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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

As tais pessoas comuns de Kurt Cobain



A diferença está no tom. John Gray produz uma narrativa que tem tudo para integrar uma epopeia sobre ingenuidades sinceras e erros bestiais centenários com consequências as mais terríveis ou singelas, e o faz narrando fatos que, em sua maioria, são por demais conhecidos, mas que a desencantada candura da voz empregada em A busca pela imortalidade faz com que o leitor reaja como se os estivesse ouvindo pela primeira vez. Um amigo me disse sobre esse livro, com o olhar tomado pelo assombro de orfandade que a leitura de Gray provoca: "Mas por que coisas assim nunca são nos ensinadas na escola?" Não pude deixar de sorrir com ternura por um professor de história com um nível cultural bem acima dos índices mais generosos expressar uma indignação que beira a primeira desilusão da juventude com as dores do mundo, mas eu entendi o que ele sentia. Gray nos informa, por exemplo, que o bolchevismo matou mais pessoas em seus primeiros quatro anos que a dinastia Romanov matou em 300 anos, e uma eletricidade ronrona em seu silêncio confortável no estômago do leitor. Gray nos revela que a União Soviética não foi somente um regime político, mas um projeto esotérico perpetrado para extirpar todos os homens pueris, incultos e pobres para o benefício recompensador de formar a longo prazo uma sociedade de homens superiores, uma eugenia para a qual a história herdou documentos do próprio punho de Lênin vaticinando os benefícios de se matar inocentes para fundamentar o temor reverente na mentalidade dos povos, e o leitor sente o espanto com toda a sua roupagem de ineditismo. Nessas mais de 200 páginas, o tom de voz de Gray se assemelha à clareza estoica das melhores páginas de Camus, um tom muito distante dos artifícios que os eventuais parceiros apontados do autor na escola de atuais divulgadores do ateísmo científico usam para autenticar suas posições de filósofos populares. A solidão de Gray paira com elegância e sem nenhuma estridência acima das propagandas em prol do ateísmo nos ônibus de Londres e das comunidades da internet que celebram a memória de Christopher Hitchens com garrafas de uísque. E a beleza da prosa de Gray após a descrição de tantas estultícies cometidas pelo homem em suas tentativas de vencer a mortalidade nos traz o inusitado consolo de que a morte é a conclusão mais justa para zerar uma matemática que tem provado a mais vazia e inútil presença terrena.

Para quem escreve esse filósofo solitário que é o único entre seus pares com a estampa memorial de Kant andando de mãos cruzadas às costas pelas ruas do tranquilo povoado? Esse espanto de meu amigo diante o que funciona como um soco de descoberta do livro de Gray transcende a simples análise sobre o valor educacional da verdade bem empostada. No mesmo dia em que falei com esse amigo, um outro conhecido me mostrou pelo celular uma cena de sexo coletivo que viralizou o ambiente virtual da cidade, mostrando uma menina com cinco rapazes no banheiro para deficientes físicos do colégio onde esse amigo dá aula. Eu não tenho a mínima energia para ver esse tipo de vídeo, e a questão aqui me parece ser realmente energia e não estômago ou paciência, pois qualquer simbolismo entre o mais evidente e o mais recôndito que tais cenas possam provocar só me causa um enorme cansaço. O máximo a que pudesse chegar de sentir um furor contestatório diante a bestialidade humana, a selvageria adolescente, a total inocuidade do sistema de educação nacional, era de saborear a velha hipocrisia da moral infestada de testosterona desse conhecido que me mostrou o vídeo, sublinhando ao mostrar a velha cartilha de indignação superficial de aonde vamos parar, Charlles? Talvez eu tenha chegado à idade enfim de um estoicismo imune à coligação perceptiva da literatura, um desencanto que não se adorna mais com galhardia da pose de senhor distinto sentado com um livro aberto nas mãos: uma noção de algo sério e irretocável que sempre esteve aqui mas que só agora eu o vejo sem nenhum filtro de amaneiramento, e que não depende de minha posição em relação a ele. Nada que eu pudesse fazer, nem nada que um conjunto de pessoas supostamente detidas das mesmas intenções de mudança diante a inocuidade humana pudesse fazer, teria algum efeito. A diferença está no tom. O tom de Gray expressa a única concordância possível de acontecer entre pessoas bem intencionadas em um mundo onde as fantasias de redenção nunca tiveram vez. A única utopia possível é a auto-consciência, uma humildade potente e libertária diante a verdade do ser combalido que somos. Esses dias assisti a um documentário produzido com as fitas de áudio contendo as tantas horas de gravação dos testemunhos e opiniões de Kurt Cobain, chamado Retrato de uma ausência. O filme tem a intenção de causar certo peso dissipativo, certa nostalgia triste de uma ruína que se transformou, mostrando cenas de escombros, hotéis vagabundos de beira de estrada, muros da cidade com fragmentos de cartazes que convida a algum evento popular acontecido há muito tempo, exaustores de ar de indústrias que esperam pela demolição, céus de entardeceres que nada prometem, como se fosse a visão de um adolescente que não vê nenhum espaço possível que o integre à sociedade, um mendigo cujo conhecimento genético da exclusão que relegou seus progenitores em longa linha pregressa depõe contra a reação poética possível, restando apenas o ódio mais concentrado. O adolescente Cobain que sentia o mundo devastado dessas imagens sabe que não lhe resta o lenitivo de ser o herdeiro dos românticos escritores da tuberculose, ou o alcoólatra beatnik de uma era em que o apogeu do desespero podia adotar a figura de uma América primordial subliminar ainda passível de ser alcançada, ou o homossexual culto reacionário cujo limite visível da linha da vida cortado pela AIDS justificava a nobreza de seu despojamento. Cobain tinha o enorme azar de ter nascido famélico em uma época pós-suicídio distintivo, de estar em um interstício cujo esgotamento provocado pelos excessos passados mutilava o período histórico com uma absoluta falta de imaginação. Só restava a Cobain visualizar a morte precoce que era a única realidade que tinha pela frente sem uma roupa apropriada para se encontrar com ela, sem mensagens as mais pueris de adeus cínico para os que deixava para trás, sem direito a um epitáfio histriônico que fosse seu testemunho relativamente ruidoso contra a barbárie do mundo. Em uma das gravações, Cobain fala do emprego que teve em um hotel na beira da praia, um emprego que foi o inferno para ele porque as pessoas comuns que eram seus colegas de trabalho sempre lhe foram intoleráveis, pessoas as quais ele não conseguia se manter indiferente e contra as quais ele tinha que dizer as mais terríveis verdades. Muito provavelmente deveria ser um tanto irritante ficar próximo de Cobain, principalmente para os que expressassem as mais mínimas diferenças de educação e idade. O que seria pessoa comum para Cobain? Dificilmente seria a mais proximal à estirpe do Homem comum da biografia que Anthony Burguess escreveu sobre James Joyce, claro; seriam as tais pessoas desinteressantes que Eric Hobsbawm falou em seu discurso para uma classe de história em uma respeitada universidade, pessoas das quais ele afirmou que seus ouvintes não desejariam conversar com elas e nem que fossem suas alunas, a não ser que as amassem. Ao contrário de Hobsbawm, que cita a importância de que tais pessoas sejam protegidas da patrola da história, Cobain fala abertamente de seu repúdio a elas, de seu ódio, de seu nojo_ ao menos nas fitas de áudio que fazem o fundo às imagens do filme. Quando vi essa parte do filme, pensei, desalocando para a superfície meu eu de homem comum, latino-americano de um país à beira da falência: quem era Kurt Cobain? Um artista do rock que, como disse Pete Townshend, estava se tornando cada vez mais um adolescente descerebrado, oco e fútil. Sua arte, a melhor e mais relevante parte dela, se ampara na catarse pura, uma música virtuosística que perde o propósito assim que os hormônios provocados por ela se dissipam. Ele talvez fosse o mais crasso homem comum que teve o revés da sorte de se encaixar na raquítica exigência fonográfica de uma década de total pobreza musical, o que seu suicídio sem o mínimo sentido heroico de seus antepassados do gênero que morreram com os mesmos 27 anos confirmava. Kurt Cobain, pensei, se limitava a uma parca comédia sem graça de uma época que não tinha capacidade de oferecer nada, e por isso sua história fulgurante teve a auto-implosão e auto-digestão de um buraco negro. Não sei situar Cobain nos extremos da situação do vídeo pornô que meu conhecido me mostrou: se ele estaria no lugar hipócrita do meu conhecido, cuja permanência de um vídeo assim em seu celular não condiz com nenhum posicionamento moral válido; se ele seria um dos integrantes do vídeo; ou se ele, vivo com 48 anos, estaria tão esvaziado de energia para assistir tal vídeo.

Kurt Cobain tem relação com o livro de John Gray porque um dos resumos possíveis deste livro é a eterna tentativa eugenista de classes em diversas esferas da dominância em ganhar distinção com base no extermínio das classes que estão embaixo. O livro de Gray mostra o quanto a teoria da evolução de Darwin destruiu a imagem condescendente festiva que o homem tinha de si mesmo e de seu lugar de destaque no universo. E o livro é devastador em mostrar de maneira progressiva como o homem em desespero diante a verdade inexorável de sua insignificância procurou uma série de caminhos alternativos. A primeira parte narra sobre os movimentos do psiquismo acontecidos na Inglaterra, de como foram as tentativas de firmar o propósito da existência em um projeto reencarnacionista que parecia fadado ao sucesso pois além de obter provas em malabarismos entusiásticos da parapsicologia, atendia também a uma versão do evolucionismo para o progresso do espírito. Não era uma religião, mas uma nova outorga de uma Providência divina com propósitos meritocráticos para um ramo da alta sociedade que necessitava de uma legitimidade esotérica de seus privilégios de bom nascimento. E tinha o aval de se arvorar como sendo uma ciência ainda não reconhecida. Quando tudo isso fracassou, ou porque as atitudes circenses das sessões espíritas tinham a graça com prazo de validade, ou porque aumentou os níveis de ceticismo nas gerações sucessoras, vem o projeto de conferir nova distinção à existência do homem da segunda parte do livro. Projetos firmados agora em uma ultra-realidade que se imunizara da necessidade de um deus. E Gray se ocupa largamente do maior e mais terrível projeto religioso dos últimos séculos da história: a efetivação do bolchevismo em boa parte do mundo. Ele inicia com a sintomática e mais que simbólica visita de H. G. Wells a Lênin, em 1920, com a intenção do escritor em trazer Lênin para seu plano de emancipação humana conferindo os postos de poder das sociedades a intelectuais humanistas. Claro que o leitor pode sentir o impacto do presságio da estrutura oca da ingenuidade do sonho de Wells, e de como Wells vai se entregando à lucidez do morticínio quando todas as suas matemáticas sociais sucumbem a um mero caso amoroso com uma das personagens mais enigmáticas e fascinantes apresentadas por Gray, Moura Budberg (uma aristocrata da época dos Romanov que, para sobreviver, tinha que se incluir à única condição de prostituta de luxo que sobrava para as moças de seu meio).

Gray passa o foco para a vida do escritor soviético Máximo Górki, e de como ele tomou frente em um departamento do regime para promover o extermínio de pessoas comuns (as tais pessoas comuns de Cobain) com intuito de, a longo prazo, produzir a sociedade igualitária perfeita povoada de seres humanos superiores. "O recurso ao terror era acima de tudo um meio de recriar a humanidade", escreve Gray. Górki cultivava a crença de que deus ainda não existia, que o propósito da humanidade era criar deus, que a ordem acreditada estava invertida e o homem que teria de criar deus à sua semelhança e imagem. A supremacia do homem, o Super Homem, fomentado às custas da dizimação total de todas os incultos e pobres de espírito, faria que deus existisse. A esse projeto soviético deu-se o nome A Comissão de Imortalização (The Immortalization Commission, que dá o título do livro no original em inglês). A pragmatização da comissão se deu com amplo sucesso. As descrições de extermínio nas páginas do livro são generosas, como a da construção da Ponte do Mar Branco, na qual milhares ou talvez milhões de presos em escravidão sucumbiram no trabalho, no frio e na fome. O livro trata antes da grande insuficiência da razão humana, que sempre descamba para a selvageria sem limites, o que atesta no final o alívio diante a vacina da morte para um engenho tão fracassado. Mostra o quanto a fronteira entre o intelecto e a psicopatia homicida é tênue, prefigurado por assassinos investidos de propósitos redencionistas como Górki.

E por que tais coisas não são contadas para nós na escola? Como ensinar sutileza de pensamento para um mundo dominado cada vez mais pelo branco-e-preto monolítico? Como fazer com que o cérebro pense ao explicar que o livro preferido de Stalin era Os demônios, sendo que este livro que inspirou a sua matança de 60 milhões de conterrâneos, e que Os demônios foi escrito por Dostoiévski justamente como um aviso para que um Stalin não pudesse vir a existir? E será que pessoas tão obtusas à percepção dessas nuances podem merecer serem protagonistas de uma cosmologia de uma vida eterna? E ensinar que todo relativismo que coloca graus de superioridade relativiza sua própria posição na escala entre algoz e vítima. Um livro como A busca pela imortalidade é um grande presente, um generoso ato de humanismo. Nada se compara a ele, em todas as suas idiossincrasias de grande prosa e lucidez libertária sem qualquer engajamento. Gray não impõe nenhuma verdade, e essa sua obra tem o voluntarismo espontâneo de servir como tijolo para a fundação de um novo sistema de precaução contra as intrujões da história. Não defende nada e não condena nada. Tem a beleza do andar livre de um Omar Khayyãm, que não reconhece sobre si nenhuma religião e nenhuma ciência, sem contudo estufar o peito de orgulho arrogante. Não menos sintomático e simbólico, Gray fecha a obra com um belíssimo texto do poeta húngaro judeu György Faludy, que narra seus dias assim que chegou como refugiado de guerra a uma Casablanca rescendida à morte, e que foi enviado ao campo de concentração de prisioneiros de Recsk por se recusar a escrever um poema em honra ao aniversário de Stalin (na prisão, narra Gray, Faludy confessou que tinha sido recrutado como espião norte-americano pelo capitão Edgar Allan Poe e pelo coronel Walt Whitman), e que, libertado, viveu com um companheiro por mais de 30 anos, casou-se outra vez aos 91 e morreu em 2006, aos 95.

Assim se encerra A busca pela imortalidade:

A vida após a morte é como uma utopia, um lugar onde ninguém quer viver. Sem as estações, nada amadurece e cai ao solo, as cores nunca mudam de cor nem o céu altera seu vago azul. Nada morre, e assim nada nasce. A existência eterna é uma calma perpétua, a paz do túmulo. Os perseguidores da imortalidade procuram um caminho para fora do caos; mas fazem parte desse caos, natural ou divino. A imortalidade é apenas a alma que empalidece, projetada numa tela branca. Há mais luz do sol na queda de uma folha.

terça-feira, 7 de abril de 2015

As tais pessoas comuns de Kurt Cobain



A diferença está no tom. John Gray produz uma narrativa que tem tudo para integrar um romance epopeia sobre ingenuidades sinceras e erros bestiais centenários com consequências as mais terríveis ou singelas, e o faz narrando fatos que, em sua maioria, são por demais conhecidos, mas que a desencantada candura da voz empregada em A busca pela imortalidade faz com que o leitor reaja como se os estivesse ouvindo pela primeira vez. Um amigo meu me disse sobre esse livro, com o olhar tomado pelo assombro de orfandade que a leitura de Gray provoca: "Mas por que coisas assim nunca são nos ensinadas na escola?" Não pude deixar de sorrir com certa ternura por um professor de história com um nível cultural bem acima dos índices mais generosos expressar uma indignação que beira a primeira desilusão da juventude com as dores do mundo, mas eu entendi inteiramente o que esse meu amigo sentia. Gray nos informa, por exemplo, que o bolchevismo matou mais pessoas em seus primeiros quatro anos que a dinastia Romanov matou em 300 anos, e uma certa eletricidade fria ronrona em seu silêncio confortável no estômago do leitor. Gray nos revela que a União Soviética não foi somente um regime político, mas um projeto esotérico perpetrado para extirpar todos os homens pueris e incultos e pobres para o benefício recompensador de formar a longo prazo uma sociedade de homens superiores, uma eugenia para a qual a história herdou documentos do próprio punho de Lênin em que este vaticina os benefícios de se matar inocentes para fundamentar o temor reverente na mentalidade dos povos, e o leitor sente o espanto com toda a sua roupagem de ineditismo. Nessas mais de 200 páginas, o tom de voz de Gray se assemelha à clareza estoica das melhores páginas de Camus, um tom muito distante dos artifícios que os eventuais parceiros apontados do autor na escola de atuais divulgadores do ateísmo científico esclarecido usam para autenticarem suas posições de filósofos populares. A solidão de Gray paira com elegância e sem nenhuma estridência acima das propagandas em prol do ateísmo nos ônibus de Londres e das comunidades da internet que celebram a memória de Christopher Hitchens com garrafas de uísque. E a beleza da prosa de Gray após a descrição de tantas estultícies cometidas pelo homem em suas tentativas de vencer a mortalidade nos traz o inusitado consolo de que a morte é a conclusão mais justa para zerar uma matemática que tem provado a mais vazia e inútil presença terrena.

Para quem escreve esse filósofo solitário que é o único entre seus pares que tem a estampa memorial de Kant andando de mãos cruzadas às costas pelas ruas do tranquilo povoado? Esse espanto de meu amigo diante o que funciona como um soco de descoberta do livro de Gray transcende a simples análise sobre o valor educacional da verdade bem empostada. No mesmo dia em que falei com esse amigo, um outro conhecido meu me mostrou pelo celular uma cena de sexo coletivo que viralizou o ambiente virtual da cidade, que mostra uma menina com cinco rapazes no banheiro para deficientes físicos do colégio onde esse amigo dá aula. Eu não tenho a mínima energia para ver esse tipo de vídeo, e a questão aqui me parece ser realmente energia e não estômago ou paciência, pois qualquer simbolismo entre o mais evidente e o mais recôndito que tais cenas possam provocar só me causa um enorme cansaço. O máximo a que pudesse chegar de eu sentir um furor contestatório diante a bestialidade humana, a selvageria adolescente, a total inocuidade do sistema de educação nacional, era de saborear a velha hipocrisia da moral infestada de testosterona desse conhecido que me mostrou o vídeo, sublinhando ao mostrar a velha cartilha de indignação superficial de aonde vamos parar, Charlles? Talvez eu tenha chegado à idade enfim de um estoicismo imune à coligação perceptiva da literatura, um desencanto que não se adorna mais com galhardia da pose de senhor distinto sentado com um livro aberto nas mãos: uma noção de algo sério e irretocável que sempre esteve aqui mas que só agora eu o vejo sem nenhum filtro de amaneiramento, e que não depende de minha posição em relação a ele. Nada que eu pudesse fazer, nem nada que um conjunto de pessoas supostamente detidas das mesmas intenções de mudança que me toma diante a inocuidade humana pudesse fazer, teria algum efeito. A diferença está no tom. O tom de Gray expressa a única concordância possível de acontecer entre pessoas bem intencionadas em um mundo onde as fantasias de redenção nunca tiveram vez. A única utopia possível é a auto-consciência, uma humildade potente e libertária diante a verdade do ser combalido que somos. Esses dias assisti a um documentário produzido com as fitas de áudio contendo as tantas horas de gravação dos testemunhos e opiniões de Kurt Cobain, chamado Retrato de uma ausência. O filme tem a intenção de causar certo peso dissipativo, certa nostalgia triste de uma ruína que se transformou, mostrando cenas de escombros, hotéis vagabundos de beira de estrada, muros da cidade com fragmentos de cartazes que convida a algum evento popular acontecido há muito tempo, exaustores de ar de indústrias que esperam pela demolição, céus de entardeceres que nada prometem, como se fosse a visão de um adolescente que não vê nenhum espaço possível que o integre à sociedade, um mendigo cujo conhecimento genético da exclusão que relegou seus progenitores em longa linha pregressa depõe contra a reação poética possível, restando apenas o ódio mais concentrado. O adolescente Cobain que sentia o mundo devastado dessas imagens sabe que não lhe resta o lenitivo de ser o herdeiro dos românticos escritores da tuberculose, ou o alcoólatra beatnik de uma era em que o apogeu do desespero podia adotar a figura de uma América primordial subliminar ainda passível de ser alcançada, ou o homossexual culto reacionário cujo limite visível da linha da vida cortado pela AIDS justificava a nobreza de seu despojamento. Cobain tinha o enorme azar de ter nascido famélico em uma época pós-suicídio distintivo, de estar em um interstício cujo esgotamento provocado pelos excessos passados mutilava o período histórico com uma absoluta falta de imaginação. Só restava a Cobain visualizar a morte precoce que era a única realidade que tinha pela frente sem uma roupa apropriada para se encontrar com ela, sem mensagens as mais pueris de adeus cínico para os que deixava para trás, sem direito a um epitáfio histriônico que fosse seu testemunho relativamente ruidoso contra a barbárie do mundo. Em uma das gravações, Cobain fala do emprego que teve em um hotel na beira da praia, um emprego que foi o inferno para ele porque as pessoas comuns que eram seus colegas de trabalho sempre lhe foram intoleráveis, pessoas as quais ele não conseguia se manter indiferente e contra as quais ele tinha que dizer as mais terríveis verdades. Muito provavelmente deveria ser um tanto irritante ficar próximo de Cobain, principalmente para os que expressassem as mais mínimas diferenças de educação e idade. O que seria pessoa comum para Cobain? Dificilmente seria a mais proximal à estirpe do Homem comum da biografia que Anthony Burguess escreveu sobre James Joyce, claro; seriam as tais pessoas desinteressantes que Eric Hobsbawm falou em seu discurso para uma classe de história em uma respeitada universidade, pessoas das quais ele afirmou que seus ouvintes não desejariam conversar com elas e nem que fossem suas alunas, a não ser que as amassem. Ao contrário de Hobsbawm, que cita a importância de que tais pessoas sejam protegidas da patrola da história, Cobain fala abertamente de seu repúdio a elas, de seu ódio, de seu nojo_ ao menos nas fitas de áudio que fazem o fundo às imagens do filme. Quando vi essa parte do filme, pensei, desalocando para a superfície meu eu de homem comum, latino-americano de um país à beira da falência: quem era Kurt Cobain? Um artista do rock que, como disse Pete Townshend, estava se tornando cada vez mais um adolescente descerebrado, oco e fútil. Sua arte, a melhor e mais relevante parte dela, se ampara na catarse pura, uma música virtuosística que perde o propósito assim que os hormônios provocados por ela se dissipam. Ele talvez fosse o mais crasso homem comum que teve o revés da sorte de se encaixar na raquítica exigência fonográfica de uma década de total pobreza musical, o que seu suicídio sem o mínimo sentido heroico de seus antepassados do gênero que morreram com os mesmos 27 anos confirmava. Kurt Cobain, pensei, se limitava a uma parca comédia sem graça de uma época que não tinha capacidade de oferecer nada, e por isso sua história fulgurante teve a auto-implosão e auto-digestão de um buraco negro. Não sei situar Cobain nos extremos da situação do vídeo pornô que meu conhecido me mostrou: se ele estaria no lugar hipócrita do meu conhecido, cuja permanência de um vídeo assim em seu celular não condiz com nenhum posicionamento moral válido; se ele seria um dos integrantes do vídeo; ou se ele, vivo com 48 anos, estaria tão esvaziado de energia para assistir tal vídeo.

Kurt Cobain tem relação com o livro de John Gray porque um dos resumos possíveis deste livro é a eterna tentativa eugenista de classes em diversas esferas da dominância em ganhar distinção com base no extermínio das classes que estão embaixo. O livro de Gray mostra o quanto a teoria da evolução de Darwin destruiu a imagem condescendente festiva que o homem tinha de si mesmo e de seu lugar de destaque no universo. E o livro é devastador em mostrar de maneira progressiva como o homem em desespero diante a verdade inexorável de sua insignificância procurou uma série de caminhos alternativos. A primeira parte narra sobre os movimentos do psiquismo acontecidos na Inglaterra, de como foram as tentativas de firmar o propósito da existência em um projeto reencarnacionista que parecia fadado ao sucesso pois além de obter provas em malabarismos entusiásticos da parapsicologia, atendia também a uma versão do evolucionismo para o progresso do espírito. Não era uma religião, mas uma nova outorga de uma Providência divina com propósitos meritocráticos para um ramo da alta sociedade que necessitava de uma legitimidade esotérica de seus privilégios de bom nascimento. E tinha o aval de se arvorar como sendo uma ciência ainda não reconhecida. Quando tudo isso fracassou, ou porque as atitudes circenses das sessões espíritas tinham a graça com prazo de validade, ou porque aumentou os níveis de ceticismo nas gerações sucessoras, vem o projeto de conferir nova distinção à existência do homem da segunda parte do livro. Projetos firmados agora em uma ultra-realidade que se imunizara da necessidade de um deus. E Gray se ocupa largamente do maior e mais terrível projeto religioso dos últimos séculos da história: a efetivação do bolchevismo em boa parte do mundo. Ele inicia com a sintomática e mais que simbólica visita de H. G. Wells a Lênin, em 1920, com a intenção do escritor em trazer Lênin para seu plano de emancipação humana conferindo os postos de poder das sociedades a intelectuais humanistas. Claro que o leitor pode sentir o impacto do presságio da estrutura oca da ingenuidade do sonho de Wells, e de como Wells vai se entregando à lucidez do morticínio quando todas as suas matemáticas sociais sucumbem a um mero caso amoroso com uma das personagens mais enigmáticas e fascinantes apresentadas por Gray, Moura Budberg (uma aristocrata da época dos Romanov que, para sobreviver, tinha que se incluir à única condição de prostituta de luxo que sobrava para as moças de seu meio).

Gray passa o foco para a vida do escritor soviético Máximo Górki, e de como ele tomou frente em um departamento do regime para promover o extermínio de pessoas comuns (as tais pessoas comuns de Cobain) com intuito de, a longo prazo, produzir a sociedade igualitária perfeita povoada de seres humanos superiores. "O recurso ao terror era acima de tudo um meio de recriar a humanidade", escreve Gray. Górki cultivava a crença de que deus ainda não existia, que o propósito da humanidade era criar deus, que a ordem acreditada estava invertida e o homem que teria de criar deus à sua semelhança e imagem. A supremacia do homem, o Super Homem, fomentado às custas da dizimação total de todas os incultos e pobres de espírito, faria que deus existisse. A esse projeto soviético deu-se o nome A Comissão de Imortalização (The Immortalization Commission, que dá o título do livro no original em inglês). A pragmatização da comissão se deu com amplo sucesso. As descrições de extermínio nas páginas do livro são generosas, como a da construção da Ponte do Mar Branco, na qual milhares ou talvez milhões de presos em escravidão sucumbiram no trabalho, no frio e na fome. O livro trata antes da grande insuficiência da razão humana, que sempre descamba para a selvageria sem limites, o que atesta no final o alívio diante a vacina da morte para um engenho tão fracassado. Mostra o quanto a fronteira entre o intelecto e a psicopatia homicida é tênue, prefigurado por assassinos investidos de propósitos redencionistas como Górki.

E por que tais coisas não são contadas para nós na escola? Como ensinar sutileza de pensamento para um mundo dominado cada vez mais pelo branco-e-preto monolítico? Como fazer com que o cérebro pense ao explicar que o livro preferido de Stalin era Os demônios, sendo que este livro que inspirou a sua matança de 60 milhões de conterrâneos, e que Os demônios foi escrito por Dostoiévski justamente como um aviso para que um Stalin não pudesse vir a existir? E será que pessoas tão obtusas à percepção dessas nuances podem merecer serem protagonistas de uma cosmologia de uma vida eterna? E ensinar que todo relativismo que coloca graus de superioridade relativiza sua própria posição na escala entre algoz e vítima. Um livro como A busca pela imortalidade é um grande presente, um generoso ato de humanismo. Nada se compara a ele, em todas as suas idiossincrasias de grande prosa e lucidez libertária sem qualquer engajamento. Gray não impõe nenhuma verdade, e essa sua obra tem o voluntarismo espontâneo de servir como tijolo para a fundação de um novo sistema de precaução contra as intrujões da história. Não defende nada e não condena nada. Tem a beleza do andar livre de um Omar Khayyãm, que não reconhece sobre si nenhuma religião e nenhuma ciência, sem contudo estufar o peito de orgulho arrogante. Não menos sintomático e simbólico, Gray fecha a obra com um belíssimo texto do poeta húngaro judeu György Faludy, que narra seus dias assim que chegou como refugiado de guerra a uma Casablanca rescendida à morte, e que foi enviado ao campo de concentração de prisioneiros de Recsk por se recusar a escrever um poema em honra ao aniversário de Stalin (na prisão, narra Gray, Faludy confessou que tinha sido recrutado como espião norte-americano pelo capitão Edgar Allan Poe e pelo coronel Walt Whitman), e que, libertado, viveu com um companheiro por mais de 30 anos, casou-se outra vez aos 91 e morreu em 2006, aos 95.

Assim encerra A busca pela imortalidade:

A vida após a morte é como uma utopia, um lugar onde ninguém quer viver. Sem as estações, nada amadurece e cai ao solo, as cores nunca mudam de cor nem o céu altera seu vago azul. Nada morre, e assim nada nasce. A existência eterna é uma calma perpétua, a paz do túmulo. Os perseguidores da imortalidade procuram um caminho para fora do caos; mas fazem parte desse caos, natural ou divino. A imortalidade é apenas a alma que empalidece, projetada numa tela branca. Há mais luz do sol na queda de uma folha.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Leck mich im Arsch



Nos extras da edição em blu-ray dos 30 anos de O sentido da vida, há um vídeo de 1 hora de duração feito no ano passado em que os python fazem uma mesa redonda onde se dedicam a falar livremente sobre vários assuntos. Estão sentados em uma pequena sala em Londres, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones e Terry Gilliam, enquanto em um monitor de tv colocado ao centro aparece on-line um Eric Idle com os olhos inchados pelo fuso horário de ter que acordar às 3 da manhã em sua casa nos EUA. É uma dessas ocasiões em que se sente a nostalgia antecipada de estar vivendo talvez um último momento histórico promovido por esses artistas inigualáveis e intelectuais do humor para os quais chamá-los de revolucionários é recair em um clichê empobrecido. Ainda que essa tristeza que o expectador sente diante a impossibilidade de resgatar essa uma hora do efêmero parece não ser sentida pelos 5 septuagenários ali presentes, pois estes falam e contam piadas e relembram com um poder mental que não equivale ao prejulgamento de suas idades, e planejam fazer um filme com os sketches não filmados de O sentido da vida. O grupo fala que grande parte do que fizeram seria impossível de ser feito hoje em dia, devido ao politicamente correto. Cleese diz sobre seu espanto da primeira vez que lhe falaram que  o sketche Ministry of Silly Walks seria condenado por ser ofensivo aos deficientes físicos, ou de que a cena do papagaio morto seria uma apologia à violência contra animais. E Gilliam diz que o mundo atual padece de uma indeterminação, de um anuviamento, em que as pessoas, por terem somente noções indeterminadas de pre-conceitos, usam julgamentos exacerbados como escudo de prevenção contra a falta de conteúdos gerais.

Assim como recentemente vi em uma entrevista com o Mario Vargas Llosa, eles, como o escritor peruano, demonstram uma total indiferença quanto à morte, o que configura a todos uma tardia  e perpétua juventude na qual cabe uma série de planejamentos futuros. Eric Idle diz que espera não haver uma vida após a morte, com a qual se revelaria muito cansado; já Cleese, que parece ser o eterno enfant terrible do grupo, diz não descartar a hipótese, e põe-se a narrar, com uma erudição prodigiosa, sobre experiências científicas de consciência além do corpo, ao mesmo tempo que ridiculariza o ateísmo desesperadamente iconoclasta de gente como Richard Dawkins. Cada um dos python conserva uma inocência, uma predisposição ao assombro, um maravilhamento, de tal forma que parece que tentam controlar isso para que a espontaneidade do momento não sobressaia à astúcia de terem de se mostrar bem situados na maturidade. No final, um deles diz que seria bom tornarem a se encontrar todos juntos novamente, mas dessa vez sem as câmeras, ao que um outro, com uma ironia sempre provocadora, responde: "Mas daí qual seria o sentido?"

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Alguns tem dito sobre a grosseria das charges da Charlie Hebdo. São desenhos mesmo os mais grosseiros e muitas vezes sem a mínima calibragem de humor e bom gosto. Causariam repulsa se, ao mesmo tempo, não houvesse a clara evidência de serem deliberadamente idiotas e infantis. Uma charge* como a que acabo de ver, em que a trindade cristã é representada em uma atitude escatológica que parece ter nascido de uma criança de 7 anos paupérrima em saúde mental, só poderia suscitar discussões sérias a respeito se fosse um produto isolado, uma exceção. Acontece que toda a temática da Charlie Hebdo é essa: a da iconoclastia sem método, sem charme, sem compostura, sem sutileza, propositalmente sem inteligência. A infâmia pela infâmia. E aqui, os críticos que caem na relativização dos atentados ao colocarem a culpa no barbarismo iconoclasta dos chargistas, críticos estes que se julgam muito cultos e conhecedores do que é bom gosto em termos de cultura, revelam uma drástica limitação, pois parecem desconhecer a verdade de que a grosseria, o mau gosto, está na raiz não só da cultura, mas da alta cultura. Se a Charlie apresenta um personagem santo, ou o próprio deus, na situação inconcebível de ter o ânus penetrado seja por um triângulo de luz, seja por qual objeto for, a memória do douto defensor de que os desenhistas de uma tal descompostura fizeram por merecer o destino que tiveram, deveria se lembrar de James Joyce, Rabelais, Shakespeare, Mozart, Dostoiévski, Petrônio, Pynchon, Gunter Grass, e uma série interminável de outros criadores.

James Joyce, não só em suas cartas a Nora Barnacle, que talvez sejam pessoais demais para serem exemplos de "mau gosto", mas em várias passagens de Ulisses. Eu poderia citar vários exemplos de grosseria em Ulisses, mas me limito a uma mesma cena de penetração anal por uma leguminosa no capítulo final da parte 2, capítulo esse recheado de situações com o mínimo do mínimo de etiqueta e bom gosto. Rabelais, em um dos capítulos iniciais de Gargântua, faz seu gigante promover um longo discurso sobre qual a tecitura ideal para um limpador de bunda perfeito. Shakespeare é, conforme Tolstói disse em um saboroso ensaio a respeito, o exemplo talvez máximo das letras do que seja o mau gosto e a ausência de finesse. Mozart tem em seu catálogo, extenso em peças obscenas, um cânone para seis vozes intitulado Leck mich im Arsch (Lamba meu cu). Dostoiévski é povoado de personagens grosseiros, como os que promovem uma cena em O idiota de cuspes mútuos. Quem aguentar ler as primeiras páginas de Satyricon sem embrulhar o estômago merece um prêmio, principalmente as descrições de um banquete em que sobressaem vulvas de todos os gêneros cortadas e coladas por cima de porcos assados e sobremesas exuberantes; e Petrônio foi um dos escritores preferidos de Nietzsche. Pynchon escreveu uma das mais grotescas (e talvez única) cena de coprofagia da história da literatura, entre as tantas desfaçatezes que escreveu em seus livros. Gunter Grass nem se fala. Garcia Márquez nem se fala.

É uma desculpa à apologia ao terrorismo dizer que o mau gosto justifica o massacre. É tão grosseiro ver a gritante desumanidade de um argumentos destes, que a mente esclarecida passa a enxergar o quanto uma revista como a Charlie Hebdo é imprescindível. Gente como o cartunista Latuff, como alguns outros oportunistas que pegam carona para se promoverem com o fato, dizendo que jamais trabalharia na Charlie Hebdo, e expedindo um discurso pseudo-engajado cheio de tons pomposos. Personificam o islã como vítima ao mesmo tempo em que não veem a incoerência de representarem o islã nos terroristas ao relativizar-lhes a culpa. Não tem o bom senso de afirmarem que os que professam com seriedade a religião de Maomé nada tem a ver com esses terroristas, mas confundem ainda mais o discurso de suas cartilhas de correção política ao condenarem os cartunistas massacrados, porque eles mexeram indevidamente com o islã. Se fosse em um tribunal de júri, eles seriam as principais testemunhas de acusação contra o islã, e não seus defensores, como supõem. Em contraposição a essa pelica exagerada, a essa assepsia do toque, a essa intelectualidade de salão que vemos no Brasil, uma revista como a Charlie Hebdo é um soco no estômago desses esnobes oportunistas, esses carniceiros engajados em sobrepujarem a falta de talento com suas vozes de carpideiras solenes. O que sobra disso tudo é que a Charlie Hebdo passa a ser um ícone de genialidade, fundamentada pela prova de que o riso é muito mais perigoso do que a doença dos que não sabem rir e tem uma exagerada noção de suas importâncias; passa a ter a próxima tiragem, de uns poucos mil, para mais de um milhão, e reforça a até então indeterminada função exercida de ser o sub-consciente livre de uma sociedade cada vez mais obstruída pelo enrijecimento mental. É claro que alguém como o Latuff jamais trabalharia lá.

* Ao ver um desses cartuns da revista, me voltou na lembrança a época em que eu tinha verdadeiro horror diante a proibição taxativa na Bíblia de que o único pecado realmente sem perdão era blasfemar contra o espírito santo. Poderia-se fazer tudo, matar, desejar a mulher do próximo, traficar drogas, cometer um genocídio, que bastava pedir perdão à misericórdia divina e estaria tudo resolvido, mas se a mente incauta, ainda mais com o cérebro diabolicamente provocado pela sentença, resolvesse associar o espírito santo a um xingamento, aí seria só esperar o inferno para toda a eternidade. Passei por verdadeiros martírios com isso, pois por mais que vivesse me policiando, uma vozinha em meu interior debulhava um sem número de imagens inenarráveis em que o espírito santo aparecia metido em todo tipo de putaria e viadagens.

domingo, 7 de setembro de 2014

Um belo erro



Em um registro de início da década de 1970 em seu diário, Norman Mailer se pergunta o que essa geração de escritores de Thomas Pynchon achava que estava fazendo. É fácil ver o realista tradicional que era Norman Mailer, pertencente à escola dos romances de guerra que remetiam a Hemingway e às biografias pretensamente panorâmicas da política dos Estados Unidos, desconcertado diante as experiências inapropriadas que falavam sobre drogas e tinha ritmo de comédia pastelão de O arco-íris da gravidade. É divertido observar o pasmo catastrofista de Mailer com o que lhe deveria parecer a crise absoluta do romance naqueles idos do século passado, com o calhamaço suportadamente lido até antes da metade de Pynchon em mãos. Não podemos culpar a incapacidade de perceber essa faceta do novo em Mailer; poucos escritores estariam na posição de entender o que gente como Pynchon fazia com a linguagem e os temas herdados de outra gente como William S. Burroughs (um ponto deve ser dado para Ian McEwan, que assistiu às conferências de Burroughs em Londres e afirmou que os romancistas ingleses só aprenderam a escrever depois disso). Ainda mais para alguém doente pela grandiloquência como Mailer, que tinha todos os cacoetes e gestos encenados da grandeza literária mais que um direito genuíno a ela, e para quem escrever sobre os temas clássicos da literatura só tinha os caminhos solidamente constituídos pela tradição, não se podendo desviar um centímetro dela.

Hoje, com o painel do romance atual, é indubitável aceitar sem reservas o lugar de Pynchon entre os grandes escritores da metade final do século XX. Uma aceitação que se torna mais esclarecedora ao vermos que a produção desses últimos dez anos na seara da ficção carece dramaticamente de empreendedorismo linguístico, de força revolucionária, da autenticidade do novo, do arrebatamento do estranhismo radical. O que se vê é que os ficcionistas vem manejando as técnicas sedimentadas de 40 anos atrás, e se amparando de uma maneira beirando ao constrangimento na propaganda interna dos elogios recíprocos e nos moldes do que é entretenimento livresco na era da velocidade digital propagada pela nova crítica literária. A quantidade de "melhor romance do século 21", de "grande obra que irá mudar a escrita dos anos vindouros", da "renovação do prazer e profundidade da leitura",  de "maior feito nas letras dos últimos 50 anos", do "novo grande romance americano (e aqui se coloca qualquer outra nacionalidade"), é tão grande que se chega a cogitar em algum software que produza essas sentenças laudatórias sem a mínima compostura quanto à inteligência do leitor e as imprima aos montes nas contracapas dos livros. A impressão que advêm ao consumidor, depois que caem os panos do sarcasmo, é que algo muito sério acontece por debaixo desse arranjo que só tem por fora o tom leve de brincadeira. O que vemos é que, se Mailer estava enganado quanto à crise do romance em seu tempo, agora temos todos os motivos para acreditarmos que tal gênero sofre realmente um momento extenso de definhamento, não do que costumam apontar quanto a interesse dos leitores ou quantidade de gente de alguma relevância escrevendo, mas em seu núcleo mais grave da falta de criatividade. Ou falta do que dizer, ou falta de experiência básica de vida para escrever.

De 2010 para cá li parte considerável do que se vende como grandes romances atuais, e afora um ou outro, nenhum me pareceu nem chegar perto da propaganda que foram vendidos. Tirando a excelência clara de Javier Marías, Philip Roth, o próprio Pynchon no auge de sua produção tardia, os novatos das letras estão fadados ao esquecimento assim que a poeira do marketing se assentar. Eu disse em algum outro texto que sou um leitor passível de constante deslumbramento, e que cada dois meses me deixo arrebatar por um romance. É verdade. Mas é porque ainda resta muita coisa boa para se ler de escritores de gerações passadas que se encontram vivos: Le Clézio, Nooteboom, Vargas Llosa. O perigo é que escritores mais novos, como Eugenides, Chabon, Franzen, começam a pisar em falso com suas novas obras, começam a perder o que parecia ser a força inicial de grandes prosadores que tinham e se deixam escorregar para o ambiente contemporâneo de narrar em livro como se estivesse escrevendo para uma série de televisão. Começam a escrever como Jennifer Egan, com uma excelência técnica relativa que também parece um software em que dá ao público o que convenciona-se que ele queira: agilidade, sombras sobre a mortalidade que são dissipadas com uma lata de coca-cola, sexo depravado com seu adendo indispensável de compensação moralista punitiva no final, diálogos de seres urbanos inteligentes em suas intimidades invioladas de consumidores em apartamentos descolados. Requinte, é a norma da literatura produzida atualmente, e o requinte tem o gosto aspartâmico da profundidade simuladamente alcançada. É uma linha decídua preocupante que o mesmo autor dos magníficos Virgens Suicidas e Middlesex seja quem escreveu a comédia televisiva de erros bastante fraca A trama do casamento; ou que As correções, de Franzen, seja vilipendiada em troca de Liberdade, esse romance chatíssimo e de um pieguismo desaforado, que foi um dos romances que a loteria de realengo da crítica anunciou como o maior do século XXI. (Comecei ontem O pintassilgo, temeroso de que a tão aclamada Tartt seja mais um desses engodos de vendas.)

Michael Chabon ainda está em um patamar acima desses outros companheiros citados. Quem leu As aventuras de Kavalier & Clain e Associação Judaica de Polícia sabe do que estou dizendo (dois desses livros que se tornam paixão instantânea, que só o futuro dirá o quanto a distância temporal os colocarão nas futuras listas pessoais de melhores livros de todos os tempos). Seu último romance, Telegraph Avenue, me pareceu um enigma enquanto o lia. Não sabia mesmo definir, nem na seguridade apraz a todas as confissões difíceis de minha poltrona de leitura, se eu estava gostando ou não desse livro. O fato é que contava positivamente que eu o estava lendo todas as horas, até chegar ao fim; o fato contrário era que me parecia que Chabon, a exemplo do papagaio da parte 3 do livro, que faz uma panorâmica em voo por cima dos dramas pessoais em uma escrita de uma só longa sentença, tangenciava a trama sem nunca entrar realmente nela, às custas de uma demonstração de virtuosismo de mostrar o quanto sabe escrever bem que caía no vazio. Gabriel Márquez dizia que quando estava aprendendo escrever, destrinchar uma página de Hemingway era muito fácil, devido à simplicidade do escritor de Por quem os sinos dobram; já analisar uma página de Faulkner era como desmontar um relógio ultra-complexo e tentar juntar de maneira correta todas as suas partes de novo. Pois partindo desse ponto de vista, o livro de Chabon é uma generosa abertura total do escritório do escritor; neste romance, ele nos mostra à exaustão todas as sua técnicas, suas armadilhas, seus maquinários dos minúsculos aos mais evidentes. Acontece que ele se mostra de forma exagerada, extenuante. Não há uma palavra de preguiça neste livro: tudo é escrito em uma fé em sua eficiência e propósito, com um frescor e inteligência típica do escritor, que é o que me faz pensar que há algo escondido nele que me passou batido, ou que eu ainda não aceitei da forma correta. Como se Telegraph Avenue fosse o Moby Dick de Chabon, um livro que só será reconhecido em suas sutis artimanhas daqui algumas décadas (por enquanto fica no leitor contemporâneo só a miopia dos que  acham que capítulos curtos e ensaios náuticos é pura enrolação). 

Chabon é um mestre. Não adianta virem com essa de que ele parece forçar o humor, etc, etc. O cara é um mestre, é só lerem com atenção. Quando li Associação Judaica de Polícia, havia acabado de ler O mestre e margarida, e eu soube que dificilmente coincidiria novamente ler lado a lado livros que tinham diálogos tão excepcionais. E a profundidade do tema de AJP, a forma como toca em um dos mais caros assuntos da alma, é uma proeza para poucos escritores. De forma que é perigoso analisar Telegraph Avenue com um filtro apenas, o de que Chabon simplesmente errou. No livro, parece que nada acontece: forma-se um cenário espetacular para uma trama que envolve a história do jazz, e os personagens (como em uma parte do livro admite) são bastante pynchonianos, mas isso tudo é abandonado por Chabon. Os indícios da relojoaria do romance são oferecidos também à farta: um dos personagens, negro, velho jazzista, traz em seu bolso uma edição escangalhada e muito anotada de Ulisses, o livro que é uma espécie de cabala para o ensinar a viver. E TA é fundamentalmente o prosaísmo, o provincianismo, a vida não-intelectual e visceral de Ulisses. Mas Chabon quer que todos esses sinais sejam sofisticados, o que não é difícil para ele; quer que o leitor erudito reconheça as migalhas de pão que orientam o traçado de ida e retorno ao labirinto, com a mesma inteligência pop que no novo filme do Homem-Aranha o tema musical do herói é um plágio intencional de Fanfare for the common man, enquanto se é mostrado o cotidiano inglório de um Homem-Aranha combatendo o crime como se enfrentasse o metrô com uma pasta executiva debaixo do braço indo para o escritório (ou, ao que me parece uma isca sofisticada demais para o público alvo de uma franquia francamente inferior à de Sam Raimi, o personagem negro de Electro deixando a sua condição de invisibilidade racial para aparecer nas telas da Times Square  enquanto o fluxo de energia luminosa dos cabos elétricos remete ao esconderijo do narrador do grande livro de Ralph Ellison, que se escondia em um depósito subterrâneo da Companhia Elétrica).

Em uma página do romance pode-se colher uma série de referências pop e da história dos EUA, assim como em Ulisses temos a mesma coisa em referência à história da Irlanda e da Europa. Jethro Tull, Return to Forever, as convenções partidárias de um incipiente Barack Obama, o sistema de saúde americano com suas intersecções com uma obstetrícia ainda medieval, a velha exploração sobre a onipresença cultura do fast-food e das indústrias do entretenimento na personalidade e no modo de pensar e agir dos personagens. O que se sente no romance de Chabon é essa euforia, essa ilimitada vida e ruído urbano de Joyce, suas camadas de infinitas correlações inteligentes que o leitor parece adquirir a capacidade quase tegumentar de perceber_ há aquele ganho atrasado de compreensão em que tudo parece desconexo e tumultuado mas que páginas adiante de súbito se nos revela, o que Chabon se mostra exímio em fazer.

Mas é impossível não desejar que Chabon tivesse contado realmente a história dos personagens, tivesse amarrado todas as pontas que ele deixou soltas. Os personagens são maravilhosos, prometem muito: os donos da loja de discos antigos de jazz que está para fechar as portas por causa da chegada da megastore, o vereador mandrião que promete ajudá-los mas que só faz acentuar ainda mais o fim, o filho homossexual, o filho bastardo, o velho pianista de jazz que tem um papagaio sábio chamado Cinquenta-e-Oito, a mulher grávida que trabalha como parteira e que cometeu um erro no exercício da profissão. E por aí vai. Chabon poderia ter feito o que anuncia fazer: ter sido francamente pynchoniano e joyceano nesta obra que é uma clara demonstração de amor a esses dois escritores. Chabon deve ter algum propósito. Talvez esse seja o mais humano de seus livros, o mais pessoal, por Chabon ter recorrido à voluntariedade de dizer que esses seres humanos pueris, sem nada de muito interessante, sem nenhuma relevância, falidos e à procura da felicidade instantânea, são o que realmente importa, são o emblema de uma certa e factível continuidade do homem. E dizer dessa forma, nesse experimentalismo inusitado e ousado de incorrer no erro de não ser entendido, é um ato de renovação da escrita que situa Chabon acima dos arquétipos previsíveis do que se vem fazendo na indústria da escrita atual.


sábado, 10 de agosto de 2013

Mozart, Violin concerto K271a, Mvt 1

Eu sou um cristão que por viver em contínuo conflito com a ideia de deus já não tenho mais o direito de alegar angústia. Minha concepção de deus é muito particular, e não se baseia em méritos. Sinto-me mais confortável com os "santos sem deus" de Camus do que com os que arvoram certezas em qualquer investimento em uma recompensa em um outro mundo. Toda a criação artística humana, desde a música, a literatura, à arquitetura, tem a noção de deus como base, e seria o fim do homem pragmatizar na vida social o fingir não se preocupar mais com as questões da transcendência. Deus é necessário_ leiam o A civilização do espetáculo, leiam Don Delillo, leiam Adorno. Cristo foi o maior reformador espiritual da história, e é por isso que rezo a ele, ou à ideia dele, todos os dias. Antes de ligar o carro eu faço uma reza particular, que a criei há tantos anos que soa como poesia. Vivo rezando, acho que rezo umas vinte vezes ao dia. Dentre tudo que li sobre a percepção de deus, a mais reveladora para mim está no romance Submundo, de Delillo, na página 263. Vou reproduzir aqui parte do texto: 

"'Pára por um minuto, ó ser fraco e miserável, e olha para ti mesmo.' Quer dizer, era eu que estava sendo destacado, num estado de pausa, pensando em mim mesmo, vinte anos de idade e mais burro que os meus colegas e desesperado pra encontrar um lugar onde eu me encaixasse. Pois eu li esse livro e comecei a achar que deus era um segredo, um túnel comprido e escuro, que vai e vai e não acaba mais. Foi essa a minha miserável tentativa de compreender a nossa nulidade em face da enormidade de Deus. Era isso que eu respeitava em Deus. Ele mantém o segredo dele. E tentei me aproximar de Deus através do segredo dele, de seu poder de se manter desconhecido. Talvez a gente possa conhecer Deus através do amor ou da oração ou de visões ou do LSD, mas não através do intelecto. E aí aprendi a respeitar o poder dos segredos. A gente se aproxima de Deus através do que ele tem de incriado. Porque nós fomos feitos, criados. Deus é incriado. Como é que a gente pode tentar conhecer um ser assim? Não pode. Não pode conhecer nem afirmar. O máximo que se pode fazer é adorar a sua negação." (Don Delillo, em Submundo)

Jamais vi minha forma de aproximação a deus retratada com tanta perícia. Quebra. A questão do milagre? A questão de que Jesus fazia apologia da inteligência combativa, e estava longe de ser passivo? (Muitos não entendem que o dar a outra face é a maior arma, o confrontar o inimigo com a lucidez constrangedora de sua estúpida brutalidade.) Meus filhos e minha esposa estão na casa de uma das avós, na capital. Estou sozinho em casa desde quinta-feira. Ontem minha esposa me liga dizendo que sua irmã grávida fez o ultrassom e o médico lhe disse que seu bebê não tem pernas nem braços. Fico num silêncio estuporado pelo telefone, ouço todo o vagalhão interno que isso começa a causar em minhas sempre instáveis âncoras existenciais. A Dani fala que sua irmã entrou em desespero, ligou para a mãe em um estado de choque, mas teve forças de ir até outro laboratório, fazer urgentemente outro exame e levar a outro médico. Esse outro médico disse, categórico, que seu bebê estava perfeito. Fui tomado por uma ira súbita pelo telefone, passei uma exageradamente severa bronca na Dani, pois ela deveria ter dito primeiro que tudo estava bem e que havia acontecido um erro de diagnóstico logo retratado, e não ter feito aquele suspense inapropriado comigo. Fui deselegante com ela, assim que desligado o telefone me arrependi. Sentei no sofá da sala e fiquei longo tempo pensando, mais em um estado catatônico que propriamente um espairecimento controlado. Tive um medo sônico de que se eu me movesse aquela frágil dobra do destino poderia se quebrar, e a escolha da providência poderia ser refeita. Acho que deve ser a mesma coisa que sentem aqueles monges irlandeses do conto do Joyce que passam a vida pedindo clemência para que deus reconsiderasse por mais um momento, desse à humanidade mais uma outra chance. Não pensar; sequer nem agradecer, nessa leveza magistral que nunca vai ser me dado entender, para meu benefício, pois assim descarto que entre os infinitos sentimentos do ser incriado, divida espaço o meu pequeno e inútil rancor.

E como não vislumbrar deus aqui?:

sábado, 18 de agosto de 2012

Um Convertido



Ramiro Conceição, num comentário lá no blog do Idelber Avelar (Ramiro, muito emocionado com essas suas palavras, cara! Exatamente o que eu penso sobre Ulisses):

Quanto ao Ulisses de Joyce. Levei um ano para lê-lo… Briguei. Mandei Joyce tomar no cu. Pisei no livro. Abandonei-o. Retornei. Cheguei ao fim… Percebi que eram diversos livros e diversos autores: num só. Percebi que a personagem principal era a linguagem. Achei extraordinários dois capítulos, o 17 e 18: o primeiro, por provar que é possível escrever um romance através da dialética; o segundo, pelo sucesso conseguido em expressar através da escrita o fluxo do pensamento. Percebi também em muitas passagens a origem de textos de muitos autores: por exemplo, a certa altura do livro Joyce descreve um cachorrinho que enterrava e desenterrava ossos, pois bem Elliot, em seu memorável “A Terra Devastada”, se utiliza da mesma figura de linguagem para descrever a tragédia humana acontecida no século XX; percebi também numa certa passagem algo que poderia ter inspirado Drummond em seu famosíssimo poema sobre a pedra no caminho (não tenho qualquer informação se isso foi possível; contudo li: estava lá no Ulisses). Percebi também que toda a linguagem direta usada, hoje, na publicidade dirigida às massas, estava lá. Percebi também a profunda revolta contra o domínio inglês sobre a civilização irlandesa. Percebi também a crítica ácida, principalmente, contra a Igreja católica. Percebi também o amplo domínio, em todos os campos da linguagem, que Joyce possuía. E percebi, principalmente, que Joyce era um erudito em semiótica: creio que o Ulisses poderia ser considerado um quadro de Miró feito de palavras. Contudo, qual a minha grande crítica ao livro de Joyce: o rigor da forma, do estilo, atrapalhou o fluxo dinâmico do livro. Para mim, centenas, centenas e centenas de parágrafos poderiam ser eliminados sem que se perdesse a originalidade; por exemplo, para que o leitor entendesse a crítica à Igreja Católica, não seria necessário ler, praticamente, uma página inteira a listar somente nomes de santos, para mim, tal opção estética foi um erro; porém isso é um julgamento estético e, portanto, alguém, com todo o direito, pode achar o contrário. Mas gostaria de deixar claro: o que mais me comoveu foi conhecer o contexto em que Joyce escreveu tal obra, ou seja, Joyce levou até as últimas consequências, inclusive materiais, seu TRABALHO literário à superação da mediocridade contida em seu tempo; só por isso: ele deve ser lembrado, mas jamais cultuado. Portanto, creio que Paulo Coelho foi leviano em seus comentários sobre Ulisses.

sábado, 16 de junho de 2012

Bloomsday 2012




16 de junho. Hoje é um dia especial para todos os agraciados pela leitura de Ulisses, de James Joyce. Para todos que sabem que a felicidade é continuamente encontrada nas grandes leituras. Para todos que amam os livros; que nunca foram contemplados pela exaustão ou a insuficiência diante as palavras. Trata-se do Bloomsday, o dia em que transcorreu toda a ação de Ulisses, em 16 de junho de 1904 (na verdade o final do romance pega as primeiras horas da madrugada do dia 17 de junho, fato que pouquíssimamente é comentado; mas tudo bem, abre precedente para aumentar-se o prazo da comemoração). Eu já encontrei a felicidade na leitura de muitos livros: Anna Kariênina, Os Demônios, Herzog, O Teatro de Sabbath, Longe e Há Muito Tempo, Absalão, Absalão, Luz em Agosto, A Montanha Mágica... e a felicidade que me esperava em Ulisses, em quatro dias febris de 2006, me mostrou de uma vez por todas que o maior poder da literatura é isentarnos da consciência do passar dos anos, dando-nos uma imperativa certeza da continuação da juventude. Que a leitura nos mantem jovens eu já o sabia nem que fosse pela constatação não-oficial de que doenças degenerativas pouco acontecem com leitores, ou que leitores não se suicidam com frequência, afora, nesses dois casos, as exceções da regra das últimas informações sobre Garcia Marquez, o Alzheimer da narradora de Reparação, e todos os adeptos da solução do eternamente jovem Werther ao longo dos últimos três séculos. Os velhos notórios dos quadros da UTI dos hospitais costumam serem retirados dos sofás em frente à televisão, ou de frente a janelas que dão para as sempreternas tramas de vizinhos em trânsito. E os suicidas são ocupados demais com seus desesperos financeiros para dignarem-se ao tamborete tombado sob a corda por motivos de desalento da alma.

Tenho as três traduções de Ulisses para o português do Brasil, e o livro original. Pela década de 90, tentei de todas as formas ler a do Houaiss, mas nunca consegui. Fiz fila ao grande número dos que acham Ulisses a mais empolada e leviana enganação da indústria cultural livresca, o que por si já daria um enredo poderoso para uma sátira conspiratória de empresários desvirtuados das indústrias do amianto e da exploração do diamante africano para dedicarem suas vidas a pregar uma peça em um por cento da humanidade que ainda lê. Só fui conseguir ler a tradução da professora Bernardina, no auge da aclamação do lançamento da Alfaguara. Ulisses só pode ser lido com uma atenção despreocupada. Não é um livro sagrado. É um livro divertido, fascinante, elétrico, maravilhoso. Se há uma conspiração para estragar sua leitura, ela é feita, talvez involuntariamente, pelas pessoas que o amam, quando ressaltam que sua dificuldade é hermetismo, ou que a grande força retórica de Joyce se centra em tolos jogos e fusão de palavras. Ulisses é tão difícil de se ler quanto qualquer livro de Dostoiévski ou Tolstói, nada além disso. Não é um livro destinado para 99,9% da humanidade. Como toda produção do alto intelecto, é uma obra elitista. Barram-se em suas portas os que não exercem a capacidade de atenção, os que limitam o alcance da visão para os informativos da sessão de preços e cotações de mercadoria, os intrinsecamente preguiçosos, os que bocejam em uma sinfonia de Beethoven, os doutores pragmáticos em armadilhas televisivas de danças sensuais da moda, os que se transportaram em definitivo para o universo digital. Por isso é uma data a ser celebrada, o dia de hoje. O dia da conflagração maçônica dos que tem um tesouro íntimo inigualável guardado a sete chaves. Como disse certo crítico, os livros não nos tornam melhores, mas mais ricos. Celebremos nossa fortuna.

(Seguem nos dois posts abaixo, um pequeno texto sobre Ulisses, e uma resenha sobre um bom romance sobre o Bloomsday, retirados da memoriabilia do blog.)

Pequeno Comentário Sobre Ulisses, de James Joyce




Esse é um dos livros em que o enredo é o de menos. Importa a incrível vivacidade e energia verbal de Joyce. É o anti-limite de sua superioridade como escritor acima de todos os outros_ de Mann, de Faulkner, Proust, Kafka_ que iria subir à estratosfera e se perder com o livro seguinte, o ilegível Finnegans Wake. Trata-se de uma brincadeira bem urdida, uma ciranda calculada na espontaneidade de um severo trabalho de anos, não uma tentativa, mas uma culminação do resumo do ser humano e de sua história, e um enorme deboche à febril ciência da psicanálise (se tudo que passa pela cabeça de um homem comum é simploriamente banal, é ridículo sistematizar seu comportamento contraditório numa cabala do subconsciente). Ama-se Bloom e sua esposa, ama-se Dedalus e o excessivamente extrovertido Buck Mulligan, com todos os seus pecados, suas desimportâncias, suas carências.


É o romance da falta de sutilezas, da falta de coqueteria, o romance essencialmente não-burguês (não ANTI-burguês, pois revela o enorme descaso do autor para contrapor uma reação à uma sociedade medíocre), não-científico, e, por mais que possa ser surpreendente, não-literário. Dedica-se todo à celebração da literatura, mas é anti-empolação e anti-oitocentismo. Tanto que depois de Ulisses, aboliu-se a possibilidade de escrever como Victor Hugo, Sully Prudhomme, Romain Rolland, e outros. Ulisses aboliu a literatura em diversos países, obrigando os novos escritores à adaptação. É a suprema manifestação do humor, do humanismo, da redenção velada. Uma mistura de Nona Sinfonia com a fuga da Sinfonia Júpiter, com cabrioladas de um jazz que abriu as portas para as correntes de ritmos de Coltrane e dos minimalistas. O maior mérito de Joyce foi ter controlado sua extraterrestridade para dar à obra um caráter perfeitamente legível, pois seria natural que depois de ter rompido todos os limites, seu último passo seria Finnegans Wake, assim como o passo seguinte_ o estilo tardio_ de Beethoven fosse os ùltimos quartetos e a Missa Solemnis.


Aldous Huxley lamentou que Joyce tivesse optado pela abdução. Poderia ter escrito importantes livros da estatura dos de Stendhal. Mas é compreensível. Deportou-se do mundo dos viventes. Não lhe diria nada a estranheza e prazer de incompreensão libidinosa que o mundo adotaria ao analisar as cartas singelas que escrevia para Nora Barnacle, seu amor de toda a vida. Onde revelava a leveza de seu espírito, a ralé via apenas a sujeira sexual de um intelectual reprimido. Por isso é desconcertante que achemos de uma beleza sem igual as passagens de Bloom se masturbando, de Molly cedendo-se mais uma vez com seus repetitivos sim, sim,sim, da última página, de Mulligan se atirando seminu ao mar, ao lado dos pescadores. Uma impossível beleza nesses gestos prosaicos, e uma lucidez que desmascara toda a hipocrisia, toda pompa. Uma declaração de amor à humanidade, antes de mais nada, mas uma humanidade ainda de um distante porvir, livre das tralhas da ciência e das hierarquias, e centrada no cultivo das idiossincrasias soltas e intimistas de si mesma.


Por isso que é tão espantoso a Buck Mulligan quando Stephen Dedalus revela que, no leito de morte de sua  mãe, se recusou a se ajoelhar; mas não pelo constrangimento à mãe, mas pelo constrangimento contra si mesmo. A liberdade do homem que tomou suas próprias rédeas e manda as convenções e a opinião alheia às favas…



Dublinesca





Um dos álibis que se pode alegar contra os sinais anunciados da tão aclamada morte do romance é que mesmo seu definhamento consegue servir de tema para toda a obra de um dos mais relevantes romancistas da atualidade. Praticamente todos os livros do espanhol Enrique Vila-Matas tratam da morte do romance, utilizando-se para evidenciá-la de uma série de personagens cuja reação ao avanço de uma era de iletralidade é a da abstinência criativa ou a recusa pura e simples de escrever. Vila-Matas tece um jogo curioso de referências diretas aos mais importantes escritores da literatura, de forma a fazer produzir no leitor a “doença da literatura” que incapacita espiritualmente seus heróis, mas tem o cuidado mercadológico de não incorrer em modelos muito herméticos, abrindo as janelas de suas narrativas para que o ar de dias ensolarados tenha livre acesso. Vila-Matas, pois, se presta ao que grandes escritores que se recusaram a ser objeto de fetiche de uma minoria de apreciadores especialistas fizeram para alcançar o grande público: administraram suas caixinhas de truques e surpresas de forma a serem bastante permeáveis às vendas exponenciais, e com isso, mais uma vez, reforça a duração do romance. Recheia seus enredos de sombras, chuvas, sonhos, personagens misteriosos, equivalências que supõem a mágica, viagens para aprazíveis cidades históricas européias, micro-ensaios bem estruturados sobre livros, fofocas atuais ou muito antigas sobre escritores; além de servir-se da internet para propagar os personagens cuja face impressa jura que existem mas que as consultas pelo Google revelam inventados. A astúcia desse procedimento é que o leitor, na consulta, cai na rede de fãs que o autor arrebanha pelo mundo, à semelhança dos que se descabelam na escavação de códigos nas páginas de Thomas Pynchon.

Mas engana-se quem achar que Vila-Matas é apenas um leitor cuja leitura de todos os livros não deixou outra opção que fazer-se ele mesmo um funcionário de sua memorialística literária. Como na comprovação da excelência das costureiras, pode-se perceber o grande calo profissional que Vila-Matas tem na mão em seu recente romance, Dublinesca. Trata-se das aventuras de Samuel Riba, um editor aposentado que vive para ruminar os dias gloriosos do romance, dos quais participou ativamente, mesmo sem nunca ter encontrado o jovem gênio das letras que sempre procurara, e que, como ato ritual ao que ele vê como “o fim da Galáxia de Gutenberg” e a consagração decisiva da era digital, encena com um grupo de amigos o enterro do romance indo para Dublin no Bloomsday. Desde a primeira página vemos que só sobra a Riba o encerramento tortuoso no qual sucumbem os pacientes terminais; a cada passagem de seus dias na Espanha, à espera que chegue a data prevista para a viagem, intrudam-se elementos de pesadelos tomados da literatura que não lhe possibilita saber onde prossegue a realidade e onde se irrompe o sonho. Mesmo as visitas habituais a seus velhos pais, todas as quartas-feiras, que no mais não passam de tediosas obrigações cumpridas à risca, são contaminadas pelo onírico que escapa dessas frestas do cotidiano.

Mesmo Riba sendo o que ele vê como uma versão mais velha e culta de um hikikomori, nome que se dá aos jovens japoneses que já se alienaram do mundo trancando-se nos quartos das casas dos pais e não saindo de frente do computador, pois ele mesmo sucumbe às horas pesadas de exposição ao Google, não lhe escapa a verdade de que a cada dia vai se tornando mais e mais obsoleto. Sua esposa se converte ao budismo, e, numa determinada cena em que Riba a observa dormindo, está mais jovem e possuída de uma beleza plena. Sua viagem a Dublin, a qual era a última chance de integrá-lo a algum significado de pertença_ mesmo que fosse de pertencer a um grupo que se enterrava sob um réquiem de resignação à modernidade_ se mostra, apesar da beleza da paisagem em que Riba se identifica como pertencendo ao mar da Irlanda, um completo fracasso na comunicação com os amigos.

A bela editoração da CosacNaify complementa a alusão de que Vila-Matas trata de temas profundos com uma leveza que não se corrompe por nenhuma das duas opções (deixar de ser leveza aniquilando-se na imanência das matérias tratadas, ou tornando-se superficialidade pura): a ilustração da capa, as letras grandes, a feição corporal de objeto perfeitamente comestível e um quê do requinte de ornamento de mesa de catálogos fotográficos. Mas Vila-Matas prescinde desses artifícios, ainda que eles complementem a sua arte. O livro vale por suas reflexões requintadas sobre a modernidade, sua ironia fina sobre a geração de cultores virtuais em que a maioria da humanidade está se tornando, sua prosa que não é permissiva e não faz concessões, seus resvalos gratificantes numa premonição de níveis mais profundos do discurso. Mesmo as partes que cairiam na ineficiência e no desgaste, Vila-Matas as convertem em agilidade perfeitamente convincente.

sábado, 2 de abril de 2011

Pequeno Comentário sobre Ulisses, de James Joyce

O comentário do Luiz, na caixa de comentários de ontem, me fez resgatar esse meu pequeno texto, publicado no blog do Milton no Bloomsday do ano passado.


Esse é um dos livros em que o enredo é o de menos. Importa a incrível vivacidade e energia verbal de Joyce. É o anti-limite de sua superioridade como escritor acima de todos os outros_ de Mann, de Faulkner, Proust, Kafka_ que iria subir à estratosfera e se perder com o livro seguinte, o ilegível Finnegans Wake. Trata-se de uma brincadeira bem urdida, uma ciranda calculada na espontaneidade de um severo trabalho de anos, não uma tentativa, mas uma culminação do resumo do ser humano e de sua história, e um enorme deboche à febril ciência da psicanálise (se tudo que passa pela cabeça de um homem comum é simploriamente banal, é ridículo sistematizar seu comportamento contraditório numa cabala do subconsciente). Ama-se Bloom e sua esposa, ama-se Dedalus e o excessivamente extrovertido Buck Mulligan, com todos os seus pecados, suas desimportâncias, suas carências.


É o romance da falta de sutilezas, da falta de coqueteria, o romance essencialmente não-burguês (não ANTI-burguês, pois revela o enorme descaso do autor para contrapor uma reação à uma sociedade medíocre), não-científico, e, por mais que possa ser surpreendente, não-literário. Dedica-se todo à celebração da literatura, mas é anti-empolação e anti-oitocentismo. Tanto que depois de Ulisses, aboliu-se a possibilidade de escrever como Victor Hugo, Sully Prudhomme, Romain Rolland, e outros. Ulisses aboliu a literatura em diversos países, obrigando os novos escritores à adaptação. É a suprema manifestação do humor, do humanismo, da redenção velada. Uma mistura de Nona Sinfonia com a fuga da Sinfonia Júpiter, com cabrioladas de um jazz que abriu as portas para as correntes de ritmos de Coltrane e dos minimalistas. O maior mérito de Joyce foi ter controlado sua extraterrestridade para dar à obra um caráter perfeitamente legível, pois seria natural que depois de ter rompido todos os limites, seu último passo seria Finnegans Wake, assim como o passo seguinte_ o estilo tardio_ de Beethoven fosse os ùltimos quartetos e a Missa Solemnis.


Aldous Huxley lamentou que Joyce tivesse optado pela abdução. Poderia ter escrito importantes livros da estatura dos de Stendhal. Mas é compreensível. Deportou-se do mundo dos viventes. Não lhe diria nada a estranheza e prazer de incompreensão libidinosa que o mundo adotaria ao analisar as cartas singelas que escrevia para Nora Barnacle, seu amor de toda a vida. Onde revelava a leveza de seu espírito, a ralé via apenas a sujeira sexual de um intelectual reprimido. Por isso é desconcertante que achemos de uma beleza sem igual as passagens de Bloom se masturbando, de Molly cedendo-se mais uma vez com seus repetitivos sim, sim,sim, da última página, de Mulligan se atirando seminu ao mar, ao lado dos pescadores. Uma impossível beleza nesses gestos prosaicos, e uma lucidez que desmascara toda a hipocrisia, toda pompa. Uma declaração de amor à humanidade, antes de mais nada, mas uma humanidade ainda de um distante porvir, livre das tralhas da ciência e das hierarquias, e centrada no cultivo das idiossincrasias soltas e intimistas de si mesma.


Por isso que é tão espantoso a Buck Mulligan quando Stephen Dedalus revela que, no leito de morte de sua mãe, se recusou a se ajoelhar; mas não pelo constrangimento à mãe, mas pelo constrangimento contra si mesmo. A liberdade do homem que tomou suas próprias rédeas e manda as convenções e a opinião alheia às favas…