terça-feira, 20 de outubro de 2026

Um pouco mais

 



Esse quadro se chama "Os heróis espirituais da Alemanha", de Anselm Kiefer. Nele tudo é de uma gritante ironia, mas que, num primeiro momento, não é perceptível. "Nada é mais difícil para o homem de ver do que o óbvio", disse o stáretz Zóssima, em Os irmãos Karamázov. O quadro mostra um grande galpão de madeira, cheio de potentes tochas festivamente e levianamente acesas. Quem seria o tolo em colocar essas chamas em uma estrutura assim? Todo um povo, levado pela adoração dos porcos "heróis espirituais". Kiefer vai além nas referências: a aparência de um abatedouro, de uma câmara de gás; a rusticidade das vilas alemãs de onde saíram as "pessoas simples" dispostas ao massacre. Ontem, pela primeira vez, eu rezei pelo Brasil. Eu sempre rezo para questões pessoais, para serenidade, para proteção dos que eu amo, mas nunca rezei para algo tão material e ao mesmo tempo abstrato como um país inteiro, um povo inteiro. Eu pedi, com muita sinceridade, a Deus, que esse não seja o nosso destino, que a gente não tenha essa sina pra pagar. Eu tentava aquietar em mim a consciência de que estaríamos todos fadados a pagarmos nossos imensos pecados como povo, e pedia a Deus para desconsiderar. Mas nossos pecados são imensos, pesados demais. "Senhor, alivia esse nosso carma, prorrogue um pouco mais o prazo". Nós somos um povo que fomos contra todas as nossas bençãos: fomos contra a nossa maravilhosa miscigenação e saúde, a nossa paz de espírito, ginga e simplicidade. Hoje vi uma mulher gorda em uma bicicleta, com a cara onde se lia todas suas antigas e entremeadas dinastias, sentia-se toda a dança de inumeráveis raças em seu sangue. Eu a achei muito bela, mas ao mesmo tempo algo em mim falou: ela é o tipo que é condenado, o tipo pardo, o tipo "inferior". E ela mesma, talvez (Senhor, que não seja assim), através das invocações que recebe ali parada pelo celular, não se vê, ou se vê distorcida. Que enorme pesadelo real seria saber que ela também vota na besta. Eu tenho um avô índio, um pai negro, uma avó espanhola, um outro avô português. Meu cão de raça morreu com cinco anos, após comer um rato; minha cadela vira lata comeu vários ratos, pássaros, sapos, e é viva e linda. Ela tem a infalível auto suficiencia dos mestiços. E assim somos todos nós, brasileiros, essa é a nossa grande benção. E traímos tudo isso. Peço a Deus que nos continue abençoando em não sermos interessantes para a história, em não vivermos "tempos interessantes". Que nossa inocência, que durou tanto tempo_ muito mais do que de todos os outros povos_ e contra a qual viemos brincando perigosamente investindo contra ela, que nossa inocência ainda perdure. Um pouco mais senhor, estenda um pouco mais o prazo. Amém!

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