quarta-feira, 8 de julho de 2026

Notas sobre Carolina

 


A Júlia comprou hoje no shopping Quarto de Despejo, da Carolina Maria de Jesus. Assim que chegamos em casa, ela mergulhou no livro. Ela está fascinada. "Como ela escreve bem e é profunda, papai!", a Júlia disse. A Júlia conhece bem o que diz, pois desde muito pequena lê os grandes autores. Ela leu para mim, para que eu percebesse o tom erudito da autora. Mas, assim como eu, a Júlia se indignou com o que para ela é um sinal de racismo evidente: a manutenção dos erros gramaticais da Carolina. Na primeira notação do diário, a Carolina usa a palavra "abruir" _que eu nunca tinha ouvido ou lido na minha vida!_, e que fui ver que existe. Mas Carolina a usou de forma completamente fora de contexto. Até aí tudo bem a omissão de um editor, mas o texto é recheado de erros gramaticais. Eu achava que eu era a única pessoa do mundo que via o racismo nisso, mas a Júlia também viu. "É como se não levassem ela a sério", a Júlia disse, "como se ela fosse um rato de laboratório" (foi essa a frase que ela usou). E o pior é que no prefácio, uma estudiosa da obra aponta o preconceito de certas editoras que invertem o nome da autora, Maria vindo antes que Carolina. Mas não vê que repete o preconceito ao dispensar a ela o que todo escritor tem, uma boa revisão corretiva de gramática. Todos os escritores escrevem com erros de gramática. Dostoiévski preenchia páginas e páginas com erros. Então, por que preservar os erros da Carolina? Isso a diminui, a segrega, a vende como uma excentricidade amestrada. 

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Que livro grandioso esse! Eu peguei só para ler os ótimos ensaios críticos, inclusive um do Alberto Moravia de extrema lucidez e entendimento sobre os deserdados do Brasil, mas quando menos percebi já estava na metade dos diários de Carolina. Ela me fez deixar o A montanha mágica de lado. A cada página a garganta se apertava e era inevitável ficar com os olhos cheios de lágrimas. Eu tinha muitas reservas quanto a esse livro, achava que se fazia concessão à condição social da autora. Mas não! Ela não tem diferença nenhuma de Knut Hamsun (Fome), e Faulkner (Desça, Moisés!). E por que seria de assustar comparar ela a esses dois? O cotidiano de fome e amargura e fé na escrita é o mesmo do escritor norueguês, e o recurso dela de exaustivamente mostrar quanto ganha e perde em dinheiro é o mesmo de Faulkner em traduzir o valor imposto à vida humana como o de uma mercadoria descartável. Eu até pude entender a manutenção dos erros de gramática_ ainda que eu continue não concordando com eles, e ainda que extrapole na vitrine de mostrar suas carências de educação formal. E o que mais me encanta nela é seu espírito aristocrático. Ela se compadece dos sofredores do mundo, mas também reconhece sua altivez intelectual, seu exclusivismo em não se misturar por ser filha da cultura, ser uma renascentista, ser um indivíduo cujo objetivo da existência é o esclarecimento. E ela é uma escritora completa, com vários níveis, que mostra sua crueza e suas vaidades fúteis ao mesmo tempo que sua profundidade. É tocante as vezes em que quer mostrar que é sexualmente atraente, escrevendo sobre a inveja das mulheres e o desejo dos homens por ela. Um livro único, de uma escritora verdadeira. Comprei hoje os outros três dela da Companhia das Letras.

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Carolina confirma minha convicção de que o grande escritor é um perceptivo pelo qual passam todas as profundas questões da existência, todos os símbolos, as imagens, as mônadas de significados sublimes. Ela escreve ideias que eu vejo terem sido compartilhadas com Kafka, Brecht, Faulkner e Shakespeare, embora ela nunca tenha lido esses autores antes de escrevê-las. Há trechos tão perfeitos e disruptivos em sua obra quanto os aforismos de Kafka, como a cena em que ela quer ser um homem para lutar para melhorar o país e pergunta à mãe como fazê-lo. Basta atravessar o arco íris, a mãe diz. Então ela corre em direção ao arco íris mas nunca o alcança. Isso é o mais puro Kafka, com a mesma elegância, a mesma concisa pureza quase infantil. E ela fala dos Palácios da cidade, com a mesma atmosfera de inacessibilidade burocrática que tem em O castelo e em Herzog. O grande escritor faz cair por terra as limitações sociais e as mazelas da educação, pois falam a mesma coisa, com a mesma elevação, o mesmo poder, a mesma beleza. E o estilo de Carolina? Ela consegue em um parágrafo o polimento que Hemingway suava por alcançar. Não estou idealizando Carolina. Mas é que o fator racial e geográfico impõe mais rótulos simplistas nela do que a intuição oposta de ver a sua real dimensão artística. Compará-la a Kafka faz muito mais sentido do que dizer que ela era uma simples catadora de papel colocada num ciclone de fama por piedade.

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Tem uma parte muito perturbadora em Quarto de Despejo em que Carolina fala que seu filho João, de 11 anos, tentou estuprar uma criança de dois anos. Ela leva o filho para o juiz para ser internado, mas como era feriado ela encontra o instituto fechado. No outro dia, dois fugitivos do instituto pedem ajuda em seu barraco. Ela dá roupas e quando os meninos vão embora, ela pega o feio e roto uniforme amarelo deles e cheira o suor deles. Depois, ela escreve um dos estudos sociológicos mais tocantes sobre a perda da infância e a sexualização doentia da criança, assim como descreve o pesadelo de abandono e criminalidade que são as casas de correção da infância e adolescência. Ela visita a rua do meretrício e, enquanto recebe uma resposta abjeta e violenta de uma das mulheres, ela vê a criança abandonada que resultou na prostituta. Aí então ela diz que finalmente conseguiu se comunicar com João, o mais intratável e revoltado dos seus filhos. Ela diz que o ensina, não mais falando o idioma da infância mas do adulto (já que, ela reconhece, ele perdeu a infância aos 11 anos), sobre as agruras da vida. E força ele a ler livros. É uma passagem tão visceral e crua quanto as melhores de A casa dos mortos, de Dostoiévski, e de qualquer livro de J. M. Coetzee. Hoje fui pesquisar sobre o destino de seus filhos, e vi um vídeo em que o João fala no funeral da mãe, em um português polido, correto, cortês. Até que ponto a dedicação de Carolina pela cultura salvou seu filho? João morreu em consequência da pobreza, logo depois de Carolina. Seu outro filho, José, do qual ela pouco fala, morreu atropelado, em situação de miséria profunda. Só Vera, a filha, que jurou se tornar professora, está viva, cuidando ativamente do espólio da escritora. Se tornou professora, e é uma mulher negra, culta, esclarecida.

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Carolina era uma negra altiva, que não se dobrava, que tinha um apurado senso de justiça e humanidade, que lia e ouvia valsas vienenses. Além disso, cantava bem, tocava violão, era ótima bordadeira e ótima cozinheira. Uma aristocrata do espírito. As pessoas não aceitavam que isso pudesse existir.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Sestércios

  



   E havia Sestércios. Se não fosse tudo o mais que atestava estarmos em uma casa de velhos, só ele já daria vazão a esse fato. Era uma criatura tirânica, também muito velha, cujo costume de receber uma grande reserva de mimos incutira nela uma protoconsciência de soberba. Era natural que as assimilações fantasistas sobre imperadores, pompas palacianas e a frieza cruel de um perfil rapínico, erraticamente instalado em um galo, lhe dessem um ar de déspota enlouquecido. Ele morava dentro de um engradado de cerveja Polar que parecia ter-lhe sido destinado como um ato de concessão vinda de alguma antiga e esquecida derrota, o que atestava que ele havia conseguido alguma exceção de humildade em sua autoimportância ao se adaptar àquela ruína.

   Vendo-o sair de dentro do engradado, abaixando a cabeça, dando seus passos cautelosos de reumático — com as penas grandes que cresceram além da conta, como crescem demasiadamente as sobrancelhas dos velhos —, era fácil depreender que sua história pessoal havia passado por uma reeducação. Ele se punha, então, de corpo inteiro no piso do alpendre, ao lado da máquina de lavar roupa, indiferente a seu universo inglório de roupas estendidas e às botas sempre sujas paradas ao lado da porta que dava para a cozinha. Fremia sua cabeça, onde o acaso das espécies não destinara nenhuma mínima possibilidade de expansão mental, e passava a dar passinhos aturdidos, sincréticos, de um general ciente de sua obsolescência, necessitando, porém, de algum grau de astúcia para gerenciar o conforto doméstico de sua senilidade.

   Mesmo depois de todas as batalhas do ego pelas quais aquela coalizão de intimidade caseira o fizera passar, havia o sinal de condescendência amorosa que a vovó lhe dispensava na pequena escadaria de caixas e vasilhames com plantas anãs, colocadas ali para que ele subisse até a pia. Ele andava com seu equilíbrio régio e um tanto mais apurado para evitar um tombo pela borda, e podia subir com um pulo que lhe devolvia algo da faceirice da juventude. Assim, instalava-se no alto da mureta, de onde emitia seu canto que, a cada dia, ia ficando mais constrangedor. Seu pescoço sofria uma dilatação que parecia desconjuntar toda a estrutura corporal, e então um som sem firmeza, nem um pouco eloquente da masculinidade que ele estava certo de impingir, alçava-se pelo ar.        Vovó Leira parava o que estava fazendo por um rápido segundo — uma espécie de limite imperativo que deveria conceder a ele — e, da mesma maneira rápida, fazia uma consideração de valor.

   Ele ficava na pequena despensa a céu aberto que dava de frente para o grande quintal de entrada da casa, como um vigia ou um almuaden: ora se deslocando de um lado para o outro, fazendo sua cabeça se mover pulando alguns quadros de realidade, de frente para trás, como a trave automática de uma alavanca defeituosa; ora tirando aquela sua convocação sem sentido, mas prenhe de significados íntimos, para espécies de devotos invisíveis. Leira o tratava com um respeito estranho, que tinha algo de culpado e de uma eterna desculpa. Desse modo, quando ele se aventurava a andar pelo interior da casa, aparecendo com sua magreza de asilo pela sala, Leira lhe destinava um olhar prolongado, questionativo, à espera talvez de que ele externalizasse o desejo que, enfim, vivia atolado em sua garganta sem que ele nunca o dissesse.

   Ele se aproximava de onde ela estivesse sentada e, só quando ela se distraía dele, vinha tocar-lhe timidamente o tornozelo com sua cabeça sem charme. Algo se acionava na vovó e ela, só por conta de uma reação astuciosa, não parava de falar, mantendo o fôlego e o assunto um tom mais baixo enquanto sentia com um deslumbramento temeroso, cheio de repúdio e piedade, o galo a tocando, arranhando-se em sua meia pochê grossa, dando mais superfície à sua volúpia ao colocar todo o tronco nessa jogada ousada e solipsista.

   Seria interessante ver um animal tão arisco quanto uma ave dessas ser pega no colo e acarinhada. Eu, quando via essas cenas, ficava na expectativa de que vovó o recolhesse nos braços, mas uma ética darwiniana — de não amolecer a tenacidade de um trabalho de milhares de anos que o tornara uma casca seca, esvaziada de qualquer necessidade de ternura — mantinha a ordem natural. Deixava-o se satisfazer naquelas migalhas de uma perdida intuição afetiva até que uma espécie de constrangimento final o acordasse para o ridículo daquilo. Num pulo em que um quadrângulo cinemático inteiro era removido diante dos olhos do espectador, Sestércios se dava conta de sua responsabilidade classista na rigorosa hierarquia das espécies e se afastava da perna da vovó, indo se ocupar de alguma outra eventualidade fortuita, desaparecendo nas sombras da sala.

   Vovó Leira considerava Sestércios o monarca em desgraça que ele de fato era, aceitando suas idiossincrasias e seus humores arbitrários e inconstantes. Ela destinava três horas de seu dia, no final da tarde, para bordar as peças especiais de pano que mandava o capitão Bombo vender na feira da marreta. Sentava-se na banqueta artesanal, alojada como um apertado braço de madeira em L ao lado da máquina Singer creme, e guiava as beiradas das mantas pela feroz agulha de aço; mantinha uma mão próxima à imersão da linha e a outra nas barbas do pano que sobravam sobre seu colo.

   Sestércios se incomodava com o grande ruído que aquela coisa fazia, expondo seu desconforto com cicios mal-humorados e exclamações de indignação. Enquanto Vovó compunha seus desenhos refinados de donzelas elizabetanas sendo cortejadas à beira de lagos, sob o pôr do sol de uma Sorbonne idealizada, Sestércios andava por um meio círculo amplo. O trajeto passava por debaixo da mesa de aroeira da sala e delimitava seu terreno pontilhado sob as cadeiras, pelo divã psicanalítico — do qual ele mesmo aprendera a tomar posse mais tarde — e pela estante de carrara marrom, cujas portas com janelas de vidro guardavam as porcelanas antigas.

   Quando via que sua taxativa manifestação contra aquela grosseria incompreensível e indevidamente barulhenta não surtia efeito, ele abaixava a cabeça. Recolhia a ossatura esternal, cuja constituição naturalmente viril o prejudicava por induzir nos observadores expectativas infundadas, e ia se achegando, como se levado por uma atração suicida, até a fonte do distúrbio.

   Quando menos se esperava, Vovó Leira se subtraía por um instante de sua poderosa imersão intelectual naqueles labirintos artísticos intrincados. Ao percebê-lo encolhido em seus pés descalços, empurrava-o com seus dedos longos e joanados — disformes e estranhamente exorbitantes para sua idade, pela forma como insinuavam uma juventude apreendida e conservada naqueles dez soldados anulares de tamanhos grandes demais para os padrões naturais — para junto de si. Formava-se ali uma fortaleza de estruturas humanas e rebotalhos de panos cadentes, onde as sinapses sensoriais do galo pareciam ficar entre afavelmente aturdidas e lisergicamente ensonadas diante de tanta informação.

   Era algo digno de se ver quando chegamos ali na primeira semana: uma amostra de como funcionavam as zonas intestinas mais zelosas do sagrado andamento de um cotidiano próprio. O quadro de uma velha senhora costureira com um galo mambembe entre os pés desfazia-se de seu caráter fantástico quando se via o que ela imprimia nos tecidos com aquela máquina potente. As sombras da sala, no ponto onde os dois ficavam, eram furadas pela janela estrategicamente situada atrás e no alto de Vovó. O arranjo talvez fosse precário demais para favorecer vistas que, na idade dela, já mereceriam um recurso mais aprimorado.

   Ela não tolerava que ninguém, a não ser Sestércios, se aproximasse para se intrometer em seu ofício. Seria, de resto, uma preocupação inútil; ninguém, além do galo maltrapilho, tinha o pensamento minimamente inclinado à possibilidade de tal ousadia. O rosto de Vovó se transfigurava quando ela estava sentada ali, em perfeita interação com a máquina, como uma profeta rembrandtiana sob a arcada de um antigo palácio municipal. Recolhia, das vertentes variadas e profundas de sua imaginação, cenários e tipos humanos de outras dimensões que não existiam no mundo concreto, mas vinham parar ali, como que por uma indução metafísica.

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A poderosa risada

 


A Dani entrou para fazer a cirurgia cardíaca hoje às 5 da manhã. Eu fiquei na sala de espera lendo sobre o zen-budismo. Antes a Dani tomou banho no hospital e quando se sentou para esperar pelo enfermeiro com a cadeira de rodas eu apontei o cartaz que fala sobre retirar todos os adereços e lhe perguntei se ela tirou o piercing "lá de baixo". "Tirei essa noite e coloquei no seu pênis", ela respondeu. O zen-budismo fala sobre a gargalhada libertadora, a "poderosa risada". Mas o zen-budismo é muito frio. Principalmente para alguém que necessita de alguma entidade metafísica pra rezar e pedir pela proteção da pessoa que ama. A Dani acertou o Pix do lanche da semana de nossos filhos na escola na madrugada de ontem, no hotel, seis horas antes da cirurgia. Ela me disse que quando eu voltasse para nossa casa, há 170 quilômetros, eu não fosse ouvindo música clássica para não ficar com sono no voltante. Ela me disse para ouvir rock, alguma música bem agitada. "Mas eu estou há anos na fase do jazz, Dani", eu lhe digo. "Então escute Freddie Hubbard e Joe Henderson e John Coltrane, mas não Bobby Hutcherson. Vibrafone tem efeito entorpecente. E jamais Chet Baker". Eu fico oito horas esperando, lendo sobre o zen-budismo. O zen-budismo é frio, não crê na transcendência, não crê na glória. Meu nome é anunciado e eu vou para a ante sala da cirurgia. A Dani está bem. Eu vejo os médicos e as enfermeiras como seres benevolentes em um estágio de extrema pureza. Choro quando eles me apertam a mão, não consigo evitar. O zen-budismo diz que os Budas passam os dias bebendo chá e comendo arroz. O zen-budismo diz que devemos ver todo o universo em um grão de areia. Daí me dou conta: o zen-budismo não crê na glória porque acredita que já estamos nela. Ele não crê na transcendência porque já estamos na transcendência. Me parece uma parcela de iluminação ter esse insight, e eu sou assolado por uma alegria imensa. A alegria da Dani estar bem, da sombra desses quatro meses ter se dissipado, da ameaça do meu pesadelo recorrente da solidão não me atemorizar mais. Nós já estamos na glória, como isso só me ocorreu agora? Tudo já aconteceu e nós estamos na glória. E eu faço mais uma oração e não quero mais nada do que beber chá e comer arroz por toda a infinitude com ela, a Dani.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Histórias de amor no novo milênio

 


Vi um vídeo no Fantástico falando sobre os apartamentos caixotes de Hong Kong. Pessoas moram dentro de caixas menores que caixões. São dezenas delas em cada apartamento, com uma micro cozinha e um micro banheiro coletivo. Ao todo, são milhares, quem sabe milhões, que moram assim na China. A visão desses prédios é aterrorizante, gigantescos, cobrindo com suas cores pardas ciclópicas toda a área urbana. Não há o mínimo espaço para algo que não seja feio, brutal, sem alma, opressivo, aviltante. Em dado momento o repórter é expulso pelo dono do local, ou o gerente, que o aborda com a truculência de um miliciano. O repórter então sai para a rua e entrevista os que se dispõe. Uma senhora diz que lembra com dor a época em que era criança e morava em uma casa ampla, o que só existe agora na sua memória. Um homem diz que não tem mais onde morar, pois os aluguéis são altíssimos, e a grande maioria dos chineses ganha um salário de miséria, o menor do mundo. Os moradores encaixotados são serventes de açougues, funcionários da construção civil, chapas de feira, etc. Uma mulher, contudo, diz que é o paraíso, e é filmada no claustrofóbico espaço deitada. Antes, ela apanhava do marido e foi expulsa de casa, porque o marido não mais a queria, só sobrando morar ali. Pessoas tratadas como lixo, como números, numa sociedade desapiedada e sem traços de humanidade. Eu estou chegando na página 100 de História de amor no novo milênio, escrito por Can Xue, o que não é o verdadeiro nome da autora. Ela saiu de um cenário assim, do nível mais baixo da pirâmide trabalhista escravocrata chinesa, cursou até o ensino fundamental e é uma autodidata. Nietzsche falava sobre o regime chinês em Além do bem e do mal (ou será em Humano demasiadamente humano?), como uma figura retórica do inferno. Hoje, sociedades assim são elogiadas pelos progressistas e pelos capitalistas, o grande país que está tirando o Satã Americano da liderança global. Eu ainda não entendi onde a Xue quer chegar. É um romance que bebe generosamente de Kafka, com seus personagens regidos por morais heterodoxas e situações oníricas. O que me cativou de imediato é a liberdade irrestrita com a qual é escrito. A alegria extasiada da palavra. A forma como a autora mostra que aquele é o terreno só dela, amplo, ilimitado, cheio de espaço. Uma das personagens do romance diz que se tornou prostituta como escape para se livrar da vida terrível que levava na fábrica. A literatura nunca foi tão representativa da mentalidade de cada nação, com seus desejos, lamentos, temores, sonhos e vislumbres de redenção como agora.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Sátántangó

 


Não vi o filme Sátántangó, mas dizem que tem uma polêmica cena envolvendo a tortura e morte de um gato. Isso me fez afastar desse filme, ainda que o diretor tenha tentado se defender dizendo que o gato foi anestesiado, o que me parece ter piorado a situação. Mas no livro, obviamente, tem a mesma cena perturbadora. É perturbadora tanto pelo sofrimento de um animal quanto pelas questões filosóficas que ela suscita. Quem pratica esse ato abominável é Estike, uma menina com problemas mentais, a mais nova das irmãs, tornadas prostitutas, e do irmão (que é um pervertido idólatra). Estike é insustentavelmente pura, e isso que é o mais grave. Ela tem a pureza absurda de uma serial killer, ou a pureza absurda de um anjo? No livro, que é todo simbólico sobre a formação das religiões e das instituições de poder humanas, Estike pode ser vista como Cristo. Há uma cena em que ela se manifesta em uma áurea messiânica, depois de sua morte. O leitor é levado a se confrontar com a ideia de que a divindade, inserida na carne, envolve um processo tão amoral de subjeção e violência quanto a tortura feita por Estike. O experimento crístico que culminou na crucificação não seria ainda mais brutal? Um Deus encarnado no primitivo padrão terreno não envolveria um descompasso entre sua pureza e potência com os limites da realidade, que seria entendido pela nossa mente canhestra como algo brutal? Krasznahorkai nos faz ver a bestialização que se esconde nas religiões, e como a própria moral religiosa nos treinou para sermos hipócritas travestidos de piedade no alto da higiene de séculos de sacrifícios de animais a Jeová ou ao deus da hora. Toda religião, assim como todo aparato civilizacional, se fundamenta na barbárie e na violência, o que os aspectos metafísicos da transubstancialização evidenciam. Mas Krasznahorkai não é um niilista, é, pelo contrário, um autor religioso, metafísico. É um ateu que crê no sagrado, ainda que se resigne a perceber o sagrado pelas insinuações do sublime. Quando Estike se manifesta em espírito, os três homens que a vêem (Irimiás, Petrina e o "menino"), apavorados, rejeitam o milagre. Um diz que é a fome e a penúria que os fazem ter alucinações, "como nas trincheiras da guerra". E assim, conformados, o próximo ato desses três missionários é negociar com Páyer, o vendedor de armas. Irimiás é tanto são Paulo apóstolo como os herdeiros de Maomé, é um dos sacerdotes de Quetzalcoatl e O Grande Inquisidor. Irimiás, Petrina e o "menino" são os institucionalizadores da fé, os primeiros padres e papas e pastores. Petrina, diante da fulgurante luz de Estike, a menina Deus que testou sua plenipotência elegendo um gato para o primeiro arrebatamento, pergunta a Irimiás se ele acredita no inferno. "Deixe de bobeira", responde Irimiás. Nesse romance soberbo, Krasznahorkai nos leva onde ninguém nunca foi, no Cristo como primeira revelação satânica (lembrando Zizek), no Deus que ao se manifestar na terra incorre no paradoxo destruidor de ser impossível que um Deus se manifeste na terra. Que diferença tem a brutalidade de um gato torturado com o cadáver de um menino exposto na igreja católica, ou das tantas barbaridades escatológicas professadas por cada religião? Krasznahorkai reforça que a verdadeira religião existe, mas a religião da independência, da interioridade, da supressão, do absurdo. A primeira cena do livro mostra os apóstolos Irimiás e Petrina saindo de um cartório, um local sem elevação, sem valor, sem mistério. Os líderes dos homens, diz Krasznahorkai, são todos uns panacas trapaceiros e assassinos sem alma.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Senhorinhas

 




A Júlia adora senhorinhas. Quando ela vê uma senhorinha andando pela rua, com seu jeitinho fofo, ela me diz: "olha só que linda, papai, aquela senhorinha!". E eu invariavelmente respondo: "realmente é um encanto. Quem vê nem imagina que ela já foi de uma quadrilha violenta de assaltantes de banco". A Júlia de primeiro se admirava: "mesmo, papai!", e quando via que era brincadeira minha ela ria e dizia: "deixe de bobeira, papai". Se ela via uma senhorinha e cantava a meiguice de seu passo desbravador pela rua, eu dizia: "linda! Mas ela acaba de colocar chumbinho nos portões de cada vizinho que tem cachorros do bairro". Ou eu digo: "que coisa delicada! Ninguém imagina que ela esganou a irmã gêmea e escondeu o corpo num baú". A Júlia se delicia com essas barbaridades e sempre ri me dando bronca. Uma vez, de frente à livraria da cidade, quando saíamos com alguns livros, uma dessas senhorinhas, sentada numa cadeira de fio na calçada de sua casa, pega o Eric pelo braço e começa a mexer no cabelo dele. "Que menino bonito, vem cá na vovó". E o Eric, envergonhado, para e responde sobre seu nome, sua idade, essas coisas. Entramos no carro e todo mundo encantado com a fofurice daquela senhorinha, e eu digo, taciturno: "Ela mandou matar o marido há vinte anos, que agonizou no mesmo lugar em que ela está sentada. Ela foi presa por uma semana, subornou o delegado e os policiais e foi inocentada. Tinha as fitas telefônicas com as gravações da conversa dela com o pistoleiro, que foram todas apagadas". A Júlia, a Dani, e mesmo o Eric se admiram de eu ter dessa vez me aprimorado com tantos detalhes, e a Júlia retruca: "nossa papai, deixa de ser bobo". E eu insisto: "dessa vez é verdade, ela é a dona Adélia, tem dois filhos que desde então não conversam mais com ela". Precisei de dias de insistência pra convencer os três.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

O anticristo

 


Entro no facebook hoje. Vídeos que eu não quero ver são jogados na minha cara. Não quero ver um avião planando. Não quero ver um cara pendurado numa montanha. Não quero ver um vídeo caseiro de uma mulher de bermudas pegando um vaso na estante. Etc, etc, etc. Tudo de páginas que eu não sigo. E vem mais uma enxurrada de propaganda, as mais estúpidas possíveis. Não suporto e largo o celular. Creio que a depressão crônica que me toma todos os dias vem disso, dessa plenipotência da imbecilidade e do péssimo gosto. Me passa pela cabeça a impressão de que é assim que os poderosos sempre nos viram, os czares, césares, ditadores, colonizadores, presidentes, e as redes sociais agora nos mostra o segredo. A grande maioria da humanidade consiste de futilidade e ausência de espírito. Me lembro de Gurdjieff dizendo que só uma minúscula porcentagem de nós conseguiria a conquista da imortalidade. E Simone Weil dizendo que só poucos conseguem saber que existem, que vivem. Tudo o mais vai se apagar pela própria inanição do espírito, pela própria rarefação da consciência. Eu ainda fico aterrorizado de ver como nos deixamos chegar a isso. Minha avó me contava, quando eu era muito criança, sobre o anticristo. Que o anticristo iria marcar cada um dos habitantes da terra, e todos esses marcados iriam sucumbir e perecer. E eu, com oito anos e já muito cético, ria da ingenuidade pentecostal dessa senhora tão devota, pensando que quem seria burro pra se deixar marcar pelo anticristo. E hoje eu penso, quem me dera se houvessem elevadas entidades cósmicas, como um demônio, como um anticristo, para validar uma possível importância de nossas almas. Seres espirituais não tem interesse por nós. A realidade, se eu pudesse voltar no tempo e contar para minha avó, seria tão imbecil que ela jamais acreditaria. "Vó", eu lhe contaria, "o esplendor de Lúcifer não aconteceu, a senhora está errada. Quem nos dera! Aconteceu algo muito, muito, muito pior. Toda a humanidade, que está explodindo, oito bilhões, aceitou voluntariamente viver na mente de um adolescente. Toda a humanidade desistiu de planos maiores e se resignou pelo mais pobre, o mais abjeto, o mais feio, o mais perverso, e fica 24 horas só trabalhando feito um verme, feito uma mula, e vendo vídeos estúpidos. Sorrindo com carinhas estúpidas para mascarar a enorme tristeza. Não houve a glória do Mal, vó. Não houve a dignidade excruciante do inferno de Jó. Não houve fogo nem nenhum de nós teve a honra de ser transformado em uma estátua da sal. Houve só a abissal e brega burrice. Só as cores da miopia e os sons das dancinhas." Eliot disse que o fim viria não com um estrondo, mas com um lamento. E mesmo ele estava errado. O fim está vindo com um meme de um peido, e todos nós símios rindo do alto das árvores jogando bosta e se masturbando um nos outros. Até que tudo seja passado no rodo e não sobre nem uma fagulha de luz para testemunhar que seres como nós um dia existimos.