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sábado, 3 de setembro de 2016

Terapia da música



Seguindo por esse tempo de necessário isolacionismo, estando a Oi em seu prosseguimento natural de espoliar confortavelmente a crendice estúpida e conformada do brasileiro (em todo o estado de Goiás, eu confirmei, está um martírio acessar a internet da Oi), acolhi o conselho do eferim (obrigado, meu chapa!) em ouvir a banda Godspeed You! Black Emperor. Esse álbum aí em cima é uma das melhores e mais gratificantes músicas que ouvi nos últimos tempos, e casa espetacularmente bem com o momento em que vivemos. Mistura de música erudita, com pós-rock, rock progressivo e experimentalismo. Aconselho a não baixarem pelo torrent, porque não vem os encartes dos álbuns, necessários e complementares à obra: baixei em um site que foi criado por alguém apenas para disponibilizar a discografia, creio que é o primeiro link do Google, e nele vem as formidáveis e imprescindíveis capas e encartes. Estou viciado nessa música; fiz caminhada ontem ouvindo este álbum e olhando a massa de nuvens tempestuosas que se criava em cima da represa. O eferim me aconselhou a passar essa música de madrugada no tratamento musical que faço para o sono de meu filho Eric, de dez meses, mas acho inapropriado: tem muitos espaços vazios e muito maravilhoso silêncio musical, o que só pode ser apreciado em um volume mais alto, o que de madrugada fica impraticável. O Eric acordava vinte vezes por noite; a Dani ficou tão exausta, que uma manhã, lá pelas sete horas, eu peguei o Eric e ela desmaiou sentada no sofá, com a cabeça apoiada no encosto, o que resultou em um torcicolo e uma câimbra na perna quando acordou uma hora depois, brava comigo por não tê-la chamado para se deitar na cama (mas, meu amor, eu pensei que você estivesse brincando, eu respondi, absolutamente sem saber na verdade porque a deixei lá, mas muito provavelmente sendo porque o Eric nos deixa a todos desbaratinados). Depois que compramos um sonzinho mediano para colocarmos no quarto, com um pen drive repleto de música clássica e alguma música inclassificável de porte, o Eric se curou. Foi uma dessas descobertas mais estupefacientes da minha vida. Eu queria escrever um tratado sobre essa maravilha e não apenas um post. Na primeira noite, ouvindo Márie Brennan, uma cantora irmã da Enya que está na raiz do namoro entre a Dani e eu (ambos a amamos e só dormíamos, na época do namoro, quando ela dormia em minha casa, ouvindo-a), e logo depois, entre outros sons, os concertos para violino do Mozart (Anne-Sophie Mutter) e as sonatas para flauta de Bach (Aurèle Nicolet), o Eric acordou três vezes. Três vezes apenas! Na segunda noite, com a ração narcotizante dos Concertos de Brandenburgo e a cantata dos camponeses e mais as sonatas para piano de Mozart, o Eric acordou duas vezes. 2!!! Na terceira noite, como num padrão sucessivo, acordou apenas uma vez. A Júlia veio dormir em nosso quarto porque quer participar da musicoterapia, e hoje nós a pegamos dormindo sentada no colchão de casal que eu coloquei ao lado da cama (para que eu pudesse caber nesse esquema todo), no que foi provavelmente uma inútil tentativa dela acordar mas em que foi derrubada pela Maria João Pires. Minha casa se transformou em um templo de música, e isso me enche de uma felicidade sagrada. De madrugada eu acordo e escuto a música que está passando, e o efeito sempre é maravilhoso. O Eric e a Júlia sabem bem o que fazem.

domingo, 4 de outubro de 2015

Nesta noite de domingo desterrada do infinito


Preparando-me para o vinho da noite e a audição deste que é um dos mais belos álbuns de rock progressivo, Darwin, do grande Banco del Mutuo Soccorso. O próprio nome da banda já é um poema. As letras deste álbum e o que o precede nessa séria, o Io sono nato libero, tem uma qualidade literária muito acima da média do que se vê no campo da indústria fonográfica (convido a que leem a letra belíssima da canção Canto nomade per un prigioniero politico, literalmente de arrepiar).

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Close Cover


Para quem viu o encantadoramente artesanal documentário de Marcelo Masagão, Nós que aqui estamos por vós esperamos, a trilha sonora se encontra neste álbum. Mertens é um músico belga que tem em sua discografia mais de 50 álbuns, que se destacam pela sensibilidade, experimentalismo e delicadeza de uma obra boa parte centrada em uma brilhante expressão minimalista. A história da união improvável entre Masagão e Mertens é a história de um cineasta brasileiro fã de um músico belga, que lhe escreve pedindo permissão de uso de suas músicas, e que recebe uma generosa concessão que irá render a composição exclusiva para mais um outro filme. Difícil não ficar tocado pela beleza de músicas desta seleção, como Close cover, Humility, Often a bird, Iris, The scene.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Quatro minutos e dois segundos


Todo bom apreciador de música sabe ou deveria saber_ ou sabe reservadamente_ que há músicas pop que oferecem um grau de sublimidade tão elevado como a nona de Beethoven ou as sonatas de Bach. Músicas pop fazem parte de mim desde que eu me entendo como sujeito levado por uma intuição de que grande parte da vida está em um universo íntimo de imaginação emotiva. Até meus 20 anos, quando morava na casa da minha mãe, eu acordava aos finais de semana com uma seleção de músicas do Aphrodite´s Child tocando no velho som estéreo da Aiko que nós tínhamos na sala. Ontem ouvi uma coletânea do Aphrodite enquanto tomava meu vinho e aguardava que minha esposa me telefonasse para a hora de ir buscá-la e às crianças na igreja, e nada me pareceu tão belo quanto os clássicos It´s five o clock e Spring, summer winter & fall. Sentado no sofá, essas músicas ainda conservam uma grande capacidade de me fazer desvincular-me do mundo e flanar por sobre possibilidades não descartadas. Não é só o vínculo emocional de que eu as ouvia em uma época da juventude bastante impressionável com mistérios e orientalismos de fuga, e que remetem ao lençol preguiçoso da supervisão materna, mas tais músicas, sendo corajoso o suficiente para admitir isso à frente dos alertas de sarcasmo do niilismo inevitável da maturidade, me salvaram várias vezes. 

Há um desenho animado em que um urso feroz perde instantaneamente sua periculosidade quando o pica-pau ou seja lá qual personagem põe para tocar uma música clássica; o animal sofre uma implosão sensorial a ponto dos olhos se revirarem para cima e ele cair prostrado com uma cara diáfana de ter sido abduzido; algo proporcional às dimensões físicas terrenas acontece comigo quando ouço essas músicas, uma impressão de profunda e consoladora insuficiência, um desgaste primordial das grandes e falhas aptidões da certeza e da saúde competitiva, uma imunização a todo tipo de dor que possa vir dessa frequência da existência e não por estar acima dela, mas por ter a consciência não verbalizável de que não há necessidade de espanto diante a evidência de que ela é a nossa natureza. Como dizer... como se não houvesse distância alguma entre a minha vida de gabinete e a do capitão Ahab, tudo fizesse parte de uma mesma aventura. Há uma idade em que essas músicas entram na alma, e essa idade é a da infância e adolescência: ouso dizer que todo o requintado gosto musical que advêm do aprendizado se submete à procura da repetição de um determinado padrão obtido nessa época. Citei o Aphrodite não que essa banda represente algo mais para mim; eu pouco a ouço, fora dessas três ou quatro canções; e não tem a ver com genialidades demarcadas, mas com uma espécie de mensagem universal passada pelas canções populares e que se ampara especificamente no aspecto de serem mensagens desapegadas de assinaturas e egos. Time after time, como bem soube o Miles Davis tardio, vai perdurar por séculos, ainda que Cyndi Lauper possa não ser lembrada daqui a dez anos. 

Assim, não há música que encolha tanto o meu espírito quanto Guantanamera, principalmente a cantada pelo Julio Iglesias. Se algum desvio surrealístico nas linhas previsíveis da minha vida me colocasse em uma situação de ódio extremista_ vamos supor: se algum site da internet conseguisse entremear-se pelas minhas sinapses cerebrais a ponto de limpá-las para me colocar com um cinturão de bombas a serem acionadas no congresso nacional, bastaria que alguém estivesse tocando Guantanamera em seu celular, ou em um carro de som do lado de fora, e pimba, toda a ação terrorista estaria jogada água abaixo. Eu seria transportado de volta para o antigo nicho esotérico situado em uma vila caribenha empoeirada, isolado do mundo em uma choupana com a moça esplêndida a qual nunca teve seu rosto revelado em todo o processo fermentativo com que ocupara a minha existência, a moça descalça de pele morena que me é tão íntima por estar atrás como peças atômicas avulsas de grande parte das minhas namoradas, tias, esposa, filha, formando coerentemente o contorno de seus rostos. Guantanamera para mim é um mundo; em três minutos me revela séculos de vivência compartilhada. A canção do corpo elétrico, como bradou pelos telhados do mundo o inigualável Whitman.

(Minha mãe parece que já esqueceu todas essas músicas que ela indiretamente tocava para mim quando o apartamento ficava repleto delas. Quando ela vem passar dias aqui em casa, eu faço compilações das maiores canções do mundo e ponho para tocar, devolvendo de manhã essa intimidade insuspeita por ela mas que é um dos alicerces da minha forma de amá-la. A Dani vem até meu escritório e me traz a pergunta da minha mãe sobre qual música é esta, de que cantor, e se eu poderia gravá-las em um pen-drive e dar de presente para minha mãe. Na quarta agora minha mãe vem para passar o feriado conosco. Já está pronto o Knowing me, knowing you, Chiquitita, etc.)

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Li, embevecido, os contos de Stevenson em Clube dos Suicidios. Borges, Nabokov e Henry James não poderiam estar errados: as narrativas de Stevenson são formas de felicidade. Entretanto, precisa-se entender muito de literatura para poder apreciá-las. Não entender e ser calejado na leitura como se exige livros como Ulisses ou O arco-íris da gravidade. Precisa-se saber um tanto de cronologia da história da ficção, da mentalidade diferenciada do homem do século 19 e do homem do século XX, da degradação paulatina da ingenuidade humana (criando-se novas e eternas formas de outras ingenuidades, talvez mais perigosas), entender sobre os danos da ironia na visão moderna. Já vejo pessoas desamparadas de tais perspectivas necessárias dizendo o quanto os contos de Stevenson são fracos e rasos. A mesma linha de deficiência cognitiva de pessoas que alegam ser Shakespeare o mais taquilálico dos escritores. 

Mas vamos em frente: os contos desse volume da Cosac são mesmo deliciosamente inocentes. Eles são grandes justamente por isso. Um conto como O clube do suicídio é tão magistral e inesquecível quanto uma ótima canção pop (tá, todo o texto acima partiu dessa premissa). Os romances de Dostoiévski, por exemplo, são sinfonias filosóficas como as de Beethoven, enquanto escritores como Poe, Stevenson e Chesterton são compositores de imortais milongas a arrasta-pés que oferecem a mesma catarse por outros desvios. Ouve-se totalmente crédulo Cyndi Lauper dizer que estará lá para amparar seu amado em todas as horas, eternamente, ainda que tudo em nossa mente combalida pelo excesso de obviedades diga que jamais tal dedicação ocorrerá dessa determinada maneira. Mas enquanto se escuta os 4 minutos e 2 segundos de Time after time, ninguém tem o senso crítico ativado para dedicar outra coisa que uma certeza descansada e inabalável de que existe esse amor perene surgido na década de oitenta. Assim acontece com nossa fé ao não levantarmos nenhum impedimento moral na trama em que senhores da alta sociedade londrina formam um pequeno grupo de extermínio para caçar um líder de uma estranha comunidade filantrópica que promove o fim das dores desse mundo através do suicídio_ não acende nenhum impedimento enquanto nos regalamos do prazer da escrita de Stevenson. A estrutura dos contos de Stevenson são magnificamente levantadas para apagar nossa capacidade de desacreditar e de desatenção. Stevenson, como bem disse sobre seu enorme poder de convencimento o Nabokov de um dos ensaios que acompanham a edição da Cosac, faz uma tapeação sofisticada de tal forma que só depois de fechado o livro que nos damos conta de que suas histórias adotam um prisma oitocentista de elitismo social e filosofia positivista, no que tem de descartar as grandes intuições radicais que existem por detrás delas. Mas no momento em que a lemos, em que entramos nos ambientes de fog e frio e sombras dos becos londrinos, em que esfregamos um pé no outro de puro prazer e pigarreamos baixo ao virarmos uma página, somos totalmente seduzidos por tudo que Stevenson escreve.

Por detrás de O clube dos suicídios e Dr. Jekyll & Mr. Hyde, há uma série de inspirações abrangedoras que extrapolam as circunstâncias em que estão amarradas e as desvirtuam, fazendo que elas retirem pé do comedido século 19 em que foram confeccionadas para aportarem com toda aptidão revolucionária no século 20, em que inspirou a imaginação de tantos outros ficcionistas. Talvez Stevenson mesmo não tenha visto isso, a volatilidade bombástica dessas duas narrativas geniais, não tenha tido a percepção correta para enxergar a grandiosidade subjacente à ingenuidade do que escreveu. Por exemplo, O clube centra-se em um grupo de aristocratas que se reúne sob o comando do mais datado dos personagens principescos, o príncipe Florizel, que, indignado quando toma contato com uma sociedade secreta de suicidas, não descansa enquanto não mata com as próprias mãos o chefe dessa sociedade. Notem bem: ninguém do clube obrigou o extremamente curioso príncipe Florizel a participar de sua reunião; ele o fez enganando os sócios do clube, em uma noite em que, vítima de um tédio colossal, o príncipe força seu assessor a acompanhá-lo em mais uma de suas aventuras de burguês que tem a ciência de que pode intrometer-se em tudo. Quando, mesmo depois de que seu assessor o aconselha de todas as formas a não continuar naquela farsa, a coisa complica colocando a vida do príncipe em risco, aí sim ele toma para um lado pessoal e se veste do emblema da vingança. E tudo segue o rumo moralista previsível: o príncipe e seu séquito de admiradores fidelíssimos afunila a perseguição até que o chefe do Clube é morto em um duelo de espadas, em uma casa de campo londrina ao lado do rio, em uma noite de ventos fortes e tempestade. A narrativa_ mais uma vez reforço, escrita com uma perícia infalível e invejável_ acaba com um tom de glória festiva, em que os bons sepultaram os maus para sempre, prometendo a guarda atenta sempre que o mau fizesse o menor movimento para evadir-se de sua sepultura.

Mas aqui entra a mente de um homem do século XX, século das guerras, do niilismo e cinismo e tudo mais que nos deu a maturidade novamente desnuda para novas roupagens conceituais que temos hoje_ o homem mais uma vez virginalizado pelo excesso, à espera de um novo iluminismo. E o que o leitor atual pensa diante o Clube é: mas o herói verdadeiro, o cara simpático e altruísta do conto não é o chefe do clube dos suicídios? E o cara antipático, riquinho mimado que sempre dá suas carteiradas do poder e é um prepotente intolerável sentado por cima de milhares de despossuídos prontos para a obrigação de louvá-lo, não é o príncipe Florizel? O chefe do Clube, mesmo que tivesse sido a intenção de Stevenson em mostrá-lo flagrantemente com as qualidades de um vilão, é um sujeito involuntariamente cativante, em seu enigma, em sua disposição de sacrificar a vida no esquema de poupar a dos outros através de suicídios programados e consentidos, de forma tal que para o fim da narrativa o autor parece ter tido o vislumbre de que faltava um elemento de macula maior, e ele envolve tal personagem da suspeita de estelionato. A visão historicamente restringida de Stevenson por sobre o príncipe Florizel (uma espécie de Sherlock Holmes que habita várias outras histórias do autor) o envolve do glamour da aristocracia e da regência, o pinta com a elegância dos salões e com a sabedoria genética dos nobres de sangue azul; em uma passagem, Stevenson o descreve como em ser acima da terra, se movendo com uma leveza infalível prodigiosa e sendo portador de uma inteligência e dignidade totêmica. Claro que é nítida a posição insofismável de Stevenson do lado dos bons e contra os maus, num maniqueísmo que fala muito de uma outra raça de homens em que tudo era mais simples. Já o século XX transformou a história do Clube em distorções mais profundas e relativizantes, como sua inspiração recente mais famosa, O clube da luta, que é uma versão de Stevenson após Camus, Dostoiévski, o existencialismo, Beckett e Karl Marx. A leitura de O clube é tão ampla que todo o século XX poderia ser contada a partir dela, e Stevenson jamais imaginaria, mesmo sendo detentor de uma imaginação tão poderosa, que criara o tipo de filósofo acima do bem e do mal e órfão legítimo da História em seu chefe do Clube, com uma consciência do fardo que é a adstringência dos remediadores sociais que conhecem em triste excesso o coração dos homens, alguém com a mesma maldição de uma reformador pragmático e não teórico como Piotr Stiépanovich; e, em contrapartida, destruiu para sempre seu príncipe Florizel, engolido pelas vagas da experiência que não aceita alguém tão raso e pueril.

Assim também, após reler a maravilhosa narrativa sobre Jekyll & Hyde, cogitei uma história em que toda uma cidade é transformada de seu comodismo alienado jekylliano para uma melifluidade satânica hydeana. Imaginei uma cidade em que as pessoas passariam de simples inocentes úteis nas mãos de políticos criminosos para assassinos e revolucionários destemidos que poriam a velha hierarquia de roubos de pernas para o alto. Imaginei velhos aposentados, donas de casa, adolescentes do funk, pais de família que podam a grama nos finais de semana, pendurando vereadores e prefeitos e doutores de gabinetes pelas pernas em altos mastros da frente do paço municipal, e empalando-os com cabos de vassouras. Fui me deliciando com a imaginação proporcionada pela história de Stevenson, até me dar conta que tal história já foi escrita: por detrás do positivismo moralista de Stevenson há o diabólico, imenso e prevenidor do câncer, O mestre e Margarida.

terça-feira, 4 de março de 2014

De arrepiar!



Esse álbum foi gravado em 1974, durante a passagem de Dizzy pelo Brasil, mas teve que esperar 30 anos para ser lançado (segundo seu produtor, não era "comercial"). Quero ver quem ouvir essa música e não sentir uma expansividade feliz na alma.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Tomasz Stanko e Wislawa Szymborska


O grande trompetista Tomasz Stanko fez uma belíssima homenagem à excepcional poeta Wislawa Szymborska neste cd duplo. Jazz de primeira com literatura de primeira.

sábado, 24 de agosto de 2013

Nesta noite de sábado desterrada do infinito



Conheci esse grande álbum no blog do Grijó. Desde então, a audição é compulsiva. Abrindo uma garrafa de vinho. (A segunda música, Blue Minor, me lembra uma música popular brasileira conhecidíssima que me agonia não saber qual é, mas suponho que de Adoniran Barbosa.)

sábado, 10 de agosto de 2013

Mozart, Violin concerto K271a, Mvt 1

Eu sou um cristão que por viver em contínuo conflito com a ideia de deus já não tenho mais o direito de alegar angústia. Minha concepção de deus é muito particular, e não se baseia em méritos. Sinto-me mais confortável com os "santos sem deus" de Camus do que com os que arvoram certezas em qualquer investimento em uma recompensa em um outro mundo. Toda a criação artística humana, desde a música, a literatura, à arquitetura, tem a noção de deus como base, e seria o fim do homem pragmatizar na vida social o fingir não se preocupar mais com as questões da transcendência. Deus é necessário_ leiam o A civilização do espetáculo, leiam Don Delillo, leiam Adorno. Cristo foi o maior reformador espiritual da história, e é por isso que rezo a ele, ou à ideia dele, todos os dias. Antes de ligar o carro eu faço uma reza particular, que a criei há tantos anos que soa como poesia. Vivo rezando, acho que rezo umas vinte vezes ao dia. Dentre tudo que li sobre a percepção de deus, a mais reveladora para mim está no romance Submundo, de Delillo, na página 263. Vou reproduzir aqui parte do texto: 

"'Pára por um minuto, ó ser fraco e miserável, e olha para ti mesmo.' Quer dizer, era eu que estava sendo destacado, num estado de pausa, pensando em mim mesmo, vinte anos de idade e mais burro que os meus colegas e desesperado pra encontrar um lugar onde eu me encaixasse. Pois eu li esse livro e comecei a achar que deus era um segredo, um túnel comprido e escuro, que vai e vai e não acaba mais. Foi essa a minha miserável tentativa de compreender a nossa nulidade em face da enormidade de Deus. Era isso que eu respeitava em Deus. Ele mantém o segredo dele. E tentei me aproximar de Deus através do segredo dele, de seu poder de se manter desconhecido. Talvez a gente possa conhecer Deus através do amor ou da oração ou de visões ou do LSD, mas não através do intelecto. E aí aprendi a respeitar o poder dos segredos. A gente se aproxima de Deus através do que ele tem de incriado. Porque nós fomos feitos, criados. Deus é incriado. Como é que a gente pode tentar conhecer um ser assim? Não pode. Não pode conhecer nem afirmar. O máximo que se pode fazer é adorar a sua negação." (Don Delillo, em Submundo)

Jamais vi minha forma de aproximação a deus retratada com tanta perícia. Quebra. A questão do milagre? A questão de que Jesus fazia apologia da inteligência combativa, e estava longe de ser passivo? (Muitos não entendem que o dar a outra face é a maior arma, o confrontar o inimigo com a lucidez constrangedora de sua estúpida brutalidade.) Meus filhos e minha esposa estão na casa de uma das avós, na capital. Estou sozinho em casa desde quinta-feira. Ontem minha esposa me liga dizendo que sua irmã grávida fez o ultrassom e o médico lhe disse que seu bebê não tem pernas nem braços. Fico num silêncio estuporado pelo telefone, ouço todo o vagalhão interno que isso começa a causar em minhas sempre instáveis âncoras existenciais. A Dani fala que sua irmã entrou em desespero, ligou para a mãe em um estado de choque, mas teve forças de ir até outro laboratório, fazer urgentemente outro exame e levar a outro médico. Esse outro médico disse, categórico, que seu bebê estava perfeito. Fui tomado por uma ira súbita pelo telefone, passei uma exageradamente severa bronca na Dani, pois ela deveria ter dito primeiro que tudo estava bem e que havia acontecido um erro de diagnóstico logo retratado, e não ter feito aquele suspense inapropriado comigo. Fui deselegante com ela, assim que desligado o telefone me arrependi. Sentei no sofá da sala e fiquei longo tempo pensando, mais em um estado catatônico que propriamente um espairecimento controlado. Tive um medo sônico de que se eu me movesse aquela frágil dobra do destino poderia se quebrar, e a escolha da providência poderia ser refeita. Acho que deve ser a mesma coisa que sentem aqueles monges irlandeses do conto do Joyce que passam a vida pedindo clemência para que deus reconsiderasse por mais um momento, desse à humanidade mais uma outra chance. Não pensar; sequer nem agradecer, nessa leveza magistral que nunca vai ser me dado entender, para meu benefício, pois assim descarto que entre os infinitos sentimentos do ser incriado, divida espaço o meu pequeno e inútil rancor.

E como não vislumbrar deus aqui?:

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Nesta noite de sexta desterrada do infinito



Durante anos venho alimentando uma verdadeira paixão platônica pela Kate Bush. A maior cantora da mais elevada música pop de todos os tempos. Este disco é meu preferido dela. Nunca me canso de ouvi-lo. Agora mesmo estou renovando a impressão de que o ouço pela primeira vez, tamanho meu fascínio diante obras-primas como The saxophone song, The man with the child his eyes e a sensibilíssima Wuthering Heights. Músicas que, reza a lenda, ela escreveu antes dos 15 anos (lançou o disco aos 19). E cada uma das 13 faixas do álbum é uma gema insuperável. E Kate é, também, a mais literária e culta das cantoras, com suas tantas referências a Joyce e demais cânones da língua inglesa.  Aliás este é um de meus dez melhores álbuns de qualquer gênero, ao lado de Kind of Blue e Astral Weeks. Um brinde de Gato Negro à minha eterna amada Kate Bush!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Os gorilas do templo sagrado (Tarzan, Thelonious Monk, Nabokov, Geoff Dyer e a alegria da resiliência) _ ou, como é linda a vida, apesar de tudo



Por onde começar? 

Já disse em algum outro texto sobre a sobrevida de meu sogro. O médico dele o liberou para comer e fazer de tudo, à maneira daquele filme com o Morgan Freeman e o Jack Nicholson, visto que o prognóstico que veio junto a esse destrambelho radiante era que não lhe restava mais que uns três meses de vida, e por isso seria bom que ele se apressasse se pretendesse escalar o Everest, beber leite de lhama ou caçar tubarões no mar da Tailândia, ao que o meu sogro preferiu esperar por seu desaparecimento absoluto com a muito mais modesta opção de ficar em casa e sair para visitar os parentes e amigos de vez em quando. Nisso foram-se 4 anos. Minha esposa me perguntou sobre minha opinião se eu recomendava que meu sogro passasse pelas sessões de quimioterapia, e eu lhe respondi que meu pai suportara apenas oito meses quando se prontificou a agarrar o milagre por essa porta dos fundos da convencional resignação médica. De seus 70 kg quando entrou para a sala de quimio do Hospital das Clínicas, com a face corada e os cabelos de topete da jovem guarda intactos e negros, meu pai continuava apenas com 30 deles e a aparência mumificada que desnuda qualquer esperança humana meses depois do tratamento, em um coma semi-acordado de total insanidade e sem um pelo no corpo. Pois meu sogro veio nos visitar nesse domingo; fizemos um churrasco e doces para a sobremesa, e não havia nenhum vestígio de doença ao menos em nenhum canto de seu porte físico e seu pleno humor para com a vida. Meses depois que lhe foi dado a notícia da infalibilidade de sua morte, minha sogra desmaiou enquanto comprava pães, e o médico, como num sketch sem graça dos antigos programas televisivos em que o doutor de jaleco branco, com cara de louco e agarrado nas cinturas do casal de sentenciados de sorrisinho triste, solta o bordão grudento "desgraça pouca é bobagem", recebendo as palmas e gargalhadas frenéticas da craque entusiasmada, diz à minha sogra que o enfisema de trinta anos de fumante já lhe tomara conta de 90% dos pulmões. Era capaz que ela venceria essa súbita última disputa do casamento sobre quem seria enterrado pelo outro.

Ambos haviam ganho peso e faltavam dançar na sala, o que, aliás, fizeram. Nesse domingo parecia mesmo um último capítulo de novela, com toda a sua felicidade ilustrada, e se faltou um casamento, para compensar foi anunciado pela minha cunhada e seu esposo que o bebê que esperam no quinto mês, é menino e é perfeito. A doença ainda está lá, como veio selado nos novos exames de averiguação. Mas a impressão é que o milagre, paradoxalmente, também acontecera.

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Essa quebra no texto é para suavizar o humor involuntário da informação de que essa mesma cunhada também está doente. Ano passado, ela sofreu um ataque com todos os sinais de epilepsia em seu local de trabalho. Seus colegas ficaram profundamente chocados ao verem aquela moça cordial, de fala suave, caída no chão, espumando pela boca, com o corpo em uma convulsão descontrolada e os olhos revirados para cima. Por pouco ela não morreu sufocada pela retração da língua. O neurologista lhe passou uma batelada de remédios de uso controlado para tomar todos os dias. Esses remédios a narcotizavam tanto que, escondida de todos, ela parou de tomá-los após o primeiro mês. No dia seguinte, o ataque foi assustadoramente mais violento que o primeiro, e coincidiu de minha esposa o presenciar em um fim de semana que visitava seus pais. A Dani me contou que nada se assemelha mais a uma possessão demoníaca, pois a Adriele, minha cunhada, pronunciava xingamentos arrepiantes, e ameaçava que iria matar os pais quando estivessem dormindo. Uma nova série de exames foi feita, e mais uma vez o médico não detectara nenhuma anormalidade, mas reduzira a dosagem dos remédios para que a Adriele ao menos pudesse falar ainda que lenta e entorpecidamente. Ela teve que se demitir do trabalho e ficar em casa, sob cuidado da outra irmã e dos pais.

Aqui entra o veterinário da família. Eu solicitei à Dani que indicasse à Adriele fazer o exame específico de cisticercose. Deu positivo. Eu mesmo não sabia que o desconhecimento dos médicos sobre a incidência da cisticercose fosse tão grande, a ponto de ter que se pedir um exame diferenciado. Pois dois ovos da tênia haviam se instalado em um local do cérebro da Adriele, e o organismo os matara, formando calcificações que atrapalhavam o fluxo de interações elétricas de vários neurônios, daí os ataques severos. A Adriele, para se adequar à estética combalida da família, ficou raquítica a um ponto próximo da deformação, mas os remédios foram trocados por outros bem menos ofensivos. A última vez que a vi, há 4 meses, fiquei um tanto depressivo pelo que achei que fosse a perda sem retorno de sua beleza. Ela me pareceu ter tantos pelos no rosto que foi difícil suportar as comparações involuntárias da minha imaginação pérfida com a irmã e a mãe hansenianas do Ben-Hur.

Há coisa de três meses, o irmão de um colega meu de trabalho teve que ser levado algemado para a internação em uma clínica. De sua prevalência habitual de calma e ponderação, subitamente ele se revelou possuído pelo demônio. Quebrou os moveis da casa, avançou contra a mulher e as crianças. Eu estava de férias e disse à amiga que me comunicou do fato a já tautológica recomendação de que pedissem exames para ovos de solitária na cabeça. Mais uma vez Satanás foi inocentado, e descobriu-se que o criminoso era o porco caipira. Recordo que, recém formado, tive a intenção de começar uma pesquisa independente sobre a cisticercose, no que eu via como provável epidemia sub-clínica em diversas regiões brasileiras_ incluso aqui onde moro. Mas deixei de lado. Uma vez, enquanto frequentava o curso universitário, passei uma férias em Catanduva, e, junto a uma equipe de pesquisa, necropsiamos diversos porcos da região do interior de São Paulo, e todos, sem exceção, haviam apresentado a tênia no intestino.

Mas o propósito deste post é a feliz resiliência que vi neste domingo. A Adriele está grávida, linda, gorda, falando as tantas deliciosas besteiras que ela tanto tem talento para falar_ à semelhança da princesinha Bolkonsky. Mais uma vez eu repito a máxima verdadeira do velho Tagore: "É preciso muita coisa para se matar um homem".

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Sobre o velho assunto da literatura:

Estou lendo dois livros deliciosos. O Contos reunidos, do Nabokov, e o Todo aquele jazz, de Geoff Dyer. Caramba, que maravilha! O Nabokov me fez lembrar de uma das portas do gosto da leitura, promovido em mim por meu pai quando ele me presenteou, lá pelos meus dez anos, com alguns livros em quadrinhos do Tarzan. Nem era o Tarzan do Burroughs desenhado pelo Hal Foster, o clássico dos clássicos, mas uns gibis de longas páginas horizontais que falavam sobre um Tarzan que era miniaturizado para salvar o povo das formigas em um volume, e lutava contra uma seita religiosa de gorilas terríveis que veneravam determinado demônio da guerra em outro volume. Recordo que esse foi um daqueles momentos de felicidade extrema da minha vida. Meu pai me disse: "Isso aqui é muito melhor que cinema". Eu os li e reli e me transmutei para dentro desses livros. Como os macacos fanatizados, eu comecei a reverenciar esses livros. Em uma extensão freudiana, é bem possível que toda a minha vida de leitor_ olha só os relâmpagos súbitos da auto-revelação_ se resume na busca pela repetição da mesma felicidade que senti com esses livros do Tarzan. Não tem exagero: talvez a intensidade tenha se alterado nos vários momentos que se seguiram, mas essa felicidade foi recuperada com Thomas Mann, Faulkner, etc, etc. E esses contos do Nabokov me fazem tão plenamente feliz, tão próximo àquela sensação de meus dez anos, que não me passa desapercebido a hipótese de uma pré-senilidade que anuncia em meus 40 anos o velho abobado de alegre infantilismo que eu serei se chegar aos 80.

Nabokov é um miserável de um grandissíssimo escritor. Ele brinca com os contos que escreve, brinca com o formato perecível dos tantos periódicos e revistas para onde essas condensações de seu gênio vaidoso eram enviadas para a publicação. No meio de contos que ele sabia serem imortais_ como qualquer leitor sabe imediatamente ao ler, por exemplo, o conto La veneziana (que aliás, como o cheque do Nobel de Hamsun que quase se perdeu em um elevador de uma pensão, com a mesma displicência só foi redescoberto décadas após ter sido escrito)_ , ele simula estragar tudo com doses desconcertantes de coloquialismo anti-estético. Durante determinada cena impecável de suspense, em que tudo está xamanisticamente espetando a percepção acentualizada do leitor, ele lança um cumprimento, um oicomovai, que faz pular no sofá. Para quem deseja fazer um test-drive desse livro, sente-se na poltrona de uma Livraria Cultura, abra o volume em um dos tantos conto curtos, e leia, por exemplo, O passageiro. É um conto que não fala sobre nada, um mero exercício, mas está tudo lá: a metalinguagem de primeira, o clima de uma Europa invernal oitocentista acolhedora no que tem de insurgente risco de assassinato, o trem-expresso e seu vagão onde o leitor se instala com agradecimento. Está lá o que está em todos os outros contos e em toda a literatura que se preza por sua absoluta imprescindibilidade: a força de nos arrebatar desse mundo, de nos fazer acreditar nas alternativas muito materiais da abdução. Enquanto estou na companhia de Nabokov_ e, felizmente, me falta ainda mais da metade do livro para ler_, eu divido com ele todas as suas opiniões tolas de grandeza e todas os seus preconceitos estereotipados contra outros escritores: Quixote é o mais brega dos livros e Faulkner é um idiota superestimado.

E o livro de Dyer... Ontem eu tive a oportunidade celestial de lê-lo ouvindo Thelonious Monk e Lester Young, os dois primeiros personagens das primeiras cem páginas. Vou escrever um texto específico sobre Todo aquele jazz assim que terminar de lê-lo (acho que hoje termino, mas escrevo lá pelo sábado). Só posse dizer que Viva e Literatura!, Viva o Jazz!

E Geoff Dyer é um grande escritor. Uma palhinha:

"O período dos anos inexistentes, como Nellie os chamava, chegou ao fim quando o 5-Spot ofereceu a Monk um lugar fixo pelo tempo que quisesse, até quando as pessoas quisessem ouvi-lo. Nellie ia lá quase todas as noites. Se não fosse, ele ficava inquieto, tenso, fazia pausas mais longas que as habituais entre um número e outro. Às vezes, no meio de uma série, telefonava para casa a fim de saber como ela estava, grunhindo, fazendo no fone ruídos que ela interpretava como uma terna melodia de afeição. Deixava o fone fora do gancho e voltava ao piano de forma que Nellie pudesse ouvir o que estava tocando para ela, levantando-se de novo no fim da música, metendo outra moeda na fenda.
       _ Está aí ainda, Nellie?
       _ Que bonito, Thelonious.
       _ Oêê, oêê_ fitava o telefone como se estivesse segurando algo excepcional."

P.S.: Ontem, enquanto passeávamos de carro, eu brinquei com a minha esposa, me referindo ao espólio dos pertences de seus pais que futuramente será repartido: "Que tristeza me deu ao ver seu pai gordo, o rosto corado, e sua mãe com aquele vestido curto mostrando as pernas bronzeadas". Eu continuava no mesmo tom, enquanto a Dani se contorcia de tanto rir. "E tudo isso às custas de meu dinheiro". E dobrei a esquina onde nos esperava o parque do lago e o sol radiante da manhã.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Na espera


"As melhores declarações dos negros a respeito de sua alma foram feitas no saxofone tenor." (Ornette Coleman)

domingo, 7 de abril de 2013

Neste anoitecer de domingo desterrado do infinito

Drugstore, com a magnífica Isabel Monteiro

O álbum mais belo de uma vocalista feminina que ouvi recentemente, depois de Let England Shake, de PJ Harvey. Excelente!!