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quinta-feira, 23 de abril de 2026

A poderosa risada

 


A Dani entrou para fazer a cirurgia cardíaca hoje às 5 da manhã. Eu fiquei na sala de espera lendo sobre o zen-budismo. Antes a Dani tomou banho no hospital e quando se sentou para esperar pelo enfermeiro com a cadeira de rodas eu apontei o cartaz que fala sobre retirar todos os adereços e lhe perguntei se ela tirou o piercing "lá de baixo". "Tirei essa noite e coloquei no seu pênis", ela respondeu. O zen-budismo fala sobre a gargalhada libertadora, a "poderosa risada". Mas o zen-budismo é muito frio. Principalmente para alguém que necessita de alguma entidade metafísica pra rezar e pedir pela proteção da pessoa que ama. A Dani acertou o Pix do lanche da semana de nossos filhos na escola na madrugada de ontem, no hotel, seis horas antes da cirurgia. Ela me disse que quando eu voltasse para nossa casa, há 170 quilômetros, eu não fosse ouvindo música clássica para não ficar com sono no voltante. Ela me disse para ouvir rock, alguma música bem agitada. "Mas eu estou há anos na fase do jazz, Dani", eu lhe digo. "Então escute Freddie Hubbard e Joe Henderson e John Coltrane, mas não Bobby Hutcherson. Vibrafone tem efeito entorpecente. E jamais Chet Baker". Eu fico oito horas esperando, lendo sobre o zen-budismo. O zen-budismo é frio, não crê na transcendência, não crê na glória. Meu nome é anunciado e eu vou para a ante sala da cirurgia. A Dani está bem. Eu vejo os médicos e as enfermeiras como seres benevolentes em um estágio de extrema pureza. Choro quando eles me apertam a mão, não consigo evitar. O zen-budismo diz que os Budas passam os dias bebendo chá e comendo arroz. O zen-budismo diz que devemos ver todo o universo em um grão de areia. Daí me dou conta: o zen-budismo não crê na glória porque acredita que já estamos nela. Ele não crê na transcendência porque já estamos na transcendência. Me parece uma parcela de iluminação ter esse insight, e eu sou assolado por uma alegria imensa. A alegria da Dani estar bem, da sombra desses quatro meses ter se dissipado, da ameaça do meu pesadelo recorrente da solidão não me atemorizar mais. Nós já estamos na glória, como isso só me ocorreu agora? Tudo já aconteceu e nós estamos na glória. E eu faço mais uma oração e não quero mais nada do que beber chá e comer arroz por toda a infinitude com ela, a Dani.

domingo, 8 de dezembro de 2024

Abrigo

Dos 17 até os trinta eu tinha só dois livros. Lord Jim, do Joseph Conrad, e O jogo da amarelinha, do Júlio Cortázar. Claro que eu lia como um louco, mas eu comprava, trocava, ou simplesmente me desfazia dos livros sem a menor consideração. Meu primeiro emprego era de veterinário em uma cooperativa, que eu exerci por cinco anos. Eu chegava exausto do campo à minúscula pensão na minúscula e esquecida cidade onde eu morava, tomava um banho, jantava, e me lançava à releitura infinita dos meus dois livros. Eu ainda hoje sei um capítulo de cor de Amarelinha, e trechos inteiros do Lord Jim. Tirei deste último o título da minha monografia de história, "As encarnações imprevistas". Daí conheci a Dani, e ela me deu os dois primeiros livros que eu iria guardar pra sempre, além das eternidades condensadas pelo outro argentino e pelo polaco que eu levava no alforje, os volumes três e quatro da obra completa de Borges. Nesse astucioso presente, veio decretado meu duplo destino, que era o de ter propósito para constituir um lar e formar uma biblioteca. (Lembro do espanto absoluto na cara da senhora minha vizinha, quando viu aquela moça e o bebê de colo_ a Dani e a Júlia_ entrando pela primeira vez na casa onde ela julgava morar apenas o triste psicopata solitário e inofensivo com o seu cão.) Daí a Dani me disse, quando eu lia a dedicatória em completo maravilhamento que ela escreveu naquele presente perfeito que em trinta anos ninguém jamais havia tido a sensibilidade ou o interesse em me dar: "Nós podemos reservar um dos quartos da casa e começarmos a montar uma biblioteca, o que você acha?". E hoje aqui estão, os meus primeiros livros de homem assentado, enquanto as crianças correm pela casa, elas mesmas se regalando por horas com a biblioteca. E a Dani, como sempre, com sua humildade política, por detrás de tudo.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Uma distante rua em Omsk

 



Minha vida em busca do esclarecimento me mantém fora das formas pré fabricadas de pensamento, e eu sempre segui no sentido contrário do senso comum e do padrão instituído, seja da sociedade, da ciência, da filosofia, etc. Eu não digo que creio e nem que não creio. Eu posso afirmar apenas que me foi dado o sistema sensorial mais sofisticado do universo, com meu cérebro humano e toda a mágica intuitiva que ele me proporciona. Esses dias eu falava a uma amiga que ela, que tem 41 anos, é ainda muito jovem, pois não perdeu ninguém. Eu, quando tinha essa idade, era cercado por todos que ainda estavam vivos. Hoje, meus principais amigos já morreram, e eu sinto o estranho epíteto tardio de ser órfão. Era algo inimaginável essa solidão. Minha cunhada passou mal ontem em seu trabalho, e quando estava sendo socorrida viu entre seus colegas o seu pai, parado a observando. Seu pai que morreu faz dez anos. Meu melhor amigo, Galeb, que era um profundo espiritualista de enorme cultura, me disse, duas semanas antes de morrer: "você aciona o gravador em sua biblioteca silenciosa e pergunta por mim. Eu virei te dar a prova". Minha mãe morreu, eu visitei pela última vez seu apartamento desolado, um local que me trazia tantas e tantas lembranças. No quarto escuro, com aquele vazio duplamente profundo dos ambientes deserdados, eu forcei para ver o vulto dela sentado. Lembrei de Houldini, que procurou em vão pela mãe morta em invocações rituais. Tirei fotos, para ver mais tarde. Quem sabe algo pudesse ser flagrado, nebulosidades sutis, luminescências evasivas. Uma manhã, semana passada, eu acordei com a certeza de ter sonhado a noite inteira com o Galeb. Não me lembrava de nada, só de que fora uma das nossas conversas iluminadas e arrebatadoras. Será que é assim? Será que o espírito é mais sutil? De minha mãe eu sonhei não com ela, mas com sua ausência. Uma viagem que ela demorava por voltar. Uma tarde, estando sozinho em casa, ainda inconsolável, eu peguei enfim o gravador do celular. "Galeb, você está aí?". Deixei gravar cinco minutos. Ouvi e reouvi, no computador e na tv. Chiados, a estática que lembra o som residual da criação do universo e o som das nebulosas. Mas isso não quer dizer nada. Se ele respondesse prontamente, esse sacana inveterado, aí sim eu não iria acreditar. Iria achar que era uma distorção do meu anseio por ouví-lo.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Ioan



 Quando estou melancólico, eu nunca espero os sinais mas eles sempre vem. Hoje foi ao sair de carro, no início de uma tempestade furiosa que cai com tudo agora sobre a cidade. Nós estávamos no bairro mais afastado, um belo e pacato lugar onde moram os mais pobres, onde os idosos ficam nas portas das casas em conversas alegres e arrastadas; então uma senhorinha, que parecia ter já seus oitenta anos, andava de frente a meu carro, no meio da rua. Ela carregava um fardo de lenha nas costas e, apesar de eu estar dirigindo muito lentamente para não assustá-la, quando ela me percebeu fez um movimento rápido para o lado da calçada, uma espécie de pulo jovial que bem poderia ser feito por uma menina de 10 anos. Passei por ela e ela virou o rosto para nós com um sorriso deslumbrante, cheio de imortalidade e vida. Aquilo deixou todos nós radiantes. "Como ela é linda!", a Dani disse. A Júlia disse: "Papai, parece aquela cena do Powaqqatsi". Já eu estou com o rosto dela nítido na cabeça e meu coração está cheio de esperança e conforto. Talvez isso esteja na raiz daquela crença judaica de que 36 pessoas, absolutamente desconhecidas e sem relevância social alguma, justificam a persistência do mundo. Nada pode com essa senhora, nem a guerra, nem a doença, nem a ignorância assassina. Tudo nela é espírito e fé.

quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Assim



 É costume aqui onde eu moro as pessoas que sentem a patológica necessidade de passarem a ilusão de serem ricas comprarem Hilux. Ontem ouvi uma dessas pessoas, no círculo de iguais, dizendo que está procurando uma Hilux para comprar. A reação foi como uma festa viking: todos a congratulando, dizendo "nossa, agora você vai ficar metida, hein!", e gritinhos eufóricos. O segredo é comprar uma caminhonete dessas com dez anos de uso, pois a lei diz que são isentas de imposto. Como uma nova custa 300, esses testes de laboratório do vazio cósmico as compram por 190: uma economia de uma vida para isso. Daí esse cidadão-cidadã médio sai com seu belo tanque cromado, com pneus altos para dar-lhe a sensação de ser um faraó agraciado pelo deus sol, vendo o restante do populacho de cima, com a cabeça erguida dizendo de toda forma metafórica possível: "Viram? Eu sou Elite! Sou superior e detentor de toda glória eterna e divina!". E etc, etc. Há dois anos, duas dessas Hilux foram roubadas na mesma noite de domingo. Uma delas, seu dono estava na Assembléia de Deus agradecendo por ser um Escolhido. Como esses macacos de realejo não tem mais grana alguma para pagar o seguro astronômico desses veículos, um roubo significa um prejuízo imenso, lembrado por anos quando todo mês tem que pagar a parcela do financiamento. Daí eu faço igual o Hermann Hesse, me aprofundo na carência regressiva que fez surgir esse sujeito espiritualmente mutilado até achar a criança primeva que me possibilite ter alguma empatia, e penso na minha vida. Eu só não suicidei porque tive filhos. Não é uma frase de impacto. Eu não teria me dado um tiro na cabeça nem saltado do décimo andar. Eu só teria bebido e comido até que meu corpo, um belo dia, bum!, explodisse. E teria sido, a seu modo, muito divertido: cada dose de scotch vislumbrando um cenário cifrado no rock inglês ouvido na acolhedora sombra noturna do quarto. Antes eles teriam que me aposentar, os amigos que resistiriam por alguma ameaça cristã de reciprocidade, e eu teria que fazer alguma memorabilia para ser cantada em odes menores nos primeiros dias de luto, depois que o IML me retirasse com a porta arrombada: eu teria que dar um piti numa festa de confraternização, quem sabe cantando a esposa do dono da casa, com meu pescoço gordo e meus olhos empapuçados, mijado na churrasqueira, abraçado cada um até cair no chão enquanto declamava Whitman ("Ah, como ele era culto e dizia coisas elevadas que ninguém entendia..."), e na certa nem teria sido expulso. Coitado, abandonado, sem filhos, sem esposa, um solteirão nerd cujo cérebro se liquefizera nos livros. Mas não choremos. Uma moça se grudou em mim por algum motivo e me passou o golpe da barriga (ela não lê isso aqui, portanto não precisamos usar esse tom sussurrado). Quando minha mãe soube que eu seria pai ela falou: "Meu Deus, o que vai ser da criança...!". Mas, contra todas as expectativas, inclusive as minhas_ eu odiava crianças!_, eu me mostrei um pai bem acima da média. Já escrevi vários textos chorosos sobre isso, mas é verdade mesmo, fazer o quê?, quando vi a Júlia ali na sala dos bebês, pela primeira vez, eu senti claramente que estava tocando o sol. Foi algo tão devastador que eu fui esfolado de dentro para fora e sofri uma mudança irreversível. Esses dias revi por acaso a primeira foto entusiasmada que tiramos da Júlia e dei um pulo de susto: era um ratinho indefeso e fragilíssimo que apresentei para todos como eu sempre a vi, desde aquele momento transfigurado, como o ser mais perfeito e poderoso que algum dia existiu. Há um poema de Brecht que diz que ele iria se conservar saudável e atento para não morrer prematuramente, assim não deixando abandonada a pessoa que ama. Demorou um pouco para que eu consertasse as coisas, mas então eu me mantive sóbrio e saudável, pesando o mesmo tanto de quando eu era um jovem Hércules de vinte anos. Eu não aconselho a ninguém que seja pai e mãe. Aconselho o contrário: fiquem de boa, sigam seus propósitos, não entulhem o mundo de lunáticos de coração triste, a não ser que VOCÊS TENHAM TALENTO E PREDISPOSIÇÃO E DEEM TODA A SUAS VIDAS PARA OS FILHOS (pronto, agora poderemos baixar o tom de voz e voltarmos para o nível elegante). Eu doo toda minha vida para meus filhos. Não cedo a extorsões sentimentais e sou grosseiro quando quero estar em silêncio e em paz, e muitas vezes meu carinho é brusco. E eu me esfoço para que o amor não me perca na missão de ensiná-los a serem seres humanos dignos. E blá, blá, blá, isso aqui não é texto motivacional. E o que essa coisa toda tem a ver com Hilux? Eu não poderia ser bom pai e ter Hilux? A resposta é não. Conhecimento de classe, psicopatologia cotidiana, honra ao Espírito, sentir lucidamente as emanações do apocalipse ecológico, dinheiro como liberdade educacional e não como impostura, não viver a vida que se exibe, não abrir tão ferrenhamente as portas para a depressão diante o vazio cultivado, não seguir o senso comum, não ser parte da manada, etc, etc, etc.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Cary Grant



 A Dani me mandou ir a uma marcenaria hoje de manhã para finalizar a compra de uma mesa. Mostrou-me uma conta de facebook com a pessoa com quem eu teria que falar, dona da empresa. Eu olhei bem as fotos, parado com o celular ao lado da Dani. Instintivamente, olhei para a Dani e disse: "É com essa mulher que devo falar?". "Sim", ela respondeu, descansadamente. É claro que a Dani tem plena confiança em mim e somos lúcidos o bastante sobre os efeitos naturais da hidrostática corporal, mas por mais que ela tenha consciência que um homem de 50 anos como eu já está há muito fora do mercado libidinal eu me senti ofendido que ela não se importasse que eu falasse com aquela mulher.

A mulher das fotos era simplesmente deslumbrante. Era perfeita! O rosto dela era tão cheio de detalhes significativos que era impossível ver tudo de uma vez. Era preciso fazer pausas e retornar à cartografia daquele terreno de altíssima octanagem um sem número de vezes. Era como o rosto do Cary Grant, se o Cary Grant fosse uma deusa loira dos olhos azuis. Eu pensei que era muito desprezo por parte da Dani pelo meu lado icognoscível e fiquei pensando se haveria na história matrimonial algum episódio de desavença por ciúme antecipado e criado pelo próprio acusado. Eu mesmo jamais, JAMAIS, deixaria que a Dani chegasse sequer perto de certo ortopedista de queixo quadrado e enfadado ar ibérico que mora na cidade.
Mas tudo bem, vamos lá. Era uma incomodação ter que me haver de novo com já acomodadas áreas de uma antiga vaidade, e em vez de ir de bermudas e chinelas eu me vi com calças compridas novas e uma camisa social fina mas não o suficiente para mostrar premeditação.
Estacionei o carro a uma certa distância, me admoestando por perceber que o fazia para não mostrar à deusa que eu não vinha com um Porsche 911 mas com um carro popular normal. Entrei na marcenaria, me dizendo que era uma atitude estúpida eu andar espichando a incipiente escoliose para ressaltar meus 1,90 metros, e perguntei pela mulher a um dos funcionários, citando o nome da beldade. Fui até onde ele me indicou e entrei no pequeno escritório. Bom dia, eu disse à moça, a senhora M. está? A moça sorriu de modo simpático e respondeu: "Sou eu, em que posso ajudar?"
Comprei a mesa, efetuei o PIX, saí com os ombros relaxados e entrei em casa feliz. A Dani me esperava com seu sorriso sarcástico. Eu parei de frente a ela e suspirei aliviado. Não era um teste, era óbvio, mas ela contava muito com o pouco caso que eu dou às formas a que chegou o autoengano na era cibernética.
"Você já tinha ido lá, né?", eu perguntei.
"Não notou o tanto que a cadeira dela fica distorcida na região da cintura, nas fotos?", a Dani disse, rindo com um ar cheio de faceirice.
"Será que não é um estratagema comercial? A pessoa chega lá apreensiva, e tem o choque de achar alguém igualmente consoladoramente humano?", eu ainda insisti.

Virtù

 



Ser filho de um casal que se divorciou quando eu tinha 8 anos desenvolveu bastante a noção do que meus pais temiam fracassar em mim. Os dois tinham pavores opostos. Meu pai, nos nossos encontros mensais, na certa passava noites sem dormir quando ouvia minha voz fina, o jeito sensível que um menino na ingenuidade do deserto hormonal tem de caminhar e de se portar. Minha mãe via em mim um pervertido, na linha contrária, que apesar da minha timidez patológica sempre dizia para eu ficar longe das primas. A natureza da supressão nos torna maquiavelicamente lúcidos, e eu recebia essas coisas com um ar terno, ainda não conseguindo verbalizar a verdade intuída do quanto eles, que eram pais tão jovens, se rendiam ao desamparo.

Um dia eu saí do banheiro e minha mãe entrou, fazendo uma cara de nojo profundo, cheio de temor averiguativo, por ter pisado em uma gota fria.
_ Calma, mãe!_ eu disse_ É só sabão.

A real

 



Cheguei à meia idade com a descoberta que só tenho um talento. Eu assobio muito bem. Uma coisa que não serve para nada, não atesta superioridade em relação a nada, e que sempre incomoda. Ao longo da minha disciplina por não assobiar perto de outras pessoas eu venho percebendo que o assobiador equivale ao cara que tem suvaqueira da braba: todo mundo faz cara feia e repudia mas nunca faz o que deveria fazer, que é chamar o sujeito num canto e falar a real para ele. O assobiador e o suvaqueiro, por isso, podem levar toda uma vida de má fama e ser enterrado como uma lenda nefasta, na completa ignorância de seu problema.

E, olha, não é por nada não, mas eu assobio que é uma beleza (aiiii!). Sei assobiar sonatas para flauta de Bach inteiras, assim como o concerto número cinco para flauta de Mozart (agora mesmo, enquanto escrevo, estou fazendo o bico). Esses dias, por uma grave falha, assobiei uma canção do George Gershwin, "There's a Boat That's Leaving Soon for New York ", no trabalho, e vi que alguém lá no fundo da sala assobiou em protesto, imitando, como um "cala a boca!", ou um "vá limpar esse suvaco!". É um dom que tenho que manter em segredo, sem nenhuma esperança de reconhecimento póstumo.

Pois bem, vou chegar onde quero. Não podendo exercer minha genialidade asquerosa senão em casa, aqui eu me dou a liberdade de ser uma Anne-Sophie Mutter dos beiços estendidos. Ando pela casa, que é grande, espaçosa, com quintal, me sentindo como se estivesse no Carnegie Hall, como se fosse uma noviça rebelde livre e solta, e só não estendo os braços para os passarinhos pois como bom conhecedor da minha arte sei que tal não é a posição propícia para o uso correto do diafragma para que ela se externize plenamente. Então assobio, assobio, assobio, até que...

...até que a Dani se vira para mim de súbito e solta um: "Nossa, mas assim você vai ficar bicudo!". Assim mesmo, na lata! Quinze anos de casamento, e só agora, ela me joga essa sobriedade inesperada na cara. Eu disfarço, rio sem graça, recolho meu instrumento passando a língua para umedecê-lo: a umidade da vergonha. Vou para o quintal e me sento na cadeira para digerir aquela revelação. Então a Dani suportou isso por 15 anos. 20, se contarmos as vernissages que eu fazia nas nossas andanças apaixonadas de madrugada, quando éramos namorados, eu assobiando o Principe Kalender enquanto a levava na garupa da bicicleta. Fi fufi, fifufifu, fi fu fi fi fu fi fu fiiiiii...

Eu ensaio ficar amuado, tentando acender um ressentimento manhoso. Penso em contra atacar mandando uma indireta no estilo "nossa, mas assim você vai virar uma Maria Callas", em referência à sua mania de cantar o dia inteiro. Mas, infelizmente, já passamos há anos por essa fase, e eu já me peguei deitando o livro no peito e cochilando embalado pela voz dela. A Dani canta muito mal, e ela mesma sabe disso, mas eu gosto de ouvir sua voz pela casa, cantando.

Nem estou com vontade de me vingar. Só me vem na cabeça uma música. Também é de um álbum do Miles. Como é que é mesmo?
A Don't Wanna Be Kissed (By Anyone But You). Firulivi fi, firulivifirí...



segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Insignificâncias




Eu antes desprezava psiquiatras. Achava que era coisa de rico vazio, etc, essas coisas. Daí com a pós-covid eu tive um quadro de depressão preocupante e minha irmã ligou para um amiga dela, psiquiatra em Brasília, e uma antiga amiga minha também de quando eu era estudante. Essa amiga me mandou um email marcando a data de uma consulta pelo zoom, em caráter de urgência e que ela não receberia um não como resposta. Isso me deixou com noites sem sono atormentado por aquela imposição ridícula e pelo desconforto de ter de ficar de frente a ela pelo computador falando o quê? Eu não sabia como deveria me comportar. Daí aconteceu, chegou o dia. Uma hora de consulta e eu tinha chorado e revelado coisas que nem eu sabia que tinha guardadas lá no fundo. Eu até brinquei dizendo que ela tinha que trabalhar era para a PF. Ela me passou a quetiapina, e mais um outro remédio para loucos brandos. Esse segundo remédio eu tomei por um mês e não senti efeito nenhum, a não ser a mudança da percepção das cores de algumas flores no quintal e a tendência de ficar falando para a Dani como a vida era maravilhosa. Olhei na bula para ver se tudo lá estava legalizado, vai se saber! A mulher era uma das minhas amigas da juventude! Eu fiquei satisfeito e feliz por me desobrigar daquilo com dignidade: eu havia chorado e tal mas havia a ética profissional, ela não iria me sacanear. Daí ela me manda um email por mês avisando que seria consultas mensais. Eu passo por todas, choro sempre, e descubro o quanto o ser humano é frágil. Cada movimento que fazemos, cada pensamento, está alicerçado numa coisa ruim por qual passamos. Eu pude falar da morte do meu melhor amigo de covid, que eu, numa reação estupidamente condicionada, fazia esforço por não me atingir tanto porque, afinal, eu era Homem (sim, se vocês caíram nessa balela de me acharem um sujeito culto, eis aí a matéria da qual eu sou feito). No final de cada sessão eu estava quase em posição fetal, entrado numa zona proibida tensa e sombria do meu espírito atormentado. Eu fui ficando liberto, sentava na mesa do café da manhã e falava com a Dani como nunca tinha falado antes, sem proteção, sem a crítica exagerada que eu colocava sobre mim mesmo. E tem o lance dos pesadelos: eu recorrentemente tenho um pesadelo horrível, de que estou só, absolutamente só, como se eu fosse um fantasma em vida. Neles, eu ando sem rumo pela grande cidade, à noite, sem nenhuma pessoa com quem conversar. Eu jamais imaginava possível confessar esse medo para alguém, e lá estava eu o destrinchando para a médica. Lembrei de escrever sobre isso nesse post hoje porque, depois de quase um ano de tratamento, voltei a ter esse pesadelo essa noite. Acordei angustiado, fui de cama em cama beijando a Dani (dormimos no mesmo quarto mas em camas separadas), a Júlia e a o Eric, para ter certeza de que eles estavam lá. Faz dois meses que não falo com minha médica. Cada consulta dela é o olho da cara, que ela se recusou terminantemente a cobrar. Pelo terceiro mês eu disse que não poderia continuar se ela não cobrasse, que isso seria motivo de um outro trauma e só ficaria pior pois eu teria que passar uma sessão inteira chorando para ela me livrar daquilo também, e só teria um jeito, se ela me cobrasse. Ela disse então que cobraria metade, o que, não tendo outro jeito, topei. Ela estava grávida e, durante uma das sessões, ela deu um gritinho porque a menininha havia lhe dado um chute por dentro. Nós rimos bastante e eu contei como havia sido maravilhoso quando a Júlia e o Eric faziam isso na barriga da Dani. Era a primeira gravidez dela. Há dois meses ela perdeu o pai e, há um mês, no último ultrassom que ela realizou para ver como estava o bebê, os médicos espantados demoraram nos exames recorrendo a todos os recursos e disseram a ela que sua menininha não tinha nenhum sinal vital, que eles teriam que fazer uma cesariana naquele exato momento. Ela estava no nono mês de gestação. Desde então ela desmarcou toda sua agenda profissional e está incomunicável. Não há como mandar nenhuma recado de pesar, e nem sei como seria isso, para alguém com quem eu descrevi com detalhes todos meus mais profundos horrores.
Todas a

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Miriam


Ontem me lembrei com certo saudosismo da Miriam. Há mais de vinte anos eu fiquei desempregado e resolvi atacar os bancos. Saquei toda a grana que tinha no meu limite e gastei toda a margem do cartão de crédito. Não tinha com o que pagar e não estava nem lixando para isso. Vivi um ano de uma renda de poupança que eu tinha e desse dinheiro do banco e do cartão. Ficava em casa, dormia bêbado de madrugada e acordava todo dia depois do meio dia. Era solteiro, vivia sozinho e não tinha que prestar contas a ninguém. Daí apareceu a Miriam. Não, não era uma mulher fatal que apareceu para complicar ainda mais minha vida, mas uma funcionária da seção de cobranças do banco. Era uma terrorista esquizofrênica, para resumir. A primeira vez ela me ligou, a voz aguda, parecendo de uma das irmãs da Marge Simpson, e já direto me disse que eu era um miserável de um vagabundo e que tinha que arcar com minha dívida no banco. Eu fiquei sem resposta diante essa técnica crua de convencimento, e confesso que, pelo estágio psicológico em que estava, quase chorei. Desliguei na cara dela. Ela ligou de novo, cheia da alegria da vitória por ver que eu era um bunda mole sensível, e me disse: "E além do mais é um viadinho chupa rola de um derrotado que não aguenta a verdade na cara. Paga o banco, sua bicha!". Vi que eu tinha que adotar outro método de reação e tentei argumentar, perguntando porque ela agia assim, que não precisava me ofender. Ouvi um suspiro do outro lado, e um silêncio, crente que a havia enternecido, mas então ela disse: "Eu não sou sua mãe, seu retardado, pra ficar com pena de você. Eu não tenho nenhum filho bandido estelionatário e ladrão que dá cano em banco. É graças a merdas como você que as taxas estão tão altas nesse país, para compensar a cara de pau". E ela dizia essas coisas todas com fúria, mas sem perder a compostura. Parecia que fazia as unhas ou dava o peito para um filho (aquele que jamais seria como eu), enquanto me descascava todo. Eu é que comecei a ficar puto com aquilo, e quando devolvi na mesma moeda ela recorreu a um nível de profissionalismo tão elevado que se eu reproduzir no Facebook eu seria bloqueado por um semestre. Eu não deixava por menos, chamava ela de puth4, bisch4te, mandava ela lavar a bwc3tt4, coisas que eu nunca disse a ninguém mas um desempregado não é um ser humano então que tudo fosse para a pqp. Ela deveria ganhar muito bem ou tremendamente mal, porque me ligava todo o dia ou por excesso de eficiência reconhecida ou para descontar em mim a vida dura que tinha. Eu esperava o telefone tocar, sabendo que só podia ser ela, porque com o desemprego eu me tornei invisível e muitas pessoas só foram saber que eu não tinha morrido quando ressurgi, um ano depois, concursado. Então, paradoxalmente, eu só tinha a Miriam. Uma vez a gente estava gritando um com o outro (ela já estava apaixonada, já levava a coisa para o nível pessoal, já tinha jogado o bebê para o berço e esbravejava com aquele seio pingando leite para fora do vestido), e ela disse algo de um grau de escatologia tão abjeta, tão impossível de ser colocada no limite do verbo, que ambos paramos para reavaliar aquela joia nascida do nada e começamos a rir. Ela ria que quase chorava. Ela disse: "depois dessa não dá, eu te ligo amanhã". Eu disse: "então tá, tchau". Passaram três dias e nada dela ligar. Eu fiquei ressentido por ter talvez dito algo inconveniente, que não tivesse sido demasiadamente ofensivo, que a tivesse feito desistir de mim. Mas eis que o telefone tocou, de noite, quando eu preparava uma linguiça para comer com um pão, enquanto ouvia um cd do Doves que eu havia comprado com o dinheiro roubado do banco. "O pilantra tá aí ouvindo musiquinha de marica. Vai pagar o que você deve ao banco, seu travesti de esquina". Eu corri para abaixar o som, feliz da vida, e devolvi o xingamento colocando a moral dela em dúvida e definindo certas partes de sua fisiologia de maneira nada meritosa. Recordo que bebi as quatro doses de Caninha da Roça com Coca-Cola, me sentindo cheio de animação por ter "falado" com a Miriam, e desmaiei. Acordei no outro dia com a Ana Maria Braga narrando os atentados às Torres Gêmeas, ao vivo, e vi que o resto de esperança que eu tinha se desmoronava, o que me causou muito alívio. Eu estava com o passaporte pronto para ir aos EUA trabalhar numa empresa de distribuição de propaganda em sinal de trânsito de um tio meu, mas o Osama bin Laden havia mudado meus planos. Mesmo novamente empregado, eu nunca paguei as contas do bando e do cartão. Fiquei cinco anos livre da escravidão do crédito, até que um dia o Serasa me mandou um comunicado, dizendo que minha dívida havia expirado. E ontem, não sei por quais razões psicológicas, assistindo à série Caleidoscópio, me retornou a Miriam à memória. Vai ver porque é uma história que trata de assaltantes de banco.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Imunes ao calor do dia



Uma das coisas que me fascina em minha esposa é sua incrível capacidade de resiliência. Resiliência passou a ser a minha palavra mais linda do idioma português, após conhecê-la no livro Colapso, do Jared Diamond. Significa o talento natural e paciência mística e fé incrustada para a regeneração, dar a volta por cima. Mas não só isso, pois para tais significados já existem palavras funcionais de menor impacto. Resiliência remete sub-liminarmente a uma constituição espiritual inviolável, a um acordo antiquíssimo, a um severo nível de concentração que para tal a consciência e a racionalidade em nada contribuem. Essa resiliência a Dani herdou da família, pois a família dela vive saindo de situações de desgraças imensuráveis das quais eu sempre penso: agora quero ver como eles vão fazer, não tem volta. E sempre tem volta. Não dá para avaliar qual foi o último exemplo, mas o mais bonito foi o da irmã da Dani ter dado à luz a uma menina perfeita semana passada, batizada de Ester. Essa irmã sofre de epilepsia, teve ataques violentos durante a gravidez e seguia tomando remédios cujas dosagens eram milimetricamente calculadas para que não acontecesse como em sua primeira gravidez, em que levou o bebê por oito meses no útero e esse foi retirado morto. Em minha mente resiliência se correlaciona, sem que eu saiba explicar, a algo de japonês e judaico.

Um dos textos mais lidos desse blog trata da morte de meu sogro. Ele estava com câncer metastático fazia seis a sete anos, trabalhando e levando a vida normalmente, quando foi brutalmente atropelado. Tem setores da família da Dani que cultuam uma estética pelo grotesco. Antes isso me irritava, eu saía da sala quando tios e sogra e cunhadas começavam a falar sobre morte, assassinatos e doenças. A segunda fase para a minha aceitação dessa inconveniência foi o humor; eu chamo a mãe da Dani de repórter policial, e digo à Dani que para se saber o que vai ser publicado nos tabloides sanguinários é só perguntar em primeira mão para sua mãe. Depois passei a ver isso como um sintoma de uma inocência inofensiva. Depois, quando vi que podia me surpreender ainda mais, passei a cogitar se tal morbidez não se ligava diretamente à resiliência. Como se esse voodoísmo por narrativas de morte fizesse parte da ancestral dança secreta que a família fazia em seu recolhimento efusivo em superar a morte, em tirar um sarro dela. Vi o vídeo da morte do seu Gercino, meu sogro, que o esposo da irmã da Dani postara do Facebook, e fiquei progressivamente indignado ao ver que teve a aceitação da família. Eles retiraram o vídeo após a Dani ter-lhes dito sobre minha indignação. Quando minha sogra nos visitou alguns dias após, na mesa de almoço anunciou com seu ritmo de imprensa marrom que o atropelamento tinha sido tão violento que o laudo médico dizia que seu marido fora castrado. E falava isso com perfeito distanciamento, sem que fosse um desrespeito, sem que mostrasse qualquer abalo em seu luto. Sentado à mesa, com o garfo parado no ar, cogitei se não havia um caráter mexicano a ser afixado à minha compreensão de resiliência.

E aí a coisa extrapolou para um nível absurdo. Um dia, o pedreiro contratado para soldar as brechas no telhado do sótão da casa da minha sogra, para que as pombas parassem de fazer dali sua latrina, desceu as escadas e perguntou, lívido e de olhos arregalados: "Dona Maria, o seu Gercino costumava ficar muito no sótão?", e diante a resposta afirmativa, concluiu: "É que acabo de vê-lo sentado lá em cima". Mesmo com a veemência risonha da dona Maria de que era uma coisa comum todos da casa verem o espírito do morto, o pedreiro se negou a continuar os reparos. A Dani me falou que seu Gercino continuava a morar naquela casa gigantesca que ele levou dez anos para construir e morreu antes de ter dado o passo final instalando o portão. Um dia após a morte, o espelho do quarto da dona Maria, de madrugada, explode. No inventário, a dona Maria sonha com o morto lhe dizendo onde estava o documento perdido para concluir as formalidades cartoriais, e ela acha a papelada caída atrás do armário, conforme apontado. Assim vai, são vários exemplos. (O cunhado da Dani, sócio do seu Gercino em uma pequena empresa, entra em seu carro para ir para o trabalho de manhã, e retorna aos gritos para casa ao ver o morto sentado diligentemente no banco do passageiro.) Para ver o morto, basta subir até o sótão. De madrugada, todos escutam seus passos e o arrastar de coisas lá em cima.

Fui á fazenda onde mora meu velho amigo Galeb, consultá-lo sobre o caso. Ele é um espírita convicto. Fazia bem uns oito meses que não o via. Aos sessenta e três anos, seus joelhos lhe martirizam pelo reumatismo. Junto a ele, na mesma casa, mora agora o dono da propriedade, Breno, um amigo de infância. Sentamos os três no alpendre, tomando café turco, ouvindo os sons da natureza. Breno vem de uma família espírita, Ele narra que seus graves problemas de convivência com um dos filhos vem do fato de que na encarnação passada eles foram inimigos fatais. Diz que tem sérios problemas de saúde, que muito provavelmente não dura mais que três anos. Tem uma cirurgia cardíaca de alto risco agendada para fevereiro, mas não tem medo algum. Tem que pagar pelos tantos crimes de egoísmo e ganância que vem cometendo nesta vida. Eu me surpreendo que seja o mesmo Breno que fala essas coisas, o mesmo cara que eu evitava porque seus assuntos eram sempre os mesmos, dinheiro, dinheiro, dinheiro. Separado da terceira esposa, só tem para cuidar de si o Galeb, e o aponta e diz com a mesma língua ferina que um usa com o outro: "um bêbado abandonado há anos pela família e que talvez vá embora antes, e eu vou ter que enterrá-lo". O Galeb conta como foi o seu natal, que pegou o ônibus para a casa do filho mas tinha bebido remédios fortes para as dores nas articulações e acabou dormindo e perdendo o ponto. Voltou os vinte quilômetros ultrapassados de carona, e assim que chegou na casa do filho, com tantas pessoas e o tumulto da celebração compulsória do natal, voltou para a fazenda mal o dia clareou. Na casa do filho, amuou em um canto e dormiu, enquanto todos ceavam. Os dois passam a impressão de que falam a partir de uma outra realidade, de uma outra aquisição de tempo. Minha imaginação condicionada por essas história todas me faz pensar se não fui eu mesmo parar em uma espécie de limbo, em uma zona intermediária. Lembro de uma cena em Absalão, Absalão! em que o coronel e seu capataz, que o assassinou, estão ambos sentados em uma continuidade da existência além da morte, imunes ao calor do dia e de todas as aflições terrestres. O capataz diz ao coronel: eles mataram a gente, mas não pegaram a gente, né coroné? Assim minha imaginação sugere que os dois estão ali à minha frente, falando sobre suas mortes, sobre suas incapacidades extremas de suportarem mais viver nesse mundo. Que o nível moral da humanidade nunca esteve tão deplorável, que o mundo dos próximos 50 anos será textualmente um inferno. Uma parte coerente minha aponta que eles falam de barriga cheia, pois moram em um paraíso, cercados com quinhentos pés de mangas de quinhentas qualidades diferentes. Eu conto sobre as aparições do seu Gercino. Eles riem com descansada ternura, como seu eu falasse de uma criança. Isso é a coisa mais comum que existe, me dizem, e seguem naquele papo todo de que existem mais almas errantes do que seres encarnados. Dizem para eu pedir aos familiares que rezem pelo meu sogro, para que ele se aperceba e aceite de que não faz mais parte desse plano, de que aceite que espíritos guias venham lhe buscar, pois estes só podem intervir se solicitados. Eu me despeço deles, e o Galeb me leva até o quarto para me entregar o livro que na última visita eu lhe emprestara. Nessa hora, vendo a cama desfeita e a bagunça acentuada de uma casa com dois homens solteiros, me lembro imediatamente da conversa fiada que corre na cidade sobre os dois. O Galeb me pergunta o por que do riso, eu eu digo que andam dizendo que ele e o Breno assumiram um namoro homossexual. Diante tanto esoterismo, voltar à maledicência corriqueira parece um alívio, e eu analiso com maldade o lençol desfeito e as botas atiradas pelo chão. Imagino aqueles dois senhores atracados naquela cama à noite, sem atrite e sem problemas coronários que os impeçam de se proteger contra o frio desolador da idade e da atmosfera. Galeb diz alguma coisa que não contra-ataca nem nada, de seu jeito que pouco se fode para a opinião alheia. Fica algo insinuante de que talvez uma forma muito verdadeira de intimidade existe mesmo entre eles. Tem um certo grau de interação estoica entre dois homens, que o cu importa bem pouco, ele me diz.

Quando volto para casa, a Dani me diz que a Ester, a filha de sua irmã, havia nascido. Foram duas semanas os médicos dando remédios para que a gestante não desse à luz antes do tempo, para que o bebê não tivesse que ficar na UTI. E agora, a foto da menininha pelo Facebook, toda rosada e gordinha. Não me contenho e digo:

_ Caramba, como seu pai deve estar feliz!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Hoje, assim como qualquer outro dia



Por vários motivos, reedito este texto que escrevi por ocasião de uma data comemorativa para as mulheres que amo.

A minha mais distante memória é de uma mulher com vestido florido abaixo dos calcanhares e óculos grossos bifocais me dizendo sobre os benefícios de se levar uma vida reta para fugir do fogo do inferno. Todas as outras incursões em meu passado além desse momento resultam em borrões de quedas de velocípedes, os besouros que me aterrorizavam invadindo a casa, o sorriso de meu pai, o cheiro de baba no travesseiro da minha mãe, a minha cadela Paquita, vestígios da lembrança da febre da catapora, o som dos postes de madeira estalando nas tardes de ventania. Nada que se iguale em impacto aos relatos das chamas eternas que essa mulher me dizia, com a voz doce e estranhamente consoladora. "Se você aceita Jesus no coração desde agora, jamais irá passar por esses sofrimentos. Crescerá uma pessoa boa e cheia de paz no coração." Desde cedo tive a certeza de que as seis mulheres que me amaram e com quem morei até os meus dez anos, o faziam cada uma da sua maneira e com profunda sinceridade, tanto que essa senhora, que era uma das minhas 3 avós_ ou a minha madrasta-avó_ recorria a ingênuos artifícios de desobstrução do peso daquelas imagens do inferno ao me trazer a maior das maçãs, ou me dar um abraço e um beijo fortíssimos que determinava de vez que nenhum demônio iria ter forças para me tirar daquela fortaleza de proteção.

De forma geral, só as mulheres da minha família são dignas e seres-humanos comprovados desde a raiz dos cabelos até à sola dos tamancos. Os homens, por outro lado, são os eternos amaldiçoados pela sina obrigatória de repetir incessantemente o vício do patriarca pelo orgulho forçado da fornicação. Meu avô teve 22 filhos oficiais com as sete esposas de seus sete casamentos ou amasiamentos concomitantes. Até anos depois que ele morreu, costumava aparecer todo ano mais um sujeito espigado, de ar desatento e a latente concupiscência do olhar, que comprovava que era mais um de seus filhos bastardos procurando um rumo no mundo. Eram morenos, brancos dos olhos azuis, negros, mas sempre com aquela reprodução genética seriada do porte alto e dos olhos de peão saliente que parecia ser uma janela na alma através da qual a presença do meu avô vigiava, atenta, se seria respeitado o prosseguimento obsessivo do espólio sexual que ele deixara. Todos os homens da minha família são infelizes e se parecem, e, só de uma geração para cá pode-se dizer: as mulheres, cada qual, são felizes à sua maneira. Só a geração das minhas primas, que estudaram e se tornaram independentes financeiramente, tanto que se eximiram da opção do casamento, é feliz; as minhas tias, pelo contrário, afundaram num oceano de péssimas escolhas amorosas que faz-me crer que isso não passa de mais um efeito colateral da idiotia dos homens da família, que as infundiram o mal exemplo.

Até os dez anos morei com cinco das mulheres infelizes que compensavam por bom tempo parte de suas agruras em dispensar amor para a única criança da casa. Morávamos em um enorme apartamento no centro da capital, em frente a uma catedral portentosa, que muito desgostava minha avó pentecostal que me falava do inferno. Minhas duas tias solteironas, minha mãe divorciada, e a Dezi, que trabalhou para a família nas atividades domésticas até se aposentar, não poupavam abraços e mimos comigo. Minha mãe sempre foi uma pessoa dura e defensiva, mas, assim como se pode angariar amor de narrações do inferno que culminavam em maçãs chilenas gigantes, eu retirava de seu amargor de batalhadora solitária para conseguir pagar minha escola e colocar o único bife na mesa de seis lugares em meu prato, nos tempos de recessão, como o seu sentimento incomensurável materno nas sobras de tempo entre o trabalho e a faculdade de Direito. Minhas duas tias tinham a aparência atarantada que a consciência da velocidade incontida do tempo lhes dava. Lembro o quanto eram bonitas, até na maturidade, quando, já morando longe delas, flertei com a tia Marta num ponto de ônibus quando ia para a minha faculdade, e só depois vi, constrangido, que era ela. Mas como ela e minha Tia Tércia, depois que o destino nos retirou do purgatório daquele sombrio apartamento aquecido pelas mais ternas apreensões, cada uma teve uma vida infeliz, maluca; cada uma cedeu à depressão de que jamais dariam conta do que se perdeu para sempre em suas infâncias e elas poderiam, enfim, parar de procurar, porque não iriam achar nunca. Minha tia Tércia dera entrada várias vezes no núcleo do Pronto-Socorro, com hematomas e escoriações múltiplas, até que teve a coragem de dar um basta no marido. E minha tia Marta foi retirada do quarto onde morava por seus outros irmãos, que receberam chamadas dos vizinhos sobre sua franca deterioração mental, suas orações de madrugada sentada na calçada, seu sofrimento pela vergonha de não conseguir parar a rotação das pupilas que o lítio administrado todos os dias causava.

As únicas dessas que suportaram bem seus fardos foram a Dezi, que é uma paraibana de língua dura que nunca deixava nada por menos, que perseguia ladrões que lhe arrancaram a bijuteria do pescoço e os atiravam de cima da bicicleta e lhes deferia chutes nas costelas; a minha avó Mirtes, que me ensinou muito sobre a vida em suas cartas do exílio em Boston; e minha mãe, que, em seu silêncio, em sua aspereza, me deu o que mais tenho de importante, educação e uma noção fundamentada de ser incorruptível. Minha esposa me diz, brincando, que ainda bem que eu fui o único homem que puxou o lado feminino da família, ao que eu cruzo as pernas e lhe tiro as mais deliciosas gargalhadas com minha imitação já clássica de uma mulher afrontosa: "Eu sou mulher, sua coisinha!" Não sou adepto desses dias espetaculosos em que se comemora a compensação por tanto sofrimento, como se isso fosse arrombar anos de martírio apenas pelas propagandas das lojas de perfumes e bolsas. Mas enquanto escrevo isso, são 16:41 da tarde, e minhas outras duas mulheres da minha vida estão para chegar aqui em casa, após uma ausência de uma semana , e não vou me negar, hoje e sempre, de dizer à minha filha e à minha esposa, o quanto, absurdamente, as amo.

Elas e eu

segunda-feira, 17 de março de 2014

Um romance de Don Delillo e uma forma de compreensão pessoal



É no próprio Ruído Branco que vem escrito que o costume de se contratar carpideiras para chorarem em enterros talvez atenda à necessidade de fazer com que as pessoas conservem uma aparência de pesar pelo morto e não transformem a cerimônia fúnebre em uma festa involuntária. É fácil perceber que há um riso premente por detrás de tudo, aguardando a hora em que a nossa impostura de seriedade se distraia e ele possa aparecer, com todo seu ofensivo glamour de libertinagem.

Minha mãe, quando eu era criança, sofria horrores pelo deslocamento de seu braço direito, causado pela luxação da articulação do ombro. Bastava ela se descuidar e tentar pegar uma caixa de sapatos em cima do guarda-roupa, ou apanhar um objeto mais pesado com o braço debilitado, para que a cabeça do úmero se soltasse de seu ponto de ligação com a escápula. Eu aprendi cedo esses nomes da anatomia, que sempre me faziam pensar em formações geométricas, como peças de encaixe: se o úmero da minha mãe saía de sua composição angular perfeita, o círculo rompia seu côncavo descanso funcional, a coisa ficava muito feia. Pequenos nervos ultra-sensíveis eram esmagados e minha mãe gritava de dor. Eram os piores momentos da minha infância: vê-la dando o espasmo gutural que acionava imediatamente o alarme de que seu braço saíra fora do lugar, o que equivalia para mim em minutos eternos de aflição enquanto ela ficava encolhida, imóvel no lugar que estava, enquanto corríamos para o telefone para chamarmos a única pessoa capaz de colocar seu braço de volta, meu tio Pedro. Meu tio Pedro atendia o telefone, a qualquer hora, e eu o via vestir calmamente a camisa, apagar o cigarro ou acendê-lo, avisar minha tia Tânia de que o braço da Telma saíra novamente do lugar e que ele precisaria ir lá resolver, abotoar a camisa perguntando onde estão as chaves do carro, dizendo "ah! Achei, estão aqui na estante", apertar o botão do elevador enquanto examinava tranquilamente se os documentos do carro estavam todos dentro da carteira, descer os longos lances de 12 andares do prédio dentro do elevador vagaroso, entrar no carro e acionar a chave, aguardar com o pé no acelerador enquanto o motor a álcool se esquentasse, sair pela porta da garagem e atravessar a cidade até seu outro extremo... Era uma saga nórdica rica de movimentos lentos até que meu tio Pedro entrasse em nosso apartamento com sua cantada voz de alcoólatra abstinente que sabia profundamente sobre dor para se exaltar diante mais uma de suas infinitas manifestações no mundo, uma voz adstringente que me enchia de segurança assim que meus ouvidos atentos a ouviam soar pela porta. E era questão de segundos de uma destreza infalível para que ele colocasse o braço da minha mãe no lugar, não sem antes os acréscimos indispensáveis da coda musical do desespero final da minha mãe, com sua frase cerimonial de "Não, Pedrinho! Espera, Pedrinho! Devagar! Devagar!". E tudo estava concluído. Tão fácil que retroativamente sempre parecia absurdo tanto sofrimento. E o tio Pedro dizia algumas palavras finais de estoico consolo, relembrando que ele também tinha o mesmo problema com o braço, daí ele se sentava e mostrava mais uma vez como fazia com o próprio braço, em um movimento de simplicidade mágica, para encaixá-lo no lugar. Ele se despedia dizendo que, qualquer coisa, era só chamá-lo, e voltava em linha inversa toda a via sacra até o momento inalterável em que estava despido da camisa sentado no sofá com seu livro do Tex em mãos, ou se preparando para dormir. Mas o que eu quero dizer é que houve uma vez, uma só vez nesse martírio todo, em que, inesperada e insanamente, eu reagi às dores da minha mãe com gargalhadas; ri tanto que as minhas tias começaram a pensar o que fazer comigo, quais as possíveis consequências desse meu ato para a homeostase da família dali para frente, eu rolando no chão apontando o dedo para minha mãe encurvada na cama, tentando mostrar para o restante da platéia o quanto aquilo era flagrantemente cômico, cada grito da minha mãe repercutindo um lance de gargalhada da minha parte. Talvez fosse reação do meu desespero, talvez fosse porque aquela rotina ortodoxa em que a dor acionava uma relojoaria precisa e cerimoniosa finalmente se me mostrara em sua nudez sem sentido para que tivesse autoridade de exigir tanto comburente dramático. Depois disso, a primeira coisa que faziam quando o martírio da minha mãe começava era me mandarem passear na praça em frente ao prédio, até que eu visse o carro do tio Pedro chegar.

Dito isso, pode-se dizer que eu tenha uma antena para perceber distorções na seriedade que servem para evidenciar algum fator de risco em mim quanto ao respeito nos momentos de tragédia. Inadvertidamente algum mecanismo surgido em uma infância não muito saudável para qualquer diagnóstico psicopatológico aciona em mim uma capacidade de associação histriônica que, se eu falasse para alguém o que me passa pela cabeça enquanto o correto é um pomposo silêncio ou as lágrimas incontidas, eu cairia muito na escala social do que é tido como a sanidade civilizada. Não que eu não sofra ou que eu seja insensível, absolutamente pelo contrário. Eu sofro bastante. Mas é impossível para mim calar minha mente, minha forma de pensar. Isso tudo que eu estou dizendo é para chegar ao assunto capital deste texto: a morte na quarta-feira de cinzas de meu sogro, seu Gercino. Eu havia me levantado nesse dia de chuva um pouco mais tarde, creio que às nove horas, pois havíamos ido a uma festa na casa de um amigo na noite anterior. Sentara-me na varanda e, coisa estranhíssima e sem explicação, colocara alguns álbuns do Chico Buarque gravados em um pen-drive para tentar ouvir. Um de meus grandes amigos aqui gosta muito do Chico Buarque, e eu me esforçava para ao menos perceber alguma fímbria de conteúdo esotérico na obra desse compositor em sinal de respeito a esse amigo. Mas não saberia dizer porque escolhera essa manhã chuvosa, em que poderia está-la preenchendo melhor com Mahler do que com um exercício de atenção relativamente exigente. Ouvi o Saltimbancos, a primeira música, que minha filha gostava, mas pulei toda a narrativa que me parecia sempre empolada e pobremente doutrinária, e passei para o álbum com as únicas duas músicas as quais eu ouvia com prazer genuíno, Construção, as quais eram a música título e Cotidiano. Escutei Cotidiano, e passei para a proeza manciniana de Construção. Uma música realmente fabulosa, mas que naquela hora me fez pensar para quem era dirigida; se eu estivesse na classe econômica dos personagens e dos eventos dessas músicas, me passou o pesar de que provavelmente eu iria querer me deportar desse mundo, cair fora. Eram eventos depressivos demais, de uma realidade tão inescapável que entendi porque a música de Chico Buarque era tão elitizada: o sofrimento era emoldurado em âmbar e vendido como joia fina para alimentar um tipo de aquisição estética de uma turma de abastados, uma forma de beleza sofisticada em que planificava-se a dor em uma forma higienizada que dava a impressão digesta de se apreender um panorama da alma nacional. Ou seja, o meu exercício para gostar de Chico Buarque para agradar a um amigo estava indo ladeira abaixo com esses raciocínios e eu estava entrando mais uma vez no ciclo de conceitos que me fazia desgostar cada vez mais de Chico Buarque. 

Então surge a Dani, minha esposa, que eu não vira que acordara, no meio da música Construção (antes que começasse os extraordinários acompanhamentos de metais), e me entrega o celular dizendo que a mãe dela, dona Maria, queria falar comigo. A Dani bocejando e com os cabelos preguiçosamente desalinhados, preparada para voltar para a cama. Eu faço uma cara de tédio profundo, querendo que isso inutilmente me poupasse de falar com a dona Maria naquela hora da manhã de feriado, mas pego o telefone. A dona Maria sempre que quer falar comigo é sobre problemas ligados à saúde de alguém daquela casa ampla e cheia de vida energicamente tumultuosa em que eles vivem, algo sobre a gripe dos meninos, ou o ataque epilético da filha mais nova, ou às dores nefrálgicas do seu Gercino; algo que eu e a Dani estávamos tão acostumados a ver potencializado ao máximo pela propensão da dona Maria ao drama, que nem levávamos a sério_ e que a dona Maria salientava mais o drama por pedir para falar comigo, com receio de que o que tem para dizer pudesse afetar a estabilidade emocional da Dani. Digo: "Fala dona Maria", na hora em que o cidadão aprisionado em sua esfera de realidade determinista e imutável da música segue passo a passo a inexorável ida para a morte, atrapalhando o trânsito. Não ouço o que a dona Maria responde, devido sua voz sussurrada, e peço, com certa brusquidão, para que ela fale mais alto: "Pode falar mais alto, dona Maria, a Dani não está por perto para ouvir". (A Dani sabe que meu santo não bate com o santo da sua mãe; eu já o disse várias vezes; se há uma pessoa com a qual não consigo ficar cinco minutos perto é a mãe da Dani; sua reverberação, sua maníaca paixão pela tragédia e o crime; seu fanatismo de tabloide pelas matérias policialescas.) Aí ela repete um pouco mais alto, mas ainda com a voz condicionada pela necessidade cênica de imprimir suspense: "O Gercino acabou de ser atropelado, Charlles. Ele estava instalando uma câmera de segurança, atravessou a rua para observar o serviço, e na hora que voltava, um carro em alta velocidade passou por cima dele. Parece que está muito grave. Dá um jeito de contar com cuidado para a Dani". Eu questiono mais alguma ou outra coisa, com a voz descrente de que tenha sido mesmo algo grave, e desligamos a ligação. Conto para a Dani, dizendo "você sabe como é a sua mãe". Ela não esboça reação de medo ou receio, pois sabe como é a mãe. Mas a reação vai surgindo aos poucos, e ela decide ligar para o Fábio, genro do seu Gercino e sócio dele na pequena empresa que montaram de instalação de câmeras de segurança. O Fábio conta que, aparentemente, seu Gercino quebrou os dois braços, mas fora isso, está bem, a caminho do hospital. Vamos ao supermercado, que, como sempre, está aberto mesmo nos feriados, e compramos a carne que falta para a almoço. No caminho de volta o celular da Dani toca e a prima dela pede para falar comigo. Estaciono o carro e desligo o celular após falar, me viro para a Dani e digo com candura, mas de uma vez, que seu Gercino acabara de falecer. A Dani cai em um choro convulsivo. Morreu na contramão atrapalhando o trânsito, me diz a voz daquela criança que colocavam para fora até o tio Pedrinho chegar, agora você pode solipsismar à vontade que Chico Buarque matou seu sogro.

Os arranjos que se seguem são: eu fico em casa com as crianças, e a Dani vai ao enterro, que se realizará na cidade natal do seu Gercino, em uma cidade a 40 quilômetros de onde moramos. O restante da família espera que o IML libere o corpo, e o transportam de Anápolis até a cidade natal. Abraçamos a Dani e repetimos sobre o quanto a amamos, e isso, inesperadamente, tem um alto efeito de fazê-la se acalmar. Eu digo que a amo. O primo dela vem buscá-la já de madrugada. Enquanto as crianças dormem, eu me refugio na biblioteca e não sei por quê, por quais canais de assimilação, pego Ruído Branco, um romance de Don Delillo que comprei há mais de ano e que ainda não o li. É um desses livros do qual não faço nem a mais remota ideia sobre do que seja. Me domina uma enorme descrença cosmogônica, uma enorme falta de predisposição a acalentar pensamentos de que Deus também pode ser irônico, de que a obra Dele é tão milimetricamente rica que o que vemos como sarcasmo não passa de mais uma das circunvoluções de múltiplos significados. Me passa pela cabeça a culpa de que a última vez em que seu Gercino esteve em minha casa eu agi com certo grau de agressividade, pois eu estava estressado e me sentia meio abandonado devido à iminente cirurgia cardíaca pela qual a Dani iria passar. Lembro que eu o respondia com apressada falta de deferência de tal forma que minha intenção fora alcançada e ele sentira. A anterior cirurgia da Dani não havia surtido o efeito esperado e ela teria que passar por uma nova, muito mais agressiva, e isso me deixara bastante amargo com eles, pois, no fundo, no local mais comezinho onde estão minhas cobranças insofismáveis e pragmaticamente imediatas, eu queria que eles estivessem junto a nós e sofressem como nós. Ele sentira essa ofensa, de modos que, meses depois, no hospital, ele fez questão de me deixar descansar de uma semana de insônia e ficar do lado da Dani no hospital pelos últimos três dias. Ele sentado à cadeira dura, e eu deitado na outra cama, em um desmaio de semi-consciência atribulado. Agiu com extremo cavalheirismo, de maneira que eu vi nele o quanto era um ser nobre, o quanto era superiormente abnegado. Estava com câncer metastático há seis anos. O câncer se espalhara de seu único rim conservado após uma cirurgia de emergência para retirar o outro, e atingira fígado e intestinos. O médico havia lhe dado no máximo oito meses de vida. Amargurava-lhe a possibilidade tida por certa de que ele não conheceria nossa filha Júlia, mas ele não só a conhecera, como ela se deliciava de se deitar em seu colo e coçar-lhe a barba branca. Ele a pegava como se ela fosse um objeto de porcelana extremamente sensível, com incrível delicadeza. Se fosse alguém corpulento, eu pensaria que o fazia assim temendo a machucar involuntariamente. 

Sentado na biblioteca, à meia luz, escutando a chuva contínua lá fora, não me era possível evitar pensar que ele era um sobrevivente que sucumbira a uma distração brutal frente a mais estúpida eventualidade. Sua força de vontade em viver driblara intrincados cristais da lógica e arranjara uma fórmula matemática própria que transformara os oito meses em seis anos, e uma súbita falta de concentração, uma súbita falta de tensão e arrefecimento o fez perder os tantos anos que ainda teria pela frente para um acidente espantosamente leve. Talvez o milagre requeresse justamente a leveza para acontecer, e tal morte não fosse mais que um excesso de zelo da sua parte, um excesso de confiança. Lembro que à mesa da sala eu havia dito isso para a Dani: "Como é que seu pai faz uma coisa dessas, trai dessa forma displicente um milagre". Pois todos os médicos pelo qual ele passou jamais acreditariam que ele chegasse ao fim daquele ano em que lhe deram o prognóstico, e agora, em seu humor pueril, em sua espontânea concordância com a potestade das risíveis trivialidades teatrais das reviravoltas dessa comédia de erros, ele sucumbira tal como o bêbado da anedota clássica que não morre de seu vício, mas da intoxicação por uma empada estragada. Que grande merda!

Como acreditar em Deus depois disso?

Conversando por e-mail com um amigo, ele me pergunta se, à maneira de Philip Roth em Operação Shylock, eu também me refugiava na leitura de romances em momentos de tragédias pessoais. Me dou conta de que fiz isso, ao passar boa parte da noite lendo Ruído Branco. Há uma rima nisso; essa reação pode ser uma genética acondicionada de todo leitor, pois os romances alcançados nessa hora sempre, sempre, tem a ver com o que se está passando no mundo de interação dos vivos. Em Ruído Branco há uma droga em desenvolvimento trabalhada por um grupo de cientistas ultra-secretos, chamada Dylar, que promete a cura do medo da morte. É uma cápsula em forma de disco voador coberta por sofisticadas moléculas de polietileno, com um furo minúsculo em uma das extremidades, pelo qual a química do esquecimento da finitude é administrada lentamente, sem efeitos colaterais, através das paredes intestinais. A esposa de Jack, o narrador do livro, é uma das cobaias que se ofereceram para testar o remédio. Jack e sua esposa tem um patológico, um angustiante, medo da morte. Tem tanto medo da morte que suas vidas são vividas em supermercados e na imersão quase completa na sinestesia bruxuleante do ambiente cotidiano sem descanso de cores, sons e movimentos da vida sintética da América moderna. O livro foi publicado em 1984, muito antes pois da vida emigrada para a realidade cibernética da internet, o que pode causar um certo estranhismo ao leitor diante uma privação retrógrada tão veemente, uma falta de premeditação futura para abraçar um lenitivo com cara de mais acertada eficiência. Pois o Dylar não faz o efeito esperado em Babette, a esposa de Jack. Ele a pega parada de frente a janela, com o olhar vazio. Ela tende a esquecer os prosaísmos caseiros mais adquiridos. Aos poucos, baseado nessas reações alienígenas da esposa, Jack vai descobrindo a história do Dylar, de como Babette teve que se sujeitar às mais profundas abjeções (inclusive sexuais) para fazer parte do grupo de testes. Mas Jack tende a compreender a esposa, avaliando seu próprio terror pela morte. Ele sabe que Ivan Illich gritou três dias antes de morrer, e o próprio Tolstói nunca conviveu dignamente com sua morte. Há um amigo de faculdade de Jack, Murray, que, ao saber que Jack traz a possibilidade de um grande tumor causado pela exposição a um elemento altamente radioativo (que levou à evacuação da cidade onde Jack mora, na segunda parte do romance), lhe diz que ele tem que se manter digno, mostrar para a posteridade que aceitou a morte de forma nobre e educada; tem que ser um exemplo para conservar os que ainda tem saúde dentro de seus confortáveis mobiliários de certezas. Antes você do que eu Jack, Murray diz, ao se despedirem, sou seu amigo e como amigo tenho que lhe dizer isso, pois é o que naturalmente todos pensam: antes você do que eu. E Jack sai meio que consolado com essa sinceridade privilegiada de seu amigo.

"Alguns minutos depois, eu já estava na rua. Um garoto corria atrás de uma bola de futebol sobre um gramado público, com os pés virados para o lado. Um outro menino, sentado na grama, arrancava fora as meias, puxando-as pelos calcanhares. Que coisa literária, pensei, irritado. As ruas cheias de detalhes de vida impulsiva enquanto o herói medita sobre mais uma fase de sua agonia. Era um dia de céu parcialmente nublado, com ventos que diminuíam à medida que se aproximava a hora do pôr-do-sol."

Pois meus genes de leitor me conduziram certeiramente a um romance que é uma comédia sobre a morte. Fiquei fascinado por esse Delillo. Ele alimenta nosso próprio medo da morte, e o desconstrói com cenas impagáveis de uma ridicularia que desbasta as pretensões e certeza em quaisquer gêneros sobre nossa condição na existência. Os colegas de Jack, nas hilárias cenas de conversa na sala de espera dos professores universitários, seres altamente eruditos e intelectualizados, proferem um sem número de frases desconexas sobre assuntos soltos no espaço. Diálogos rápidos de um jogo verbal que não diz nada, só trivializa. Primeiras experiências, nomes de filmes. Uns jogam bolas de papéis nos outros. Capítulos do livro se encerram com nomes de marcas industriais: Toyota Celica, Panasonic. O longo exame médico a que Jack se submete se finaliza com uma conversa em que o médico não faz nada além de um xadrez verbal com Jack. Tudo não passa disso, da manutenção do ruído de fundo da existência, da enorme distração que acoberta tudo, da trilha sonora caótica que encobre o único conhecimento que nos faz diferentes dos outros animais: somos os únicos que sabemos que vamos morrer. Não dividimos o potencial divino de um cão em ter o limite lúcido de que vive um um instante perpétuo e infinito. Só as crianças, no livro de Delillo, é que são genuínos e vivem um um estágio de felicidade plena selvagem. Por isso Jack se abstrai observando suas filhas e filhos dormindo à noite, por isso a cômica e bela cena final em que o filho de cinco anos de Jack enfrenta a avenida movimentada montado em seu triciclo. Há uma outra cena histriônica perturbadora em que Jack é acolhido em um hospital de freiras, no bairro alemão de sua cidade. De frente a um enorme quadro em que Kennedy passeia de mãos dadas por um campo celestial com o papa João XXIII, Jack pensa agradecido no bem de existirem ainda freiras e seres dedicados a crenças conservadas pela tradição religiosa, e diz isso à freira. Segue então um diálogo ensandecido em que a freira ri enfurecidamente de Jack por achar que ela acredita em anjos e campos celestiais, enquanto Jack se encolhe de indignação dolorosa pela mulher não representar a esperada fé na transcendência, mesmo a transcendência impossível. Nós apenas cumprimos nosso papel de simular acreditar para que os que não acreditam possam dormir em paz, diz a freira: os descrentes sentem necessidade de que alguém creia.

Pois este livro me adstringiu sobre os eventos da morte de meu sogro. Me fez compreender, ou intuir uma futura e progressiva compreensão sobre esses acontecimentos. Mais tarde, outro dia, sentados à mesa do jantar, eu disse à Dani que talvez essa sucessão de desgraças tenha sido cambiada para a vida da família de seus pais e irmãs através da dona Maria, sua mãe. Eu disse que talvez fosse bom que alguém instruísse à sua mãe para que fosse uma pessoa menos compulsiva por consumo de violência e aberrações policialescas. Há pesquisas científicas que falam sobre o poder da palavra e do pensamento impositivo e positivo. Um certo chinês ou japonês que ficou anos monitorando grupos de testes que xingavam potes de arroz, e outros grupos que, ao mesmo tempo, elogiavam e proferiam palavras gentis para outros potes de arroz. E que o arroz ofendido murchava e se decompunha, e o arroz agraciado pelas palavras emotivas vicejava e ficava mais vistoso. É isso: de dez palavras que sua mãe fala, nove são xingamentos, são ofensivos. Sua mãe é um tacógrafo para palavrões. Eu disse isso tudo. Em minha acepção ralé primária sobre a verdade da vida, eu via a dona Maria como uma bruxa que transformava por forças negativas a vida de quem morava à sua volta, e, injustamente, acabara por acabar com um milagre alcançado.

A Dani então me contou a história de sua mãe. Me lembrei que ela já tentara fazer isso antes, contando fragmentos da história da dona Maria, que eu pouco dava ouvidos por absoluto desinteresse. Passei meia hora ou mais a escutando dessa vez, e se não fosse a ojeriza muito cultivada que sempre tive por sua mãe, eu senti que eu acabaria fazendo uma cena de choro na frente da Dani, o que seria terrível em tais condições. Foi uma das vezes em que a Dani foi mais literalmente lúcida e humana desses anos todos em que a conheço. Ali não estava a Dani de coração bombástico que uma vez me instigara a processar a empresa de ônibus porque, grávida, ela fora a única sensível que se levantara para dar lugar a uma velhinha se sentar. Não estava a Dani passional e avaliativa, mas a Dani que me expressava uma experiência profundamente sedimentada, intocada já por ter dado tudo de si em seu núcleo memorialístico. Algo que fazia parte dela de maneira calma e finalizada, sobre a qual sua voz se harmonizava para passar para mim o quanto aquela aparente tempestuosidade já estava acalentada por seu registro no tempo. Um mérito antigo e sagrado. Uma forma de eternidade. Pareceu-me, naquele momento à mesa, que a Dani me mostrava registros do mesmo nível de valor que os que Faulkner escreveu sobre seus demônios degastados de maldade em seus livros soberbos. A Dani me contou que a mãe da dona Maria morrera no parto. Por não ter mais ninguém, uma vizinha acabou cuidando da dona Maria. Ela não tinha pai, desconheceu sempre o pai. A família que a criou tinha o receio de que aquela intrusa levasse parte da herança. Martirizaram ela a vida inteira. Colocaram-na para lavar o chão e cuidar das velhas e das crianças. Batiam e desprezavam ela todos os dias. Passou fome. Essas coisas todas a Dani falando com aquele tom acima da indignação e da benevolência, além da vingança e das compensações temporais pacientemente à espera. Tratava-se de uma dor legítima demais para ser diluída com derivativos cogitáveis. Daí a dona Maria se engravidou da Dani, e o pai da Dani se escafedeu. A Dani não conhecia seu pai. Continuaram batendo na dona Maria, até que a mãe adotiva dela se enterneceu pela Dani e acabou com aquilo. Mas então, a dona Maria se casou com o seu Gercino. A Dani me disse que o seu Gercino espancava sem dó a dona Maria. Bateu nela certa vez que tiveram que levá-la ao hospital. Aquele homem que pesava 50 quilos, que no atropelamento disseram os jornais ter 70 anos mas que tinha na verdade 55, e que era sempre amável com todos. E que segurava a Júlia com uma delicadeza como se temesse que algum mal involuntário partisse de seu corpo mirrado de avô bondoso. 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Um ato de extrema coragem


A verdade é que quando acontecem essas raras ações libertadoras há um nó complexo de motivos por detrás. Não há como elencar apenas um e dizer: "fiz isso porque fulano de tal me visitou aquela tarde e eu vi o quanto seguir a vida por suas normas cotidianas é algo insuportavelmente pesado para o espírito". Ou afirmar categoricamente que tudo não passou de um lapso neurológico que mais tarde poderá ser explicado no ultra-som definitivo como um dos sinais da degeneração final, da demência. Fulano de tal, um grande amigo de épocas passadas, realmente me visitou há duas semanas, na companhia de sua jovem esposa doente e da filhinha de colo que estava abaixo do peso. Ele realmente se sentou comigo em uma cadeira de fio na garagem e os anos nos pesaram de forma constrangedora, até um ponto em que o riso forçado diante a relembrança de antigos planos acabou de súbito, deixando um ralo vestígio de silêncio, e ele se virou para mim e gesticulou com a cabeça mencionando a sua mulher, que estava na sala com minha esposa, e disse: "só vive doente, ... cheia de doenças!". E sua filhinha de colo me olhando de entre os braços grossos do pai com incríveis olhos anêmicos cheios da lucidez premonitória da primeira infância, quase rindo se sua posição oracular de remeter-se a uma camada supraciente de percepção não a obrigasse a uma seriedade límpida, a ser lembrado por mim por vários anos. 

A esposa desse amigo é uma das entidades da minha vida. Na vida a gente conhece poucas entidades no meio de um batalhão, de uma miríade de personalidades comezinhas e sem graça. Ela é uma das duas ou três entidades com voz, espírito, paciência e reflexão que conheci, e vai ver por não conseguir suportar isso é que me distanciei dela. Dessas pessoas superiores que são admiravelmente indefesas. Nesse dia em que nos reencontramos, ela saiu para a garagem e disse que seu sonho era voltar a morar aqui nessa cidade. Morar na capital a deprimia de maneira nefasta. Estar longe de sua mãe, de seu pai, de seus antigos amigos. Mas seu esposo, policial civil, não podia pedir transferência para cá porque aqui não existe UTI. Ela tem um problema genético gravíssimo de arritmia, e só nesses últimos meses precisou ser internada seis vezes às pressas na UTI. Três dessas vezes usaram um desfibrilador nela. Ela fala essas coisas com tanta leveza, com uma simpatia distanciada, que acentua, no meio da minha gigantesca distração em olhar os carros passando sem conseguir sequer avizinhar-me de uma solução, sua constituição extra-corpórea. Como se ela se observasse movimentando com o peso de seu corpo de uma altura segura. Daí ela volta para dentro da casa, chamada por minha esposa para tomar um suco de melancia, e seu esposo, meu grande amigo das antigas, me olha com um olhar do qual não gosto nem um pouco, faz um gesto depreciativo com a boca, e me diz mais uma vez: "cheia de doenças! Não sei o que vou fazer. Está com gordura no fígado e o médico ordenou que emagreça dez quilos, mas ontem mesmo ela comeu churrasco me dizendo para deixá-la ser feliz".

Fomos grandes amigos, ele e eu. Uma vez me flagrara ouvindo Kind of Blue em meu carro, numa noite em que eu sentei na praça de um boteco e coloquei o som baixinho só para mim, a porta aberta, tomando um vinho. No outro dia apareceu em minha casa me convidando para sair. Não me conhecia, estava tão absolutamente sozinho nesse povoado de costumes aborígenes celerados que precisava de alguém com quem se identificasse urgentemente, senão ficaria louco. Eu era solteiro e senti um tédio descomunal para começar aquela nova amizade, mas me reconheci naquele apelo honesto, corajoso. Desde então, por uns dois anos, vivemos nosso on the road particular e geograficamente restringido. Ele tinha tanta energia e tanta carência de se mostrar um cara inteligente, descolado, carregado de juventude, que acabava sendo mesmo fascinante. Não parava de conversar, de ter planos artísticos; levantava-se para gesticular algum prosseguimento de seus sonhos visionários. Passava por um divórcio em que as pessoas culpavam-no de ser um tirano. Vizinhos alegavam ouvir-lhe gritando e espancando a mulher. Todos tinham muito medo dele. Uma vez, quando voltávamos de um bar, numa tarde de domingo, ele puxa o freio de mão e quando eu tenho tempo de me situar, o vejo do lado de fora, apontando sua pistola .40 para seis rapazes ajoelhados com as mãos na cabeça. Ele trabalhara três anos no entorno de Brasília e esse assunto era a única coisa do qual ele jamais falava. Uma vez insinuou, quando estávamos muito bêbados, ouvindo Ten Years After no alpendre de um casa de frente a um lago onde eu morava, que havia matado duas pessoas quando trabalhava lá. Gente que não faria falta alguma para a humanidade. Mas foi só e eu nunca quis saber. Em uma madrugada, o telefone toca e é sua ex-esposa, que eu nunca vira e nem adivinhava como conseguira meu número, e que me toma uma longa hora contando coisas abomináveis, entre lágrimas. Uma voz bonita, altamente estética e auto-consciente disso.

Nessa mesma casa do lago, ele cismou com um vizinho que não lhe teria cumprimentado por preconceito racial, e de madrugada saiu da mesa onde conversávamos alegremente, abriu o portão, me disse "veja só", foi até a casa do desafeto imaginário, desceu a barguilha e mijou na porta de entrada. Foi a única vez que perdi a paciência. Quando voltou, eu apontei para sua cara e disse que se o vizinho tinha achado mesmo que ele era um "negro sub-humano sujo", ele acabava de confirmar isso. Ele ficou deitado na sala com um sorriso infantil de vergonha mas dava para ver que estava mortalmente constrangido. Durante a noite ele roncava quase ao ponto de fazer tremer as paredes, e soltava peidos fantásticos que me fizeram levar meu colchão para o alpendre. Soltava um peido descomunal e me parecia que ria com um riso melífluo de alguém que fingia dormir, só para me dar a resposta compensatória por ter ficado bravo com ele.

Uma vez entraram na minha casa, arrombando a porta, e levaram um celular e uma pasta de cds. Ele me presenteou com um 38 prateado, cano longo, muito bonito. A arma atraía meu olhar e não o soltava a cada vez que eu a via. Passamos um fim de semana pelos campos atirando em alvos de latas de cerveja e troncos de árvores. Levamos nosso amigo Galheb para caçarmos carneiros. Enquanto Galheb ficava no alto do morro certificando-se de que não havia nenhuma alma viva por perto, e eu me preparava para chegar com o carro e abrir rapidamente o porta-malas, ele mirava com sua .40 o grupo de carneiros no plano do morro e atirava entre os olhos de um deles. Colocamos o animal morto no porta-malas, todos muito apressados e afobados, e o levamos para sangrar para debaixo de uma ponte. Galheb disse: "Isso é que é bando de ladrões preparados: levamos até um veterinário para fiscalizar a qualidade da carne". Galheb usou toda sua arte culinária preparando por uma semana a carne de carneiro, e a comemos em um sábado memorável em que nada tirava de nossos cabeças a silenciosa e delicada certeza telepática de que éramos três irmãos.

Eu nunca duvidei dele. Sua ex-esposa era cocainômana. Casara-se de novo com um traficante que meses depois fora preso. Ele, ao conhecer minha amiga, me disse estar apaixonado por ela. Eu os apresentei e a reação inusitada dela foi a mesma. Seis meses depois se casaram. Uma noite, para comemorarmos, cada um dos casais levou um vinho do Porto para nosso barzinho preferido, o local onde eu e ele nos conhecemos. Coloquei Kind of Blue no toca cd e sentamo-nos debaixo das palmeiras que não eram centenárias mas era como se o fossem, com suas folhas canoras e o vento atonal por entre elas. Os dois estavam tão resplandecentemente felizes que mal tocaram nas garrafas. Eu tomei os vinhos praticamente sozinhos, e me deixei contagiar com a marca registrada da energia dele. Cada história que eu contava eu titerizava figuras imaginárias com os gestos complementares das mãos. Quando fui levá-los em meu carro para sua casa, ele soltava peidos festivos que incendiavam o carro e faziam com que eu, minha esposa e minha amiga procurassem ar pelas janelas. Eu dirigia devagar por estar iluminado além da conta pelos Porto e ele soltava peidos prodigiosos que pareciam nunca ter fim. Deixei-os em casa e minha amiga, com sua voz valvar doce, sua plenitude da presença, me olhou com os olhos que não parou de ter de uma foto em preto em branco em que aparece aos dois anos de idade, de frauda, ao lado do pai, morrendo de rir com uma mangueira jorrando água, e me agradeceu. Minha esposa sabe que eu amo essa amiga e nunca teve o mínimo ciúmes depois que a conheceu. Fomos embora para nossa casa comentando o controle sobrenatural esfincterológico de meu amigo, e, intimamente, eu o invejava por isso, uma estranha e ridícula inveja. Eu era muito sistemático com esses despudores escatológicos. Eu nunca peidara perto de nenhuma namorada; aliás, nunca peidara perto de pessoa alguma, e se isso tivesse acontecido eu seria capaz de morrer. Uma vez eu obriguei a uma namorada a sair da minha casa e me esperar do lado de fora, pois o banheiro era acoplado ao quarto e minha desobrigação fisiológica era tão iminente que ela ouviria com toda certeza. Outra vez eu desfiz um namoro de três anos porque a moça, quando eu voltara da cozinha para a sala, havia empesteado todo o ambiente e não teve como ela não confessar que havia emitido um flatus que lhe pareceu pequeno o suficiente para evadir-se da atmosfera antes de eu voltar mas que lhe revelara de uma traiçoeirice tremenda. Levei dois meses para acabar o namoro, um namoro que prometia e do qual eu me comprometera acirradamente hospedando-me na casa dos pais da moça em São Paulo durante os feriados de natal e ano novo, mas que não me era mais possível olhar aquele rosto angelical e aquela educação europeia exemplar sem me remeter à verdade subliminar do horror atmosférico daquela lembrança. Eu nunca peidara na frente de ninguém, ontem eu pensei nisso com tristeza, no alto de meus bobos e irredencionistas 40 anos.

Ontem, de tarde, sentado em minha poltrona na biblioteca de casa, lendo o final de O Mestre e Margarida, com minha filha de dois anos Júlia sentada no carpete folheando pranchas das pinturas de Van Gogh, eu tomo fôlego, e grito para a minha esposa que estava na sala: "Dani, daria para você vir aqui, por favor?". A Dani deixa o que estava fazendo e aparece na minha frente, prontificada. Eu lhe mostro meu dedo indicador da mão direita, colocando o livro do Bughákov no peito, e digo: "acho que desloquei esse dedo em algum lugar, daria para puxá-lo?". Ela olha para meu dedo e o pega com todo o pendor doméstico com uma das mãos, e o puxa. No mesmo instante, já estando na posição planejada com as pernas abertas com os pés em uma das traves de uma das estantes de livros, eu solto um peido descomunal, com bolhas sonoras arredondadas firmes, sincopadas e cheias. Uma obra-prima. A Dani arregala os olhos pasmada e sai diligentemente, numa espécie de choque de efeito retardatário, com a mão na boca e dizendo: "Meu Deus, que horror! Que horror!" Eu sinto uma vergonha que não é só clinicamente uma vergonha, mas algo mais, algo inominável. Eu rio com gargalhadas verdadeiras, a Júlia se levanta, pega meu dedo e diz: "minha vez, papai! Minha vez!". "Que carniça!", ouço a Dani dizendo além da porta. Sigo a Dani depois de um minuto e lhe abraço, lembrando das tantas vezes que a vi vomitando, das vezes em que ela, grávida e doente, usara o banheiro do hospital comigo a segurando pelos braços, naquela época em que todo mundo, menos eu, achava que ela morreria. "Nunca desista de mim, Dani, que eu nunca desistirei de você", eu digo, lhe abraçando. Ela ri e me responde: "nossa, um homem tão culto fazer isso!". Eu digo: "Homens cultos também tem cu, Dani". E ela: "por que não escreve sobre isso em seu blog? Hoje eu pedi para minha esposa puxar meu dedo e soltei um tremendo peido". E hoje eu me sentei aqui e escrevi: A verdade é que quando acontecem essas raras ações libertadoras há um nó complexo de motivos por detrás.