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sábado, 10 de dezembro de 2022

Pés de Barro



 Estreou na Paramount um documentário que vale muito não pelo que ele diz, mas pelo que está nas entrelinhas. É o documentário cinicamente hagiográfico que conta como Liam Gallagher, o vocalista da extinta banda Oasis e um dos seres humanos mais antipáticos que existe, conseguiu o feito inacreditável de lotar uma das maiores arenas do mundo, Knebworth, na Inglaterra, em abril de 2022. No início do vídeo, com sua imodesta característica, Liam diz que nem Bono, nem Mick Jagger, ou Freddy Mercury, conseguiriam esse feito, em carreira solo. E é algo realmente espantoso! E é esse mistério, que não é desvendado senão de forma velada, que faz essa obra imperdível. Eu gostava de Oasis quando eu tinha vinte e poucos anos. Ainda tenho uns 5 cds deles, mas há muito tempo não tenho interesse em ouvir. Creio que Oasis é uma das bandas que mais envelheceu mal da história do rock, com sua fatídica parede de som rebuscado, sem riff, sustentada em plágios feitos sem a mínima vergonha, e com canções que não se firmaram na mentalidade musical (a gente não vê a obra deles em filmes, ou citadas pelo mundo midiático, como vemos direto os Beatles, ou mesmo bandas mais recentes como Radiohead). Isso, contudo, se você não for da classe média britânica arruinada, tornada órfâ pelo Brexit, sem dinheiro, sem perspectivas, pouco instruída, terceiromundizada e louca para desabafar tudo isso acrescido à quarentena aprisionante de uma pandemia mundial. No vídeo vemos que, pelo menos, um representativo montante de 80 mil pessoas (o público que foi ver Liam em Knebworth), adora Liam Gallagher. Há o depoimento acompanhado de vários fãs durante sete dias antes do show até o momento do show, e gente diversa que tem o traço comum de idolatrar o roqueiro. Tem um pastor evangélico que diz que Liam é tão importante quanto a Bíblia. Tem uma maravilhosamente extrovertida garotinha de 10 anos que, se sugere, se curou do câncer graças ao apoio mental unidirecionado do músico. Há uma moça que teve de faltar à prova final da faculdade porque era no mesmo dia do show. Etc. E isso tudo entremeado com depoimentos do próprio Liam tentando se fazer de menos arrogante, ele que é um cara espertíssimo e sabe vender como ninguém uma imagem de pop star perigoso e egocentricamente desbocado (o que acho que ele faz bem isso, pois entre essa pose de marginal social de boutique e o bom mocismo xaroposo de gente como o Dave Grohl, a primeira leva a melhor e desperta mais fetichismo). Mas aí vem o suprassumo da coisa, as imagens surpreendentes para um programa de rock autobajulador de uma Grâ Bretanha à beira da falência, a enorme pobreza, a rasteirice de um povo que resolveu emburrecidamente pela diáspora étnica em vez da união. Os próprios testemunhos colhidos revelam desesperança e medo, batendo na tecla repetitiva de que o show de um astro obsoleto, que o resto do mundo não está nem aí mais para ele, é um escape, uma fuga momentânea. O clima do filme é de tristeza, nitidamente. A cena final, das pessoas se retirando do campo após a catarse extinguida do espetáculo, cabisbaixas, de volta para suas vidas medíocres, é de enorme desalento. Os apartamentos apresentados de cada fã são em periferias mal cuidadas, cômodos minúsculos, semelhantes aos que pululam na imprensa sobre as condições de moradia atrozes da Coréia do Sul e da China. Por detrás dessa panfletagem, a câmera mostra que nada está bem no capitalismo desmedido, na proliferação da mentira cibernética que alimenta imbecis, na falta de consciência, na alienação profunda. As pessoas andam tão à míngua diante uma vida desespiritualizada pela subserviência total ao mercado, que até os ídolos de pés de barro são úteis para o alívio instantâneo. E Liam Gallagher soube lucrar como ninguém com isso.

sábado, 2 de junho de 2012

Outras Capas de Álbuns Antológicos

Para afastar a áurea do último post, um postezinho estilo isto aqui não passa de um blog. Estou demasiadamente ocupado com trabalhos e estudos por esses dias, daí a falta de tempo de escrever alguma coisa com mais substância. Mas logo a rotina de textos mais contundentes (ao menos subjetivamente contundentes) volta, assim que me desafogar um pouco. Os álbuns que se seguem também são mais que as capas: fomentaram boa parte de minha personalidade e de meus gostos estéticos, e, muitas vezes, salvaram minha vida (devo muito a superação do martírio de uma gagueira prostrante à terapia do rock: vocês não sabem o quanto Ian Anderson, Jim Morrison e Robert Plant são muito mais eficientes para correção de transtornos traumáticos na adolescência do que todo um grupo de fonoaudiólogos, psicólogos hipnotizadores e mesmeritas freudianos). O do Radiohead me pegou no fim da casa dos vinte anos, e não ofereceu uma catarse tão determinante da cura, mas sua capa é uma das mais enigmáticas e belas que conheço. Lá vai:

Radiohead_ Amnesiac

Nas aulas de filosofia que eu ministrava num colégio particular, para afastar o marasmo mental que matérias sérias da área provocavam naquelas mantes ociosas, propus certa vez que a turma interpretasse essa maravilhosa capa do Radiohead. Ainda vou pagar os olhos da cara por uma ampliação de qualidade dessa capa para pendurá-la na sala minúscula de meu escritórios nos fundos da casa. O desamparado homúnculo chorando por sobre um livro de lombada rasgada (excessivamente lido), a conjunção estrelar de seu destino rondando-o como um horóscopo programático, e o título estarrecedor... Não é o melhor disco do Radiohead (sou um dos que acham Ok Computer e In Raibows insuperáveis), mas essa capa é uma obra-prima que vale o investimento. A propósito, as respostas dos alunos para a interpretação me mostrou que nem tudo está perdido: estamos avançando para um destino de alienação e fraqueza dos poderes de concentração que não dispensa uma estranha criatividade.

Organisation_Orchestral Manoeuvres in the Dark

Não à toa esse álbum tem uma capa que parece de música clássica. Quem não conhece o OMD, mas assistiu ao Valsa com Bashir, deve ter se perguntado de quem é a música entusiástica da cena do barco. Pois bem, é Enola Gay, uma das músicas pop mais geniais de todos os tempos, e que é a abertura de tirar o fôlego desse disco. O restante do disco se compraz de sua classicitude e se adéqua perfeitamente ao clima soturno e de recolhimento da capa. Todas as nove faixas são excepcionais. 





Who`s Next_ The Who

Eu sou devoto de Pete Townshend. Se me fosse dado escolher um avatar na minha juventude, seria a do líder do The Who. Sua letras são verdadeiras demonstrações do quanto letras de rock formam uma categoria própria de literatura. Mesmo no declínio de criatividade, lá para o final dos anos 70, ele escreveu algo tão lindo e profundo como a letra de It´s Hard. Mas em Who`s Next, de 1971, tudo é brilhante e altamente inspirado, tudo é eterno, desde a originalíssima mistura da mais elegante auto-consciência do papel do niilismo na juventude com uma estrutura da música minimalista americana, em Baba O´Riley, até a saga incomparável de Won´t Get Fooled Again. E a capa com os quatro mijando no monolito de 2001, Uma Odisséia no Espaço, me impressiona por tudo que sugere ainda hoje e quando eu estiver lá pelos meus 97 anos, finalmente lendo Grande Sertão: Veredas.

Unknown Pleasure_ Joy Division

Essa capa magnífica, em negro, sem indicação alguma de nomes, e com a pressagiadora e angustiante criptografia matemática dos últimos sinais de vida de uma estrela, traz no interior algumas das músicas mais lindas e demolidoras já produzidas. Não há quem não reconheça desde a primeira linha de baixo de que se trata de uma obra-prima, por mais que se seja avesso ao estilo. Um crítico, poucos meses antes do suicídio do vocalista Ian Curtis, já urucubaquisou tudo ao dizer que era a mais perfeita trilha sonora para se matar que já escutara. Não à toa se vê exaustivamente tal estampa reproduzida em camisas de magricelas nerds com as caras cobertas de espinha e os cabelos ensebados. Eu tive uma e a usei mesmo com um buraco do tamanho de um punho debaixo do sovaco. É um dos discos mais ouvidos pela galera aqui de casa, enquanto brincamos com blocos de montar esperando mamãe trazer as torradas com queijo e orégano, e o suco de cajá.

Morrison Hotel_ The Doors

Meu disco preferido dos Doors. Conheci-o aos 15 ou 16 anos, quando estava no carro de um amigo meu atulhado de outros adolescentes, e que enquanto andávamos por uma cidade interiorana o som do toca fitas transmitia essa magia singela que na época me deixou de queixo caído por sua leveza e força. Então essa é a contrapartida americana aos Beatles, pensei. Naquela época era coisa de rico importar um vinil destes, e esse amigo o tinha e o gravou em cassete para mim. Minutos depois dessa descoberta, o mesmo amigo nos levou para uma estrada vicinal e, num comboio de outros carros lotados de jovens, cerimoniou um ciclo de cavalos de pau a altíssima velocidade até de madrugada. Eu estava bêbado, assim como todos os outros, e ria igual um louco, enquanto abaixávamos as cabeças e nos segurávamos onde tinha para se segurar. No ano seguinte, em que não pude ir passar ali as férias do colégio, aconteceu a hoje histórica tragédia  da cidade de Jaraguá, em que todos esses amigos morreram na sessão de proezas a alta velocidade pelas mesmas estradas. Bem aventurados nós que sobrevivemos à juventude! Mas eu tinha um surrado casaco de feltro igual a um do Morrison, e os cabelos compridos...

Ummagumma_ Pink Floyd

Uma das capas que perdeu em muito com a transposição do vinil para o cd. Alguns anos atrás lançaram uma coletânea dupla da banda usando a referência dos símbolos dessa capa. No vinil, o álbum se abre para uma foto central também muito bonita, da banda de frente a um caminhão cheio de caixas de som. Contém o melhor disco ao vivo do Pink Floyd, com quatro faixas viajandonas, e um outro disco com experimentações individuais de cada integrante da banda não muito entusiasmante. Como as músicas começam muito lentas, na minha primeira audição tive que colocar o volume no máximo. Recomendo veementemente que não façam isso, principalmente na faixa Careful with that Axe, Eugene, em que lá pelos 9 minutos de quase silenciosa e envolvente atmosfera, Roger Waters dá, de súbito, o mais aterrorizante grito já registrado da história. O zelador do prédio onde mora minha mãe, o saudoso Zé (que morreu, infelizmente, no sábado passado), interfonou de imediato para mim, pois os vizinhos acharam que enfim o adolescente sorumbático havia cumprido o que todos os prognósticos apontavam.

Every Good Boy Deserves Favour_ The Moody Blues

O Moody Blues foi o mais comportado dos grupos de rock progressivo. Se fosse compará-lo a um escritor, seria Bruno Schulz. Mais uma vez a capa reproduz fielmente as músicas, com sua estação na infância e  nas nostalgias místicas a ela atribuída. Um amigo definiu bem a maneira ideal de se ouvir esse belo álbum: apagando-se as luzes, deitando-se no tapete do chão, em disposição de total relaxamento.






Fruit Tree_ Nick Drake

Nesta caixa está tudo já gravado por esse compositor e cantor inigualável. Eu a tinha em download FLAC, em 320 kbps, e finalmente a comprei na metade do ano passado. Devo um post exclusivamente para falar o quanto essas músicas me tocam. Walter Benjamin cita um poeta que disse que para cada homem existe uma imagem que faz o mundo inteiro desaparecer. Pois a música de Drake faz o mundo desaparecer para mim. Convido a qualquer um a ouvir Northern Sky e resistir a uma lágrima fugidia. Ainda pairam dúvidas sobre o suicídio de Drake, e um dos que contestam essa causa de sua morte usa o argumento de que quem compôs uma canção tão cheia de deslumbramento pela vida como Northern Sky jamais se suicidaria. Vou deixar para falar mais dele num texto futuro. Ao contrário do post irmão anterior, esses discos não estão dispostos por ordem de relevância pessoal. Esses quatro discos estão entre os dez melhores de todos os tempos. Lembram da cena em que um dos filhos Tenembaums coloca a agulha sobre um vinil antes de mais uma tentativa de suicídio malograda? Lembram da música sublime que arrepia os cabelos da nuca no grande salão escuro e gelado do cinema? Drake:

Fly 
Please give me a second grace
Please give me a second face
I've fallen far down
The first time around
Now I just sit on the ground in your way

Now if it's time for recompense for what's done
Come, come sit down on the fence in the sun
And the clouds will roll by
And we'll never deny
It's really too hard for to fly.

Please tell me your second name
Please play me your second game
I've fallen so far
For the people you are
I just need your star for a day

So come, come ride in my street-car by the bay
For now I must know how fine you are in your way
And the sea sure as I


domingo, 22 de janeiro de 2012

Merriweather Post Pavilion _ Animal Collective


Um amigo me recomendou essa jóia ontem. Baixei-o, com aquela impressão, advinda depois dos adventos das leis de antipirataria com acrônimos engraçados que estão ora a transitar ora a serem adiadas para mais tarde nos EUA, de que seria uma das últimas aquisições que ainda poderia ter do universo virtual. Não estava muito afim de partir para outra audição que não o Shosta interpretado pelo Keith Jarret que embala minha leitura de Proust, mas hoje gravei o arquivo no pen-drive e pûs-me a ouví-lo, enquanto lavava o carro e a garagem. Êpa! Merece uma audição mais intimista! Uma mistura inusitada de Syd Barret e OMD, com uma eletrônica de fundo minimalista despida até o nível de redução mais simples possível, que acrescenta uma atmosfera comovente e surpreendetemente lírica. Nunca tinha ouvido falar dos caras, mas é uma descoberta valiosa. A banda: Animal Collective. O álbum: Merriweather Post Pavilion. Os americanos mais ingleses do universo pop atual: às vezes parecem o Supertramp.

Animal Collective


sábado, 14 de janeiro de 2012

Ducarajo


Lembro que conheci a música deles na época do lançamento de Crash, acho que em 96, ou 97. Estava numa semana cultural na universidade, quando vi dois dançarinos coreografando um número que me encheu os olhos de lágrimas e me deixou impressionado com aquelas cenas que jamais esquecerei. Tratava de uma história de um arlequim que, ganhando vida através de uns pós mágicos que o titereiro deixa cair por engano quando tranca o depósito de marionetes, começa a dançar, a testar seus movimentos, a saltar cabriolas de felicidade por estar vivo, e que, ao se depararar com uma boneca bailarina em um suporte, se apaixona perdidamente por ela. A música que tocava parecia ter sido feita para aquela coreografia, era mágica, linda, atmosférica, de uma doçura trágica que destroçava o coração do público, que tomava as dores encenadas por aquele soberbo dançarino. Daí, o arlequim descobre o pó, lança-o sobre a boneca, que ganha a vida e, assim como ele, após estudar seus movimentos, dança esplendidamente. Só que o efeito do pó passa e o arlequim cai flácido no chão, e a boneca fica desconsolada, para, depois, sucumbir também à flacidez. Procurei a música, e era a "Two Step". Comprei o "Crash", e até hoje, quando escuto "Two Step", vejo a coreografia com nitidez. Nunca mais achei os dançarinos, por mais que os procurei, e nunca soube dessa dança pela net.

Two Step (Matthews)

Say, my love, I came to you with best intentions
You laid down and gave to me just what I'm seeking
Love, you drive me to distraction
Hey my love do you believe that we might last a thousand years
Or more if not for this,
our flesh and blood
It ties you and me right up
Tie me down

Celebrate we will
Because life is short but sweet for certain
We're climbing two by two
To be sure these days continue
These things we cannot change

Hey, my love, you came to me like wine comes to this mouth
Grown tired of water all the time
You quench my heart and you quench my mind

Celebrate we will
Because life is short but
sweet for certain
We're climbing two by two
To be sure these days continue
The things we cannot
Celebrate, you and me, climbing two by two, to be sure
these days continue, things we cannot change

Oh, my love I came to you
with best intentions
You laid down and gave to me
just what I'm seeking

Celebrate we will
Because life is short
but sweet for certain
We're climbing two by two
To be sure these days continue
Things we cannot change...
Things we cannot change


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O Paradoxo Claptoniano


Eric Clapton é um dos grandes azarados do rock. Por ser um dos maiores nomes do rock, esse azar fica proporcionalmente potencializado. Clapton nunca foi um sucesso real de vendas, não a nível do que merecia, como os Stones ou George Harrison, e a crítica sempre o tratou ou como alguém que só se fazia excelente na companhia de outros, ou com total indiferença.

Essa divergência entre seu valor genuíno e a falta de reconhecimento à altura pode muito bem se enquadrar no jargão acadêmico mais batido: Clapton é um paradoxo. Fez parte de uma das mais influentes bandas de todos os tempos, o Cream, mas que, desafortunadamente, e sabe-se lá por qual motivo, nunca foi aceito no cânone das bandas do British Invasion que viraram de ponta cabeça o mercado fonográfico norte-americano na década de 60. E, como primeira insurgência da sina de acesso pelas portas dos fundos de Clapton, a imprensa o cultuava como um deus da guitarra mas levantava sérias suspeitas se sua proficiência se manteria longe do talento dos parceiros Ginger Baker e Jack Bruce. E Clapton sempre se pressionava a provar para todos e a si mesmo que era um nome representativo e independente, o que o motivou a fundar, após o fim do Cream em 1969, outras duas das maiores (e mais efêmeras) bandas da história da música: a magnífica parceria com Steve Winwood no Bilnd Faith (que rendeu uma das mais comoventes canções, Can´t Find My Way Home), e a emblemática e monumental Derek and The Dominos.

O Blind Faith era um experimento pioneiro na área dos supergrupos (fundados por estrelas já consagradas que tinham o objetivo de fazer gracinhas de virtuoses), daí que não durou mais que o fôlego projetado de vida em um só álbum. Mas o Derek and The Dominos foi um caso sintomático e curioso à parte. Enquanto outros fenômenos musicais da época faziam questão de se mostrarem como dissolutos primatas do sexo, Clapton provou mais uma vez o seu karma de azarado em se apaixonar, romanticamente, pela mulher de George Harrison, Patti Harrison. Até aí tudo bem, mas acontece que ele inventou de fazer uma grande declaração de amor velada criando um outro grupo em que não se identificava como Clapton, mas com o pseudônimo de Derek. Claro que haviam as fotos e a referência ao verdadeiro artista no interior do álbum, mas esse mascaramento impediu que a maior parte do público soubesse de quem se tratava e o disco resultou em um enorme fracasso de vendas e em uma indiferença quase total por parte da crítica. Mesmo assim, para ampliar o paradoxo claptoniano, o álbum Layla and Other Assorted Love Songs é um (me desculpem de novo, mas fazer o quê?) dos dez melhores álbuns de todos os tempos, com uma série de músicas excepcionais, como Bell Botom Blues, Tell the Truth, Layla, Keep on Growing, sendo um mix de composições sólidas, com releituras bombásitcas (como Little Wing, homenagem a Hendrix, que morrera duas semanas antes da gravação), e jams monumentais, como Key to The Highway, tocadas com a leveza suprema do encontro descompromissado entre gênios (desculpem, novamente, a babação, mas é que é a pura verdade!). Mas o paradoxo apontou suas mãozinhas mais uma vez na vida de nosso herói Eric Clapton, pois logo após o lançamento do disco e o começo da turnê de shows, Duane Allman, o célebre primeiro guitarrista da The Allman Brothers Band, convidado de Clapton para compor os The Dominos, morre em um acidente de moto. (Cerca de dez anos depois, o baterista do The Dominos, Jim Gordon, como se não bastasse, sofre um surto psicótico e mata a própria mãe.)

Como disse, esse disco teve vendas pífias, e nenhuma atenção da crítica _ o que foi um dos maiores crimes e burrices da Universal, que não o divulgou_, lançando Clapton numa paranóia depressiva e no vício em cocaína que, praticamente, o levou ao ostracismo na década de 1970. Um detalhe ainda: antes do Derek, Clapton saiu em turnê com a dupla californiana Delaney & Bonnie, resultando em outro marco do paradoxo, esse fantástico albúm aí embaixo:


Um dos (mais uma vez, atenção! Preparados?) melhores álbuns ao vivo de todos os tempos, mas com um adendo inconveniente: o áudio deixa muito a desejar.

Clapton perderia um filho de forma trágica, purgaria um inferno para se livrar das drogas, mas retornaria no final da década de 80 e por toda a década de 90 com uma revigorada coleção de ótimos discos, como Jorneyman, Unpluged, From the Cradle, e uma série de acompanhamentos históricos como Riding with the King, com B.B. King. O público e a crítica já tinham feito a mea culpa quanto ao Derek and The Dominos, alçando-o ao cânone e nas listas de vendas. Pode-se dizer que a maturidade foi muito boa para Clapton, mas não o processo de maturação.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Jerry Christmas


                         ___________________________________________________
Aos amigos frequentadores do blog, um presente singelo do poeta iluminado Walt Whitman: que essa seja a forma de desejar-lhes um feliz natal, e paz e equilibrio no ano que vem. Um abraço a todos.


"E à raça humana eu digo:
_ Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisas
e não sou curioso a respeito de Deus.
(Não há palavra capaz de dizer
quanto eu me sinto em paz
perante Deus e a morte.)

Escuto e vejo a Deus em todos os objetos,
embora de Deus mesmo eu não entenda
nem um pouquinho,
assim como também eu não entendo
que possa alguém ser mais maravilhoso
do que eu.
 
Por que haveria eu de querer ver a Deus
melhor que neste dia?
Eu vejo algo de Deus em cada uma
das vinte e quatro horas
e em cada instante de cada uma delas,
nos rostos dos homens e das mulheres
eu vejo a Deus
e no meu próprio rosto em cada espelho,
acho cartas de Deus caídas pela rua
e todas assinadas com o nome de Deus,
e eu as deixo onde estão,
sei muito bem que aonde quer que eu vá
outras me hão de chegar pontualmente
sempre e por todo o sempre.”
(Walt Whitman)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Luz Interior


Aguardo ansiosamente o documentário de três horas e meia de Martin Scorsese sobre George Harrison, Leaving in The Material World, cujo DVD está prometido ainda para esse ano. O excerto abaixo, que me deixou inusitadamente comovido nessa hora da manhã, é do depoimento de um Ringo Star com lágrimas nos olhos e mal conseguindo falar, sobre seu último encontro com Harrison:

-- Nas últimas semanas de vida do George ele estava na Suíça, eu fui visitá-lo. Ele estava muito doente, só podia ficar deitado. Só deitado. E, embora ele estivesse doente e eu o estivesse visitando, em seguida eu iria para Boston, porque minha filha [refere-se a Lee Starkey, a caçula de seus três filhos] estava com um tumor cerebral. Eu lhe disse ‘tenho que ir embora, ir a Boston’… e ele disse…foram as últimas palavras que ouvi ele dizer, na verdade: ‘Você quer que eu vá com você?’. [Emoção, risos]. Oh, Deus. Era o lado incrível do George.”

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Rock- Uma nota para capa

                                                                   Frank Zappa
por Salman Rushdie

Frank Zappa e The Mothers of Invention estão se apresentando no Albert Hall. É o começo dos anos 70. (Como dizem, se você lembra a data exata é porque não estava lá.) Na metade do concerto, um enorme negro de camisa roxa brilhante sobe ao palco. (A segurança era mais leve naqueles dias inocentes.) Ele oscila um pouco e insiste em tocar com a banda.

Zappa, imperturbável, perguntou, sério: “Sim,senhor, e qual é o seu instrumento preferido?”.

“Trompete”, resmungou o Cara de Camisa Roxa.

“Dê um trompete para o cara”, Frank Zappa mandou. No momento em que o Cara de Camisa Roxa toca a sua primeira nota terrível, fica claro que a habilidade dele com o trompete deixa muito a desejar. Zappa parece brevemente perdido em um pensamento, queixo apoiado na mão. “Humm.” E vai ao microfone. “Estou pensando”, ele medita, “no que q gente podia tocar para acompanhar esse cara com o trompete.” Ele tem um estalo, uma inspiração trombeteira. “Já sei! O poderoso órgão de foles do Albert Hall!”

O poderoso órgão de foles do Albert Hall estava efetivamente interditado à banda, mas agora um dos Mothers começa de fato a escalar a grande fera, se encaixa na cabine do organista, puxa cada uma das alavancas e quase põe teatro abaixo com uma versão ensurdecedora de “Louie, Louie”. Fom-fom-fom/ fom-fum!

Enquanto isso, no palco, o Cara de Camisa Roxa apita, absolutamente feliz, totalmente inaudível, enquanto Frank Zappa o observa carinhosamente, como o benevolente e subversivo pensador que é.
                                   
                                                                     * * *

Essa vivacidade não é geralmente uma qualidade associada ao rock, e quando se escuta os grunhidos de Cro-Magno da maioria das estrelas do rock, rapidamente se entende por quê. Apesar das Spice Girls, porém, o rock-and-roll tem uma longa história de achados e acertos musicais.

Tem Elvis dizendo ser tão agitado como um homem alérgico numa árvore felpuda.

Tem a agilidade verbal de John Lennon. (“Como você achou os Estados Unidos?” “Virei à esquerda na Groenlândia”.)

Tem Randy Newman, que prova, em “Sail Away” [Navegar para Longe], que uma canção pode ao mesmo tempo ser um hino e satírica. (“Na América, tem muita comida/ Ninguém precisa ir para a floresta e gastar os pés.”)

Tem as letras surrealistas associativas de Paul Simon. (“Por que eu tenho coração tão mole/ se todo o resto da minha vida é tão duro?”)

E tem o trovador que fica acima de qualquer categorização, Tom Waits, contando suas ásperas histórias de vagabundo sobre gatos de rua e cães vadios. (“Tenho as cartas mas não tenho a sorte/ tenho as rodas mas não tenho o caminhão/mas, ah, eu sou grande no Japão.”)

Em tudo isso já há muita coisa para o pessoal literário estudar e admirar. Não faço parte da escola de exagero dos fãs de rock que acham que letra de música é poesia. Mas sei que ficaria ridiculamente orgulhoso de ter escrito qualquer coisa assim tão boa. E adoraria ter o talento, humor e a agilidade mental que Frank Zappa mostrou no Albert Hall aquela noite.

(De Cruze esta Linha, lançado pela Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, maio de 2007)