charlles campos
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Notas sobre Carolina
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Sestércios
E havia Sestércios. Se não fosse tudo o mais que atestava estarmos em uma casa de velhos, só ele já daria vazão a esse fato. Era uma criatura tirânica, também muito velha, cujo costume de receber uma grande reserva de mimos incutira nela uma protoconsciência de soberba. Era natural que as assimilações fantasistas sobre imperadores, pompas palacianas e a frieza cruel de um perfil rapínico, erraticamente instalado em um galo, lhe dessem um ar de déspota enlouquecido. Ele morava dentro de um engradado de cerveja Polar que parecia ter-lhe sido destinado como um ato de concessão vinda de alguma antiga e esquecida derrota, o que atestava que ele havia conseguido alguma exceção de humildade em sua autoimportância ao se adaptar àquela ruína.
domingo, 14 de junho de 2026
A primeira página
As
pessoas têm dificuldade de perceber que suas vidas estão mais vinculadas aos
processos políticos do que imaginam. Não é culpa delas se a mamadeira posta
para ferver todas as manhãs as retira da compreensão do todo. Ou se a fila do
pão, tão ligada a antigas carências medievais, só consegue requisitar de seus
espíritos sonolentos uma apreensão superficial da realidade — como aqueles
homenzinhos de narizes compridos desenhados nos cantos dos cadernos escolares,
espiando por cima do muro. A desvantagem é que, nos planos burocráticos da
existência, todas elas são pegas desprevenidas. Se soubessem que os pensamentos
que têm ao entardecer, sentadas no sofá, são os mesmos que passaram pela cabeça
de Pedro, o Grande, ou de Carlos XII, e que as vastidões de tédio das
segundas-feiras não haviam sido melhor diagnosticadas pela visão da imperatriz
Irene Sarantapeco, talvez tivessem aparatos psicológicos para suportar seus
sofrimentos. Restaria a intuição consoladora de que suas possíveis grandezas e
inerentes insuficiências foram todas trituradas pela medianidade imposta — um
triturador para o qual conceitos como poder e glória nada valem.
Acordado pela
manhã, antes mesmo que o despertador na cabeceira soasse, o Sr. Omeno Flibas já
pensava. Abriu os olhos diante da janela fechada que dava para os prédios
vizinhos, a maioria tão antigos quanto aquele em que vivia há três décadas, e
lançou-se nessas jornadas acidentadas, reverberantes e viciosas da mente.
Quando Ângela, sua esposa, era viva, ele costumava levar a parte mais densa
desses pensamentos para a mesa do café, pois ela tinha o dom constituído de lhe
infundir doses generosas de alívio. No mais das vezes, ouvia-o com as
sobrancelhas franzidas, denotando uma atenção empenhada, para aos poucos
esboçar o sorriso estabilizador que indicava que tudo não passava de um
descompasso exagerado, típico da personalidade dele. Ele não se ofendia. Cedia
diante daquela natureza que insistia em restabelecer a leveza onde ele teimava
em enxergar gravidade. Não que ela apequenasse suas aflições; isso seria
impossível vindo da única pessoa de quem ele tinha plena certeza do amor. Era
apenas a maneira dela gestar a homeostase do casamento com sua delicada
economia emocional.
De toda
forma, o Sr. Flibas pensou, Ângela não estava mais lá. Havia morrido há vinte e
três anos, completados exatamente naquele dia. Ela ainda existia nas imagens de
segurança apreendidas pela polícia técnica: andando com a bolsa pendurada no
braço, usando o vestido discreto de seu serviço de assistência social e, logo
em seguida, como por um cruel passe de mágica, sumindo. Na tela, o predador de
casaco e capuz realizava, entre os pixels de baixa definição, a aproximação e o
retorno. Depois, a franca natureza humana da violência e do extermínio. Restou
à mente racionalizante o peso de reinterpretar eternamente a crueza da cena sob
moldes sociológicos e filosóficos. Depois de tanto tempo, ele ainda não
encontrava o nexo correto das palavras para dizer que Ângela fora assassinada
em um assalto; que bastara o soco certeiro de um jovem para que ela caísse no
chão, já sem vida. Esse aspecto limítrofe da realidade — não a rigidez física
do corpo de Ângela, mas a fragilidade das estruturas do mundo — causava-lhe um
profundo espanto. Como era possível que as leis cósmicas, tão intransigentes,
cedessem tão prontamente ao pulso de alguém que recém saíra da adolescência? Ao
braço fino de um magrelo de vinte anos? Seja como for, a verdade era
incontornável. E ele próprio já passara dos setenta. No fim das contas, o que
importava? Eram apenas exercícios de entretenimento de quem, se antes cultivava
uma ilusão de permanência, agora sabia que tudo não passava de ruminações de
uma mente sem muito material para queimar.
O senhor Omeno Flibas usava seu rastreio mental
para identificar em si alguma necessidade de persistência no mundo. Não num
mundo qualquer, não no mundo dos velhos como ele. Aquela instância da lembrança
agora era identificada como as obsoletas coisas do passado. Havia a consciência
de que só há um mundo, sendo todo o mais puro trabalho da retórica—panoramas do
eufemismo que, no fundo, não podem ser desassociados do fator político da
existência.
Deitado com o corpo virado para a janela, os sons e
as luzes da cidade, já tão cedo lá fora, o angustiavam. Ele suspirou uma vez,
pesadamente, como um personagem médio-oriental de algum conto judaico. Nunca
fora boa coisa a ascensão da mente, pensou, os esforços da lucidez, as proezas
do esclarecimento. Por que lera tantos livros? Por que passara toda a vida
debruçado sobre ideias, cultivando joguetes que não deram em nada? Foram feitos
para não darem em nada. Teorias existenciais, negações com anseios de
substituir a natureza, apelos deístas, a procura de significado, a
hermenêutica, a sociologia, as reviravoltas da história, a conflagração dos
povos, a violência primal inerradicável, a utopia, a distopia, o estoicismo, o
design inteligente, a pura plenitude do átomo. Tudo apenas brincadeiras no
vazio, passatempo, inutilidades cuja futilidade só não se vê por sua aplicação
em distrair do fato de que a coisa toda não faz sentido. Apelos de injeção
fisiológica de hormônios para fazer com que o ser humano, esse animal tão
combalido, sinta algum anseio por sair da cama.
Mas, mesmo assim, esse enorme engodo, como num
comum acordo global, continuava a mover milhões de intenções. Por mais que se
sentisse apreensivo pelas conjunções da história, ainda assim era um
privilegiado. Lá fora, os que não tinham o mesmo benefício de uma solidão
cercada de sombras gentis estavam no metrô, andando pelas ruas cheias de lixo,
entre traficantes e sem-teto—ou sendo eles mesmos os traficantes e os sem-teto.
Seres embotados, sem o usufruto da nobreza que Deus lhes destinara, caídos em
uma armadilha milenar; um pequeno lapso ocorrido em algum momento do teatro de
dominação e nunca reparado. E agora estavam lá, como cobaias com o olhar sempre
estarrecido pela fugidia recordação desse cômico engano: os descendentes de
escravos e de bárbaros sanguinários, de piratas agrilhoados e sentenciados de
antigos Estados desaparecidos, todos transformados pela trivialidade dos novos
tempos em meros serviçais da máquina.
Ele mesmo, o que poderia esperar mais daquilo tudo?
E o fato era que não podia chamar de depressão. Ainda sentia a antiga alegria
pela vida. Talvez "alegria" fosse uma palavra inadequadamente forte,
e o acerto ficasse nas escolhas gramaticais menores. Um leve deleite. Não havia
mais nenhum sentido de explicação efusiva, mas, mesmo assim, ele admirava a
conexão de todos aqueles esquemas.
Ele se levantou. Dobrou o lençol para o lado,
fazendo uma ponta em "V" próxima à cabeceira. Era uma ordem de
segurança para si mesmo de que, mais tarde, poria tudo em seu devido lugar.
Pegou o grande travesseiro de tecido sintético, e o posicionou junto
à parede. Calçou os chinelos. Um homem de setenta anos deve prestar exímia
atenção ao equilíbrio. Estava de pijama.
No banheiro contíguo ao quarto, alteou o queixo
enquanto se olhava com uma perspicácia seca e plasticamente severa no espelho,
lembrando-se de um imperador romano menor, dos mais perversos, em seus banhos
palaciais privados. Deu dois passos e, com os movimentos concernentes, soltou
um fluxo de urina na privada. Seria um déspota facilmente demovido apenas pela
inextorquível aparência, um semblante expressivo do denodo e da devoção do
intelecto. Os senadores de uma autarquia que tivesse um tirano como aquele logo
poriam as diretrizes em ordem, sem nenhum problema. Ele sorriu diante desse
humor errático, que seu psicologismo deveria ter lhe enviado por nós de
análises perdidas.
Pegou a escova de dentes do armarinho, deixando que
sua imagem se descompusesse em um borrão veloz quando abriu a porta, e escovou
os dentes com concentrada solicitude. Cuspiu a espuma, observando-a com uma
curiosidade que tinha em sua instantaneidade a devida medida de suas
conclusões; depois, fez bochechos com o enxaguante cianótico mentolado.
Na volta para o quarto, gravou nos reflexos para que sua mente se lembrasse de retirar a garrafa de inox cheia de água, que ele punha ali todo início de noite. Distantemente, poderia resgatar o álibi de que conservava um apuro clínico sobre a boa manutenção dos órgãos internos. O fluxo de urina já não podia comportar esse epíteto, mas a degeneração dos esfíncteres compensava pela clareza do líquido. Um corpo bem hidratado. Lembrou-se, de súbito, de um antigo colega de trabalho que se vangloriava de beber três litros de água por dia. Pequenas instâncias da trivialidade que tinham o mesmo peso homeostático de Platão e de Mestre Eckhart.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
A poderosa risada
A Dani entrou para fazer a cirurgia cardíaca hoje às 5 da manhã. Eu fiquei na sala de espera lendo sobre o zen-budismo. Antes a Dani tomou banho no hospital e quando se sentou para esperar pelo enfermeiro com a cadeira de rodas eu apontei o cartaz que fala sobre retirar todos os adereços e lhe perguntei se ela tirou o piercing "lá de baixo". "Tirei essa noite e coloquei no seu pênis", ela respondeu. O zen-budismo fala sobre a gargalhada libertadora, a "poderosa risada". Mas o zen-budismo é muito frio. Principalmente para alguém que necessita de alguma entidade metafísica pra rezar e pedir pela proteção da pessoa que ama. A Dani acertou o Pix do lanche da semana de nossos filhos na escola na madrugada de ontem, no hotel, seis horas antes da cirurgia. Ela me disse que quando eu voltasse para nossa casa, há 170 quilômetros, eu não fosse ouvindo música clássica para não ficar com sono no voltante. Ela me disse para ouvir rock, alguma música bem agitada. "Mas eu estou há anos na fase do jazz, Dani", eu lhe digo. "Então escute Freddie Hubbard e Joe Henderson e John Coltrane, mas não Bobby Hutcherson. Vibrafone tem efeito entorpecente. E jamais Chet Baker". Eu fico oito horas esperando, lendo sobre o zen-budismo. O zen-budismo é frio, não crê na transcendência, não crê na glória. Meu nome é anunciado e eu vou para a ante sala da cirurgia. A Dani está bem. Eu vejo os médicos e as enfermeiras como seres benevolentes em um estágio de extrema pureza. Choro quando eles me apertam a mão, não consigo evitar. O zen-budismo diz que os Budas passam os dias bebendo chá e comendo arroz. O zen-budismo diz que devemos ver todo o universo em um grão de areia. Daí me dou conta: o zen-budismo não crê na glória porque acredita que já estamos nela. Ele não crê na transcendência porque já estamos na transcendência. Me parece uma parcela de iluminação ter esse insight, e eu sou assolado por uma alegria imensa. A alegria da Dani estar bem, da sombra desses quatro meses ter se dissipado, da ameaça do meu pesadelo recorrente da solidão não me atemorizar mais. Nós já estamos na glória, como isso só me ocorreu agora? Tudo já aconteceu e nós estamos na glória. E eu faço mais uma oração e não quero mais nada do que beber chá e comer arroz por toda a infinitude com ela, a Dani.
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Histórias de amor no novo milênio
Vi um vídeo no Fantástico falando sobre os apartamentos caixotes de Hong Kong. Pessoas moram dentro de caixas menores que caixões. São dezenas delas em cada apartamento, com uma micro cozinha e um micro banheiro coletivo. Ao todo, são milhares, quem sabe milhões, que moram assim na China. A visão desses prédios é aterrorizante, gigantescos, cobrindo com suas cores pardas ciclópicas toda a área urbana. Não há o mínimo espaço para algo que não seja feio, brutal, sem alma, opressivo, aviltante. Em dado momento o repórter é expulso pelo dono do local, ou o gerente, que o aborda com a truculência de um miliciano. O repórter então sai para a rua e entrevista os que se dispõe. Uma senhora diz que lembra com dor a época em que era criança e morava em uma casa ampla, o que só existe agora na sua memória. Um homem diz que não tem mais onde morar, pois os aluguéis são altíssimos, e a grande maioria dos chineses ganha um salário de miséria, o menor do mundo. Os moradores encaixotados são serventes de açougues, funcionários da construção civil, chapas de feira, etc. Uma mulher, contudo, diz que é o paraíso, e é filmada no claustrofóbico espaço deitada. Antes, ela apanhava do marido e foi expulsa de casa, porque o marido não mais a queria, só sobrando morar ali. Pessoas tratadas como lixo, como números, numa sociedade desapiedada e sem traços de humanidade. Eu estou chegando na página 100 de História de amor no novo milênio, escrito por Can Xue, o que não é o verdadeiro nome da autora. Ela saiu de um cenário assim, do nível mais baixo da pirâmide trabalhista escravocrata chinesa, cursou até o ensino fundamental e é uma autodidata. Nietzsche falava sobre o regime chinês em Além do bem e do mal (ou será em Humano demasiadamente humano?), como uma figura retórica do inferno. Hoje, sociedades assim são elogiadas pelos progressistas e pelos capitalistas, o grande país que está tirando o Satã Americano da liderança global. Eu ainda não entendi onde a Xue quer chegar. É um romance que bebe generosamente de Kafka, com seus personagens regidos por morais heterodoxas e situações oníricas. O que me cativou de imediato é a liberdade irrestrita com a qual é escrito. A alegria extasiada da palavra. A forma como a autora mostra que aquele é o terreno só dela, amplo, ilimitado, cheio de espaço. Uma das personagens do romance diz que se tornou prostituta como escape para se livrar da vida terrível que levava na fábrica. A literatura nunca foi tão representativa da mentalidade de cada nação, com seus desejos, lamentos, temores, sonhos e vislumbres de redenção como agora.
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
Sátántangó
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Senhorinhas





