É uma tentação leviana dizer que Lisa Randall não é Carl Sagan. Mas era o que passava pela minha cabeça na maioria das partes do bom Batendo à porta do céu, livro da Randall que trata com prioridade sobre o LHC, o maior acelerador de partículas do mundo (e que inevitavelmente fala também do maior fruto dessa faraônica obra científica, o bóson de Higgs, ainda que não com o foco central falseado pelo subtítulo da tradução brasileira). O livro é um meio termo em seu próprio desfavor entre um Carl Sagan e um Brian Greene, apelando pelo tom popular do primeiro e podando as arestas demasiadamente específicas do segundo, com isso incorrendo de forma involuntária em uma visível carência da erudição esotérica de Sagan (que decepciona a nós, amantes de literatura aficionados ao grande escritor que foi Sagan) e um certo comedimento em explorar um pouco mais a inteligência do leitor (coisa que Greene faz, apostando que do outro lado da página há um leitor um tanto mais sofisticado). Digamos que, se Batendo à porta do céu virasse série de televisão, dificilmente o tom de voz de Lisa Randall comportaria a trilha sonora reverenciosamente deslumbrante de Cosmos, com as paletas enfileiradas de Bach, Vivaldi e Vangelis.
Também me passava pela cabeça que deve ser uma raridade entre mentes expressamente cientificistas e matemáticas ter uma inteligência panorâmica do calibre da de Sagan. Me vinha a recordação dos ensaios da revista Piauí, escritos pelo João Moreira Salles, sobre mega-cérebros da matemática. Virou uma fixação do Salles escrever sobre matemáticos, desde que ele foi a um rincão da Rússia tentar encontrar aquele matemático que recusou a medalha Fields para morar com a mãe (Grigori Perelman, não o nome da mãe, mas do filho amoroso). Depois disso, como se tivesse havido uma contaminação cruzada de um vírus da paranoia, Salles desenvolveu uma bússola particular que localiza em qualquer raio planetário algum adolescente cujos altos dotes cerebrais estejam associados de forma inconteste a expressões como conjectura de Poincaré e a hipótese de Riemann. Felizmente, Salles descobriu dois desses tipos aqui mesmo no Brasil, e é um deleite ler o quanto esses tipos são determinadamente compressados dentro de seus funis em que tudo em volta não passa de fórmulas numéricas. São confortavelmente limitados no interior de seus assustadores QIs. Um deles disse que, em uma viagem de avião, pegou certo romance clássico para ler (não sei se O retrato de Dorian Gray), mas o abandonou na trigésima página por intuir tudo o que viria a seguir da trama. O mesmo, na troca de e-mails com um colega, aproxima o problema matemático em que estavam lançados da estrutura da hemácia, mas conclui que não poderia avançar mais por desconhecer por completo mais informações sobre hemácias, coisa que se perguntasse qualquer dedicado estudante de segundo grau poderia responder com proficiência. O último artigo de Salles sobre essas entidades da alta abstração matemática conclui com um parecer de um professor, que diz que a matemática atual não tem nenhuma aplicação pragmática direta, que é como a poesia ou a música.
Seria muito esperar poesia e música da prosa de Lisa Randall? Acho que sim, e quem for ler seu livro não espera encontrar bem isso. Mas Randall percebe a sua própria limitação em se mostrar simpática às massas, e ela mesma usa das velhas técnicas em se fazer inteirada com as conexões da linguagem fora da academia científica. E isso soa falso, às vezes forçado. Se Greene faz uma referência à frase de Camus sobre o suicídio ser a mais capital das questões humanas, na famosa abertura de O tecido do cosmos, Randall pretende fazer as mesmas intersecções literárias citando Tennyson e Fielding, mas, ao contrário do uso relevante de Greene, Randall transparece nunca ter lido Tennyson e Fielding, aliás, transparece nunca ter se importado a mínima para literatura ou qualquer outra coisa fora a ciência. Daí, emulando as dissecções da superstição humana feitas por Carl Sagan em O mundo assombrado pelos demônios, Randall escreve um arrastado capítulo em que desmente a possibilidade apocalíptica de que o LHC venha a provocar o surgimento de buracos negros e com isso devore a Terra. Se limitasse à explicação satisfatória que introduz o capítulo, a coisa estaria em bom tamanho, mas aí, para assombro do leitor (que pensa, "mas ela está mesmo se lançando a uma argumentação didática tão capenga?"), Randall produz umas quase cinquenta páginas em que debate sobre as previsões catastróficas da economia mundial a partir de 2008, os efeitos deletérios da industrialização no clima, as guerras do Oriente Médio e a ameça nuclear. Com uma fixação em citar personalidades importantes com as quais se depara em suas tantas palestras e eventos sociais pelo mundo, Randall se aventura a uma chata aproximação de equivalências entre a bancarrota do banco Goldman Sachs e à empresa de seguros AIG e a previsão de danos do LHC à sobrevivência do planeta, tudo para fazer uma costura mal ajambrada em que insiste de maneira exagerada na afirmação de os buracos negros não são ameaças no LHC. O leitor do excepcional O mundo assombrado pelos demônios sabe que Sagan estuda a fundo as formações de círculos nos campos de trigo americanos, entre outros fenômenos da crença humana pelo fantástico, com um apuro e uma eloquência que situa tal livro tanto entre os de história como entre os de divulgação científica, usando amplas fontes bibliográficas e investigativas, enquanto Randall se baseia no mais crasso senso comum googleista para compor páginas que muito melhor seria se fossem reduzidas em 90% de tamanho.
Mas o livro compensa quando Randall faz o que sabe fazer, pela ótima parte inicial em que detalha tudo sobre o LHC, sobre o passo a passo de como foi feito, sobre a importância grandiosa do LHC para as futuras descobertas científicas, sobre os conceitos de comprimento de Planck e física de partículas. Uma parte notável é a que ela fala sobre a beleza estética do LHC, como uma das maiores obras de arte da engenhosidade humana. As últimas partes do livro (partes IV e V) são instigantes, as que tratam sobre o bóson de Higgs. E compensa também pela surpreendente humildade de Randall diante a enorme limitação em que simples trezentos anos de maturidade científica nos acondiciona.
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| Lisa Randall: boa quando não fala de política e economia. |

