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terça-feira, 28 de maio de 2013

Bebê 59


Ah... algumas coisas ainda não se prestam ao riso. Um professor universitário disse em rede nacional que a vida é uma sucessão de agruras. Desde que nascemos somos afrontados progressivamente pelo mundo. Mas o que dizer dessa situação agravante de, assim que nascido, ser atirado na privada, revirar-se o pequeno corpo quase sem peso e quase sem visibilidade pelo tufão da água, descer túnel abaixo e sofrer o drama aparentemente irrevogável de ficar-se atolado no cano do esgoto? Tudo tem seu peso e sua visibilidade, afinal de contas. Isso não é forma de cumprir seu itinerário por esse mundo, por mais minúsculo e infenso que ele seja. Mesmo para essa sutileza complexa, essas pontas soltas de perversão  festiva, essa estaca cravada no zero absoluto da falta de dignidade, haverá que se impor um limite. Quem levará a sério que houve uma errática missão ali, mesmo a de se afigurar nas estatísticas dos que morrem antes de completarem o aniversário de um dia? Quem cogitará que houve envolvimento sensorial suficiente para tecer-se uma lembrança, o protótipo de um pesadelo desses que os bebês tem nos berços que os fazem acordar chorando, um pranto desesperado e selvático à busca de consolo, se falta a essa tragédia o mais ínfimo cenário, a mais efêmera contagem de tempo? Nascer e morrer em cinco minutos entre a porcelana com partículas de fezes na superfície da água e meio metro abaixo em um cano de nove centímetros de diâmetro. Nem Beckett pode com isso. Poderia-se criar gerações e gerações de roteiristas de desenhos animados americanos, dos mais politicamente incorretos, dos mais despudorados e chocantemente agressivos, que nem o mais genial deles conseguiria imprimir humor a isso. Ninguém riria, jamais!, por mais que sua cara, quando resgatado pelo grupo de bombeiros de dentro do cano, apareça achatada, branca, perdida entre as incompreensões geométricas da ótica de se saber se se trata de um anfíbio, uma fralda usada, um frango descongelado_ quem teria a disposição certa das retinas para adivinhar nisso um bebê? A cara que simula enfezamento pode parecer a de um palhaço em que lhe jogam uma torta cinematográfica, mas não há a atmosfera de fundo para que os espectadores riem. Quem sabe mais tarde, anos depois, consumadas as previsões clínicas, cada especialista neuromotor e cada autor dos ensaios psiquiátricos comportamentais tenham eles mesmo envelhecidos, em seus trinta, quarenta anos em que ele tenha testado a medida de muitas filosofias para ver se caberiam retroativamente com ele naqueles nove centímetros, alguém possa olhar as imagens e finalmente rir, "ah meu irmão, fizeram uma com você, hein?", "era você?", "fizeram-lhe uma brava". Mas agora não. Todos os rostos, sérios, olhando o frágil pedaço de carne atirado fora, o crânio quebrado, o pequeno pé torto, lacerado e vermelho. Agora não. Em uma sala a mulher que lhe retirou do útero e o fez cumprir a sentença pretendida de uma existência tubular, cujo destino seria nunca olhar a luz. Em outra sala, quilômetros de distância, ele, naquela solidão onde se constroem os futuros e mais terríveis sonhos claustrofóbicos, assistido de hora em hora por pessoas que também vão lhe abandonar, assim que desligado a câmera, assim que reportado sua comicidade seca e intransigente nos noticiários. A vida é uma sucessão de agruras e como ele é sério, como a impenetrabilidade a qualquer riso lhe faz indelevelmente injustificável.