Ontem ouvi por acaso uma música de minha juventude. Arc of diver, do Steve Winwood. Eu quase tive que me sentar para suportar a carga emocional tremenda. Era a música que eu ouvia nas férias que passei com meu pai, em São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, na casa do meu tio. Me veio a lembrança poderosa do frio, das igrejas coloniais, dos olhares das moças para o rapaz tímido e bonito que eu era (quem não é de uma beleza estonteante aos 17 anos?). Era tudo um sonho real, de uma delicadeza profunda. Eu lia O processo, e meu pai, O exorcista, no quarto à noite. À mesa da casa do meu tio sentávamos meu tio Nute, minha prima Patrícia, de 13 anos, minha tia, meu pai e eu. A conversa era animada, cheia de conforto e carinho. Meu pai apontava para meu nariz e para o nariz de minha prima e dizia: "são iguais, narizes petulantes". E todos riam. Nunca mais voltei para lá. Da mesa, minha prima morreu ainda jovem de um avc. Meu tio Nute não suportou a tristeza da perda e morreu um ano depois. Meu pai sucumbiu ao câncer, sem conhecer meus filhos, seus netos que ele teria amado além de todas as coisas. Para onde vai isso tudo? Será que tudo isso se perde? Será que a reivindicação de uma continuidade só tem sua lógica diante a evocação da música? Ou será que a própria efemeridade é que dá substância a isso que, por falta de uma palavra ainda não inventada, alguns conceituam como beleza_ "para consumar a beleza do propósito de Deus"? Esses dias eu tive um sonho. Em espírito eu atravessei o mundo. Entrei em florestas. Nadei nas águas escuras de um grande lago escocês à noite. Sem medo. O que eu senti ao acordar foi isso: sem medo. Eu tive uma sensação quase insuportável de felicidade, algo que também a palavra não foi feita para comportar, uma infinita confiança no pertencimento. Eu era o cosmos. "We'll hold today to ransom 'til our quartz clock stop until yesterday".

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