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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
terça-feira, 28 de outubro de 2014
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, de David Foster Wallace
Há uma cena no ensaio que dá título ao livro em que a acompanhante de Wallace à visita a uma feira agrícola no interior de Illinois se submete a um dos brinquedos de "quase morte" do parque. É uma minuciosa descrição de tortura: a mulher é aprisionada em um cubículo gradeado de ferro, içada a uma altura exorbitante, e sacolejada por minutos que parecem infinitos. Em um determinado momento, Wallace concebe a ideia audaciosa de que a vida da mulher depende de sua intervenção junto aos dois rapazes que controlam as alavancas do brinquedo, visto que sua racionabilidade em não ver nenhum tipo de motivação saudável para alguém se submeter a tais extremos o mantêm seguramente em terra. Os dois rapazes começam a revelar níveis de sadismo ao manterem a mulher dependurada de cabeça para baixo só pelo intuito de verem suas saias caídas e a calcinha à mostra. Wallace, até então carregando o texto com análises filosóficas distanciadas beirando um compêndio alienígena sobre uma espécie bestial, assinala um marco de terror no meio do tom secamente cômico ao avaliar-se covarde demais para enfrentar os dois caipiras bêbados, mesmo essa incapacidade feminilizante parecer custar a vida de sua colega. A cena termina com os maníacos voltando a cabine para o chão e a mulher, que Wallace imagina reduzida a um trapo, pulando para fora e festejando a maravilha daquilo com uma série de palavrões incitatórios aos rapazes. Wallace, abismado, conta à moça sobre a agressão pela qual ela acabara de passar, e sua nítida crueldade sexual, mas ela se mostra completamente avessa a entender, enxergando a coisa como algo trivial e ingênuo. Ao leitor ainda possível de se lembrar das obras de Stephen King que lera na adolescência, é inevitável admirar o quanto Wallace esbarra na mais pura literatura de terror ao mostrar-se desabrigado e indefeso em um mundo em que a maldade se revela nas beiras de normalidade comezinha apenas para ele. Ninguém vê o diabolicismo por detrás das crianças gordas sendo doutrinadas pelos pais obesos a comerem as mais aberrantes guloseimas gorduras e gotejantes de óleo de fritura, nem o campeonato de vale-tudo entre garotos de dez anos que são induzidos a quebrarem um o nariz do outro por pais sedentos por violência, ou os tantos símbolos fálicos e palhaços bêbados e com não apenas imaginárias propensões ao crime, que são os personagens e as situações que povoam a feira.
A lucidez de Wallace, de tão pura, chega a converter-se por convecção e involuntariamente a essa maldade translúcida. Não há nenhum sinal de moralismo ou transcendência em suas palavras, mas apenas a sequidão científica do colecionador de insetos raros, que os vai afixando com agulhas em um quadro. Em determinado momento, sua incansável predisposição ao conceitualismo traça uma causa a essa brutalidade desinibida que o afronta pelos vários dias que dura sua estadia no parque: as pessoas dos insípidos povoados do centro dos Estados Unidos são indivíduos recolhidos, mutilados pelo tédio, enfurnados em um cotidiano previsível e insosso, e essas festas agropecuárias é a forma da catarse anual que os liberta por um momento da maldição da geografia. Só que eles não conseguem libertar-se de si mesmos, do que anos de prostração fizera a seus espíritos: daí que nesses períodos de oásis eles se lançam em uma espécie de hiper-realismo esquizofrênico, em que os antigos traços de seus humanismos são substituídos de vez por caricaturas do que neles existem de molestadores sexuais, assassinos potenciais, escravos da indústria de fast-foods e pais alienados. Nas mãos de um Bernhard ou de um Camus, esse retrato do inferno alimentaria-se de contundência e linguagem decantadamente combativa, e virulência e repúdio, mas nas mãos de Wallace essas características são preenchidas por uma forma de humor destituída de qualquer engrandecimento trágico, um humor que se revela nas palavras mais como um ato físico de estoicismo por estar no centro das labaredas do que por indicar-se superiormente capacitado a olhar tudo de um mundo hipotético melhor e mais seguro; um humor pós-riso e uma observação ativa e muscular que não abraça nenhuma escola filosófica: um exaurimento filosófico como se a América dos tempos atuais não comportasse mais nenhuma trégua e nem tão pouco alguma fagulhar e eventual redenção desse inexorável trivialismo. Wallace escreve como um jovem envelhecido precocemente por sua capacidade não vantajosa de ver além desse jogo faustiano de hedonismo e frivolidade que encoberta a realidade, após ler toda a filosofia, a ensaística e a ficção atrás de sucedâneos menos terríveis, e se conforma em não criar mais uma roupagem inédita de verdade, se comprazendo a abraçar apenas a originalidade de sua fidelidade à sua voz. E assim ele escreve todos os formidáveis seis ensaios compelidos neste livro.
Javier Marías, grande aficionado à literatura de terror, escreve que o relato do terror pelo terror enfraquece o texto, pois uma vez exposta, a atrocidade soa convincente, mas as repetidas vezes mais em que ela aparece, a "tensão se perde e o efeito se desvanece". Por isso, ele continua (no curto ensaio Contra la Truculencia, do livro Literatura y Fantasma): "a frase que maior horror me produziu na literatura não está em Lovecraft, mas em Flaubert: no final de Madame Bovary, com ela já morta e em seu ataúde, enquanto vários personagens lhe colocam por cima uma coroa, Flaubert diz: 'Teve-se que levantar-lhe um pouco a cabeça, e então uma onda de líquidos negros saiu, como um vômito, de sua boca'". Assim é o horror que se tem nessas páginas de Wallace, tanto neste longo relato da feira de Illinois, quanto do cruzeiro que faz pelo Caribe, quanto na descrição do sofrimento de uma lagosta no processo de ser cozinhada viva, quanto do seu famoso discurso sobre a paciência diante a inutilidade salvadora de todas as coisas e todos os gestos em Isto É Água. O horror sem sombras e sem sentenças conradianas, que a própria arquitetura em que tais ensaios foram feitos, a maioria para revistas de gastronomia e de turismo (não literárias), favorece uma liberdade coloquial em que a efemeridade é uma primeira máscara enganosa. Recomendei a um amigo que lesse o ensaio Pense na Lagosta, ao que ele me disse, após a leitura, que o texto começa desinteressante, sem que se dê nada por ele, descrevendo os eventos da feira da lagosta do estado americano do Maine, mas que logo entra em uma comovente e quase insuportável acusação da crueldade que jaz por detrás das tradições culinárias as quais entregam ao consumidor uma carcaça embalada em inofensivas embalagens coloridas que não deixam intuir a enorme dor e indizível sofrimento pelos quais passou o animal antes de se tornar alimento. A lucidez mais impactante desse grande escritor que é Wallace, a sua escrita soco no estômago que não se curva a formulações fáceis, pode ser resumida nesse diagnóstico da alienação reinante e opulenta do homem consumidor a que se reduziu antigas ilusões iluministas, em sua frase: "Elas (essas pessoas) não estão prejudicando ninguém".
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
As Portas que Sempre Caem com um Chute
Solicitei à Cia das Letras que me mandasse a coletânea de ensaios do David Foster Wallace, e a biografia do Marighella (não consigo deixar de me sentir chic ao dizer isso). Fui informado de que o Mariguella ainda está para ser publicado; mas hoje o carteiro me entregou o Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, do Wallace. Já no prefácio, de autoria do Daniel Galera, obtenho essa joia de citação de Wallace: "A ficção pode oferecer uma visão de mundo tão sombria quanto desejar, mas para ser realmente muito boa ela precisa encontrar uma maneira de, ao mesmo tempo, retratar o mundo e iluminar as possibilidades de permanecer vivo e humano dentro dele". Segurei o livro para ler no feriadão que se iniciará na sexta-feira, em que minha irmã virá para passar aqui em casa, e que, já amanhã, perfilarei junto aos demais humanos no supermercado o clima de fim de mundo que vem com todos os feriados. Centenas de pessoas com suas cestas e carrinhos lotados com aquele olhar apreensivo de que se deve abastecer o bunker diante toda gama de probabilidades aterradoras que pode-se surgir diante a realidade inóspita de que o supermercado deixará de funcionar por um dia. Vai que a desatenção provoque o choque cósmico da falta de uma caixa de leite para o café da manhã? Mas lá estarei eu, junto a todo mundo, com minha cara de desabrigado iminente pedindo clemência ao chocolate em pó da Nestlé para que ele me proteja do furacão com o consolo do bolo de chocolate com raspas de laranja que certo dia descobri no blog da Nikelen e que se tornou vício caseiro compartilhado compulsivamente pela minha irmã. Embora eu mesmo não vá prová-lo, devido à dieta que me impus para voltar a usar duas camisetas com a estampa da capa do Tull, Too Old to Rock´n`Roll, Too Young to Die.
Sempre que penso em Wallace me vem aquele célebre discurso em que ele observa compassivamente os consumidores de um supermercado. Esse texto consta no livro, com o título Isto É Água. Também no volume o texto sobre o festival da lagosta do Maine, esse maravilhoso ensaio que já mencionei antes no blog, e que se encontra disponível na íntegra aqui , assim como o Isto É Água aparece aqui. Há muito a aprender sobre o mal da ironia na linguagem moderna, na obra de Wallace, e isso me pareceu o mais premente a ser observado. E também o retorno da moralidade na ficção. Eu há muito me ocupo com o estudo dessa função da ficção, e às vezes me sinto na contra-mão das tendências. Escrevi sobre isso no texto O Século que Não Foi de Tolstói, em que expus a ideia de que os paradoxos sofisticados dos infernos kafkianos, beckettianos, e demais escritores do século passado que refinaram as mensagens veladas sob os enigmas, estavam por ser trocados, na ciclicidade ditada pela necessidade dos tempos, por autores mais diretos, mais incisivos e desmascarados (mesmo a máscara sublime da arte), devido as urgências de um cenário mundial à beira de um abismo que não parece abismo por suas redes de histrionismos e hedonismos, mas é abismo deletério como sempre foi a natureza unívoca dos abismos. Daí que se faz necessário um moralista do calibre genial de Tolstói, mais que um psicótico à busca da redenção pelo excesso do peso de Dostoiévski. É um posicionamento que oferece diversas frentes de ataque, e o primeiro deles é "mas deve-se levar a importância da ficção como modificador social a esse nível?". Lendo Cosmópolis, há uma cena em que o herói precisa fugir de um atirador e acaba ficando de frente a uma porta fechada; passa por sua mente avaliativa a lembrança de que todos os filmes de Hollywood, uma hora ou outra, apresentam a mesma cena: a convenção de uma sobrevivência posta em perigo devido ao clichê inescapável de uma porta fechada, resolvida por outro clichê que é o herói derrubar a porta com um simples e funcional chute. O herói de Dellilo conclui que a realidade, infelizmente para ele, é prostituída pelas ideias daninhas do cinema de entretenimento, pois as portas jamais cedem tão facilmente a um chute no mundo que existe sem os efeitos cênicos; daí, ele levanta o pé, chuta a porta e a porta cai de pronto no chão. É uma dessas ironias que Wallace talvez condenasse na ficção, pois, segundo suas palavras, "a ironia, embora prazerosa, tem uma função quase exclusivamente negativa. É crítica e destrutiva, boa para limpar o terreno. Com certeza era assim que nossos pais pós-modernos a viam. Mas é particularmente inútil quando se trata de construir alguma coisa para pôr no lugar das hipocrisias que expõe". Não levar a sério a importância modificadora da ficção é entregar os pontos para o inimigo que a usa massivamente na televisão, nos discursos políticos, nas propagandas das marcas das megacorporações, na imbecilização de tantas e sofisticadas formas de transmitir o imediatismo prostrante nos programas de televisão, nas telenovelas, nas imagens de amplidão ufanista dos partidos, nos copos de água a serem abençoados por cima das tvs e nas orações da Rosa de Saron; não corresponder desse lado de cá, com a força de reação que nos resta, é ser conivente com o crédito do presente eterno, sem passado e sem futuro, o presente imaculado que aprisiona tantos jovens que me olhavam, anuviados pelo rap, das carteiras de aula dos colégios dos quais abandonei a função de professor na época certa.
Daí vem outra questão, que não quero analisar neste texto descompromissado: o moralismo não acabaria com as sutilezas da arte? Mas não temos Conrad, Tolstói, o próprio Wallace (estremeci diante um texto do Galindo, o tradutor em trabalho de tradução da obra tijolácea de Wallace, Infinite Jest, dizendo que uma das miopias sobre esse livro é achá-lo de auto-ajuda!)? Recordo que Salman Rushdie, em um ensaio sobre um dos livros mais magníficos que li nos últimos anos, Desonra, critica a falta de eficiência de Coetzee em concluir um romance espetacular de forma tão obtusa do ponto de vista social e político. Rushdie acusa o final sem redenção e conivente com o mal do racismo cruel da África do Sul, que pressupõe ao autor a premissa aceita de que o mal pode ser desgastado com a compensação histórica cíclica: de certa maneira Rushdie está certo: mas um final que não fosse aquele engendrado por Coetzee, não destruiria a beleza cortante da obra?
Ficam esses rascunhos para futuros textos. Neste feriado, enquanto as mulheres e crianças estiverem no clube, para se refrescarem de um calor que tangencia os 40 graus _ um calor de suicídio coletivo de podas inescrupulosas de árvores para favorecer as frentes das lojas, e uma monocultura assassina e estúpida da cana de açúcar_, eu avançarei em meu escritório refrigerado por um estoico ventilador nas leituras a serem postas na ordem do dia. Tenho que acabar o Microcosmos, do Magris, uma leitura prazerosíssima_ as descrições dos escritores e artistas anônimos para o mundo mas conhecidos no fermentado ambiente cultural das aldeias do interior da Itália: um ar delicioso de Federico Fellini por todas as páginas. Avançar no estranho romance do Kobo Abe, Secret Rendezvous, que meu amigo Luiz Ribeiro me mandou. E iniciar esse Wallace.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Aqueles Estúpidos 4 Metros
Ontem li um maravilhoso artigo de David Foster Wallace, intitulado Pense na Lagosta, e publicado na edição deste mês da revista Piauí. Conheço pouquíssimo de Wallace _ o quanto, apenas, o mercado editorial nacional permite conhecer, por enquanto _, mas o suficiente para ceder ao seu inevitável carisma, à sua voz deslocada de jovem precocemente envelhecido que suporta bem e lucidamente as emanações de uma verdade senciente quase secreta, quase indeterminada, mas que lhe permite ver claro demais a grande intrusão da barbárie e da burrice que se fez no núcleo do se portar humano. Wallace tem esse talento dos grandes xamãs da escrita em revelar o alienismo institucionalizado e aceito sem previsões e auto-críticas nas trivialidades de uma espécie que vem descartando o poder das altas intuições para se refestelar no óbvio babilônico. Seus textos falam de um Homem com o qual o constrangimento diante sua ausência legitimada no mundo o faz o mais inerte dos seres, com sua pura existência protocolar, sua ira, sua festividade tribal incontornável, sua desfaçatez autóctone e robótica dirigida por uma gratuidade sem drama e sem o mais relativo ou eufemístico dos méritos. Cada vez que eu estou em meu carro, parado ao longo de uma extensa fila de congestionamento, à espera, e vejo algum outro carro acelerando brutalmente e ultrapassando uma migalha de asfalto à frente, penso na frase de Wallace em um discurso que se tornou famoso por ser quase seu canto de despedida, penso naqueles estúpidos 4 metros que meu parceiro de espécie, instalado em seu veículo automotivo poluente, em seu cotidiano insípido imposto por uma pressa estúpida atrás de propósitos ainda mais estúpidos, julga ganhar como vantagem em uma tripa de 20 quilômetros de carros imóveis. Todo dia que tenho que enfrentar o trânsito de uma grande cidade, ou mesmo da pequena e agora não tão pacífica cidade interiorana onde moro, acontece de alguém furar a fila de carros e avançar seus estúpidos 4 metros à frente, me fazendo lembrar automaticamente da vacina de Wallace, de seu engolir em seco e sua súbita prostração. Sabemos que Wallace, afinal, não tolerou bem, não suportou o peso de todo seu gigantesco estoicismo; sua enorme energia verbal, a grande alegria que transparece em seu texto pelo pensar e pela dissuasão, repete a febrilidade extasiante de todo suicida que repudia o suicídio e diz que viverá até o fim, até a idade avançada e a cama na UTI; repete o hinário de Maiacóvski em dizer que o verdadeiro desafio é a vida e as desgraças que se colam a ela. Difícil mesmo acreditar que Wallace se privou do inferno para o qual estava tão bem preparado, tão vantajosamente municiado em relação à maioria das outras pessoas que se contenta como o cão que persegue o automóvel em movimento mas quando esse para ele não sabe o que fazer (os estúpidos 4 metros). Neste texto da Piauí, escrito, olhem só, para uma revista de gastronomia, Wallace expõe de maneira épica a carnificina da Festa da Lagosta do Maine, a crueldade da fervura da lagosta viva, que tenta escapar pelas bordas da panela e que o cozinhante tem que se esconder na sala até que o animal esteja morto, tamanho a carga de sofrimento que a lagosta revela e que retóricas e concepções relativizantes da dor em sistemas neurológicos primitivos não consegue acobertar. Deste texto retiro o excerto abaixo, bem condizente à expectativa das matanças que as estatísticas dos feriadões inevitavelmente reportará na segunda-feira.
"Minha experiência pessoal não é a de que viajar pelo país seja relaxante ou amplie os horizontes, ou de que mudanças radicais de lugar e contexto tenham um efeito salutar, mas sim de que o turismo intranacional é radicalmente constritivo e humilhante da pior forma _ hostil à minha fantasia de ser um indivíduo genuíno, de viver de algum modo fora e acima de todo o resto. Ser um turista massificado, para mim, é se tornar um puro americano contemporâneo: alheio, ignorante, ávido por algo que nunca poderá ter, frustrado de um modo que nunca poderá admitir. É macular, através de pura ontologia, a própria imaculabilidade que se foi experimentar. É se impor sobre lugares que, em todas as formas não econômicas, seriam melhores sem a sua presença. É confrontar, em filas e engarrafamentos, transação após transação, uma dimensão de si mesmo tão inescapável quanto dolorosa: na condição de turista você se torna economicamente significativo mas existencialmente detestável."
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
A Lucidez Excessiva
Nada me assustou mais no campo literário dos últimos anos que o suicídio de David Foster Wallace. Sobreveio-me o mix de emoções e concepções incertas que faz parte dos sentimentos despertados pelo suicídio e que são cansativos clichês: o susto, o vazio, a busca pelos sinais pregressos que justificassem o ato, e... a certeza de que se é impossível entender. Todo suicida está além das forças da eufemização. Daí que mesmo os mais torpes e infames suicídios_ e a história está cheia deles_ deixa o suicida no equilíbrio inalcançável daquele sobre o qual não se pode cair a condenação; está além do bem e do mal. Li há pouco num romance de Sebald, a história de como Assia Wevill_ a belíssima judia morena, que foi a segunda mulher de Ted Hughes_ repetiu milimétricamente os passos da morte de Silvia Plath, acendendo o gás, fechando as portas e as janelas da casa, deitando-se na cama, até que deixasse a marca severa no espírito de Hughes de que a sina de uma esposa suicida era um dos círculos que o cosmos iria repetir infinitamente para aprisioná-lo em seu inferno particular. A extrema maldade de Assia Wevill, seu toque de originalidade calculado para diferenciá-la de Silvia, foi que fez com que permanecesse junto a ela a filhinha de 4 anos que teve com o poeta. Conceber esses gestos de egolatrismo assassino é algo insuficientemente possível quando as causas pendem para a paixão extrema. Mas um caso como o de Foster Wallace oferece o paradoxo da falta de simetria entre o martírio auto-imposto e a sua profunda personalidade artística, mostrada em livros que não oferecem um indicativo de sua derradeira ação, e o de sua estampa consumível de garotão ultra-culto de cabelos compridos que era uma das promessas das letras estadunidenses.
Li apenas um volume de contos e insights humorados publicado pela Cia das Letras, de Wallace. Fiquei entusiasmado diante a visão de um filósofo com amplos domínios da escrita ficcional, sentado no centro de sua lucidez controladamente demencial, e que prometia que estava para sair da auto-indulgência para mostrar sua efetiva força criadora. Todos os prognósticos apontavam para um novo Pynchon. As lentes ultra-realistas, que beiravam o lisérgico, jamais poderiam diagnosticar uma desistência futura_ afinal, Cortázar mostrou-se assim, e mais uma cambada de outros escritores. Porém, o que mais me impressionou foi um ensaio, que me chegou às mãos após a morte de Wallace, em que ele fala de uma maneira positiva, solar, radiante mesmo, sobre as efluências da alma. Tal ensaio falava sobre a televisão, internet, a fragilidade de se observar o ser-humano em supermercados (e detectar que, por debaixo da flâmula de ódio impessoal que havia por detrás dos rostos, podia-se amá-lo). Era uma palestra para estudantes de não sei qual curso, e Wallace estava alí em toda sua portentosa juventude, exsudando carisma. Parecia Bernard Shaw falando aos segundoanistas irlandeses, mas havia também algo de Churchill convocando para a batalha, e algo de uma versão metropolitana de Whitman. Como me acontece com as grandes páginas que leio pela internet, perdi-a em definitivo, esqueci de sua fonte e de suas circunstâncias principais_ apeguei-me apenas ao que interessa nessa forma filtrante de mídia: a sua energia, a sua música arcangélica, o seu eco. Afinal, o texto, em seu âmbito mais profundo, que só poderia ser entendido depois que o suicídio de Wallace lhe limpava de todas as demais interpretações equivocadas, maldizia a distração perpétua da televisão e da internet.
Se tivesse lido tal ensaio enquanto Wallace estivesse vivo, tal iluminismo de contramão não teria me indicado nem distantemente a morte do autor; mas sua leitura póstuma só confirmava a certeza inexorável de que ele não aguentava mais. No momento em que depositava o último ponto final no texto, Wallace já sabia o que tinha que fazer. Na certa ele tinha tudo muito terapeuticamente controlado, a depressão, a fé de que, afinal, o caminho geral para a destruição por qual anda a espécie não é uma certeza; acima de seu subconsciente que havia decretado em segredo a sentença incontornável, boiava todos os singelos brinquedinhos da resistência que simulavam ter vencido.
Wallace não foi um artista qualquer. Seu romance de mil páginas está programado para ser lançado no Brasil ano que vem. Não há histórico de drogas, como o que levou ao suicídio um outro ícone norte-americano como Kurt Cobain. Não há a possibilidade de um erro de dosagens de antidepressivos, como o que levou à morte o magnífico Nick Drake. Sofria de depressão desde muito cedo, e, ao que tudo indica, tal depressão foi levado a graus exacerbados pelo seu primor cerebral. Lacan dizia que devemos evitar o excesso de informações. Penso aqui com meus botões que foi o excesso de informações que levou alguém brilhante como Wallace ao suicídio. Se eu sofresse de depressão, jamais procuraria auxílio nos livros. Também não procuraria refúgio no dinheiro_ um irmão de uma antiga namorada se matou quando sumiu de suas contas o último centavo. Viveria sob o conforto de um amor envelhecido, que dispusesse a ver meus desabafos sobre dores articulares como homilias religiosas, e me cobrisse gentilmente os pés quando fosse se deitar na cama ao meu lado. Nada mais instrutivo contra o suicídio que os filmes dos irmãos Coen. Excesso de lucidez não significa profecia. Maiacovski se matou por excesso de lucidez; Benjamin idem; e, ironia das ironias, a História iminente provou que ambos estavam constrangedoramente errados. Se tivessem persistidos um dia (Benjamin), ou anos (Maiacóvski), veriam que a aleatoriedade dos acontecimentos serve muito mais para manter a homeostase da existência do que para destruí-la, e que o horror é uma enganosa e ingênua miopia quanto às demais prerrogativas. Do alto da erudição e conhecimento, o melhor para a sobrevivência é deixar de lado as Grandes Verdades e dar ouvidos à vox populi mais banal: nada melhor que um dia após o outro.
Penso que Wallace sucumbiu às distorções alucinadas da exuberante vida americana, como precaviu Bellow, e não foi forte o suficiente para perceber que tudo não passava de alucinações. Posso estar sendo injusto, mas essa é a forma de otimismo mais acentuado a que eu posso chegar. Isso pode estar sendo provocado pela leitura de Tolstoi, pela indignação que vejo crescendo pelo mundo... Talvez haja um derivado da hipótese de Gaia para a antropologia e estejamos destinados à salvação através daquilo em que menos apostávamos que ela veria: o acaso indiferente.
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