
Sempre foi uma das minhas intuições de leitor de que a literatura nipônica não era para mim. Que eu me lembre, nunca li um autor japonês, até então_ afora, agora me dou conta, de Haruki Murakami, que quase não entra na categoria dos romancistas japoneses pelo que ele mesmo se propõe em caminhar na contra-mão da tradição. Acredito que se vai levando pela vida uma série de preconceitos não verificáveis, mantidos em seu patamar de inércia acrítica por não serem jamais visitados, e um desses meus preconceitos é de que não me dou bem com a cultura japonesa. A cultura japonesa vive por milênios sem ter se incomodado com essa minha atitude, assim como vou percorrendo meu tempo por essa terra o mais aprazível possível sem que a ausência da cultura japonesa em meus horizontes particulares represente a mínima queda de qualidade. Deixo os japoneses em paz e eles nunca me incomodaram. Só recentemente fui confrontado com esse fantasma absolutamente bem resolvido de minha indiferença à literatura nipônica pela quase ostensiva propaganda que o Luiz Ribeiro vem fazendo dela aqui no blog e em nossas conversas por e-mail. O Luiz chegou a dar um link de um blog especializado em literatura japonesa e, em um ataque massivo difícil de relegar, me enviou dois romances japoneses. Me vi diante o imperativo inadiável de ser cordial com um amigo me violentando naquilo que tenho como mais sagrado: a escolha das minhas leituras ditada única e exclusivamente, à lá Borges, pelo deleite. Já abandonei livros cultuadíssimos e respeitabilíssimos antes da metade por não me despertar prazer: assim foi com Henry Miller, com Updike, com Middlemarch, com Virgínia Woolf, com Gonçalo Tavares, Sartre, entre vários outros. Todo grande leitor tem que se conformar com a primeira regra da leitura: a geografia do que sempre irá desconhecer é absurdamente maior que o campinho de flores de um alqueire e meio aonde ficarão seu autores preferidos e seus livros de cabeceira. Assim, não me parece mais tão espantoso a confissão do já velho Ezra Pound, ao Hemingway, de que ele nunca lera os russos. Na época em que li isso, parecia-me algo miraculoso que um escritor tivesse feito renome universal sem nunca ter lido Dostoiévski. Ou o próprio Borges anunciando que não lia autores nascidos depois do século XIX (apesar de hora e outra se desmentir, com seus prólogos sobre Chesterton, Kipling, Faulkner, e um quase anacrônico e surreal desmonte de um romance de Hemingway); e Allan Bloom, que ia mais além_ ou aquém_, com seu repúdio a tudo que não fosse do primitivismo clássico grego e a filosofia iluminista. Eu nunca fui um desses leitores que tem a ridícula preocupação de usar a cultura como ascensão social, armando-se de ornamentos imaginários para impressionar em bailes e casamentos. Uma vez sofri a saudabilíssima experiência de quebrar a cara aprendendo que a cultura não serve em nada para atrair uma fêmea da espécie para a cópula, e isso tem me evitado cair no ridículo sempre que vejo uma bela mulher de óculos e com um ar intelectual que alimente esperanças de que tratar com ela sobre as aflições de Ulisses me elevará à condição do grande macho alfa arrastando-a, agradecida por sua lubricidade, pelos cabelos.
Mas vamos ao que interessa: li o Mishima que o Luiz me mandou. De antemão, três coisas me repudiavam em definitivo em relação a Mishima. Certa vez vi, de madrugada, um filme na televisão baseado nos livros desse autor. Seus simbolismos e sua pesada atmosfera freudiana me incutiram que Mishima era um chato ortodoxo do qual eu deveria manter distância e esquecê-lo sossegadamente. (Como Canetti, eu odeio Freud e o acho o maior impostor do pensamento dos últimos 200 anos.) Depois vem seu suicídio absurdo, em nome do imperador, cuja teatralidade e vaidade violentamente ególatra me solidificou a decisão, se algum dia me surgisse a fímbria de curiosidade contrária, de nunca ler nada dele. Terceiro, e talvez o que me parecia mais incontestável, eram as fotos a que ele se submetia para levar ao mundo o que poderia haver de qualidade no fundo de sua estampa. Suas fotos, puramente, não fogem do fascismo motivado pela certeza incontestável. Para quem foi criado lendo os russos e os médio-europeus, vendo aqueles rostos alquebrados cheios de dúvida e dor, cheios de degradação e incompatibilidade com o mundo, a imagem do ostensivamente saudável e fálico Mishima me causava asco, quando muito mexia no núcleo de meu preconceito adormecido fazendo-o emitir um riso de mofa. Em uma das fotos do Mishima, esse menino solitário que precisava provar tanta coisa diante o espelho, a sugestão de uma genitália avantajada por debaixo da faixa do quimono era até enternecedora. Mishima ia de contra toda a minha consolidada crença do que um escritor deveria ser; Mishima era seguro de si, militarizado, crente, de direção determinada e inamovível, severo, imperioso, fundamentalista. Em um e-mail, comparei apressadamente ao Luiz o Mishima ao José de Alencar, sem explicar que para mim o japonês parecia tão pedante e datado, tão ilegível e de um mundo pré-shoá quanto o brasileiro da "virgem de cabelos como as asas da graúna". (O que tem a shoá a ver com isso? É que me parece implausível que um escritor como Mishima tirasse aquelas fotos risíveis e ostentasse uma vaidade de samurai depois do que aconteceu com seu país na segunda-guerra, e com a humanidade depois de Auschwitz; parecia-me uma alienação indesculpável para a obrigação de um artista sério que tivesse vivido esses eventos. O suicídio de Primo Levi é infinitamente mais nobre e diz muito mais que aquela partida mimada e obtusamente patriótica de Mishima.)
Posto assim, estava na defensiva com o livro que o Luiz me mandou de Mishima, The Temple of the Golden Pavilion. E qual a surpresa por, já nas três primeiras páginas, o livro ter me desarmado. O romance é um deleite do começo ao fim, e enormemente informativo sobre a profundidade e a complexa personalidade do autor. Como disse depois da leitura para o Luiz, é incontestável para quem lê esse livro que Mishima foi um gênio. A escrita é carregada de luz e audaciosamente leve, ágil, cheia disso que Bellow uma vez disse ser "intrusões inesperadas de beleza". Os grandes escritores tem a capacidade de mostrar insights sobre algo que está além das palavras e que nenhuma academia autorizaria afirmar sem cair-se no ridículo, e nesse romance de Mishima há generosas porções desse chute nos portões do comedimento ortodoxo. Por exemplo: há duas cenas inesquecíveis, como a que o narrador vê o corpo de seu pai na cerimônia de sepultamento, e pensa que a evidência do quanto estamos distantes da matéria é essa intangibilidade da forma como ela existe; outra cena é de uma cristalinidade pictórica, arrebatadora, em que o narrador, escondido em um templo abandonado da montanha, flagra o ritual de despedida entre uma moça e um rapaz que está destinado a morrer nas frentes da guerra: ela despeja o leite de seu seio e ele o bebe, em lembrança do filho natimorto dos dois. Há muitas cenas de beleza impactante como essas, proporcionadas pela visão privilegiada de Mishima pelo trivialesco esotérico. Em uma entrevista, li que o objetivo de Murakami era derrubar o beletrismo da literatura japonesa, o que entendi como um ato de ocidentalizá-la; algo como Cortázar certa vez disse estar escrevendo cada vez pior em oposição à plasticidade imposta pelo cansaço das fórmulas feitas. Mishima me surpreendeu no que ele antecipa da intenção de Murakami. Sua escrita foge do que eu tinha como concepção de uma literatura japonesa excessivamente preocupada com uma tradição estética fechada e avessa às revoluções nas letras do século passado.
A história do livro, resumidamente, é sobre a obrigação do narrador, um rapaz pobre, atormentado por uma gagueira deformadora, a ganhar espaço no mundo através da única ocupação que lhe resta, a de ser aprendiz de monge em um templo budista. Seu pai, desde que ele era pequeno, já lhe cambiou a certeza de que a representação da beleza em todo o universo se centra no templo do Pavilhão Dourado, com seus três andares, seus sutis mistérios apreendidos furtivamente nos refúgios das noites de chuva, e sua fênix dourada colocada no cimo do telhado, representando sua capacidade de resiliência através dos anos. Esses elementos, intransigentemente japoneses e aparentemente desprovidos de transcendência, servem a Mishima para compor uma obra que tem tanto a melifluidade de Dostoiévski quanto a ironia auto-implosiva de Robert Walser, a frescura de um Bildungsroman como o de Salinger e a confissão sediciosa das autobiografias de Thomas Bernhard. Sua faceta de Dostoiévski é algo bastante propalado: há um outro personagem no livro, uma espécie de Quasimodo maquiavélico chamado Kashiwagi, desenhado milimetricamente com os mesmos traços de personagens do russo, como Ivan Karamazov, Piotr Stiepánovitch, Raskólnikov e Rogójin, uma entidade desprovida de moral até o ponto de uma maldade pragmática que leva o sinal das possíveis revoluções políticas e sociais. São impagáveis os diálogos entre Mizoguchi, o narrador, e Kashiwagi, esse aleijado de pernas tortas que cativa as mulheres mais lindas pelo que ele desperta de pena e peso de consciência que sente a perfeição diante a deformidade_ ele as usa e depois as repudia com surras e depreciações violentas. Só o conhecimento tem capacidade de mudar o mundo, diz o aleijado Kashiwagi, enquanto o gago Mizoguchi, mal conseguindo terminar uma frase, rebate que só a ação transforma o mundo, numa antecipação profética de sua fúria nas páginas finais do livro.
Se as marcas de Dostoiévski são inconfundíveis em Mishima, por outro lado, em minhas pesquisas, não achei ninguém que tenha aproximado esse Pavilhão Dourado do romance Jakob von Gunten, do suíço Robert Walser. A história é surpreendentemente a mesma nesses dois grandes romances. O monastério do Pavilhão Dourado serve com a mesma precisão para matar o espírito quanto o Instituto Benjamenta no livro do Walser. Ambos esses refúgios do mundo são máquinas de apequenização e humilhação da vontade. E ambos os narradores, tanto de Mishima quanto de Walser, são percepções em formação, intimamente angustiados por suas juventudes gritantes, querendo quebrar a barreira da falta de conhecimento mas sempre se batendo de contra a parede da enormidade de suas insuficiências. Ambos tem o gene do assassino instrumental movido por uma distante necessidade darwiniana de evoluir a espécie, mas que nunca é ativado pela cordialidade patológica que as tradições consuetudinárias e as instituições sociais da repressão incrustaram neles; mas é a voz do assassino que fala em boa parte dos livros, com uma sinfonia nietzschiana, com uma eletricidade das grandes tempestades sentidas nas montanhas. Mishima, em contraposição às suas fotos, apresenta tudo o que move os grandes escritores a criarem: a angústia diante as verdades instituídas, os cabrestos religiosos, as morais de fachada (como quando se depara com o chefe espiritual do mosteiro com uma prostituta); a busca, em suma, pelo imponderável e o inominado.
Concluí a leitura desse grande romance sabendo que de agora em diante terei que ir atrás das outras obras de Mishima. A última frase do livro traz similitudes com a biografia de Thomas Bernhard. "Eu quis viver", Mishima faz seu herói dizer. Também o jovem Berhnard, após abandonar a sucessão de confinamentos em sanatórios para manterem-no no pneumotórax, diz que queria viver, apesar de tudo. Isso ainda torna o Mishima do ritual de suicídio um enigma e um desperdício para mim (o quanto ele teria ainda para escrever!). Mas aqui entra as palavras de Montaigne, que atenuam um pouco o mistério:
"Somos todos retalhos de uma textura tão disforme e diversa que cada pedaço, a cada momento, faz o seu jogo. E existem tantas diferenças entre nós e nós próprios como entre nós e os outros."
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| a edição enviada pelo amigo Luiz Ribeiro |
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| edição nacional publicada pela Cia das Letras |
Amanhã, um texto sobre A Festa do Bode, de Mario Vargas Llosa.