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terça-feira, 19 de julho de 2011

A Aventura de Shostakovitch Durante o Interrogatório na KGB, em 1937

 
Deram-me um passe [de segurança] e fui para a sala [do NKVD]. O investigador se levantou quando entrei e me cumprimentou. Foi muito amistoso e me convidou a sentar. Começou a fazer perguntas sobre minha saúde, minha família, o trabalho que estava fazendo_ todo tipo de pergunta. Falava de maneira muito amistosa, receptiva e bem-educada. Então, de repente, perguntou: "Diga-me, conhece Tukhatchevski?". Eu disse que sim e ele perguntou: "Como?". E eu disse: "Num dos meus concertos. Depois do concerto, Tukhatchevski foi ao camarim me parabenizar. Disse que gostava da minha música, que era meu admirador. Disse que gostaria de me encontrar para conversar sobre música quando viesse Leningrado. Disse que seria um prazer discutir música comigo. Disse que, se e fosse a Moscou, gostaria muito de me ver." "E com que frequência se encontravam?" "Só quando Tukhatchevski vinha à cidade. Costumava me convidar para jantar." "Quem mais estava à mesa?" "Só a família dele. Familiares e parentes." "E o que discutiam?" "Música, principalmente." "Política, não?" "Não, nunca falávamos de política. Eu sabia como eram essas coisas." "Dmitri Dmitrievitch, isso é muito sério. O senhor precisa se lembrar. Hoje é sábado. Vou assinar seu passe e o senhor pode ir para casa.. Mas, ao meio-dia de segunda-feira, tem de volta aqui. Não se esqueça. Isso é muito sério, muito importante." Entendi que era o fim. Aqueles dois dias até segunda-feira foram um pesadelo. Disse à minha mulher que talvez não voltasse. Ela chegou a me preparar uma bolsa, do tipo que se prepara para quem vai ser levado. Colocou roupas de baixo de inverno. Eu sabia que não ia voltar. Fui até lá ao meio-dia [da segunda-feira] e me apresentei na recepção. Havia um soldado lá. Dei-lhe meu passaporte [interno]. Disse-lhe que fora convocado. Ele procurou meu nome: primeira lista, segunda, terceira. E disse: "Quem o convocou?". Eu disse: "O inspetor Zakovski." Ele disse: "Ele não vai poder atendê-lo hoje. Volte para casa. Nós o chamaremos". Devolveu meu passaporte e fui para casa. Só mais tarde, à noite, soube que o inspetor fora preso.

Disponível em inglês em: 
http://www.siue.edu/~aho/musov/basner/basner.html

(Citado em Em Defesa das Causas Perdidas, de Slavoj Zizek, tradução de Maria Beatriz de Medina, Boitempo Editorial, pp. 251-252.)