Os romances de Faulkner acontecem em quatro fases, cujas mudanças espontâneas e quase indistintas surgidas ao longo da narrativa são uma das excepcionais e superioras características do estranhismo de Faulkner.
A primeira fase é a da apresentação dos personagens e dos cenários, as primeiras tintas , respectivamente, de suas maldições históricas e da natureza indomesticável avessa à presença do homem;
A segunda a inter-relação dos personagens entre si e destes com a natureza espacial mítica criada pelo autor;
A terceira, que tem a enganosa aparência de ser mais importante que as outras (tudo em Faulkner se complementa com o mesmo grau de relevância), é quando tudo se reviravolta e ganha rumos inesperados, quando as certezas estabelecidas com as quais o leitor tem a sensação de firmar o olhar seguro são desfeitas e o enredo passa a transitar por passagens surpreendentes, onde a complexidade geral surge por sob a suposta linearidade dos eventos;
A quarta e última fase é quando reinicia a repetição do ciclo, e o estranhismo _ traço essencial a um grande escritor _ se assenta, com seus ares de que está prestes a solucionar os enigmas propostos , mas que na verdade impõe o que uma arte que se iguala ou ultrapassa a casuística da vida tem a determinação de expressar: a de que não somos destinados a existir em um universo seguro, com regras pré-estabelecidas, e não nos será revelada a solução dos mistérios.
Qualquer um com aptidão física para repetir essas prestigitações da escrita pode simular fazer a mesma coisa, mas Faulkner, como poucos criadores _ e estando em um patamar acima dos bem sucedidos entre eles _ , consegue jogar por sobre suas páginas o jorro luminoso da uma poderosa autenticidade; seus personagens são tão reais no que tem de erráteis, e sensíveis ao soco propulsor de seus primeiros contatos traumáticos com o mundo, tão defensivos em repetir cegamente a violência que sofreram em cantos escuros da infância e propícios a serem vetores da infindabilidade do medo e do abandono, que suplantam os esquematismos técnicos da ficção genialmente urdida para ganharem ossos, carne e espírito.
Os piores entre os piores homens de Faulkner sempre tem um passado em cuja indequabilidade a um mundo corrompido ativam seus recônditos potenciais de adaptação, eximindo-os de compreender, e os tornam proficientes a falar o mesmo idioma da rejeição sofrida. Em algum momento deixam de ser ternos, assustadiços e silenciosos, principalmente quando uma etapa da sucessiva violência a que são vítimas demonstra-se brutal demais para que possam prosseguir com a mesma integridade, e se tornam mesquinhos, inumanos e silenciosos. A maior parte dos homens-demônios de Faulkner tem essa constituição: ser quase por completo silenciosa. O silêncio torna-se um escudo físico que mesmo para Faulkner ( que era o primeiro a se assustar com suas aparições de erradiações sinistras, antes de moldá-los no discurso) era uma barreira indevassável que não conseguia tornar efetivamente translúcida, daí que, nessa fase de construção degradativa dos personagens, Faulkner passa a descrevê-los utilizando elementos instrumentais de um materialismo duro, férreo, industrial. Os olhos de Popeye, em Santuário, parecem-se com maçanetas de porta, a mulher de Palmeiras Selvagens possui o rosto vítreo de insondáveis móveis domésticos, Joe Christmas, de Luz em Agosto, parece a encarnação pétrea da geografia do sul dos Estados Unidos, tanto no que ela tem de carvonesca, quanto do maquinário explorador do trabalho dos sub-assalariados exaustos e da inamistosidade sem vida das indústrias e das oficinas paupérrimas dos povoados de beira de estrada.
São propostas às criaturas de Faulkner as duas únicas alternativas de um mundo imisericordioso: o suicídio, ou a participação ativa na promiscuidade reinante. Os que rejeitam a primeira opção tem o benefício excruciante de progredir até o máximo que a torpeza e a inumanidade lhes permitem, e se tornam senhores escravocratas, donos do condado, beneficiários dos galardões de uma sociedade covarde e amesquinhada diante suas opressivas estaturas de poder, de forma que são os homens que se venderam para ter seus nomes nos jornais, contas nos bancos, e juízes marcados nos bolsos do paletó.
São inteligentes e carnais demais para desaparecerem da existência por suas próprias mãos. Do ponto de vista das engrenagens sociais, não há muito a se condenar neles: são os promotores do que confere graça à vida, os que conseguem iludir que acabrestaram a furia caótica da natureza pondo sobre ela o sinal do falso domínio do homem, os que simulam preencher o Nada etéreo e desesperdor com o pesadelo reconfortante da forja de tradições e mitologias para as quais se oferecem como alimento para o povo que os investem dos temores devocionais das divindades.
Os indefesos, os puros, indomáveis e incorruptíveis (como Boon Hogganbeck e o velho urso Old Ben, de Desça, Moisés, Quentin Sutpen de Absalão, Absalão!, e o retardado de O Som e a Fúria ), optam pelo suicídio, ou, na melhor das hipóteses (o que não configura uma terceira opção, mas uma abrangência da primeira), suicidam-se ao tomarem para si o silêncio das mortalhas em vida que os isolam do mundo. Daí tantas tias solteironas trancadas para sempre em casarões desabitados, diante as janelas das quais os vizinhos depositam diariamente um prato de comida, ou como o odor de putrafação de santidade que se desprende do pastor caído Hightower, ou como o retardado que narra a primeira parte de O Som e a Fúria para quem o instante perpétuo é a única sobrevida que ilusoriamente tem antes que o mundo o trage e destrua. O povo constrói os seus deuses, como também seus santos.
Por detrás do mundo de cores ásperas de Faulkner, de suas chuvas desoladoras, de suas florestas altissonantes, herméticas e pré-históricas, de suas vilas onde o tédio de antigos vícios sedimentados alimenta o veneno de velhos ressentimentos, de todo condado de Yokanapatawpha que reflete o provincianismo e a conjunção irredutível a um conservadorismo ultra-violento dos primórdios do coronelismo e dos amores patrióticos à terra; por detrás desse mundo onde tudo ressende a desumanidade, paira o que distingue Faulkner de todos os outros grandes escritores antes e depois dele, e o que determina a sua herança: a força de sua linguagem apoteótica, única, devastadora, de sua beleza poética e de seu alcance esotérico, seu estranhismo, para o qual não se achou outro termo melhor que "moderno", mas que não se enquadra aos meros exercícios de originalidade dos novos desbravadores da lingua e não se coapta a academicismos e teorias facilitadoras; sua imponência bíblica, sua carga de maldição profética, sua solidão intocada de ter nascido no país que talvez não fosse o certo para comportar seu orientalismo moral e sua inconformidade messiânica se não tivesse em sua linha genealógica pregressa antepassados como William Blake, Melville e Emerson, e cujo único filho futuro merecedor de ombrea-lo numa nova versão urbana e dessacralizada sendo o também não catalogável Saul Bellow.
Quem tenta conhecê-lo através do inapropriado romance que a crítica oficial elegeu como o seu melhor livro, O Som e a Fúria, tem enorme chance de odiá-lo. Mas quem tem a felicidade de se desatrelar das ideias pre-estabelecidas, e parte para o universo faulkneriano através do cartão de apresentação mais fácil de Santuário, Os Invictos, O Povoado, ou o soberbo Luz em Agosto (que fez com que Sartre dissesse que "Faulkner é Deus"), é muito passível de acontecer o que Borges decretou em um de seus prefácios: não se sai ileso de um livro de Faulkner. Eu mesmo fui mudado em definitivo após ler Absalão, Absalão!, seguramente um dos três maiores livros que já me passaram pelas mãos. Absalão, Absalão!, assim como Desça, Moisés, são os títulos que oferecem com plenitude o tão famoso estilo faulkneriano, num primeiro momento obscuro, difícil, intrincado, mas que, à custa de uma atenção absoluta e de uma persistência recompensadora, torna-se fluido, mágico, com sua abrangência que oferece um nível de informação e interação que dá inéditas capacidades à literatura ( muito copiada tanto por ficcionistas quanto por filósofos modernos, historiadores e cineastas).
É difícil identificar quais foram as influências de Faulkner. Parece que ele inventou um estilo do nada, sem dever nada a antepassados. Os únicos sinais perceptíveis são o da retórica do Velho Testamento. Sabe-se que Faulkner relia religiosamente a cada ano Dom Quixote, o que serve para atiçar mais a questão e não resolvê-la. Mas há muito de Shakespeare, algo de Henry James, Joseph Conrad, Dostoiévski e, de forma a complementar e não de tomar para si, muito de James Joyce. E não só esse estilo atlântico e sinfônico serviu a reconstruir toda uma potente literatura latino-americana surgida na última metade do século XX, caindo-lhe na necessidade de seus propósitos, como a temática social dos romances de Faulkner instruiu a voz denunciadora de escritores que aprenderam muito com ele, como Garcia Máquez, Vargas Llosa, Sábato, Ricardo Piglia, entre outros.
Os piores entre os piores homens de Faulkner sempre tem um passado em cuja indequabilidade a um mundo corrompido ativam seus recônditos potenciais de adaptação, eximindo-os de compreender, e os tornam proficientes a falar o mesmo idioma da rejeição sofrida. Em algum momento deixam de ser ternos, assustadiços e silenciosos, principalmente quando uma etapa da sucessiva violência a que são vítimas demonstra-se brutal demais para que possam prosseguir com a mesma integridade, e se tornam mesquinhos, inumanos e silenciosos. A maior parte dos homens-demônios de Faulkner tem essa constituição: ser quase por completo silenciosa. O silêncio torna-se um escudo físico que mesmo para Faulkner ( que era o primeiro a se assustar com suas aparições de erradiações sinistras, antes de moldá-los no discurso) era uma barreira indevassável que não conseguia tornar efetivamente translúcida, daí que, nessa fase de construção degradativa dos personagens, Faulkner passa a descrevê-los utilizando elementos instrumentais de um materialismo duro, férreo, industrial. Os olhos de Popeye, em Santuário, parecem-se com maçanetas de porta, a mulher de Palmeiras Selvagens possui o rosto vítreo de insondáveis móveis domésticos, Joe Christmas, de Luz em Agosto, parece a encarnação pétrea da geografia do sul dos Estados Unidos, tanto no que ela tem de carvonesca, quanto do maquinário explorador do trabalho dos sub-assalariados exaustos e da inamistosidade sem vida das indústrias e das oficinas paupérrimas dos povoados de beira de estrada.
São propostas às criaturas de Faulkner as duas únicas alternativas de um mundo imisericordioso: o suicídio, ou a participação ativa na promiscuidade reinante. Os que rejeitam a primeira opção tem o benefício excruciante de progredir até o máximo que a torpeza e a inumanidade lhes permitem, e se tornam senhores escravocratas, donos do condado, beneficiários dos galardões de uma sociedade covarde e amesquinhada diante suas opressivas estaturas de poder, de forma que são os homens que se venderam para ter seus nomes nos jornais, contas nos bancos, e juízes marcados nos bolsos do paletó.
São inteligentes e carnais demais para desaparecerem da existência por suas próprias mãos. Do ponto de vista das engrenagens sociais, não há muito a se condenar neles: são os promotores do que confere graça à vida, os que conseguem iludir que acabrestaram a furia caótica da natureza pondo sobre ela o sinal do falso domínio do homem, os que simulam preencher o Nada etéreo e desesperdor com o pesadelo reconfortante da forja de tradições e mitologias para as quais se oferecem como alimento para o povo que os investem dos temores devocionais das divindades.
Os indefesos, os puros, indomáveis e incorruptíveis (como Boon Hogganbeck e o velho urso Old Ben, de Desça, Moisés, Quentin Sutpen de Absalão, Absalão!, e o retardado de O Som e a Fúria ), optam pelo suicídio, ou, na melhor das hipóteses (o que não configura uma terceira opção, mas uma abrangência da primeira), suicidam-se ao tomarem para si o silêncio das mortalhas em vida que os isolam do mundo. Daí tantas tias solteironas trancadas para sempre em casarões desabitados, diante as janelas das quais os vizinhos depositam diariamente um prato de comida, ou como o odor de putrafação de santidade que se desprende do pastor caído Hightower, ou como o retardado que narra a primeira parte de O Som e a Fúria para quem o instante perpétuo é a única sobrevida que ilusoriamente tem antes que o mundo o trage e destrua. O povo constrói os seus deuses, como também seus santos.
Por detrás do mundo de cores ásperas de Faulkner, de suas chuvas desoladoras, de suas florestas altissonantes, herméticas e pré-históricas, de suas vilas onde o tédio de antigos vícios sedimentados alimenta o veneno de velhos ressentimentos, de todo condado de Yokanapatawpha que reflete o provincianismo e a conjunção irredutível a um conservadorismo ultra-violento dos primórdios do coronelismo e dos amores patrióticos à terra; por detrás desse mundo onde tudo ressende a desumanidade, paira o que distingue Faulkner de todos os outros grandes escritores antes e depois dele, e o que determina a sua herança: a força de sua linguagem apoteótica, única, devastadora, de sua beleza poética e de seu alcance esotérico, seu estranhismo, para o qual não se achou outro termo melhor que "moderno", mas que não se enquadra aos meros exercícios de originalidade dos novos desbravadores da lingua e não se coapta a academicismos e teorias facilitadoras; sua imponência bíblica, sua carga de maldição profética, sua solidão intocada de ter nascido no país que talvez não fosse o certo para comportar seu orientalismo moral e sua inconformidade messiânica se não tivesse em sua linha genealógica pregressa antepassados como William Blake, Melville e Emerson, e cujo único filho futuro merecedor de ombrea-lo numa nova versão urbana e dessacralizada sendo o também não catalogável Saul Bellow.
Quem tenta conhecê-lo através do inapropriado romance que a crítica oficial elegeu como o seu melhor livro, O Som e a Fúria, tem enorme chance de odiá-lo. Mas quem tem a felicidade de se desatrelar das ideias pre-estabelecidas, e parte para o universo faulkneriano através do cartão de apresentação mais fácil de Santuário, Os Invictos, O Povoado, ou o soberbo Luz em Agosto (que fez com que Sartre dissesse que "Faulkner é Deus"), é muito passível de acontecer o que Borges decretou em um de seus prefácios: não se sai ileso de um livro de Faulkner. Eu mesmo fui mudado em definitivo após ler Absalão, Absalão!, seguramente um dos três maiores livros que já me passaram pelas mãos. Absalão, Absalão!, assim como Desça, Moisés, são os títulos que oferecem com plenitude o tão famoso estilo faulkneriano, num primeiro momento obscuro, difícil, intrincado, mas que, à custa de uma atenção absoluta e de uma persistência recompensadora, torna-se fluido, mágico, com sua abrangência que oferece um nível de informação e interação que dá inéditas capacidades à literatura ( muito copiada tanto por ficcionistas quanto por filósofos modernos, historiadores e cineastas).
É difícil identificar quais foram as influências de Faulkner. Parece que ele inventou um estilo do nada, sem dever nada a antepassados. Os únicos sinais perceptíveis são o da retórica do Velho Testamento. Sabe-se que Faulkner relia religiosamente a cada ano Dom Quixote, o que serve para atiçar mais a questão e não resolvê-la. Mas há muito de Shakespeare, algo de Henry James, Joseph Conrad, Dostoiévski e, de forma a complementar e não de tomar para si, muito de James Joyce. E não só esse estilo atlântico e sinfônico serviu a reconstruir toda uma potente literatura latino-americana surgida na última metade do século XX, caindo-lhe na necessidade de seus propósitos, como a temática social dos romances de Faulkner instruiu a voz denunciadora de escritores que aprenderam muito com ele, como Garcia Máquez, Vargas Llosa, Sábato, Ricardo Piglia, entre outros.
Para finalizar, confesso que nada foi mais impactante nesses meus longos anos de leitor profissional do que a súbita visão, no meio de uma narrativa caudalosa que não dá tréguas e retira o fôlego de tanta intensidade, da causa do por que o Coronel Henry Sutpen eximiu-se do que identifica um homem para um outro homem, e optou não tão livremente ao dedicado massacre de sua alma e da alma de seus semelhantes. Naquela clareira repentina oferecida em uma das páginas do meio de Absalão, Absalão! , um jovem Henry Sutpen, que progressivamente não tinha muitos motivos a apostar na bondade humana, decide, tenaz e disciplinadamente, a devolver em quádruplo dali para frente, a humilhação, a afronta e a dor inexorável que sofreu, quando ainda era tão imaculado e incorruptível.
O belo excerto abaixo eu o sei de cór desde quando o li pela primeira vez, há vinte anos. Trata de um hipotético encontro espiritual das almas cansadas do Coronel Henry Sutpen, após sua morte, com o seu assassino vingador, o velho e servil criado Wash, morto em seguida. Confesso que ainda me são tão belas essas palavras, que me vem lágrimas nos olhos. Está na página 170 e 171, da tradução de Sônia Régis para a Editora Nova Fronteira:
"Ele seguira o demônio doze horas depois, naquele mesmo domingo (e talvez tenham ido para o mesmo lugar; talvez lá onde estão agora ainda possam tomar um vinho de muscadínea, sem mais compulsão pelo sustento, ambição, fornicação ou vingança, e talvez até nem tenham de beber, apenas sintam falta do vinho de vez em quando, sem saber do que sentem falta, mas isso não é sempre; serenos, agradáveis, não-marcados pelo tempo ou pela temperatura do dia; apenas de vez em quando alguma coisa, um vento ou uma sombra, faça o demônio parar de falar e Jones parar de gargalhar e eles se olhem, procurando às cegas, sérios, concentrados, enquanto o demônio diz: "O que foi que aconteceu, Wash? Alguma coisa aconteceu. O que foi?"; e o Jones, olhando para o demônio, atento também, também sóbrio, diz: "Eu num sei, Coroné. Que foi?"; e olha para ele. Depois, a sombra se apaga, o vento se extingue e Jones diz, sereno, sem nenhum triunfo: "Eles devem de ter matado nós, mas eles 'inda num pegaram nós, num é?)"
Amanhã: Thomas Bernhard
