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quarta-feira, 18 de setembro de 2024

A Vítima



Era bem provável que aquela nuvem gigante que cobria a cidade viera do Polo Sul. O clima andava tão louco há tanto tempo que não se precisava ver a meteorologia para supor isso. Era fácil cogitar que também havia algo além, que dava uma atmosfera espiritual às pessoas andando atarefadas sob as sombras e o frio. Por um momento seus dramas megalomaníacos, as intuições de antigas memórias tribais, eram postos em suspensão para que elas observassem aquele manto cinza metálico, inflado de umidade elétrica, tomando toda a amplidão do céu.

   Foi em uma noite dessas que Anselm Dulabonde desceu do ônibus na avenida próxima duas quadras  ao prédio onde sua irmã morava. Havia apertado o botão para avisar o motorista, mas este pareceu querer avançar além do ponto. Como em uma sincronia urbana, ele apertou novamente com nova ênfase ao mesmo tempo que o motorista moveu o volante com impetuosidade e freou o veículo a poucos centímetros da calçada. Um movimento de outros freios e buzinas rascantes atrás denotou a falta de cuidados, o que Anselm acabou sendo receptor da ira do homem, representada pela violência com que a porta foi aberta.

  Pulando para fora, com a estimativa de acidentes provocados nessas circunstâncias na cabeça, Anselm não procurou conferir o que o sujeito lhe gritara. Nada lhe desgostava mais do que esses embates urbanos que estavam mais para clichês físicos. Movimentos de acondicionamento dos dentes das velhas engrenagens sociais. Talvez o homem lhe dirigisse apenas um olhar compungido se ele o enfrentasse, raramente ia além. As pessoas tinham muito medo de se enquadrarem às estatísticas. Uma educação vestigial à prova de tudo as mantinham longe das colunas policiais dos jornais. Anselm sabia disso pois trabalhava de dia em um jornal de imprensa marrom, como se dizia nos bons tempos. E era o responsável por dourar a pílula dos incidentes de crimes e morticínios da cidade. Tinha um “infiltrado” na polícia, que lhe passava com a voz ensonada o material colhido nos boletins de ocorrência. Quando Anselm entrava no serviço, às cinco da madrugada, o informante se preparava para sair. Quanto mais sua voz era extenuada, mais tinha coisas picantes para contar. Maridos bêbados, delinquentes juvenis, arrombadores de panificadoras. Uma vez ou outra um tema real, que ele tinha que digitalizar às pressas antes que a imprensa cibernética dos grandes portais de notícias as lançassem.

    Eram sete e meia da manhã e o movimento de pedestres era moroso ainda. A cidade estava representada por homens de semblantes sorumbáticos carregando garrafas térmicas e mulheres magras de uniforme. Só Anselm, em sua roupa de flaneur, com a gola levantada como fazia nos tempos da universidade, era um ponto desviante da curva. Não recebia olhares averiguadores. Havia um exército de gente como ele, subempregados sem definição certa, com sinais inarredáveis de uma juventude tardia.

  Misturando-se a elas ele desceu pela rua que levava ao apartamento de sua irmã. Ela lhe telefonara às seis e meia. Disse que o filho dela, Marcus, de seis meses, ardia em febre. Não havia muito o que fazer do que deixar tudo em suspenso e ir socorrê-la. Não havia ninguém menos preparado para isso do que Anselm, mas o fato é que não havia mais ninguém... O pai do garoto era o que se definia nos anais jurídicos como pai ausente.

  _ E onde está Edgar, Tina?_ ele perguntou à irmã pelo telefone.

  _ Ele está em uma tarefa do escritório na cidade de L. Por favor, venha rápido.

 Tina, Esvertina, sua irmã, sempre poupava Edgar. Ela tinha muita pena que o marido fosse o único provedor da casa, e o escritório de advocacia onde trabalhava o sugasse tanto. Era parte do arranjo que ela teve que aceitar para não virar uma solteirona. Tinha sido uma mulher linda até os trinta anos, e aos trinta e sete a hidrostática corporal era uma realidade incontornável. Fizera três namorados arrastarem a seus pés, mas agora tudo o que lhe restara para uma promessa conjugal moderada era Edgar, e ela não podia mais se dar ao luxo. Anselm se distraía imaginando a cara de desforra dos namorados desprezados ao saber que ela se rendera a um sujeito divorciado, com dois filhos. Ele nunca tinha suportado a prepotência aristocrática de sua irmã, mas aquele terror da solidão clássica o deixava compungido. Era como ver um ovo Fabergé consertado com peças de segunda mão por um artífice farsante. Ser um estepe insuficiente era o máximo que podia fazer pela irmã para atenuar a ação daquela sorte inadequada, francamente injusta.

  _ Por que você não levou Marcus para o hospital, Tina?

  _ Eu o estava medicando com dipirona e amoxilina, que foi o que o médico passou a última vez. É tudo muito difícil, Anselm. Estamos em um regime de contenção de despesas e sair à noite com o Marcus seria um custo que não tenho como arcar.

  Ele pensou em quanto teria no bolso e não lhe pareceu ser muito. Aqueles choques entre sua vivência com a da sua irmã lhe entregava aspectos desconcertantes de seu pouco caso com o dinheiro. Sacolejou algumas moedas que pelo peso indicavam dar pelo valor de uma passagem de ônibus e pegou seu casaco. Miguel, seu chefe, o olhou aturdido. Estava com a cara inchada, demonstrando que havia passado a noite em claro em seu artigo sobre as formas globais de dominação. Abaixo do olho esquerdo uma mancha líquida, que parecia se segurar imobilizada para não escorrer.

_ É a Tina. Volto depois do almoço.

Ele não disse nada. Quando colocou sua pasta abaixo de sua mesa, ao lado da cesta de lixo, ouviu ele conversando com Januário, o responsável pelas colunas sobre movimentos emancipacionistas.

_ A falta de compromisso está cada vez mais marcante. Para um jornal progressista isso é uma falta de fé tremenda.

   Anselm fingiu que não tinha ouvido, embora a acústica da pequena sala ventilada amarelecida pelo sol recortado da manhã espalhasse o som de maneira nítida. No corredor ele fechou a porta com o ar absorto, pensando nessas intermediações menores da realidade. Era quase um trabalho voluntário, que só lhe dava para pagar o aluguel e as despesas com a luz. Em plena época que estavam, falar sobre antigas ideias abortadas mantinha a mente afiada. Ele sabia que Miguel estava certo, a baixa expectativa de que aquele jornal aumentasse sua circularidade fazia a permanência ali um ato de fé. Mas o que ele poderia fazer diante um inconveniente de saúde? Ele se condoía de que um bom homem pensasse assim, e mesmo sabendo que havia muito de mimo nisso ele descera as escadas com pesar.

   Do lado de fora ele estacou de súbito diante aquele céu. Vagas de nuvens de chumbo. Tinha algo de segunda guerra mundial, de operações militares sobre cidades devastadas. E o frio corria num movimento contínuo cuja aplicação fanatizada tentava entrar pelas abas dos casacos dos transeuntes. Ele teve a impressão de que flagrava uma ação orquestrada por alguma força maléfica, como uma organização sideral de ladrões de carteira.

  Faria o possível para voltar antes do almoço, talvez convencendo Tina a chamar uma ambulância. Tinha que ver com cuidado a situação do menino, que justificasse uma ambulância. Pensando assim, parecia um milagre preservado que numa cidade tão grande houvesse possibilidade de que um assistencialismo hospitalar tomasse conta de uma simples criança. Viver longe da região visível fazia Anselm pensar na grandiosidade que eram os poderes da instituição social. Se ele ficasse doente, o que raramente acontecia, ele nunca cogitava no recolhimento dessa ortodoxia. Da última vez que teve um ataque estomacal, ingeriu dois comprimidos e se encolheu em posição fetal, até que a fagulha dourada de dor sumisse. Talvez essa ideia tomasse conta de Tina, e ela achasse que um aparato não poderia ser tão intrincado a ponto de seu filho merecer atenção.

   O prédio de Tina tinha cinco andares e ela morava no terceiro. Era um bairro popular, de renda média. Usualmente acolhidos por casais jovens que acreditavam ainda que tudo era positivamente transitável. Tinham uma autocritica estética de não colocarem roupas em varais e serem adeptos do silêncio. As forças se estabeleciam na capacidade de contratarem serviços de limpeza doméstica, o que muito servia para darem uma dimensão das coisas. Anselm achava que o advento da revolução virtual havia trazido um grande alívio para aqueles casais, pois as distrações ficaram mais baratas do que irem a museus, ou jantarem fora, ou em parques com as crianças. E enquanto tivessem aquele pequeno arremedo de feudo particular com seus serviçais pagos por hora, o próximo passo necessário ficaria sempre protelado. Mas era interessante, pois nunca ficara sabendo de permanências exageradas nesse estágio. O que ele pensava que só poderia se resolver mesmo pela ascensão. Era um dos efeitos da persistência intuitiva ao senso comum que desbaratava todas as críticas filosóficas sofisticadas.

  A porta estava entreaberta, deixando ver o amarelo do corredor estreito das escadas. A tranca estava quebrada, e Anselm olhou para o painel de chamada afixado à parede. Leu o nome do terceiro andar, Edgar, o que o fez soltar um muxoxo de ironia. A placa de metal estava enferrujada, o que denotava ter décadas de idade. Subiu os degraus procurando não se segurar nas paredes. Do alto veio um eco vazio de significados, como se fosse um ar represado que ele liberara com a descompressão da porta. Uma luz automática acendia a cada andar. No terceiro, ele empurrou a porta de metal pesada. Entrando no corredor que dava acesso aos quatro apartamentos, ele se posicionou diante a porta da irmã. Apurou os ouvidos, na expectativa de que os dramas espirituais condensados lá dentro fossem ouvidos, talvez algum sinal de melhora. Mas o silêncio era total, como se fosse uma das ilustrações típicas dos romances russos clássicos. Tocou a campainha. Ela funcionou, com uma limpeza que mudava por um curto segundo as apreensões metais.

   O filho mais velho de Edgar abriu a porta. Anselm nunca sabia qual era o nome dele, se ele era o Victor ou o Tomas. Eram uma espécie peculiar de gêmeos de idades diferentes para ele, sendo muito parecidos. Apenas que o mais velho não tinha o vestígio de doçura infantil do outro, tendo as feições irritantemente pragmáticas para um menino de 12 anos. Era como se ele já estivesse se acondicionando para sua vida ativa, como se antecipasse a cara do burocrata que estava destinado a ser. Anselm procurava não nutrir nenhuma tipo de sentimento crítico em relação a ele. Não era seu problema.

  _ Posso entrar..._ ele perguntou, se lembrando de súbito que ele se chamava Victor_ ...Victor?

 _ O, é você! Entre.

Ele deu um passo cauteloso, olhando para o interior escuro. Fechou a porta atrás de si, pensando se não era pouco preventivo não girar a chave, e ficou parado. O menino o olhou de volta, com um ar interrogativo, mas não disse nada. Estava entranhado o suficiente no ambiente para achar todas as formas de desconexão lógicas corriqueiras.

 _ Chame sua mãe, Victor._ ele disse.

    Falara baixinho sem entender muito bem por quê. O apartamento era tão minúsculo que mesmo esse tom deveria ter sido apreendido por sua irmã lá de dentro. Só poderia estar no quarto, com Marcos. O menino entrou pelo corredor escuro e tudo voltou ao silêncio tirânico e aflitivo que aliás não chegara a ser interrompido.

   Havia uma poltrona velha ao lado da janela, e um saco de imitação de couro que ele não sabia o nome, mas que servia para se sentar. Em uma cesta no chão, haviam muitas revistas sobre assuntos triviais. Os assuntos triviais que o horizonte espiritual sempre limitado de sua irmã comportava. Moda, conselhos adolescentes, a vida das subcelebridades da internet e da música. Olhando por aquela perspectiva da doença, eram temas francamente encerrados, afasicamente obsoletos. Provocava certo constrangimento nele por a irmã conservar aquelas coisas. Qual o propósito? Apostava em algum tipo de esperança nelas? Como se algo pudesse ser reavido através daquelas folhas amarfanhadas e sebosas?

  Esvertina apareceu. Viera a passo comedido, como se devesse aquela mínima polidez a ele. No meio do corredor ela tropeçou em algum objeto que estava no chão, talvez um brinquedo de Marcos.

_ Oi, Anselm. A febre dele passou e ele está finalmente dormindo. Eu dei um banho em água fria nele, na bacia de metal.

 Ela tinha marcas profundas no rosto. Seu cabelo era um misto de cores baças das tantas tinturas que se sobrepunham, um filete ralo dele caindo-lhe para a frente por sobre a testa. Usava uma camisola branca encardida, e seus pés grandes e protuberantes mal haviam se ajustados a uma chinela. Estava dormindo também, o que deveria ter conseguido em uma batalha conjunta com o menino. Vai ver aquele comedimento era para disfarçar sua má escolha precipitada de trazê-lo ali justo quando enfim poderia descansar. A comunicação entre os dois sempre tivera esse mérito irritante de se fazer de forma imediata, sem subterfúgios, deixando os dois perdidos na impossibilidade seguinte de perpetrarem outra palavra. Seria impossível para os dois desfazerem o engano, com ele se retirando do apartamento. Iria se desenvolver para um problema inóspito e imprevisível, e por isso eles sabiam que teriam que tolerar.

  _ Que bom! Lembro da mamãe me dando banhos gelados quando eu tinha febre. Uma vez ela me estendeu na banheira e eu achava espetacular não sentir o frio dos tantos cubos de gelo que ela havia colocado sobre mim _ ele disse.

 Ela saiu de sua imobilidade e foi até uma cômoda pequena ao lado da estante onde estava a tv e alguns livros de autoajuda. Anselm imaginou que ela iria pegar um cigarro, mas se lembrou que ela tinha dito ter parado de fumar já fazia dois anos. Mas a coreografia do movimento era o mesmo e ele apostaria que se a abstinência não estivesse de todo resolvida havia acendido alguns sinais na cabeça dela. Ela vasculhou em um pequeno pote de cerâmica barato, que servia para guardar moedas e chaves, e retirou uma nota de dez. Entregou para Victor, que estava um pouco atrás, e mandou que ele descesse e fosse até a padaria trazer uma cerveja.

  _ Vá e volte rápido, Victor.

 Daí retirou um livro didático infantil de sobre a poltrona e mandou que ele se sentasse. Ele enfiou a mão por um momento no bolso traseiro do jeans e avançou. Em sua mente surgiu de forma repentina o texto que teria de escrever sobre os efeitos climáticos provocados pelo capitalismo que acometiam as regiões do nordeste do país. Sentiu uma vontade louca de ir para o escritório.

  _ Ainda acho que deveria levar Marcos ao médico, Tina. Essa febre pode voltar, as febres sempre voltam se a causa delas não for tratadas.

_ Eu vou leva-lo hoje. Eu não consigo falar com o Edgar. Ele esta em uma cidade interiorana e o sinal é péssimo. Vive caíndo. E dessa vez não há sinal algum.

  Anselm não queria entrar nessa parte da história. A situação da irmã era terrível, ele sabia. Os dois filhos de Edgar passando aqueles dias sozinho com ela e o Marcos deveria tornar tudo mais difícil. Era até um prodígio de autocontrole que ela aceitasse eles ali, o Edgar não estando. A mãe deles, a primeira mulher de Edgar, era um assunto proibido. Ninguém nunca falava o nome dela, quando os dois oficializaram o namoro ninguém nunca poderia fazer perguntas sobre o passado. Mas havia o arranjo dos dois meninos ficarem com eles aos finais de semana, e isso deveria ter sido uma das abdicações que Esvertina tivera que fazer. Era impensável tamanha paciência quando estava no completo controle dos seus poderes. Crianças para ela eram animais perturbadores que para suas seguranças deveriam manter a distância dela. Ele sempre tinha o receio de que ela falasse algo além da legalidade em restaurantes com meninos turbulentos, e uma vez viu uma mãe em um parque envergar a nuca em uma posição florestal de ataque e retroagir diante a razão restabelecida. E ele não sabia onde estaria o outro menino, o gêmeo cindo anos mais novo.

 _ Se precisar eu tiro o resto do dia de folga. Eu prometi finalizar algumas pautas para o Osmar hoje, mas eu poderia dar um jeito.

 Ela o olhou com antigas arestas de cogitações misantrópicas e então seu olhar desanuviou. Ele entendia bem o que queria dizer aquilo. No momento ele sentiu uma aversão pálida, desinflada, pela irmã, que antes era poderosa a ponto de manter a distância recíproca entre os dois. Ela nunca aceitara o que ele fazia como uma profissão, como um trabalho digno. Escrever abobrinhas para um jornal sobre anacrônicas causas perdidas não era nem de longe algo que justificava o martírio da sobrevivência cotidiana como eram suas sessões de fisioterapia. Mas isso ficara no passado, antes do fracasso, quando ela pesava dez quilos a menos e tomava banho todos os dias. O cheiro que ela expelia agora, junto com as profundas rugas que lhe apareceram no rosto, não lhe davam mais a segurança dos preconceitos de pertencer a um nicho. O repúdio ainda estava lá, como uma reação pavloviana. Bastava ele invocar as mesas palavras e a ridicularia se manifestava em um grau bem menor dentro dela Equilibrado pelo que o senso comum adepto a desforras morais dizia ser a lucidez do sofrimento, mas havia apenas a desistência. Para ela agora tudo se nivelava por baixo, nada tinha ganho uma natureza redentora de admiração. O máximo que se poderia dizer sobre um caráter de justiça era que ela fora trazida para a mesma zona rebaixada dele, aceitava com a mesma resignação o que achava que cabia como distinção de baixa classe a todos nesse estágio da derrota.

  _ Não é preciso, Anselm. Eu não quero prejudicar você. E a Marta veio aqui e disse que me ajuda a levar o Marcos. O hospital fica perto daqui.

  Ela disse isso olhando para baixo, compungida. Essas facilitações todas lhe davam a consciência de que seu atraso em levar Marcos ao médico era cada vez mais injustificável. Ela ergueu os olhos e neles havia um pedido claro para que ele não a julgasse por isso.

 _ A vida anda muito difícil, Anselm. Eu não pensava que seria desse jeito. O dinheiro parece não entrar, o tempo parece parar e tudo ficar enrolado em um âmbar_ ela não sorria. Sua boca tremera nitidamente, como se a expressão de todo esse pensamento em palavras lhe revelasse uma dor inconveniente.

  Ela sempre se limitou confortavelmente às áreas pragmáticas do discurso. Ao contrário dele, ela nunca fora dado aos livros. Via a propensão do irmão à leitura como uma espécie de aberração que explicava algumas coisas. Essa pobreza metafísica voluntária a salvava de uma interpretação mais sofisticada do sofrimento. Os homens cultos poderiam achar bonito dizer que essa imolação lhes causam inveja, mas para ele era aterrorizante purgar todo aquele inferno ainda mais subdimensionando-o. Havia um grau de conforto em reconhecer a extensão da desesperança que sua irmã sempre seria mutilada para perceber.

 _ Onde você disse que está Edgar mesmo?_ ele perguntou.

 _ Ele está viajando para recolher assinaturas em alguns processos de aposentadoria. Tem que cobrir várias aldeias que não chegam a ter cinco mil habitantes. Você sabe como é, todos aqueles doces casais de senhorzinhos dependendo da ação do escritório o mais imediatamente possível para terem do que viver.

  Aquela era a diferença entre os dois. Se ele tivesse gasto seu tutano de devorador de livros com aquela frase o tom seria outro, cheio de sarcasmo e crítica à extorsão da advocacia. Mas tendo sido dito por Tina, representava um retrato absolutamente oposto, com um humor fremindo de uma leve tensão que no final se resolvia pela descrição carinhosa de “senhorzinhos”. Havia o reflexo da rançosa ternura filistina das revistas adolescentes da cesta no chão.

 _ Bom..._ ele espaçou as mãos como se fosse brincar de cama de gato, sem ter o que dizer. Se fosse falar as cansativas coisas que lhe vinham à mente seria uma vaidade fútil, mostrar acidez para uma mulher que já estava derrotada.

 A porta se abriu e Victor entrou, empurrando-a com o corpo como se a garrafa de cerveja média que levava lhe reduzisse a automaticidade. Entregou a cerveja à Esvertina, que a pegou sem agradecer. Havia uma certa intimidade entre os dois, dura, sem necessidade de carinho, que dispensava esses atos sociais. O menino deveria ter algum senso de obrigação que lhe garantia a permanência ali. Não se podia mais chamá-lo de criança, tendo a infância sido excisada dele minuciosamente como uma unha encravada retirada de um organismo que agora tinha a liberdade de exercer sua plena eficiência. Tina passou a cerveja para Anselm, com a naturalidade concisa de algo essencial, como se estivesse lhe entregando um guardanapo para limpar o sangue do nariz. Um dos indicativos do quanto eram irmãos mutuamente desatentos era ela não saber que ele odiava cervejas. Em um programa de perguntas intimas entre candidatos eles fariam uma dupla destinada a uma derrota fatal, quando o apresentador lhes passasse a questionar sobre suas comidas preferidas e seus hobbies favoritos. O que sua irmã gostava mais de fazer nos tempos livres? Ele só conseguiria responder que ficava parada esperando o tempo passar. Mesmo que ela atravessasse dez quilômetros a pé, o fundamento de sua vida era apenas o de esperar o tempo passar.

   Ele não levou a garrafa à boca. Talvez ela assistisse demais a séries da tv patrocinadas por marcas de cerveja, que fazia os personagens tomarem aquela agua choça a cada virada de cena. Quem na vida real tomava aquilo àquela hora? Num gradiente menos responsável pela digestão de tanta sinestesia acumulada, aquilo seria de uma comicidade terna. Mas só havia o cansaço e a desesperança.

 _ Victor, volte para o quarto e fique com Marcos_ ela disse.

O menino demorou alguns segundos, talvez de propósito para marcar que só ia quando lhe desse vontade, e fez o que ela mandou. As coisas talvez fossem bem mais fluídas do que ele imaginava, e tudo não passasse de impressões de sua mente extenuada.

 _ Quando você volta à rotina normal na clínica, Tina?_ ele perguntou sem nenhum interesse.

_ Talvez nunca. Venho fazendo o possível para manter a clínica, mas a taxa de aluguel me parece agora muito grande. Eu venho realugando para uma outra fisioterapeuta e quase não me sobra nada. E olhe para mim.

  Ela estendeu os braços e por um momento algo na linha do corpo dela a fez semelhante à adolescente de outrora, uma certa graça e leveza que se dissipou rapidamente. Anselm acentuou sua curiosidade a olhando detidamente para tentar apreender aquilo, mas os contornos oblongos suscitados pelo excesso de peso destituiu de uma vez a insinuação. Havia um descompasso que não oferecia muita esperança de um dia vir a ser consertado entre aquele corpo carregado de morosidade e o rosto de Tina, que estava chupado, cadavérico. Era como se ele, o rosto, tentasse afirmar algo à marra, de forma violentamente maníaca. Como a presciência de uma verdade que era um ato absurdo atestar nas condições materiais que o apreendiam à frente daquele organismo.

 _ Eu estou dez quilos mais gorda. O Marcos não para de mamar em meu peito, que está deteriorado. Um peito caído e murcho. Meu peito se estendeu de maneira brutal, como se minha pele tivesse virado uma borracha extremamente flexível. Ele não vai voltar para o que era antes, nunca mais. E o mais ridículo é que esse inchaço todo é em vão, pois não produzo leite nem a metade do requerido. Se Marcos fosse um bebê normal a metade já seria muito baixo, mas ele sendo um mastodonte insaciável, a metade é um estado de fome perpétuo. Daí que eu tenho de comprar um leite em pó rico em proteínas e vitaminas, destinado a esses casos, mas cada lata custa o olho da cara. A que eu comprei há três dias está por duas colheres.

  Ela parou de simular o riso que a fazia supor ser um atenuante para a revolta daquelas deliberações todas. À medida que falava, sua voz ia ficando pastosa, seu rosto ia se desfazendo. Ela encolheu os braços e olhava em uma parte do círculo de meia luz que constelava aquele cosmos caseiro que era a escura sala de estar, como se a falta de um alívio cômico àquela prisão fosse de uma crueldade pesada demais.

  Anselm conteve um suspiro, mas foi movido por uma inconformidade insuportável a se inclinar para a frente. Colocou a garrafa por sobre a mesinha de centro, sobre a qual estava um brinquedo de montar pueril_ um campo de férias com árvores de plástico e bonecos de pinguins, algo que se eviscerava de um atestado de bugiganga barata. Olhou aquele brinquedo por um momento, julgando que os significados foram organizados ali com uma feroz intenção de desmotivar, algo que a aleatoriedade se mostrava soberanamente virtuosa em fazer em ambientes como aqueles. Ele teve um daqueles pensamentos incapazes de se verbalizar, fulminantes de realidade, de que a cerveja era a única tentativa de transcendência que Estertina fazia quanto a ele, a única maneira sem sucesso dela em trazer algo de dignidade alheia para aquele seu mundo hermético.

  _ Tina, o que Edgar diz disso tudo? Digo, eu tento não interferir em nada em seus projetos familiares, e quem seria eu para fazer isso. Eu não sou casado e tão pouco tenho filhos. Mas como irmão, como tio, eu talvez tenha a liberdade de perguntar isso. O que Edgar acha disso tudo?

Ela o olhava fixamente, com uma atenção intensa. Ele associava aquele olhar a digressões que ela usava antigamente, quando eram jovens, para ou fugir de um assunto espinhoso ou para contra-atacá-lo. Quando ele executou o primeiro laboratório de suas experiências de opiniões que poderiam dizer a ela, sobre a nova roupagem adulta que ela usava na adolescência, essas palavras eram sempre ásperas. Ásperas a um ponto que chegavam a ser ingênuas, mostrando que ela superdimensionava sua capacidade solitária de lidar com seus namorados. Ela nunca aceitou que ele desse um pitaco sequer, e a primeira frase tinha sido que ele não era pai dela. Isso o abalou, sem saber como se comportar diante pequenos crimes sexuais contra uma moral fantasmagórica que ele mesmo tinha cumprido seu papel biológico etário em cometer, e depois se calou, aliviado. Foi muito fácil. Ele vinha levando os anos que a via crescer, deixando as bonecas e passando para as maquiagens, eliminando automaticamente todo o vestígio de cumplicidade que eles tiveram um dia, pensando como lidaria com isso. Se teria o grau de severidade deslocadamente paterna para usar com aquela menina desassistida na hora certa. E a hora certa chegara e ela resolvera tudo dizendo que ele não tinha nada para se intrometer na vida dela. Ele seguiu seu caminho, prenhe de uma plenitude rara da isenção consentida, da indiferença requisitada. E lá estava aquele olhar de novo, renascido depois de tantas modificações em que ele nunca mais fora reclamado, colocado no rosto dela como uma peça de quebra cabeça indevida, não encaixável. Suspenso num aparato temático já escoado de toda autenticidade, ele paradoxalmente parecia mendigar o contrário do que havia exigido de liberdade e não intromissão, cheio do saudosismo de um direcionamento afrontoso que agora considerava como uma perda valiosa. Naquele apartamento frio, rescendendo a odores de exsudações corporais de todos os tipos, de roupas não lavadas, da poltrona que tudo indicava aquelas manchas eram de vômito e urina, com as almofadas marrons rasgadas e afundadas em formas eternas de posições de glúteos avolumados e engordurados, naquele silêncio tumular irredimível e absoluto, havia acontecido tudo o que um irmão zeloso da concepção clássica tivera o dever de alertar e empurrá-la mesmo contra sua vontade para o caminho oposto.

  _ Ele trabalha demais, Anselm, e é para nosso bem, o meu e do Marcos e dos dois outros meninos.

  Aí ela desabou. Levou as mãos para o rosto e, na posição em pé em que estava, se pôs a chorar. Por um instante ele ficou imóvel, averiguando se aquilo consistia no que estava evidente que era, se não era uma tramoia não da irmã mas de outros movimentos condicionados que haviam vicejado naquele lugar vicioso como fungos. Alguma sistemática contração do corpo que só se parecia ao choro mas era algo mais solene no sentido de uma segurança postural de não recair em maneirismos sentimentais. O choro foi se alteando, até que o fiapo que era a nascente calma se tornou em uma explosão mucal no centro dos braços dela. Foi aumentando ainda mais até que Esvertina deu um grito e seu corpo tremeu, como se fosse desabar para o lado.

  _ Por favor..., por favor... Anselm...

 Ele se levantou com um movimento lento, comedido. Não saberia como abordar uma figura emblemática como sua irmã naquele estágio em que a via desalojada de tudo que a fazia peculiar. Naquele vão em que se suspendia por um momento todas as compulsões de sua personalidade. Se aproximou dela e colocou uma mão em seu ombro. Isso pareceu explicitamente insuficiente para os dois, a ponto de se não fizesse nada mais veemente, mais caloroso e humano, iria agravar a coisa. Então ele a abraçou e ela deitou a cabeça no ombro dele. Eram ambos altos, a estatura sendo uma característica estética que sempre favorecera ela em seu domínio feminil sobre as circunstâncias do cotidiano, mas ele era dez centímetros mais alto. O topo dos cabelos dela ficaram rente à sua boca e ele sentiu fragmentos brancos das células mortas do couro cabeludo nos lábios. Tinha um cheiro amorfo, em negativo, o nível mais elevado da decantação natural a que podia chegar aquela minuciosa química fisiológica, algo próximo à assepsia. Ele se lembrou das cascas de ferida do joelho dela, quando os dois ainda eram ligados um ao outro, antes que a mãe os tivessem distanciados pelo medo doentio do incesto. De como elas surgiam em decorrência das quedas que a exultação diante a fluidez sem limites da infância e sua pouca apetência técnica com a vida lhe causava. Anselm sentiu no fundo de si algo, não chegava a ser amor, uma condolência de uma ternura em estado primitivo pela irmã. Havia uma quantidade perniciosa de registros memorialísticos sobre ela em sua mente para que ele pudesse considerar apenas aquela garota imaculadamente sem erros que ela fora. No fim daquelas lágrimas, ele sabia que ela voltaria a ser a mesma mulher cheia de reservas e compulsões peculiares com a qual dividia muitas reservas.

     Ele nunca culpara a mãe por essa desconfiança fanatizada, aceitava as ações retaliativas que vinham dela sem cerimônia, como as leis da natureza aceitam sem drama o repúdio e o morticínio. A mãe tinha sofrido muito mais do que qualquer um dos dois, e Estertina estava em um segundo lugar vantajoso. De certa forma elas tinham uma recriminação rancorosa incrustrada numa região oclusa de suas feminilidades por ele ter tido a sorte de nascer homem. Ele cogitara em segredo que essa inveja, essa consciência resignada de que fora deixada em um plano inferior de benefícios pela potestade embriogênica que lhe fizera ter uma fenda entre as pernas e uma porção de hormônios que especificavam o crescimento de glândulas com o pueril objetivo de atrair o macho incubador ególatra, tinha revertido nela em uma condição homossexual. O excesso de ódio que ela sentira por aqueles dois namorados, a exultação que ela sentia ao ver que tinha o poder de fazê-los rastejar e se sujeitarem, que aquelas efusivas protuberâncias, ridículas curvaturas, abjetas umidades atrativas que expediam daquele corpo que ela habitava, poderia ser usadas como armas, evidenciava que ela assumira um projeto esotérico vingativo.

  _ Lembra da mamãe dizendo que a infância é o laboratório de todas as doenças, e que é por causa disso que as crianças passam tanto tempo febris? É o corpo depurando as mazelas, incubando em si mesmo os vírus e bactérias para criar uma memória imunológica. É bom olharmos a doença de Marcos com calma_ ele disse.

 _ É que é tudo muito difícil. Se pelo menos Marcos voltasse a ser o monstrinho sugador que costumava ser. Ele não está se alimentando desde dois dias atrás.

_ Talvez seja a economia natural do corpo, Tina.

_ Eu fico pensando nisso. Ele treme de febre mas há algo nele que não é de todo debilitante. Me vem à cabeça exemplos extremos, que são inconvenientes usar. Como de prisioneiros. Um homem famélico em um campo de concentração. E observo se Marcos está adquirindo aquela aparência mumificada.

_ E o que você acha?

_ Talvez seja minha visão de mãe, mas ele não está de todo mal.

_ Quando Marta virá para te ajudar a leva-lo ao hospital?

_ Ela veio aqui em casa mais cedo. Está de licença desemprego e marcamos de ir após o almoço. Ela já trabalhou na faxina do pronto socorro e sabe que a parta da tarde é menos movimentada. Ela diz que as pessoas não imaginam o quanto que existem doentes sofrendo nas madrugadas, o que resulta em internações urgentes pela manhã.

  Ela já tinha se afastado dele à medida que falava, de modo que pareceu a ambos natural. Por estranho que parecesse, não ficara nenhuma sensação de embaraço neles, como se o gesto abrupto de carinho fosse sublimado pela manifestação maior do choro. O rosto dela ficou iluminado pela lâmina das lágrimas. À medida que ia se evaporando ou sendo reabsorvida pela pele, um rubor se firmava junto à sombra da sala e as marcas da idade retornavam com uma fidelidade tranquila. Ela era dessas pessoas que não choram sozinhas, que o choro é associado em suas convicções a uma explosão catártica que necessitada a ter alguém como testemunha. Tinha servido para deixa-la inequivocamente mais tranquila.

 _ Você quer vê-lo?

  Se deixou levar pela repentina surpresa de que poderia muito bem prescindir de ver o sobrinho, que fazia parte da sua tenaz economia de sentimentos não se submeter a isso. Concordou em silêncio e ela se virou e seguiu pelo corredor. Como ela havia se desabafado_ aquela pobre consumação de dias e noites de desespero, que se agrupava também à sua política de baixas expectativas_, até o seu andar era novo, podendo ser definido como mais centrado. Com um movimento do pé, ela afastou para o canto o brinquedo no qual havia tropeçado. Andava de seu jeito largado, que a Anselm sempre era um traço marcante de sua personalidade, um tanto masculino. Um jeito de andar que nunca trabalhava no realçamento de seus glúteos bem torneados e sua cintura fina na juventude.

   Ela abriu a porta com delicadeza, para não acordar o menino. Ele entrou, com a sensação herdada de um senso comum inercial de que um quarto de criança, no mais vestigial e distante que seja, sempre exala uma áurea de pureza, de exclusividade indômita. Por mais que os objetos de cena sejam pobres, a pintura desgastada do berço, a pequenez opressiva das dimensões, a impressão de obsolescência dos brinquedos resgatados do baú de antigas infâncias, sempre havia uma afirmação incognoscível, impossível de exprimir, de soberania. Como se a criança ocupando o centro dessa terrenidade pesadamente intrascendente tivesse sempre o sinal distintivo do poder emanante do reino de onde provinha.

  Viu Marcos deitado de bruços, a cabeça voltada por sobre o travesseiro fino. Uma chupeta que pareceu de tamanho desproporcional estava bem fixa à boca, insinuando que fora parte do exercício de certa forma violento empregado para fazê-lo de abstrair-se da vigília. Usava um macacão todo fechado, que envolvia os pés como se fosse uma espécie de inteiriça armadura de algodão típica, que veio à cabeça de Anselm automaticamente o nome estranho, body. Uma dessas peças do vestiário infantil que para alguém estranho ao meio soavam como os nomes que os torturados medievais davam para seus utensílios artesanais. No silêncio do quarto, se notava aos poucos, como uma leve deflação de luz que exige que as vistas se acondicionem para ser perceptível, o rumorejar da respiração dele, um contínuo índice tonal de uma curta nota espichada de exploração a regiões profundas, um sonar trabalhando em volume baixo.

  Um traço de preocupação passou por Esvertina, que saiu de sua imobilidade contemplativa para tocar o bebê na testa. Por um instante de pausa que tinha tanta intensidade quanto um pássaro avaliando as contrainformações invocadas pelo seu pio, ela estudou a temperatura do filho, passando por estágios de ponderação progressivos. Retirou a mão com um alívio confiante, ainda com a cabeça inclinada para a frente como uma especialista.

  _ Ele está crescendo!_ ele falou, apostando que dentro de qualquer lógica não era uma observação que lhe desmentia.

 _ Foi uma noite terrível, das piores que passei.

   Ela alisou os antebraços com as mãos cruzadas e pareceu se criticar por ter recaído naquela lamúria. Era mais uma acusação por isso se voltar contra uma obrigação de agradecimento supersticioso de sua parte do que a consciência de não se mostrar tão pessimista a Anselm.

_ Mas graças a Deus ele está melhorando_ se corrigiu.

  Anselm pensou que poderia aceitar aquela técnica da mente tão comum à formação católica da irmã em se amparar a escapes esotéricos. Viver naquele apartamento desculpava qualquer amortecimento racional como aquele, e tornava até uma exigência sanitária.

 _ Pode me chamar quando quiser, pode ligar para o jornal à tarde, eu estarei lá.

 Ela o acompanhou até a porta. Passando em frente ao outro quarto, ele viu Victor sentado em uma poltrona diante um abajur, mexendo no celular. Estava jogando, num momento raro de flagra dos restos de sua infância. Na cama de casal ao lado, envolto em cobertores, estava o outro filho de Edgar, o mais novo, Filipe. Anselm não pode ver seu rosto, mas distinguiu o peito envolto em uma camisa que mesmo as sombras se percebia ser de um time de futebol. Edgar tinha o sintoma clássico do pai ausente em querer ludibriar a falta de experiências reais da paternidade com seus rituais fetichistas mais comuns. O máximo que deveria dividir com os filhos daquela exultação falangista da batalha contra o time adversário no campo seria os comentários pós-jogo, cada um tendo assistido em separado. Lembrou que Esvertina lhe contara certa vez que ele tinha comprado varas de pescas que nunca tinha usado realmente com os meninos. Anselm se perguntava se de alguma maneira isso se revertia positivamente como um dos atributos de caráter que fazia um bom advogado, o que então a situação teria suas compensações.

  _ O Filipe está doente também?_ ele perguntou.

  Ela ficou surpresa com a pergunta. O tom mais claro, um grau acima, que usara para responder, mostrava que aquilo, os outros meninos, eram apenas o mobiliário inevitável de uma zona menor de sua atenção.

 _ Ah, sim. Eu pedi que eles arranjassem o que fazer no térreo do prédio, para não se envolverem tanto com o clima carregado que estava, e eles voltaram muito cansados. Eles tem grupos de futebol ou o que seja com os outros garotos do bairro.

  Era o tom que usava para desfazer-se rapidamente de alguma pergunta retórica, o que se percebia nuances de uma irritação sublimada ao fundo.

  Ele se virou no corredor para ela, para se despedir. Esses momentos sempre eram desconcertantes, por mais que os dois tivessem crescido e com isso estarem aptos a desconsiderarem o constrangimento reminiscente desses atos. Anselm se sentia em desvantagem, pois a irmã tinha o tino prático que a fazia bem sucedida em comunicados simpáticos com empregados da limpeza e bilhetes de geladeira. Já ele ou era insuficiente ou tendente a uma exagero autodenunciador. Não iriam voltar a se abraçarem, se aquilo havia mesmo sido um abraço, e então ele ergueu a mão e deu um tchau deslocado. Era o mínimo ridículo que sua contenção poderia fazer, e ela respondeu com um balançar de cabeça.

 _ Volte a dormir.

  

 


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Volta à Ítaca

       



 

 Creio que nunca ficou sabendo, as fontes da onisciência que rondavam a faculdade nunca lhe disseram isso, mas eu fui atrás de você naqueles dias. Assim que chegamos da Europa eu testei minhas novas apreensões sobre a vida, a maleabilidade de humor a que a tradição homérica do jovem ocidental de classe média diz que a volta a Ítaca deve suscitar, e não sentia nenhuma mudança. Eu olhava para o silêncio do meu quarto no pavilhão das linguistas e não via nada do que deveria ver; havia uma grande deficiência no sentir daquela minha pessoa que retornara, algo que me angustiava. Era uma porta para o retorno revigorado de todos os traumas da minha não-aceitação e de meus complexos de inferioridade, que eram o que me movera a fazer um deslocamento tão radical não só na minha geografia como no ambiente da minha alma, e eu não poderia deixar que essas coisas voltassem, pelo menos sem antes exigir delas respeito ao prazo para que ao menos me fosse concedido o direito a algum espanto. Mas lá estava aquilo tudo batendo à minha porta, não sendo esse o termo correto, bater, já que a ausência de ruídos era uma característica nova, a planificação da qualquer dialética que envolvesse contestação fazia com que essas coisas me esperassem pacificadas, como se eu fosse o império britânico naqueles raios de parâmetros metafóricos e meus antigos medos fossem os hindus famélicos de um advogado raquítico professando a não-resistência. Eu me lembro que anos antes, quando eu era ainda mais nova, o que pode parecer uma redundância dizer isso porque não há como não sermos outra coisa além de mais novos quando dizemos “anos antes”, mas a incorreção serve para retirar um lastro de expressividade que as palavras em suas ordens regimentar às vezes não tem, pois só quando meu corpo começou a se tornar independentemente aviltante, arranjando por si novos contornos expansivos, por mais que minha vaidade tivesse ensejo em conter essas novas perspectivas com exercícios e dietas, só quando a energia se dissipou dele, do meu corpo, e ficar à frente da tv começou a ser uma nova forma eufemística de tentar pegar a redenção pelas bordas, essa redenção que vai ver estão muito certos os que desde sempre afirmaram que ela não existe, só quando essas coisas passaram a ocorrer é que me dei conta do quanto eu era nova, o quanto o tempo foi sarcasticamente generoso na porção de juventude que coube me dar, por amplas partes da memória que eu recorra eu encontrarei faces diferentes de minha juventude que chegam a ser incongruentes, será que era mesmo eu, será que eu fui mesmo assim tão afortunadamente jovem em um mundo e em uma biologia que só me faz perceber o tesouro disso de forma retrospectiva, quando já não posso mais ver e agir dentro desse avatar sabendo estar nele no momento contínuo do presente, mas observando de um futuro em que tudo isso virou vapor, sumiu, evanesceu-se.

           A odisseia fizera bem para Kyria_ que profunda inocência a minha, que falta sagrada de premonição para ter achado isso, diante tudo o que ela viria a sofrer_, fizera bem para meu pobre e errático Timos, mas não para mim, que continuava como era antes, acrescentada apenas com a frágil lembrança do ar da França e da vertigem dos alpes suíços, uma quantas geometrias velhas e umas cornijas eônicas apelando para alguma indevassável nostalgia da espécie. Eu sabia que tudo havia acabado entre nós dois, de forma beatífica, ambos deveríamos apresentar um sorriso letárgico, falar sobre nossos antigos problemas como velhos octogenários falam de seus brinquedos de madeira sumidos no parque da mansão desaparecida. Ah, dizermos como é inefável a vida e essas porcarias abstratas a que estão cheios os jovens, sempre achando que estão passando de uma revolução mental e uma subversão do olhar intermitentes. Daí eu fui ao seu dormitório, creio que duas semanas depois; fui na cara dura, sem ter inventado nenhuma desculpa para justificar um ato tão anacrônica naquela nova fase de nossas vidas, mas não o encontrei. Seus antigos colegas me disseram que você havia sumido, pago a parte do aluguel correspondente e se mudado para a casa de alguém, não me lembro, de uma tia que voltara de Albuquerque, não sei. Passei dias desesperada diante o aborto da lógica de saber que te amava, que tudo o que eu havia passado para exorcizá-lo tinha sido um esforço vão, que enfim você com seu rancor invencível pela estrutura do mundo, suas fobias sobre a dominação e seu ódio ao poder estavam certos, o que acabava o transfigurando como um super-homem para mim, olhe só o quanto eu estava perdida e o quanto eu precisava de ajuda a ponto de cair no erro de supor que ela deveria vir de você. (Não se magoe ao ouvir isso, foram duas décadas e meia atrás e eu analiso aquela que eu fui com o destemor amoral de saber que eu estava enfunado em um estágio muito para trás de todos os passos evolutivos que você com certeza deu para frente, no caminho da luz, ou, sem sarcasmo, no caminho pelo menos do distanciamento daquelas sombras que já não tinham capacidade de te assustar.)

        Caí em um catastrófico mau humor; as espinhas pulularam meu rosto de forma que se não fique desfigurada foi porque a compadecida piedade do tempo ajudou enchendo minha pele de camadas extras de gordura, estufando a maioria dos buracos das cicatrizes das espinhas para fora. Fiquei emporcalhada, não tomava banho, vestia as mesmas roupas, aproveitando aqueles dias finais antes das aulas, imaginando onde estaria você, se você retornaria para seu curso, o mais natural seria que você fizessem como Ivan Karamázov e assumisse sua falta de teto, seu magistral desvinculo a todas as instituições terrenas, seu peripatetismo por entre as dores do mundo para colhê-las e as reportar para seu núcleo espiritual conservado. Então eu fui justamente recorrer à maior e a mais simbólica das falácias de nosso namoro, o violinista. Não soube porque, vai ver se eu fosse até onde estivera a possiblidade de nossa mais abrupta desavença eu cambiasse algo que ficou para trás indigerível e isso pudesse me trazer uma transformação empobrecida e de segundo nível que eu teria direito já que minha odisseia foi inaproveitada. Oskar Liebeumicth, era o nome dele, ainda me lembro. Nascera em Principado de Mônaco, essa exoticidade ajudara que eu memorizasse alguns pormenores literários de sua personalidade. Encontrei-o nos ensaios de um quarteto de Schubert, no centro cultural da faculdade de música. Para o desagrado dos seus temores profundos, ele havia cortado o feixe de crina equina, fazendo um topete que lhe conferia um substituto burguês e bem menos proteinizado da áurea de macho dionisíaco de antes. Assisti ao ensaio e depois fui falar com ele. Na verdade me ofereci explicitamente a ele. Sem nenhum pudor, ou ao menos eu imagino que fora assim, nessa altura da observação oracular em que a velha narradora em seu sofá de couro italiano com o terceiro cálice de camembert na mão supõe interpretar essas fraquezas tremeluzentes e profundamente aterrorizadas transfiguradas em ousadia. Agora pensando bem creio que, se Oskar Liebeumich, o paganini das terras lendárias da lavagem de dinheiro e do paraíso dos magnatas bancários, me viu naquela noite com os olhos enfeitiçados pela minha graça feminil despertadora de libido as circunstâncias da imprevisibilidade como eu me apresentei deve ter colocado um filtro de aparo diante seus sensores corporais para que ele se apresentasse muito polido, muito distanciado, muito cavaleiril. 

      Eu estava quase chorando, de pé entre os poucos senhores e algumas senhoras prussianas em seu camarim para lhe dar os cumprimentos, minhas pernas mal me sustinham por cima dos sapatos marrons estornil que eu comprara em uma loja chique da cidade grande em uma das minhas andanças solitárias; eu sentia a meia calça que lhe acompanhavam, silentemente desconjuntada nas pontas dos dedos dos pés que ficavam massacrados no bico fino, e que mais acima enlaçavam minhas belas pernas de então até se findarem no início representado pela liga da cintura, esquentando minha virilha seca tornada desesperadoramente dessexualizada embrulhada na calcinha depois desse exorcismo que nós três buscamos encontrar a dez mil quilômetros e só você e Kyria haviam encontrado. Eu estava para chorar, parada na porta daquela salinha onde os grandes astros do futuro se maquiam e respiram a solidão efêmera de antes da apresentação, e que naquele momento tudo eram apenas promessas, Oskar Liebeumich ainda estava um ou dois anos longe de ser famoso como um dos violinistas mais jovens e talentosos, assim como as mulheres não eram prussianas um milímetro na realidade afora na minha imaginação exercida em romances de exilados russos, talvez donas de casa, estudantes de arte em cursos vendidos em apostilas e em encontros quinzenais, sem reconhecimento pelo ministério da educação, assim como os magnatas não deveriam ser nada senão velhos donos de livrarias cults da parte mais arborizada da cidade. Eu também era uma formação insurgente do que alguns anos depois eu viria a ser, a solteirona convicta, mesmo que entre a verdade e o conceito houvesse um marido despachado sem cerimônia e com mútuo compadecimento pela erraticidade humana, parada ali olhando o ás do instrumento com os olhos de uma vampira exangue, uma noive do Drácula que algum van Helsin distraído arrancada com a estaca sua morticidade sem fazê-la soltar o grito de terror secular antes de a pele se dissolver com os ossos e sobrar apenas uma múmia de duzentos anos, sobrando por misericórdia uma dama sem charme e com os olhos e boca borrados e já escoada de qualquer conteúdo peçonhento. Oskar sorria e beijava os visitantes e foi aí que me viu; o tempo ficou suspenso, como se a natureza tivesse feito um foco em seu belo rosto de queixo viril e nariz insuportavelmente aquilino para mostrar que eu lhe causara uma apreensão suficiente para ter-lhe cortado o sorriso_ o sorriso que, junto a tudo o mais daquela perfeição adâmica o deixava perdido de ódio e medo, o medo macho santificado por todas as biologias de que o padrão genético angariado em algum mapa de superioridade quantitativa haveria de fazê-lo destruído e humilhado, castrado e vituperado. 

        Ele se lembrava de mim, claro. Ássia, uma das poucas vantagens de ter um nome subalternamente midiático, uma propaganda que toda pessoa culta quer se reconhecer no entendimento consagrado. Engraçado que se passaram oito meses, não havia nenhuma história, só havia em sua cabeça, Timos, em sua cabeça e posteriormente na minha, por tanta insistência sua. É para rir mesmo, temos que rir disso. Nós fizemos se abdicar todas as arraigadas narrativas de nossos pesadelos e de nossas cismas imaturas, e tínhamos agora o direito de sermos livres, de termos nascidos de novo, e era isso que eu sabia que você e Kyria estariam fazendo, de olhar radiante e claro, de pés firmes e cheios de vigor, desbravando a vida salutar, que não se exibe, a vida filosófica e carregada de fé sublime, e eu estava tão atrasada e caída em fracasso e havia traído tão profundamente o propósito que eu revertera meu curso e decidira voltar a uma dessas histórias, a mais banal e contraproducente delas. A história com Oskar Liebeumich, o violinista do País de Gales que fizeram meu ex-namorado ficar enlouquecido de ciúmes. Por que você teve a audácia de achar que poderia remover essa fantasma pesado de um Oskar Liebeumich de sua vida? Por que você tinha a petulância de achar que seria assim tão fácil? O que um mês nos Alpes, e uma noite em Paris onde se achara merecedor de um bacanal íntimo com duas irmãs, haviam feito de legítimo para te dar a certeza de uma experiência libertadora genuína? Isso não existia, meu caro! Foi isso que eu tinha descoberto no trâmite daquela ilusão toda. Não existem arrebatamentos, ou se existem não são concedidos assim tão levianamente para jovens cheios de empáfia como éramos nós. Um sono, um langor de eras e gerações, passados pelo sangue apaziguado até um incrível grau de indolência de nossos avós boçais, para nossos pais boçais, e inoculados com extrema confiança em nossos avatares juvenis boçais, olheiras, odor rançoso piorado com perfumes caros, e com nossos buracos e falos tesos e sem graça de tanta manipulação sem nenhum pingo de sagrado.

       Por que Kyria iria realizar de forma tão escorregadia e pacificada sua vocação ao comando mundial, sua imersão ao mundo empresarial, apenas porque ela atingira uma certa disposição interpretativa auto-convincente de ter esquecido o que deveria ser esquecido

          Por que você, Timos, iria atingir o próximo passo natural de ser um Ivan Karamázov ou o que é que diabos você gostaria de ser afinal das contas após tanta trama deixada pelo meio e tanta paixão intelectual cujo fim lógico era sempre escamotear o objeto visível para que ele continuasse não-visível e suficientemente obnubilado, para assim dar ensejo maior ao que você não queria ser? E por que apenas eu dessa tríade havia feito o trajeto santificado, a via sacra transformadora, tendo caído na armadilha de abrir os olhos antes da coisa ter se completada e assim visto os mecanismos expostos que não deveriam ter sido vistos, contemplado a farsa de tudo?

           Quando Oskar Liebeumich dispensara as visitas, tendo me agarrado pela mão na frente dos olhares questionativos, bocas arreganhadas querendo perguntar se a grande promessa musical afinal tinha uma namorada mas sem a coragem para o fazer, me levando para o carro tendo retirado o casaco do terno e envolvido meus ombros com ele, eu fiz o que não poderia fazer na situação, chorei, em silêncio mas bombasticamente, você sabe que eu não tinha esse talento que algumas mulheres frágeis e belas tem de se tornaram exponencialmente ainda mais frágeis e belas quando choram, a ponto de se tornarem insuportavelmente hipnóticas para os homens; os homens, pelo contrário, estavam passivos a se desinteressarem de vez ao me verem chorar, fico vermelha em excesso, músculos até então relegados a um sono eterno eram chamados a darem sua contração máxima em meu rosto, de forma que se via algo do que havia reservado para o sortudo detrás daquela beleza prometêica dali a umas boas décadas, quando nem o rímel sutil nem a hena indiana mais cara poderiam esconder a velha murcha que eu estava destinada a ser. Mas mesmo assim, Oskar Liebeumich estava suficientemente interessado para que me colocasse no carro minúsculo, francês, estilo como é aquele do Mr. Bean da séria de televisão, e me levasse até seu apartamento. Ele só me dizia que estava tudo bem, me olhava com surpresa enquanto girava o volante dirigindo sua máquina enxuta e prosaicamente funcional até sua moradia querendo saber mas não perguntando o que havia acontecido. Subimos, não tinha porteiro no prédio, um prédio escuro de paredes descascadas, de certa forma tendo algo a ver com a disciplina ilesa de desejos desviantes dele, serviria para o deixar mais concentrado, me fascinava com algumas pinceladas de sombra a capacidade dessas pessoas de transportar toda sua necessidade estética para um mundo inoculável e hermeticamente privado apesar do cimento horroroso e do cinza prostrante. 

          Ah, Timos, o violinista era o oposto de todos nossos temores_ meus e seus. Onde estava meu pensamento, em que substrato do hades ele titubeava as pernas para me fazer enxergar toda a situação como a de uma mulher fragilizada que estava prestes a ser sodomizada pelo seu protetor ocasional, que tanto seria uma sodomização passível da mais purgativa critica bíblica pelo agente infrigidor ser um violinista, um ser devoto à arte, devoto do silêncio. Eu não seria puta nas mãos dele. Ele me cedeu sua cama, eu já não chorava mas mantinha-me calada. No rol das vergonhas aquela era até uma espécime pouco vistosa, com sua desprovidão de brio e sem desenhos peculiares nas secas asas presas ao corpo cravado na placa. Era como se minha derrota me devesse aquela pausa em todos os processos cerebrais e preconceitos civilizatórios, me dando o direito de ser estúpida, sem entraves do que eu julgava ter criado de socialmente importante em minha personalidade. Que se danasse meu academicismo, minha cultura, os tantos livros que eu li, os idiomas que eu aprendi, que se fodesse eu saber as trintas aulas avançadas do diagrama chinês. Eu tinha o direito de me livrar daquela entidade em que eu me encarnei de uma menina ocidental predestinada. Eu não era nada, e como era bom ser nada em um apartamento pequeno, iluminado como uma caverna tangida de amarelo cheio de calor e recolhimento, com os objetos aparecendo apenas o suficiente para o olhar apontar sua existência sem intuir suas funções e seus significados, uma moradia povoada na discreta medida certa de totens, amuletos, pequenos quadros paisagísticos, uma mesa com livros que eram tão sofisticados que prescindiam da necessidade de serem lidos, estavam ali porque tudo ali tinha apenas essa exigência descomplicada: existirem sem justificativa, ou então com uma justificativa que o estágio em que elas e eu estávamos na ocupação do espaço e do tempo não precisava ser adquirida agora. Um sursis. 

          Eu dormi com uma alegria que eu não sentia desde que era criança, desde que meu pai me vinha à noite da loja de armarinhos que tinha e me dava um beijo, cheirando a cola e a raspas de madeira, os talos do bigode se dobrando com uma incrível maciez contra meu rosto me enchendo da sensação de que tudo tem sua plenitude no universo, tudo tem sua tenridez e delicadeza, tudo está moldado em uma escala do sagrado e talvez o drama nessa terra fosse apenas um incidente involuntário resultado de nossa procuração não permitida em tentarmos achar o nível de calibragem certo, o peculiar e ultra-fino tom que nos dê o indicativo da posição correspondente de cada nota nessa melodia imorredoura e perene e eterna. Meu pai que era dono de uma loja de antiguidades e que trabalhara por 30 anos como professor de mecânica quântica na universidade central, e junto ao qual eu aprendera tanta coisa que não vem ao caso falar agora. Será que Freud e Lacan, ou a revista de psicologia, ou os anais de psiquiatria tem que ser codificadas com a mesma leveza que eu senti naquele apartamento? A nostalgia do pai. Descubra o perfume que o pai usava a você vai fazer com ela o que quiser. Mas que merda, será que foi realmente a isso que nossa pífia capacidade de transcendência nos levou? É disso que nós fugimos, abraçando essas experiências forjadas com unhas e dentes e querendo receber o arrebatamento pelas beiradas, por dedução, atingir o reino perdido com a indolência da sensação do choque do acidente que é querer obtê-lo e não pela limpidez impossível de um pouso seguro. Não há pouso seguro. Lembra daqueles reis todos das dinastias chinesas, e os vinte czares Románov. Eles enforcavam bebês e evisceravam mulheres grávidas, empalava embaixadores e samurais titubeantes, desmembravam irmãos, envenenavam mães, mandava para o exílio no ártico como gratidão as noivas rejeitadas. Tudo no mundo é um choque contínuo e de energia inesgotável em que a mínima percepção do inominável é um efeito colateral não estabelecido nas leis desse lado de cá, o que torna a fagulha de obtenção um milagre. Você estava certo mais uma vez, como sempre esteve certo e eu me recusava a sequer levar a sério essa sua lacônica cosmogonia. Não podia ser tão simples, minha vaidade intelectual prenhe de vitalidade não podia admitir que a aspiração ampla para uma multifacetada dialética fosse acondicionada em uma teoria tão sem graça e coesa, sem reverberação e perfeitamente prática. Sua teoria do segredo da existência era uma fórmula de bakara infalível.

           Tudo era vão, o ser humano era inconfiável e em última instância tendente ao morticínio, e a paz poderia ser simulada através do isolamento. Você era o santo da não-coaptação, o São Francisco cínico da negação. De uma forma diferente na finalidade das sombras, Kyria era semelhante a você. Ela chegara à mesma apreensão da verdade por caminhos próprios, com uma capacidade mais sólida que a sua, com um ingrediente feminino não-filosófico que era mais avançado e menos tediosamente amparado em uma melancolia heroica que a sua. Não há personagens femininos relevantes nos Irmãos Karamázov; ela não poderia nem ser associada àquela que mais pareceria com ela no panteão de mulheres melífluas e fortes de Dostoievski, a M..., pois Kyria era impermeável à maldade, e a bondade e os infernos das dúvidas espirituais estavam longe a uma distância impossível dela. Uma vez você me disse que sua vida poderia ser, na melhor das hipóteses, a continuação nunca escrita dos Karamázov, realizada no século posterior e em uma sociedade material outra que não a Rússia de aldeias de estradas de terra enlameadas do romance original.

             Algumas vezes você me dizia que sua história alternativa pretendida não giravam em torno das grandes questões humanas, não queria saber o que seria do mundo se Hitler tivesse ganho a guerra, ou se Lênin não tivesse morrido, ou melhor ainda, se Tesla não tivesse sido destruído pela campanha difamatória dos magnatas que não queriam que os automóveis fossem movidos a eletromagnetismo e nem que a energia elétrica fosse distribuída de graça. Você gostaria muito de ver a história alternativa em que o velho Dostoiévski tivesse vivido mais uns bons 5 anos para que escrevesse a continuação daquela inusitada jornada de dois irmãos cujas opções já haviam sido extintas no primeiro livro. Aliosha Karamázov e Ivan Karamázov_ já que a terceira perna desse painel metafísico, o hedonista Dmitri, fora suficientemente coerente para morrer dentro da capacidade cumulativa de transtornos que a quantidade de anos que sua faixa etária lhe deu sobre essa terra. Aliosha era o santo, o homem que alcançara toda pureza e visão leve e compadecida, e Ivan era o filósofo, o errante questionativo e a mente que não para. Dois espíritos muito antigos, forjados talvez não no início do cosmos, como aquele outro mais sagaz e transposto em definitivo para outro planto que está nas escrituras, mas no princípio computável das mazelas e dos horrores que tão bem se serviu a mente que os inventara, mil anos talvez, ou talvez no início dos Románov, 1613, ou talvez eles fossem reencarnações assustadas pela imprevisibilidade do relógio teológico de samurais ninjins, que traíram a coligação por não verem mais razão na morte, nem que fosse o assassinato autorizado pelo qjin e por deus de seus inimigos. Eu também gostaria que algo do que seria esse livro viesse a tona, contanto que minha curiosidade seja menos predisposta que a sua por me entregar a enredos que me destituísse da narrativa convencional dessa realidade_ levei tanto tempo para me acondicionar a ela, me desviando o máximo possível dos seus percalços, que não iria querer me abster do animal semi-domado (ou do animal que presume ter nos esquecido por um tempo, em nossa idade avançada e já não despertadora de seu interesse). Mas você quis saber como seria fazendo-se de si mesmo a reencarnação da trama inexistente.

           O fato de não ter um cérebro megatômico de tal potência por detrás, regendo seus destino e seus pensamentos_ estar livre de um Dostoiévski como um deus, o mais dicotômico e dual dos deuses, espargindo ternura e estridente loucura e eventuais mortes estapafúrdias pelo caminho, talvez como seja o próprio deus ortodoxo que, mudando-se aqui e ali em detalhes de somenos importância e tangidos de cores diferentes, é o deus de todas as religiões desde o começo do mundo. Estando livre de um deus assim, você pode ser um herói adâmico com uma liberdade ainda mais insuportável e extasiante do que a do Ivan Karamázov. Ivan se escandalizava de deus permitir a morte de uma criança, o que Timos Karamázov não poderia enriquecer essa incongruência brutal com tudo que ele sabe do século XX que Ivan não soube? Se Ivan não suportava a complacência de um deus que permitia que os cães de um nobre da corte czarista trucidasse o filho pequeno de uma das servas da propriedade, ou que a menina morresse de frio no porão da casa no inverno cumprindo o castigo do pai de se sentar sobre o barril de água, o que ele pensaria das tantas e tantas filhinhas desse mesmo deus que morreram nas desapropriações de terra dos kolkhozes, vítimas da fome, do canibalismo das próprias mães; o que Ivan pensaria dos fornos crematórios de Auschwitz e Treblinka, dos massacres de Ruanda, das crianças prostitutas das beiras do asfalto no Brasil, das crianças índias albinas caçadas e massacradas e tantas tantas e tantas outras. Eu havia lido Tolstói e Turgueniev quando estava no colegial e alguns anos antes, meu pai e minha mãe revezavam na leitura de Gógol, A dama do cachorrinho e tudo que fosse publicados nas línguas que eles conheciam do áspero e desestabilizador e comovente Checov, mas do dostoiévski eu confesso que nunca me atraia muito, eu tinha com ele uma ligação pouco venal e determinantemente respeitosa em que eu lhe dava a concessão de aceitar sua grandeza sem precisar comprová-la. 

         Creio que tinha lido a história do Ralkolnikov, que todo mundo minimamente declarado pensante havia lido, e só. Peguei os Karamázov na biblioteca da universidade antes do feriado da páscoa, motivada pelas tantas referências que você fazia da obra, e o li uma sentada, como dizem, li dividindo o livro com tudo que me estivesse pela frente, comida, lavar as louças, atender o telefone com a ligação de algumas das meninas que foram para a casa dos pais, com a ida ao supermercado para comprar gorgonzola, e finalmente na cama, com o cobertor puxado até o queixo com um cuidado redobrado pois eu entrava na aldeia invernal em que Dmitri Karamázov estava amarrado pelos mujiques para passar pelo seu destino definido do julgamento de assassinato. Talvez seja mesmo o maior romance já escrito. Ele me envolveu tanto que após ler, após passar pelos meninos que bateram no pai do pequeno D., depois pelo Grande Inquisidor (recebendo o sopro de tudo o que eu havia lido do existencialismo), e sobre o monólogo do Ivan e do stárets Józima, após fechar o livro em sua última página foi que percebi que a experiência havia sido tão cativante que nem cheguei a pensar nos ganhos que sua leitura teria em nosso namoro. O quanto eu estava inconscientemente me preparando para chegar mais próxima a você, meu pequeno Ivan, para onde mais o Ivan libertado dos grilhões da moral e do pensamento iria após ter enxergado tão longe senão para uma clínica de abortos?

            Naquela época você era uma promessa, como Oskar Liebeumich, a seu modo turvo e impactante. Eu passava horas de adolescente apaixonada tentando imaginar o que você estava destinado a se tornar, mas sua completa deflação a tudo não permitia ver o que seria. Um escritor, um ensaísta, era a aproximação mais cabal a que eu chegava. Mas para isso eu cogitava que seria necessário um certo empenho, e sua extraterrenidade não era compatível com uma carreira acadêmica ou com os processos bajulatórios para angariar uma bolsa de doutorado. Você brigava com todo mundo, era algo que me afligia no que eu tinha de mais feminino e pragmático. Eu confesso que pensava que nosso namoro poderia dar em algo maior, mais duradouro, eu era uma moça esperançosa por debaixo de minhas ambições pessoais irrestritas, eu chegava a acalentar um andamento temporal em que nós sobrevivêssemos ao enfado e à necessidade de conhecer novos amores e alcançássemos vitoriosos um patamar depois de realizadas nossas ambições profissionais pessoais, e viéssemos a nos unir em um desses casamentos metalinguísticos e elegantemente possíveis a toda contradição em que se lançam escritores, cientistas e importantes sumidades mundiais. 

           Não vai rir de mim agora se eu disser que meus moldes eram ternamente ambiciosos, a nível de uma Angel e Marie Curie e Sartre e Bouviar. Eles não podiam ser tão infelizes como aparentam nas fotos e nas fofocas oficiais, tão estranhos, reptilínicos, doentes e obcecados na promoção do sofrimento mútuo; não podia ser que alguma missão outorgada nesse mundo viesse com o adendo perverso de que os super-homens e as super-mulheres devessem se comportar no refúgio do lar como cobras peçonhentas; deveria ser a imprensa específica para esse tipo de gente ousada e rara que não sabe que não se tece sobre ela as mesmas aberrações que se tece sobre as pessoas comuns, as que morrem de sífilis e que introduzem nos canais vaginais das esposas objetos impossíveis. Eu pensava que duraríamos, mas o que você poderia ser? Desde o começo eu soube meu lugar, o que eu seria, mas e você? Ivan karamázov não podia se casar, levar uma vida comum, suburbana. O grande vazio era seu único deus, e sua existência, atravessando gerações e cláusulas atemporais no registro das encarnações sucessivas só se presta ao eterno diálogo com esse deus silencioso, imóvel e mimado, que quer tudo de seu servo para si. Uma relação bem mais doentia que a das sumidades artísticas dessa terra; você já tinha o seu Angel Curie e seu James Joyce; seu deus era quem te mandava torpedos com uma letra concupiscente trêmula no papel amarfanhado te pedindo obscenidades para mais tarde.

          Desculpe, fui longe demais. Sobre o violinista? Não, mais uma vez eu tenho que ser 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Um Duelo

       


         Mamãe cortou o cabelo. Era um feixe negro e liso que ia até sua cintura, um parasita de vaidade ostensiva com o qual ela não tinha mais nada em comum. Não o enrolava e o prendia em um coque arquitetônico de antigamente, cujo segredo para se chegar à ciência de achar o ponto certo de amarra era algo tão cuidadosamente guardado quando ela era uma garota da velha cidade interiorana, e agora, passados os meses que pareciam anos de quando deixara tanto a cidade quanto aquele seu avatar idílico, ela só o deixava ali, flanando em suas costas, se alteando à vontade de uma brisa enfeitiçante que cativava olhares dos que lhe estivessem em volta. Foi-se o tempo em que o tratava bem, o nutria com cremes de ervas e shampoos delicados, que o escovava alegorizando uns trejeitos preguiçosos e concentrados, as coisas que fazia quando morava em Altarosa e era uma donzela destinada ao casamento com algum mandatário de terras. Agora que caíra no mundo real, ela, como se de um dia para o outro abriu os olhos e deixou para trás tudo que fosse daquele outro mundo distante. Seus cabelos foram perdendo o viço, tornaram-se quebradiços, já era outro o vento desinteressado que vinha soprar neles sem que seu propósito fosse o de conservar a mesma união e cada qual ia para um lado e fazia estranhas figuras hieróglifas no ar. O que antes o anarquismo capilar realçava a beleza do rosto de minha mãe, agora dava um tom de velhice precoce na maneira em que o caos estabelecido sugeria um queixo mais duro que o normal, ensombrecia os olhos, não cobria as pontas das orelhas. Não precisava a avó pentecostal jogar uma de suas indiretas sarcásticas, nem as filhas satélites fazerem craque de sorrisos falsamente silenciados, pois ela sabia melhor que ninguém o que aquele corpo estranho e incongruente representava. Ela desprezava tanto os cabelos que não tinha tempo de pensar neles. Em sua cabeça a técnica para excisá-los consistia em ter que ir para uma cabeleireira especializada e ficar horas sob uma atenção minuciosa, e isso já não mais corroborava com seu espírito novo que lhe surgira com o êxodo. Se ela não pegou a faca de cozinha amolada e deu ela mesmo um cabo ao problema foi porque a violência do ato a desgastava, não entrava em seus arranjos domésticos de mãe que tinha dois filhos para criar; era como se ela fizesse concessões ao mundo no que ele tinha de pior e, apesar da pobreza que dava suas caras pela nossa frente, ela nunca atingiria esse nível de abjeção. Os cabelos não mais representavam o selo de que ela era uma dama; ser uma dona honrada tinha agora a ver com seriedade e penitência.

          No nosso prédio havia famílias de argelinos, franceses, senegaleses, árabes, armênios, italianos, turcos; gente de todo tipo, cada qual promovendo seu nível de barulho, cada qual com seu timbre linguístico aviário que, em determinadas horas, formava uma tapeçaria sonora de múltiplas camadas, sendo impossível se ater a uma linha de sentido. Nas horas do almoço, que era a hora universal em que os rebentos dos deuses de infinitas caras e dos filhos de todas as idades da diáspora tinham em comum para se quietarem e fartarem seus estômagos, era possível ouvir um ruído uníssono, contínuo, concentradamente intenso e libidinoso, que subia pelos conductos dos elevadores e pelos corredores das escadas e ficava como uma energia étnica em pulsão perigosa, martelando os ouvidos, fazendo fricções sutis nos pés através de sua propagação pelos assoalhos; o organismo que respirava naqueles dez andares de quartos sombrios e janelas flamejantes cujas lâmpadas econômicas entravam em um torpor meditativo, um ronronar peristáltico. A uniformidade a que chegava o som nutria as formas de como esse som se apresentava durante as outras horas menos sagradas do dia, de maneiras que tudo ficava como se debaixo de uma redoma de vidro, os gritos das crianças, a severidade da ordem dos velhos patriarcas para que as mulheres lhes passassem a pasta, ou o baba ghanoush, ou o caldo de rins de cordeiro, ou o cevapi, dependendo de qual parte do espectro geográfico eles vieram, removidos e atirados no teatro caótico daquela babel de proporções reduzidas.

           Mamãe parara de escrever no caderno velho de espiral, rasgado nas beiradas e com páginas transformadas em murais neolíticos com riscos de caneta sobrepostos; pousou a caneta na mesa, se levantou, arrastando de debaixo da mesa as chinelas de taco para que seus pés se posicionassem dentro delas e, sem dizer nenhuma palavra, saiu pela porta do apartamento. Desceu os lances de escadas no escuro, porque a lâmpada dali queimara há uma semana, se esbarrando com as outras pessoas que faziam das suas na dormência do horário, e foi se postar em pé de frente à porta do apartamento do térreo, do bósnio Shivídia Mensur. Todos conheciam Shivídia Mensur, sua cara de ladrão de caravanas, seus longos bigodes de embuchador, seu ar geral de grave perigo. Sentado na cadeira de madeira, ele passava suas longas horas de ócio contemplando o regulamento de sua digestão, mastigando um palito, de camiseta sem mangas branca e encardida, de calças beges de cambraia folgadas e nunca passadas, e o boné de beisebol que um dia fora azul céu mas que estava impregnado de gordura e descorado pelo álcool do aspersor que usava para desinfetar a lâmina de barbear. Quando não analisava o universo para ele sempre assombroso de si mesmo, Shivídia dedicava a ler um jornal que algum conterrâneo deixara-lhe por agrado ou por inconsciente sadismo, o mesmo número eterno de vinte anos atrás, em que as manchetes já não o deviam fazer suspirar de nostalgia por narrar sempre e eternamente, enquanto durasse a consistência já um tanto esgarçada do papel, a entrada do general com canhões que determinara que ele e mais milhares de outros fugissem de um país que passara a não mais existir, mas agora o motivando apenas a se recordar de alguma faxineira de peitos vultosos ou uma bilheterista da estação de Medugorje com as quais ele trocava olhares acalorados e que agora deveriam ambas estarem longe, espalhadas pelo globo, rendidas como ele a uma velhice cujo conhecimento das vanidades da existência não lhe sugeria mais nenhum suspiro.

       Minha mãe deu um pigarreio ligeiro mas determinado, suficiente para que Shivídia, que não estava lendo o jornal, movesse lentamente seus olhos empapuçados da parede amarela e os colocasse sobre ela. Minha mãe deveria ter sido afetada pela profunda tristeza que aqueles olhos transmitiam, porque sua voz, que antes preparara para ser a mais seca possível, se suavizara, como se subvertida a um tom mais baixo. Shivídia a vislumbrou por detrás da nébula tremeluzente do passado e viu ou a bilheterista ou a faxineira, mas como seu espírito era ineludível, tinha plena consciência de não cair naquela ilusão sem mais consequências a não ser pregar-lhe uma peça. Todos sabiam que não era um homem de muita conversa e também de um nível de competência que ia até o simples exercício de aparar cabelos e barbas; para isso bastava que se sentassem na cadeira de couro cinco centímetros mais elevada que o habitual e, com os olhos em paciente observação a si mesmo no espelho frontal, o cliente deixasse que ele fizesse o que tinha que fazer para sobreviver. Haveria dezenas de senhores menos taciturnos e amplos de simpatia que realizavam o trabalho de apara capilar melhor que ele, mas aquele inferno que não angariava um pequeno minuto de silêncio e que estava sempre na iminência de explodir era só aparente, as pessoas ainda eram pessoas e tinham o coração da espécie aptos a se condoer mutuamente e a se sustentarem. Como o desconsolado Shivídia Mensur compraria seus fumos aromáticos e suas lascas de bastirma se os velhos, os funcionários das vendas locais, os assaltantezinhos de feira, as mulheres que catavam lixo nas cercanias, não fossem até ele para que ele despoluísse um pouco o tanto de selvageria que seus corpos lutavam mês a mês para colocarem para fora?

            Então minha mãe lhe diz, com um gesto, que era para Shivídia Mensur cortar o rabo negro, seco e mal tratado, num movimento com a mão que simulava o golpe de uma faca. O bósnio falava toscamente o português, com a incorrigível incapacidade de usar de maneira certa os gêneros e os plurais que tem os homens de sua estirpe; mesmo que se dedicasse anos a ouvir com extrema atenção como falavam os nativos, se assim fosse possível furar o bloqueio de tantas línguas que corria pelo prédio, ainda assim algo de dissoluto em seu espírito de segregado se manteria indomável a se entregar às normas corretas de uma outra pátria. A língua era o primeiro e último foco de resistência em se agarrar à nostalgia de sua antiga e desaparecida nação, o único ponto de concordância mantida entre ele e as mulheres cujas vidas de cachorro sem lar foram privadas de formarem com ele seus direitos interrompidos do calor de uma família e uma linhagem numerosa de descendentes. Mas entendeu que a moça lhe impunha uma complicação sem igual que ele não merecia e nem estava apto para abraçar. Olhou estupefato para o objeto negro que ela segurava pelo meio em uma das mãos, como se fosse um tapete persa mal cuidado que estivesse lhe oferecendo para comprar, e piscou duas vezes pensando em um gorgulho em voz alta que maldito esse dia por lhe virem com enigmas que ele já se fizera pela idade e pelas amarguras sucessivas sem a mínima obrigação de tomar conhecimento, sequer resolver. Minha mãe não se deu por vencida, estava ali para arrancar aquele parasita e estava suficientemente decidida a não se esmorecer pelo ar de afronta desdenhosa de um iugoslavo barrigudo; já engolira o vestígio de educação que lhe viera por ter visto alguma simpatia muito velada no barbeiro e sentia o frêmito de má civilidade lhe subir pela garganta. Não era à toa que ela pairava no imaginário daquelas pessoas atoladas em seus isolamentos gramaticais associada a uma leoa que a ponderação aconselhava evitar. Ela entrou na saleta sem que o armênio tivesse tempo de se levantar, e, num gesto desembaraçado e involuntariamente feminino, se sentou na cadeira de couro. Shivídia, como se lhe tivessem concluído o tapa em câmera lenta que ele esperava assim que a vira parada à porta, balançou os braços e se levantou sem jeito da cadeira, quase caindo para trás com o peso de sua pança enquanto repetia niet niet, mê senhora niet, no no. Minha mãe se agarrou aos braços da cadeira e franziu as sobrancelhas num gesto que, assim como a estival sombra juvenil do ato de se sentar, lhe dava uma graça provocativa, rememorosa de sua antiga beleza provinciana, que vai ver tais coisas não passaram despercebido pelo barbeiro por invocar agora com uma voz de clemência que ele não estava apto a tratar de mulheres do porte de minha mãe. Ele coçou a calva, esfregou as mãos nas frentes da calça, olhou no espelho aquele quadro surrealístico que nem nas mais distorcidas realidades alternativas seria idílica ao se ver em pé detrás de uma moça de rosto e corpo esplendorosos, apesar das tantas tentativas dela em destruir quaisquer traços de suavidade que tivesse os substituindo por expressões grosseiras; olhou para fora em busca de um socorro que a indiferença coletiva sequer sabia o drama que de súbito a potestade havia lhe enviado. Mudo, parou os movimentos de aflição e olhou minha mãe pelo espelho, com tudo o que lhe conferira o terror de embuchador vindo à míngua, estando no lugar a cara de um gordo e velho que lhe pedia que não lhe fizesse aquela extrema injustiça. Minha mãe, lívida, a pele mais translúcida do que o habitual mostrando o canal fluvial de umas delicadas veias na testa, olhava para o mesmo ponto, os olhos arregalados de um fulgor que beirava a certeza terrível de uma bruxa. Shivídia pegou o avental, armou-o por sobre a barriga, como se ele tivesse um peso que um simples pano jamais teria, com um ar de quem estava sendo obrigado sob tortura a fazer algo de consequências ainda não medidas mas que tanto mais seria terrível para ele. Minha mãe então desviou os olhos para a imagem dele, as pupilas tremendo uma só vez delicadas e intensamente, como se uma figura clássica em um quadro sobre um demente tivesse de súbito se movido para mirar o espectador que a observava.

          Shivídia Mensur pegou a tesoura rombuda e enferrujada, com manchas amarelas que indicavam respingos de alguma substância química indefinível, e minha mãe percebeu o quanto as mãos daquele brutamontes eram pequenas. Ele estudava o objeto que tinha que trabalhar, o longo pêndulo morto espraiado da cabeça da mulher prosseguindo-se pelas costas da cadeira; observava-o de um lado e do outro, retorcendo-se para que uma ótica inatingível lhe desse um sinal do que fazer; mordeu o lábio inferior e proferiu uma espécie de mantra rápido e pela primeira vez olhou com um olhar profissional, sem reservas, para minha mãe. Faça da forma mais rápida possível, ela disse, no que parece que ele enfim entendeu o idioma dela. Ele picotou as pontas, com investidas ponderadas da tesoura, e uns fiapos que perdiam o negror e ficavam translúcidos assim que cortados caíam flutuando no chão. Ele a olhou com ar interrogativo, e ela fechou a cara com enfado como resposta. Daí ele respirou fundo, ergueu a tesoura com uma resolução que perdia a indecisão de maneira mais fácil que ele supunha, e o mergulhou na linha da nuca, com a boca do objeto aberto até o limite possível abarcando um volumoso feixe de cabelo. A tesoura era velha mas tinha uma afiação extraordinária, vai ver era por isso que a conservava, pois sincronizado ao som agudo e metálico, um dos sons mais inapropriadamente rápidos para os anos pacientes que levara à formação do que ele extinguia em um segundo, um maço de cabelo da mamãe foi jogado ao chão, o peso o fazendo cair agora de uma vez. O armênio, sem olhar pelo espelho e aliviado por ter sido lhe indicado como se livrar daquela descomunal incumbência, feliz que afinal a vida lhe mostrava mais uma vez que nada lhe era magnânimo e sobre nenhuma ação humana se podia recair o pesar de uma elevada importância, repetiu o trinado fino e cirúrgico da tesoura até que o restante da cauda senhorial do que fora aquela menina transfugada em mulher que lhe entrara na sala. Ele parou o gesto e perguntou à minha mãe se era pra continuar, naquele idioma formado pela precisão entre eles que era mais um diálogo entre mudos, e ela fez que sim com a cabeça.

        Quem me contou essa história foi o próprio Shivídia Mensur, que não tinha nenhuma suspeita que eu fosse filho de seu personagem principal, uma semana depois quando eu também me sentara ali para que ele desbastasse o descalabro selvagem e embaraçado que me crescia acima das orelhas. Até então ninguém sabia quem resolvera aquele incômodo para mamãe, quando ela entrara pelo apartamento não tendo nenhuma diferença de um rapazinho imberbe de pescoço longo e cabelos baixos quase a um estilo militar, apenas com a extravagância doidivanas de ao invés de estar enfunado em um uniforme do exército estar dentro de um vestido. Ninguém falou nada, porque ninguém falava nada dentro daquele apartamento, mas todos pararam por um momento o que estavam fazendo para olhar aquela nova presença entre nós. Um segundo só foi o bastante, o que demorou mais que o que comporta oficialmente esse limite de tempo, em que avaliaram aquela quebra violenta na rotina da casa, aquela comunicação cheia de êxito e vingança que a cabeça impávida e combativa de mamãe expressava em seu mutismo, e no final das contas, ao abaixarem os olhos a título de que mantinham o código de conduta de se manterem isolados sem se meterem um nas vidas dos outros, mesmo com um arzinho vestigial de esnobe indiferença, o veredito era positivo, o que cada um achava era a confirmação unânime de que aquele cabelo condizia melhor com a nova personalidade daquela ex-menina. Se tivesse uma comunicação subliminar secreta que possibilitasse que eles expusessem sem grandes danos ao orgulho o que lhes iam pelas mentes, eles iriam cumprimenta-la por ter incorporado o espírito real da mulher dura e invergável que ela era.


domingo, 28 de junho de 2020

Scenio



Enrietta foi assassinada há 13 anos. O sr. Flibas parou diante o semáforo para pedestres, que no momento apresentava o homenzinho em pose marcial circunscrito em seu quadrângulo vermelho, e olhou os rostos atônitos do outro lado da rua apontando seus olhos para onde ele estava sem o verem. Foi no bairro de São Bento, a dez quilômetros dali, quando Enrietta ia às seis da manhã para o serviço de conselho tutelar no qual se ingressara fazia um ano. O rapaz_ na verdade, um pertencente à faixa etária indefinida entre a infância e a adolescência_, passara por ela, estacara dois metros além e, como se algo que exigisse sua atenção tivesse quase passado batido, mas que se recuperara pelo seu afinco em ser efetivo a algum zelo irretocável, deu meia volta e voltou calmamente até onde ela estava, naquela mesma posição em que o sr. Flibas agora estava diante o semáforo, à espera de que a marcha de carros fosse interrompida na transversal e o caminho para as pessoas fosse liberado. Ela levava uma bolsa de pano bordado com uma mixórdia de desenhos africanos pendurada no ombro, e na hora em que o menino a puxou com violência, seu corpo pendera para o lado; o desequilíbrio fez com que os grandes óculos ray-ban escuros ficassem inclinados no meio do rosto e seus cabelos crespos, que lhe conferiam o principal toque de personalidade, formassem um nimbo na região acima da testa, o que era o detalhe mais visível na câmera de monitoramento de uma panificadora, que registrara tudo e que os policiais mostraram para o sr. Flibas alguns dias depois. A luz vermelha se apagou e o quadrângulo verde, com o homenzinho atarefado estendendo a perna para efetuar um passo, acendeu, o efeito entre cores tão avessas provocando o acionamento de todas as pernas da fila lateral de pedestres que esperavam por aquela adstringente libertação. O sr. Flibas agilizou para chegar ao outro lado, com a desconfiança supersticiosa de que os carros parados eram seres brutais de vontade própria que poderiam avançar a qualquer momento, sem respeito às leis. Enrietta jamais fizera aquele gesto que ele fazia agora, jamais atravessara a rua. Nos primeiros meses, mesmo nos primeiros lentos e imprecisos 5 anos, ele caía na divagação de se não comportava uma culpa pessoal em não ter sido audaz o suficiente para ensina-la a controlar certos movimentos condicionados. Se não teria sido um grande lapso não ter dedicado a instruir um ser tão imolado pela malícia sobre a corrupção que imperava do lado de fora da porta de seu refúgio. Talvez ela não teria simulado reação, como puxar a bolsa de volta, respondendo proporcionalmente à força do ladrão com a energia muscular de seu braço fino mas vigoroso. Algum transeunte que testemunhara a cena talvez tivesse expressado um gesto de admiração e achado que a história teria sido ganha, o mal enxotado e a pobre figura de David vitorioso sido representado na transfiguração de uma raquítica mulher de meia idade, quando o rapaz se estatelou no chão, sem a bolsa e de olhar primeiramente atordoado de surpresa. Mas o sr. Flibas, os policiais e a história já sentenciada de sua vida, sabiam, ao ver num ângulo apical e em preto-e-branco na imagem gravada, que a conclusão não havia sido essa. O movimento da funda tinha sido feito, não com precisão suficiente, e a pedra passara em direção perdida alheia à cabeça do Golias. O mal não se evadira, se levantara em suas orgulhosas e ofendidas pernas juvenis, fitara com um ódio transfigurador o que tinha pela frente, e acertara em Enrietta um murro carregado de fúria que a fez cair instantaneamente sem vida. Foi isso que o laudo do instituto médico legal declararia para o inquérito, um murro tão bem dado que partira seu maxilar e lhe causara uma hemorragia cerebral instantânea. Essa aberração fria, asséptica e sem transcendência o fazia ter pensamentos absurdos como achar que era uma sorte ela não ter sentido a série de chutes que o criminoso dera em sua cabeça em seguida. Não queria se lembrar daquilo, daquela cena registrada nas fitas da caixa da panificadora; os agentes policiais tocaram-lhe nas costas e pediram gentilmente que se retirasse, enquanto um deles dava o sinal para que desligassem o vídeo, mas já era tarde, por distração todos estavam de frente à televisão e a cena continuara a transcorrer, cada um afundado em seus pensamentos, confusos diante a análise que tinham de fazer diante algo que a tecnologia destilara até uma seca trivialidade, desinflando através da repetição a brutalidade de um assassinato absolutamente desproporcional e vazio.
            O sr. Flibas seguiu a recomendação do policial e passou pela porta até o outro lado da pequena sala de perícias, onde a efervescência de uma delegacia de policia continuava à toda com algumas pessoas sentadas à espera de que fossem promovidas de seres congelados no interstício entre a ação e a captura para o centro de interrogatórios pormenorizados, ao que alguns deles responderiam com prontidão, como se narrassem eventos cometidos não por eles mas por desconhecidos tomados pelo ensandecimento; outros iriam se calar com uma fúria concentrada; outros não falariam nada com nada, perturbados pela química ou pela loucura do excesso de afronta que a vida lhes fazia. Seus olhos aturdidos pousaram por um longo momento em uma mulher que estava em uma das cadeiras ligadas por uma barra de aço embaixo, sentada em uma pose inusitada, como se seu corpo não tivesse apenas um metro e cinquenta e cinco centímetros de altura ou algo em torno disso mas fosse extenso o suficiente para atravessar pelas outras cadeiras numa declarada provocação. Mascava chiclete, era morena, cabelos crespos, ensebados e juntados em feixes pontiagudos revelando uma série de cuidados cosméticos tentados sem nenhuma resposta satisfatória e deixados assim como estavam, inóspitos, irregulares, um quebra-cabeça; aliás, ela percebera que era alvo da deseducada atenção do sr. Flibas, através da percepção da presa que costuma saber da presença do predador através de radares sensoriais sutis, e por isso ela parou de mascar o chiclete; o corpo, que emitia um movimento barcolejante, levando a perna cruzada acompanhando a linha da outra perna até onde ficava o limite da cadeira de uma outra mulher mais velha sentada a seu lado, se interrompeu, e seus olhos foram se iluminando de algo que parecia uma intensidade furiosa emitida à distância de dentro de uma caverna, o que faria seu observador cogitar se de dentro pularia uma fera atiçada ou revoariam criaturas noturnas acuadas em busca de outro refúgio. O sr. Flibas a via, mas não a enxergava; sua mente estava desbaratinada; um enorme cansaço como jamais sentira antes afundou seu peso em seus ombros, de forma que ele se encolhera e seus braços retos e desamparados sentiam a necessidade insurgente de abraçarem alguma coisa, nem que fosse seu próprio corpo. Seu cérebro sofrera uma pane, deixando os membros que tinham a obrigação de comandar a seus próprios domínios, e, em consequência, era como se sua alma partisse por um instante, o que ocasionara deixar seus olhos firmemente presos no último objeto em que se sentaram. Os policiais foram buscar um laudo para que ele assinasse e o deixaram ali, tomado por uma insípida vontade de desaparecer. Algo estava muito errado com o que estava acontecendo. Ele não merecia aquilo. Não, não; não era uma questão filosófica, não era uma reivindicação moral, que isso ficasse nos livros, nos compêndios e nos tratados, ele pouco se importava com eles; o que exigia em um destemperado silêncio era seu direito de não ser interessante, era seu mérito em ser invisível, era que a lei cumprisse sua obrigação sobre ele no antigo acordo que ele fez em não imolar o mundo, em não querer do mundo nada a não ser a sua porção satisfatória ínfima e cabível para que levasse sua vida, estendesse complacente sua não competição no jogo e fosse deixado em paz; sua animalidade, porque ao menos seres como ele e Enrietta tinham o direito de perfazerem seus anos em exílio pacífico, não chamando a atenção daquela fúria tão ocupada e sequiosa do mundo. Mas, como se o mistério inquirido não aceitasse mais capitulação, seu devaneio foi quebrado pela pequena mulher, que se levantara agora da cadeira e avançara para o sr. Flibas, os braços formando duas asas com as mãos na cintura, os olhos arregalados, a boca cuspindo chispas de impropérios por entre cacos de dentes amarelos. O sr. Flibas olhava-a com tênue estupefação, como se aquilo não condissesse com alguma linha de lógica que ainda se prestasse a envolver aquela zona da realidade, e a mulher esmoreceu, percebeu seu abatimento, provavelmente sentiu através dos canais telepáticos dos grandes sofredores o inferno que lhe ia por dentro e parou, silenciou de uma vez; voltou seu corpo miúdo e se sentou com uma nova integridade, como se o que vira no sr. Flibas, em sua apatia, exigisse dela uma postura respeitosa. O sr. Flibas vira que era uma menina ainda.