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sexta-feira, 15 de abril de 2016

A chave secreta da vida



As similitudes entre dois escritores absolutamente diferentes estão em como se integram na total necessidade de escrever. Mishima escrevia compulsivamente; certa vez se trancou em um quarto de hotel e só saiu dias depois, com uma obra iniciada e concluída por completo. Era um autor de extrema vaidade. No dia do seu suicídio, entregou à editora o manuscrito que completava o último volume de sua obra máxima. Escreveu que seus livros eram uma expressão divina. Já Imre Kertész, em seu discurso de recebimento do prêmio Nobel, publicado em A língua exilada, comovedoramente diz que teve sorte porque as condições históricas em que sempre viveu, entre a morte iminente no campo de Auschwitz e os anos de opressão da ditadura de esquerda em sua Hungria natal, lhe abortaram no início qualquer esperança de que algum dia fosse lido. Kertész considera a invisibilidade uma sorte porque assim ele se entregou à escrita intimista, dirigida a si mesmo. Em ambos, o que escrevia sabendo-se no centro de um aparato midiático, e o que escrevia para ninguém, está nítido a escrita como uma missão, como ato de sobrevivência e busca espiritual. Quando li O fiasco vi claramente a solidão e a felicidade de Kertész, no modo como a estrutura textual parecia um molde guardado na parede do quarto onde suas mais recolhidas ideias eram projetadas. Há uma tocante sacralidade na abdicação de Kertész à escrita, sua confiança que nunca pediu nada de retorno ao mundo físico. Sua poderosa reclusão infantil ao exercício no quarto escuro. Assim como é perfeitamente aceitável a extrema vaidade e trabalhado amor próprio de Mishima, quando se lê, já nas primeiras páginas de Neve de primavera: "Tomar nas mãos o próprio ideal e moldar o mundo à sua maneira? Isto não seria uma manifestação notável de poder? Seria como segurar na mão a chave secreta da vida, não acha?" Esses dois homens frágeis, que levaram, cada qual à sua idiossincrática maneira, o peso da história nas costas, conquistaram a posse da chave secreta da vida, retomaram à força de uma arraigada confiança no soerguimento de suas vozes mais recônditas o direito sobre suas vidas, resgatando-as, como diz Kertész, ao Moloch da história. É de Kertész uma das mais verdadeiras descrições da atividade da escrita:

"...num lindo dia de primavera em 1955, de repente descobri que existia uma única realidade, eu mesmo, a minha própria vida, uma dádiva concedida por um tempo impreciso, que havia sido capturada, expropriada, circunscrita, marcada por forças estrangeiras, desconhecidas_ e eu deveria retomá-la da "história", desse Moloch terrível, porque ela era minha, somente minha, e eu tinha de cuidar dela de acordo com esse princípio."

domingo, 10 de abril de 2016

Incógnita



Para mim, a maior incógnita da literatura é o suicídio de Yukio Mishima. Não há questão existencial que me aflija mais, no campo das letras e das personalidades intelectuais, do que o fato de alguém como Mishima ter se matado, ainda mais do jeito que a coisa se deu. Suponho que seja por demais sabido que o autor de Mar da fertilidade praticou o harakiri, diante os mil soldados que ele exigiu que fossem arrebanhados no pátio do quartel-general das forças armadas em Tókio, no lance cinematográfico da invasão que o escritor e alguns asseclas de um culto nacionalista fizeram ao quartel. Estou me embrenhando na obra máxima de Mishima, a tetralogia Mar da fertilidade; já li o primeiro volume, e todos os outros estão em minha posse. Para resumir em um só adjetivo esses livros: arrebatadores. Já havia lido apenas um livro dele, o Pavilhão dourado, romance que já de cara convence sobre a genialidade de Mishima. Pelas pesquisas que fiz, os outros livros que se seguem na tetralogia são ainda melhores que Neve de primavera, este já tendo me deixado pasmo diante tanta grandeza, inteligência generosa, profundidade e beleza poética.

Mishima tinha 45 anos quando se matou. Sua fama era mundial, seus livros o deixaram rico. Estava inserido confortavelmente no rol dos maiores escritores do século XX. Era um homem belíssimo, cuja consciência disso ele provou em uma série de fotos de vaidade perturbadora. Tinha uma inteligência fenomenal e um senso artístico refinado, uma vasta cultura. Quem lê um de seus livros_ e pode ser qualquer um deles, que mantem o mesmo nível de qualidade_, é recompensado por uma certa luminosidade exuberante, um excesso de vida radiosa. Em O pavilhão dourado, eu senti esse frescor da alma que se esbanja com seu pleno controle da existência, com sua posição de liberdade acima da mera labuta autômata do homem comum. Não era o tipo que se mataria. E seu suicídio, por mais que se escrevam sobre seus subjacentes simbolismos (há uma recente tradução de um livro de Marguerite Yourcenar todo dedicado ao tema), é um dos mais estúpidos da história. Foi um dos únicos suicidas que cometeram o ato final em nome de um efusivo orgulho metafórico. Matou-se com alegria. Queria que o Japão não descambasse no capitalismo ocidental, o que ele via como algo impossível deter, e resolveu expressar sua indignação através da mais tradicional manifestação nipônica. Diante a obra de enorme lucidez que ele deixou, seu suicídio ficou como sua única criação falha, pois parece que lhe faltou a previsão de que, em vez de fazer as pessoas pensarem, sua morte voluntária faria as pessoas verem-na o mais próximo da chacota, do exibicionismo vão. Se Mishima continuasse a escrever (e imagino com pesar quantos livros havia ainda para mostrar sua grandiosidade; o que o Mishima de 65 anos teria por dizer ao Mishima que botou uma pedra em sua permanência aos 45), ele teria feito muito mais por sua causa. E isso é que me mata. Por que Mishima se suicidou?

Antes de mais nada: o lance de recorrer-se a Freud, ao homossexualismo, à depressão, etc, etc, quem se predispor a cair nessa vala comum, que ao menos tenha lido um livro do Mishima. Sim, ele era homossexual, seu amante se matou junto a ele; sim, ele teve um casamento por conveniência com uma mulher e deve ter passado por todas aquelas agruras da sexualidade reprimida, potencializada pelo conflito de essa situação ser ainda pior em uma sociedade patriarcal como a japonesa. Freud teria se deleitado com o caso. E, não, Mishima não era uma personalidade depressiva. Como eu disse, seus livros exumam um amor incomensurável pela vida. Só a felicidade que ele tinha ao escrever já sustenta que o suicídio lhe era antagônico. (Eu não vejo Mishima como um suicida, como me vem a consciência física quando pego um livro de Hemingway, de Virginia Woolf, de Maiakóvski; aliás, quando fecho um livro de Mishima e vasculho preguiçosamente a contra-capa e as orelhas, me passa um leve tremor de entendimento e eu me falo baixinho: "ah, é mesmo, ele se matou.")

Lendo Mar da fertilidade eu posso tecer minha própria teoria. Não que ela me convença de todo, mas eu já intuía isso desde que vi a descrição do corpo do pai morto em O pavilhão dourado. Nessa cena magnífica, o narrador diz que o próprio excesso de materialidade imóvel de um corpo sem vida revela em contraste o quanto esse invólucro é absurdo para conter a energia do espírito. Na tetralogia, os personagens se reencarnam ao longo do século, e retornam para resolver antigas pendências no seio de suas famílias. Não é um livro espírita, se é que não é ridículo eu ter que avisar tal coisa ao falar de Mishima. E aqui me vem certa explicação pelo suicídio de Mishima. O cara era genial demais para ter cometido isso em nome da beleza, da nacionalidade, de seja o que for. Dostoiévski jamais faria isso, e Mishima era Dostoiévski. Mishima teria uma convicção arraigada da superação da existência à realidade física, e isso o motivou a departir-se com êxtase para o prosseguimento antecipado da jornada. Seu suicídio sempre me pareceu propositadamente cômico: ele ter exigido, sob a ameaça de passar à espada um dos altos funcionários das forças armadas em posse dos homens de sua associação, para em seguida exigir que o imperador fosse restituído e o Japão voltasse ao tempos antigos, é claro que ele sabia que era algo histriônico e incabível. E, assim que os soldados soltaram o riso uníssono de mofa diante sua imposição ("hahaha, esse Mishima é um louco"), ele proferiu um discurso, os olhos injetados, e rasgou sua barriga de alto a baixo com a lâmina. Para completar, o seu seguidor que ficou encarregado de decapitá-lo com um único certeiro e rápido gesto, conforme o ritual, errou a mão e teve que dar três desferidas da espada para separar a cabeça do escritor do corpo.

Os autores preferidos de Mishima eram Thomas Mann e Joris-Karl Huysmans. Nega-se, com isso, a hipótese de que ele deva ser entendido com um excessivo olhar oriental.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Yukio Mishima_ a leitura de "O templo do Pavilhão Dourado"



Sempre foi uma das minhas intuições de leitor de que a literatura nipônica não era para mim. Que eu me lembre, nunca li um autor japonês, até então_ afora, agora me dou conta, de Haruki Murakami, que quase não entra na categoria dos romancistas japoneses pelo que ele mesmo se propõe em caminhar na contra-mão da tradição. Acredito que se vai levando pela vida uma série de preconceitos não verificáveis, mantidos em seu patamar de inércia acrítica por não serem jamais visitados, e um desses meus preconceitos é de que não me dou bem com a cultura japonesa. A cultura japonesa vive por milênios sem ter se incomodado com essa minha atitude, assim como vou percorrendo meu tempo por essa terra o mais aprazível possível sem que a ausência da cultura japonesa em meus horizontes particulares represente a mínima queda de qualidade. Deixo os japoneses em paz e eles nunca me incomodaram. Só recentemente fui confrontado com esse fantasma absolutamente bem resolvido de minha indiferença à literatura nipônica pela quase ostensiva propaganda que o Luiz Ribeiro vem fazendo dela aqui no blog e em nossas conversas por e-mail. O Luiz chegou a dar um link de um blog especializado em literatura japonesa e, em um ataque massivo difícil de relegar, me enviou dois romances japoneses. Me vi diante o imperativo inadiável de ser cordial com um amigo me violentando naquilo que tenho como mais sagrado: a escolha das minhas leituras ditada única e exclusivamente, à lá Borges, pelo deleite. Já abandonei livros cultuadíssimos e respeitabilíssimos antes da metade por não me despertar prazer: assim foi com Henry Miller, com Updike, com Middlemarch, com Virgínia Woolf, com Gonçalo Tavares, Sartre, entre vários outros. Todo grande leitor tem que se conformar com a primeira regra da leitura: a geografia do que sempre irá desconhecer é absurdamente maior que o campinho de flores de um alqueire e meio aonde ficarão seu autores preferidos e seus livros de cabeceira. Assim, não me parece mais tão espantoso a confissão do já velho Ezra Pound, ao Hemingway, de que ele nunca lera os russos. Na época em que li isso, parecia-me algo miraculoso que um escritor tivesse feito renome universal sem nunca ter lido Dostoiévski. Ou o próprio Borges anunciando que não lia autores nascidos depois do século XIX (apesar de hora e outra se desmentir, com seus prólogos sobre Chesterton, Kipling, Faulkner, e um quase anacrônico e surreal desmonte de um romance de Hemingway); e Allan Bloom, que ia mais além_ ou aquém_, com seu repúdio a tudo que não fosse do primitivismo clássico grego e a filosofia iluminista. Eu nunca fui um desses leitores que tem a ridícula preocupação de usar a cultura como ascensão social, armando-se de ornamentos imaginários para impressionar em bailes e casamentos. Uma vez sofri a saudabilíssima experiência de quebrar a cara aprendendo que a cultura não serve em nada para atrair uma fêmea da espécie para a cópula, e isso tem me evitado cair no ridículo sempre que vejo uma bela mulher de óculos e com um ar intelectual que alimente esperanças de que tratar com ela sobre as aflições de Ulisses me elevará à condição do grande macho alfa arrastando-a, agradecida por sua lubricidade, pelos cabelos.

Mas vamos ao que interessa: li o Mishima que o Luiz me mandou. De antemão, três coisas me repudiavam em definitivo em relação a Mishima. Certa vez vi, de madrugada, um filme na televisão baseado nos livros desse autor. Seus simbolismos e sua pesada atmosfera freudiana me incutiram que Mishima era um chato ortodoxo do qual eu deveria manter distância e esquecê-lo sossegadamente. (Como Canetti, eu odeio Freud e o acho o maior impostor do pensamento dos últimos 200 anos.) Depois vem seu suicídio absurdo, em nome do imperador, cuja teatralidade e vaidade violentamente ególatra me solidificou a decisão, se algum dia me surgisse a fímbria de curiosidade contrária, de nunca ler nada dele. Terceiro, e talvez o que me parecia mais incontestável, eram as fotos a que ele se submetia para levar ao mundo o que poderia haver de qualidade no fundo de sua estampa. Suas fotos, puramente, não fogem do fascismo motivado pela certeza incontestável. Para quem foi criado lendo os russos e os médio-europeus, vendo aqueles rostos alquebrados cheios de dúvida e dor, cheios de degradação e incompatibilidade com o mundo, a imagem do ostensivamente saudável e fálico Mishima me causava asco, quando muito mexia no núcleo de meu preconceito adormecido fazendo-o emitir um riso de mofa. Em uma das fotos do Mishima, esse menino solitário que precisava provar tanta coisa diante o espelho, a sugestão de uma genitália avantajada por debaixo da faixa do quimono era até enternecedora. Mishima ia de contra toda a minha consolidada crença do que um escritor deveria ser; Mishima era seguro de si, militarizado, crente, de direção determinada e inamovível, severo, imperioso, fundamentalista. Em um e-mail, comparei apressadamente ao Luiz o Mishima ao José de Alencar, sem explicar que para mim o japonês parecia tão pedante e datado, tão ilegível e de um mundo pré-shoá quanto o brasileiro da "virgem de cabelos como as asas da graúna". (O que tem a shoá a ver com isso? É que me parece implausível que um escritor como Mishima tirasse aquelas fotos risíveis e ostentasse uma vaidade de samurai depois do que aconteceu com seu país na segunda-guerra, e com a humanidade depois de Auschwitz; parecia-me uma alienação indesculpável para a obrigação de um artista sério que tivesse vivido esses eventos. O suicídio de Primo Levi é infinitamente mais nobre e diz muito mais que aquela partida mimada e obtusamente patriótica de Mishima.) 

Posto assim, estava na defensiva com o livro que o Luiz me mandou de Mishima, The Temple of the Golden Pavilion. E qual a surpresa por, já nas três primeiras páginas, o livro ter me desarmado. O romance é um deleite do começo ao fim, e enormemente informativo sobre a profundidade e a complexa personalidade do autor. Como disse depois da leitura para o Luiz, é incontestável para quem lê esse livro que Mishima foi um gênio. A escrita é carregada de luz e audaciosamente leve, ágil, cheia disso que Bellow uma vez disse ser "intrusões inesperadas de beleza". Os grandes escritores tem a capacidade de mostrar insights sobre algo que está além das palavras e que nenhuma academia autorizaria afirmar sem cair-se no ridículo, e nesse romance de Mishima há generosas porções desse chute nos portões do comedimento ortodoxo. Por exemplo: há duas cenas inesquecíveis, como a que o narrador vê o corpo de seu pai na cerimônia de sepultamento, e pensa que a evidência do quanto estamos distantes da matéria é essa intangibilidade da forma como ela existe; outra cena é de uma cristalinidade pictórica, arrebatadora, em que o narrador, escondido em um templo abandonado da montanha, flagra o ritual de despedida entre uma moça e um rapaz que está destinado a morrer nas frentes da guerra: ela despeja o leite de seu seio e ele o bebe, em lembrança do filho natimorto dos dois. Há muitas cenas de beleza impactante como essas, proporcionadas pela visão privilegiada de Mishima pelo trivialesco esotérico. Em uma entrevista, li que o objetivo de Murakami era derrubar o beletrismo da literatura japonesa, o que entendi como um ato de ocidentalizá-la; algo como Cortázar certa vez disse estar escrevendo cada vez pior em oposição à plasticidade imposta pelo cansaço das fórmulas feitas. Mishima me surpreendeu no que ele antecipa da intenção de Murakami. Sua escrita foge do que eu tinha como concepção de uma literatura japonesa excessivamente preocupada com uma tradição estética fechada e avessa às revoluções nas letras do século passado.

A história do livro, resumidamente, é sobre a obrigação do narrador, um rapaz pobre, atormentado por uma gagueira deformadora, a ganhar espaço no mundo através da única ocupação que lhe resta, a de ser aprendiz de monge em um templo budista. Seu pai, desde que ele era pequeno, já lhe cambiou a certeza de que a representação da beleza em todo o universo se centra no templo do Pavilhão Dourado, com seus três andares, seus sutis mistérios apreendidos furtivamente nos refúgios das noites de chuva, e sua fênix dourada colocada no cimo do telhado, representando sua capacidade de resiliência através dos anos. Esses elementos, intransigentemente japoneses e aparentemente desprovidos de transcendência, servem a Mishima para compor uma obra que tem tanto a melifluidade de Dostoiévski quanto a ironia auto-implosiva de Robert Walser, a frescura de um Bildungsroman como o de Salinger e a confissão sediciosa das autobiografias de Thomas Bernhard. Sua faceta de Dostoiévski é algo bastante propalado: há um outro personagem no livro, uma espécie de Quasimodo maquiavélico chamado Kashiwagi, desenhado milimetricamente com os mesmos traços de personagens do russo, como Ivan Karamazov, Piotr Stiepánovitch, Raskólnikov e Rogójin, uma entidade desprovida de moral até o ponto de uma maldade pragmática que leva o sinal das possíveis revoluções políticas e sociais. São impagáveis os diálogos entre Mizoguchi, o narrador, e Kashiwagi, esse aleijado de pernas tortas que cativa as mulheres mais lindas pelo que ele desperta de pena e peso de consciência que sente a perfeição diante a deformidade_ ele as usa e depois as repudia com surras e depreciações violentas. Só o conhecimento tem capacidade de mudar o mundo, diz o aleijado Kashiwagi, enquanto o gago Mizoguchi, mal conseguindo terminar uma frase, rebate que só a ação transforma o mundo, numa antecipação profética de sua fúria nas páginas finais do livro.

Se as marcas de Dostoiévski são inconfundíveis em Mishima, por outro lado, em minhas pesquisas, não achei ninguém que tenha aproximado esse Pavilhão Dourado do romance Jakob von Gunten, do suíço Robert Walser. A história é surpreendentemente a mesma nesses dois grandes romances. O monastério do Pavilhão Dourado serve com a mesma precisão para matar o espírito quanto o Instituto Benjamenta no livro do Walser. Ambos esses refúgios do mundo são máquinas de apequenização e humilhação da vontade. E ambos os narradores, tanto de Mishima quanto de Walser, são percepções em formação, intimamente angustiados por suas juventudes gritantes, querendo quebrar a barreira da falta de conhecimento mas sempre se batendo de contra a parede da enormidade de suas insuficiências.  Ambos tem o gene do assassino instrumental movido por uma distante necessidade darwiniana de evoluir a espécie, mas que nunca é ativado pela cordialidade patológica que as tradições consuetudinárias e as instituições sociais da repressão incrustaram neles; mas é a voz do assassino que fala em boa parte dos livros, com uma sinfonia nietzschiana, com uma eletricidade das grandes tempestades sentidas nas montanhas. Mishima, em contraposição às suas fotos, apresenta tudo o que move os grandes escritores a criarem: a angústia diante as verdades instituídas, os cabrestos religiosos, as morais de fachada (como quando se depara com o chefe espiritual do mosteiro com uma prostituta); a busca, em suma, pelo imponderável e o inominado.

Concluí a leitura desse grande romance sabendo que de agora em diante terei que ir atrás das outras obras de Mishima. A última frase do livro traz similitudes com a biografia de Thomas Bernhard. "Eu quis viver", Mishima faz seu herói dizer. Também o jovem Berhnard, após abandonar a sucessão de confinamentos em sanatórios para manterem-no no pneumotórax, diz que queria viver, apesar de tudo. Isso ainda torna o Mishima do ritual de suicídio um enigma e um desperdício para mim (o quanto ele teria ainda para escrever!). Mas aqui entra as palavras de Montaigne, que atenuam um pouco o mistério:

"Somos todos retalhos de uma textura tão disforme e diversa que cada pedaço, a cada momento, faz o seu jogo. E existem tantas diferenças entre nós e nós próprios como entre nós e os outros."

a edição enviada pelo amigo Luiz Ribeiro

edição nacional publicada pela Cia das Letras
Amanhã, um texto sobre A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa.

domingo, 24 de março de 2013

Yukio Mishima na morte



(Texto de Javier Marías; tradução do espanhol por Charlles Campos)

A morte de Yukio Mishima foi tão espetacular que quase fez com que fossem esquecidos os numerosos absurdos em que ele incorreu ao longo da vida, como se seu constante exibicionismo prévio tivesse sido apenas a maneira de assegurar atenção no momento culminante, o único que provavelmente lhe interessava de fato. Assim deve ser entendido, ao menos, a raiz de sua inveterada fascinação pela morte violenta, que _ se o morto era jovem e tinha bom corpo_ considerava o cume da beleza. É verdade que esta ideia não era inteiramente original, e menos ainda em seu país, o Japão, onde, como é notório, sempre existiu uma apreciada e consistente tradição em apunhalar dramaticamente as próprias entranhas e perder a cabeça com um talho executado por um amigo ou um subordinado. Em épocas não muito distantes, ao término da Segunda Guerra Mundial, foram não menos que quinhentos os oficiais que se suicidaram (assim como um bom punhado de civis) para "responsabilizarem-se" da derrota e "apresentarem desculpas ao imperador". Entre eles se encontrava um amigo de Mishima, Zenmei Hasuda, que antes de honrar "a cultura da minha nação, que é a de morrer jovem" e fazer estourar o cérebro, teve tempo ainda de assassinar a seu imediato superior por este ter criticado o imperador divino. Talvez se compreenda então porque 25 anos depois o exército japonês seguisse deprimido, vendido e sem capacidade de reação, segundo as acusações do próprio Mishima.

Seu desejo de morte, nascido em tenra idade, não era indiscriminado, e se bem pode-se entender seu terror em ser envenenado, já que o finar-se por este procedimento dificilmente poderia ser "belo", é, porém, menos explicável que quando com 20 anos, tendo sido convocado para as fileiras, em 1945, aproveitou da momentânea febre de um surto de gripe para mentir ao médico militar que lhe fez os exames, e apresentar-lhe um tal histórico de sintomas fictícios que propiciaram um errôneo diagnóstico de tuberculose incipiente que o livrou do serviço. Não que Mishima não estivesse consciente do que isso incorreria para a veracidade de seus ideais: pelo contrário, em sua famosa novela autobiográfica Confissões de uma máscara, questiona-se em vão e longamente a respeito. Como não poderia ser menos em um homem de considerável astúcia, por fim encontrou uma justificativa estética por ter evitado o que em princípio desejava tanto (a saber, "o que queria era morrer entre desconhecidos, sem intromissões, debaixo de um céu sem nuvens..."), e concluiu que "em vez disso, preferia pensar em si mesmo como alguém que havia sido abandonado pela Morte... Me deleitava imaginando as curiosas dores de alguém que queria morrer mas a quem a Morte havia rejeitado. O grau de prazer mental que assim obtinha parecia quase imortal". Seja como for, o certo é que Mishima não padeceu de grandes nem curiosas dores até o dia de sua verdadeira morte, o que significa que quando a prova se lhe chegou tinha suas forças e sua determinação intactas graças à ignorância. Em vez disso, seu pavor anteriormente de ser envenenado era tão obsessivo que quando ia a um restaurante só pedia pratos inadequados para venenos e depressa lavava os dentes freneticamente com refrigerante ou soda.

Tudo isso não lhe impediu de fantasiar o quanto quis, não apenas sobre sua própria supressão erótica (a saber, violenta), mas sobre a de muitos outros personagens de ficção, todos eles muito parecidos: "A arma da minha imaginação matou a muitos soldados gregos, a muitos escravos brancos da Arábia, príncipes de tribos selvagens, ascensoristas de hotéis, garçons, jovens valentões,  oficiais do exército, saltimbancos circenses... Beijava os lábios dos que tinham caído e ainda se moviam espasmodicamente". Como é natural, tampouco se privou de devaneios canibais, dos quais fez como objeto predileto um companheiro atlético do colégio: "Ele cavou seu garfo diretamente no coração. Um jato de sangue o golpeava por completo no rosto. Com a faca na mão direita, começava por cortar a carne do peito, suavemente, ligeiramente no início...". Certamente tais fantasias alimentícias faziam desaparecer o temor de ser envenenado, o que sem dúvida era uma vantagem.

Essa fascinação erótica por corpos viris torturados, rasgados, esfolados, trinchados ou  feridos por setas, marcou Mishima desde a adolescência. Foi um escritor impudico o suficiente para colocar a posteridade a par de suas ejaculações, pelas quais se infere que lhes outorgava extrema importância; assim, não nos sobra outro remédio que o de estarmos inteirados de que sua primeira ejaculação ele a teve contemplando uma reprodução do torso de são Sebastião perfurado por flechas, pintado por Guido Reni. Não é de se estranhar, portanto, que quando já adulto, cometendo algumas fotografias artísticas-fisiculturistas, Mishima representava-se em algumas delas com o mesmo vestuário, ou seja, um xale atado à cintura e um par de flechas fincado dos lados, os braços para o alto e as mãos atadas por cordas. Este último detalhe não carece de transcendência, tendo-se em conta que a imagem preferida de sua masturbações (entre as que deixou em bom número de registros) era de axilas cheias e_ temivelmente__ malcheirosas. Assim, essa célebre fotografia devia prestar consideráveis serviços a seu narcisismo.

Não menos cósmicos resultam outros retratos que chegaram aos entusiastas mais infantis por sexo de calendário: Mishima observando seu esquálido peito diante um espelho, Mishima com um olhar piromaníaco com uma rosa branca entre os dentes, Mishima levantando pesos para obter bíceps decentes; Mishima semi-desnudo com o estômago à mostra, uma fita nos cabelos e uma espada de samurai nas mãos, a cara de quem beira uma falsa apoplexia; Mishima com uniforme paramilitar, surpreendentemente discreto para tratar-se de um modelo idealizado por ele mesmo para seu exército privado, o Tatenokai. Também fez alguns papéis no cinema em filmes amadores de baixa produção, sobre a yakuza ou gângster japoneses; gravou canções, e um disco em que interpreta os quarenta personagens de uma de suas obras para teatro. Sua imagem lhe preocupava tanto a ponto de passar a impressão nas fotos em que aparecia junto a homens mais altos que ele, de que ele era quem pareceria um gigante.

Não se deve inferir, entretanto, que Yukio Mishima passara sua vida ocupado com esses folclorismos e ninharias. Tinha necessariamente que escrever sem parar, já que em sua morte deixou mais de cem títulos, e se sabe que um deles, de oitenta páginas, o escreveu durante uma reclusão de apenas três dias em um hotel de Tóquio. A esta atividade há que adicionar a de suas promoções no estrangeiro, que o levou a fazer numerosas viagens à Europa e à América e a preparar uma cuidadosa e frustrante encenação quando em 1967 se rumorejava que o Prêmio Nobel iria recair pela primeira vez em um autor japonês. Fez coincidir seu regresso de um périplo  internacional com a data em que deveria ser anunciado o ganhador e reservou um luxuoso apartamento em um hotel no centro da cidade. Mas quando o avião aterrizou e ele saiu antes de todos os passageiros com um enorme sorriso, encontrou-se com um aeroporto cabisbaixo, já que o galardoado foi um irritante escritor guatemalteco. Um ano depois sua depressão aumentou: o Nobel foi por fim ao Japão, mas para as mãos de seu amigo e mestre Yasunari Kawabata. Mishima não se fez de rogado: saiu correndo à casa de Kawabata para ser o primeiro a felicitá-lo e pelo menos aparecer nas fotos. Não é necessário dizer que Mishima se considerava não só digno do Nobel, mas_ sem mais delongas_ um gênio. "Quero identificar minha própria obra literária com Deus", disse uma vez a um fanático de extrema direita, possivelmente acostumado aos delírios de grandeza.

Segundo contam os que tiveram-lhe trato, Mishima era um homem de grande simpatia e com afinado sentido do humor, ainda que seu riso soasse bestial e estridente e o prodigasse em excesso. Suas relações com as mulheres foram mais escassas, exceção feita à sua avó (que praticamente o sequestrou na infância, para desespero de sua filha), sua mãe, sua irmã, sua mulher e sua filha, o elemento feminino imprescindível até para os mais misóginos. Se se casou foi por um falso alarme: acreditou que sua mãe morreria em breve de câncer, e Mishima pensou em fazer-lhe como último agrado seu matrimônio: ela morreria mais tranquila supondo assegurado sua descendência. O câncer resultou em uma fantasmagoria e a mãe sobreviveu ao filho, mas quando ainda se supunha o primeiro Mishima já havia desposado Yoko Sugiyama, jovem de boa família que, é de se supor, cumpriu com os 6 requisitos prévios impostos pelo noivo aos casamenteiros, a saber: a noiva não deveria ser nem uma sabichona nem uma mosca morta; deveria querer casar-se com o cidadão particular Kimitake Hiraoka (seu verdadeiro nome), não com o escritor Yukio Mishima; não devia ser mais alta que o marido, nem usando salto alto; devia ser bonita e com o rosto arredondado; devia prestar-se a cuidar de seus sogros e ser capaz de administrar a casa; por último, não devia incomodar a Mishina enquanto este trabalhasse. A verdade é que pouco se sabe dela depois das bodas, ainda que os hagiógrafos do escritor (entre eles a tão tiete como também tietada Marguerite Yourcenar) contam com fervor de como Mishima levava frequentemente a Yoko em suas viagens ao estrangeiro, o que não era costume entre os japoneses de seu tempo. Com isso, na opinião de Yourcenar e outros, parece ter cumprido: ao final das contas, poderia perfeitamente tê-la deixado em casa.

Foi no último período de sua vida que Mishima criou a organização paramilitar Tatenokai, da qual gostava de referir-se por suas siglas em inglês, SS (Shield Society ou Sociedade do Escudo). Tratava-se de um pequeno exército de cem homens, tolerado e fomentado pelas Forças Armadas japonesas. Os cem eram, sobretudo, estudantes e admiradores incondicionais, todos devotos do imperador e de um Japão mais retrógrado. Durante um tempo limitaram-se em fazer acampamentos, exercícios táticos, manobras pseudo-militares e abrirem a pele para misturar e beber seus sangues. Sua primeira e última ação verdadeira teve lugar em 25 de novembro de 1970, quando Mishima e quatro acólitos se apresentaram com seus uniformes amarelados na base de Ichigaya, em Tóquio. Ali teriam audiência com o general Mashita, ao qual iriam cumprimentar e apresentariam uma valiosa espada antiga de samurai, em posse de Mishima e sem dúvida muito digna de ser vista. Uma vez na presença do general, os cinco falsos soldados o algemaram, fizeram piquete com suas armas brancas e exigiram que as tropas se concentrassem diante a varanda para ouvir um pronunciamento de Mishima. Alguns oficiais desarmados (era proibido ao exército japonês usar armas contra civis) tentaram rendê-los e levaram uns tantos golpes de espada (Mishima quase cortou a mão de um sargento). Quando por fim pôde dirigir-se às tropas, o discurso de Mishima não foi bem recebido: os soldados o interrompiam continuamente gritando barbaridades como "Beijo-te a bunda!", ou Bakayaro!, de difícil tradução, embora o mais aproximado seria "Foda-se sua mãe!" (há quem, contudo, lhe dá um significado equivalente a "cadeirudo").

As coisas não saíram como havia planejado. Retornou para dentro do escritório e se preparou para o harakiri. Ao seu homem de confiança e possível amante, Masakatsu Morita, pediu que o decapitasse com sua valiosa espada depois que ele abrisse suas tripas, sem deixá-lo sofrer muito. Mas Morita (que em seguida também faria o harakiri), falhou o golpe nada menos que três vezes, atingindo-lhe os ombros, as costas, o pescoço, mas sem acertar-lhe a cabeça. Outro dos acólitos, Furu Koga, mais versado ou menos nervoso, arrebatou-lhe a espada e se encarregou da decapitação. Logo fez o mesmo com Morita, quem, faltando-lhe forças desde o princípio, só conseguiu fazer um arranhão em sua barriga com a adaga. As cabeças caíram sobre o tapete. Mishima tinha 45 anos, e dizem que, sempre teatral, nessa mesma manhã havia entregue sua última novela a seu editor. Em certa ocasião havia dito sobre o harakiri que era "a masturbação definitiva". Seu pai se inteirou do ocorrido pela televisão: ao ouvir a notícia do assalto a Ichigaya pensou: "Agora terá que ir pedir desculpas à polícia e tudo o mais". "Pois que vá!". Logo escutou sobre o restante, harakiri e decapitação, e confessou mais tarde: "Não me senti muito surpreendido: meu cérebro rejeitava a informação".

(Javier Marías, Yukio Mishima en la muerte; Vidas Escritas)