quarta-feira, 21 de abril de 2021

O primeiro contato com o medo

 

Ao voltar para casa, Timos passou na banca e comprou o jornal da tarde. A chuva dera uma trégua e um sol, depois de horas desaparecido atrás das nuvens turbulentas, oferecia um distraído panorama outonal para as pessoas apressadas do fim do expediente. Se analisasse retrospectivamente o humor daquela amostra de vida citadina antes de se refugiar em seu apartamento, teria notado uma tensão mesmo que imaginária refletindo a manchete do jornal que o confrontaria assim que fizesse o chá preto e se sentasse na poltrona. Notar-se-ia muito cansado para ter atravessado aqueles sete quilômetros entre a banca e seu apartamento sem ter dado uma única espiada nas notícias, levando as páginas enroladas debaixo do braço, parecendo com o antigo fantasma de Edgar Allan Poe na multidão. Como havia telefonado para a clínica e dado uma desculpa para não ir trabalhar (ajudar um velho amigo não teria parecido convincente ao casal de patrões, tão acostumado com suas mentiras descuidadas), andava por entre as pessoas sem o elo de ligação de quem faz o último passo da engrenagem cotidiana, a volta do triste e irrelevante Odisseu para sua ilha de concreto particular isolada do mundo. Seus pensamentos se afundavam nos temas que P vasculhara na fila à espera pelo atendimento da funcionária da previdência. Para se distraírem da insípida burocracia (toda burocracia era insípida, ora bolas, lhe dizia por detrás do cansaço sua voz mental), falaram sobre os grandes temas, a imortalidade da alma, a impossibilidade da matéria, a energia que domina tudo do mais alto ao mais baixo, os universos paralelos. Lembrava-se de quando criança um menino um pouco mais velho, atrasado nos anos escolares por uma sucessão de reprovações, lhe contava sobre geografias mirabolantes, histórias de reis nunca antes ouvidos, misturando nomes reais apreendidos em conversas entre adultos e contrabandeados para o assunto para dar-lhes autenticidade. Só depois de anos Timos confirmou a suspeita de que o amigo inventara tudo, fruto de sua potente imaginação, e que os cossacos não eram gladiadores da rainha da Inglaterra e nem os kolkhozes a raça de cão imperial que trucidava crianças perdidas na floresta. Era inevitável pensar que uma maturidade vinda sabe-se lá como ao longo dos anos que tinha pela frente poderia dar a devida dimensão daquilo que P. falava, assim como lhe dera a juventude sobre as mentiras criativas daquele moleque. Andando entre as pessoas sem muito ímpeto, Timos ia passando de um pensamento a outro, não predisposto a fazer uma crítica racional. Talvez tudo fosse verdade, talvez eles estivessem amaldiçoados a viver eternamente, talvez o tédio não fosse uma presença subjetivamente tão forte naquelas instâncias do espírito, talvez as atribulações nessa dimensão, que servem para dar sentido a essa vida estúpida, sejam substituídas por uma contemplação possível, como se vivêssemos em uma música de Arvo Part.

         Chegou em casa, trancou a porta, jogou o jornal na mesinha de canto da sala, e se dirigiu para preparar o chá preto na cozinha. A caçarola estava atirada na pia, entre um monte de pratos e panelas, uma borra de erva fria consumida há dias embutida no fundo. Não havia outra caçarola, de modos que a pegou com uma atenção avaliativa sobre qual melhor caminho sem sofrimento para vencer aquele desafio; bateu-lhe com a mão no fundo acima da cestinha de lixo ao lado do escorredor de pratos. Para seu alivio, todo o corpo da borra se soltou e caiu com facilidade na cestinha, e ele pôde jogar um jato da torneira para que as pequenas interferências das folhas e talos restantes fossem retiradas em um redemoinho de água. Encheu o utensílio de água e a pôs para ferver, demorando alguns segundos para descobrir onde colocara a caixa de fósforos, localizando-a no mesmo lugar de sempre no meio dos potes de condimentos da estante. Era alguém que tinha a sua própria organização, porque os objetos sempre estavam onde ele programara ser o local de os deixarem estar. Só as chaves, por uma subversão de algum eu intrínseco, é que relutavam em se adequarem a esse regimento e trafegavam a cada dia pelos lugares mais improváveis. Quando ficou pronta a infusão, serviu-se com uma caneca, adoçou com o açúcar mascavo que restava e diante o qual repetiu algumas vezes para gravar que deveria comprar outro pacote o mais rápido possível, a vida sendo impossível sem que pudesse usar aquela preciosidade marrom rescendente para obter alguns minutos de dissipação meditativa.

          Afastou as roupas amarrotadas, que ele não iria se dedicar em saber quais estariam sujas e quais estariam limpas, e se sentou na poltrona. Soprou o chá sentindo o odor sóbrio da erva, o que o fez lembrar que já fazia horas que estava sem comer, e se lembrou de que havia um pacote de bolachas de aveia e mel pela metade na estante; mas resolveu beber primeiro. Foi então que abriu o jornal e viu o que o mundo todo já sabia: o candidato da extrema direita havia sofrido um atentado. Claro que a imprensa, em seu falso rigorismo em se mostrar isenta, não se expressara nesses termos, substituindo a situação partidária por seu nome popular: A. Timos sentiu uma violenta perda de forças, algo em seu sistema circulatório sofrera um curso gelado de aflição, ele se levantou rapidamente e passou as mãos pelos cabelos, sem saber o que pensar. Uma felicidade radiante e infantil passara rapidamente por ele, ele sorriu e deu pulos pelo quarto, sem gritar, e parou de frente ao escuro preenchido de vultos indefinidos com uma cara de louco, sobrancelhas erguidas. Será que a história decidiu enfiar sua mão imaculada na matéria suja dessa dimensão para facilitar as coisas? Quando isso tinha ocorrido antes, em quais lugares, o que trouxe de realmente bom? Ou seria então aquela plenipotência a que P. sempre se referia, se refugiando em uma confiança nela, que intercederia contra o mal? Precisava ler o restante da matéria. Estava agarrado em sua exultação sem saber ao certo o que acontecera, na esperança de que alguém finalmente resolvera dar fim àquela loucura, aquela distorção brutal do bom senso. Talvez o fascista ainda estivesse vivo. Não tinha coragem de continuar a ler. Em pé, no silêncio cada vez mais intensificado, ouvia a pulsão do seu sangue nos ouvidos, e não queria sair daquele momento. E se lera errado? Não, pelo menos isso, para calibrar na medida certa o nível de sua exultação, lera várias vezes. Voltar a se sentar era incorrer na enorme possibilidade de ver que não fora a redenção que acontecera, mas o eterno sarcasmo, pois a hipótese de que o mal ainda estivesse vivo era maior que a contrária. Se o houvessem matado haveria carros nas ruas, multidões ensandecidas dos dois lados, festejos e lágrimas da parte dos rebanhos manipulados desses mesmos jornalões. Foi então que repassou seu trajeto da banca para casa e percebeu ser impossível uma engrenagem da história ter se movido em seu favor, lhe dando a graça da economia em mirar em propósitos mais humanitários. Sem aquele mal, aquela vertente medíocre de mal que a estupidificação lhes enviara, seria enfim possível que eles passassem agora a usar a força utilitária, sem distrações provocadas pela ralé auto vitimada dos não esclarecidos. Sentou-se vagarosamente e, suspirando, voltou ao jornal. Com a respiração suspensa, retornando com pesar a cada instante em que se deixava se inteirar da situação, logo dobrou o impresso e o ficou segurando próximo aos calcanhares, o olhar absorvido no estudo das consequências advindas de mais uma barbaridade. A. estava vivo. No meio de uma passeata, em que o herói ia sentado no ombro de um de seus correligionários, em meio a uma centena de adoradores, alguém furou o bloqueio da polícia federal, dos músculos anabolizados de sua guarda pessoal, e deferira-lhe uma facada no fígado. A. fora transportado às pressas para uma ambulância e, no hospital, pelo menos no momento em que o jornal saíra dos fornos rotatórios, passava por uma cirurgia de emergência.

              Se perguntassem a Timos o que ele pensava disso, ele diria sem relutar: quisera que estivesse morto. Quisera que esse homem, esse que agora sabe-se lá onde esteja ou se está ele mesmo vivo, que perpetrou o ataque, tenha tido um treinamento rigoroso e seja uma virtuose do assassinato programado. Que seja um soldado, seja de qual frente for, se do lado dos progressistas ou uma dissidência paga por alguma orquestração traidora do fascismo (porque isso deveria estar sendo cogitado nas esferas não oficiais dos formadores de opinião), pois assim ele não daria sua vida para errar um golpe desses. Para quem sentia que o único céu privado entre os distúrbios do mundo era trabalhar em uma clínica de abortos, que a única paz compatível com sua deterioração lenta e irrevogável era o silêncio de expectativas das mulheres que iam lá para que vasculhassem assepticamente seus úteros, desejar assim a morte de um desafeto era por demais humano. Não poderiam culpa-lo mencionando o humanismo. Mesmo porque, além dessa fraca anedota retórica, um homem como aquele que estava agora sedado e respirando através de máquinas, em uma mesa de cirurgia, tinha tudo para decretar a morte de um sem número de pessoas. Sua presença em um eventual governo à frente do país seria a autorização de que as comportas de um ódio acumulado em centenas de anos pudessem ser abertas, um ódio aderido ao dna de todo um povo e que há anos, desde que A. surgira nas televisões e nos jornais, estava se enfileirando e se organizando para buscar suas compensações sanguinárias. O que o isolamento tinha-lhe feito, pensou Timos. Condensara-se na respiração de seus próprios pensamentos, sem que ninguém de fora viesse lhe trazer algum refresco, e se tornara tão preconceituoso e cheio de ira assassina quanto os adeptos daquele sujeito. Foi até a geladeira à caça de alguma coisa para comer. Um suco de tomate em médias condições de aproveitamento, com o adesivo de plástico mostrando rubros frutos de uma fazenda solar se desprendendo pelas beiradas e com bolhas longitudinais indicando que até a cola da embalagem vencera. Pelo cheiro, não lhe faria mais mal do que vinha tomando nos últimos dias e, ao provar, o gosto lhe caiu bem, um tanto salgado e com a oleosidade artificial denunciatória que os conservantes escamoteados no produto passam a ter para sobrepujar de vez ao sabor quando não são tomados imediatamente. Um pedaço de gorgonzola também pode ser resgatado do fundo, talvez foi Amanda que enfiara aquele bloco triangular de fungo e manteiga de leite encostado nos canos refrigeratórios da parede para que se conservassem mais. Tinha sido ela que trouxera o gorgonzola, há alguns meses, junto a diversos tipos de carne processada e queijos que preenchiam todo o espectro de cores entre o branco e o amarelo. Um gorgonzola podia perder o prazo de validade? Era como se perguntar se um raticida fica melhor se estiver com o prazo de validade vencido.

           Timos pega essas coisas, essas sobras do seu passado recente, e prepara um lanche. Pega duas fatias de pão preto de um saco milagrosamente fechado que encontrou atrás dos pratos da estante, besunta-lhes com uma camada grossa do queijo azul, despeja o suco de tomate em um copo limpo da pia aprovado pelo teste do olfato. Se senta à mesa na cozinha, arrastando a cadeira para a frente para que as migalhas que lhe cairão não lhe sujem a roupa. Come pausadamente, sem sentir o gosto, apesar do quê os condimentos do queijo deixam suas papilas enlouquecidas, um jorro vindo das glândulas salivares simula dor nos músculos maxilares. Há tempos não tem uma alimentação decente; sobrevive com aquelas improvisações encontradas como um tesouro sem glamour deixadas por uma sucessão de sua personalidade em diversas aventuras da solidão. Tirando o queijo, que evidenciava a presença de alguém (e lembrou-se do nome dela, Saula, como se a festa de picardia em sua boca acionasse-lhe então a memória), os biscoitos, o pote de iogurte natural na porta da geladeira, a manteiga de leite pela metade e com raspas enegrecidas nas funduras deixadas pela colher, eram testemunhos do que sua mãe um dia chamara de “suprimentos infantis”, uma total ausência de qualquer sacralidade pela comida. Sua mãe ria com pesar ao ver aquele monturo de carboidratos e proteínas de baixa qualidade, o olhava de um avançado estágio da compaixão em que o objeto da piedade assume um foco realista e desesperançoso, forçando novas atuações. Algumas vezes ela lhe mandava uma cesta de alimentos, entregue por uma grande cadeia de supermercados em que se arranjava tudo por um telefonema em que reportava didaticamente a um funcionário o que lembrava dos gostos de quando ele era um menino, e improvisava o restante baseado em suas prevenções sobre uma dieta saudável. Mas Timos não pensava nisso nesse momento, isso são apenas reflexões nossas que nos distraímos de reparar com mais aproximação sua pose desabrigada diante o sanduíche de gorgonzola que apara na mão diante o nariz. Ou talvez relacioná-lo a uma criança e pensarmos em sua mãe seja por estarmos, ao contrário do que acabamos de dizer, justamente inteirados em observa-lo. Ele dá mais uma mordida e mastiga com vagareza, contemplando algum lugar sem foco diante si. Não pensa no ataque que o fascista sofreu. Deixa a mente divagar pelo nada sob a ressonância leve e dispersa do fato, se abstêm de usar a racionalidade para montar o quebra-cabeça que a situação exige inexoravelmente que se junte, peça por peça, e tem a esperança de que elas se encaixem por uma atração natural automática.    

         É o medo, as peças moventes, relutantes em mostrarem qualquer figura discernível, lhes diz. Naquele apartamento minúsculo ele sente o medo incurável, obscenamente vergonhoso, tomar-lhe conta. Era o mesmo medo sempiterno que sentia desde quando era criança, desde quando, numa brincadeira cujas imagens difusas de um jardim e uma luz especular lhe indicava ter sido seu primeiro contato com algo inominável sobressaindo-se das fantasias de piratas e de ilhas distantes para fazer o mundo lá de fora insurgir em seu refúgio. O primeiro contato com o mal, um roçagar inapreensível, isento de minúscula emoção, mas que lhe deixara uma herança de certo calor. Alguns psiquiatras do comportamento infantil relativizam a proteção exagerada da criança quanto às manifestações do mundo adulto. Certa vez retirara risos explosivos da mãe e de uma amiga dela quando, na mesa de café, lhes perguntara o que significava a palavra “prostituta”. As duas deixaram-lhe assistir televisão até tarde na noite anterior e ele vira um filme francês em preto-e-branco, na tv cultura, em que uma das personagens atirara na cara de um amante irresoluto a acusação de que ele a tratava como a uma prostituta. Em sua cabeça o som da palavra remetia a alguma burocracia anacrônica, lhe provocou imagens de depósitos de velharias e grandes caixas de papelão, fato que lhe veio colado às impressões do que achava que um filme francês deveria despertar. As duas riram, a mãe depositou a xícara de café no pires e lhe respondeu com ternura: “Prostituta é o que se convenciona chamar de profissionais do sexo, mulheres que se vendem para desconhecidos para que esses façam sexo com elas”. Ele ruminou a informação sem espanto, como sua mãe tinha certeza que ele o faria, e o termo se tornou um totem de referência de seu primeiro passo rumo à erudição. Sempre que se deparava com a palavra, tal cena na mesa no café lhe vinha como acionada por um dispositivo mecânico, uma série de engrenagens se punha em movimento e se finalizavam com uma urgência instantânea a precisa figura de uma mulher de terninho, culta e emancipada, como exigiam as regras da polidez do cinema europeu dos anos 50. A assepsia resultada disso era tão primorosa que cambiava uma inadaptabilidade semântica ao significado da palavra “puta”, que era apenas a mesma mulher, com a mesma respeitabilidade e distanciamento, adquirindo as cores do cinemascope. Já o contato com a verdade que estava além das palavras era outra coisa. Subira do jardim do prédio onde moravam ele e a mãe, naqueles anos em que os dois em intrínseco acordo labutavam contra a derrota imposta pelo mundo, ela em sua faculdade de direito, ele em seu suportar estoico das sombras silenciosas e opressivamente intranscendentes do apartamento, com aquela revelação na cabeça. Aquela luz muito além de sua compreensão, que entre as folhagens cortadas por sua espada de Capitão Green Hollyday e a tribo canibal que teve que derrotar no centro das samambaias, viera para plantar as primeiras sementes do que havia de real cercando aquelas suas brincadeiras solitárias e pueris. Abrira a porta do apartamento, utilizando a chave que guardava no fundo do bolso da bermuda, com todos os avisos admonitórios da mãe para que não a sumisse e por isso ele sempre a apalpando para certificar que cumpria sua missão seríssima com rigor, pois caso contrário como eles iriam entrar em seu refúgio, e como com uma distração fatal a chave poderia cair nas mãos de um facínora que entraria no reino deles e levaria sabe-se lá o quê, suas preciosas miniaturas de soldados da Guerra de Secessão, ou os livros da mãe, isso, o que havia de mais valioso para se levar que lhes pertencia seriam os livros, e na sua cabeça os exemplos mais abjetos de bandidos que rondavam aquela chave em seu bolso poderia levar os russos, os franceses, os alemães, que a mãe venerava com recato mas ele lia com espanto e um tanto de repúdio (o fascínio de tantas coisas por descobrir além daquele apartamento e além do aconchego ambíguo debaixo das asas da coruja taciturna da mãe cujo filos biológico não dava muito afinco à maternidade), como era vasta a insegurança humana, como era infinita a dúvida e como estava pronto para se firmar a implacável certeza da impermanência no reduto de sua alma. Ele abriu a porta girando a chave e entrou, tornando a fazer o movimento giratório no miolo da fechadura até que ficassem só ele e aquele sono velho silencioso, rumorejando sons que o ouvido não era capaz de diferenciar dos ruídos urbanos onipresentes que sempre atravessavam os vidros das janelas fechadas e a espessura das paredes, o zum-zum delicadamente virtual do solenoide das lâmpadas de sódio dos postes, a água tilintando suas bolhas metálicas de ar com lapsos de certa alegria feminina pelos canos, respiros que surgiam do nada que ele poderia acreditar vindos de um mundo dos mortos separado deste por alguma artimanha de dar autoridade apenas aos que estavam do lado de lá em tocá-lo se o quisessem, mas que sua mãe lhe reprimia concisamente sobre tais metafísicas e tais assuntos primitivos que o pragmatismo e o cientificismo de suas vidas ditaram não gastarem energias com elas, e os tantos sons de animais ou autênticos apelos humanos dos solitários dos outros apartamentos que emitiam suspiro para que esses de detrás do véu lhes ouvissem e que acabavam cambiando para que uma criança no mesmo plano e na mesma impossibilidade de ajuda fosse o único receptor. Ele tinha costume de falar abstrações sem sentido para a mãe, que o ouvia com uma solicitude séria, os olhos dela por detrás dos óculos analisando o que ouvia com uma persecução preocupada, pensando para onde tais coisas iriam, arrebanhando tudo que anos de estudo e leituras concentradas poderiam servir para saber algo desobstrutor sobre a loucura da infância. Mas ele teria que esperar ainda 3 longas horas antes que sua mãe retornasse da universidade, 3 eternidades contadas no oval do relógio da sala enquanto ele permanecia sentado na poltrona arrastada para de frente a janela olhando os carros passando lá embaixo, se permitindo uma esperança artificial de aprumar-se com o desenho de um sorriso nos lábios para cada carro que parava junto à portaria, com o motor ligado, e cuja pessoa do lado do passageiro fazia suspense antes de descer para que ele testemunhasse com a tristeza restabelecida de que não era um dos colegas da mãe a trazendo de carona, o professor de jurisprudência, um velho juiz aposentado que vinha com as regalias dispendiosas pagas pelo estado de uma cidade há 150 quilômetros todos os dias para administrar uma aula chata e arrastada não tendo vindo e portanto ela estava liberada mais cedo, para que ele utilizasse assim que abrisse a porta seus ouvidos para despejar-lhe dentro aquele novo terror censciente que o prenúncio da triste maturidade precoce lhe enviara no jardim da portaria.

          Timos analisava o por que o acaso achara que aos 8 anos ele estava apto para receber essa inserção da verdade. Fora o ano em que seu pai se mandara. Aquela figura intocável, que lhe deixara marcas mais que indeléveis pelo seu distanciamento, pela elegância alienígena que ele usava sempre com Timos como se fosse o atestado arranjado consigo mesmo para excluir aquele enigma de dedicação que a paternidade romântica exigia que tivesse. Por um triz Timos quase o amara. Em suas observações caladas, sentado no sofá, deitado na cama antes que todos acordassem, estudando com franca admiração o rosto francês cruel e abnegadamente animalesco em toda sua reivindicação de liberdade virado para cima em entrega à sua paz natural, Timos o trazia para si, se moldava nele, centrava-o no palco de suas emulações minuciosas, repetia seus trejeitos alheios e ególatras, e ele, seu progenitor biológico, fizera-lhes o favor de dizer adeus antes que todos esses estragos se completassem. Duvidava que houvesse alguma previsão de danos calculado nessa despedida definitiva, pois alguém que vivia apenas para si mesmo jamais teria a vocação para uma alteridade dessa envergadura, mas o egoísmo dele acabou sendo um ato de misericórdia.

           Timos virou mais um copo do que restava do suco e observou que a chuva dos últimos dias trouxera um áspero ar de fungo pelo apartamento. Ele gostava desse odor, um cheiro de coisa se deteriorando às escondidas, como se requeresse a sua distração para poder sobreviver. Estava bem debaixo do seu nariz, mas era suficientemente inapreensível para que seus sensores corporais pusessem-no em dúvida, colocando em xeque a capacidade de seu próprio funcionamento. As janelas fechadas habituara a atmosfera de saturação a um meio promíscuo para o mofo, e daí viera a humidade, reinante e florestal, e as forças da selvageria natural insurgiram-se contra o concreto e o cimento, soprando o bafejo manhoso de antigas doenças à espera do fim de suas abolições farmacêuticas. Era uma batalha silenciosa e longuíssima, cujo tempo se media em módulos muito além da duração de Timos para testemunhar (imaginou dali a décadas, quando os devaneios no escuro de novos inquilinos na renovada versão das chuvas sepulcrais, iriam identificar o limo se intensificando, concluindo mais uma frase meditada e tranquila daquele seu argumento de invasão). Na última semana_ segundo ouvira em um telejornal da clínica de abortos_, doze pessoas morreram de frio. Anabel (a secretária) estava em um de seus solilóquios sigilosos com uma paciente e ele não pôde aumentar o volume do aparelho na recepção. Eram anônimos, é claro. O tipo de estatísticas que vem com cenas de fachadas de prédio, de rostos indevassáveis de médicos falando como se não se tratasse de humanos. Timos conservava certos ceticismos que ele sabia infundados, vindos de uma subliminar adoração à ciência. Era-lhe difícil entender como alguém morria de frio. Tirando os desalojados, os sem rumo, os suicidas das ruas que veem a oportunidade de darem um basta no convite acolhedor que a chuva tem em toda sua tenebrosidade cósmica, pensava nas senhoras em seus apartamentos com armários antigos, os velhos que são descobertos cinco dias depois. Como essas pessoas morriam de frio? Aqueles cansados médicos das entrevistas deveriam resumir tudo como “hipotermia acentuada”, para poderem voltar para suas casas e acabarem logo com aquilo, e ninguém iria perguntar, nem os parentes convocados, nem a polícia, nem os vizinhos. Lembrou de um romance do Rabindranaph Tagore que lera na adolescência, em que uma frase o tomara de jeito: “é muito difícil matar um homem”. O escritor não falava de entidades, de ideias, mas do homem biológico, falava do que estava por sob as estatísticas. Talvez esse assunto o tomasse tanto tempo recorrente porque Timos se via como uma vítima potencial desse tipo de morte. O que estava pensando, ele se perguntou, recolhendo um pedaço rançoso de queijo no fundo da embalagem e o colocando na boca. Veio-lhe o professor húngaro do segundo andar à cabeça, e o casal de velhos tão exageradamente zelosos com a filha que morava no exterior. Eles estavam nesse exato instante em um raio curto de distância dele. O professor deveria estar enfurnado em sua poltrona, com um livro de filosofia alemã no colo_ ele imaginava sempre que o estado de organização estivesse longe do caos do seu apartamento, o que era um elogio involuntário ao vizinho. O casal deveria estar na cama, abraçados, quem sabe depois de terem falado por telefone com a filha. Os seres humanos não divergiam muito desses clichês, havia poucas opções dos quartos e salas escuros. Talvez eles, os quatro, formassem uma chama de vida reflexiva em algum ultrassom divinatório e suas mentes apareceriam como as únicas coisas acordadas em todo universo. E talvez um meio termo entre a soturnidade desses seus pensamentos e a comunhão ortodoxa que havia ao nível mais trivial possível entre eles é que determinasse que não estivesse na hora do frio dar sua cartada fatal. Todos aqueles protótipos e insinuações não tinham peso suficientemente trágico para resistirem a um simples grito, ou a uma necessidade limítrofe de abrir a porta, atravessar os degraus e bater na porta do outro, o triste e nobre conde destituído de seu título dinástico aparecendo com sua cara desesperada por algum apoio na soleira da porta. Ou ele bater à porta do casal de senhores. Seja lá qual arranjo, quem procurasse quem. Aquele cheiro acre dos fungos só se instalava em seu ambíguo prisma do que era agradável porque ele se permitia ser superior a ele, ele se permitia a permanência, ele era ainda inflado de orgulho, de vaidade, de egocentrismo, de apetites os mais diversos (ainda que controlados), de forma que a doença que aquilo poderia pressagiar era transformada em um atributo a um sommelier exótico. O medo era um anjo que fulminava a todos do cavalo e enceguecia com sua potestade inverbalizável, com seu terror infantil que se cola na idade adulta e na velhice, era o arauto daquilo que estava acima da nossa compreensão, mas as histórias fabulosas que ele contava era dever de cada um acreditar ou não, levar à frente e alimentá-las ou não.

          Timos imaginava as quantas histórias que estavam sendo fomentadas apaixonadamente naquele mesmo instante sobre o atentado, na calada da noite, por fanáticos insones. A estatura de A. estaria, na manhã cujas sete horas de escuridão fria o separava, a níveis insuperáveis. Sua força e sua grandeza, que até então podiam ser codificadas como imaginárias, acordaria naquele novo dia de sua glória como capacidades incontestáveis de um líder predestinado. Timos já sabia de tudo. Levantou-se, foi ao banheiro, abaixou suas calças e se sentou na laje fria da privada, e urinou na pose feminil. Lavou as mãos, retirou a escova e o creme dental da caixa da parede, e escovou os dentes demoradamente, olhando sem se atentar para as fímbrias e desgastes de sua pele. Aquele povo que vivia sob o medo se veria autorizado pelo destino a depositar nele todas suas esperanças mais profundas. Seu rosto fino, de antiquada distinção nobiliárquica, que lhe dava um acento de estupidez que ia de encontro à ternura errática dos broncos que a multidão venerava, iria aparecer em todos os lugares. Ele não morreu. Aquela vontade de viver que Timos identificava em si mesmo não permitia que o frio viesse lhe observar na aposta por resoluções preguiçosas da história; insistir na graça de um sujeito como aquele continuar com seu direito à vida, mesmo indo de contra o que se movia na fáscia mais superficial de seu pensamento, era parte em se manter vivo, pois viver sem sua humanidade não era viver. Afora o seu apartamento caótico, Timos vivia. E ele conseguiu dormir profundamente naquela noite, contrariando todas as suas estimativas. Outras maneiras haveriam de surgir para combater. Sempre haveria outras maneiras. Bastava foco. Bastava estar acima na escala biológica do limo e restituir com uma concentração feérica a superioridade de sua espécie por sobre o frio.

(Escrito no final da tarde de 6 de setembro de 2018.)



domingo, 18 de abril de 2021

O atentado


 

O sr. Abilio Monsemarte segura nas mãos surpreendentemente não mais trêmulas_ pois elas deveriam tremer diante mais um insulto contra a sua vida e suas faculdades racionais_ o  comunicado do cancelamento de sua aposentadoria com a certeza de que aquilo é o limite máximo. Por sua mente  passa a análise de que isso se constitui  um erro gramatical, pois todo limite é máximo e não há um que não tenha em seu conceito a noção de ser a fronteira que determina o final e o começo de duas coisas distintas. Ao mesmo tempo, ele sabe que essas redundâncias são aspectos elementares do idioma, uma espécie de lirismo da derrota, quem as inventou precisava de uma cadeia de expressões que suportasse definir sua covardia, lhe desculpasse o ter se deixado levar pelas necessidades ou por sua falta de vontade em reagir contra aquela injustiça que tornava um limite passível a se envergar e se estender ad eternum. O sr. Monsemarte foi professor de português durante a vida inteira, ou quanto sua memória não mais eficaz como em outros tempos conseguia fazer seu arraste documental para lhe indicar, e coisas como essas incorreções grotescas incomodavam seu olhar especialista a um ponto de  perder o foco principal da realidade e se ver enrodado em cogitações levianas. A expressão era suficiente, em toda  insinuação de sua covardia e insignificância. Aquela ofensa que segura em mãos e que era irretorquível em sua muda tirania era o limite máximo, um limite cujo caráter assassino era também  falso pois, pelo que a verdade sugeria, ele, ainda poderia engolir mais umas tantas afrontas, poderia encolher e sentir nas costas mais uns tantos golpes do suporte de madeira que o destino lhe dava, o que era um tanto mais vergonhoso e paradoxalmente insuportável. Até que ele morresse, ele pensou, esse era o real limite. Tudo o mais era passível de elasticidade, mesmo aquele ódio genuíno que sentia como nunca conseguira sentir antes_ a ponto de literalmente sufocá-lo. Ainda bem que não viera aos correios com Marci, sua esposa. Ele não teria conseguido se segurar diante seus olhos perplexos, seu batom vestigial, tracejado, pueril e despropositado, que lhe lembrava a decadência das condessas russas na miséria em Paris, depois que os bolcheviques lhes haviam tirado os títulos, as rendas, as fortunas e, se as encontrassem, a vida. Seria aquele instante a descoberta de que viviam em algo parecido aos anos 1930 para esses deserdados? Seria ele e Marci os novos modelos famélicos da fase azul de Picasso, aqueles exilados tristes e já sem alma que andavam de cabeças baixas por aquelas ruas cobertas de lixo que o desespero da época tentava vende-las com um glamour impessoal e pleno resistente a tudo, até mesmo aos mais terríveis fatos históricos?

       O sr. Monsemarte estava sob a sombra de uma pequena árvore. Havia cruzado a porta  da agência e dado uns poucos passos, o suficiente para se livrar da visão da fila formada na calçada cuja paciência era imposta pela circunstância de se ter apenas um atendente para resolver as consultas, enviar as encomendas, pagar as contas e entregar mercadorias enviadas de todos os cantos do país. Uma instituição decadente, como todas as outras, que reforçava com  angústia demasiadamente clara a sua certeza de estar em um país soviético. Mesmo estando na América do Sul, na colossal, enérgica, desmedida e cheia de paixões almáticas América do Sul, aquilo ainda ressoava a um império de ineficiência. Ele se segurou no tronco da árvore, cambaleando; seria agora que iria desmaiar? Quem sabe um lóbulo de sangue iria se desfazer naquele instante em seu cérebro, e o limite seria enfim alcançado? Umas estrelas vermelhas começaram a espocar por detrás de suas retinas, tomando-lhe o ângulo da visão. Seria mesmo um desmaio; era bom que se preparasse. Se tivesse lugar para se sentar, iria fazê-lo e emborcar o corpo para frente, de forma que colocasse a cabeça entre as pernas e forçasse o fluxo de sangue para o cérebro. Isso resolvia, mas o banco mais próximo ficava a uns bons trezentos metros, numa praça, e não se prontificaria a se sentar no meio fio. Estaria a cena posta com todo seu esplendor desejado se fizesse isso. Um velho morto no lado do tráfego dos carros, pulsos e boca relaxados, um contorcido pela bomba cardíaca, o outro expelindo a baba da indignidade derradeira da espécie animal a que pertencia.

          Respirou fundo e rapidamente, lembrando que era uma boa coisa a se fazer no momento. Crispara a mão na casca da árvore, sentindo os pequenos grumos de madeira se rendendo à força de seus dedos, se soltando de sua cola à superfície bege e lisa que ficava por debaixo. Não queria ferir aquele ser, que parecia ter uma vida tão inglória no meio de um pavimento urbano, onde pessoas passavam rapidamente em completa indiferença, onde cães viam mijar-lhe na base. Se pudesse ele e aquela árvore serem transplantados por algum fulgor mágico, alguma milagrosa compensação esotérica a todo sofrimento que lhe realizasse aquele desejo no momento da morte, ele queria que os colocassem em uma floresta, que os deixasse passar aqueles últimos instante ali, num terreno sagrado. Por estranho que pareça, esse pensamento foi lhe dando certo consolo e isso refletiu em um bem fisiológico. Ou um mal, conforme o ângulo de que se via. Não seria bom, finalmente, se ele explodisse de vez, se ele não aceitasse?

            O sr. Monsemarte conseguira se aposentar depois de quase quarenta anos de trabalho. Ele sabia ao certo quanto tempo aguentara a desgraça de uma sala de aula em uma escola pública: trinta e oito anos, sete meses, três semanas e dois dias. Suportara não tão dignamente cada um dos minutos desse tempo; nenhum estereótipo do educador engajado se encaixaria nele; ele entrava na sala sem olhar os 30 alunos que fingiam escutá-lo e repetia a cantilena monocórdica por o quanto eles permitiam que ele repetisse, e depois saía, deixava para arrumar sua velha pasta de couro na mesa dos professores, esfregava as mãos para retirar o pó eterno do giz em uma toalha amarela encardida que persistiu com ele por décadas, e ia embora. Esquecia  plenamente da ocupação que o azar lhe destinara preencher que muitas vezes, quando lhe perguntavam o que ele era, em algum departamento de crediário ou em algum balcão médico, ele titubeava, procurando na memória o que ele realmente fazia. Professor. Mas nem tudo foi esse mar de tédio na sua opaca mediocridade: ele já perdera a paciência e esteve por trocar socos com alunos; fora advertido pelos coordenadores a polidamente ficar calado nas reuniões dos conselhos com os pais, para controlar sua tendência sarcástica em evidenciar que os filhos e filhas dos impolutos senhores de classe média sentados diante ele em suas cadeiras de plástico reforçadas eram perfeitas nulidades tangentes ao crime. Certa vez, num ato mais de um desvio cognitivo de alguma ideia humorada que lhe passara pela cabeça, ele simulou dar um tapa no rosto de uma aluna. Fora um gesto efêmero, sem nenhuma importância simbólica_ já que a aluna era, apesar de sua cara biliosa e sua magreza excessiva que transtornava sua visão do mundo, exigindo-lhe uma paranoica atitude defensiva_, mas que a menina ficou tão transtornada que, depois de lhe dizer todo tipo de vitupérios, convocou com ensandecida urgência a corregedoria da escola para puni-lo. O sr Monsemarte, parado diante o quadro negro, com a sorte não ter ninguém além dele e da sua confrontante, cogitou durante um dourado momento em tornar aquele evento lhe oferecido no tão fantasiado ponto de catarse de sua vida. Olhando com os olhos embasbacados e uma ponta de sorriso que era mais uma surpresa agradecida do que descrédito, esteve por um minuto por soltar todos seus demônios escondidos por cima daquela criaturinha ranheta e arrogante; um fibrilar de exultação e fino prazer passou pelo seu rosto e ele imaginou de uma forma tão real que parecia que um outro sr. Monsemarte de uma outra dimensão paralela realizara o feito de dizer todos os xingamentos para a fedelha. Mas é claro que ele não disse. Ainda não era o limite máximo. Ele iria engolira muitos sapos ainda, batráquios de diferentes tamanhos e com as cinturas largas e intragáveis, durante muitos e muitos anos.

         Como nunca fora um professor efetivo do estado, mas um freelancer, ele se aposentara pela categoria mais baixa. Fora aconselhado por um antigo colega, um professor de matemática que conseguira se aposentar tendo passado por uma via sacra similar, a contratar uma equipe de advogados especializados em aposentadorias. Uma de suas crenças era a de se manter longe da classe dos rábulas, em qualquer de seus graus, de modos que ficar de frente à cara jovem do advogado recomendado pelo colega foi um exercício de disciplina. Era praticamente um rapaz, a penugem tonificada por cremes capilares tentava se manifestar além dos fios esporádicos que cresciam aqui e ali no seu rosto, em infantil discordância contra a fase adulta, e ainda assim ele estava confiante de que sua experiência era mais válida pelo tom pejorativo usado com o sr. Monsemarte. Ser tido por um imbecil por um indivíduo que poderia ter vindo das fileiras de dissolutos de suas classes de aula era o sacramento de sua derrota, e se ver  em suas mãos para receber uma piedosa aposentadoria era atingir um nível de pequenez prevista, mas não imaginado que seria tão aviltante. No fim, depois de mais oito meses de estoicismo, o rapazote telefonou para o sr. Monsemarte e lhe revelou, num tom protocolar, que ele já podia contar como aposentado. Um montante de dinheiro estava em uma conta criada por um juiz com um número específico que só o sr. Monsemarte poderia dispor, número esse que estava em posse do rapazote, e que seria trocado de mãos para as esperançosas mãos do novo ingresso ao serviço de previdência nacional assim que as últimas fases da extorsão estivessem concluídas. A esposa do rapazote, uma mulher mercurial loira que parecia ter sido talhada desde a infância numa obrigação séria em ser esplêndida, tanto corporal quanto cerebral, já esperava o sr. Monsemarte na porta do banco, sentada no banco do motorista de um desses carros que o sr Monsemarte desaprendera em saber o nome mas que se encaixavam com precisão militar à imagem de riqueza intocável da estirpe da mulher. Só quando ela se apresentou, emitindo um sorriso que não tinha nada de cordial, como se fosse um selo de autorização para falar e fazer o que ela bem quisesse com ele, que o sr. Monsemarte soube que ela era a advogada matricial, a que levava o nome em dourado no frontispício do escritório, a grande rainha aracnídea, bela e fria como uma dessas excentricidades morticínias que algum cientista aventureiro descobre em uma ilha desconhecida do pacífico_ uma planta que exala veneno ou um rio cuja densidade se permite andar por sobre a água_, e que, contudo, é uma lei da natureza tão legítima quanto as que nos cercam todos os dias na geografia urbana. O sr. Monsemarte seguiu devotadamente as ordens que ela lhe deu, foi até o caixa, apresentou o número mágico, mostrou seus documentos pessoais, e saiu com uma ordem de transferência para a conta dela no valor de 10 mil reais, a metade da compensação paga pelo estado. Nos próximos 12 meses, metade de tudo que o sr. Monsemarte recebesse passaria através de suas mãos sacrificiais para as mãos daquela beldade de mente e espírito tão avançado que suas interpretações de pecado e crueldade só lhe mostravam o quanto ele era social, político e intelectualmente primitivo.

       E, contudo. Contudo.... Ainda assim aquele tinha sido o dia mais feliz da vida do sr. Monsemarte. Ele estava livre! Livre! E isso fora há dois anos. Num país como aquele, em que sua participação como simples observador lhe ensinara a esperar sempre o mais terrível e o mais intolerável nos ciclos intermitentes da história, era natural não existir nenhuma segurança, nenhuma certeza. Tanto que agora ele recebia pelos correios a notificação de que sua aposentadoria foi declarada inválida, que, de algum modo perspicaz naquela relojoaria exata em que ele era comprimido e triturado, acharam a astúcia a que um ser tão insignificante quanto ele arranjara para enganar todo o maquinário. Em contraposição, aquela exclusão era um elogio a ele: a única maneira em que ele podia afigurar como um ser pensante o suficiente para reagir às décadas de aflição e mutilação. O sr. Monsemarte já estava sentado num assento da parte detrás do ônibus coletivo que pegara na esquina do quarteirão dos correios, bem em cima da semiesfera arcobotante onde o pneu estava instalado, de modos que sentia em suas nádegas as inconstâncias do asfalto, a lisura, coincidente da grande avenida onde ficavam as casa do poder e os monumentos públicos, e solapado por remendos e cicatrizes de placas de piche envelhecidas quando o veículo entrou na área das moradias padronizadas onde ele morava. Logo desceria, deixando aquele momento de alivio em todo seu dia em que pudera se sentar e organizar um pouco do turbilhão que ia em sua mente. Mas já de agora ele sabia o que fazer. A solução aparecera com tanta clareza que era como uma revelação. Ele sorria e sentia uma estranha alegria, como se tivesse trinta anos a menos e houvesse andando sob a chuva, com alguma canção de liberdade dos anos 60 na boca. Era uma impressão típica de um velho, e talvez o lóbulo de sangue tivesse mesmo estourado o deixando vivo mas irremediavelmente louco. Não eram os loucos os capacitados a saber até onde a linha era capaz de envergar sem se partir?

 

    2.

        Havia algo de deliciosamente assustador na forma como Marci recebia a notícia de que não só teriam que deixar o apartamento que moravam a vinte anos quanto, muito provavelmente, estariam beirando a fome dali para frente. Ele havia retrabalhado a exposição desse fato durante duas horas, desde que saíra dos correios com o comunicado de sua mendicância nas mãos, numa espontaneidade imprevidente, e quando Marci chegara de sua visita a uma amiga da Asa Norte ele contou tudo com um arrebatamento místico de quem não tinha mais nada a perder. Sua voz traía uma felicidade de um tresloucado cujo excesso de sofrimento suportado em prazo exíguo e intenso o fizera deportar-se da realidade, o que se refletiu no rosto da Marci numa sombra perturbadora ao se correlacionar a uma progressiva aceitação de um suicídio comunal, se ele viesse a lhe propor. Tivera inúmeras provas de amor por parte daquela mulher que convivia com ele há quarenta anos, e a única que lhe causara um incômodo filosófico havia sido aquela que exsudava uma loucura irremediável cujo peso era colocado inteiramente por sobre ele. Que responsabilidade era aquela de partir dele a conclusão brutal e ao mesmo tempo serena de tantos anos de dedicação, zelo e carinho? Como ela se enganava, o sr. Monsemarte pensou, parando um instante com seu longo e minucioso palavrório para admirar o tom róseo e juvenil que aquela mulher de 60 anos conservava; jamais ele seria capaz de uma atitude tão concisa como aquela; ele preferiria o frio da rua, ou as intromissões de uma rotina vigiada de algum asilo público barato, com seus enfermeiros sádicos e as desconsoladas e enraivecidas mulheres do serviço de administração, mas nunca o suicídio.

       Sentiu um alívio restabelecedor de alguma normalidade quando ela lhe perguntou:

     _ Mas o que aquela sua advogada lhe disse? Você ligou para ela imediatamente, não foi?

      Ele estacou diante essa fulminante queda na obviedade e, disfarçando a sua irreal burrice de não ter feito isso, tamanho a sensação de sacio que lhe dava a sua ideia de libertação, ele estendeu a mão por sobre a fruteira com laranjas e bananas de plástico por sobre a mesa que os separavam e lhe pediu o telefone.

      _ Vou tentar agora, é que ela é muito ocupada e eu não estava, de toda maneira, apto a falar.

    Marci vasculha em sua bolsa Vuitton falsa que comprou num camelô há tanto tempo e, por essa sinestesia que compõe as verdades que, uma vez contadas, não são aceitas senão como piadas de nonsense, estava durando mais do que se fosse o produto francês genuíno desmesuradamente caro. Retira dela o celular de marca chinesa que deixa na mente enxovalhada de distrações retóricas do sr. Monsemarte a metáfora incompleta de que, por outro lado, ao contrário da bolsa que emulava uma excrecência inutilmente cara, aquele aparelho era legítimo e vindo de uma revolução empresarial inédita do capitalismo em fazer barato o que outras marcas destinavam apenas aos ricos ou levianamente perdulários. Ele pega o celular, procura na lista o nome da mulher, aperta o botão digital sem nenhuma esperança de que ela o atenda, e, após o que são dois curtos piques de chamadas, lá está a voz metálica, cheia de eletricidade controlada, da advogada.

        Ele mal consegue juntar as palavras de forma minimamente inteligível, diante o assombro daquele novo milagre, e a mulher, aquela

 

             

(Continua...)

terça-feira, 13 de abril de 2021

O deus abandona o sr. Flibas

 


Num pequeno prédio de dois andares um senhor prestes a completar 75 anos_ faltando duas semanas para isso_ acorda antes do despertar do relógio e abre os olhos para o mortiço frio da manhã. Não pensa em nada, nada de nada. Contudo, ele avalia sua mente e sabe que é impossível não pensar em nada, essa própria constatação já sendo um pensamento, mas sente um descansado vazio ali dentro. Pressente mais que escuta os sons turbilhonando, baixinho: imagens borradas, congeladas para análise ulterior ao momento em que se produziram. Uma nódoa de sentimentos conturbados, dedutivamente ruins, espera para se estender sobre ele assim que os canais fisiológicos propícios sejam reativados. Ele se chama Omeno Flibas. Foi livreiro a maior parte de sua vida, tendo trabalhado em uma biblioteca municipal e em uma livraria num dos bairros periféricos da cidade, e, pelo pendor que o levara à profissão, tinha lido todos os livros requisitáveis para o que se convenciona chamar “homem culto”. Fazia 5 anos, contudo, que estava fora do mercado de trabalho. Aposentara-se na hora cabível, passara a se afigurar na rede de beneficiários do estado, e de lá para cá tem sobrado como exercício contínuo essa luta intimista contra sua mente e sua memória.

               Na cama, vislumbrando esses fogos fátuos interiores, se recorda que uma vez deixou escapar para sua filha a agrura que era a procissão de suas ideias. Estavam na pequena cozinha da casa, em uma tarde, e o sr. Flibas dissera: “Muitas vezes o que eu queria era apenas esquecer. Uma tela de vazio na frente”. E riu, na hora percebendo a enorme impropriedade que eram tais palavras.

             A mulher, Elena Flibas, como coube sua já falecida mãe ter-lhe escolhido o nome, devolveu-lhe um olhar angustiado. A frase ficara ressoando atrás de sua cabeça, e a ausência de tato do pai em dizê-la a assustara. O sr. Flibas emitiu outro riso diante a constatação de que se continuasse com essa atitude, se não controlasse suas falas, acabariam arranjando uma maneira de interna-lo.

            A filha deve ter repassado o martírio que havia sido quando o pai tivera um AVC, as fraldas geriátricas, as papinhas de fruta nas colherzinhas infantis, o transtorno progressivo de saber o quanto um pai senil era um peso na vida de seus descendentes.

          _ O senhor preferiria o Alzheimer?_ ela disse.

          “O senhor preferiria o Alzheimer”. O sr, Flibas relembra debaixo das cobertas; a primeira frase saindo da nuvem e se desdobrando com clareza, o primeiro confronto do dia. Bem vinda, argêntea lembrança da manhã! Por que lhe veio justo aquela lembrança sem qualquer relevância visível da filha? Seu inexoravelmente viciado sistema interno faz uma notação para que isso seja explorado. Talvez o objeto remetesse a outro, e não fosse por sua filha, e se dirigisse às suas condições corporais. Ele se policiava para não ceder à lamúria quase irresistível da sua idade, e agora seu cérebro lhe entregava esse sinal indesculpável de distração. Era óbvio que ele não queria esquecer nada, nem os tantos pontos traumáticos, nem a sorte débil que configurara o ritmo daquele final de sua vida.

          Era uma espécie de mimo infantil afirmar-se como desejoso do esquecimento, só isso. Nisso ele percebia com clareza o quanto os humores são determinados pela idade. Pelo que se lembrava, quando era mais jovem nunca havia se deixado tão levianamente aberto ao rancor, ou seja, isso que sentia agora não era uma atitude infantil. Não trazia a alegria solar da infância mesmo quando sobre ela pairavam os presságios do que viria. Está muito velho, Flibas, eis seu pensamento concreto, verbalizável, um pouco só chegado aos lábios para se tornar uma fala. Ele levanta a cabeça, ajeitando a posição do travesseiro, e pode ver as janelas sob uma lâmina pouco densa de escuridão. Na verdade as palavras o enfadavam, as velhas questiúnculas, os grandes e defasados dilemas globais, a canalhice calma e eterna, irrecusável, as forças da dissipação atentas e predispostas a ajudar quem a elas recorressem. Era que tanto cobrava para si, ele se perguntou, agora se ouvindo em sua voz rouca cascalhenta, enquanto jogava o cobertor duplo para o lado e caçava os chinelos com os pés.

          Chega disso. Ao ficar em pé olhou desolado para o quarto, olhos lacrimejantes, um pigarro seco na garganta, sentindo as pernas finas dentro do pijama e os grandes pés de juntas enodadas dentro do chinelo de tiras. Vencer a noite era uma agrura; ouvir a cidade arregimentando o caos para uma repetição do concerto trazia-lhe um considerável alívio. Ver a luz entremear-se pelas cortinas enchia-lhe o peito de uma sensação menos opressiva. Suportara mais oito horas de trevas com uma parte de sono como salvaguarda. Se pudesse dormir mais um pouco, lamentava-se, enquanto ia ao banheiro, erguia a tampa da privada e soltava um jato de urina. Há muito não sabia mais como era acordar em um horário mais condigno com sua aposentadoria; talvez fosse pior, a sensação de exclusivismo advinda em ser um dos madrugadores raros lhe dava certa segurança. Sentia-se com o direito de reivindicar algo do lugar do mérito daqueles 36 santos que os hebreus dizem haver para justificar Deus não destruir o mundo. Riu baixinho, analisando seu rosto no espelho enquanto providenciava a espuma de barbear no cadinho de plástico.

         Uma vez, quando ainda era casado_ um momento em sua juventude tardia_, estava com a cabeça tão cheia de afazeres que se esbarrara em um velho senhor no centro da cidade, ombro com ombro, e quando se voltou para pedir desculpas o homem antecipara-se tão prontamente que o sr. Flibas ficou em silêncio. Um homem velho, barba branca, um casaco desbotado de trabalhador do campo e um chapéu amassado, e um cheiro de fumo antigo entremeado o tornando mais misteriosamente cativante. A leveza em que cada movimento que fazia no ato de tornar sua atitude mais expressiva, como se soubesse a arte de conservar a energia, não dispendendo mais que o necessário, fez o sr. Flibas achar que estava diante um iluminado. Em sua mente catalográfica de bibliotecário o sr. Flibas se lembrou do garoto Tolstói perdido nas terras vizinhas à propriedade do pai, encontrando um mujique de olhar gentil que lhe apontou o caminho. Lembrou-se, também, de Oscar Wilde dizendo que o vinho de sabugo que tomara junto a Whitman foi o mais delicioso da sua vida. O sr. Flibas concatenou algumas palavras de desculpas para responder-lhe e se retirou sem olhar para trás, com a mente absorvida na análise sobre o homem. Um tanto de suas preocupações se dissipou e ele voltou para casa com uma calma inusitada, que não passara despercebida na mesa do chá da tarde. Enrietta lhe olhou, com aquele tipo de ciência particular que isolava pontos inacessíveis e os colocavam sob um microscópio de análise minuciosa. Ele lhe contou sobre o homem, antes que ela pudesse perguntar, e descreveu no que se lembrava ter sido com dedicadas cores retóricas o que aquela simplicidade lhe ensinara, o que tamanha completude com a vida sem imposturas e preocupações lhe limpara o espírito. Usara essa palavra, espírito.

           Passava a suave crina do pincel no rosto, espalhando a espuma de forte cheiro de cânfora, e lembrava de Enrietta sentada de frente a ele_ tão pouco tempo se passara desde então, embora o cronômetro ortodoxo dissesse que foram três décadas_, os olhos ternos e determinados, leonina, uma comedida conhecedora da vida. Ela, que gostava tanto de conversar, era também uma excepcional ouvinte, o que sempre lhe pareceram características contraditórias. Ouvia-o em suas palavras titubeantes, sem brilho, com um progressivo deslumbramento. Os bibliotecários são por natureza oradores deformados pelo silêncio monacal da profissão, mas ela o tinha como um narrador engraçado, com talento para reviravoltas e surpresas. E ele acabou se tornando um contador de histórias particular dela ao se esforçar para estar à altura de suas expectativas. Fiava-se nos contistas judeus quando descrevia as entidades que via pelas ruas, os solitários, os loucos, as crianças de roupas encardidas, os sisudos e distraídos guardas. Como era o nome mesmo? Tzaddik Ha-Dor. O “justo da geração”, um homem totalmente puro e justo que acomete cada geração de judeus para acelerar a vinda do messias. Como uma tartaruga arquimediana, levando o mundo nas costas.

          Enrietta sorriu, deslumbrada, o queixo na mão, e perguntou se ele acreditava nisso. Eu acreditava nisso?, fala baixinho, parando o lâmina no meio da bochecha e alteando as sobrancelhas em um gesto cênico de arlequim. Trinta anos atrás, diante a mulher de sua vida, ele concentrou o olhar em algum lugar do vestido azul dela com pequenas flores brancas, e demorou um pouco para voltar a olhar para ela e dizer, balançando calmamente a cabeça: “sim, eu acredito”. O mais sincrônico nessa hora seria devolver-lhe o direito de dizer o mesmo, perguntando se ela também acreditava, mas ele, desde quando a vira pela primeira vez, sabia a resposta. O casal que envelhecia para se enquadrar no arquétipo do homem sonhador e a mulher pragmática. Ele cumpria seu papel. Criaram dois filhos, cada um saído à sua maneira, cada um devendo muito mais a ela do que a ele. Os livros o aturdiam, faziam um turbilhão dentro dele. Um Quixote redimido, cuja loucura não o achou suficientemente meritoso para lhe colocar sua coroa de plumas e galhos recurvos na cabeça, lhe mandando, em vez disso, cumprir sua vida regrada e comezinha. Ela estava a par dessa circunstância. O modo como as palavras o obnubilavam e o protegiam da realidade. A maneira como ele era sensível a certos nuances invisíveis. Ele era atento a essa condescendência e disfarçava o máximo que conseguia, por questões de virilidade, e interpretava o que estava inalcançável como seu dever ao silêncio. Porém, quando passava um dia todo em voltas com uma escola filosófica ou algum romance psicológico, sentado à mesa da biblioteca durante as férias escolares que apenas alguns gatos pingados vinham folhear revistas ou atlas geográficos, mal via a hora de contar suas reflexões para Enrietta. Como eram libertinos os ataques de Schopenhauer a Hegel, revelando um rancor que nem mesmo um século servira para assepsiar como estética literária. Em Lucas, 12:27, na tradução direta do grego, Jesus defendia o uso da espada entre os malfeitores; os revolucionários e os excluídos do contrato social.

            Ela sempre era receptiva a essas informações, muitas vezes ele locando os volumes para que ela os lesse. Com o tempo ele não trazia filosofia germânica, porque ela os deixava de lado. Fazia um muxoxo contrafeito, querendo dizer mais sobre a obtusidade dos autores do que seu esmorecimento, e juntava as pernas sobre a cadeira, os joelhos bem próximos ao rosto, em uma explosão insensata externando a garota rebelde que havia dentro dela. Aos poucos ele notava o quanto era deliciosa aquela forma de licenciosidade despreocupada. Ele sentia um afogueamento tomar-lhe conta e desviava o olhar, em seu preconceito autoconsciente de considerar que o casamento podava certas manifestações espontâneas de quando eram jovens namorados dispostos a confrontarem certos limites da libido. Uma vez o sr. Flibas contou a ela que vira Jesus na praça. Um Jesus negro, do tipo de negritude dominante de Angola, um negro piche intenso, com gengivas grandes e incisivos fortes. Não lhe pediu dinheiro, apenas se aproximou para conversar em sua língua crioula musical, centrada em aritméticas estocadas de língua no palato, como um aramaico primitivo. O sr. Flibas perguntou-lhe de onde era, e ele, sempre com um sorriso esplendido, disse que era dali mesmo. Ficava prontificado diante o sr. Flibas, como que tudo que tivesse para fazer fosse lhe dedicar o tempo que tivesse a ele, e depois, com a mesma naturalidade acrítica e pura, vendo que o sr. Flibas não precisava dele_ não sabia como usar a sua presença_, saiu rua abaixo, sem se despedir, pronunciando uma canção que não existiria em nenhum cânone catalogado do cancioneiro popular. Um ser divino. Em sua percepção profunda, naquela região em que só ele existia na contemplação do mundo, intocado pelas conspurcações do senso comum e da razão, ele se perguntou se as outras pessoas podiam ver aquele negro. Como disse, ele não era interessante para a loucura, o que talvez fosse uma pena, e sabia materialmente ali ia um homem que era captado pelos olhares e passível a que se esbarrassem nele, mas... ele era visível?  

           Era hora de preparar seu café da manhã antes de sair. Reviu a hora no despertador, 4:45. Sua mente ainda estava dispersa, com a nuvem de informações de compromissos levitando por cima. Tinha um encontro às seis horas. O planejamento daquilo lhe custara aflição, um pouco de covardia, um sussurro inconsciente de insensatez. Não falara a ninguém, talvez com seus fantasmas em voz mediana. Pensou que se não morassem apenas ele e a locatária do prédio, a sra. Dávila, incorreria em um ato falho auto denunciativo. Sabia que adquirira o hábito de monologar, por mais que se policiasse em manter a mente livre. Numa dessas, com certeza debatera com o objetivo da jornada que estava para fazer. Só havia algo irrefutável: não havia sido com Enrietta. Ele abriu a porta com cuidado, olhando o corredor lá fora, parou na soleira e investigou com os ouvidos se a sra. Dávila estava no andar de baixo. Ela dormia no outro quarto que havia na construção, situado logo abaixo do seu, e, tirando alguns momentos regrados em que ficava na saleta limpando os móveis, seu itinerário se resumia em manter a vasta cozinha em funcionamento nos horários adequados. Mas não havia nenhum sinal dela. Parte do valor do aluguel ia para uma moça que vinha para fazer o almoço, (uma das leis invioláveis do local era o completo silêncio, bem condizente com a condição etária dos dois moradores), e o sr. Flibas mal dava quando ela ia embora. O que ela fazia_ um modesto e sóbrio repasto de carne, verduras e folhas, e arroz integral_, dava para suprir as necessidades dos dois solitários magros até no que sobrava para o jantar. Tentou lembrar o nome da moça e sentiu um leve mal estar moral por não conseguir_ seria o mínimo que exigiria o agradecimento saber chamar-lhe pelo nome, se isso fosse preciso alguma vez.  A moça tinha o ar estudadamente distante, fruto de uma disciplina junto a pessoas açodadas por toda sorte de requintes comportamentais, mas permanecendo ligada aos sinais circundantes como um pequeno e astuto animal.

         A sra. Dávila trabalhava há anos num hospital privado como cozinheira, e a moça era ciente da honraria que levava em ter sido aceita por uma mestra da culinária. Quando ficava na sala lendo o jornal o sr. Flibas as ouvia trocar concentradas fórmulas sobre temperos e tenridez dos víveres e tubérculos que seriam lançados na panela, e gostava de ver que sua senhoria não mostrava a afetação costumeira que os muito graduados tinham em relação a seus sequazes menores. Por vezes a percebia simulando surpresa diante algo que a outra apresentava como novidadeiro, encenando que passava a conhecer naquele momento o segredo hermético que lhe escapara por tantas décadas de aperfeiçoamento, e, no lance seguinte, ela mesmo cumprindo o que havia sido anunciado com uma perfeição e naturalidade que só não desmentia e revelava-a como impostora porque ambas tinham uma consciência muito arraigada e tranquila sobre os extremos da cadência humana em que cada uma estava: a muito jovem perceptiva de sua ingenuidade prestativa e a que se esbeirava no início de sua ancianidade com sensibilidade suficiente para aceitar a incipiência destilando-a em um teatro social.

         O sr. Flibas voltou ao quarto, reconfortado de estar com toda a casa apenas para si, e retirou seu pijama, sua roupa íntima, e se preparou para usar o chuveiro anexo. Com a ducha de água fria ativando seu corpo, suprimindo em um primeiro momento a confiança estabelecida de proteção pelos lençóis, enquanto erguia a cabeça para que aquele choque docemente mortífero e libertador o recebesse por inteiro, ele continuou a analisar as profundezas do compromisso que tinha para dali a pouco. Se falara sobre ele aos seus fantasmas_ bem poucos_, não o havia feito com Enrietta. Ela jamais aprovaria o que tinha para fazer, aquele encontro em que apenas uma das partes estava ciente. O quanto ela se preocupava com sua idoneidade física, sabendo que aquele homenzarrão tinha esse portento material de um metro e noventa apenas para salientar perigosamente sua condição de alvo. Ela, não mais do que ninguém, sabia que se casara com um espécime delicado, não constituído por nenhum atributo bélico, isento do mais combativo barbarismo. Não queria que ele alguma vez se metesse em encrencas. Ele passava o sabonete pelo corpo, dispensando a bucha sintética que comprara na farmácia e que causava-lhe pequenas brotoejas na pele. E era um assunto exorbitante demais do terreno de intimidades criadas pelos dois. Não pense, Flibas, ele pensava. Afaste de si essas dissipações. Como se sua mente aceitasse com alívio aquele comando_ tão vilipendiado naqueles momentos do dia_, tudo relacionado ao tema sumiu. Um foco novo em manter a atenção apenas nos gestos que tinha por realizar o ato de se enxugar e preparar-se para se vestir tomou-lhe conta. Pusera-se a calça de brim mais nova, uma camiseta branca de trabalhador e uma camisa social por cima, vestira o casaco e se sentara na cadeira e com um esforço moderado calçara os sapatos que havia mandado no dia anterior para o engraxate. De frente ao espelho se olhou com rapidez e minuciosamente, aceitando que estava apresentável _ sem provocar pena e sem parecer ofensivo, o que era algo que a situação requisitava acima de tudo. Colocou o chapéu inglês que sua filha lhe dera num aniversário de cinco anos atrás, bem conservado e mantido no armário na posição reclinada que amortecia a ação da gravidade, e disse para si mesmo: estou pronto.

            Não tem a mínima fome, mas sabe que é necessário fazer um café. O local de encontro era um bar onde parte dos trabalhadores braçais do setor se ajuntavam para um desjejum consistente, e seu estômago talvez não estivesse capacitado para aquele suprimento. E não poderia manter jejum para o que estava por fazer: só de dar asas ao pensamento umas estrelas minúsculas de adrenalina jorravam pela sua coluna espinhal. O sr. Flibas não sabia o que iria fazer ou o que resultaria daquilo, mas deveria pelo menos ter condições físicas para suportar o pior. Desceu as escadas, virou à direita e entrou na cozinha. Acionou o interruptor e pegou os utensílios para o café. Quando pronto, encheu uma caneca, com os dizeres Assistência patrimonial desenhado, e bebeu em pé, olhando para a escuridão da janela. Pegou umas bolachas de leite de um pote e devorou calmamente cinco delas, molhando-as na boca com a bebida. Surpreendentemente isso serviu para fazê-lo se sentir melhor, pois uma sensação de força tomou conta dele. A cafeína deu mais lucidez aos pensamentos. Como era prosaico e fácil de se resolver as necessidades da vida, bastava um café e cinco bolachas, e seu organismo agradecia com veemência, podia voltar para o quarto e retornar aos cobertores com a sensação de objetivo cumprido. Atarrachou a tampa da garrafa térmica e a pôs no repositório de copos prateado cheio de recipientes de molho de tomates que a sr. A gostava de colecionar, quando voltasse a pegaria e tomaria o restante do líquido, isso se a garota não visse a necessidade de esvaziá-la na pia e a lavasse. O café estava forte, suas papilas gustativas contraíram-se diante aquele tesouro de expansão de vigília inca, fora um golpe de sorte, porque Enrietta dizia que seus cafés eram exemplos de exagero coloidal, experimentos difíceis de se tomar de algo que ficava entre a culinária turca e os repastos cazaques. Ele ria e vertia a caneca diante ela, suntuoso, e toda sua percepção táctil reiterava a assertividade do que ela dissera, ao prever uma azia para dali uns cinco minutos. O engraçado é que com a solidão seu café melhorara muito. A sra. A provara certa vez e fora capaz de elogiá-lo, tomando mais uma xícara como se a mostrar que para essas constatações de menor grau a sinceridade era o ato social verdadeiro. Pois bem, esperava que a moça conservasse aquela garrafa para quando ele chegasse, seu corpo já estaria aquecido, dezenas de litros de sangue já teriam percorrido pelas tubulações arteriais, de forma que o aproveitamento seria mais apurado.

             O sr. Flibas abriu a porta de saída do pequeno prédio e olhou a rua. Uma luminescência tênue, carregada de seres telúricos esotéricos escondidos, vinha do extremos das casas e latejava na violação impedida contra o espaço circundante. Como nunca suportava nenhuma espécie de adorno corporal, seja em torno do pescoço ou do braço, não tinha relógio de pulso, mas calculava que deveria faltar meia hora para as seis da manhã. Umas poucas pessoas que moravam por ali mesmo começavam a tomar as ruas, andando a passo apressado, como se não deixassem nenhum rastro da supressão de vida cotidiana que acabaram de deixar nos sonos das camas. O sr. Flibas atravessou a rua com decisão, para cortar na transversal aquele fluxo ainda em formação e que em breve teria uma força caótica. Não precisava ter pressa. Qualquer lado da questão que tomasse justificava a lentidão como comportamento mais adequado: não iria perder o compromisso, visto que a outra parte só estaria no bar uns 15 minutos antes das seis, se a prudência o ensinara alguma coisa nesses últimos dez anos, e, mesmo que a sincronia entre eles sofresse alguma ruptura que impossibilitasse que estivessem ambos no mesmo local e disponíveis para um eventual diálogo, o fracasso nesse propósito não representaria nada. Seu confrontante não perceberia nenhuma perda, sua vida em nada se transformaria ou sofreria o menor benefício ou dano, e quanto a ele, o sr. Flibas, o máximo que poderia suscitar seria cogitar a validez de armar toda aquela expectativa para o dia de amanhã, ou para alguns dos próximos 60 ou 90 dias no futuro, em que o outro estaria ali parado em sua mesa, segurando seu copo americano de café, com um prato com um pão. O sr. Flibas notou um senhor dormindo debaixo da marquise de uma loja de tecidos assim que passara a seu lado. Os transeuntes passavam por ali e ele mantinha um sono inviolável, com a mesma não-presença que um tigre em um zoológico: está ali, mas sua alma repousa com ânsia em um reino de invisibilidade. O sr. Flibas mira no rosto dele, que ao se deitar se projetara do cobertor de feltro e tombara em uma posição desajeitada em que a boca escancara-se como uma máscara mortuária de Pompéia, e a barba encardida lhe dava uma áurea bárbara, como se fosse a reencarnação pictórica daqueles pescadores mercurianos do mar de Java. Pelas outras marquises o sr. Flibas ia vendo uma série de outros sem teto, enfileirados como ovos de aranha sujos e com aparência repugnante presos à teia. Dali a poucos instantes, se seus relógios instintivos não os acordassem, iriam ter problema com os gerentes das lojas, que chegariam para começar o expediente. Dali a alguns instantes suficientemente rápidos e imperceptíveis, o sol já estará colocando à mostra a fauna de seres atribulados da realidade, que irão de contra a fantasia livresca de um bairro árabe que o sr. Flibas secretamente tinha para si. Uma turba apenas inteirada em eternas questões de como sobreviver a mais um dia, de como avançar com suas cargas peculiares por mais uma aurora. Ele mesmo já fizera parte daquele clube, cujos integrantes prezam por serem os mais anônimos possíveis, mas fora por pouco tempo, logo as circunstâncias do acaso, do destino, da gratuidade insossa que rege aquele teatro sem enredo e sem expectadores, seja o que for, cortara-lhe o fio de ligação e o atirara para fora. Continuara por vários anos a ter que simular os mesmos gestos marciais, mas conceitualmente a ortodoxia já não o acolhia nas normas. A qualquer momento ele estava autorizado a acionar a legitimidade de sua exclusão do grande esquema. A morte de Enrietta o tornara insuportavelmente livre. O salário era depositado em sua conta e ele o deixava lá, por muito tempo, só retirando sem consulta o mínimo para que os senhorios pelos quais passava e o salário da reiterada linha genealógica das cozinheiras fossem satisfeitos. Uma vida sem vícios e sem apegos. A única coisa que lhe mantinha como pertencente inescapável à ordem dos consumidores era sua gana pela leitura, saciada sem nenhuma querência pelas estantes das duas bibliotecas que lhe ficavam de guarda.  Às vezes pensava se ter mantido algum vício não o teria feito mais disposto para o mundo, alguns dos atos dos tabagistas o agradavam, o odor da erva curtida, a fumaça azul onde se projetava uma dissipação que sempre era intensa para os aceitos. Poderia preencher as horas mortas de sua insônia com artesanais cigarrilhas de palha, as duas janelas pelas quais saiam seu olhar fugidio às buscas de anciãos apelos da imaginação poderiam dispersar os indícios da consumação do fumo para poupar as sensibilidades da sra. Afonsina. E a estética daquela espécie de arte combinaria com sua alta estatura e lhe aferiria um ar misterioso, acrescendo-lhe um respeito a mais. Mas agora era tarde, ele sabia; era tarde para muitos dos atos da vida. O que estava por fazer, por exemplo_ ele se lembrava enquanto tangenciava um grupo de três mulheres romenas que armavam diligentemente uma banca e punha um tecido vermelho gritante para expor produtos trazidos da China_, era uma dessas coisas, não conseguindo evitar um sorriso como se fosse uma criança diante uma traquinagem iminente.

                 Enrietta foi assassinada no dia 13 de setembro de 1992, há 13 anos. O sr. Flibas parou diante o semáforo para pedestres, que no momento apresentava o homenzinho em pose marcial circunscrito em um quadrângulo vermelho, e olhou para o outro lado da rua, os rostos atônitos de frente apontavam suas miras binoculares naturais para onde ele estava sem o ver. Foi no bairro de São Bento, a dez quilômetros dali, quando Enrietta ia às seis da manhã para o serviço de conselho tutelar, no qual se ingressara fazia um ano. O rapaz_ na verdade, um pertencente à faixa etária indefinida entre a infância e a adolescência_, passara por ela, estacara dois metros atrás e, como se algo que exigisse sua atenção tivesse quase passado batido, mas que se recuperara pela graça de seu afinco em ser efetivo a algum zelo irretocável, deu meia volta e voltou calmamente até onde ela estava, naquela mesma posição que o sr. Flibas agora estava diante o semáforo, à espera de que a marcha de carros fosse interrompida na transversal e o caminho para as pessoas fosse liberado. Ela levava uma bolsa de pano bordado, com uma mixórdia de desenhos africanos, pendurada no ombro, e na hora em que o menino a puxou com violência, seu corpo pendeu para o lado; o desequilíbrio fez com que os grandes óculos ray-ban escuros ficassem inclinados no meio do rosto e seus cabelos crespos, que lhe conferiam o principal toque de personalidade, formaram um limbo na região acima da testa, o que era o detalhe mais visível na câmera de monitoramento de uma panificadora, que registrara tudo e que os policiais mostraram para o sr. Flibas alguns dias depois. A luz vermelha se apagou e o quadrângulo verde, com o homenzinho atarefado estendendo a perna para efetuar um passo, acendeu-se, o efeito entre cores tão avessas acionava na retina o acionamento instintivo de todas as pernas da fila lateral de pedestres que esperavam por aquela adstringente libertação. O sr. Flibas agilizou-se para chegar ao outro lado, com a desconfiança supersticiosa de que os carros parados eram seres brutais de vontade própria que poderiam avançar a qualquer momento, sem respeito às leis. Enrietta jamais fizera aquele gesto que ele fazia agora, jamais atravessara a rua. Nos primeiros meses, mesmo nos primeiros lentos e imprecisos 5 anos, ele caía na divagação de se não comportava uma  culpa pessoal em não ter sido audaz o suficiente para ensina-la a controlar certos movimentos condicionados. Se não teria sido um grande lapso não ter dedicado a instruir um ser tão imolado pela malícia como Enrietta sobre a corrupção que imperava do lado de fora da porta de seu refúgio. Talvez ela não teria simulado reação, como puxar a bolsa de volta, respondendo proporcionalmente à força do ladrão com a energia muscular de seu braço fino mas vigoroso. Algum transeunte que testemunhara a cena talvez tivesse expressado um gesto de admiração e teria achado que a história teria sido ganha, o mal enxotado e a pobre figura de David vitorioso sido representado na transfiguração de uma raquítica mulher negra de meia idade, quando o rapaz se estatelou no chão, sem a bolsa e de olhar primeiramente atordoado de surpresa. Mas o sr. Flibas, os policiais e a história já sentenciada de sua vida, sabiam, ao ver num ângulo apical e em preto-e-branco na imagem gravada, que a conclusão não havia sido essa. O movimento da funda tinha sido feito, não com precisão suficiente, e a pedra passara em direção perdida alheia à cabeça do Golias. O mal não se evadira, se levantara em suas orgulhosas e ofendidas pernas juvenis, fitara com um ódio transfigurador o que tinha pela frente, e acertara em Enrietta um murro carregado de fúria que a fez caír instantaneamente sem vida. Foi isso que o laudo do instituto médico legal declararia para o inquérito, um murro tão bem dado que partira seu maxilar e lhe causara uma hemorragia cerebral instantânea. Essa aberração fria, asséptica e sem transcendência o fazia ter pensamentos absurdos como achar que era uma sorte ela não ter sentido a série de chutes que o criminoso dera em sua cabeça em seguida. Não queria se lembrar daquilo, daquela cena registrada nas fitas da caixa do supermercado; os agentes policiais tocaram-lhe nas costas e pediram gentilmente que se retirasse, enquanto um deles dava o sinal para que desligassem o vídeo, mas já era tarde, por distração todos estavam de frente à televisão e a cena continuara a transcorrer, cada um afundado em seus pensamentos, confusos diante a análise que tinham de fazer diante algo que a tecnologia destilara até uma seca trivialidade, desinflando através da repetição a brutalidade de um assassinato absolutamente desproporcional e vazio.

            O sr. Flibas seguiu a recomendação do policial e passou pela porta até o outro lado da pequena sala de perícias, onde a efervescência de uma delegacia de policia continuava à toda com algumas pessoas sentadas à espera de que fossem promovidas de seres congelados no interstício entre a ação e a captura para o centro de interrogatórios pormenorizados, ao que alguns deles responderiam com uma prontidão cirúrgica, como se narrassem eventos cometidos não por eles mas por desconhecidos tomados pelo ensandecimento, outros iriam se calar com uma fúria concentrada, outros não falariam nada com nada, perturbados pela química ou pela loucura do excesso de afronta que a vida lhes fazia. Seus olhos aturdidos pousaram por um longo momento em uma mulher que estava em uma das cadeiras ligadas por uma barra de aço, sentada em uma pose inusitada, como se seu corpo não tivesse apenas um metro e cinquenta e cinco centímetros de altura ou algo em torno disso mas fosse extenso o suficiente para se atravessar pelas outras cadeiras numa declarada provocação. Mascava um chiclete, era morena, cabelos crespos, ensebados e juntados em feixes pontiagudos que revelavam que uma série de cuidados cosméticos haviam sido tentados sem nenhuma resposta satisfatória e deixados assim como estavam, inóspitos, irregulares, um quebra-cabeça; aliás, ela percebera que era alvo da deseducada atenção do sr. Flibas, através de uma percepção sutil poderosa de presa que costuma saber da presença do predador através de radares sensoriais indiretos, e por isso ela parou de mascar o chiclete, o corpo que emitia um movimento barcolejante levando a perna cruzada acompanhando a linha da outra perna até onde ficava o limite da cadeira de uma outra mulher mais velha sentada a seu lado se interrompeu, e seus olhos foram se iluminando de algo que parecia uma intensidade furiosa emitida à distância de dentro de uma caverna, o que faria seu observador atento a cogitar se de dentro pularia uma fera atiçada ou revoariam criaturas aladas noturnas acuadas em busca de outro refúgio. O sr. Flibas a via, mas não a enxergava; sua mente estava desbaratada, um enorme cansado como jamais sentira antes afundou seu peso espiritual em seus ombros, de forma que ele se encolhera e seus braços retos e desamparados sentiam a necessidade insurgente de abraçarem alguma coisa, nem que fosse seu próprio corpo. Seu cérebro sofrera uma pane inédita, deixando os membros corporais que tinha a obrigação de comandar a seus próprios domínios, e, em consequência, era como se sua alma partisse por um instante, o que ocasionara deixar seus olhos firmemente presos no último objeto em que se sentaram. Os policiais foram buscar um laudo para que ele assinasse e o deixaram ali, fraco, debilitado, tomado por uma insípida vontade de desaparecer. Algo estava muito errado com o que estava acontecendo. Ele não merecia aquilo. Não, não; não era uma questão filosófica, não era uma reivindicação moral, que isso ficasse nos livros, nos compêndios e nos tratados, ele pouco se importava com eles; o que exigia em um destemperado silêncio era seu direito de não ser interessante, era seu mérito em ser invisível, era que a lei cumprisse sua obrigação sobre ele no antigo acordo que ele fez em não imolar o mundo, em não querer do mundo nada a não ser a sua porção satisfatória ínfima e cabível para que levasse sua vida, estendesse complacente sua não competição no jogo e fosse deixado em paz; sua animalidade, porque ao menos seres como ele e Erietta tinham o direito de perfazerem seus anos em exílio quieto, pacífico, não chamando a atenção daquela fúria tão ocupada e sequiosa do mundo. Mas, como se o mistério inquirido não aceitasse mais capitulação, seu devaneio foi quebrado pela pequena mulher, que se levantara agora da cadeira e avançara para o sr. Flibas, os braços formando duas asas com as mãos na cintura, os olhos arregalados, a boca cuspindo chispas de impropérios por entre cacos de dentes amarelos. O sr. Flibas olhava-a agora com tênue estupefação, como se aquilo não condissesse com alguma linha de lógica que ainda se prestasse a envolver aquela zona da realidade, e a mulher esmoreceu, percebeu seu abatimento, provavelmente sentiu através dos canais telepáticos dos grandes sofredores o inferno que lhe ia por dentro e parou, silenciou de uma vez; voltou seu corpo miúdo e se sentou com uma nova integridade, como se o que vira no sr. Flibas, em sua apatia, exigisse dela uma postura respeitosa. O sr. Flibas vira que era uma menina ainda.

         Um grupo de araras passava por sobre o céu a poucos metros de sua cabeça. Eram as limpas e alegres araras que tomavam a cada entardecer os castanheiros e árvores de copas densas da praça, após fazerem coreografias helicoidais por sobre os prédios, que se distinguiam esnobemente das estropiadas e gordas pombas, e que naquele momento faziam o sentido contrário, acordando em um ruído estridente e se preparando para mais um dia de exploração pelos campos em torno. Eram ariscas, mal educadas, anti-aristocráticas. O sr Flibas considerava que uma cagada por sobre o chapéu era motivo de se considerar agraciado pelo resto do dia, apesar do que parecia que elas, ao longo do convívio citadino, se tornaram pouco avessas a essa falta de postura. Seu cocô era uma bomba de precisão feita para espalhar um cimento denso e argiloso nas estátuas públicas, deixando os esquecidos cavaleiros equestres, erguidos em homenagem a alguma efeméride surtida para gerar ganhos políticos particulares, parecendo montanhas difusas de bronze salpicadas de estrelas calcinadas. O bando agora fazia uma longa curva pelo céu, como uma sombra de presságio de maus tempos_ uma praga de gafanhotos, as almas do hades libertas_, e se dispersava, levando aquele canto sem talento e estilo para longe, aquele gralhar que era pura felicidade por estarem vivas. Como se isso atendesse a uma coreografia que se cumpria em seu último passo protocolar, o sol já era uma reta púrpura flambada de irisões surgindo por sobre a linha das casas à distância. Um azul que só se via na natureza nesse momento, repetindo-se fielmente por bilhões de anos, uma insubordinação calma entre os tons conceituais do negro e do púrpura, começava a emitir nódoas concentradamente enevoladas de energia acima de sua cabeça. As últimas estrelas sumiam no arrasto desse prisma cósmico, junto a todas as nuances da magia do universo que a noite havia aberto concessão para se manifestar na Terra, e o azul vulgar, metálico e escritorial começava seu lento mas determinante trabalho de possessão das zonas celestiais, transformando-as em algo agora passível de ser descrito por outros termos protocolares que envolviam o contar das horas relativo à miúda importância dos seres daqui debaixo, não mais se atribuindo a ele palavras deslumbrantes e soltas de rebeldia furiosa como as que a noite finda levava consigo para seu fechamento absoluto e sua ausência já não mais sentida até que mais um ciclo rotacional fosse cumprido.

                O sr. Flibas, no meio dessas reflexões todas, se viu de frente ao bar do Manfredo. Entrou nele sem olhar para os lados, a cabeça ereta. Uma garçonete quase trombou com ele na atitude ensonada de amarrar atrás da cintura os laços de seu avental, já correndo para atender a algum chamado que a requisitava na cozinha. No balcão alguns sujeitos zanzavam com a predisposição de estudarem se seria melhor tomarem o café ali mesmo em pé, dependendo se o local favorecesse algumas trocas de fofocas sobre os incidentes da vizinhança no final de semana, ou se iam se aboletarem em algumas das várias mesas espalhadas pelo salão. O sr. Flibas foi se sentar na mesa de costume, a uns 5 metros do balcão e situada de forma a ter uma generosa visão do ambiente, felizmente sem que estivesse ocupada. Quando se ajeitou na cadeira de plástico, ergueu marcialmente a visão e deixou que os eflúvios ricos de movimento e ruído passassem através dele.

          Fechou os olhos, não tanto para potencializar a apreensão dessas sensações mas para controlar uma leve tontura que, surpreendentemente, aquele gesto lhe causou. Não podia deixar que aquilo lhe abalasse assim, embora não soubesse como poderia ser diferente. Mas a onda de vertigem pareceu não dar trégua, em vez disso foi aumentando até um ponto em que um sinal de alerta começou a tocar dentro dele. Ainda nem tinha averiguado se o sujeito estava lá e já estava se conduzindo para uma desestabilidade perigosa, e quando o visse? Fechou bem as pálpebras e recorreu a uma oração, qualquer que fosse; escolheu uma ladainha das tribos alualas, cuja composição consonantal elaborada privilegiava a ventilação pulmonar e repetiu-a baixinho três vezes, dando rápidas inspiradas entre os versos, e sentiu que melhorava. Os velhos deuses africanos se mostravam infalíveis nessas horas de ludibriar o vazio e fazer um culto errático à neurociência. Pode abrir os olhos e se deparou à sua frente com um rapaz muito magro, com rosto de fuinha e cabelos oleosos de cachos escorrendo pelos lados como filactérios, com um bloquinho nas mãos e pacientemente à espera de seu pedido.

                O garçom o olhava com um misto de estupor curioso e enfado diante a multitude de tipos humanos que a vida lhe enfiava debaixo do nariz todos os dias. O sr. Flibas sorriu meio constrangido, mas com a voz firme, elevada um tom do que tinha por costume, pediu um café grande e dois biscoitos de queijo. O homem não anotou a não ser na memória e saiu dali a passos rápidos, como se esse encargo lhe outorgasse o direito a uma economia de tarefas simulando estar ocupado muito além do razoável no salutar teatro de suas obrigações. O sr. Flibas se simpatizava com tipos assim, resquícios de um caráter revolucionário transformado pelo estoicismo em uma subversão às regras através de uma invisibilidade astuciosa, já que a preguiça era subliminar a uma série de gestos que se confundiam com uma eficiência idiossincrática incriticável. Um bom humor tomou conta dele por essa associação de ideias e graças ao garçom, o que o fez relaxar as pernas por sob a mesa e estender com mais desenvoltura os braços por cima da mesa. Atentou-se para quem entrava no bar e notou com uma plácida trivialidade que era quem ele esperava. Era o assassino de Euslália.

                     Ao formalizar essa frase em sua mente, seu sangue se aqueceu e uma percepção que lhe pareceu artificialmente aditivada de suspense lhe investiu de uma aura de fatalidade romântica. Fazia dez anos que não o via, a última vez foi no dia em que o juiz lera a sentença de prisão. Mas era inconfundível que era mesmo ele. Deveria ter uns 32, 33 anos agora, mas a julgar pelo que via ali diante si no espaço entre as carteiras e a luminária da porta em que ele estava parado enquanto ajeitava algo dentro do bolso interno do casaco, ele aparentava bem mais. Era natural que a cadeia tivesse acabado com sua fimbra hercúlea, sua energia individualista que parecia na época ilimitável e irrefreável, e que ao ser posto em liberdade toda a degradação sofrida estivesse cravada na pele. Mas realmente aquilo que o sr. Flibas via era penalizante, atendia fortuitamente a todos os estudos sociológicos sobre os danos do confinamento. O sr. Flibas acompanhava nos jornais sobre a vida daquele homem, quando alguma de suas ações vindas daqueles bastiões da execração surtiam interesse suficiente para que reportassem. Na verdade falaram bem pouco dele depois que ele fora preso. Aos cinco anos da condenação ele estava envolvido com uma tentativa de motim.

                   Sua cara aparecia bem numa foto na seção de crimes, lá no fundo. Era um mero coadjuvante, vai ver fora instigado pelos outros a participar e isso fosse inescapável. Mas fora algo que só o sr. Flibas poderia dar conta, por ter memorizado cada pormenor daquele rosto, pois o restante do mundo já o havia esquecido. Um rosto trancado, era isso que o impressionara mais. Um rosto com mínimos movimentos expressivos, como cortado em uma rocha. A idade lhe dera mais legitimidade, o talhe ficara mais ajustado à tragicidade silenciosa que sua finda juventude procurara invocar, com seu espanto perene como se desde muito cedo sua vida não fosse mais que um avanço em alta velocidade por um túnel de horrores. No tribunal ele emitia alguns sinais de alegria bestial e insubmissão na forma como passava a não prestar atenção a tantas palavras que dirigiam sobre ele e se perdia distraidamente em olhar as luzes, os avisos de silêncio nas paredes, nunca olhando a ninguém, como se seus olhos fossem furados e passassem ilesos pelos contornos que identificassem personalidades e só voltassem e serem preenchidos quando se punham em objetos inanimados.

               O sr. Flibas, sentado lá detrás, não tirava os olhos dele, estudava com certa volúpia cada movimento, cada fibrilar zigomático, cada retração dos músculos orbiculares para reposicionar algum curioso material em foco. Quando ele era levado pelos agentes até a cadeira do réu e quando ele era retirado de volta para a cela do fórum, e quando ele se levantara, altivo, esvaziado de qualquer orgulho ou vaidade, ele observava seus braços morenos bem trabalhados, não cultivados voluntariamente para serem portentosos, os braços de um trabalhador que não trabalhava, que negando-se a conciliar a genética com os serviços pesados e mal remunerados. Os braços que Euslália havia sobrepujado por um efêmero momento ao puxar a bolsa num ato reflexo, e que lhe custara a vida. Depois ele lera, como por um aviso, absolutamente ao acaso, que ele iria para o regime semiaberto, a coisa de três semanas atrás. Lera num jornal abandonado em um banco de praça, e confirmara instantaneamente a data do dia em que estava como se aquela série de falsas coincidências mandadas pela providência auferisse uma responsabilidade que se deixasse passar seria um crime contra algum equilíbrio compensatório, algum magistral romantismo arcobotante da intricante arquitetura do universo.

                  De primeiro ele deixou que a corrente da realidade ficasse à vontade, retornasse para o fluxo principal que abandonara para realizar aquele pequeno regato em torno dele, que seguisse seu curso e o deixasse em paz, se assim o pretendesse, e estava disposto a esquecer, atribuir mais tarde a um desses delírios cotidianos que o acometiam pelo que ele deduzia sem preocupação ser decorrência de sua mente envelhecida, ilusões que se embaralhavam sem muita expressão e que ele as pressentia mais do que via. Mas era algo inolvidável, claramente a conclusão de uma longa narrativa da qual participava solitariamente há mais de uma década. Levantou-se do banco e seguiu para casa, largando o jornal onde estava. Era uma manhã fria e ventosa, com folhas acobreadas de outono sendo arrastadas como singelas notas musicais acompanhantes para dar ao conjunto sinfônico do vento uma impressão ambiental suave de que havia tempo para que se voltasse para casa e se refugiasse da fúria da natureza que estava por vir. Restavam alguns minutos.

                  Chegando ao sobrado, deparou-se com a senhora Afonsina sentada na saleta com um caderno espiral no colo escrevendo alguma lista de manutenção do peristaltismo da casa, rumorejou um lacônico pedido de licença e subiu para seu quarto. Lá em cima, sentado diante a mesinha redonda onde se aparava para escrever suas abluções mentais e suas fantasias de velho, ele assumiu a pose que lhe cabia naquele teatro de desolação, mãos entre as pernas e cabeça semi abaixada, olhando às vezes as janelas, introjectando o lábio inferior num ato distraído. O melhor a se fazer era deixar aquele pobre demônio em paz, esquecê-lo, não pensar mais nele, aceitar aquela insuficiente e vaga conclusão normativa de todo aquele drama de dor e solidão, de morte e loucura lenta, acolher o fim que a justiça dos tribunais impusera como restituição de equilíbrio de ambas as partes. O assassino continuaria sua vida, andaria pela terra com a marca subliminar de Caim na testa, muito provavelmente espalharia sua semente pelas baixas zonas do reino, com o mesmo direito ao êxtase que qualquer outro, e tudo estava zerado; uma marca que não poderia mais ser apontada como acusação admonitória pois ele não devia mais nada à justiça dos homens, quem o chamasse de assassino estaria passível de responder por injúria. Ambos agora eram igualmente inocentes, ele e o sr. Flibas.

               O sr. Flibas pensou se deveria ligar para sua filha e contar a novidade; depois, fazer o mesmo conjunto de gestos e digitar o número do pelotão onde seu filho cumpriria seu dever ante a sociedade e pedir para chamarem-no, se algum oficial relegado às atividade administrativas poderia fazer o favor de requerer o soldado numero tal (ou eles ainda se dirigiam entre si pela evocação seca dos sobrenomes?) que estivesse de pé diante um chamado através dos cabos ópticos o seu alquebrado pai. Desde quando tal pensamento se projetou dentro de si ele sabia que jamais informaria tal coisa a eles. E que direito ele teria de retirar sua filha da ensolarada sosseguidão do seu apartamento de artesã, fazendo-a interromper alguma confecção concentrada de alguma singela figura de seu subconsciente num fragmento de aroeira, para vir ouvir através de sua voz que o assassino de sua mãe estava finalmente livre. Faltava-lhe a sujeição abjeta à mínima crueldade para que ele pudesse dividir aquele desalento com os dois, embora ele sentisse a extrema necessidade de falar sobre isso com alguém. Então soube o que fazer na mesma hora. Levantou-se energicamente, tomado pela sinergia da decisão, e desceu as escadas. Disse à dona Afonsina, que ainda rascunhava no caderninho com profundo enlevo, que iria usar o telefone.

             O aparelho ficava entre a cozinha e a saleta, num ângulo de canto, posicionado como um ícone de alguma divindade obsoleta por sobre um suporte de madeira. Ligou para a casa do seu companheiro dos tempos de quando trabalhava na biblioteca, Castilho. Eram seis e trinta da tarde, ele deveria já estar em casa. Ouviu o toque da chamada, entrando em uma distração afogueada, olhando os contornos dos tacos do chão. Castilho era tão sistemático quanto ele, embora bem mais jovem, e não era o tipo que sai do trabalho e não vai direto para casa. Era tão previsível em sua cronologia diária quanto Kant, de forma que também em algum dia de reversão da ordem pública seus vizinhos poderiam ajustar os relógios por ele.

                  Quando os toques estavam por acabar, o sr. Flibas ouviu do outro lado o som do fone sendo erguido, estalando no movimento de ser sustido do encaixe e apertado por uma mão, ouviu o translado curto pelo espaço até que chegasse na posição protocolar encostado no rosto, entre o ouvido e a boca do Castilho, e a voz de seu colega, invariavelmente desconfiada e com um ressaibo agressivo que ele tinha contra todas as convenções da tecnologia que aparentemente foram inventadas para retirá-lo de seus profundos e constantes pensamentos.

         _ Alô_ disse o Castilho.

         _ Como vai, Castilho. Aqui é o Omeno. Pode falar agora?_ o sr. Flibas perguntou, sentindo o absurdo da pergunta, já que o Castilho vivia sozinho.