"As melhores declarações dos negros a respeito de sua alma foram feitas no saxofone tenor." (Ornette Coleman)
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quinta-feira, 13 de junho de 2013
Na espera
"As melhores declarações dos negros a respeito de sua alma foram feitas no saxofone tenor." (Ornette Coleman)
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Nostalgia
Eu li muitos romances neste ano de 2012. Não vou cair no pedantismo de enumerar um por um aqui, mas nesse ano tive descobertas valiosas, como os nove livros de Javier Marías que me caíram nas mãos, Javier Marías que é o escritor que mais comporta o epíteto de maior escritor vivo da atualidade. Li a trilogia magnífica de Seu Rosto Amanhã, uma jornada insuperável nas mais nostálgicas qualidades clássicas do romance, uma experiência que tenho como uma das mais fundamentais de minha carreira de leitor. E no entanto, cheguei à conclusão de que o melhor livro de Marías, seu trabalho mais delicado e transcendente, o que ele conseguiu criar uma impactante sutileza crítica, é Os Enamoramentos, essa obra que não me sai da cabeça e me vejo retornando a ela a cada dia tentando compreender, tentando captar todos seus sinais sublimes e subliminares. E nostalgia é a palavra que mais define o que está a acontecer com o gênero do romance e com os níveis de inteligência de hoje. Tenho a incômoda suspeita de que um romance como Os Enamoramentos não tem serventia nenhuma no universo do pensamento atual. Mesmo Marías, nas tantas manifestações públicas sobre essa ficção, parece se mostrar cético, auto-depreciativo, um tanto já ultrapassado a linha de cansaço. Intuo que logo Marías vai entrar nessa categoria estoica de escritores que declaram sua aposentadoria. Li algumas resenhas sobre Os Enamoramentos, e a maioria delas se divide entre o elogio plástico, de quem parece que não leu o livro mas leu sua sinopse, e dos que realmente leram mas não demonstram uma atenção à altura do que o livro tem a oferecer. Poucas revelam uma leitura cuidadosa e, em consequência, a apreciação exata da sua grandeza.
Em contrapartida, os romances tidos como revolucionários, deliciosos, canônicos e fundadores, que tem aparecido por aí, me causam espanto. Estou a 50 páginas de terminar A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, um romance que vem com adendos de odes à sua excelência, retirados das tantas resenhas maravilhadas dos mais importantes jornais do globo, e me sinto constrangido de não compartilhar da festa generalizada em torno desse recente bezerro de ouro das letras. Os blogs literários fizeram frente também em decretar que A Visita... é uma obra-prima moderna. A nota principal dessas loas é sobre a agilidade da escrita de Egan, seu domínio excepcional das técnicas da ficção, etc, etc. E, contudo, a mim, tal livro não parece mais que uma competente (mas um tanto superficial) ferramenta de entretenimento, sem nada que destoe disto para bem e para mal. A Visita... me consumiu a tarde toda de ontem. Uma historinha bem montada, com doses certas, cronometradas, de ternura, a velha solidão do envelhecimento, os velhos suicidas revelados quando estamos por nos interessar pela paixão pela vida demonstrada por eles, e, o que é a lei inexorável de tal forma que se transformou em uma praga da literatura atual: as manjadas cenas de sexo, desde boquetes a torto e a direito, até as penetrações esfuziantes que ocupam longas e langorosas tardes suarentas de verão. E a tal prosa sofisticada de Egan, não é mais que o uso de uma aluna muito bem treinada e profundamente conhecedora da história da ficção, em que emprega a já manjada técnica de recuo e avanço no tempo para mostrar o choque sensorial de um personagem no auge de sua força física e, no capítulo seguinte, mostrá-lo em uma cama, entubado após dois derrames, e tão velho e vulnerável que a única saída natural que lhe resta é a morte. Coisa que gente como Virgínia Wolf e William Faulkner já fazia quando Egan ainda estava nos testículos do pai. E A Visita é tão pateticamente moldado para agradar e ser relevante, que se torna chato; é tão inevitavelmente linear em sua astúcia de ser bombástico, que a mim é evidente que com a mesma febre com que o veneram, o esquecerão no mesmo prazo recorde que levaram para calar sobre Liberdade, romance "mais importante do século" sobre o qual já ninguém mais fala.
A Visita é todo composto em cima da receita de Como Fazer um Grande Romance que a serialização da cultura produz nos cursos de escrita criativa. Fala sobre o universo traumático ultra-descolado do rock do final dos anos 70; tem um rebanho de personagens identificáveis pelo leitor que procura uma catarse para suas insuficiências de indivíduo urbano e inserido na ética do consumo; tem a homeostase matemática de profundidade cuja linha de controle nunca é ultrapassada para que a coisa não fique cabeça demais; é, em resumo, um romance feito na mesma fábrica dos seriados da tevê americana, com aquela inteligência coloquial cheia de insigths pretensamente iconoclastas que causam uma imediata impressão de ganho estético no espectador, mas cuja pobreza estrutural acobertada joga tudo no lixo da memória em pouco prazo. Romances como esse servem muito à sociologia americana, é uma ferramenta poderosa para compreender sobre a atual proficiência técnica do capitalismo que funde a mídia com as tendências controladas das modas de consumo, e sobre os mecanismos de escape e escoamento das frustrações comezinhas geradas por esse ciclo desespiritualizado_ é a forma mais funcionalmente grandiosa da utilização da arte para o apacentamento das massas, incluso aí parte das massas que se dedica a uma noção auto-elogiosa do apuro intelectual. Egan pode mesmo ser a maior escritora do que vem pela frente na mutação adaptativa do romance; ela tem a excepcionalidade da funcionária fiel altamente especializada; ela é o que escritores como Daniel Galera gostariam de ser: rápidas, situadas além da necessidade compulsiva de ter profundidade, que já teve a coragem madura e fenomenal de não pretenderem ser o novo Dostoiévski, para serem si próprias. E muito dessa excelência vem pela osmose de estarem no centro do mercado cultural mais efervescente do planeta, o que por si só já satisfaz grande parte dos fetiches da grande arte.
Ler esse romance ao mesmo tempo que se estuda a fundo a literatura russa de Dostoíévski e Tolstói é uma bruta de uma sacanagem com o livro. Mas é inevitável não sentir uma nostalgia profunda quanto aos romances que, na definição de Nietzsche, eram escritos com sangue. A Visita garante boas horas de diversão, esteja claro, mas não o envolvimento espiritual e perene de um livro como os de Marías, e tampouco como os dos russos pré-revolucionários. E não tem como não pensar em crise do romance quando se vê tal obra alicerçada como clássico instantâneo.
sábado, 22 de dezembro de 2012
Nu Para as Chamas de Deus
O velho polemista Alexander Cockburn, provocando o ateísmo às vezes beirando o fundamentalismo de seu amigo Chistopher Hitchens, disse: "um contestador hoje em dia seria alguém que argumentasse pela existência do Ser Supremo". As épocas são cíclicas, como observam muitos, e a concentração de uma força que pretende ser dissuasória à tendência ideológica da maioria acaba por se tornar uma estagnação também mantida pela inércia. O ateísmo culto e superior que é vendido das academias se transformou há muito em uma forma solidificada de filtrar a compreensão através de um só óculo de visão, que é a renitente, combativa, militarizada negação quase a nível de rancores pessoais contra Deus. Me faz recordar uma antiga anedota, bastante sem graça, de um clube de poderosos mnemônicos que por si mesmos não perdiam tempo em decorar piadas e recitá-las para a turma, apenas as diziam em seu números correspondentes: bastava um deles olhar para o outro e dizer 437, e logo se caía na gargalhada ao se recordar a piada rotulada pelo número. O ateu carteirizado chega a um nível de certezas indiscutíveis e proficiência da memória dogmática que pouquíssimas vezes mesmo os melhores deles estão em condições para o debate: apenas reafirmam, em maior ou melhor retórica, que a posição de lucidez em que estão é a única digna de um certo primor cerebral, que para eles, por mais que disfarcem conforme exige a ética interna, é o primor dos seres superiores, dos que estão distintos em altíssima elevação da ralé cega e bestialidade dos crentes. Basta a eles citarem os números correspondentes às suas já em franco processo de enferrujamento ideias feitas sobre seus heróis canônicos, Dawkins, Darwin, o Macaco Antropológico, o Cientista Estoico À Procura da Melhora da Vida Terrena. Assim, o que eles deveriam combater em uma dialética brutal contra as diversas formas de realidades deletérias provindas do uso de Deus por aqui, se transforma em uma infantil e sem sentido luta contra um fantasma, tão cômica que sempre escapa a eles o tanto que, subliminarmente, parece que são eles os crentes, eles os abalizadores da existência de um deus-pai cujos filhos mimados se revoltaram contra. Eles se anulam no que teriam de poder de mudança em uma sociedade globalizada cada vez mais sem uma voz sincronizada contra a bandidagem do igrejismo, ao nunca verem que o que se combate aqui são os homens por debaixo de deus, as organizações ultracapitalistas pactualizadas com dirigentes corruptos de estados sem representações críticas sociais, que se beneficiam obscenamente com os lucros cósmicos dos utensílios deísticos vendidos para a prosperidade econômica do homem médio sem educação, os tetzéis aproveitando da extrema ignorância reinante para vender suas indulgências, suas madeiras da cruz. Os ateus, que na verdade é a mais inofensiva classe intelectual desde há muitas décadas, são raquíticos demais para irem contra as tantas igrejas vilipendiadoras, as leis que isentam essas empresas do medo de impostos e assim promulgam suas legitimidades, os cartéis mafiosos de líderes do pastoreio que a mídia televisiva deixa quieto também por medo ou para a manutenção da homeostase de chantagens e crimes recíprocos entre os poderosos donos de jornais e redes de tv, estes mesmos vinculados intimamente à extorsão gigantesca das igrejas. O que os ateus fazem é colocar cartazes nos ônibus vermelhos de Londres convidando idioticamente para um carpe diem anacrônico, já que deus não existe, um retorno às modas existencialistas e aos anos hippies que em escala mais avançada fecham com bebedeiras eternas em bares e desistência de tomar banho, sexo em praça pública e apreciação da beleza que o acaso engendrou e as atribulações cotidianas vazias nos impedem de ver, isso enquanto o mundo passa por uma de suas maiores crises financeiras e morais, e cujo silêncio em torno deixa intactas as novas igrejas que surgirão para comportar os novos estelionatos aos homens desesperados.
E isso se trata apenas dos erros da única coisa que o ateu consegue ver. Os erros maiores são sobre o que eles não veem. O contestador de Cockburn é um homem culto que sabe, com sua parte inconsciente, que a concepção deísta está por detrás de bem mais coisas que estão por aí e compõe a identidade humana que um rápido olhar discriminatório não conseguiria ver. A simples menção a essas nuances já coloca em febre o ateu rosa-cruz de armas em punho, como se estivesse diante a mais uma enunciação da virgem Maria ou das chagas de Cristo. Nada mais triste que a regra da conduta das pessoas sofisticadas e esclarecidas seja a de descartar tudo que se refere a deus como uma bobagem obsoleta. Essa tendência, que não foi criada pelos ateus mas eles a utilizam como raiz comportamental, é a única voltagem carregada de perigo que o ateu possui, a sua única contribuição de peso, ainda que passiva, para a mudança do mundo. Mas acontece que essa mudança já está em curso, dirigindo-se mesmo para sua conclusão peremptória, e não é nada vantajosa. É sobre a não-conformação à essa mudança planificadora que o Cockburn interpôs o seu contestador que cogita o Ser Supremo. O mundo está cada vez mais acabrestado à moral funcional que sobrou da devastação da procura primordial pela transcendência, a moral do dinheiro e do entretenimento eletrônico que regimenta apascentando toda pulsão contrária de desforra ao moderno sistema escravagista. Com a ausência insensibilizada de deus numa sociedade devotada ao embrutecimento das nuances e à falta de tempo, o que sobra são seres atinados apenas às emergências ganglionares, à evasão da atenção para setores de escapismo que as alimentam sobre os planos imediatos de forma tal que seja menor o sofrimento das horas de engarrafamento para se chegar ao escritório ou à fábrica. É fácil ver que os ateus já são os vitoriosos há tempos, não há motivo para que eles se preocupem com o revide do fantasma. Nada mais determinante para a descrença em sinergismos sagrados do que a incapacidade de comportar qualquer intuição do esotérico em gares de metrô, em grandes avenidas de pistas quádruplas atulhadas da disputa dos modelos automobilísticos do ano, em ninhos de edifício com as letras de aço pressurizado por sobre o exército de homens de terno. A uma mente paranoica seria tentador supor que tudo foi maquiavelicamente pensado para retirar deus da jogada numa violenta assepsia programada, como aquelas histórias da conspiração satânica em que no alto dos edifícios de Wall Street estarem escondidos o número da besta do apocalipse. Mas como disse um escritor americano, há muito que seres espirituais superiores como Lúcifer ou os arcanjos não se preocupam mais com seres tão irrisórios como nós. Nesta solidão de desinteresse redencionista, estamos relegados ao desamparo de nós mesmos. Fomos nós mesmos que empobrecemos as estruturas de todo tipo que nos cercam até um limite intransigente de realidade, até um nível de cinismo em que tudo que esteja além dos reflexos da caverna seja ridículo e infantilóide. Nossa forma mais alta de religiosidade é ditada pela consumação do aproveitamento do tempo em prol de satisfações hormonais puras, desde a hora para se respirar um pouco do cafezinho à busca dos filhos na creche para acompanhá-los na comunhão silenciosa noturna do programa de televisão antes do sono intersticial para um outro dia repetitivo até à medula. Em recente artigo da Le Monde Diplomatique se analisa as consequências das pretendidas novas reformas na semana de trabalho francesa diminuída para 30 horas, se seria realmente positivo para indivíduos embrutecidos pelo relógio ter mais tempo livre, se isso não aumentaria a criminalidade e as taxas de suicídio. Viver para quê?
Entre os contestadores cockburnianos está o filósofo esloveno Slavoj Zizék, que em várias partes proveitosas de seus longos livros sobre a crise utópica da modernidade rendida à unidimensionalidade do capitalismo, faz uma apologia embasada da necessidade do grande Outro. Zizék cita fartamente o grande escritor católico Chesterton, em especial seu livro clássico Ortodoxia. Não é um simples artifício retórico em defesa da alienação consoladora ao sagrado como método social de dominação popular. Zizék vai fundo na análise do nonsense e da estupidez contra a inerente disposição biológica humana pelo abstrato que são as correntes de ateísmo organizado. Ou Zizék só é lido por jovens nostálgicos dos movimentos revolucionários da memória de seus avós e pais, ou é lido insuficientemente pelas academias, pois nunca se menciona o caráter dele para o debate ateu, sendo um disparate colocá-lo no mesmo nível que Dawkins e Hitchens, em posição contrária. Certa vez me disseram que Zizék não era a pessoa certa para falar sobre a procura por Deus, como se houvessem universidades milenares que detêm o conhecimento secreto do Nada aproveitada apenas para credenciados. Me vejo pensando na questão epistemológica de que tudo que se produz ideologicamente pelo homem, na arte e nas ciências e em qualquer outro campos, é o resultado da procura por Deus. Me confrontei com isso quando lia ontem o maravilhoso e indispensável livro de George Steiner intitulado Tolstói ou Dostoiévski. Abaixo, um excerto do livro de Steiner.
"O nó da questão é, como em qualquer questionamento maduro do enigma da linguagem e do significado, teológico. A desconstrução reconhece plenamente essa verdade quando postula que os marcadores semânticos só poderiam aspirar ao sentido estável, à intencionalidade, se fossem subscritos por alguma origem ou autoridade final, transcendente. Não pode haver, para o desconstrutivismo, pós-estruturalismo, pós-modernismo, tal garantia. Em Presenças Reais (1989) argumentei que uma aposta pascalina na transcendência é o fundamento essencial para a compreensão da linguagem, para a atribuição de significado ao significado. Essa aposta, além do mais, caracteriza implícita ou explicitamente a grande arte e literatura desde Homero e Ésquilo quase até o presente; ela por si só nos permite "fazer sentido" da música. Os clássicos, as obras de literatura dominantes na modernidade, são "religiosos" em sentido específico. Eles vinculam a questão da existência ou não-existência de Deus. Apesar dose exemplos serem bastante raros (Leopardo, Mallarmé), um ateísmo consequente pode produzir imponentes alturas de visão. A alta poesia e arte podem ser construídas construídas a partir da "morte" ou ausência do transcendente. Como pode, e espantosamente tem sido, das diversas ordens de confronto com a possibilidade da "presença real" de Deus. O que me parece condenar a imaginação questionadora, o poder da forma significante, à trivialidade, é o abandono da questão da existência ou não existência de Deus ao absurdo semântico, a algum jogo de linguagem infantil que não é mais relevante ao homem.
Somente quando terminei Presenças Reais me dei conta de como esse argumento já havia sido inevitavelmente colocado trinta anos atrás. Tolstói ou Dostoiévski procura mostrar que a estatura desses dois romancistas é inseparável do seu engajamento teológico. Se Anna Kariênina é, como Henry James percebeu, algo "tão maior" do que até mesmo Madame Bovary, se Os Irmãos Karamazov excede de maneira tão formidável Balzac e Dickens, a razão é a centralidade para Tolstói e Dostoiévski da questão-Deus. Por sua vez, o que torna legítima a afinidade de Tolstói com Homero e Dostoiévski com Shakespeare é uma intimação compartilhada das realidades, individual e coletiva, física e histórica, além do alcance do empírico. Para ambos os mestres russos, assim como para Pasternak e Solzhenitsyn depois deles, a assunção de D. H. Lawrence de que, para ser um grande artista ou escritor era preciso se ficar "nu para as chamas de Deus" (ou do não-ser de Deus), era auto-evidente. O constante recurso de Tolstói ao mysterium da ressurreição, as figurações de Dostoiévski de um niilismo apocalíptico, são simultaneamente atos incomparáveis de concepção narrativa e dramática e de filosofia religiosa. Esse livro evoca as afinidades profundas entre a realização russa e o cenário teológico em Hawthorne ou Melville."
Entre os contestadores cockburnianos está o filósofo esloveno Slavoj Zizék, que em várias partes proveitosas de seus longos livros sobre a crise utópica da modernidade rendida à unidimensionalidade do capitalismo, faz uma apologia embasada da necessidade do grande Outro. Zizék cita fartamente o grande escritor católico Chesterton, em especial seu livro clássico Ortodoxia. Não é um simples artifício retórico em defesa da alienação consoladora ao sagrado como método social de dominação popular. Zizék vai fundo na análise do nonsense e da estupidez contra a inerente disposição biológica humana pelo abstrato que são as correntes de ateísmo organizado. Ou Zizék só é lido por jovens nostálgicos dos movimentos revolucionários da memória de seus avós e pais, ou é lido insuficientemente pelas academias, pois nunca se menciona o caráter dele para o debate ateu, sendo um disparate colocá-lo no mesmo nível que Dawkins e Hitchens, em posição contrária. Certa vez me disseram que Zizék não era a pessoa certa para falar sobre a procura por Deus, como se houvessem universidades milenares que detêm o conhecimento secreto do Nada aproveitada apenas para credenciados. Me vejo pensando na questão epistemológica de que tudo que se produz ideologicamente pelo homem, na arte e nas ciências e em qualquer outro campos, é o resultado da procura por Deus. Me confrontei com isso quando lia ontem o maravilhoso e indispensável livro de George Steiner intitulado Tolstói ou Dostoiévski. Abaixo, um excerto do livro de Steiner.
"O nó da questão é, como em qualquer questionamento maduro do enigma da linguagem e do significado, teológico. A desconstrução reconhece plenamente essa verdade quando postula que os marcadores semânticos só poderiam aspirar ao sentido estável, à intencionalidade, se fossem subscritos por alguma origem ou autoridade final, transcendente. Não pode haver, para o desconstrutivismo, pós-estruturalismo, pós-modernismo, tal garantia. Em Presenças Reais (1989) argumentei que uma aposta pascalina na transcendência é o fundamento essencial para a compreensão da linguagem, para a atribuição de significado ao significado. Essa aposta, além do mais, caracteriza implícita ou explicitamente a grande arte e literatura desde Homero e Ésquilo quase até o presente; ela por si só nos permite "fazer sentido" da música. Os clássicos, as obras de literatura dominantes na modernidade, são "religiosos" em sentido específico. Eles vinculam a questão da existência ou não-existência de Deus. Apesar dose exemplos serem bastante raros (Leopardo, Mallarmé), um ateísmo consequente pode produzir imponentes alturas de visão. A alta poesia e arte podem ser construídas construídas a partir da "morte" ou ausência do transcendente. Como pode, e espantosamente tem sido, das diversas ordens de confronto com a possibilidade da "presença real" de Deus. O que me parece condenar a imaginação questionadora, o poder da forma significante, à trivialidade, é o abandono da questão da existência ou não existência de Deus ao absurdo semântico, a algum jogo de linguagem infantil que não é mais relevante ao homem.
Somente quando terminei Presenças Reais me dei conta de como esse argumento já havia sido inevitavelmente colocado trinta anos atrás. Tolstói ou Dostoiévski procura mostrar que a estatura desses dois romancistas é inseparável do seu engajamento teológico. Se Anna Kariênina é, como Henry James percebeu, algo "tão maior" do que até mesmo Madame Bovary, se Os Irmãos Karamazov excede de maneira tão formidável Balzac e Dickens, a razão é a centralidade para Tolstói e Dostoiévski da questão-Deus. Por sua vez, o que torna legítima a afinidade de Tolstói com Homero e Dostoiévski com Shakespeare é uma intimação compartilhada das realidades, individual e coletiva, física e histórica, além do alcance do empírico. Para ambos os mestres russos, assim como para Pasternak e Solzhenitsyn depois deles, a assunção de D. H. Lawrence de que, para ser um grande artista ou escritor era preciso se ficar "nu para as chamas de Deus" (ou do não-ser de Deus), era auto-evidente. O constante recurso de Tolstói ao mysterium da ressurreição, as figurações de Dostoiévski de um niilismo apocalíptico, são simultaneamente atos incomparáveis de concepção narrativa e dramática e de filosofia religiosa. Esse livro evoca as afinidades profundas entre a realização russa e o cenário teológico em Hawthorne ou Melville."
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| George Steiner |
sábado, 8 de dezembro de 2012
F.
"A única coisa que a literatura é capaz de fazer é o mesmo que um fósforo que se acende no meio da noite no campo: só nos ajuda a ver melhor como são grandes as trevas ao redor." (William Faulkner)
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Franz Kafka, Hannah Arendt e o Menino Medieval
Eu conheci Franz Kafka quando tinha 13 anos. Geralmente a porta de entrada para esse magnífico autor costuma ser sua novelinha mágica chamada A Metamorfose, que um colega de escola me definira ser sua descoberta de uma história maluca de um homem que acorda transformado em inseto, mas o meu ingresso foi através daquele protótipo de pesadelo opressivamente burocrático intitulado O Processo. Eu passava as férias de julho com meu pai em uma cidadezinha de Minas Gerais e nós dois, ele já um leitor inveterado e eu ansioso para honrar meus óculos de míope, encontramos uma bucólica biblioteca circular feita de tijolos e centrada entre um amplexo de árvores. Nela encontramos um monte de livros que nos fez descartar a pretensão de viagens mais longas pela paisagem mineira, e nos manteve enfunados na casa de dois andares situada em cima de um morro e com vista para os trilhos do trem onde nos hospedara o irmão de meu pai. À noite saíamos para as festas e os bares e as tantas casas de amigos de meu tio, e enquanto meu pai tocava violão, eu tentava sair de minha gritante timidez conversando com as garotas. Voltávamos radiantes para o sobrado, meu pai com a tez avermelhada pelo vermute e a felicidade ostensiva daqueles anos, e eu possuído pela febre da descoberta das possibilidades do universo feminino. Parte considerável desse êxtase atmosférico que sentíamos se devia aos livros que nos esperava, eu lendo O Processo e os contos de O Muro, e meu pai lendo O Exorcista e Manuel Scorza. Eu sabia intimamente que estava passando por um aprendizado e uma educação muito superior ao que tinha na escola. Não entendia Kafka como iria entender futuramente, nas minhas tantas releituras, mas prestava uma atenção descomunal e ao mesmo tempo relaxada, consciente de que estava tocando algo de uma verdade e lucidez extremas, algo que era real e intenso e que nada tinha a ver com as tantas dissimulações inúteis e pomposas da escola, algo que me transformava em um ser humano por abrir todas as sensibilidades e sofrimentos inerentes à condição humana. Não um técnico, como me queria a idiotização da escola.
Fiquei tão fascinado com O Processo que não consegui desvincular-me daquela frequência de como ver o mundo através de interstícios simbólicos. O mundo apresentado por Kafka era doloroso, soturno, irracional, claustrofóbico, mas, estranhamente, me deixava feliz, sem eu conseguir descobrir por quê. Passei a olhar cômodos pequenos e apertados com uma apreciação recolhida, com uma certa nostalgia espiritual. Não saberia explicar, mas Kafka me fazia lembrar, em última e infalível instância, a filologia de antigos clãs dinásticos, como se por detrás da solidão insuportável de Joseph K. houvesse a intuição de uma Avalon completamente destituída e apagada dos registros mas que, por uma distração do acaso, deixara vestígios quase invisíveis. Assim eu compreendia Kafka. Ler O Processo era uma proteção, era uma forma eficaz de entender aquilo que transcendia o positivismo das categorias sociais que cada vez mais me pareciam inadiáveis. Mais tarde, bem mais tarde, eu veria explicado, surpreendentemente, essa sensação de despropósito lisérgico em apreciar ambientes degradados em um livro de Slavoj Zizék, em que esse escritor analisa as cenas de silêncio e natureza atulhada dos filmes de Tarkóvski. Zizék explica o que eu sempre senti com enorme intensidade mas jamais imaginava que tal nível de apreensão sensorial pudesse ser verbalizada: descrevendo uma cena de Tarkóvski, em que carros fragmentados e peças de metal retorcidas aparecem em uma paisagem natural selvagem (a paisagem em ruína), às margens de um rio e na ausência ecoante de presença humana, o filósofo esloveno diz que tal sensação advêm pela pulsão capitalista em descanso. Alargando mais esse conceito específico, Kafka me mostrou a beleza da ruína por me revelar a pulsão do mundo que importa em descanso, a pulsão em descanso da história e das compulsões da vida prática, a pulsão em descanso do absurdo e da barbárie transvestidos de sociedade democrática progressista, da ciência e da tecnologia festivamente evolucionistas na melhora da espécie. O descanso da inexorável hipocrisia de ter a estimativa de vida de 70 anos e gastá-la na labuta sem razão do acordar diário para degladiar-se furiosamente pela obtenção de angústia e tristeza capitalizável. Eu, aos 13 anos, não entendia Kafka assim, mas esse meu desentendimento era muito educativo, pois as grandes obras não tem um manual de trilha perfeita a ser seguida.
Quando perguntado por seu amigo Max Brod se existiria esperança "fora desse mundo de aparência que conhecemos", Kafka ri e responde: "Há esperança suficiente, esperança infinita_ mas não para nós." Talvez por isso me vinha_ e me vem_ a intuição de que por detrás dos pesadelos de Kafka exista uma Avalon adormecida, onde, antes, muito antes, as coisas fizessem realmente sentido, as coisas realmente existissem. Como na frase ouvida pelo deão no metrô, de um homem que havia sido ateu a vida inteira, no romance de Saul Bellow (Dean`s December): "Nada é suficientemente absurdo para existir; talvez, então, deus exista!" E foi isso que Kafka sempre me disse, desde quando eu era jovem o suficiente para não entendê-lo (ou jovem o suficiente para entendê-lo, no paradoxo vaidoso de Wilde), que Joseph K., que Gregor Samsa, que K., eram seres vestigiais, órfãos de um universo supraciente de sentido pleno, de mérito absoluto, apartados nessa prisão demasiadamente empobrecida em que nada se comunica, em que as vozes são aparelhos de distúrbio e perturbação e não de aproximação; seres dotados de uma infinita liberdade, mas que na pressuração desse mundo não suportam o peso dessa liberdade e estão sempre atrás do aguilhão que lhes escravize para dar-lhes um sentido eufemista de pertencimento. K., personagem de O Castelo, é desbragadamente livre, absolutamente ilimitado, mas não suporta a aflitiva ausência de direção vinda da indiferença dos senhores do castelo, que se negam a inseri-lo na lógica da aldeia ao serem reticentes quanto se vão contratá-lo ou não como agrimensor. E Joseph K., nascido na plenitude de sua independência, não tolera sua leveza em não conhecer as cláusula do vazio que lhe imputam na forma de um processo passivo e inofensivo, mas que só cresce e se demonstra em resposta à sua reação a ele.
Estou relendo O Castelo, na tradução de Modesto Carone. Ao mesmo tempo leio Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt. Uma das minhas felicidades é Hannah Arendt, mas ainda não tinha lido por inteiro esse misto de reportagem e análise estupenda sobre a natureza do mal. São dois livros que pretendo que meus filhos leiam antes de chegarem a seus 15 anos. Só esses dois livros garantiriam uma larga margem de possibilidade de que eles se tornem pessoas distintas intelectualmente e humanistas inveterados, com empenho em não caírem em clichês das ideias nefastas e deterioradas do politicamente correto. Grande parte do livro de Arendt versa sobre os clichês aprisionadores da sociedade, que poupam as pessoas do pensamento real e as tornam indivíduos animalizados moldados para qualquer condução que lhes queira dar os poderes instituídos: até mesmo para o assassinato. Eichmann, o nazista raptado por agentes secretos israelitas em seu refugio na Argentina, no começo da década de 1960, e julgado em um tribunal em Israel por crimes de guerra, é o protótipo desse indivíduo correto, bom pai e vizinho perfeito, pedante seguidor de regras e comandos de ordem. E Arendt, que assistiu e participou ativamente de todas as fases desse julgamento, é o cérebro que transcende as tantas formas que o clichê intelectual desse enredo apresentam para cimentar o pensamento de uma escritora, mulher, judia, e distanciada apenas 15 anos desses eventos cheios de passionalidade. Arendt, diga-se em primeiro lugar, foi um dos maiores escritores do século passado. Quanta sofisticação em sua escrita, quanta lucidez e força, quanta beleza e limpidez. Ela começa atacando os esquemas pérfidos de Israel em transformar o julgamento em uma causa pessoal, em esteriótipos de condução do ódio popular contra os alemães e a pena a favor dos judeus europeus. Foi uma das primeiras, senão a única, intelectual a fazer isso, naquela primeira década após o fim da segunda guerra: a se indispor com os atos de ofício laudatórios que o povo do qual formalmente pertencia poderia lhe oferecer, caso ela se predispusesse a ser um dos mitificadores da miseração judaica. Assim como faz em Origens do Totalitarismo, em que apresenta um quadro pouco festivo sobre o quanto os judeus ricos eram impiedosos e indiferentes ao destino dos judeus pobres, em Eichmann ela reporta o quanto a matança dos judeus poloneses pelos nazistas pouco foi considerada pelo establishment moral de Israel, e o quanto Israel se esforçou para enfocar o genocídio apenas nos judeus europeus, deportando o restante do mundo e reduzindo os crimes de crime contra a humanidade para crime contra o povo judeu.
Mas o melhor e mais impressionante desse indispensável livro de Arendt, é a sua desmistificação do monstro assassino e impiedoso que intentarem fazer de Eichmann, apresentando-o como um homem medíocre, simples, mesmo de bom coração, que, paradoxalmente, foi um dos poucos nazistas que fizeram algo efetivamente válido para salvar milhares de judeus antes dos massacres. Seu diagnóstico é tão fantástico que o livro ultrapassa as fronteiras mesmo da filosofia desconstrutivista para ser um dos retratos mais profundos da natureza humana formalizada pela sociedade. A ironia finíssima de Arendt é um deslumbramento: a Eichmann bastou ler dois livros, seus dois únicos livros lidos na vida inteira, para torná-lo um progressivo homem poderoso do führer; dois livros que versavam sobre o movimento sionista de deportação dos judeus e criação de um estado independente para eles; em determinada parte do volume, Arendt descreve a incrível vaidade de Eichmann pelo poder no sentimento de superioridade que ele tinha frente a seus subalternos, afinal, "em parte porque eram ignorantes, nunca haviam lido um ou dois 'livros básicos'". Outro momento revelador é quando um dos policiais da carceragem oferece a Eichmann, para livrá-lo do tédio, o Lolita para ler, ao que o alemão o devolve depois de um dia alegando ser um livro imoral e contra seus princípios. Para um Brasil de hoje, uma pensadora como Arendt seria impossível no que vemos nessa frase definitiva que comportaria grande parte da intelectualidade e a mídia nacional: "esse horrível dom de se consolar com clichês não o abandonou (Eichmann) nem na hora da morte".
Pediram-me por e-mail para que eu escrevesse um texto de auto-ajuda sobre meus tempos de gagueira extrema. Percebi que ainda não sou capaz de fazer isso da maneira séria como gostaria, por isso, por enquanto, escrevi apenas uma frase: o mundo pré-galilêico da criança gaga, em que ela está para cair de suas bordas planas em direção ao abismo a cada grande vergonha de sua incapacidade vocálica por que passa.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Cosmópolis, de Don Delillo
O herói de Cosmópolis, Eric Packer, é o elo entre duas cadeias da evolução humana. A que ele vai deixando para trás é a que por si mesma já se formou sem os adendos desnecessários da moral e as obsoletas noções da filosofia clássica; a que ele vai se transformando é o passo além do super-homem, imune de piedade, amor, ódio e imortalidade, a ponto do anseio do lugar em que outras eras mais flácidas ficava a alma ser o permanecer como memória virtual, uma informação eterna condensada em fibra ótica. Eric Packer possui bilhões de dólares, tem 28 anos, aproximados 6% de gordura corporal, e encarna na amplidão de sua limusine de alto luxo o afagar de ego dos super-ricos no monitoramento através das telas LED das cotações das bolsas mundiais e tudo que as câmeras externas do veículo captam do mundo do lado de fora. Eric Packer, em sua aproximação limítrofe a um novo avatar gênico, é excessivamente inteligente; em suas noites cada vez mais tomadas de insônia ele se dedica a ler poemas (principalmente os muito curtos, com escalas dissílabas matemáticas) e grandes tratados de física; sua capacidade de transcender a realidade num nível de refinamento simbólico é profunda; e ele constantemente é tomado pelo desejo adâmico de re-nomear os objetos (por que os pés e braços das cadeiras continuam sendo chamados assim?). Em seu avançado estágio de mutação, ele não comporta mais ser alvo das defasadas teorias sobre a psicopatologia do poder e a egolatria da dominação do mundo. Ele é outro ser, incatalogável; o predador perfeito da geração técnico-virtual que prescinde das formas usuais da identificação da crueldade e dos assassinatos cruentos. Ele tem a promessa da gélida assepsia do bebê confinado no monolito de 2001, uma Odisseia no Espaço.
Toda a trama do romance transcorre desde o amanhecer em que Eric sai de seu apartamento triplex em Nova York, descendo pelo elevador especial que só toca Satie (o outro está programado a tocar um rapper sufista chamado Brutha Fez), entra em sua limusine e se dirige para cortar o cabelo em algum lugar da quinta avenida. Até o anoitecer, tantas coisas acontecerão com Eric, na conjunção da lógica dos desastres, que ele acabará privado de todo seu dinheiro e poder. É nesse intercurso que a prosa de Delillo alcança plena sublimidade. Delillo cria uma obra-prima inigualável, que atesta ser este volume pequeno de menos que 200 páginas o ápice de sua suficiência; um produto de mestre em que tudo parece perfeito, calibrado, sem excessos, ainda que diga excessivamente, que provoque excessivamente. É um romance vertido por um William Blake enlouquecido pelas visões de sua lucidez profética (embora o pesadelo narrado seja desconcertantemente contemporâneo), com a capacidade de enxugamento de um Flaubert. E Delillo mostra maturidade e independência como escritor ao não cair nos cacoetes óbvios que tal trama parece obrigar a cair: ele não bebe dos tons distorcidos da contra-cultura nem da literatura lisérgica. O imediatismo de sua mensagem, passada na mais elevada arte, não aceita camuflagens: com frases de sintaxes cortantes, carregadas de uma poesia límpida e escatológica, os diálogos às fartas que revelam uma vivência de quem conhece o sofrimento e o terror profundamente, Delillo tece uma contundente crítica ao sistema financeiro global e sua inevitável propensão ao suicídio. Acompanhando o pós-niilismo e o maquinismo deístico de Eric, fica um tanto difícil ao leitor suavizar as premonições com o pensamento: "isto é só ficção; não se deve levar o autor tão a sério".
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Nobel de Literatura Vai para o Chinês Mo Yan_ Alguém aí Já Ouviu Falar?
Tá bom, tá bom! Que bonito! Que politicamente correto! Um chinês! Tantas implicações políticas e econômicas! Mas de vez em quando a academia deveria pensar na promoção da literatura para as massas, principalmente nessa nossa época em que a literatura precisa mesmo de uma forcinha, em que os escritores precisam de um pouco do pecado do glamour das revistas de celebridades e do potencial de venda das empresas de publicidade. Um Philip Roth como laureado teria desencadeado discussões e atenções exageradas pelo mundo, um clima de festa, teria levado um sem número de possíveis leitores às livrarias; ou um Murakami. Mas não... taí o, coméquechama?, Mo Yan, que ninguém conhece e não vai despertar a atenção de ninguém, e tem tudo para ser esquecido rapidamente como o foi o ganhador do ano passado, que não me recordo o nome.
sábado, 11 de agosto de 2012
Culto à Personalidade: Meus 20 Romances Preferidos ( II )
11. Viagem ao Fim da Noite, Louis-Ferdinand Céline
Também um dos romances mais engraçados que já li, apesar de ser uma obra de uma negrura devastadora. Ácido, honesto até a medula, longe de qualquer hipocrisia! Literatura como pouco se vê, daquelas em que o escritor é absolutamente livre para falar o que quer. No Brasil de hoje, obras assim jamais seriam permitidas, ou se o fossem, seria para o assassinato institucionalizado do autor pelas forças partidárias da assepsia social da correção política. No universo medíocre acadêmico nacional, em que os professores populares, ícones de alunos a quem pouco importa as letras mas a titulação acadêmica máxima (daí prolifera-se a praga epidêmica), são oligofrênicos arrogantes acabrestados pelo ideário do partido, Céline seria aceito apenas em sua menção distanciada de "grande autor maldito" em coquetéis honrosos. O tipo de autor que não precisa ler mas fala-se que se lê, para dar uma de descolado. Enfim, aqui tem uma prosa poderosíssima, ousada, feita com sangue. A biografia de Céline é um tanto complicada, como se sabe, mas como é fundamental lê-lo!
12. Em Busca do Tempo Perdido, No Caminho de Swann, Marcel Proust
Demorei para chegar a Proust. Não tem como falar de Proust em poucas palavras. Essas páginas estão entre os momentos mais felizes de minha vida de leitor. Há muito aqui oferecido à alegria do pensamento. Amo Proust.
13. O Teatro de Sabbath, Philip Roth
Há uma resenha longa sobre esse romance nesse blog. Fundamental!
14. Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Marquez
Romance viciante. Viciei-me nele por uns vinte anos, e foi difícil me desvencilhar da crença de que fosse o maior dos romances, o mais bem escrito, o mais incrível. Daí que fosse natural que eu passasse a odiá-lo por muito tempo, maltratá-lo e desprezá-lo. Mas depois de muito me esquecer dele, pude retornar e ver sua real dimensão. Não sou patriótico e nem ligado a questões geográficas, mas é indiscutível que GGM compôs um imaginário representativo do latino-americano. E aquela primeira frase...
15. O Arco-Íris da Gravidade, Thomas Pynchon
Um aprendizado de estilo de um mestre da escrita. Pynchon é capaz de escrever bem qualquer coisa, de ir além em toda exposição, de atravessar profundidades inimagináveis. E o faz num desprezo às convenções e às boas maneiras de uma maneira provocadora incrível, talvez superando mesmo Joyce. Seu material de trabalho são os objetos de alienação da cultura e do entretenimento de massas: os desenhos animados, as drogas, a televisão, o cinema norte-americano. E nos surpreende com oásis de ternura arrebatadores. É um romance onde tudo acontece_ embora alguns, mesmo eu, em resenha neste blog, digamos o contrário. Há páginas e páginas de histórias alheatórias contadas com um brilho invejável. Realmente um mestre e um gênio, não há meios termos.
16. Luz em Agosto, William Faulkner
Aqui temos um Faulkner de uma prosa menos intensa, mostrando o quanto o cara era bom na narrativa clássica. É por isso que eu digo que a alta-literatura é o maior dos entretenimentos, e é uma trista mutilação que nosso sistema educacional não esteja na condição de oferecer esse prêmio para os estudantes, mas fique na dama-de-ferro das velhas professoras tristes e pedantes que torturam os alunos com José de Alencar a Daniel Galera. Os personagens aqui violentam o leitor com seus passados, com seus silêncios, com sua incrível solidão, que descamba para a violência desesperada. Li esse romance, sério, mais que cinco vezes, atrás do segredo do por que me fascina e causa sempre um amargo na garganta. Como se nada fosse o que parece. Como se houvesse um impossível desamparo, incorrigível e esotérico, por detrás de todos os crimes. Faulkner era um tremendo de um filho da puta. Vai tomar no cu, Faulkner!
17. Extinção, Thomas Bernhard
Uma pancada do início ao fim. Há uma resenha sobre o autor e a obra por aqui no blog.
18. O Planeta do Sr. Sammler, Saul Bellow
Um romance ensaio, com várias reflexões sobre a condição humana. Também o li tantas vezes que sei longas passagens de memória.
19. A Consciência de Zeno, Italo Svevo
Svevo foi apadrinhado por ninguém menos que James Joyce, mas não tem nada do experimentalismo joyceano, muito pelo contrário: seu tom é oitocentista e clássico, e sua erudição se embrenha lucidamente para um dos mais bem escritos romances. É um deleite ler Zeno. Ri-se tanto com esse livro! Lembro que mal via a hora de sair do expediente e retornar à casa para reaver o livro em mãos.
20. O Finado Matias Pascal, Luigi Pirandello
Muito já se esqueceu desse romance convencional que nada tem das correntes modernistas, tanto é que não achei uma imagem de capa mais bonita que a que aparece aí em cima. Há décadas ele não é reeditado por aqui. Mas como é bom a narrativa do Pascal que é dado como morto pela família cuja esposa o martiriza, ganha uma bolada milionária num jogo, e começa uma vida nova com uma identidade inventada. Maravilha de livro!
Culto à Personalidade: Meus 20 Romances Preferidos ( I )
Listas são coisinhas delicadas, que agradam todo mundo que diz não suportá-las. Pensei e pensei, e acho que, finalmente, cheguei à ordem dos meus 20 melhores romances de todos os tempos, os que mais me influenciaram e moldaram minha visão não só do que é a arte, mas a vida.
1. A Montanha Mágica, Thomas Mann
Esse sempre vai figurar no topo da minha lista. Nunca me senti tão absorvido e deslumbrado por um livro quanto me senti por este.
2. Os Demônios, Dostoiévski
Há um diabolismo perigoso aqui, uma forma de inteligência e uma revelação sobre o homem assustadoras. Da metade para o final desse livro imenso, eu era quase incapaz de ficar quieto sentado ou deitado, tamanha a adrenalina da leitura. O exemplo máximo do suspense. O engendramento progressivo do assassinato que aparece no romance é uma das coisas mais maravilhosas que já vi. Hitchcock é fichinha. Para abalizar minha opinião, Thomas Bernhard teve a mesma impressão quando o leu, e a disse em sua biografia. Assim como ele, ao acabar a leitura pensei que jamais iria encontrar um livro tão bom.
3. Ana Karenina, Tolstói
Não tenho muito o que dizer sobre esse. Apenas um clichê, mas não menos verdadeiros: uma das maiores realizações humanas. Quem ler Ana Karenina e dizer que não gosta, aí é caso para internação.
4. Absalão, Absalão!, Faulkner
Um livro como nenhum outro. Uma força verbal e uma beleza narrativa e reflexiva que me fez pensar que eu seria o miserável mais feliz do mundo se escrevesse igual a Faulkner. Faulkner foi o cara mais feliz do mundo. Se isolar em seu escritório e ter o domínio desse incrível talento, deveria ser um êxtase distintivo igual a nenhum outro. Andar por seus dias famélicos, passar pelas portas dos bancos onde não havia traço de seu nome, e ter consciência de levar o que ele levava... Borges, grande admirador (e tradutor) de Faulkner, expressou bem (claro!) o que uma obra de Faulkner provoca no leitor. Mesmo os mais pequenos romances de Faulkner, ele disse, causam um impacto no final da leitura. A pessoa não sai de um livro dele da mesma maneira que quando entrou. É isso.
5. Tristram Shandy, Laurence Sterne
Quando li Tristram Shandy pela primeira vez, aos 20 anos, eu não acreditei. Depois me perguntam por que eu gosto e respeito tanto a alta-literatura: taí, pelos impactos que ela sempre causa em todos os períodos da minha vida, pelos Alephs que me abre no curto horizonte da mesmice, mostrando que a aparência das coisas é enganosa, que tudo, citando Whitman, são superfícies impossíveis.Li-o em uma biblioteca e à medida que me maravilhava com aquilo, estudava instintivamente recursos de como roubar o grosso volume. Não tinha como enfiá-lo no espaço abaixo da fralda da camiseta e a cintura do jeans, como era meu método de sucesso. De maneiras que, à medida que as páginas passavam, não vi outro recurso que iniciar uma de minhas poupanças monásticas para poder comprar uma edição usada em um sebo. O maior benefício que Shandy fez em mim foi a descoberta de que nada há para se levar a sério, a não ser o humor como método filosófico. Engana-se quem subestima isso. Como Sterne diz no oferecimento de abertura do livro, quem não sorri revela uma doença no espírito. Sterne foi minha libertação. Gargalhar com essas páginas foi minha conversão espiritual. Desde então já não espero o arrebatamento, já o tive. É delicioso o enrolar da trama, que aliás jamais acontece, a infinita conversa entre o narrador e seu tio, as esplêndidas observações. Na verdade é um livro sem tamanho e deveria estar ali no primeiro lugar. Aliás, acabo de ter esse insight: ninguém nunca vai entender Ulisses se não ler primeiro Sterne. Ninguém menos que Javier Marías é um apaixonado por esse livro, tendo ganhado importantes prêmios por sua tradução espanhola dele.
6. Herzog, Saul Bellow
Já falei muito dele aqui, até em resenha própria. Foi um divisor de águas para mim. Mostrou que literatura sublime se faz com qualquer assunto, mesmo com o cotidiano de um judeu burguês e intelectual norte-americano. Só Bellow é páreo para Faulkner. Os dois estão, solitários, no Olimpo dos escritores inalcançáveis do século passado.
7. As Vinhas da Ira, John Steinbeck
Digamos que seja o romance atmosférico manniano das causas sociais. Personagens que ficam para sempre na lembrança, e uma ternura humana poderosa. Do alto da minha masculinidade ostensiva, devo confessar que se trata de um dos romances que me fez chorar. Há um pregador religioso impagável, que nas pregações que fazia citava esse cacoete frasístico de Jesus: Que diabos! Também muito engraçado. Triste e engraçado, à maneira de Chaplin e Twain.
8. Ulisses, James Joyce
_______________________, __________________________.
9. O Homem Invisível, de Ralph Ellison
Único romance desse autor negro. Propenso-me a colocá-lo também ao lado de Faulkner e Bellow. Incrível a falha de leitura de alguns autores contemporâneos, sobretudo nacionais, que nunca citam esse romance, demostrando não terem-no lido_ a exemplo a indiferença do mercado editorial, que há mais de 30 anos não relança esse romance. Uma crítica social das mais poderosas, não só sobre a discriminação racial nos EUA, mas sobre a sobrelevação do humano. O negro narrador é quem é o homem invisível do título, não do ponto de vista das assombrações poeanas (como ele afirma em sua primeira página antológica), mas o homem desprezado, exilado em sua própria miséria social. Tem a força lúcida da incorreção política de Os Demônios, pois não eufemiza e heroiciza ninguém; os negros norte-americanos são mostrados em sua bronquidão e ignorância espiritual resultado de séculos de exploração. Na verdade é uma incrível jornada pelos Estados Unidos suburbano, à maneira de Dante, só que em vez da companhia de Virgílio, o narrador, como ele diz, é ciceroneado por Louis Armstrong. Um romance movimentado, com muita luta de boxe, revoluções fajutas e mal intencionadas, mulheres perversas e uma profunda, erudita e inigualável prosa poética.
10. Dia de Finados, Cees Nooteboom
Também pouco tenho a dizer a mais desse. Tem uma resenha sobre ele por aqui. Soou como uma calma e recolhida sinfonia de enorme beleza e confiança.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Enamoramientos, la Impunidad
Los enamoramientos, del autor español Javier Marías, es una novela excelente. Es la historia de un crimen pero no es una novela negra. Yo la definiría como una novela de lenguaje. Y como una novela sobre la impunidad.
¿Por qué una novela de lenguaje? Porque ese es el principal talento de Javier Marías, moldear el lenguaje como si fuera una materia dúctil, mágica. Como para Platón, para Homero, para los grandes poetas –Eurípides, Sófocles, Shakespeare, Virginia Woolf– el lenguaje es su tierra, su ser. Aunque tuviera otro tema, o ninguno, una la leería para dejarse arrullar por la cadencia, por el ritmo, por la belleza variadísima de nuestro idioma, a veces aburrido, soso o farragoso en las manos de escritores y escritoras contemporáneos –con excepciones–.
Pero es también una novela sobre la impunidad. Posiblemente España sea uno de los países más corruptos de Europa, como Costa Rica lo es en Latinoamérica. La impunidad de esta novela es la de los pequeños crímenes que por fuerza van llevando a los grandes, pero mirados, sentidos, hablados desde las conciencias. Marías tiene talento para meterse en el alma de mujeres y hombres.
La buena literatura suele llevar al lector a pensar en su propia vida, en su propio país. La impunidad, grande y pequeña, ha sido y sigue siendo el principal objetivo de los políticos tradicionales de Costa Rica, especialmente del partido que hoy nos gobierna. Y me parece que, sin que nadie chistara, los diputados han dado un paso gigante hacia la impunidad legal con la nueva ley mordaza. ¡Guardar los secretos políticos! En una democracia no puede haber secretos políticos. Pero claro, nuestro sistema no es una democracia, de democracia lo único que tiene es el carnaval electoral. Es una ley que debe preocuparnos a los escritores pues impide la denuncia. Con esa ley no habría podido escribir La Loca de Gandoca. Y menos comentarla públicamente.
ANACRISTINA ROSSI
El Financiero (Costa Rica), 29 de julio de 2012
Retirado aqui.
terça-feira, 31 de julho de 2012
William Faulkner no Balcão
Nas fotos ele sempre aparece muito senhor de si, com um certo ar distante de artista a quem não interessa a vanguarda, como se obedecendo um antigo e arraigado conceito adquirido nos pátios da infância quando se deparou pela primeira vez com a obscura imagem de algum poeta francês morto e há muito esquecido e que então passou a ser a atmosférica mitológica não revelada de tudo que escreveu_ não revelada e nunca manifesta em nenhuma palavra sobre sua particular urdidura artística, a não ser nessas fotos, em sua pose de barão destituído de quem nunca tirarão a última filigrana de honra e sobrevivência familiar e de impecabilidade estampada no branco anódino de seu terno. Em algumas fotos, não de todo inconscientemente desprovidas de intenção, ele aparece em situações mais íntimas, sem camisa e de calção sentado em uma cadeira de praia, em mangas de camisa, furtivamente flagrado na sacada de sua propriedade rural, por entre as pilastras, depois do que parece ser o cotidiano árduo não da escrita, mas do bruto trabalho no campo. Isso casa bem com suas declarações de que não se considera mais que um fazendeiro, de que não lhe interessam viagens para o exterior, de que as rodas de conversa das quais participa não são as dos salões literários mas as que ensejam os funcionários de suas terras, a maioria negros e o absoluto deles iletrados e só intuidores, sem que isso lhes desperte importância, de que o patrão exerce hora ou outra algumas tarefas referentes a um mundo estrangeiro distante de brilho inapreensível.
Nada revela mais sua fragilidade física que vê-lo pessoalmente, aquém dos efeitos helênicos das fotos em preto e branco prontas para reforçá-lo inigualavelmente em peso e imortalidade nas paredes das universidades. Sua magreza, sua baixa estatura, seus cabelos brancos e o erradio ar distraído que se salienta ainda mais pelo indelével afundamento das bochechas_ revelando a falha arcádica dos molares, um indicativo a mais de sua origem advinda do mais fundo e imolável sertão sulista_, não o torna diferente da imagem do homem mais prosaico e invisível de um povoado do interior. O que ao mesmo tempo refirma essa característica e a contradiz é seu olhar reservado, dirigido para dentro, distraído, alheio, intenso no centro das rugas da pele das órbitas, mediativo sem ostentação, como se voltado para assuntos de armazéns e medida de gebras, a imagem perfeita de avô que atravessa anos de juventude deformada pela ausência de cicatrizes e só encontra sua constituição verdadeira quando o corpo envelhece, quando a pele perde o frescor e se entremeia de sulcos da experiência. Como a velhice se assenta bem com seus livros, o leitor visitante pensa, como a sua juventude que o enfraquecia na falta de simpatia e incompatibilidade com seu conteúdo deve estar por detrás de seu fracasso inicial, da falta total de crença dos editores naquela púbis que desperta apenas significados rasos de garoto leviano e evasivo. Aos 50 anos, como se reconhecendo o valor necessário da degradação para efeitos mercadológicos, ele aparenta ter 60 ou mais, ele finalmente alcançou o aspecto que o torna eloquente nas fotos, que o torna compatível a toda a densidade de seus escritos.
Se bem que ele não chegou a ser velho. A velhice cronológica era um luxo pouco alcançado para os da sua geração. Morreu, como se sabe, em cima de um cavalo, passeando, como fazia todos os dias, pelos campos de sua propriedade. Enfarto cardíaco fulminante. Bebia compulsoriamente e como por força de uma religião desesperançada dos que acreditam num mundo impossível de altos padrões humanos, de altos sacrifícios e absurdos silêncios como arma falível à intolerância; bebia como todos de sua geração, não pelo sabor ou pela adstringência da loucura, mas pelo costume vernacular de ter de fazer os gestos necessários da ortodoxia em determinadas horas do dia. Os heróis dos livros que inventou são todos de diferentes matizes coloridos, mas todos subtraídos a um espectro próprio do negro, como se suas cores houvessem sido decantadas por centenas de anos e o rosa, o azul, o verde, tivessem se degradado para um filtro univoco de sépia que sela seus personagens com uma suprema exaustão. (Como se fossem eles combalidos por um traço divinatório incômodo que tudo o que fazem parece ser determinado por um mecanicismo e automatismo alheio às suas vontades, se tivessem vontade; como se estivessem se observando além do corpo, calmamente e já sem crítica, a seus assassinatos, a suas compulsões pelo sustento, às suas submissões aos efeitos terríveis do calor do dia.) Por um bom tempo foi considerado pelos existencialistas o mais corajosamente e independente dos existencialistas, pelos hispano-americanos o mais colombiano e indígena dos autênticos romancistas no exílio, pelos sociólogos combativos o mais defensor do direito das minorias, e por quase a totalidade desses como o escritor que subliminarmente mostrava o quanto somos falíveis e sem redenção. Daí lhe deram o prêmio Nobel e ele consertou a coisa lendo, do alto de seu balcão hierárquico em Estocolmo, do lado do espadaúdo Bertrand Russel (que o apequenava ainda mais em sua estatura física), e demonstrando para o espanto da platéia que havia recuperado a segurança que todos haviam julgado perdida ao verem-no mal se sustendo de bêbado, o seu discurso sobre a perseverança e persistência do homem, a sua crença no homem.
Existem tantas lendas a seu respeito que elas já passam a ser suspeitas de fatos. Era egresso da Universidade do Mississipi, em Oxford, mas não aguentou um ano e desistiu, indo trabalhar em uma livraria de Nova York. Era visto imóvel na mesma posição durante uma hora, em profunda contemplação interior. Passou por vários empregos: quando era carteiro, cartas não chegavam a seu destinatário; quando era mineiro, escreveu todo um livro, intitulado Enquanto Agonizo, com o caderno e o lápis por cima de uma debulhadora, nas horas de descanso. Nas poucas vezes que saiu de suas terras e do horizonte reduzido de sua infância_ quando já mundialmente conhecido_, diz-se que em Paris entrou num bar para ver James Joyce, olhou de longe e saiu. No Japão do pós-guerra, foi um dos únicos, senão o único, escritor americano que foi ouvido completamente por japoneses inteirados em diversas palestras sobre a natureza humana. Coetzee escreveu um ensaio em que realça o substrato de seu alcoolismo, as tantas vezes em que sua esposa fugiu dele, o quanto sua filha não guarda boas lembranças do pai que esmurrava as portas da casa. Talvez tivesse sido um homem cujos demônios afloravam com frequência, como ocorre com todos os homens. Talvez não tivesse sido um bom pai, talvez tivesse sido apenas um patrão estagnado em sua postura vestigial de patriarca satisfeito com suas posses de cabeças humanas, talvez sua irresponsabilidade e sua completa ineficiência social revele, em última instância, a preguiça dos que não se importam com nada mas que tem que fazer o teatro da consideração de alguma forma (a dele sendo pelas letras). Mas o Faulkner que vem à cabeça e no coração do leitor que o viu em vários perfis é o que escreveu de forma inigualavelmente profunda, verdadeira e humana, as razões por Thomas Sutpen ter se tornado tão inumano_ sua rejeição e sua solidão na infância_ naquelas páginas de reminiscências acidentais que equivalem a uma abdução violenta do leitor para uma dimensão de ternura quase insuportável. Vem do mesmo diagnóstico reafirmado em Joe Christmas, em Luz em Agosto.
Existem tantas lendas a seu respeito que elas já passam a ser suspeitas de fatos. Era egresso da Universidade do Mississipi, em Oxford, mas não aguentou um ano e desistiu, indo trabalhar em uma livraria de Nova York. Era visto imóvel na mesma posição durante uma hora, em profunda contemplação interior. Passou por vários empregos: quando era carteiro, cartas não chegavam a seu destinatário; quando era mineiro, escreveu todo um livro, intitulado Enquanto Agonizo, com o caderno e o lápis por cima de uma debulhadora, nas horas de descanso. Nas poucas vezes que saiu de suas terras e do horizonte reduzido de sua infância_ quando já mundialmente conhecido_, diz-se que em Paris entrou num bar para ver James Joyce, olhou de longe e saiu. No Japão do pós-guerra, foi um dos únicos, senão o único, escritor americano que foi ouvido completamente por japoneses inteirados em diversas palestras sobre a natureza humana. Coetzee escreveu um ensaio em que realça o substrato de seu alcoolismo, as tantas vezes em que sua esposa fugiu dele, o quanto sua filha não guarda boas lembranças do pai que esmurrava as portas da casa. Talvez tivesse sido um homem cujos demônios afloravam com frequência, como ocorre com todos os homens. Talvez não tivesse sido um bom pai, talvez tivesse sido apenas um patrão estagnado em sua postura vestigial de patriarca satisfeito com suas posses de cabeças humanas, talvez sua irresponsabilidade e sua completa ineficiência social revele, em última instância, a preguiça dos que não se importam com nada mas que tem que fazer o teatro da consideração de alguma forma (a dele sendo pelas letras). Mas o Faulkner que vem à cabeça e no coração do leitor que o viu em vários perfis é o que escreveu de forma inigualavelmente profunda, verdadeira e humana, as razões por Thomas Sutpen ter se tornado tão inumano_ sua rejeição e sua solidão na infância_ naquelas páginas de reminiscências acidentais que equivalem a uma abdução violenta do leitor para uma dimensão de ternura quase insuportável. Vem do mesmo diagnóstico reafirmado em Joe Christmas, em Luz em Agosto.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Aqui do Lado
Já há algum tempo leio os blogs destinados a escritores e suas obras. Leio-os assiduamente, toda a vez que ligo o computador. A maioria dos dias, tais blogs são a razão única que me sustenta na web. Há, entre esses sites, fundações em nome de escritores (como a de Saul Bellow), jornais com uma tradição já consolidada na decifração e estudo aprofundado da obra (o melhor entre estes é o destinado a Thomas Pynchon, que mostra um grupo de gente realmente empenhado), e locais esparsos, oficiais ou não, onde textos exclusivos são escritos pelo autor e postado lá (o de Philip Roth se distingue). Entre os da nossa raça, claro que eu lia fidedignamente o do Saramago, que, apesar de tanto ler dele, o que mais senti com a sua morte foi a interrupção definitiva desse contato diário de intimidade. Um dos meus preferidos é o poderoso blog do Javier Marías, escritor que vem sendo uma das minhas novas obsessões. Lá, encontro postagens atualizadas com empenho em que Marías, um dos maiores escritores do mundo e um cara simplesmente inigualável (tem entre seus admiradores gente como Coetzee, Husdie, Vila-Matas_ e Bolaño, o zinca do Bolaño, quando falava de rivais de profissão, admitiu que Marías era o melhor escritor em espanhol das últimas décadas), textos que tratam sobre política europeia atual, sobre literatura, sendo entre estes um gratificante estudo sobre ninguém menos que William Faulkner.
Pois bem. Eu nunca pensava que um dia a web iria ser levada a sério e de forma tão desencanada assim por grandes escritores. Que facilidade há ali no blog do Marías. Ele se deixa aparecer com uma vaidade saudável, faz um mural de suas realizações, algo que deve alimentar muito a tietagem mas também se mostra uma arma honesta para se discutir e apreciar literatura de uma forma ampla e moderna. Tais blogs me mostraram que os escritores souberam reverter a net para seus benefícios e para o benefício dos livros. Não sei onde li um desses doutores afirmar que a o afã de coisa inigualável da net passou, e ela está se desmaiando calmamente em seu devido lugar de mais um utensílio de comunicação, sem mistérios e sem perigos, como o telégrafo e a televisão. A net perdeu seu caráter ofensivo e ameaçador, e o Facebook, segundo esse mesmo autor, em dez anos não será mais lembrado (fica fácil dar corda a esse prognóstico ao ver o prejuízo que tal empresa está tendo após abrir suas ações na bolsa, e a crise relativa por anunciantes _ a General Motors, sua principal patrocinadora nos EUA, não renovou o contrato para os próximos anos).
Renovei meu espanto por me ver próximo a um escritor estimado ao postar um comentário em um blog português hoje. Há muito não leio Lobo Antunes, uns cinco anos; mas o li muito, com afinco e deslumbramento. Li os Cus de Judas, O Esplendor de Portugal, O Conhecimento do Inferno, e mais uns três ou quatro. Antunes é um desses escritores perigosos para um escritor aspirante ao mercado de publicações. Ele é tão deletério quanto Hemingway. Ao se ler Antunes, a pessoa passa a escrever tudo e qualquer coisa com a voz do Antunes na cabeça.Parece uma possessão demoníaca. Até um simples recado preso à geladeira para a esposa tem um acento consonantal que cheira nitidamente aos longos parágrafos polifônicos carregados de metáfora antuneanas. Quando eu lia Hemingway, até para conversar pedindo o troco ao cobrador do ônibus soava com a macheza de índio lacônico do autor das aventuras de Nick Adams. Deixei de ler Antunes não por causa disso, mas porque ele passou a seu o autor mais pós-revolucionário e pós-literatura dos últimos tempos. Seus mais recentes romances parecem ter sido contaminados por um vírus de computador. Textos desalinhados, várias vozes falando ao mesmo tempo, um desconstrutivismo que simplesmente me expulsou de vez. Uma das coisas que mais lamento, por certo, no universo literário é esse fato do Antunes ter-se finneganswakeizado.
Mas a coisa que eu estava a falar era sobre a intimidade da web ao nos aproximar de escritores.Pois postei um comentário sobre Antunes em um blog falando sobre um de seus romances, e quem parece que aparece no comentário debaixo, senão o próprio Antunes? Não examinei a veracidade da coisa, mas pelo atenção severa que dei ao caso, creio que é o Antunes.
Ainda bem que não falei de todo mal do cara, só o que falei aí em cima. Acho.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Rosa
A Caminhante me desafiou já tem uma semana. Ela lerá o Ulisses se eu finalmente ler Grande Sertão: Veredas. Pois andei por toda a cidade à procura do livro do Rosa e só fui encontrá-lo hoje. A trigésima terceira edição da Nova Fronteira. Li a primeira página e, confesso, fui alvo de uma intensa preguiça. Isso requer explicação: eu me considero um exímio leitor, um leitor profissional. Sou assolado por uma intranquilidade infinita quando leio apressadamente. Há um ano li Seu Rosto Amanhã, do Javier Marías, em alta velocidade, e saí com uma impressão ruim desse cultuado romance. Semana passada adquiri as outras duas partes da trilogia do Marías e, de birra, reli a primeira parte com uma renovada atenção, e eis que tive opinião totalmente oposta do primeiro enfrentamento da obra. Seu Rosto Amanhã é esplêndido! Lembrei de um personagem do Saul Bellow (creio que Charles Citrine, o narrador de Humboldt`s Gift), que percebia a afasia que o cotidiano lhe causava ao se diagnosticar a velhice das leituras desatentas, ele que também se deliciava por sempre ser um leitor vigoroso. Pois a releitura do Marías me fez ver passagens do livro que me fizeram perguntar: por que não sublinhei isso da primeira vez? Pois foi esse cansaço que me pego tendo no vislumbre da primeira página de Rosa. Abrindo meu consciente, o que me suscitou dos neologismos de Rosa deve ser a mesma coisa que a lâmina de barbear cruzada por sobre o espelho de Buck Mulligan deve ter provocado na Fernanda: o desestímulo diante a palavra. E esse é o maior dos pecados, sempre combatido por mim. E Rosa me causou_ e ainda me causa isso. Rosa, o sertão, o brasileiro, as tantas escolas próximas com suas ortodoxias pesadas que rumorejam por detrás das páginas do Maior Romance Brasileiro de Todos os Tempos, aquele português sertanejo do qual eu não esperava ter que enfrentar logo agora, logo agora, que tenho tanto para ler, mas que interrompi a lista cronológica para aceitar um desafio de alguém que não conheço pessoalmente mas prezo muito. A única coisa que sobra de boa dessa péssima impressão, dessa impressão desonesta e preocupante, é que os maiores livros da minha vida, ou grande parte deles, vieram desse mesmo cansaço. Ulisses, Absalão Absalão, Tristam Shandy, Memorial do Convento, e muitos outros... A leitura guarda uma alegria suprema mas às custas de disciplina acirrada. E repito o que costumo dizer por aqui e por outras paragens: não é o leitor que aceita o livro, mas o livro que aceita o leitor. O leitor que tem que estar à altura do livro, senão, mesmo que apenas pela força física extenuante de atravessar maquinalmente 600 páginas, tudo será tempo perdido. Estou bastante ocupado hoje e não posso me alongar. Mas, conforme combinei com a Fernanda, começaremos hoje o desafio. Às nove horas vou para meu refúgio e me revestirei de humildade e atenção para que Rosa me aceite em toda minha estrangeridade e extravagância.
sábado, 16 de junho de 2012
Bloomsday 2012
16 de junho. Hoje é um dia especial para todos os agraciados pela leitura de Ulisses, de James Joyce. Para todos que sabem que a felicidade é continuamente encontrada nas grandes leituras. Para todos que amam os livros; que nunca foram contemplados pela exaustão ou a insuficiência diante as palavras. Trata-se do Bloomsday, o dia em que transcorreu toda a ação de Ulisses, em 16 de junho de 1904 (na verdade o final do romance pega as primeiras horas da madrugada do dia 17 de junho, fato que pouquíssimamente é comentado; mas tudo bem, abre precedente para aumentar-se o prazo da comemoração). Eu já encontrei a felicidade na leitura de muitos livros: Anna Kariênina, Os Demônios, Herzog, O Teatro de Sabbath, Longe e Há Muito Tempo, Absalão, Absalão, Luz em Agosto, A Montanha Mágica... e a felicidade que me esperava em Ulisses, em quatro dias febris de 2006, me mostrou de uma vez por todas que o maior poder da literatura é isentarnos da consciência do passar dos anos, dando-nos uma imperativa certeza da continuação da juventude. Que a leitura nos mantem jovens eu já o sabia nem que fosse pela constatação não-oficial de que doenças degenerativas pouco acontecem com leitores, ou que leitores não se suicidam com frequência, afora, nesses dois casos, as exceções da regra das últimas informações sobre Garcia Marquez, o Alzheimer da narradora de Reparação, e todos os adeptos da solução do eternamente jovem Werther ao longo dos últimos três séculos. Os velhos notórios dos quadros da UTI dos hospitais costumam serem retirados dos sofás em frente à televisão, ou de frente a janelas que dão para as sempreternas tramas de vizinhos em trânsito. E os suicidas são ocupados demais com seus desesperos financeiros para dignarem-se ao tamborete tombado sob a corda por motivos de desalento da alma.
Tenho as três traduções de Ulisses para o português do Brasil, e o livro original. Pela década de 90, tentei de todas as formas ler a do Houaiss, mas nunca consegui. Fiz fila ao grande número dos que acham Ulisses a mais empolada e leviana enganação da indústria cultural livresca, o que por si já daria um enredo poderoso para uma sátira conspiratória de empresários desvirtuados das indústrias do amianto e da exploração do diamante africano para dedicarem suas vidas a pregar uma peça em um por cento da humanidade que ainda lê. Só fui conseguir ler a tradução da professora Bernardina, no auge da aclamação do lançamento da Alfaguara. Ulisses só pode ser lido com uma atenção despreocupada. Não é um livro sagrado. É um livro divertido, fascinante, elétrico, maravilhoso. Se há uma conspiração para estragar sua leitura, ela é feita, talvez involuntariamente, pelas pessoas que o amam, quando ressaltam que sua dificuldade é hermetismo, ou que a grande força retórica de Joyce se centra em tolos jogos e fusão de palavras. Ulisses é tão difícil de se ler quanto qualquer livro de Dostoiévski ou Tolstói, nada além disso. Não é um livro destinado para 99,9% da humanidade. Como toda produção do alto intelecto, é uma obra elitista. Barram-se em suas portas os que não exercem a capacidade de atenção, os que limitam o alcance da visão para os informativos da sessão de preços e cotações de mercadoria, os intrinsecamente preguiçosos, os que bocejam em uma sinfonia de Beethoven, os doutores pragmáticos em armadilhas televisivas de danças sensuais da moda, os que se transportaram em definitivo para o universo digital. Por isso é uma data a ser celebrada, o dia de hoje. O dia da conflagração maçônica dos que tem um tesouro íntimo inigualável guardado a sete chaves. Como disse certo crítico, os livros não nos tornam melhores, mas mais ricos. Celebremos nossa fortuna.
(Seguem nos dois posts abaixo, um pequeno texto sobre Ulisses, e uma resenha sobre um bom romance sobre o Bloomsday, retirados da memoriabilia do blog.)
Pequeno Comentário Sobre Ulisses, de James Joyce
Esse é um dos livros em que o enredo é o de menos. Importa a incrível vivacidade e energia verbal de Joyce. É o anti-limite de sua superioridade como escritor acima de todos os outros_ de Mann, de Faulkner, Proust, Kafka_ que iria subir à estratosfera e se perder com o livro seguinte, o ilegível Finnegans Wake. Trata-se de uma brincadeira bem urdida, uma ciranda calculada na espontaneidade de um severo trabalho de anos, não uma tentativa, mas uma culminação do resumo do ser humano e de sua história, e um enorme deboche à febril ciência da psicanálise (se tudo que passa pela cabeça de um homem comum é simploriamente banal, é ridículo sistematizar seu comportamento contraditório numa cabala do subconsciente). Ama-se Bloom e sua esposa, ama-se Dedalus e o excessivamente extrovertido Buck Mulligan, com todos os seus pecados, suas desimportâncias, suas carências.
É o romance da falta de sutilezas, da falta de coqueteria, o romance essencialmente não-burguês (não ANTI-burguês, pois revela o enorme descaso do autor para contrapor uma reação à uma sociedade medíocre), não-científico, e, por mais que possa ser surpreendente, não-literário. Dedica-se todo à celebração da literatura, mas é anti-empolação e anti-oitocentismo. Tanto que depois de Ulisses, aboliu-se a possibilidade de escrever como Victor Hugo, Sully Prudhomme, Romain Rolland, e outros. Ulisses aboliu a literatura em diversos países, obrigando os novos escritores à adaptação. É a suprema manifestação do humor, do humanismo, da redenção velada. Uma mistura de Nona Sinfonia com a fuga da Sinfonia Júpiter, com cabrioladas de um jazz que abriu as portas para as correntes de ritmos de Coltrane e dos minimalistas. O maior mérito de Joyce foi ter controlado sua extraterrestridade para dar à obra um caráter perfeitamente legível, pois seria natural que depois de ter rompido todos os limites, seu último passo seria Finnegans Wake, assim como o passo seguinte_ o estilo tardio_ de Beethoven fosse os ùltimos quartetos e a Missa Solemnis.
Aldous Huxley lamentou que Joyce tivesse optado pela abdução. Poderia ter escrito importantes livros da estatura dos de Stendhal. Mas é compreensível. Deportou-se do mundo dos viventes. Não lhe diria nada a estranheza e prazer de incompreensão libidinosa que o mundo adotaria ao analisar as cartas singelas que escrevia para Nora Barnacle, seu amor de toda a vida. Onde revelava a leveza de seu espírito, a ralé via apenas a sujeira sexual de um intelectual reprimido. Por isso é desconcertante que achemos de uma beleza sem igual as passagens de Bloom se masturbando, de Molly cedendo-se mais uma vez com seus repetitivos sim, sim,sim, da última página, de Mulligan se atirando seminu ao mar, ao lado dos pescadores. Uma impossível beleza nesses gestos prosaicos, e uma lucidez que desmascara toda a hipocrisia, toda pompa. Uma declaração de amor à humanidade, antes de mais nada, mas uma humanidade ainda de um distante porvir, livre das tralhas da ciência e das hierarquias, e centrada no cultivo das idiossincrasias soltas e intimistas de si mesma.
Por isso que é tão espantoso a Buck Mulligan quando Stephen Dedalus revela que, no leito de morte de sua mãe, se recusou a se ajoelhar; mas não pelo constrangimento à mãe, mas pelo constrangimento contra si mesmo. A liberdade do homem que tomou suas próprias rédeas e manda as convenções e a opinião alheia às favas…
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