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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Meus 10 melhores romances (lista alternativa)_ um post carregado de superlativos

Já que minhas férias acabam hoje, e não terei tanto tempo livre para me dedicar ao blog_ não de forma programada_, vamos a um desses post preenche lacuna bem engraçadinhos. O início de uma lista alternativa de meus melhores romances. Preparados, fãs?

1. Os irmãos Karamázov, Fiódor Dostoiévski.



Convenhamos, a arte parasitante que sempre se alimentou de Dostoiévski é tétrica. Não me refiro nem ao trabalho que os acadêmicos fazem para causar terror no propenso leitor e desmotivá-lo para toda a vida quanto a um autor que é o maior barato, como Dostô, transformando-o em algo como um filósofo rancoroso complicado e sombrio. Me refiro aos desenhos, seja lá por qual firmada e bastante equívoca tradição, que atulham a grande maioria de edições da obra do moscovita. Nada contra ilustrações, aliás eu adoro quando são boas, mas as que desenham para Dostô segue uma odiosa estética monotemática de que devem ser pesadas, depressivas, sempre de um abstracionismo opressivo, sempre fazendo menção direta a patologias e maldição espiritual. Pegas isoladamente, sem que se saiba ligadas à obra para a qual foram feitas, podem facilmente ser confundidas com ilustrações de algum desses livrinhos pentecostais cheios de danações da alma e predigas de nociva atenção contra o pecado. Podem bem servir para figurarem também nesses panfletinhos que nos entregam nas esquinas falando sobre Madame Tal que lê as mãos e desfaz ou faz encostos. São realmente muito assustadores. E não são criações do mercado editorial brasileiro, sejamos justos. Já conheço muitas edições de Portugal e da Espanha, assim como de outros países de língua espanhola, em que o mesmo horrorama é fielmente seguido: loucura, depressão, esquizofrenia. Nas edições russas que já vi, também, como não deveria deixar de ser, estão lá: o velho trem fantasma que precede e muitas vezes encerra a vontade de ler Dostoiévski. Se me sobrasse tempo, interesse e verba, eu poderia fazer um estudo pormenorizado do porquê dessa aberração. Será uma contra-propaganda inteligente e perversa do regime soviético, para afastar o leitor? Ou será a recorrente obra dos ignorantes, que são armas de perversão mais antigas da Terra, que não leram a obra antes de trabalharem com ela, ou a leram bem mal, ou não a entenderam? Dostoiévski, meus irmãos (àqueles pequeninos que futuramente acharão esse blog de um autor já morto nas arqueologias das pesquisas pela net), nada tem a ver com esse negror e essa tristeza inexorável. Eu também, graças a essas pinturas, por muito tempo, na adolescência, fiquei afastado do Escritor Maníaco que me parecia ser o Dostoiévski, ou por me achar burro demais para um existencialismo tão expressivo, ou porque não queria que meus dias no reino inóspito da juventude ficassem ainda mais difíceis de serem vividos com aquelas dúvidas mefistofélicas que os desenhos demonstravam haver nos livros.

O mesmo ocorre com os livros da Editora 34. Caramba, o livro dos Karamázov tem excesso de ilustrações. Tem partes, no volume 1, em que elas aparecem a cada três páginas. Se somadas, creio dar um volume considerável de páginas que poderia bem ser retirado sem prejuízo algum para a estética da edição, além do benefício de diminuir substancialmente seu preço. Como disse, nada contra, mas por que os desenhos para Dostô não podem ser bonitos e refinados como os clássicos desenhos dos livros do Dickens, por exemplo? Por que algum discípulo do Gustavo Doré nunca fez desenhos para Dostô? Na certa, seria barrado pelos editores, que tem uma convenção a cumprir. 

Encontrei um texto sobre o David Foster Wallace em que ele escreve para um amigo que os escritores atuais deveriam escrever com paixão e humanismo como fez e viveu Dostoièvski. Escreveu sobre isso após ter lido os cinco volumes daquela clássica biografia do Dostô (que ainda não li, mas é um dos planos para esse ano, fazer uma boa economia e adquirir tais livros, que são ofensivamente caros no Brasil). DFW tem se demonstrado um guia lúcido e valioso para novos escritores, que contudo esses tem seguido logo as características de DFW que ele mesmo deplorava e tratava com ironia sublime (como eu rio ao ver escritores enchendo seus livros de notas de rodapé, à maneira de DFW, mas demonstrando uma completa falta de compreensão do humor auto-destruidor de notas de rodapé do Wallace). Pois é isso aí, meu caro Wallace (que vontade que dá conversar com um cara desses, quando vejo seus profundos insights), a literatura estaria bem mais interessante, bem mais propícia a mudar os corações e os espíritos das pessoas, se Dostoiévski fosse mais lido e seguido. Nenhum livro que eu já li tem a octanagem sensorial e sensitiva, a verdade de frente e a paixão e o amor desencorporado, o enraivecido e bombástico abraço, que tem os Karamázov. É o livro mais humano que já li, o mais terno, o mais ferino. Isso não é um exagero. Podem vir os idiotas sofisticados que condenam os superlativos. Os Karamázov é superlativo, me curvo diante ele. O maior dos escritores escreve contra todas as pompas, contra os empolamentos, contra as etiquetas, e se declara humano, se rebaixa à condição pura do homem. Toda a literatura do século XX é filha de Dostoiévski, sobretudo dos Karamázov, o que demonstra o quanto a liberdade de seu autor em escrever um romance libertário foi revolucionária. Mas claro que, assim como os seguidores de DFW tendem a seguir as coisas erradas de seu mestre, os seguidores de Dostô retiraram essa franqueza da alma, essa comunhão, esse desnudamento dos Karamázov, decretando o que faz a grandiosidade do livro como algo brega, emotivo demais, e transformaram a escrita em algo progressivamente desumanizado, coisificada, pura em seu materialismo radical, em sua falta de glândulas, em sua robótica carnal intuída, em sua numerologia serial de fábrica. Tudo o que Dostô combate e abomina em Karamázov. O existencialismo desinibido e sem freios de Karamázov se transforma na sequidão destinada à derrota e à tristeza da literatura do século XX. E é contra isso que DFW ataca, o que não é um bom sinal que isso venha de um grande escritor que desistiu da vida. Sejamos frágeis sem vergonha alguma da fragilidade, como disse um dos mais devotos seguidores de Dostô, Tarkóvski. Voltemos a nos concentrar no homem, no humano, nessa época em que o relativismo ampara a destruição do mundo e a preparação já acionada do aparecimento de uma Coisa inimaginável para suplantar o homem (suplantar o homem no homem). Sejamos emotivos, falemos sobre o que interessa. Assim se sai dos Karamázov, transformado, com a certeza fecunda de que isso não é apenas um romance, transcende, arrebata, mexe. E é, por incrível que pareça, um grande romance que enche de felicidade diante as coisas estabelecidas, os obstáculos severos demais e intransponíveis demais. Nada é mais difícil para o homem do que fazer o óbvio, o que tem que ser feito. O que tem que ser feito para a preservação da identidade humana. Lembremos disso quando os carros pipas chegarem.

2. O homem sem qualidades, Robert Musil.



Um romance escrito por um matemático. Já viram isso, asseclas? Concebem o estranhismo de tal coisa, pequenos gafanhotos? Deixe-me ver... Primo Levi e Canetti foram químicos (o primeiro trabalhou isso em sua obra, o segundo confessava abominar quando passava de frente à antiga faculdade). Na história da literatura, talvez esse seja o único caso de um homem das ciências exatas a escrever uma grande obra, uma das maiores obras da literatura. E todo o livro contêm uma prosa maravilhosa e única em que apresenta a constância da análise espiritual com a abstração totalizadora da matemática. Ulrich, o herói, tece ensaios sobre a indústria cultural, sobre a história, onde o que mais aparece é sua compreensão de que na modernidade (o tempo é o pré-primeira guerra) cada vez é mais difícil às pessoas terem uma alma. As reflexões de Ulrich, apresentadas em terceira pessoa, são tão belas e profundas quanto o melhor de Nietzsche. Essas reflexões, tecidas durante as andanças de Ulrich por Viena, compõem várias das páginas mais bem escritas da literatura dos últimos cem anos. No meu entendimento, esse é o suprassumo, o ápice, dos romances-ensaios, gênero que detêm os melhores trabalhos de escritores como Thomas Mann, Philip Roth, Saul Bellow, Saramago, etc. Os que quiserem fazer um test-drive, leiam o capítulo 72, intitulado "O dissimulado sorriso da ciência, ou primeiro encontro detalhado com o mal" e me digam se não é impossível não ficar cativado pelo poder das palavras de Musil. É difícil resumir o livro, mas aventuraria em dizer que se trata de personagens em diversos graus comprometidos com a necessidade de terem uma alma. Desde Ulrich, um matemático ultra-inteligente que se nega a ter as qualidades requisitadas pela sociedade da vida que se exibe_ um dos personagens mais livres da literatura (o fato de ser matemático não o faz cair na pobreza conceitual de liberdade-clichê do existencialismo e das demais escolas da depressão requintada)_; Arnheim, o rival intelectual de Ulrich, um empresário multi-milionário com sofisticadas ideias sobre a redenção neo-liberalista do homem, para quem todo o progresso anunciado no século é motivo de otimismo sobre os bens a serem colhidos para a humanidade (as más línguas dizem que Musil tomou Mann emprestado para criar este personagem)_ Arnheim também é responsável por capítulos extraordinários de reflexões contrárias às de Ulrich; até personagens díspares mas imortais, como o assassino no corredor da morte Moosbrugger, e as quatro mulheres com quem Ulrich se envolve. São personagens que trazem esse vínculo em comum: a procura pela legitimidade de uma alma, habitando um mundo no qual a destruição de todos os valores e a revelação de algo monstruoso e intolerável está para acontecer, um mundo que também busca desesperadamente por um significado, uma direção. Em todo o romance, os personagens estão empenhados na construção de uma liga mundial sedimentada na cultura germânica, chamada Ação Paralela, organização em que se revela ainda mais o vazio e o engano que são as reais forças a conduzirem a sociedade. Apenas Ulrich, em seu isolamento cerebral, se conserva íntegro, em um novo estoicismo. O homem sem qualidades é um dos maiores e mais deliciosos romances de qualquer tempo.

3. O mestre e Margarida, Mikhail Bulgákov.



Os capangas do capeta vem à Terra para acabar com a massacrante corrupção da União Soviética. Quem saboreou o gosto da vingança impossível de filmes como Busca implacável, O protetor e Lucy, vai adorar esse livro. Todas as outras pessoas também, desde que tenham ao menos 0,00001% de sangue nas veias. Aliás, todos os humanos vão adorar este livro. Quem não gostar, digo, quem não amar fervorosamente este livro e não o tiver entre seus preferidos, entra naquelas cifras de gente perigosa que não gosta de criança e cãezinhos. A diferença é que com estas últimas ainda dá para levar um papo descontraído na fila do banco. Bulgákov é bem melhor que Luc Besson. Outros autores russos são mestres na felicidade (Tolstói), no paisagismo com contestação social (Turguêniev), nas profundezas da alma com romance policial (Dostô), na ternura da visão sobre as grandes limitações humanas (Chékov), Bulgákov é mestre incomparável na arte da vingança. Notem bem: a vingança de Bulgákov é algo tão supremo que pode transformar a política, depor ditadores, acabar com injustiças. Não à toa esse seu romance foi condenado e perseguido por décadas. E o humor.... Deixe eu me sentar (como se eu estivesse capaz de digitar em pé depois de duas doses regradas de canjebrina): ninguém é mais engraçado que Bulgákov, ninguém. Há cenas nesse livro que provocam cãibras na barriga, sem exagero. Os demônios do livro são contrabalanceados com a narrativa dos últimos momentos de Jesus, o que localiza esse romance entre as grandes narrativas ficcionais sobre Cristo. O Cristo de Bulgákov é um personagem doce, simplório e sublime, que desconcerta os poderes instituídos. O Cristo de Bulgákov é todo o povo russo, que se conserva em uma primitiva ingenuidade protegida da perda total do ideal da revolução apodrecido por Stalin. Um belíssimo livro, que tem a mesma grandeza dos romancistas russos do século 19.

Aqui reproduzo um texto meu sobre esse romance:

Uma das minhas mais gratificantes leituras dos últimos tempos foi O mestre e Margarida, de Bulgákov. Relinchei de tanto rir o romance todo. Cheguei a babar em grande parte dele. Há um capítulo em que toda uma repartição pública, dessas repartições públicas stalinistas que conhecemos bem por aqui, é possuída: a visita de um dos asseclas do diabo faz com que os funcionários dela passem a cantar uma ópera (baseada na obra) de Púskhin. Ri tanto nesse capítulo que achei mesmo que a possessão demoníaca extrapolara as páginas e caíra sobre mim. Imaginem as pessoas em um prédio do governo não tendo como se controlar, com os olhos desesperados, todos cantando em alto e bom som toda uma obra operística, até serem internados em um manicômio_ e os ônibus que os conduzem passando por uma plateia de populares que acham que é alguma das marchas marciais acontecendo na avenida? Outra cena espetacular é a transformação de Margarida em bruxa, seu voo pelas paisagens noturnas magníficas da Rússia até um distante rio da Sibéria, onde ela se encontra com outras das instigantes figuras infernais para uma espécie de batismo. De imediato, Bulgákov se tornou meu mestre. Anos e anos para que ele chegasse até mim dessa forma sem formalidades, como se não fosse um dos acontecimentos da minha vida, mas uma trivialidade a mais. 

O mestre e Margarida tem também uma narrativa sobre os últimos momentos de Cristo. Em certa época de minha juventude, eu lia tudo na alta literatura sobre Cristo: Barrabás, A última tentação, O evangelho segundo Jesus Cristo. Esses capítulos estão entre as melhores páginas apócrifas sobre o Cristo_ empatam com o magnífico e esotérico livro do Kazantzakis. Por que Bulgákov conta os momentos finais de Jesus em seu livro? Por que, em uma crítica fantástica que faz contra a corrupção do estado soviético, ele intercala esses momentos estranhos, deslocados? Seu cristo tem só um apóstolo, o cobrador de impostos Matheus. Todos são mencionados com seus nomes originais, o que causa uma maior ambientação humana no calor arrogante da Judéia, entre homens brutos cujas barbas parece que sentimos nas mãos: Jesus é Yeshua Ha-Notzri, Barrabás é Bar-Raban, Judas é Judas de Kerioth. Jesus está lá, trocando em miúdos, da mesma forma que Jesus está em Stalker, de Tarkóvski: um homem comum, bastante lelé da cuca, bastante medíocre em sua simploriedade constrangedora, inculto, mas que deixa Pôncio Pilatos fora dos eixos por suas enormes e inusuais palavras inéditas sobre o perdão, sobre a bondade intrínseca do homem. Jesus de Bulgákov é um homem que ninguém suporia, nem nos sonhos mais disparatados, ser algo mais que um louco de bom coração, vítima de sua própria desprovidão de astúcia. Mais uma vez, o Jesus de Bulgákov se encontra com o Jesus de Tarkóvski: em sua aposta de que a fragilidade é a verdadeira força.

Mas o mais fascinante aqui é a comitiva de seres infernais do romance. Bulgákov é um gênio visual: seu romance se assiste, não se lê (estudei métodos de leitura dinâmica que defendem a imaginação da leitura como forma de rapidez sem perder concentração, e nenhum escritor se emprega melhor a essa técnica que esse russo). As cenas são tão ricamente descritas, seus personagens são tão vivos e naturais, que lembro das cenas como se as tivesse visto: na audiência de Yeshua diante de Pilatos, quando Yeshua fala com Pilatos informalmente, como se fossem íntimos, o escrivão que anotava as palavras pára a pena e olha de queixo caído para seu chefe, e isso é oferecido com tanta maestria que dificilmente o cinema seria mais elaborado que a mente do leitor. E os diálogos!: meus irmãos, tenho sido presenteado com o que há de melhor em diálogos em minhas últimas leituras, e Bulgakóv é uma festa à inteligência, é uma overdose. Que prazer e aprendizado saber, mais uma vez, que a literatura pode ser tão libertadora e ensinar tanto.

Os demônios de Bulgákov_ demônios sem nenhuma misericórdia, maus até a medula, e fascinantemente sarcásticos e elegantes_, são como agentes da transformação, como se Deus, após ter mandado os arcanjos para Sodoma e Gomorra, cidades cujo nível de pecado quase perverteu essas criaturas imaculadas (lembro de minha avó pentecostal me lendo a famosa passagem em que os habitantes avaliam o potencial libidinosamente consumível da carne desses seres etéreos), ficasse mais receoso e enviasse dessa vez capangas incorruptíveis, fascinados pelo cumprimento dos terríveis expurgos. Ver as maldades que Azazello, o ser mais feio do universo, Behemoth, o famoso gato preto que anda sobre duas patas, Korôviev, e Hella, uma mulher nua com uma extensa cicatriz no pescoço, fazem sob o comando de Woland, o próprio demônio que se apresenta como doutor em magia negra, é uma maravilha. Nietzsche, que adorava Petrônio, teria adorado Bulgákov. Este romance é um relicário, desses que os fiéis apertam contra o peito à espera de justiça divina, e Bulgákov dá uma ostensiva justiça luciferina em que a hipocrisia da sociedade e a corrupção generalizada que parte do estado soviético se cumpre com decapitações de intelectuais do partido, oligofrenia de poetas ponderados, a loucura de agentes da burocracia. Seria uma vingança meramente placebo, se Bulgákov não fosse tão superior e magistral, tanto que seu romance foi censurado, abreviado, condenado, rasgado, desprezado. Em sociedades tão encalacradas na corrupção e na idiotice como a nossa, Bulgákov ensina, otimista, que a única salvação é o humor libertário, o humor corrosivo, iconoclasta, satânico, insubmisso, subversivo, violento e visceral. Se eu ainda tivesse capacidade de rezar, rezaria ao Santo Bulgákov que intercedesse por nós, para que o Demônio expurgasse esse nosso triste e intranscedente país.

4. A quarentena, Jean-Marie Gustave Le Clézio.





A situação de falta de água em São Paulo é uma dessas realidades difíceis de acreditar. Li em uma matéria que faltam menos que 50 dias para acabar de vez a água em São Paulo_ não que vai faltar, mas vai acabar toda a reserva de água. Os lenitivos para amenizar esse quadro de horror traz uma sensação de que o horror ficará mais acentuado ainda: serão enviados carros-pipas cheio de água colhida nas regiões interioranas com reservas ainda não esgotadas para a grande cidade, e esses caminhões distribuirão baldes de água em quantidades regradas para os moradores. Para diminuir o impacto da cena, essa frota de caminhões adentrará pela cidade de madrugada_ o que me lembra a fantasmagoria de Ensaio sobre a lucidez.  A autora do artigo aventa todas as consequências que pode haver com esse estratagema: violência, desespero, roubo de caminhões, segregação. Ela retira um véu por sobre um detalhe incômodo: as pessoas se sentirão ofendidas em suas dignidades de não poderem dar descargas nas privadas, e isso aumentará ainda mais a situação de guerra. Creches, indústrias, empresas, escritórios, terão que dispensar seus funcionários por causa da falta de água, e isso descambará para uma crise econômica em avalanche e sem precedentes na história do país. Um convidado em um programa da Globo News desse final de semana tocou em mais uma das tantas feridas inesperadas que apareceu no corpo combalido da nação nesse começo dramático de ano: o Brasil se tornará, em questão dos próximos meses imediatos, a nova Grécia. Essa realidade se repete, em menor expoente mas não com menor gravidade, em Rio e Minas, e tudo indica que logo a calamidade estará instalada em todo o restante do país. A situação poderia em muito ser acautelada se os governantes de todas as instâncias tivessem alertado a população e tomado as precauções de racionamento certas, mas o ano passado era ano político e os políticos dessa nação inglória são o que são. Nas redes sociais e nas caixas de comentários dos informativos virtuais, é assustador ver os xingamentos entre pessoas que se dizem de São Paulo, e as que se dizem da região nordeste do país.

Após ler isso, minha filha deitou em meu colo e eu pensei o que eu faria para protegê-la, até onde eu iria. Imaginei-me abatido com um tiro nas costas junto a outras pessoas que invadiram residências de lotes fechados de alto luxo para roubar água. Imaginei o quanto foi terrível para os pais de Auschwitz ficarem impotentes diante o sofrimento de seus filhos. Imaginei o quanto essas reviravoltas da história é que são os nós por onde saltam as mudanças.

Esse livro trata de uma história de miséria e segregação e violência similar. Le Clézio imagina os meses em que seu avô ficou exilado em uma ilha, quando jovem, junto a um grupo de pessoas, em quarentena, porque sua família caiu em desgraça com o dirigente das Ilhas Maurício, para a qual não podia retornar. Nessa ilha fica a comunidade de doentes e os escravos. Nessa ilha, sediado pela fome, o avô conhece uma garota índia pela qual se apaixona. Le Clézio prova através da literatura a força da perseverança para não ver o fim quando a desgraça atinge um elevado grau de opressão. Tudo é mágico e intensamente poético nesse livro. E uma lição de vida. E um potente sopro de esperança, como aliás são todos os livros de Le Clézio. O tema desse grande escritor sempre foi a esperança efetivada dos pacientes, dos simples, dos que não se desesperaram, para os quais todas as janelas e portas se fecharam e toda resposta foi um impiedoso não. Mas que se deparam sempre com um novo e imprevisível caminho. Inesquecível!

5. Coração tão branco, Javier Marías



Coração tão branco é um progressivo suspense em que seu autor faz o que bem quer com o leitor. Começa com um capítulo onde é narrado com um assombroso coloquialismo um suicídio em família, segue capítulos que tem a melíflua dissimulação de nada terem a ver com o tema, e se encerra com o perfeito amarrar de todas as pontas soltas em uma tensão que lembra a coda de uma sinfonia clássica. Entremeando a narrativa, o livro está recheado de reflexões desse autor cujo sofisticado talento para a digressão se tornou uma assinatura. Minha porta de apresentação para Marías, esse romance me pareceu há cinco anos quando o li, o exemplo de uma obra genialmente elaborada, e me surpreendeu ainda mais saber que vendeu milhões de exemplares pelo mundo. Os títulos da maioria dos livros de Marías são belos e sonoros enigmas retirados de Shakespeare, e o deste remete a um momento de Macbeth de insuportável remorso. Tem a leveza de retratar enganos singelos de gestos de desconhecidos vistos pela janela, de crimes intuídos em rumores apreendidos pela parede que divide vizinhanças, e tem o peso quase macabro de descobrir que dessas supostas abstrações pode vir um horror por demais concreto.

6. Ruído branco, Don Delillo



A morte é um tabu nunca mencionado na sociedade mais hedonista do planeta, e esse romance sarcástico é um estudo cruel sobre as formas mais eficientes de um americano padrão descobrir que ele irá morrer. Tem a velocidade de incontroláveis acidentes fatais e um adstringente riso do estranho alívio que é se saber a um passo da morte. Os personagens mantêm a compulsiva ocupação de se distraírem da realidade da morte, com seus trabalhos regimentais, suas famílias justificadoras de um propósito de servidão injustificável, suas televisões e seus teatros frenéticos de consumo, até que um acidente em uma indústria química os confrontam com a perda total do eufemismo. Nessa epifania de insights de humor sombrio que o romance se torna, com alguns dos diálogos mais inventivos da literatura do último meio século, surge a possibilidade de se obter no mercado negro o milagre de não pensar mais na morte, através de uma pílula de um cientista maluco. Delillo consegue a proeza de tornar uma história que aparenta ser corriqueira (com um primeiro parágrafo propositalmente desmotivador com sua sufocante descrição de manobras de caminhões industriais), em uma mirabolante fábula urbana sobre a procura pelo Graal. O autor desvela a hipocrisia narcotizada de uma sociedade que simula se julgar imortal, dando a seus leitores a única evidência de permanência através da supressão lenitiva do medo da extinção, com freiras que cumprem sua função social de fingirem crer em um deus, de uma ciência cuja única conquista é aceitar da mesma forma o segredo de que não existe qualquer tipo de transcendência. E de homens e mulheres comuns cujo destino milenarmente aceito é a de animais intimamente cansados da prepotência de acreditarem deter uma fagulha de luz inorgânica. E como todas as grandes conquistas, Ruído branco, apesar_ ou devido a_ de sua acidez, de sua inteligência impiedosa, passa a dedução de que essa fagulha possa estar na obra.

7. Visível escuridão, William Golding



O leitor de Faulkner vai reconhecer neste livro uma versão inglesa mais radical de Luz em agosto. Há aqui todos os elementos desse grande romance de Faulkner: o exílio imposto a uma criança deformada (espiritual em um caso, e espiritual e fisicamente em outro); um zelador de colégio dotado de uma maldade genuína; em servo de deus que atinge um nível de reclusão auto-santificada que vai além da psicopatia; uma mulher que cumpre a contrapartida de ser a insígnia da liberdade em um mundo caótico. Esse é um dos poucos romances que conheço para o qual se pode usar o conceito de ser verdadeiramente assustador.

8. David Copperfield, Charles Dickens



Wislawa Szymborska diz em um poema que prefere Dickens a Dostoiévski. Li este livro a primeira vez quando tinha 17 anos, e fiquei deslumbrado. Desde então meu amor pela Londres de Dickens se tornou um dos constituintes de minha personalidade. A segunda leitura, feita nos últimos dois meses, foi ainda melhor. Merece um post, no momento certo.

9. Fome, Knut Hamsun




É uma pena que este romance esteja há décadas fora das prateleiras das livrarias nacionais. Hamsun aqui é todo eletricidade; esse livro exuma uma felicidade e uma juventude única, mesmo que seu tema seja os anos de fome e solidão terríveis que o jovem autor passou na Noruega, antes de se emigrar para os Estados Unidos. Tem a fé inabalável do primeiro Dostoiévski, e a pureza de se enxergar como um ser agarrado em suas convicções de incorruptibilidade em um mundo pérfido. É magistralmente bem escrito em sua antecipação da literatura beat, e desses romances que, lidos na febre da juventude, se tornam icônicos para toda a vida. Fui imensamente feliz quando o li em uma biblioteca, pois há nele a mesma paixão irrefreável pela literatura que eu sentia, a mesma vontade de abnegação em busca de aventuras de descobertas, a mesma percepção de que o mundo era maravilhoso demais para que eu não saísse em completa desobediência às convenções sem rumo certo para pertencer verdadeiramente a ele. O alter ego de Hamsun aqui é um vagabundo, despejado de pardieiros e com uma fome brutalizadora constante. A cada página o vemos apertar mais o cinto para que a calça não lhe caia pelas pernas magérrimas. E mesmo quando ele está atolado em total abandono e miséria, ele passa suas longas horas ociosas de segregado (sofrendo estalos no lombo de chicotes de cocheiros e apitos de guardas de praça) escrevendo um ensaio cujo propósito é desmistificar Kant, que para ele é um fanfarrão. Em todo o livro o narrador está sempre em volta com a escrita, mandando contos para revistas que na maioria das vezes os rejeitam. Hemingway escreveu certa vez que seu único propósito quando se lançou no mesmo empenho de suicida radical na escrita, era escrever tão bem como Hansum escrevia. Hamsun purgou fracassos terríveis, até que conseguiu provar para o mundo inóspito que sempre salientava não ter nenhum lugar para ele que sua tremenda prepotência em ser grande escritor se cumpriria. Era um escritor tão livre e concentrado, que quando recebeu o Nobel que consagrou toda sua gigantesca obra, esqueceu o polpudo cheque do prêmio no elevador do hotel.

10. VALIS, Philip K. Dick


Resenha em algum lugar do blog.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Fazer de si mesmo uma mitologia literária



Eu supunha, não sei por quais meios de averiguação apreendidos, que o romance que me faltava ler de Javier Marías, Negro dorso do tempo, era de menor valor entre sua bibliografia particularmente louvável, uma espécie de recreio performático e levianidade memorialística solta que o autor se permitisse como descanso de seus livros maiores. Em razão disso, só fui ler esse título meses depois de tê-lo adquirido, já esgotado, através de uma negociação virtual com um sebo, e fi-lo semana passada, no prazo de quatro dias. Como disse, não me lembro se foi no blog de um aficionado em Marías que eu colhi a impressão de ser uma obra voluntariamente derrisória e, por isso, talvez preguiçosa, ou foi através desses sites de leituras em que se coloca as cifras de uma a cinco estrelas para avaliar o quanto o conjunto de leitores de determinado livro aprovou com deleite o que leu (o que, diga-se como sintoma de alguma coisa, jamais procuraria avalização estelar para um autor tão cheio de particularidades e sutilezas às vezes pouco detectadas por esses esquema de apreciação meritocrática), mas o fato é que tive uma grata surpresa ao ver, à medida que me embrenhava pelas páginas desse romance (ou não-romance) que Negro dorso do tempo está entre as criações do espanhol que mais me deslumbraram. Todos os sete ou oito romances que li dele me deixaram uma profunda impressão, me motivaram por muito tempo a releituras esparsas e a debates solitários comigo mesmo sobre as tantas simbologias e tantas maravilhas perigosamente triviais guardadas nessas páginas, ainda que os melhores entre a quase cruel tarefa de hierarquizar esses títulos pelo que tem de maior valor me pareçam ser seu inigualável romance sobre Oxford, a trilogia que mistura thriller de espionagem com romance ensaio, e a delicadeza conradiana de Os enamoramentos. E agora me chega essa obra que é um paradoxo e um produto do humor mais fino que se chama Negro dorso do tempo, que eu li entre os ruídos de chuva e o céu turbado desses últimos dias e que me dispensarou das vulgaridades do andamento cotidiano e me encheu das possibilidades sérias do universo da literatura; porque é disso que trata negro dorso, não apenas da literatura como estrutura conjuntural acadêmica e seguimento apaixonante de leitores fervorosos, que é o de menos, mas de uma cosmogonia particular de generosa riqueza em que Marías divide com nós suas profundezas de escritor e de ser humano e um tanto da criança investigativa crescida que está por detrás de toda aptidão regiamente cumprida pela escrita.

Marías por vezes despreza o que está escrevendo à medida que vai escrevendo Negro dorso; frequentemente diz que não vai se levantar para pesquisar o nome correto de algum personagem real do passado, ou confirmar a precisão de algum fato que ele cita de memória; uma vez alega que não se levantará de sua máquina de escrever porque, simplesmente, não leva esse livro a sério. Nas primeiras páginas, ele começa essa tendência auto-depreciativa de seu discurso (estava para usar aqui uma palavra que aprendi no livro: galimatia) afirmando que nada que vai escrever ali tem importância, e outra vez ele convida o leitor a pular todo um capítulo que repete e anota acréscimos em uma história já narrada em Todas as almas. Quem conhece Marías sabe que ele é devoto de Sterne_ o que remete, inadvertidamente, a Machado de Assis_, e sabe que tais procedimentos são marcas registradas de Sterne e Machado. Mas o propósito de tanta auto-azucrinação em um autor de outro modo muito seguro de si vai além dessas justificativas canônicas: aos poucos o leitor atento intui que o modelo pretendido aqui é o de Borges, o da construção de labirintos e universos paralelos, ou histórias paralelas, de recuperação de passados e personagens arredios e esquecidos. E Marías cumpre de maneira excelente esse fantástico exercício borgeano: ele não só recria uma cadeia de histórias que envolve escritores esquecidos, como estende a corporalidade do objeto livro que lança ao prelo com uma atmosfera imagética que cria uma aura de mitologia cujo centro é o próprio Marías. Aqui, Marías cria um universo mariasiano, perdoem-me a adjetivação incorreta, em que tudo ronda e retorna ao pensador divinatório Javier Marías; aqui Marías é o historiador, o ensaísta, o romancista abortivo, o regenerador tardio de talentos sepultados; shakespereano patológico, Marías pragmatiza o potencial de auto-suficiência infalível da prediga hamletiana de se intuir o universo em uma casca de noz. Marías aqui nos deleita do extremo envolvimento da literatura, de maneira mais assertiva que Vila-Matas com seus rococós insossos e inconclusivos sobre escritores afásicos.

Nessa simulação de que não leva a sério e que tudo é brincadeira, Marías escreve capítulos que podem muito bem afigurar independentemente entre seus melhores contos. E tudo tendo como escopo uma trivialidade onde parece não oferecer pano para nenhuma sublimidade, como é o caso da narrativa em que trata do casal de livreiros de Oxford que, voltando à sua livraria de livros raros anos depois de tê-los retratado em Todas as almas, Marías teme comicamente que eles o recriminem por algumas características que interpôs ao casal ficcional, como os dentes meio estragados da mulher ou a subserviência à esposa por parte do marido. Em cima dessa expectativa, Marías encena uma riqueza de percepções inesperada, que culmina com um final imprevisível em que a parte supostamente mais fraca se mostra efetiva em aplicar uma singela mas marcante revanche. Essa leveza insustentável da obra lembra os melhores momentos de Henry James, como nos contos sobre o mundo literário de A morte do leão. (Também me fez recordar os melhores momentos de Hemingway, embora destoem por completo o estilo deste com o de Marías; principalmente um dos relatos de Paris é uma festa em que uma absolutamente comezinha descrição de um desentendimento entre um garçom e um dos amigos do escritor se resolve com um final onde se vê a ternura tchecoviana e um insuflar discreto das canções sobre as verdadeiras amizades.)

Marías é tão ardiloso nesta sua composição mais pessoal que o leitor só depois de se deixar levar pela análise inevitável do que está lendo percebe que caiu em uma armadilha. O ensejo da escrita desse romance foi a descrição de todos os percalços de antes, durante e depois da escrita de Todas as almas, seu memorável livro sobre os dois anos que passou em Oxford. Com Negro dorso ele pretende deslindar as polêmicas suscitadas com as possíveis personalidades reais que se identificaram entre os personagens de Todas as almas, pretendendo resolver o assunto em declarar que quase tudo ali era invenção. E Marías nos leva peça por peça, isca por isca, na anatomização daquele seu romance sobre Oxford, promovendo uma confiança em que nos entregamos a ele, por assim dizer, e damos a ele nosso voto irrestrito de que ele está dizendo a verdade. Mas daí vemos o esquema melífluo de que, a título de desencantar a mítica em torno de um livro, ele está a criar uma nova mítica neste novo livro em que ele anuncia matreiramente a depuração das fantasias daquele. Marías não só vai confirmando a existência dos escritores e professores investidos em outros nomes no passado real, que surgem em Todos os nomes, como vai aumento o leque de significados e as biografias desses personagens em Negro dorso, e quem leu além deste livro, descobre que a mitologia mariasiana se amplia infinitamente com as mil e trezentas páginas de Seu rosto amanhã, em que essas mesmas pessoas tornam a reaparecer e novas outras são trazidas para a superfície. A melhor ótica para se contar um romance, disse Marías em uma de suas entrevistas, é a de um fantasma. E, sabendo da paixão dele por literatura de horror, vemos que em todos seus livros aparece essa atmosfera acolhedora dos contos de terror, assim como em todos seus livros sua linguagem oferece um mobiliário de recolhimento total que pouco se encontra entre os romancistas atuais. Uma escrivaninha que apareça em sua história é, na mente do leitor, uma verdadeira escrivaninha, pode-se abri-la e ver, enlevado, os tantos objetos ali dentro que refazem a permanência, por um instante, de antigas pessoas afundadas no olvido da história.

(Marías faz de si mesmo uma mitologia literária. Só vi essa mesma proeza, com a mesma competência, atualmente em Philip Roth, cujos melhores romances são aqueles em que a matéria de suas explorações é pura e simplesmente Philip Roth: por exemplo, não há obra mais interessante de se ler do que as novelas umbiguistas sobre sua fama literária e seu bloqueio de escritor do que as de Zuckerman acorrentado.)

(Em Vivendo no fim dos tempos, livro de Zizék, esse autor fala, lá pelo final, sobre a dessemantização de alguns grupos de artistas e partidários políticos afim de terem voz em um mundo dominado pelo violento senso comum e pela opinião formalizada pela corporação midiática universal. Um exemplo que ele dá é da forma como a esquerda austríaca da Caríntia, província ao sul da Áustria, achou por rebater o lema de unificação de nacionalistas alemães dessa região: "A Caríntia continuará alemã!". Como o debate discursivo era algo já suficientemente gasto e sem eficiência, os opositores pagaram espaços publicitários em vários jornais em que usavam variações sem sentido e deturpadas do lema, tais como: "A Caríntia altinuará conemã!", "A Caríntia lontinuará caemã!", "A Carpintia aconuará tilemã!". Claro que esse é um exemplo de um exercício de dessemantização radical, joyceano, fundado em um humor libertário no melhor estilo de Monty Python [que inclusive tem um sketch famoso em que um ministro britânico responde a uma inquisição sobre como as verbas de moradia estão sendo _ mal_ aplicadas usando uma voz feminina estridente, enquanto o entrevistador do programa vai narrando peça a peça do vestido feminino aberrante que esse ministro está usando], mas essa mesma dessemantização é feita por escritores como Marías, Vila-Matas, Nooteboom, Sebald, que, como arma contra a bestialização e o clichê grosseiro das mega-empresas de entretenimento e opinião formalizadas globais, falam em uma língua pessoal, recolhida e intensa, sobre si mesmos, nada mais que isso: a sinceridade incutida e desvinculada que os tornam indivíduos interessantes.)

domingo, 24 de março de 2013

Yukio Mishima na morte



(Texto de Javier Marías; tradução do espanhol por Charlles Campos)

A morte de Yukio Mishima foi tão espetacular que quase fez com que fossem esquecidos os numerosos absurdos em que ele incorreu ao longo da vida, como se seu constante exibicionismo prévio tivesse sido apenas a maneira de assegurar atenção no momento culminante, o único que provavelmente lhe interessava de fato. Assim deve ser entendido, ao menos, a raiz de sua inveterada fascinação pela morte violenta, que _ se o morto era jovem e tinha bom corpo_ considerava o cume da beleza. É verdade que esta ideia não era inteiramente original, e menos ainda em seu país, o Japão, onde, como é notório, sempre existiu uma apreciada e consistente tradição em apunhalar dramaticamente as próprias entranhas e perder a cabeça com um talho executado por um amigo ou um subordinado. Em épocas não muito distantes, ao término da Segunda Guerra Mundial, foram não menos que quinhentos os oficiais que se suicidaram (assim como um bom punhado de civis) para "responsabilizarem-se" da derrota e "apresentarem desculpas ao imperador". Entre eles se encontrava um amigo de Mishima, Zenmei Hasuda, que antes de honrar "a cultura da minha nação, que é a de morrer jovem" e fazer estourar o cérebro, teve tempo ainda de assassinar a seu imediato superior por este ter criticado o imperador divino. Talvez se compreenda então porque 25 anos depois o exército japonês seguisse deprimido, vendido e sem capacidade de reação, segundo as acusações do próprio Mishima.

Seu desejo de morte, nascido em tenra idade, não era indiscriminado, e se bem pode-se entender seu terror em ser envenenado, já que o finar-se por este procedimento dificilmente poderia ser "belo", é, porém, menos explicável que quando com 20 anos, tendo sido convocado para as fileiras, em 1945, aproveitou da momentânea febre de um surto de gripe para mentir ao médico militar que lhe fez os exames, e apresentar-lhe um tal histórico de sintomas fictícios que propiciaram um errôneo diagnóstico de tuberculose incipiente que o livrou do serviço. Não que Mishima não estivesse consciente do que isso incorreria para a veracidade de seus ideais: pelo contrário, em sua famosa novela autobiográfica Confissões de uma máscara, questiona-se em vão e longamente a respeito. Como não poderia ser menos em um homem de considerável astúcia, por fim encontrou uma justificativa estética por ter evitado o que em princípio desejava tanto (a saber, "o que queria era morrer entre desconhecidos, sem intromissões, debaixo de um céu sem nuvens..."), e concluiu que "em vez disso, preferia pensar em si mesmo como alguém que havia sido abandonado pela Morte... Me deleitava imaginando as curiosas dores de alguém que queria morrer mas a quem a Morte havia rejeitado. O grau de prazer mental que assim obtinha parecia quase imortal". Seja como for, o certo é que Mishima não padeceu de grandes nem curiosas dores até o dia de sua verdadeira morte, o que significa que quando a prova se lhe chegou tinha suas forças e sua determinação intactas graças à ignorância. Em vez disso, seu pavor anteriormente de ser envenenado era tão obsessivo que quando ia a um restaurante só pedia pratos inadequados para venenos e depressa lavava os dentes freneticamente com refrigerante ou soda.

Tudo isso não lhe impediu de fantasiar o quanto quis, não apenas sobre sua própria supressão erótica (a saber, violenta), mas sobre a de muitos outros personagens de ficção, todos eles muito parecidos: "A arma da minha imaginação matou a muitos soldados gregos, a muitos escravos brancos da Arábia, príncipes de tribos selvagens, ascensoristas de hotéis, garçons, jovens valentões,  oficiais do exército, saltimbancos circenses... Beijava os lábios dos que tinham caído e ainda se moviam espasmodicamente". Como é natural, tampouco se privou de devaneios canibais, dos quais fez como objeto predileto um companheiro atlético do colégio: "Ele cavou seu garfo diretamente no coração. Um jato de sangue o golpeava por completo no rosto. Com a faca na mão direita, começava por cortar a carne do peito, suavemente, ligeiramente no início...". Certamente tais fantasias alimentícias faziam desaparecer o temor de ser envenenado, o que sem dúvida era uma vantagem.

Essa fascinação erótica por corpos viris torturados, rasgados, esfolados, trinchados ou  feridos por setas, marcou Mishima desde a adolescência. Foi um escritor impudico o suficiente para colocar a posteridade a par de suas ejaculações, pelas quais se infere que lhes outorgava extrema importância; assim, não nos sobra outro remédio que o de estarmos inteirados de que sua primeira ejaculação ele a teve contemplando uma reprodução do torso de são Sebastião perfurado por flechas, pintado por Guido Reni. Não é de se estranhar, portanto, que quando já adulto, cometendo algumas fotografias artísticas-fisiculturistas, Mishima representava-se em algumas delas com o mesmo vestuário, ou seja, um xale atado à cintura e um par de flechas fincado dos lados, os braços para o alto e as mãos atadas por cordas. Este último detalhe não carece de transcendência, tendo-se em conta que a imagem preferida de sua masturbações (entre as que deixou em bom número de registros) era de axilas cheias e_ temivelmente__ malcheirosas. Assim, essa célebre fotografia devia prestar consideráveis serviços a seu narcisismo.

Não menos cósmicos resultam outros retratos que chegaram aos entusiastas mais infantis por sexo de calendário: Mishima observando seu esquálido peito diante um espelho, Mishima com um olhar piromaníaco com uma rosa branca entre os dentes, Mishima levantando pesos para obter bíceps decentes; Mishima semi-desnudo com o estômago à mostra, uma fita nos cabelos e uma espada de samurai nas mãos, a cara de quem beira uma falsa apoplexia; Mishima com uniforme paramilitar, surpreendentemente discreto para tratar-se de um modelo idealizado por ele mesmo para seu exército privado, o Tatenokai. Também fez alguns papéis no cinema em filmes amadores de baixa produção, sobre a yakuza ou gângster japoneses; gravou canções, e um disco em que interpreta os quarenta personagens de uma de suas obras para teatro. Sua imagem lhe preocupava tanto a ponto de passar a impressão nas fotos em que aparecia junto a homens mais altos que ele, de que ele era quem pareceria um gigante.

Não se deve inferir, entretanto, que Yukio Mishima passara sua vida ocupado com esses folclorismos e ninharias. Tinha necessariamente que escrever sem parar, já que em sua morte deixou mais de cem títulos, e se sabe que um deles, de oitenta páginas, o escreveu durante uma reclusão de apenas três dias em um hotel de Tóquio. A esta atividade há que adicionar a de suas promoções no estrangeiro, que o levou a fazer numerosas viagens à Europa e à América e a preparar uma cuidadosa e frustrante encenação quando em 1967 se rumorejava que o Prêmio Nobel iria recair pela primeira vez em um autor japonês. Fez coincidir seu regresso de um périplo  internacional com a data em que deveria ser anunciado o ganhador e reservou um luxuoso apartamento em um hotel no centro da cidade. Mas quando o avião aterrizou e ele saiu antes de todos os passageiros com um enorme sorriso, encontrou-se com um aeroporto cabisbaixo, já que o galardoado foi um irritante escritor guatemalteco. Um ano depois sua depressão aumentou: o Nobel foi por fim ao Japão, mas para as mãos de seu amigo e mestre Yasunari Kawabata. Mishima não se fez de rogado: saiu correndo à casa de Kawabata para ser o primeiro a felicitá-lo e pelo menos aparecer nas fotos. Não é necessário dizer que Mishima se considerava não só digno do Nobel, mas_ sem mais delongas_ um gênio. "Quero identificar minha própria obra literária com Deus", disse uma vez a um fanático de extrema direita, possivelmente acostumado aos delírios de grandeza.

Segundo contam os que tiveram-lhe trato, Mishima era um homem de grande simpatia e com afinado sentido do humor, ainda que seu riso soasse bestial e estridente e o prodigasse em excesso. Suas relações com as mulheres foram mais escassas, exceção feita à sua avó (que praticamente o sequestrou na infância, para desespero de sua filha), sua mãe, sua irmã, sua mulher e sua filha, o elemento feminino imprescindível até para os mais misóginos. Se se casou foi por um falso alarme: acreditou que sua mãe morreria em breve de câncer, e Mishima pensou em fazer-lhe como último agrado seu matrimônio: ela morreria mais tranquila supondo assegurado sua descendência. O câncer resultou em uma fantasmagoria e a mãe sobreviveu ao filho, mas quando ainda se supunha o primeiro Mishima já havia desposado Yoko Sugiyama, jovem de boa família que, é de se supor, cumpriu com os 6 requisitos prévios impostos pelo noivo aos casamenteiros, a saber: a noiva não deveria ser nem uma sabichona nem uma mosca morta; deveria querer casar-se com o cidadão particular Kimitake Hiraoka (seu verdadeiro nome), não com o escritor Yukio Mishima; não devia ser mais alta que o marido, nem usando salto alto; devia ser bonita e com o rosto arredondado; devia prestar-se a cuidar de seus sogros e ser capaz de administrar a casa; por último, não devia incomodar a Mishina enquanto este trabalhasse. A verdade é que pouco se sabe dela depois das bodas, ainda que os hagiógrafos do escritor (entre eles a tão tiete como também tietada Marguerite Yourcenar) contam com fervor de como Mishima levava frequentemente a Yoko em suas viagens ao estrangeiro, o que não era costume entre os japoneses de seu tempo. Com isso, na opinião de Yourcenar e outros, parece ter cumprido: ao final das contas, poderia perfeitamente tê-la deixado em casa.

Foi no último período de sua vida que Mishima criou a organização paramilitar Tatenokai, da qual gostava de referir-se por suas siglas em inglês, SS (Shield Society ou Sociedade do Escudo). Tratava-se de um pequeno exército de cem homens, tolerado e fomentado pelas Forças Armadas japonesas. Os cem eram, sobretudo, estudantes e admiradores incondicionais, todos devotos do imperador e de um Japão mais retrógrado. Durante um tempo limitaram-se em fazer acampamentos, exercícios táticos, manobras pseudo-militares e abrirem a pele para misturar e beber seus sangues. Sua primeira e última ação verdadeira teve lugar em 25 de novembro de 1970, quando Mishima e quatro acólitos se apresentaram com seus uniformes amarelados na base de Ichigaya, em Tóquio. Ali teriam audiência com o general Mashita, ao qual iriam cumprimentar e apresentariam uma valiosa espada antiga de samurai, em posse de Mishima e sem dúvida muito digna de ser vista. Uma vez na presença do general, os cinco falsos soldados o algemaram, fizeram piquete com suas armas brancas e exigiram que as tropas se concentrassem diante a varanda para ouvir um pronunciamento de Mishima. Alguns oficiais desarmados (era proibido ao exército japonês usar armas contra civis) tentaram rendê-los e levaram uns tantos golpes de espada (Mishima quase cortou a mão de um sargento). Quando por fim pôde dirigir-se às tropas, o discurso de Mishima não foi bem recebido: os soldados o interrompiam continuamente gritando barbaridades como "Beijo-te a bunda!", ou Bakayaro!, de difícil tradução, embora o mais aproximado seria "Foda-se sua mãe!" (há quem, contudo, lhe dá um significado equivalente a "cadeirudo").

As coisas não saíram como havia planejado. Retornou para dentro do escritório e se preparou para o harakiri. Ao seu homem de confiança e possível amante, Masakatsu Morita, pediu que o decapitasse com sua valiosa espada depois que ele abrisse suas tripas, sem deixá-lo sofrer muito. Mas Morita (que em seguida também faria o harakiri), falhou o golpe nada menos que três vezes, atingindo-lhe os ombros, as costas, o pescoço, mas sem acertar-lhe a cabeça. Outro dos acólitos, Furu Koga, mais versado ou menos nervoso, arrebatou-lhe a espada e se encarregou da decapitação. Logo fez o mesmo com Morita, quem, faltando-lhe forças desde o princípio, só conseguiu fazer um arranhão em sua barriga com a adaga. As cabeças caíram sobre o tapete. Mishima tinha 45 anos, e dizem que, sempre teatral, nessa mesma manhã havia entregue sua última novela a seu editor. Em certa ocasião havia dito sobre o harakiri que era "a masturbação definitiva". Seu pai se inteirou do ocorrido pela televisão: ao ouvir a notícia do assalto a Ichigaya pensou: "Agora terá que ir pedir desculpas à polícia e tudo o mais". "Pois que vá!". Logo escutou sobre o restante, harakiri e decapitação, e confessou mais tarde: "Não me senti muito surpreendido: meu cérebro rejeitava a informação".

(Javier Marías, Yukio Mishima en la muerte; Vidas Escritas)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Os Enamoramentos, de Javier Marías


Na cena final de O Coração das Trevas, a novela de Conrad sobre a submissão do homem à aleatoriedade da história, o narrador, Marlow, está na casa em Londres da noiva do capitão Kurtz para comunicar-lhe suas últimas palavras antes que morresse nas selvas do Congo. Na verdade o propósito de Marlow era o de saciar a sua curiosidade em descobrir como era essa mulher negligenciada por um homem que preferiu o isolamento a todas as conformidades sociais, disfarçando tal curiosidade com a obrigação formal de oferecer-lhe seus pêsames, mas se vê pressionado pela mulher a cometer uma mentira. Os últimos pensamentos de Kurtz, deveriam ter sido dirigidos a seu enlouquecido projeto de se fazer o deus de uma tribo de homens primitivos na  floresta, e nada estava mais longe dele que a lembrança de uma moça apaixonada à espera em um dos centros culturais de uma distante Europa; mas Marlow, compadecido do sofrimento da moça, lhe diz que as últimas palavras do capitão foram para ela, que ele, em seu leito de morte, ocupou seus derradeiros devaneios com ela. Ele o amava, era a conclusão ultra-eufemizada que Marlow piedosamente ofereceu à moça. Na saída pelas ruas de Londres, Marlow pensa, que diferença faria se ele mentisse ou contasse a verdade? O universo continuava o mesmo, os céus não foram abalados, o tempo não parou em choque compadecido com aquele drama sobre o qual só pairava a grande indiferença que rege todas as coisas, e para a qual as ações humanas eram uma migalha cósmica em rápida progressão para o desaparecimento. 

A imagem de aleatoriedade pintada em cores fortes por Conrad se firmou como uma das mais poderosas da literatura. Edward Said vasculhou todo o mobiliário espiritual dos livros de Conrad para tecer sua crítica ao colonialismo, o que não o isentou de colocar o próprio Conrad no centro dos dogmas impostos pelo lado dos vencedores, naquilo que Said afirmou ter sido um modelo de notável impacto em direção à verdade, mas cuja situação amordaçada do autor de Lorde Jim nos conceitos institucionalizados do poder o impediram de ir mais além, de atravessar para o outro lado. E é com esse sentido nitidamente conradiano sobre a loucura, a conformidade, a mentira apaziguadora diante um universo para o qual pouco importa o peso das palavras, que Javier Marías escreveu seu magnífico novo romance, Os Enamoramentos. Os leitores acostumados de Marías sabem o quanto um romance seu oferece de tonalidades, nuances, sutilezas jamesianas, e para os mais atentos não deve ter passado despercebido que essa sua mais recente produção é uma reconstrução de O Coração das Trevas, aparentemente amenizada pelo prosaísmo cotidiano de uma sociedade global para a qual não existem mais grandes tragédias e entidades infernalmente perturbadas, não existem mais inserções hipotéticas em proto-sociedades tribais que, por sua vez, ofereçam paisagens de loucuras descomunais. Marías produziu um drama conradiano astutamente desinfectado de conflitos grandiloquentes que antes alimentavam a vaidade iluminista de nossa espécie, mesmo em seu momento de derrocada negativa na obra de Conrad. E tendo o prodígio de entregar um produto tão anômalo de suas outras obras, tão diferente e exótico, o que vejo entre algumas das resenhas dos adeptos a seu estilo digressivo e de ensaísmo pausado é um desconcerto em definir se este seu novo filho agradou ou desagradou, uma certa dificuldade em dizer se se trata, enfim, de um filho realmente legítimo ou mera epifania de virtuoso que esbanja as técnicas de seu ofício. Pois Marías, afirmo com absoluta convicção, fez aqui um de seus maiores livros; investido com uma concisão e a disciplina de limitar sua prolixidade verbal apenas aos eventos da trama de um assassinato brutal, Marías aqui consegue o efeito de estender uma análise crítica quase subliminar (ao nível insinuador de Henry James) à negligência de sentimentos do homem urbano high-tech e sua frieza corporativa adepta à elegância da religião da uniformidade  destituída de todos os excessos. Marías aqui atinge o mais elevado grau da acusação nietzschiana de que o homem moderno transformou o que antes eram traumas servidos a evoluir o espírito a simples e macilentos temas de consultas da psicanálise.

A começar por esse quase neologismo do título: enamoramentos. Um termo que só existe, um dos personagens do romance diz, em alemão e espanhol, e quem sabe em francês antigo. Esse recurso a um vernáculo obscuro e até então desconhecido da grande maioria, além de ser algo cacofônico aos ouvidos (quando soube que o título era esse, senti uma desconfiança quanto ao equilíbrio de julgamento artístico de Marías: enfim, pensei, as qualidades mannianas de sua prosa não se sustentaram e decaíram nisso), é visualmente um prejuízo a qualquer apelo comercial. Lembra a falta de traquejo de escritores esquecidos ou as primeiras obras ingênuas e repudiadas mais tarde pelos próprios autores (como O Enigmático, de Knut Hamsun). Em se tratando de um dos maiores nomes das letras atuais, e por isso nada que suspeite amadorismo ou lesão cerebral irremediável, é cabível que tal título seja visto como uma peça preciosa de ironia, uma ironia triste e, em última instância, uma ironia coberta de terror que remete aos contos de terror de Arthur Machen, autor citado em duas outras obras de Marías. Enamoramentos é um substituto a todas as fórmulas mais elegantes, aprazíveis e mercadológicas que se oferecem ostensivamente às mãos (os derivativos adverbiados de paixão, amor, amantes, noivos, casamentos, etc). 

Os personagens são todos alheios a qualquer um desses termos mais aquecidos que no imediatismo da cultura cinematográfica remetem ao amor e às paixões arrebatadoras; são tão envernizados na mesma cor dos escritórios, carros, restaurantes e camas em quartos arquiteturalmente feitos para o conforto, que a vida deixou de ter o mínimo caráter aventureiro e ousado, a mínima constituição externa. A narradora, María Dolz, (os romances de Marías são narrados em primeira pessoa), se enternece, todas manhãs, em ver o que para ela é o casal perfeito, sentado de frente a ela no restaurante em frente à editora em que trabalha; nunca se aproximou daquele homem e mulher insustentavelmente felizes (o que lhe encabula é que tem todos os sinais de um casamento de longos anos, mas demonstram interesse e assuntos recíprocos que parecem não terem acordado juntos na mesma cama), nega-se a lhes saber os nomes e mesmo a procurar dirigir-lhes palavras as mais triviais. Mas esse voyerismo é o oásis em seu cotidiano insípido, em que enfrenta o egocentrismo de escritores espanhóis caricaturescos e o tédio das viagens e promoções editoriais. E a narradora só vem a tomar uma atitude quanto ao casal, quando, ocasionalmente, uma de suas colegas de trabalho lhe comunica que o marido da mulher fora brutalmente assassinado por um flanelinha louco. Daí, María visita a viúva, conhece os dois filhos do casal, e Javier Díaz-Varela, o melhor amigo do morto. Aos poucos, o que era somente a placidez desinteressante de um acaso brutal, se oferece à narradora o vislumbre do que estava realmente por detrás do assassinato: um conluio em nome não da ganância ou da disputa empresarial, não de fervorosas necessidades de posses, mas apenas, em nome do enamoramento.

María Dolz (uma das fragmentações auto-acusadoras do nome do próprio autor), serve como uma repaginação de Charles Marlow, e cabe a ela a opção por escamotear a verdade no final do romance. Ela suporta os longos monólogos kurtzeanos que o responsável pela loucura do isolamento deísta que acarretou na tragédia da trama lhe dirige durante o transcorrer do livro: monólogos que Marías, diabolicamente, faz monótonos e monocromáticos, destituídos de conexão com a carga de violência que contêm. María retorna para seu apartamento, deita-se na cama, da qual ouve continuamente o som dos galhos da árvore de fora batendo contra o vidro da janela, e repensa essas experiências e o segredo que inadvertidamente agora sabe, e se martiriza quanto à sua responsabilidade moral de revelar ou não um crime. O Congo de María Dolz é a tibieza, a indiferença, o uso pessoal da verdade para esconder o que, em outros tempos onde o calor não fora dissipado, seria o inconcebivelmente cruel. O assassinato, as razões para ele, sua explicação elegante, é desfiado de maneira tão distinta e parcial, pela voz de um dos que estão do lado de dentro e contra o qual nenhuma ameaça chega, protegido pela sociedade ornamental da segurança refrigerada, que Os Enamoramentos é uma obra de um diabolicismo raro, apto para adentrar a lista de obras diabólica proposta por Giovanni Papini (que nomeou De Quincey, Nietzsche, William Blake, ao lado de Dos Passos, que, segundo ele, é responsável pela descrição das "formas mais diabólicas da vida americana dos nossos dias"). Marías nos instrui a pensar em um grau que justifica cada vez mais a sua altura entre os grandes criadores modernos.

sábado, 22 de setembro de 2012

Seu Rosto Amanhã, a Trilogia

Javier Marías no lançamento do volume único, de 1328 páginas, de Tu Rostro Mañana


Seu Rosto Amanhã é um ambicioso romance dividido em três partes do escritor espanhol Javier Marías que juntas somam mais de 1300 páginas e que é um amplo panorama memorialístico onde se fundem vivências pessoais transpostas para a ficção, personagens reais dissimulados em excêntricos semi-inventados, revisionismo histórico (que tanto é da Espanha do autor, quanto da Alemanha e da Inglaterra do pós-guerra), e um sem fim de reflexões que vários críticos tem visto como proustianas e que, à parte tudo o que essa obra tem de tema objetivamente sustentável, é graças à musicalidade que Marías impregna a estas partes que esse livro é tão cultuavelmente distinto. Esse romance tem desconcertado à crítica mais destemida, que mesmo no paroxismo que a simples coragem envolvendo a criação de uma obra desse porte nos dias do entretenimento ligeiro de hoje causa, não se exime de citar, quase sem querer, que Marías tem um estilo rebuscado, difícil, ou essa fórmula vernácula já consolidada de que ele escreve assim para despistar os frívolos já na primeira página. Porém, ler Marías compulsivamente como eu venho fazendo desde que conheci, sem nenhuma advertência, seu romance mais popular, Coração Tão Branco, há dois anos, me serviu a ver que tal escritor não passa de um trabalhador com amplos conhecimentos do seu ofício, desses sobre os quais a sina do talento pesa com tanta inevitabilidade que se pode constatar que seria um fracassado para todas as outras labutas terrenas que não fosse a da escrita, e que nem sua obra equivocadamente é, nem ele almeja a ser, um autor experimental que queira criar novos e intrincados idiomas, ou produzir em série literatura que só possa ser lida por literatos. Marías é mesmo um simples, e sua transparência deixa nítido que sua voz deve muito a três próceres canônicos, a saber, Shakespeare, Laurence Sterne e Joseph Conrad, sendo que tudo o mais em seu caudal de apego irrestrito à tradição literária vem do apuro musical com que preenche suas frases das mais extraordinárias e excêntricas meditações de uma miríade de assuntos, desde a morte, a efemeridade da existência, até prosaísmos tais como o uso estético do botox e a utilidade de espadas medievais em banheiros de boates como objetos de convencimento para se manter distância de damas casadas com altos figurões ministeriais. 

Ler Seu Rosto Amanhã, neste início de século (que já vai à velocidade inapreensível das coisas que, à falta de tempo para serem digeridas e entendidas no que querem dizer pragmaticamente, nos digerem elas), e nesta ocupação meio calejada de leitor profissional para a qual não se espera que vá se surpreender positivamente com algo novo, foi o equivalente espiritual à vivência dos grandes livros da idade da descoberta entre os vinte e trinta anos, os Faulkners, os Demônios dostoiveskianos, os Tchecov, os Montanhas Mágicas. Sair dessas mil e trezentas páginas aproximadas de retorno ao mundo cotidiano foi o mesmo que aceitar a decepção da verdade recorrente dos atos sociais em que escondemos já muito acostumados e felizes todo o universo do psiquismo das longas frases e do pensamento sutil para sermos apenas os monossilábicos de improviso expressando o básico de nossas alegrias hormonais e nossos ódios de primata desafiado no trânsito. O mal que a leitura de Seu Rosto Amanhã pode fazer _ e isso deveria ser colocado como tarja de advertência na capa do livro, por uma obrigação ministerial e com os seguintes dizeres: “Esse livro pode causar a impressão de que a espécie da qual o leitor faz parte tem um mundo de formas ideias e requintadas aonde ele poderia viver em harmonia plena com imaginosas concepções cerebrais nas quais mesmo o ódio, a culpa e a vingança, seriam entendidas de um ponto de vista semi-divinatório”_, é o de tornar o leitor descompassado com a então hiperatrofiada ciência da bestialidade que são as quatro paredes primordiais de qualquer cenário moderno e os asfaltos da cidade que simulam conduzir para algum lugar. Pausa: note bem: alguma voz oportunista pode estar falando: mas essa não é a impressão despertada pela maioria dos grandes romances?, e estará certo; como eu já disse, Marías não traz nada de novo, embora ele seja, à primeira vista, impossível de se classificar.

(Ao crítico que quer passar a informação útil ao leitor interessado sobre o que a leitura de Marías trará de benefício a um investimento de tempo nem um pouco irrisório, diante a visível concentração de parágrafos que o folhear de qualquer de seus romances deixa à mostra, fica algo solto no ar a capacidade não rotulável que se cola incomodamente ao autor de Todas as Almas e Coração Tão Branco: seu livro mais ambicioso, Seu Rosto Amanhã, é caudaloso como o são os de Thomas Pynchon e Roberto Bolaño, mas Marías não tem o barroquismo do primeiro nem o namoro com a literatura de gêneros do segundo; seu iberismo não se conforma à lapidação artesanal do idioma da maneira como o faz outros conterrâneos geográficos, como José Saramago e Antonio Lobo Antunes; ele está distante mesmo do seu gêmeo de fama literária, Enrique Vila-Matas, no que os poderiam aproximar mais como o recurso à metalinguagem e ao uso das picuinhas secretas da história da literatura dissidente como tema; seu anglicismo vê os costumes seculares de uma velha Inglaterra estagnada em sua mitomania de hierarquias doutorais oxfordianas e clubes fechados de espionagem empresarial e política com uma percepção da decadência que em nada se assemelha à mesma percepção de gente como Ian McEwan, John Banville, ou ao V. S. Naipaul de O Enigma da Chegada; e, apesar de ser o detentor de um coeficiente de vendas que o coloca na mesma posição de grandes romancistas pop, como, por exemplo, Philip Roth, seus livros estão longe de ceder às tabuadas de gosto pelo erótico ou de encarnar-se como superego espetacular das culpas históricas de grandes impérios às margens da decadência.)

Mas para facilitar a vida do pretenso leitor de Seu Rosto Amanhã, vou intentar fazer um resumo de cada um de seus três volumes. Segue:

Seu Rosto Amanhã [vol 1.], Febre e Lança

A saga se inicia com uma peroração do narrador ainda indeterminado sobre a natureza do discurso e do falar, em tons sombrios e admonitórios em que ele aconselha: "Ninguém nunca deveria contar nada, nem fornecer dados nem veicular histórias nem fazer com que as pessoas recordem seres que nunca existiram nem pisaram na terra ou cruzaram o mundo, ou que, sim, passaram mas já estavam meio a salvo no retorcido e inseguro esquecimento." O leitor se inicia na musicalidade da prosa de Marías, em sua ânsia contida, em sua ebulição de homem maduro que cruzou um limite da experiência e está além do estoicismo e da sabedoria; prescinde, pode-se dizer assim, do estoicismo e da sabedoria. Aliás, essas primeiras páginas de SRA é um minimalismo em síncope da conclusão que chegou o narrador sobre a importância do calar, do não dizer, do se isolar na indiferença estudada sobre o quanto é pernicioso a informação sobre o passado ou mesmo sobre os gestos cotidianos. É um tanto irônico que o narrador pregue tal filosofia, já que está a compor a primeira de mais de mil páginas de um trabalho que, praticamente, alcança o papeamento sobre grande parte das coisas que mobíliam os mexericos e os efêmeros interesses humanos. O narrador, que em seu fluxo incontido de falar, um fluxo que simula margear o psicótico e o autismo, esquece-se de se apresentar, ou não tem tempo para isso; exclui-se de se posicionar no enredo, não oferecendo sequer um enredo, cedendo apenas à paixão de juntar palavras, de povoar mais ainda a apregoada inutilidade de dizer com um labirinto de discursos metásticos que se desdobram em um sem fim de assuntos possíveis. Mas tal narrador, prodigamente, não se enquadra no filistinismo de tal contradição: tal narrador é um filho aperfeiçoado de Laurence Sterne, ou, mais exatamente, desse narrador sem freios, extraordinariamente perspicaz e preparado, extraordinariamente lúcido e provido de humor, que é a maior das criações de Sterne, Tristram Shandy. Todo Seu Rosto Amanhã é explicitamente shandyniano_ Marías é tradutor premiado de Tristam Shandy na Espanha, e em um ensaio em Literatura y Fantasma admite que, ao traduzi-lo, sentiu-se com essa possessão de co-autoria que junta escritores temporalmente impossíveis em uma irmandade centrada naquele que usufrui da contemporaneidade_ , em sua inexorável tendência à digressão, em sua lentidão voluntária de atrasar um momento em suspense muito esperado da história para cair mais outra vez na divagação, em seu respeito obsessivo às pequenas coisas, em sua filosofia dedicada ao trivialesco.

Então, o narrador se apresenta: chama-se, em resumo, Jaime Deza, mas até nesse simples fato cartorial há espaço para subentendidos e cogitações sistemáticas, já que, dependendo da localidade física, Jaime se torna Jacobo, Giacomo ou Jaques. Deza é um espanhol que estudou em Oxford, tendo sido professor nessa universidade inglesa por dois anos. Ao sair de lá, tem o convite de um antigo e venerável amigo, o emblemático Peter Wheeler, para se juntar a um clube seleto e semi-secreto de espiões remanescentes do MI-5 e MI-6 (Military Intelligence), que, com o fim da guerra fria e do ambiente do pós-segunda guerra que tanto gerou-lhes atividades políticas, passaram a ter seus serviços contratados por grandes empresas multi-internacionais e pela ainda subliminarmente forte administração estatal de alguns países (sobretudo das generálias do terceiro mundo latino-americano). Deza aceita, ao ser anunciado sobre seu talento em, escondido por espelhos falsos, ou mesmo em silente observação diante as pessoas a serem avaliadas, ter a capacidade de adivinhar, através de uma perfunctória análise de expressão e gestos, o que tal pessoa estará susceptível de fazer no futuro_ o que tal rosto será, amanhã. Junto a outros profissionais da previsão _ uma espécie de precognitivos não-paranormais do romance de Philip K. Dick_, Deza dita o destino de nações, ao avaliar que tal encarregado de pegar um empréstimo destinará tal quantia a uma usurpação do governo de um país sul-americano, ou o que acontecerá no show-business ao sentenciar que tal cantor está no final de carreira e já posicionado para a decadência, não devendo o mercado fonográfico apostar mais fichas nele.

Mas, como foi dito, o enredo fica em segundo plano. Aqui, o que interessa, e é a força motriz da grandeza de Marías, são as digressões e análises profundas, bastante poéticas e filosóficas, que intercalam incessantemente todo o livro. O que vale dizer é que, tais digressões, são menos gratuitas que as do mestre de Marías, Laurence Sterne, ou, melhor dizendo, uma hora ou outra perdem sua pureza shandyana e deixa entrar a luz trágica da outra influência capital do autor, Joseph Conrad. Grande parte desse primeiro volume se centra na história da traição sofrida pelo pai de Deza por um grande amigo, na época do ápice da glória de Franco, e de como o pai perdeu toda vida intelectual ou influente como paga pela grande sorte de ter escapado da execução. As capas dos três volumes da edição da Companhia das Letras são obras-primas à parte e sutis informações artísticas sobre o livro_ uma atenção tocante dos editores quanto ao valor desse grande romance de Marías, demonstrando o carinho de leitores transformados em editores_, e a capa dessa primeira parte mostra as marcas de tiros desferidos na Batalha de Madri contra um prédio próximo à Gran Via. Deza mostra, num dos impactos da  obra, inserido em um propósito oblíquo mas solidamente organizado e seguramente conduzido na composição fechada da narrativa, ao se atentar longamente sobre os desastres espirituais e as consequências humanas terríveis advindos com a guerra. Há cenas fortes, como o literal toureamento de um professor universitário que se nega a se curvar para os militares franquistas, e tem as orelhas e o pênis cortados, e as costas perfuradas com as lanças dos touros, antes de morrer. Outra das cenas que marca o que se seguirá de mais sério no estudo da violência, a partir do segundo volume, é a descrição do pai de Deza da conversa que ouviu no bonde, certa vez, entre duas mulheres: ao passarem de frente a uma janela de um prédio, uma das mulheres fala, da forma mais coloquial e dessensibilizada possível, que foi ali que ajudou as forças franquistas a invadirem a residência de uma família denunciada como traidora da causa, e ali ela mesma pegou o bebê de colo da família e o arremessou contra a parede, o matando. Aqui, o leitor para a leitura e se persigna; aqui, Marías mostra sua astúcia suprema de executar uma das poderosas frases musicais bombásticas e veementes que se anunciará com toda sua presença pressagiadora dali em diante.

A influência de Conrad se faz mais presente, nessas desoladas paisagens espirituais sobre a danação humana, e nos retratos imbatíveis de personalidades da obra. Os retratos de rostos e entidades feitos por Marías é coisa de regalar os olhos; é inevitável pensar que se está a ler páginas ali que são instantaneamente clássicas. Esse volume se encerra também à maneira conradiana, num longo monólogo de Peter Wheeler, que faz lembrar o monólogo do capitão Kurtz, ouvido pelo narrador às margens do rio Riva, na casa de campo de Wheeler.

Esse primeiro volume apresenta ilustrações curiosas, como a reprodução dos cartazes da campanha de persuasão do governo inglês durante a segunda grande guerra para reprimir que a população entregasse levianamente informações importantes para os espiões inimigos, incorporados no disfarce de vizinhos inofensivos. Wheeler mostra a Deza sua coleção desses tais cartazes, conhecidos como Careless Talk.

Cartazes do Careless Talk, em Seu Rosto Amanhã 1

                                                  



Seu Rosto Amanhã [vol 2.], Dança e Sonho


A capa que a Companhia das Letras escolheu para o segundo volume é ainda mais sutil e eloquente: uma escadaria fotografada de maneira enviesada em que apenas os que passaram pela leitura do primeiro volume percebem a mancha de sangue em um dos degraus. Na noite que antecede o convite de Wheeler para o narrador ingressar no trabalho de leitura de rostos, Deza vê no degrau da casa de Wheeler uma poça de sangue misteriosa, que, questionando na mesa de almoço sobre o fato, tanto a governanta quanto Wheeler demonstram um desconhecimento tão cabal sobre o assunto que o próprio Deza passa a pensar ter tido uma alucinação. Esse acontecimento nebuloso retorna repetidas vezes ao longo do livro, só sendo revelado no penúltimo capítulo do volume final. Mas a insinuação muito bem construída por Marías da imperenidade da existência com a aliteração desta cena, e do caos que se instala quando se pressupõe a aquisição do poder através da violência, seja esta institucional ou pessoal, dá o ensejo à entrada definitiva em um dos principais temas do romance, sendo este a citada violência. 

Quase toda a ação desse volume se passa em slow-motion em um banheiro de deficientes físicos de uma discoteca londrina, em que Deza acompanha passivamente a um de seus chefes atacar com um espada a um adido cultural que perdeu a postura na pista de dança com a esposa de um chefão. É o volume de menor número de páginas, e o único que não apresenta gravuras, e o mais próximo das tensões esperadas pelo público leitor que queira ver traços do cinema e da literatura norte-americana de entretenimento de massas. Aqui Marías se revela um mestre do suspense retardatário; atrasa o máximo ao leitor saber se haverá um assassinato por decapitação, ou se tudo não é somente uma ameaça engendrada como imposição meramente vaidosa de poder pessoal. Enquanto o braço de Tupra, o chefe imediato de Deza, desce com a espada por sobre o pescoço da vítima, que está semi-desmaiada no chão do banheiro, a verve shandyana de Marías retorna nas divagações paralelas incontidas que misturam o trivial ao universal. A brutalidade que perfaz esse segundo volume, mesmo revestido ainda da elegância perspicaz da música de Marías, é um tanto impactante, e vai descambar para a ação no último volume em que o próprio narrador se embrenha em equiparar-se àquele que antes condenava.

Seu Rosto Amanhã [vol 3.] Veneno, Sombra e Adeus

Esse é o volume que tem maior número de páginas. Inicia-se imediatamente de onde o volume 2 se encerra. Há de se falar que são muitas tramas paralelas, impossíveis de serem citadas mesmo em uma resenha tão extensamente pedante quanto esta. Daí que inicia-se de onde a principal trama se encerra. Estão, Tupra e Deza, na casa desse primeiro, tendo um tenso diálogo sobre a natureza da violência, sendo que Tupra, do alto de sua indiferença magnética, que tanto seduz e repudia a Deza, apresenta a sua teoria Mansfield-Kennedy, como lenitivo para que Deza não se assuste tanto com as demonstrações de crueldade cometidas por ele na discoteca onde se finaliza o volume antecedente. Para ilustrar melhor suas tentativas de resgatar o colega para a tranquilidade e a racionalidade corriqueiras lesadas, mostra uma foto involuntariamente cômica em que aparece Sophia Loren, sentada diante a mesa de um restaurante, na atitude entre curiosa e invejosa, olhando furtivamente para o interior do largo decote de uma atriz até então no auge da fama, chamada Jayne Mansfield, sentada a seu lado. A foto vem estampada na página 32 da versão brasileira.
Foto que embasa a extravagante teoria Mansfield-Kennedy, sobre a tendência universal humana à ruína, à auto-destruição e à violência

Marías começa por expressar o diálogo em torno dessa foto com um aerado humor descritivo, tão típico de um sterniano carimbado. O leitor vê além da foto; vê através dos olhos de Deza, profissional treinado para enxergar o que está por detrás das armadilhas da superfície ludibriadora, e vê através do olhar incisivo do grande escritor Marías, que, partindo da graça flagrante do olhar cobiçoso de Sophia Loren, algo tão desprovido de transcendência ou de memória prolongada, deriva para a tendência humana à ruína, à auto-destruição e à violência. Com essa foto cômica, Marías constrói uma extravagante mas bem fundamentada teoria sobre a efemeridade das glórias terrestres, o que se vê como um dos temas de todos os seus outros romances ( há um belíssimo ensaio em Literatura y Fantasma, em que ele narra o que os assessores de alguns imperadores romanos assopravam nos ouvidos do monarca no momento da coroação: E no entanto, recorde-se sempre de que és mortal! ). Jayne Mansfield era uma atriz em vertiginosa acensão na época da foto, ainda que seu campo de atuação fosse a de um erotismo bem mais explícito que o de Loren; mas é irrefutável que por onde passava, lançava em uma latente invisibilidade mesmo beldades consolidadas no cânone de Hollywood como Loren, devido à sua beleza exultante, excessiva, esfuziante. Tupra passa a contar o que ocorrera com Mansfield, o que de todo não foge da via sacra das grandes tragédias pessoais de álcool, drogas e sexo que determinou a queda de tantos outros que atravessaram rapidamente o tapete da fama de aparência imorredoura. Mansfield teve seus casamentos e divórcios, suas brigas bêbadas com figurões do cinema que a colocaram nas famigeradas listas negras dos grandes estúdios, se envolveu, mesmo que tangencialmente, com um palhaço que se dizia o papa do diabo, um tal de Anton La Vey, que dizia ter escrito a Bíblia Satânica, e acabou seu último dia de vida nos destroços de um carro, num acidente fatal numa estrada que matou a ela e ao amante. Por que o nome de Kennedy nesta sua teoria?, pergunta Deza. Ao que Tupra responde:

"Teria servido qualquer um desses outros nomes (que morreram drasticamente: Lincoln, Keats, James Dean, Cristo), e muitos mais, não são poucos os que devem sua celebridade máxima ou seu não esquecimento à sua forma de morrer, ou à sua hora, quando se diria que ainda não era a vez deles, ou que era injusto. Como se a morte entendesse de justiça ou se preocupasse com ministrá-la, ou quisesse entender, é absurdo. No máximo é arbitrária, é caprichosa, quero dizer que estabelece uma ordem que nem sempre cumpre, e escolhe ou descarta: às vezes vem decidida e, com todas as probabilidades, se aproxima, nos sobrevoa, olha, e de repente decide deixar para outro dia. Há que ter muita memória para se lembrar da cada vivo sem deixar escapar ninguém. Sua tarefa é infinita, e mesmo assim a realiza com uma minúcia exemplar há séculos. Que servo eficaz, que nunca cruza os braços nem se cansa. Nem se esquece."

Marías está a nos dizer como aquele filósofo que afirmou que o grande mal da história é o homem querer sair para fora do umbral de sua casa. Deza, que sempre suspeitou que seu talento para ver o futuro no rosto dos chefes militares do terceiro mundo e artistas decadentes não passava de um engodo pessoal alimentado pela necessidade de seus contratantes, não consegue ver seu próprio rosto amanhã. Explora mesmo o psiquismo profundo e velado de há séculos falecidos rostos de condes e condessas retratados nos quadros do Museu do Prado, mas não adivinha que o repúdio que lhe causa a violência de Tupra não o impedirá de cometer a mesma extrema violência com o amante de sua ex-esposa Luisa, o pintor de falsificações Custardoy. Suspeitando que Custardoy espanca Luisa, e temendo que, em decorrência, este venha e ocupar em definitivo o espaço que a separação deixara junto a Luisa, acarretando em uma ameaça para a segurança de seus filhos, Deza se lança em um plano de vingança que ocupa o suspense de grande parte de SRA 3.

Marías conclui esse esplêndido romance contradizendo a norma filosófica que abre o livro e se repete ao longo de suas infinitas páginas, a necessidade de se calar, a vanidade da fala e o total desplante do verbo. O leitor fica querendo ouvir mais e mais as perorações de Marías/Deza. Mas Marías nos dá um ingrediente final de seu já vasto universo de recolhimento livresco: nos apresenta, enfim, os verdadeiros Peter Wheeler e o pai de Deza. Uma foto nos mostra o encanecido Wheeler, que foi Peter Russell na vida real, e o pai de Deza, com todas as suas confissões de dignidade de exilado incorruptível e estoico, é o pai do escritor, o filósofo Julián Marías.

"No limiar da gordura, ou nem tanto (uma mulher larga, em todo caso), sua expressão era muito ausente ou nada vivaz, embora tivesse em seu olhar um vestígio de sossego, de quase indiferente determinação", Deza usa seus poderes para deslindar a há muito falecida Condessa de San Segundo, Camilla Gonzaga.