoiévski que solta chispas elétricas em cada instante, cheio de coloquialismos e com ouvido maravilhosamente apurado para o registro urbano. A versão do francês comete o adulteramento inimaginável de cortar o que Dostoiévski tem de mais revolucionário: o caos e a fluidez de sua escrita.

Nestes últimos meses fui pego em uma de minhas ocasionais paranóias de leitor. Li três versões diferentes de um dos maiores livros de Dostoiévski. Trata-se daquele que fala sobre o período em que o autor esteve preso em Omsk, na Sibéria. Não falo o título de imediato não por preciosismos, mas porque já na capa aparece o problema: qual o título verdadeiro do romance? Os três que tenho oferecem títulos diferentes: Recordações da Casa dos Mortos, Memórias da Casa dos Mortos, e A Casa dos Mortos. Li, primeiro, o da Ediouro, um voluminho sem capa e sem a folha que cita o nome do tradutor. Insatisfeito com a suspeita gritante de que se tratava de uma das traduções adulteradas, procurei pela net se havia um trabalho do Bezerra pela Editora 34. Ainda não. Lembrei que a L&PM também se lançou à tradução do russo, publicando algumas das ficções menores de Dostoiévski e Tolstói (ainda que o Crime e Castigo deles seja a reedição de uma das velhas recópias francesas). Comprei um e me pus a ler. Só que o binômio dos tradutores não me deixou seguro, já que um deles é o Oscar Mendes. (Parece coisa de larápio, mas nenhuma dessas edições cita a fonte da tradução.) Mas o estilo escorregadio, o empacamento, e mesmo as absurdas diferenças na história entre as duas versões me deixou desconsolado. Um exemplo: há uma sopa de couve servida para os detentos, em que no livro da Ediouro o autor diz ser maravilhosa e, junto com os pãezinhos, um reconhecimento popular da cozinha do presídio; já na versão da L&PM, o autor diz que a sopa era horrível, de cheiro pútrido e cheio de baratas. Isso é só um exemplo; há vários, inumeráveis. O defeito maior é no que fazem dos diálogos. Os diálogos!, que são um dos pontos da grandeza do Dostô!

Procurei pela net qual a melhor tradução de A Casa dos Mortos do país. Informaram-me que só há uma vertida do russo, a da editora Nova Alexandria. Fui à Livraria Cultura. O preço do livro é salgado, mas eu estava em um ataque de compulsão. Ele me foi entregue em casa, um livro belíssimo, capa dura, muito bem editado, e com um adendo da indispensável carta que Dostoiévski escreveu a seu irmão assim que cumpriu sua pena. Nome do tradutor: Nicolau S. Peticov. Aí sim! A diferença da qualidade da prosa é impactante. Tudo ali é belo, intenso, honesto, visceral. Reconheci que quem escrevia era o mesmo autor magnífico de Os Demônios. A cena da sopa de couve? A sopa era horrível mesmo e coalhada de baratas. Mas mesmo aqui neste livro encontrei uma desvirtuação que corrobora uma certa tendência dos tradutores, mesmo os fieis, a fazerem um complô contra o autor russo. É no início do capítulo 3, intitulado Primeiras Impressões (II), em que é apresentado um velho religioso muito bom e pacífico, único o qual os demais presos confiam tanto que lhe entregam dinheiro para ser escondido da revista dos guardas. Pois bem, nas outras traduções informa-se que tal velho vem de uma aldeia chamada Staradúbovo, coisa que não é sequer mencionada na tradução da Nova Alexandria. Nicolau S. Peticov simplesmente mutila e suprime isso de seu texto. E como sei que ao menos nisto as outras edições estão certas? Por aquela frase popular de que toda mentira tem perna curta: muitas páginas adiante Dostoiévski volta a citar o velho, e aqui Peticov esquece de seu crime singelo e traduz: "entre eles o velho originário de Starobud" (p. 77).