Estava planejando fazer um post com os meus 20 melhores livros de não-ficção para esse final de semana, mas desde ontem me vejo preso no compromisso de ler o primeiro volume de Getúlio, do Lira Neto. Não consigo fazer mais nada, e estou para alcançar a página 300. O livro é perigosamente absorvente. Creio que há uma especialidade literária em que os brasileiros são excelência: a biografia, documentada, escrita com rigor investigativo e com alguma retórica sofisticada que agrada a leitores mais engajados, mas profissionalmente arejada o suficiente para acatar um público mais amplo. Na margem oposta, por exemplo, coloco a biografia de Hitler, do Joachim Fest, que é um pesado calhamaço duplo em que brincam ali sisudas argumentações filosóficas e lentas perorações acadêmicas. Gostei muito do Fest, mas os biógrafos brasileiros a que Neto faz parte tem um triunfo que se enquadra nessa nossa mestria nacional do gênero: enquanto um Fest se leva muito tempo para ler, os livros produzidos na mesma seara por um Fernando Morais e um Lira Neto são extensões do entretenimento extasiante dos filmes de Hollywood e das reportagens policiais da mais estereotipadamente adrenérgica imprensa marrom, o que os fazem altamente digeríveis. Mas são, também, documentos sérios e peças literárias de alto valor. Morais e Neto tem o talento de um Sidney Sheldon e de um Dan Brown para escreverem sobre temas que são primazias de velhos generais que abrem seus segredos militares e historiadores especialistas.
Algumas rápidas observações sobre Getúlio:
- os títulos dos capítulos parecem manchetes televisivas de programas policiais, como os do Marcelo Rezende. Tem um histrionismo que, se não fosse o poder da obra, desmotivaria leitores mais profissionais. Saber, por esses títulos chamativos e grandiloquentes, que Getúlio se apaixonara por um Donzela de Vermelho, ou que Getúlio, aos 15 anos, teria assassinado um estudante de direito, ou que o clã dos Vargas teve que apagar um desafeto político com um tiro na cabeça, dá a impressão que o autor se volta demasiadamente para o lado far west do biografado, mas o texto traz uma abordagem que vai, felizmente, bem além disso.
-ler Getúlio confirma o que a pessoa que tem o mínimo conhecimento de história e a mínima independência de visão quanto às artimanhas que compõe a escrita da história sabe: os heróis da pátria são quase sempre os grandes canalhas, vindos dos mesmos aparatos seculares do benefício familiar pela usurpação e o assassinato. Lira Neto é excelente no papel de historiador crítico em demonstrar isso. Neto salienta que a fortuna do pai de Vargas, Manuel Vargas, vem em grande parte do fruto dos roubos cometidos por ele durante os sucessivos massacres da Guerra do Paraguai. Vemos que os Vargas compunham o coronelato de São Borja e outras adjacências sulistas, favorecidos pelos mandatários do estado, Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros. Vemos que o irmão mais velho de Getúlio Vargas, Viriato Vargas, era uma espécie de filho de ditador moderno, filho de Saddam Hussein ou da família Trujillo, repetindo os mesmos casos de abuso sexual, de corrupção desmedida de tudo para manter-se no poder, de ganância ativa pela riqueza às custas do sofrimento da maioria, de assassinato e truculência de quem se sabe acima da lei. Pelo que Neto escreve, Viriato Vargas foi um dos personagens mais medonhos e cruéis de nossa história, uma história por si mesma saturada desse tipo de mandatários de famílias tradicionais para que continuem absurdamente passando batido.
_ há uma citação das palavras do presidente Lula na contracapa do volume 2 de Getúlio. Reproduzo-a:
"Poucas vezes vi alguém descrever tão bem a história de Getúlio Vargas e do povo gaúcho como o Lira Neto na primeira parte da sua trilogia. Foi impactante para mim que me vi andando com Getúlio, fumando um charuto, pela Rua da Praia, em Porto Alegre."
Palavras de contundente riqueza de interpretação para quem lê sobre tanto diagnóstico da vilania das classes dominantes e tem para dizer que se sentiu impactado por uma cena que, provavelmente, foi o exemplo colhido num folheamento ligeiro lá pela página 83. A literatura do esclarecimento revolucionário já está aí há anos, basta termos o ensejo necessário para entendermos de vez o que ela realmente quer dizer. Os truques popularescos do muito inteligente Lira Neto repetem a manobra de massa que vem sendo adotada desde Shakespeare: o uso da violência chamativa da capa e espada para mostrar, em límpido e bom tom, a violência espiritual que um país vem passando perenemente para conservar a mesma linha de subjugação perpétua. A frase que define melhor o Brasil é a que vem no magnífico filme Il Gattopardo, de Luchino Visconti: "Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude". Isso é o que o Getúlio, o livro de Lira Neto, parece dizer, ou vem dizendo pelo menos para mim.
