domingo, 25 de outubro de 2026

Um capítulo

 



Depois que o motor havia rateado, soltando fumaças quase sólidas de poluentes no engasgo do carburador, Martina começou a ser paranoica em relação à qualidade do combustível que usávamos. Não era certo que pudéssemos nos dar ao luxo de escolher, em um percurso onde se via postos de gasolina de beira de estrada que só eram mantidos em pé por causa de anos em que a sujeira acumulada se solidificou dando força de sustentação às paredes. Se perguntássemos em nosso esforçado castelhano qual a procedência da gasolina para o frentista, esse iria nos rechaçar com uma reprimenda ríspida dizendo que não se falava de política por ali. Aconteceu uma vez, com o sujeito magro de cara tapada, com tocos de dentes na boca e um olho estuporado pela bebida, que na hora de soltar a trava da bomba de combustível nos disse que o general Lucerda sabia da qualidade de tudo que transitava pelo continente. Tinham medo de espiões do governo, e ver duas pessoas como nós, tão clichê do jovem doidivanas sul-americano era muito suspeito. A maioria achava que éramos informantes das juntas militares, ora de Pinochet, ora de Luzerda, ora de Figueiredo, ou que diabos de ditador que proclamara seu mando absoluto dependendo do país em que estivéssemos.

  _ Por essa eu não esperava, Halp_ Martina disse_ Eu temia que nos deparássemos com estupradores, ladrões, assassinos foragidos, ou, na melhor das hipóteses, esses estelionatários com tendências artísticas como mágicos mambembes que pedem para você ver em qual copo está a moeda enquanto lhe tira a carteira por trás. Mas que eles é que iriam ter medo de nós, essa é nova!

   Ela ria com os pés no painel da Kombi. Havia pintado as unhas dos pés de verde metálico, e o vento vindo da janela servia para secar o esmalte. Essa vantagem inesperada a fazia mais audaciosa. Ela explorava até onde ia nossa sorte mandando aqueles sujeitinhos de ar enfadado, possivelmente bastardos levados pela vida a trabalharem naqueles serviços inglórios, averiguar com os gerentes os comprovantes de procedência da gasolina. O sujeitinho ia de ombros baixos, enxugando a nunca com um trapo imundo, e voltava cinco minutos depois com um homem que tendia a ser um pouco mais velho e sempre gordo, com um o ar contido para não deixar a fúria extravasar antes de certificar a quem ela seria dirigida. Nos estudava com os olhos cheios de ponderação, a mandíbula travada, nos olhando de alto a baixo. Os cabelos tingidos de Martina, que haviam crescido nos últimos meses de viagem e as raízes tornaram a ficar negras, lhe dando uma aparência desleixada. O meu aspecto de hippie com os apetrechos de barba e cabelos longos ainda em teste de o que manter da figura clichê básica do gênero. Estudava a Kombi amarela, com a moldura retangular das janelas branca, e cada um desses gerentes reformava em questão de segundos a realidade que seus olhos emplastravam dentro de seus conhecimentos sociológicos práticos. Ou éramos loucos fumadores de maconha, tão loucos que estávamos nos atirando para as gargantas mais perigosas de governos autoritários com um alvo de captura nas costas, ou éramos nós mesmos elementos desses governos enviados para investigar como a soberania da pátria e a imunidade contra as sedições antirrevolucionárias comunistas estava vigorando naqueles cantos remotos. O sujeito engolia a fúria e com uma subserviência tocante nos apertava as mãos, sendo um tanto mais gentil em apenas tocar as pontas dos dedos de Martina, intuindo que talvez fosse a própria filha do coronel Bustamante ou uma sobrinha neta do Médice, e com uma ordem ríspida mandava o pobre magrelo bastardo ir pegar as notas fiscais e os atestados de qualidade.

   Era um dos delírios de olhos abertos que nós tínhamos naquela viagem, muito disso tendo me contaminado de Martina. Ela ia descrevendo aspectos geográficos de cada lugar pelo qual passávamos. Mostrava as casas de adobe das pequenas aldeias paraguaias falando que era parte da estrutura arquitetônica dos plantadores toltecas. Falava sobre o impaludismo visível na barriga destendida das crianças que nos olhavam em pé, nuas, de frente às portas. Falava dos sintomas e me olhava com um olhar doutoral para dizer sobre o remédio profilático inventado por uma pesquisadora mexicana do início do século. Fazia como se não mencionar o nome da pesquisadora fosse uma consideração modesta contra o excesso de didatismo de sua parte, de modos que se eu perguntasse seria uma deselegância a ser computado entre minhas falhas. Ela falava um espanhol correto, funcionalmente limitado, e dizia que não balançar a cabeça quando ouvia a resposta dos nativos era uma forma de mostrar que era perfeitamente integrada ao idioma. Ela a cada dia escrevia nas margens das páginas do seu dicionário espanhol português Michelin um mínimo de dez palavras novas que aprendia. Sua caligrafia enviesada, tão disforme que deveria ser algum indicativo de que sua incapacidade de se submeter à atenção ordeira vinha desde os tempos do ensino fundamental, registrava as palavras como as ouvia, na velocidade incruenta do papagueamento do latino médio. Muitas dessas palavras se perdiam quando ela não as encontrava no dicionário, o que lhe deixava indignada. Se pudesse pedir para que uma velha inca vendedora de aljarasca falasse de vagar, ou se pudesse pedir a um lavrador estancieiro que repetisse a última aparte de sua sentença. De todo modo, sua confiança de que se incorporava àquilo tudo com um simples posicionamento mimético surtia efeito, na medida em que se tornava vazia para se deixar preencher com aqueles cenários exóticos de sol e chuva, aqueles seres de pele da cor do entardecer cujos cabelos lhe deslumbravam pela pureza de crina de um animal de puro sangue, aquela natureza vasta e ainda indomável com estradas primitivas transitadas por carros de marcas desconhecidas. Ela estava cada vez mais em êxtase, aos poucos se deixando levar pela humildade de não poder abarcar a amplidão ilimitada daqueles violentos assédios sinestésicos de montanhas, vales, cachoeiras e faróis noturnos aparecendo como avantesmas perdidos na linha enfadonha e interminável das rodovias.

   Na parte de trás da Kombi levávamos nossas bagagens, o baú de tecidos bordados com as imagens de santos que havíamos conseguido vender apenas uma peça num posto de caminhoneiros, a gaiola onde ficava sua jibóia albina Gertrudes, e os utensílios de cozinha. Colado à porta traseira vinha uma estantezinha de ferro que ela pediu para que eu pedisse ao capitão Bombo adquirir em algum ferro velho em São Paulo, antes de partirmos; que o capitão Bombo pintara de cinza num gesto esperado de carinho, e onde guardávamos nossos livros. Martina não achou a coisa estúpida, como qualquer outra pessoa teria achado, inclusive todas as antigas namoradas que eu tive, e mesmo eu, mas a considerou um adendo lúdico que se encaixava bem ao conforto caseiro que pretendíamos dar ao máximo ao veículo. Ela se deitou ao lado da estante, depois que eu a acoplei no encaixe da porta, e cruzou as pernas, balançando o pé vestido com uma meia de algodão, fingindo para si mesma, como uma criança ensaiando com seriedade alguma brincadeira, que lia um livro que ainda eu não tinha depositado ali.

  _ Temos que levar Moby Dick_ ela disse, me olhando com os olhos progressivamente requerentes, depois de ter saídos do transe._ Imagine nós estacionando no campo, ao anoitecer, e lendo Ismael falando sobre âncoras, mastros e o virtuosismo do uso do arpo, sob a luz do lampião a gás?

  Ela tinha um poder sem igual de me fazer entrar nas suas fantasias, o que me fez entender aquela sugestão íntima. Mas não encontrei nenhum volume de Moby Dick nos sebos, por incrível que pareça, mas não usei isso como desistência não o substituindo por livros de Jack London e nem coisas como A Ilha do tesouro ou com coisas como Viagem à Patagônia. Eu absorvera completamente a intuição de precisarmos de companhia de filósofos metafísicos que de uma forma bem compreendida pela mente afiada de Martina correspondia à finalidade heterodoxa de nossa viagem, e por isso eu trouxe meu volume de William James e uma coletânea magra mas substancial de Whitman. Ela trouxe os livros de Carlos Castaneda, os quais muitos eram responsáveis pela sua ânsia por aquela aventura. Não podíamos levar muitos livros para não dar uma conotação avessa ao desejo de não interpormos nenhum filtro entre nós e a existência do mundo, por mais que esse filtro tivesse esse nível e calibragem.

   Mas os pontos delicados dessas bagagens eram a cobra e a espingarda de Martina. Considerando pelo item mais politicamente arriscado, a espingarda seria algo que poderia ser visto com algum propósito de banditismo, mas também era uma necessidade de segurança óbvia. Martina sabia manejá-la com maestria. Ela era louca por armas, o que num primeiro momento não condizia com seus posicionamentos pacifistas. Ela falava por alto que já tinha tido uma mangun 44 e uma Glock 45, e que quando morava em São Paulo nunca saía de madrugada voltando do seu emprego de garçonete no bar do Japa sem seu revólver cromado 38. Ela o colocava preso num aparato que ela desenvolvera junto ao cinto e colado debaixo da blusa, de modos que até quando servia aqueles delinquentes filhos da puta que arranjavam bicos temporários nos taxis e nos serviços de carga e descarga ela o portava. Se alguns deles se engraçassem com ela ela se sentia melhor sabendo que num caso extremo poderia retirar a arma num átimo e render o sujeito. Nunca precisou, o que ela assimilava como sendo o poder magnético natural que tais objetos exalam. Eram tidas como coisas más porque o vulgo havia sido doutrinado a não ver o caráter de transformação política que tem um cidadão armado. Eram absolutamente seguras, como gatinhos domesticados. Era como ter um tigre fiel ao seu lado, que na maior parte realizava o sono da estabilidade saudável, mas que no menor transtorno da linha de respeito, ele acordava com os dentes arreganhados e sua presença respeitável.

  Nunca perguntei se ela teve que atirar em alguém, era um dos assuntos sobre o qual seria deselegante se aprofundar. E tanto eu quanto ela sabíamos do fundamento de nosso relacionamento, que não tinha nada de sexual e nem mesmo afetivo, sendo uma espécie de companheirismo confiável em nome da exploração do que havia do lado de lá do tédio. Talvez por isso não levávamos todos os livros que queríamos, Martina não tendo feito caso de acharmos de algum modo um exemplar de Moby Dick, pois a própria leitura prolongada nos remetia à burguesia apaziguada e servil da monotonia doméstica. Ela então tinha todos cuidados posiceis com a arma. Ela a edsmonatva, e a quadrada em comparimentos separados da Kombi. O cano ela o escondia num aprofunfdamento à frente do pneu traiseiro da direita, uma caixa que ela fizera na lataria do veículo que comportava como uma luva o tamanho do cano. O cão da espingarda ela o guardava num espaço atrás das malas num aparadpor do teto. E o cabo, que era grande e não se podia desmontar, ela o guardava numa sacola que ficava bem escondida debaixo da cobra. Era uma atitude temerário, pois algum policial de fronteira poderia, em vez de retroceder diante o animal, querer que ela o mostrasse de perto, para averiguar se não tinha nenhum caráter clandestino em ter uma cobra viajando livremente pelas Américas.

  _ Eu tenho fé que um policia de fronteira não vai fazer caso de uma espingarda, Halp. Lá é uma terra de milícia e da lei natural, do cara um por si. Aposto que todos aqueles caminhoneiros e foragidos da justiça de outros países atrásde uma vida nova andam armados. A gente tende a ir achando ser uma coisa de outro mundo mas é a coisa mais corriqueira.

  O assunto da cobra envolvia uma preocupação de ordem de como manter um animal de três metros que era puro músculo alimentado. Martina levava uma pqueno zollógico de ramsters no bagageiro de cima. A técnica era mantê-los longe do apurado olfato de Gertrides, que poderia passar longas horas de transtornos sentindo o odor provocante da comida. Era um animal tranquilo, com a calma sobrenatural dos seres que detem certo conhecimento demoníaco indevassável. Uma sacertode milenar que estava em uma eterna oração muda, indiferente aos mesquinhos preceitos terrenos que a envolvia. Quando era hora do jantar, que era um evento feito uma vez a cada três dias, Martina retirava um rato do zoológico, pegando-o pelo rabo, e se preparava com uma solenidade puramente funcional para leva-lo em oferenda àquela deusa melifluamente gélida. O ratinho nem tentava fugir, na ignorância do destino que estava por sucumbir, se limitando a mexer os bigodes rapidamente não como contestação mas para desfazer-se de algum último desconforto, uma última reação que suas sinapses produziam de uma sensação de coceira.

   Martina pedia para que eu deixasse a porta traseira semi aberta. Somente um raio de sol incidia em linha reta até onde estava a cobra, como a luz que vem do átrio de uma igreja para iluminar o ícone devocional no altar. Martina falava palavras de carinho, como se fala com um bichinho doméstico qualquer, ou como se fala com uma criança. Não usava diminutivos, em deferência ao porte cerimonial da cobra, mas sua voz era sussurrante, ponderando frases curtas que terminavam em um retórico tom questionativo. “Você está com fome, princesa? Mas claro que a princesa está com fome”. Talvez não lhe escapasse o propósito muito profundo de afirmar a Gertrudes, naquela ação tão íntima de alimentação, que ela era a sua dona, que sem ela aquela pompa altiva e cheia de intuições inclementes não resultaria em nenhuma posição de poder, mas de fome e abandono. Talvez com aquela voz cheia de consoantes amenizadores da realidade indomesticável do animal estivesse a astúcia de Martina em dizer à cobra que ela era apenas um buda de brinquedo, um deus mais decaidamente mortal do que ela, pois sem aqueles cuidados de ter ratos em cativeiro itinerante que para a cobra eram preocupações ridículas de um mundo rebaixado ela não teria nem como ter aquela vida dentro do tabernáculo circunstancial da carroceria da Kombi.

  Mas Gertrudes não se dobrava, só acordando e se dignando a perceber a presença de Martina quando o odor do rato se fazia tão forte que os instintos da fome suplantavam os instintos da indiferença. Martina erguia com uma mão a parte de cima da gaiola e segurava com a outra mão o ratinho pela ponta do rabo. Tanto presa quanto predador ficavam em uma imobilidade alheia à física e mesmo aos papéis que cada um cumpria naquele sacrifício ritual. A cobra se mantinha em um substancial passo à frente no conhecimento de como se daria o desfecho daquilo, mantendo os olhos abertos e deixando toda a comburência que se acendia no núcleo do seu coração gelado aparecer no flagra de sua língua se projetando ansiosamente para fora. O pobre ratinho em um micro segundo, como se a tragédia milenar a qual toda sua existência se restringia lhe cobrasse sadicamente essa lucidez, percebia aquele ser multidimensional do tamanho de um mundo abaixo dele, a poucos centímetros, movendo-se com um vagar cheio de matemática e incontestável determinismo, e Martina alegava que sentia o corpo dele congelar. Sentia seu coração se encher de terror premonitório e parar, como se depois do sadismo viesse uma benção final piedosa que lhe poupasse do sofrimento. Ela abria a mão e o rato caía, e se todas essas predições de misericórdia fossem puro fruto retórico de Martina e não funcionasse bulhufas, ele não tinha tempo de sequer dar um mínimo movimento, pois a cobra o abocanhava com uma violência concisa, abrupta, como se toda a energia conservada durante esses três dias de puro imobilismo se gastasse naquela propulsão velocíssima.

   Trazíamos um saco de ração para hamsters e pequenos roedores, e Martina uma vez procurou no rótulo se podia ser usada para gatos.

  _ Você pensa em dar um gato para Gertrudes comer?_ perguntei.

  _ Não se perde nada com a curiosidade investigativa. Foi a curiosidade investigativa que fez com que essas estradas por onde vamos fossem desbravadas para a Patagônia. Quem pensaria em ir para a Patagônia a não ser os movidos por tais pensamentos intrusivos?

 _ Tá bom. Espero que essa sua imaginação desbravadora tenha pensado como deve ser segurar um gato de dez quilos pela calda por cima de uma anaconda albina.

 _ Eu não penso em dar um gato para Trudes, Halp. Eu sei que essa sua cabecinha com ideias humanitárias está cheia de apreensões sobre isso. Eu só leio o rótulo e, para seu governo, essa ração não é indicada. Não tem potássio suficiente.

  _ Nesse caso, uma ração menos nutritiva seria menos ou mais apta a um gato para fazê-lo mais receptivo a ser oferecido como almoço para uma cobra?

   Ela aceitava que o absurdo da coisa se desviasse para o alívio humorístico e seus olhos se semi fechavam.

  _Não conhecemos a situação dos gatos abandonados da Patagônia. O que eles podem caçar para sobreviver? Talvez já sejam naturalmente muito desnutridos e uma ração de hamsters os tornem mais sonolentos. Isso facilitaria bem as coisas, Halp.

  Mas quando chegamos a Hostachild, no Paraguai, haviam apenas mais dois hamsters. Dois pouco animados serezinhos de olhos vermelhos que comiam uma bola de ração como judeus rezando numa sinagoga, um ato impessoal que não falava nada sobre eles. Martina não me deixava alimentar nenhum tipo de consideração por aquelas criaturas, falando sobre o grau de estupidez que os condicionavam a ser as melhores cobaias científicas. Eu não lhes dirigia qualquer olhar mais terno do que dirigiria à cobra, e na verdade sentia que um ser suntuoso como Gertrudes merecia uma consideração honorífica mais elevada na escala biológica, mas Martina queria deixar meu distanciamento emocional absolutamente seguro para ela, me relatando que aquelas fofuras se distinguiam pela perversidade. 

  _ São ratos, Halp, só são movidos pela necessidade de se reproduzirem com extrema rapidez para formarem bandos de assassinos impiedosos. Se nós dois caíssemos mortos aqui, eles nos comeriam, disse.

   _ E Gertrudes ficaria feliz com isso por depois os devorar mais gordinhos_ eu provocava.

   Ela elevava os olhos no seu gesto contumaz de dispensar aos céus a minha ignorância, mas concordava que Gertrudes era tão impermeável à ternura quanto um terremoto. Ela tinha consciência de que a cobra não a reconhecia sequer como um outro ser vivo, visto não ter nenhum interesse em seu sistema de recompensas, quanto mais como sua dona. Mas todo dia tinha o momento de contato entre as duas, Martina retirando a cobra da gaiola e a segurando no braço com toda delicadeza. Falava com ela com suas entonações de princesa, fazendo-lhe carinho na cabeça, incentivando-a a se relaxar. Somente quando a sentia se enrolando em seu braço a ponto de o apertar, Martina então deixava de conversar com a cobra para estudar uma recepção preventiva àquele abraço. Pela cabeça de Martina deveria passar a compreensão do que o rato sentia quando caía naquele cadafalso e era tragado da existência. Ela se sentava, porque a cobra se tornava nesse momento inesperadamente pesada, e ficava em silêncio. Ela conhecia bem o animal, porque logo o susto passava e havia até uma espécie de troca muito intrínseca entre as duas, ela com seu braço imóvel e a cobra tornando a voltar ao seu sono.

   Quando chegamos a Hochstadt era a vez dela de dirigir. Chegamos quase seis da tarde e ela estacionou a Kombi numa rua que tinha o nome de algum general alemão, no que parecia as zonas mais periféricas do centro. As lojas estavam fechando, e os funcionários pegavam suas bicicletas ou se dirigiam a um ponto de ônibus na esquina. Um homem vestido com um macacão encardido, um cigarro jogando fumaça em seu rosto demasiado seco, desceu a porta corrediça de uma pequena loja e nos olhou, sem muito interesse. Talvez pensasse que fôssemos alguns clientes tardios, ou talvez, de alguma forma naquele generoso mostruário de carros velhos nosso veículo o tivesse impressionado de algum jeito. Saiu com um andar relaxado até um chevette uns dez passos à frente e avançou com  desenvoltura com o carro, de forma tão lenta quanto todo seu comportamento, e sumiu dobrando a esquina. Fazia frio e dava para sentir, talvez por puro fruto da imaginação, os primeiros ventos da pradaria retilínea do Chile. Respirávamos, de todo modo, o oxigênio que as correntes marítimas do Pacífico e da região antártica a apenas mil quilômetros para baixo fazia circular dentro de seu cone atmosférico, e isso nos enchia de êxtase.

  _ Vamos procurar um restaurante para jantar?_ Martina disse.

  _ É pra já.

 A tranca da porta do motorista não funcionava e tínhamos que amontoar nossas bagagens e sairmos estrategicamente por trás. Um ladrão mais determinado conseguiria abrir a porta mas teria dificuldade em empurrar aquele peso, o que no sistema esotérico de prevenção que nós desenvolvemos diminuiria um pouco as chances de sermos roubados se chegássemos a tempo. Por esses quilômetros que atravessamos isso nunca acontecera, de alguém tentar invadir a Kombi, mesmo porque de longe se via que não tinha nada atrativo a se levar dali. Mas era um cuidado intuitivo que a aproximação das raízes antropológicas daquela viagem tornava mais apurado, pela visão de como a solidão geográfica aumentava as artimanhas do ganho.

   Vimos que por sorte achamos uma das ruas mais tranquilas do centro, pois as outras laterais e perpendiculares o comércio ainda dava seus últimos resfôlegos de vida, com as lojas ainda cheias e pessoas e luzes todas acesas. O cheiro de fritura velha se sentia por todo lugar, o que correspondia com as sobras de mbejú e lampreado. Aquele cheiro rançoso, intermediado com um frescor subliminar de queijo e pimenta vermelha, mexia com nossos estômagos. O raciocínio ficava deixado em segundo plano, e coisas como asco ou a lógica orgânica natural do corpo em se fechar a insalubridades suspeitas eram substituídas por um desejo intempestivo por comer. Martina parou em uma barraca com uma índia gorda, de expressão impassível, com um turbante na cabeça. Nós dois não ligávamos muito por cuidados profiláticos quanto a higiene antes da viagem, e o fascínio de que ali nos obrigava a deixar de lado todo vestígio de escrúpulo nos deixava livres como seres adânicos no éden. Uma das minhas passagens preferidas dos evangelhos era a de Jesus admoestando um fariseu por ter cobrado dele e de seus discípulos que lavassem as mãos antes da refeição. “O que contamina vem de dentro”. A mulher tinha um queixo imperial, cesarianamente quadrangular, descente de reis toltecas que por mais distante que estivessem no tempo não retirara a certeza predestinada daquele rosto. Ela nos dirigira um olhar fixo que intuía uma generosidade puramente mercantilista, que irai se escoar depois que o trato comercial fosse concluído. Lemos no cartaz de papelão afixado no alto da banca e pedimos aleatoriamente, sem entendermos nada dos nomes paraguaios correspondentes às comidas. A mulher acendeu o bico de fogo debaixo do tacho de cobre com a linha de superfície dourada do óleo ponteada aqui e ali de ilhotas de gordura coagulada, e pegou da estufa onde estavam as matérias primas duas porções de uma carne afiletada que não se podia determinar de que animal era. Depois que ela fritara as porções com um virtuosismo silencioso de uma malabarista de facas afiadas, ela colocara a carne em duas massas finas circulares de uma espécie de pão ázimo à base de mandioca e nos entregara. Disse num espanhol melódico e monossilábico alguma coisa sobre os molhos em bisnagas dispostos no nível de nossos rostos, e disse o preço. Quatro guaranis. Eu segurei a comida de Martina para que ela pegasse o dinheiro que havia trocado na casa de câmbio na fronteira do Paraguai de sua bolsa, e depois que pagou seguimos comendo em frente, não sem antes untarmos a coisa com pimenta. Era delicioso e paramos um pouco à frente para olharmos se alguma névoa mística anunciativa saía da cabeça daquela xamã culinária, mas a mulher já juntava os materiais para encerrar o expediente. Suspeitamos que fosse carne de porco, mas poderia ser caburé frito que comeríamos com as bocas salivando do mesmo jeito.

   Pelas paredes do conglomerado de pequenas lojas pelo qual passávamos rumo a lugar nenhum víamos os retratos de cores desmaidas, que me lembravam as revistas pornográficas impressas em prensas clandestinas e vendidas nas bancas da avenida de março, com a figura de um homem com um quepe de um tamanho comicamente exagerado. O homem aparecia do busto para cima, vestido com uma farda negra, com franjas laranjas acortinadas e bastante chamativas nos ombros. Tinha quatro medalhas da mesma proporção grandiloquente grudadas ao peito, com cruzes de malta que pareciam lápides de ferro, que em mentes imaginativas não deveria passar despercebido o humor involuntário de ser uma caricatura sobre a queda do império romano bem mais duradouro do que aquela republiqueta dequinta categoria que era o Paraguai. Acima de um colarinho de onde se dependurava um pingente com um pentágono e outra cru, estava o rosto pintado para não ser nem um pouco ameaçador do general, com um ar convidativo de um dono de uma padaria de bolos. O desenhista não conseguira esconder uma volúpia nos traços afrancesados e no nariz fino e quebrado, revelando um ser para o qual não se esperava nem a mais remota e relativa grandeza. Ele parecia ser um contínuo de escritório com horas regradas para aproveitar suas lautas refeições à mesa, o que talvez fosse parte de toda a pretensão política deixar claro que seria a melhor coisa a se manter aquele estômago bonachão alimentado afastando assim das atribulações sanguinárias que aconteceriam se o povo não visse que aquilo era um feudo pessoal seu e não um país. Em seu peito atravessava uma faixa em roxo, branco e vermelho, onde dentro de um círculo ovoide mal traçado estava escrito Republica del Paraguay. E embaixo, terminava tudo com a informação contundente de que aquele era o General Alfredo Strossner, El Presidente.

  Do lado de cada porta corrediça havia um cartaz daquele. As cores eram baças e não dava para ver se era efeito da exposição ao tempo ou uma economia nacional das tintas.

  Chegamos a uma praça cheia de árvores e com crianças brincando em um parque. Sentamos no banco e Martina pegou o resto da comida e jogou numa cesta fixa de metal do outro lado, andando alegre acenando para as crianças na volta. Estava com a pele eletrizadas, prenhe de saúde. Seu olho que não via brilhava da mesma forma que o outro, o que aumentava minha suspeita infundada de que ela não era cega. Aquele seu olho cego parecia combinar bem com a multitude de raças e cores que víamos espalhadas por todos os cantos, os tantos alemães chicanos de olhos azuis e caras apalermadas, os índios de rostos cinérios cheios de uma encalacrada dignidade que não sairia dali nem às custas das tantas surras e martírios pelos quais a sucessão de governos despóticos havia feito. Um olho cego no nascimento, aparecido na consumação de uma das tantas doenças escondidas nos genes que vinham à tona devido à mistura de sangue, mas que mantinha a lubricidade, a engenhosidade vívida natural e a motilidade. De forma que Martina só me revelara o fato como por acaso, sem consideração alguma quanto à importância daquilo, só porque um dia mencionei uma fixidez a título de expressar um elogio.

   Tínhamos que procurar um local para tomarmos um banho. Não preciso dizer que para se predispor a um jornada dessas o espírito tem que vir com a intenção dos velhos timoneiros colombianos, para os quais as certezas da civilidade não passavam de comodismos afeminados. Nossos esforços por pararmos em cada posto de gasolina ou hotelzinho de estrada para alugarmos o chuveiro por uma hora deixou de ser umas das primeiras preocupações, ainda que uma noção bem fundamentada sobre as exalações de um corpo sob variações ambientais tão intermitentes nos fizesse felizes ao vermos mesmo um casebre de paredes perfuradas de balas de bandoleiros desde que tivesse o anúncio de preços de banho. Martina tinha alergia a perfumes, e o cheiro natural que expelia de seus sovacos e seu pescoço era de uma acidez defumada agradável, que depois se agravava com tons fúngicos intensos quando ela tirava as botas. Ela não tinha chulé, o que era algo realmente admirável, mas de seus pés vinham um odor de couro apimentado e árido, o que combinava com sua áurea de independências roceira. Ela tinha ciência dessas suas ambíguas qualidades e sempre se mantinha vigilante quanto a mim, para que eu não me cedesse ao relapso natural que ela via em mim quanto ao meus próprios odores bem mais excruciantes. Ela me comprara em Tiaz, numa botica artesanal, um pó de almíscar amargo e sempre me lembrava para esfregar nos pés e lançar duas pitadas dentro de cada sapato. Meus sovacos também exalavam um fedor tenebroso, mas eu nunca deixava de me lembrar de usar neles o desodorante spray.

   Saímos da praça depois de vermos o busto de outro general das antigas, tão das antigas que o atual não se importara em enxotar pois não haveria melhor esquecimento do que aquela exposição coberta de cagadas de pássaros. Paramos de frente a umas escadinhas que se afundavam entre dois estabelecimentos, um de empréstimos que prometiam juros baixos e uma engraxataria de sapatos. Na plaquinha vinha escrito “Pensíon Herman Boschwaldt”, um nome que nos induziu a subirmos para verificar como o que parecia um barão de uma casta consonantal tão magnífica havia decaído tanto. Encontramos um balcão vazio, espremido no alto das escadas, com uma poltrona de couro em boas condições de frente e uma luminária de luz amarela desgastada dobrada no alto sobre um livro de registros aberto. Um corredor que saía pelo lado mostrava as portas dos tantos quartos. Martina chamou “holá, tenie alguém aí?”, ao que ouvimos o som de alguém que parecia ter sido acionado a se levantar e que suspirava e tossia. Naquele começo de noite moroso em um país desconhecido, nossa curiosidade infantil esperava ver o que vigorava por debaixo da incansável mesmice universal, e tínhamos a esperança que aquele Boschwaldt recompensasse nossas expectativas. Apareceu passando pela cortina de miçangas um homem de cabelos brancos, olhos penetrantes que mesmo com sono nos olhou com uma reservada desconfiança. Tinha um bigode que lhe conferia respeito, legitimamente teutônico. E via que ao se apresentar havia vestido antes um casaco de sarja enrustecida. Estava acostumado a pessoas de todas as vertentes do espectro social para se assombrar com nossa aparência e na certa pensou que éramos um casal procurando um quarto alugado a horas, pois nos disse que os quartos transitórios infelizmente estavam todos ocupados. Martina sorriu me olhando, como que encantada que naquele momento a atividade sexual estivesse em pleno andamento para a manutenção da espécie, e disse por mim em seu espanhol pragmático que estávamos querendo um banho. O alemão, da mesma maneira impávida, se virou para pegar uma chave na gaveta e nos entregou, dizendo que haviam três chuveiros no banheiro do fim do corredor, mas que só um funcionava. Não sei por que ele mencionou a quantidade de chuveiros, talvez por alguma vaidade em mostrar que havia alguma promessa de requinte por detrás da aparência geral de espelunca do lugar. Eu disse de imediato que Martina poderia ir primeiro tomar banho, que eu esperaria. Ele concordou sem interpor nenhuma réplica, colocando sua mochila na poltrona para pegar sua toalha e sua roupa limpa de substituição na poltrona.

    Sentei na poltrona e o alemão ficou fingindo que escrevia alguma coisa num caderno. Colocara uns óculos que faziam seus olhos azuis ficarem disformemente liquefeitos à medida que a luz da luminária incidia um intenso brilho nas lentes. Eu procurava não olhar para ele, pois senti que ele me dirigia olhares que tinham a sugestão de discrição mas eram para serem incisivos. O erro dessa hora foi de ordem espacial, pois não haviam pontos suficientes de convergência a que eu pudesse deixar meu olhar em salvaguarda. Havia a foto onipresente do general na parede atrás dele, o que se percebia que foi removido para um canto, com a margem de liberdade garantida pelo poder da modéstia em não se acreditar que a polícia teria disposição a fazer batidas constantes em espeluncas assim. Além disso, o que tinha para ver era só o corredor, que mantinha em sua fixidez subequatorial as imagens de subdesenvolvimento matizadas de insinuações de crimes obscuros, trazidas pela memória da espécie. Senti algum alívio ao notar que no centro da parede atrás do alemão, no espaço onde Strossner fora ousadamente removido, uma foto em preto e branco de um outro homem. Seu rosto fora registrado de lado, numa posição que as fotos da época, metade do século, mostravam ter feito parte de certa tendência modística, como para enfatizar uma dinâmica postural de atividade que ao mesmo tempo tornava a testa iluminada por uma luz representativa de profundidade. O homem retratado se parecia com o homem no balcão, apenas que era uns trinta anos mais novo, mas tinha um estrabismo e uma falha nítida num distanciamento entre os dois dentes superiores da frente. De alguma forma que não sei explicar eu sabia que os dois não eram a mesma pessoa, que aquele senhor sinistro, desconfiado, cheio de valores pessoais postos em confronto com os meus_ um rapazola que tinha todos os traços que sua casta desprezava, a começar pelos cabelos e pela magreza nem um pouco militar_, era um prosseguimento daquele outro, um filho orgulhoso, o tipo de orgulho viril e irrevogável vindo de uma afronta que jamais poderia ser esquecida.

  Os dois tragos que carrulim que eu havia bebido acompanhando a carne de porco, uma combinação letal cuja única vantagem era atestar a indolente sensação de imortalidade da juventude, estavam alto no meu cérebro. As tristes reminiscências do corredor, que não vinham de lugar nenhum de minha experiência passada, só podiam ser alimentadas pela imaginação do álcool. Eu não estava nem um pouco melancólico e diante o olhar de uma reserva pressagiadora do homem minhas pernas balançavam de anseio por conversar. O que ele poderia fazer de mal a mim diante tal tentativa de socialização a não ser me desconsiderar até que Martina voltasse? Minha mente anabolizada pelo carrulim trabalhava languidamente, transitando por correlações entre aquele sujeito e o seu antepassado na foto como se lançasse eflúvios odoríficos pelo ar, eflúvios cheios da simpatia do perfume rançoso que para um ébrio soam como azaleia. Eu o olhava sem pudor, sentindo que em minha boca esparramou o sorriso matreiro que a bebedeira cobre com certo aval filosófico. Todo bêbado detém a filosofia de que o grande elo universal entre os homens é uma verdade incontestável a que ele chegou pela administração da dose certa.

   _ Fez a coisa certa_ eu arranjei por dizer.

  O homem parou de escrever num gesto em stacatto que tinha algo de suavidade, o que me encheu de segurança em continuar. Um gesto daqueles, com uma precisão tão infinitesimal, só poderia vir de alguém com vida interior. Adivinhei traços de serenidade no que antes tinha conjecturado ser misantropia, ou pelo menos o currilum adivinhara isso. Ele demorou uns cinco segundos para responder, o que nos pareceu testar a teoria daquele outro alemão que tinha descoberto a relatividade do tempo, pois que foram cinco segundos demasiado longos. Ele perguntou só para perguntar, para seguir um cronograma, pois havia entendido perfeitamente a minha observação. Sua voz tinha sim um sotaque alemão forte. Essas raças superiores tem uma trave atômica instalada no cerne de si mesmas que estabelece o limite a que podem permitir a miscigenação mesmo numa terra estranha, e ela passava pela irremovível permanência do sotaque. Vai ver aquele homem viera para aquele país longínquo ainda na infância, aprendera exemplarmente aquela língua cabocla enfeitiçada, mas ainda assim demonstrava como se fosse parte de seu virtuosismo um sotaque que era a sua maneira combativa de se fazer caricaturesco. “Como disse?”, perguntou. E eu apontei para o homem de certa maneira bonito da foto, mas com algo de decaimento burocrático, um certo plebeísmo cambiado pelo cotidiano de gabinete. Daí eu percebi, na lucidez instantânea que vem a inteligência do álcool, que era a foto de um militar. Aquele homem da foto era um militar alemão.

   _ Ele é mais simpático do que o general_ eu disse, cheio de pilhéria.

   _ Depende do ponto de vista referencial_ ele me respondeu, com as sílabas quase cantaroladas naquele seus trejeitos de sapateiro de aldeia. Um consertador de solados de tradição venerável de algum canto de Dorf, de olhar introspectivo mas sumamente gentil.

  Eu fiquei pensando no que queria dizer essa frase. A intuição perceptiva do álcool logo me deu as diretrizes, de forma fulminante, na mesma hora em que os óculos rajados de uma bandeira de luz branca deixavam ver os olhos cheios de desconfiança e asco dele me olhavam, por cima da armação. Ele ficou absolutamente em silêncio, escrevendo algo naquele livro que parecia ser interminável. Por se tratar de registros de hóspedes, haveria de estar escrevendo algum nome tão extenso que nem o costume alemão daria conta. E foi o que o durimil falou por mim, sem que eu percebesse.

  _ O senhor deve ter recebido algum conterrâneo polonês, de muitas sílabas, pois ainda não concluiu por escrever o nome.

  E dei uma risada que ecoou para meu grande estupor bastante alto, como se tivesse algum afunilamento acústico que atirara todo o riso corredor adentro. Ouvi uma descarga vindo do fim do corredor e cogitei que Martina havia usado a provada e só iria entrar na ducha agora. Um pesar me abateu por cima, como um presságio de que meu bonacheirismo postiço não iria aguentar por muito tempo manter aquela conversa.

  _ Por que citou isso, meu jovem. Por que citou um polonês?

  Ele havia deposto a caneta e cruzara os braços no tampo do balcão, se inclinando. Não havia mais nenhum traço de humor no rosto dele. Ele parecia disposto naquela hora a explorar todas as nuances obscuras de provocação que ele achava existir no meu inocente comentário.

  Eu me sentei num pulo, me aprumando de maneira mais séria na poltrona, e disse que era só uma brincadeira, eu não estava querendo dizer nada com isso.

 _ Mas foi uma escolha de palavras inusitada, logo após de se referir a meu pai_e se inclinou ligeiramente para acentuar o retrato na parede_ e depois falar que eu estou escrevendo um nome de um polonês em uma lista. Você com certeza está se julgando muito bem informado sobre mim e meus antepassados.

 _ Pois eu não sei nadado senhor e dos seus antepassados. Nunca vi o senhor antes na minha vida e venho de muito longe, não sendo desse local. Não teria como ter nenhuma informação a seu respeito, pois estamos de passagem. Só queremos uma ducha, e depois o senhor não nos verá mais.

  Ele se colocou imóvel, na mesma posição de braços no balcão. Parecia analisar cada palavras minha como se enfim tivesse aprendido o espanhol trôpego que eu falava há pouco tempo. Eu mesmo me vi rememorando o que eu havia acabado de dizer, a fim de ter certeza de que não tivesse falado uma estupidez sem igual. Talvez a leitura de William James em espanhol, que eu havia comprado para a jornada, e que eu fazia pelo menos vinte páginas por dia, não tivesse me dado o nível de aprimoramento que eu imaginava para me tirar ao menos de problemas básicos. Mas nada me pareceu fora da ordem, e nem tão pouco passível de molestar aquele homem de algum modo. Sua fixidez em mim começava a me perturbar, e eu resolvi o encarar de volta. Mantive seu olhar com uma temeridade nervosa, o que o fez perder o jogo desviando os olhos. Mas o fez sem que denotasse uma vitória gestual retórica para mim, pois entrou num movimento lento e decidido pela cortina de miçangas. Eu torcia para que Martina aparecesse logo, mas tendo agora tempo para apurar os ouvidos, escutei a ignição metálica da torneira sendo acionada, um trinado fino e cortante que veio do fim do corredor, e então ouvi o som do chuveiro. Ela iria lavar os cabelos e aproveitar até o último guarani, mas afinal de contas era o mais seguro a se fazer ter eu ficado ali de frente àquele filho ressentido de um soldado alemão e não ela. Quando ela voltasse, eu daria um jeito de sinalizar para ela me esperar fora do prédio, e eu daria uma forma de lavar bem lavado os sovacos, os pés e as partes íntimas, para logo darmos o fora dali.

   Passaram-se cinco minutos, em que não dera prazo para que eu abaixasse a guarda, ficando atento ao mínimo movimento. Daí ele voltou com uma caixa de madeira bem feita, sólida e negra, com as beiradas ligeiramente corroídas mostrando o desgaste inevitável dos tantos anos. Colocou a caixa no tampo e a abriu, sem me dirigir um olhar sequer. Seu bigode, que em um mundo alternativo em que as insinuações históricas que me vinham fugazmente sobre a razão de se ter uma cidade alemã em pleno território paraguaio fossem menos eloquentes, conservaria o ar de simpatia com os descansados chinelos nos pés de um tio amistoso. Mas ali o bigode ficara mais inflexível e com a aparência de uma morsa de pelos crespos, formando um volume seco e queimado pelo excesso de sol acima de sua boca. Ele então retirou um objeto enrolado em um pano de seda muito fino, de cor marrom feio e distinto, e o colocou do lado. Me olhou, mantendo o bigode de novo retilíneo e intocável, imune a qualquer manifestação sensorial. Desdobrou o pano em dois movimentos laterais e retirou uma pistola, a erguendo com uma mão com o cano apontado para a parede.

  _ É uma luger semi automática usada na segunda guerra por esse homem. _ e deu uma guinada rápida com a sobrancelha para seu pai_ Aposto que o general Strossner nunca teve que matar um inimigo, seja de qual nacionalidade fosse, se polonês, ou francês, ou belga, ou um dos miseráveis bolcheviques. E suar para isso uma arma que gerou o protótipo de todo o exército desse país.

    Era nítido que se tratava de uma arma bem velha, que talvez nem chegasse e disparar, mas isso não aliviava em nada minha apreensão. Eu não ria me levantar e chegar próximo à ele, que antes me parecia sinistro e agora com uma coisa daquelas poderia assumir todo tipo de situação desconfortável, se era isso que ele esperava. Eu fiquei calado, já sem conseguir ouvir nada que vinha do corredor. Umas estrelas negras surgiram no meu campo visual e eu atribuí ao efeito da súbita diluição potencialidade pelo fígado prevendo ter que destinar uma concentração de energia extra para uma eventual fuga. Se eu permanecesse ali na mesma posição, com meu corpo se preparando de forma autônoma para um exercício físico extenuante, me fez pensar se essa desproporção de intenções não poderia gerar um desmaio. E havia o estômago, que refluía fitas de ácido cortante para minha garganta.

  _ Essa Luger matou sete soldados poloneses na batalha de 1939. Meu pai alvejou um polaco na testa, a bala perfurando o capacete. Estava detrás de uma moita, sob um frio de vinte graus negativos, e meu pai o viu somente quando ele pulou da moita para cima dele. Nesse caso o comando alemão cuidava de maneira muito melhor de seus soldados do que os comandos polacos e bolcheviques. Ao menos o erário de Berlim destinava recursos para botas resistentes e pós antissépticos que evitavam a gangrena fúngica. Já ouviu falar de gangrena fúngica?

  Eu não respondi, entorpecido por aquele sotaque que ficava mais pronunciado. Era como se eu estivesse diante um nazista, em algum filme hollywoodiano, e o sujeito ressaltava propositalmente tal impressão exagerando nos “erres” e no tom de escarro queimprimia no final de cada sentença.

  Eu me levantei mas fiquei de frente a ele.

  _ Meu senhor, eu não quero confusão. Quero dispensar o banho, e só vou esperar minha amiga sair para irmos embora.

  Ele fez um gesto de surpresa me olhando por cima dos óculos, com a arma deitada nas mãos. Parecia decepcionado com aquela minha atitude, e de maneira até mesmo surpreso. Como se o didatismo empenhado que estava usando para me educar de súbito tivesse sido rejeitado com uma indelicada falta de respeito.

  _ O senhor já pagou, meu rapaz. Aliás, sua amiga o fez. Ficaria ruim se desfizéssemos um trato mercantilista nessa altura.

 _ Não precisa me devolver o dinheiro. Só peço que me deixe esperar aqui mais um pouco_ e inclinei o corpo para olhar para o fundo do corredor. Com uma intrusão de um elemento de surrealismo a mais, se ouvia a voz de Martina cantarolando um bolero. Cantava baixo, mas a acústica do corredor se revelara com uma fluidez inusitada a ponto de fazer a voz de Martina chegar de forma nítida até nós. Eu olhei para o alemão e vi que ele apreciava a voz, o que me fez, não sei por quais correlações íntimas e obscuras, ver o perigo de alguma sugestão sexual. Até então era uma conversa quebrada sobre temas nebulosos, ambiguidades que levadas com a suficiente evasiva pacifista poderiam não dar em nada sobre orgulhos nacionais. Eu queria que a Polônia, a Alemanha e aquela terra de índios se explodissem.

   _ Sua amiga tem uma bela voz. Eu só espero que não incomode os outros inquilinos.

  _ Temos um trato então. Eu tenho que cumprí-lo. O senhor não tem outro chuveiro para que possa me banhar, sem ter que esperar por ela?

  Ele suspirou, e então fez algo inesperado. Eu havia me aproximado do início do corredor, tentando de maneira estúpida ver Martina, mesmo sabendo que seria uma intromissão inadequada e fisicamente impossível, pela porta estar fechada. Eu estava à mão do homem, e foi isso que ele fez, me pegou pela manga da camisa num movimento pesado mas preciso, e me trouxe para bem perto de si.

   _ Você quer bancar o engraçadinho com essa história de eu estar escrevendo um nome polonês, não é? Um hippie fedorento e drogado como você, que veio sabe-se lá de qual canto desse amplo território de primitivos. Só porque você tem a pele branca, a barba rala, e essa altura que revela que alguma bisavó sua índia teve a felicidade de ser deflorada por um foragido italiano, se acha no direito de vir me ofender, um Walgnestein, me chamando de nazista. E dizendo que meu pai, por ter servido por obrigação incontornável, ao exército de Hitler, deveria ficar numa posição subalterna menor que a do general Stroessner. Você é um delator, não é, seu hippie de merda.

   Ele falava com uma voz moderada, refinada em um tom admiravelmente controlado para ser mais baixo, e eu sentia pelo ar respingado de saliva que atingia minha orelha que um orgulho primordial havia se mantido inviolável nele. Senti o cheiro de uma colônia não de todo popular em seu hálito, como se ele tivesse improvisado uma solução de pasta de dente, anis e álcool para fazer gargarejos. Eu ficava instintivamente de olho na arma, que naquele momento fugira ao meu ângulo de visão, e então o ímpeto adrenérgico que meu corpo havia preparado para aquela ruptura da noção de segurança transbordou pela minha circulação sanguínea. Num movimento de desvio elíptico em que eu ao mesmo tempo me livrava de suas garras e virava o tronco como movido por uma roldana hidráulica, me permitindo ver tudo o que transcorria da cintura para baixo do homem, minhas mãos cataram a pistola num bote preciso. Minha mente não se permitiu se descuidar com as brechas de irracionalismo inconsequente surgido nessas ações, me impondo que mantivesse a pistola apontada para baixo, não a direcionando a ele. Ele me olhou com os olhos arregalados de choque, sua respiração se tornando cheia de falhas que ele puxou com força para suprir os pulmões. Colocara as mãos para cima, não estendendo os braços, ficando com os anti braços em ângulo reto. Veio-me à cabeça que ele era velho demais e deveria sofrer de algum tipo de reumatismo.

  _ Eu não vou apontar esse troço para você. Eu nem sei se isso realmente funciona.

 _ Você não sabe manejar uma arma_ ele perguntou, sem inteção de revidar. Parecia considerar que minha figura degenerada era suficientemente convincente para passar por sobre aquela falha de conhecimento e o ferir mesmo assim.

  _ Eu não preciso saber isso isso, senhor. Só a peguei por um ato reflexo de proteção. Sendo assim, é melhor agirmos com cautela porque eu ainda estou bem dominando pelos meus instintos.

  _ Escute, você poder ir embora. Se m permitir abaixar os braços vou pegar o seu dinheiro.

 _ Se se mover por agora, eu não sei se poderia manter controlados os meus atos reflexos.

  Ele ficou com os braços erguidos. Não fechava a boca, o que me deixava incomodado. Um alemão tão cheio de poses e pompas não controlar o peso da mandíbula me soava como alguma espécie de ardil.

 _ Pode abaixar os braços, por favor.

 Nessa hora me veio um receio profundo, paranoico, de que a polícia fosse aparecer a qualquer momento. Minha condição era insegura em todos os sentidos, e a fraca ilusão que Martina e eu brincávamos de alimentar de que tivéssemos alguma insinuação de seres a serem deixados em paz me parecia ridícula. E passei a suspeitar que aquele sujeito não deveria estar ali sozinho, haveria de ter uma esposa, ou um filho que reproduzisse por mais uma geração aquela cara espúria de perversidade protocolar do nazista da foto. Eu me inclinei para ver se Martina não estava vindo, mas o som do chuveiro e da cantoria agora reduzida a murmúrios (deveria estar lavando os cabelos e mantendo a boca fechada para que o xampu não entrasse) ainda continuava. Meu corpo teve um relaxamento súbito, como se o fígado tivesse enviado ao cérebro que acabara de concluir a questão, e eu de imediato virei a pistola com o cabo em direção ao homem e a entreguei.

  _ Tome aqui isso.

  Dava para ver que ele nutria um comportamento íntimo de soldado, apreendido talvez pelas memórias que o pai deixara escrito das trincheiras para seu usufruto particular, pois ele pegou a pistola com uma gana selvagem, desesperada e radiante, e a virou dessa vez sem a menor reserva para mim.

  _ Ei, ei. Abaixe isso. Não há por que mais continuarmos com essa._ eu disse, numa voz tão equilibrada e madura que foi o que ele fez, abaixou a arma.

  Eu tornei a me sentar na poltrona sem olhá-lo, mas um vestígio preventivamente útil de me ater ao mínimo possível de relevante que estava transcorrendo na realidade me fez ficar com toda minha percepção voltada para ele. Pelos cantos dos olhos o vi se sentar e colocar a arma de volta na caixa. Ficamos por bons cinco minutos nisso, em silêncio, ou talvez mais.

  _ Em outra situação isso não teria acabado bem_ ele me disse, de forma branda.

 Eu vi que ele abaixara a cabeça. O grande bigode seco com as pontas em riste despenteadas apontando uma para cada lado.

 _ Mas devemos ser agradecidos por isso_ ele concluiu, e me olhando, perguntou: vai querer o dinheiro de volta?

 _ Se tudo estiver bem para o senhor, eu gostaria se tomar o banho.

 _ Tudo bem.

 Martina chegou na mesma hora toda vestida, os cabelos molhados com a cor escura conferida pela água. Parecia frágil e sensual, não o portento cerebral cheio de ironias dialéticas. Estava vestida com uma blusa com babados na gola que desciam ao meio de onde estavam seus seios. Só podemos ver isso, ou pelo menos eu o vi_ não me mantive atento ao alemão para notar alguma dessas peculiaridades_, porque ela descera a grande toalha azul turquesa felpuda que ela tanto adorava dos cabelos e a enrolava nas mãos. Usava uma saia festiva, que era sua assinatura insubjugável, uma de suas saias que pareciam ter sido feitas sob sua determinação de não atender a nenhuma moda, sendo de um vanguardismo antigo e de certa forma charmosamente obsoleto. Ela se julgava com razão tão perceptiva à constante de irracionalismo cotidiano que eu senti certa piedade diante sua descansada ingenuidade da atmosfera do ambiente. Ela estava radiante, rejuvenescida. Seus traços morenos em seu rosto fino e delicado expressavam uma lubricidade vivificante, que me contaminou me tirando em parte da apreensão. Eu peguei minha toalha da mochila, o pote fechado com um velho sabonete de bordas todas enrugadas pelas sucessivas condensações, peguei meu chinelo, uma bolsinha com o xampu e os apetrechos de higiene bucal, e uma das sacolas de supermercado de guardávamos para colocar as roupas sujas, e fui para o banheiro. Um casal acabava de abrir a porta de um dos quartos, um homem baixinho careca, com ar de quem fora duplamemte devastado em sua humildade de caixeiro viajante pelo mulherão moreno e atarefado em puxar a barra de seu vestido para baixo e que dava quase o dobro de seu tamanho. A mulher se esbarrou em mim e me pediu desculpa com uma voz aflautada poderosa, me passando a mão pelo ombro como se para ver se aquele seu corpo libidinosamente bem provido não havia me machucado. Ela me falou em alemão, Es tut mir leid, meine Liebe, o que me fez achar que ela me tivera como um dos moradores da cidade.

   O local de banho tinha uma privada e era bem limpo. Martina havia suado de forma primorosa o rodo que estava deitado com o cabo à parede. Eu me sentei na privada e me aliviei, agradecido pelos confortos da civilização, num estado de despojamento que para mim aquele pequena demonstração de um luxo suficiente bastava. Depois liguei a ducha e, para minha total decepção, a água estava gelada. Tentei, usando a ponta do cabo do rodo, resolver o problema mexendo no dispositivo de mudança de temperatura do chuveiro, mas a água continuava gelada. Enfrentei os arrepiantes filetes que caiam em quantidade profusa me movendo para debaixo deles em parcela, primeiro molhando meus braços, depois as coxas, a virilha, e só depois, ainda sem ter surtido qualquer atenuante na sensação ártica da água, molhava a barriga. Escovei os dentes enquanto lavava os cabelos com o xampu mentolado. Meus dentes sensíveis da arcada inferior atrás deram seus apitos de dor diante a temperatura gelada, e eu fiquei com uma quantidade de água segura na boca fazendo gargarejo até que ficasse mais quente, daí distribuí pelos dentes e a dor passou. Nós já tínhamos tomado banhos em diversas partes da jornada para eu saber que Martina amava as altas temperaturas, de forma que não era possível que ela tivesse se lavado naquela água. A luz do teto, vinda de uma lâmpada alojada no fim de um fio trançado, mostrava que não se tratava de um corte de energia. Mesmo assim, finalmente percebi que meu corpo não refutava de todo aquela agressão, se permitindo ficar por um tempo totalmente debaixo do jorro do chuveiro. A vantagem é que o pequeno espelho grudado acima da pia não embaçou, e eu pude me vestir e pentear o cabelo estudando as mudanças que as intempéries naturais e da sociologia haviam produzido em mim naqueles dias. O ato de evasão à aparente única opção de saída pela violência, que fora meu gesto por mim naquele momento diante o espelho ainda incompreensível de entregar de volta a arma ao alemão, parecia ter angariado um ar de sensatez ao meu rosto. Será que enfim você está encontrando o que sempre procurou, Halperin, minha mente falava. Aquelas vagas de fúria e desolamento finalmente encontraram uma fístula em seu aparato espiritual para serem enxotadas? Sem prejuízo de ninguém e para maior engrandecimento de sua alma.

   Já vestido e com o corpo restaurado em grande parte da sobriedade, de volta à saleta vi que Martina não estava mais lá. O alemão atendia dois casais de índios, aliás um de índios e o outro de um índio cholo e uma loirinha de ar enfastiado e gordinha, que triturava um chiclete com uma constância fordiana que parecia manter toda sua paciência com aquela vida no mastigamento. O alemão fez que não me viu, e eu saí com o corpo encolhido pelo canto da parede, segurando meu casaco. Martina estava sentada na calçada, de frente ao hotel, a luz daquela pobreza dimensional que era todo cenário caída sobre ela com uma certa ternura, como se fosse uma velha avó lelé da cuca já despojada de seusr recursos mentais para apenas mantê-la sentada no colo. Ela estava com uma garrafa de cachaça na mão e a bebia contemplativamente, já tendo olhado o suficiente os meandros daquele material de janelas, lixo e sombras tentando reter uma fímbria da poesia inalcançável delas, e agora se voltava para alguma profunda região interior. Não me viu chegar, o que me fez pisar um pouco mais forte para não assustá-la. Ela despertou de uma vez e se levantou, segurando a mochila e a garrafa. Queria também dar o fora daquele lugar, o que me fez respirar aliviado pensando no aconchego da Kombi.

  _ Como estamos longe de casa, querido.

  _ Essa cidade de nazistas parece estar longe da realidade.

  _ Se desentendeu com o carrasco do hotel?

  _ Sim, bastante. Ele me apontou uma arma.

 Ela me olhou sem parar o passo. Seu olhar ficou subitamente preocupado, sem direito a brincadeiras.

 _ O que você fez, Halp? Você não reagiu, espero.

E, irracionalmente, ela começou a me olhar de alto a baixo mas depois ficou tranquila, sabendo do absurdo que seria acreditar que o alemão tivesse disparado a arma em mim.

 _ É melhor não falarmos disso. Deu tudo certo. Ele cismou que eu estivesse tripudiando de um avô dele, que estava na foto do retrato.

 _ Eu deixei a pistola na Kombi. Seria muito problemático trazer ela, numa situação dessas a confusão assumiria níveis estratosféricos.

_ Eu acho que ele era, afinal de contas, bem civilizado. Até mesmo do ponto de vista tecnológico. De alguma forma que eu não sei como, ele tinha um dispositivo que desligou a água quente do chuveiro.

_ Puta merda, Halp. Você tomou banho num frio desses na água gelada_ e ela soltou uma grande gargalhada.

_ Sim. Talvez seja um arranjo novo que esses refugiados de Hitler tenham desenvolvido em Auschwitz

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Um pouco mais

 



Esse quadro se chama "Os heróis espirituais da Alemanha", de Anselm Kiefer. Nele tudo é de uma gritante ironia, mas que, num primeiro momento, não é perceptível. "Nada é mais difícil para o homem de ver do que o óbvio", disse o stáretz Zóssima, em Os irmãos Karamázov. O quadro mostra um grande galpão de madeira, cheio de potentes tochas festivamente e levianamente acesas. Quem seria o tolo em colocar essas chamas em uma estrutura assim? Todo um povo, levado pela adoração dos porcos "heróis espirituais". Kiefer vai além nas referências: a aparência de um abatedouro, de uma câmara de gás; a rusticidade das vilas alemãs de onde saíram as "pessoas simples" dispostas ao massacre. Ontem, pela primeira vez, eu rezei pelo Brasil. Eu sempre rezo para questões pessoais, para serenidade, para proteção dos que eu amo, mas nunca rezei para algo tão material e ao mesmo tempo abstrato como um país inteiro, um povo inteiro. Eu pedi, com muita sinceridade, a Deus, que esse não seja o nosso destino, que a gente não tenha essa sina pra pagar. Eu tentava aquietar em mim a consciência de que estaríamos todos fadados a pagarmos nossos imensos pecados como povo, e pedia a Deus para desconsiderar. Mas nossos pecados são imensos, pesados demais. "Senhor, alivia esse nosso carma, prorrogue um pouco mais o prazo". Nós somos um povo que fomos contra todas as nossas bençãos: fomos contra a nossa maravilhosa miscigenação e saúde, a nossa paz de espírito, ginga e simplicidade. Hoje vi uma mulher gorda em uma bicicleta, com a cara onde se lia todas suas antigas e entremeadas dinastias, sentia-se toda a dança de inumeráveis raças em seu sangue. Eu a achei muito bela, mas ao mesmo tempo algo em mim falou: ela é o tipo que é condenado, o tipo pardo, o tipo "inferior". E ela mesma, talvez (Senhor, que não seja assim), através das invocações que recebe ali parada pelo celular, não se vê, ou se vê distorcida. Que enorme pesadelo real seria saber que ela também vota na besta. Eu tenho um avô índio, um pai negro, uma avó espanhola, um outro avô português. Meu cão de raça morreu com cinco anos, após comer um rato; minha cadela vira lata comeu vários ratos, pássaros, sapos, e é viva e linda. Ela tem a infalível auto suficiencia dos mestiços. E assim somos todos nós, brasileiros, essa é a nossa grande benção. E traímos tudo isso. Peço a Deus que nos continue abençoando em não sermos interessantes para a história, em não vivermos "tempos interessantes". Que nossa inocência, que durou tanto tempo_ muito mais do que de todos os outros povos_ e contra a qual viemos brincando perigosamente investindo contra ela, que nossa inocência ainda perdure. Um pouco mais senhor, estenda um pouco mais o prazo. Amém!

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Benjamin Lay

 


Eu sempre fui cristão. Estudo religião desde muito tempo. Minha estrutura mental e espiritual é religiosa. Leio a Bíblia todos os dias e já a li duas vezes por inteiro. Eu digo com toda certeza que estamos vivendo a era do anticristo. Bolsonaro é o anticristo. É um fato que grita aos olhos. Pela sua obviedade não vista pelos que o seguem se pode ver que o anticristo vem se fantasiado de cristão. O anticristo é um Cristo vazio, de pesadelo, que repete palavras vazias e faz o contrário. É um cristo palhaço, pornógrafo, pervertido, simiesco, demoníaco. É um predador perverso e sem piedade, cuja missão é a destruição completa. Os Bolsonaros são essa pessoa. O anticristo detesta o verdadeiro Cristo. Toda sua mensagem é uma zombaria da palavra de Cristo, é uma distorção cínica, brutal, violenta.  Minha visão sobre isso não vem de igrejas, que é de onde o anticristo tem seu púlpito, e nem se baseia em maniqueísmos simplistas. Essa guerra espiritual, esse domínio do anticristo, é um evento material, político, intrinsecamente cotidiano e presente. Por isso esse momento exige interioridade, concentração, e a estranha paz do que sabe estar do lado certo, do lado do verdadeiro Cristo.


Meu Jesus não é o do Malafaia, não é o dos evangélicos e dos católicos. Meu Jesus é o do apóstolo Tomé e seu evangelho, é o de William James e John Milton, o Jesus de Benjamin Lay, de Swedenborg, de René Girard, de Kazantzakis, de Dostoiévski e Tolstói, de Jung, de Jack Miles e Rudolf Bultman. Um dia (e vou contar isso não por hipocrisia da minha mão esquerda ver o que fez minha mão direita, mas porque sinto que devo contar), um dia..., eu estava em Goiânia, num posto de gasolina, abastecendo meu carro. Um mendigo se aproximou de mim e me pediu ajuda. Eu tirei míseros 25 reais (que era o único dinheiro que eu tinha) e lhe entreguei. Ele simplesmente não acreditou. Ele agradeceu, se afastou até a esquina, para que eu não o visse, estendeu os braços e orou. Ele chorou e rezou. Eu fiquei tão tocado com isso pois vi que ele tinha mulher e filhos, e aquela mixaria faria uma diferença enorme para ele. Meu Jesus é o desse cara. Meu Jesus vem do intelecto e da arte, mas também da pieguice e da simplicidade mais rasteira. Vem de Buda, vem do zen, vem do Desperto. Vem da comunhão mais profunda. Vem do padre de Os miseráveis, na cena mais linda da literatura, convertendo Jean Valjean. Eu tenho uma alma e a conservo íntegra nesse tempo em que quem não a respeita e não a leva a sério será destruído. Meu Jesus é Platon Karataev e o débil mental de Bulgákov. Meu Jesus é esse ser de uma tristeza infinita pelo estágio de atraso espiritual humano desse quadro de Ivan Kramskoi.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A poderosa risada

 


A Dani entrou para fazer a cirurgia cardíaca hoje às 5 da manhã. Eu fiquei na sala de espera lendo sobre o zen-budismo. Antes a Dani tomou banho no hospital e quando se sentou para esperar pelo enfermeiro com a cadeira de rodas eu apontei o cartaz que fala sobre retirar todos os adereços e lhe perguntei se ela tirou o piercing "lá de baixo". "Tirei essa noite e coloquei no seu pênis", ela respondeu. O zen-budismo fala sobre a gargalhada libertadora, a "poderosa risada". Mas o zen-budismo é muito frio. Principalmente para alguém que necessita de alguma entidade metafísica pra rezar e pedir pela proteção da pessoa que ama. A Dani acertou o Pix do lanche da semana de nossos filhos na escola na madrugada de ontem, no hotel, seis horas antes da cirurgia. Ela me disse que quando eu voltasse para nossa casa, há 170 quilômetros, eu não fosse ouvindo música clássica para não ficar com sono no voltante. Ela me disse para ouvir rock, alguma música bem agitada. "Mas eu estou há anos na fase do jazz, Dani", eu lhe digo. "Então escute Freddie Hubbard e Joe Henderson e John Coltrane, mas não Bobby Hutcherson. Vibrafone tem efeito entorpecente. E jamais Chet Baker". Eu fico oito horas esperando, lendo sobre o zen-budismo. O zen-budismo é frio, não crê na transcendência, não crê na glória. Meu nome é anunciado e eu vou para a ante sala da cirurgia. A Dani está bem. Eu vejo os médicos e as enfermeiras como seres benevolentes em um estágio de extrema pureza. Choro quando eles me apertam a mão, não consigo evitar. O zen-budismo diz que os Budas passam os dias bebendo chá e comendo arroz. O zen-budismo diz que devemos ver todo o universo em um grão de areia. Daí me dou conta: o zen-budismo não crê na glória porque acredita que já estamos nela. Ele não crê na transcendência porque já estamos na transcendência. Me parece uma parcela de iluminação ter esse insight, e eu sou assolado por uma alegria imensa. A alegria da Dani estar bem, da sombra desses quatro meses ter se dissipado, da ameaça do meu pesadelo recorrente da solidão não me atemorizar mais. Nós já estamos na glória, como isso só me ocorreu agora? Tudo já aconteceu e nós estamos na glória. E eu faço mais uma oração e não quero mais nada do que beber chá e comer arroz por toda a infinitude com ela, a Dani.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Divan, o bobo

 




      Meu nome é Divan e todos aqui hoje dizem que eu sou um homem honrado, apesar de antes todos dizerem que eu era tão bobo que tinha a inteligência de um menino de oito anos. Moro em uma cidade pequena, onde as pessoas ficam no café da rodoviária papeando de manhã à tarde, as mulheres levam seus filhos à escola pentecostal e há número suficiente de homens trabalhando na construção para dizermos que há alguma prosperidade. E todos, talvez com uma ou outra exceção que se mantêm em silêncio, sabe-se lá por asco ou sentimentos piedosos reais, gostavam de gritar e fazer troça comigo. Divan, você sabe que na represa o pescador Simão pescou um jacaré de três cabeças?, um me falava, esperando que eu ficasse tão assustado que parasse de pescar na represa municipal. Divan, você sabia que agora o governo decretou que o valor do tesouro nacional é computado em caixas de fósforos e rico é quem tenha um grande estoque de caixas de fósforos em casa, e não dinheiro no banco?, me disse o agiota Miltinho, o que me fez me espantar por ele mesmo não estar preocupado por ter tanto dinheiro no banco.

   Como eu sei que todas essas pessoas no fundo me querem bem e são cidadãos que zelam pelo bom andamento da sociedade, eu limpei a caixa do que ganhei vendendo picolés no carrinho pela cidade e comprei no armazém do Ernesto dois pacotes de caixas de fósforo. Foi o que deu e eu pensava em passar mais duas horas da noite diante as portas dos botecos para ver se vendia mais picolés para converter o dinheiro em caixas de fósforos quando Pequete, o sobrinho do Ernesto, que passa os produtos pela máquina registradora, me disse que era mentira, que o governo não havia tirado o valor do dinheiro.

  Só achei que ele deveria ter me contado isso antes de concluir a venda, assim evitaria de eu ter que levar aquele tanto de caixas de fósforos para casa e com meus bolsos vazios. Fiquei toda a semana sem ter com que comprar o arroz e a carne de sol para meu almoço, mas não se pode ir contra a norma sagrada do comércio. Miltinho dava convulsões de riso e os rapazes que sempre ficam atentos a tudo que ele fala de frente à padaria, desocupados e felizes por tantos momentos de alacridade, zombavam de mim, perguntando se eu poderia acender a ponta de seus cigarros. Até poderia, respondi a um deles, mas as caixas de fósforos ficaram em casa. Eles riam ainda mais, quase elevando a capacidade de seus pulmões a um nível sobrenatural. Miltinho me chamou, ainda com a voz cheia de ginga e os olhos cheios de possibilidades humorísticas a serem exploradas comigo, e me pagou um pastel e uma tubaína. O que me foi bastante compensador pois eu não tinha absolutamente nada para comer naquele dia, graças às benditas caixas de fósforo, que ficaram estocadas sem poder ser usadas pois eu não tinha por que acender a chama do fogão.

  Uma dia, a dona Odene, dona do barraco onde eu morava, me chamou à casa principal e disse que seu filho iria se casar.

  _ O Souza vai se ajeitar com a Marlene. Não era o que eu queria. Que futuro pode ter se casar com uma ensacadeira de supermercado, ainda mais ele que não tem trabalho nenhum. Mas Deus proverá_ e suspirou, aparentemente sem acreditar muito no que dizia.

 Eu fiquei com o chapéu apertando nas mãos, procurando alguma palavra de congratulação para dizer, uma vez que se ela me chamara ali para contar isso era porque queria ser parabenizada.

  _ Fico muito feliz. Que Deus abençoe seu filho e sua respeitável esposa. E que venham muitos netos saudáveis.

 Eu tinha ouvido essas palavras ditas pelo padre no casamento da Bianca com o Salomão da loja de móveis, na festa da praça, e fiquei envaidecido por inesperadamente poder usá-las. Mas Odene me olhou contraindo a boca e dando um muxoxo.

 _ Não é para te convidar para esse acidente em percurso que eu que te chamei aqui, Divan seu tonto. Os dois vão ter que morar em algum canto, e não há outro lugar além do barracão.

  Então, eu tive que sair do barracão dois dias depois. A sorte é que eu só tinha o colchão, que o candidato a prefeito Filisboa Nunes havia me dado ano passado em troca de que eu votasse nele. Foi uma pena eu ter chegado na mesa de votação e sido informado pela moça que recebia as assinaturas que não tinha título eleitor e por isso não poderia votar. Sempre que eu via Filisboa Nunes pelas ruas, uma vez que ele teve que voltar a mascatear tecidos saindo anunciando pelo alto falante do carro, eu achava que ele tinha perdido por conta da falta do meu voto. Eu não sabia como contar isso para ele e me sentia muito mal ter que desviar o rosto e me fingir de desentendido. Eu não tinha nenhum peso que tivesse que levar comigo e o fogão que eu não usava há uma semana era do morador anterior ou mesmo da dona Odene, eu não sei. Dei as duas caixas de fósforos para ela, não conseguindo evitar uma sensação de que deveria agir com mais discernimento quanto à possibilidade de que o que o Miltinho dissera não poderia ser uma profecia que nem ele soubesse e elas um dia viessem a valer uma fortuna. Eu sabia que Deus não me dera um cérebro de um homem adulto, mas por Seus desígnios secretos que pegam de vez em quando até mesmo os anjos de surpresa essa era uma daquelas intuições que só as crianças tem, o que cabia a mim tal mérito, mesmo eu não passando de um tolo e não sendo uma criança.

   A dona Odene pegou as caixa de fósforo e me viu com o colchão e sem nada mais e me olhou espantada. Fez uma cara como de quem gostaria de ter o braço amputado a ter que fazer a pergunta, mas mesmo assim perguntou se eu tinha um lugar para ir. Ela sabia a resposta, pois antes que eu pudesse controlar a gagueira e dizer que não tinha, ela pegou o telefone da sala, o qual era um dos objetos mais importantes e não luxo, uma vez que ela recebia os pedidos de costura que fazia por ele, e fez uma ligação. Discou o dial com muda decisão, esperou com o fone no rosto olhando para o teto, ao que eu acompanhei seu olhar e vi as teias de aranha flanando sob o vento que vinha da porta da sala. Quando enfim alguém do outro lado atendeu, ela tampou o bocal e falou numa voz bem pequena, para que eu não ouvisse. Ela só falou uma longa frase no início para depois só ficar escutando por um bom tempo. Lançou um olhar para mim como se me visse pela primeira vez, e então disse um hãhãm balançando a cabeça e desligou o telefone.

  _ Você tem sorte, Divan.

  _ Um homem que tem Deus no coração não tem sorte, mas preminação_ eu respondi sem ver, de forma automática, pois é assim que os devotos falam.

 _ Um homem como você, Divan, não importa a predeterminação. Os bobos são naturalmente protegidos de alguma forma por deus.

  Eu não me ofendi pois não era a primeira vez que eu era chamado de bobo, mas era a primeira vez que dona Odene me chamava assim. Ela sempre preferia o “tolo”, falando em tom como falava com seus netos ainda crianças de sua outra filha, a Lara. De modos que eu vi isso como algo que tinha a ver com a graça que ela disse que eu recebera, pois pelo telefone ela conseguira que o asilo de velhos mantido pela igreja presbiteriana me aceitasse.

  Eu fiquei sorrindo sem falar nada, temeroso que tivesse algum outro motivo raivoso por ela ter escolhido me chamar por aquela palavra logo depois de três anos morando no seu barraco. Uma Kombi da igreja chegou e o homem forte barbudo, que era tão alto como dizia-se na Bíblia que Sansão o era, me disse para entrar. Eu não o conhecia e fiquei em dúvida, mas a dona Odene me explicou, jogando a frase entre a fumaça do cigarro, que era o novo pastor assistente. O pastor Duarte. Ele não me sorriu, pois deveria ter confirmado assim que me viu que eu era realmente um bobo como dona Odene teria dito pelo telefone, e na certa pensou que eu o era de uma forma tão avançada como o Dedé da Sanfona, que não fala nada e só fica com sua sanfoninha de baixo para cima mexendo com as meninas. “Bibom”, Dedé dizia para as alunas do curso secundário que voltavam para casa, o que alguns dos pais o ameaçaram com os punhos e ele então passava a se esconder detrás do pé de manga fazendo sabe-se lá o quê. Isso tudo porque alguém tinha decifrado que “bibom” era uma palavra incompreensível mas cheia de maus pensamentos, um palavrão enfim. Eu me ressenti de que aquele homem tão sério, que na minha cabeça ao ser anunciado como pastor já me veio a imagem de um ser sem máculas como Jó, pensasse que eu pudesse ser um pervertido como Dedé. De modos que quando íamos eu e ele na Kombi, em absoluto silêncio, eu inventei de conversar, para deixar pelo menos insinuado que eu era bobo mas não àquele ponto.

  _ Eu gosto de pescar na represa e não gosto de música.

 Dessa vez ele sequer deu algum indicativo de ter me ouvido. Isso me fez pensar que ele estava tão certo de eu ser uma espécie de Dedé mais magro e com uma cara menos ou mais aturdida, sabe-se lá, o que me deixou seriamente preocupado. Foi um desses momentos nos quais eu sempre estou disposto a cair, pela má compleição da minha inteligência, vítima de um resto de vaidade ofendida que eu sei que alguém como eu não deveria ter. Eu estiquei a mão e o cutuquei, sentindo na ponta dos dedos o quanto seu ombro era rígido como uma pedra. Ele era mesmo um Sansão.

  _ Eu não toco sanfona e não falo nada para menina alguma. As enfermeiras do orfanato da Conceição diziam que eu nunca fui de olhar torto para mulher alguma. Que meu negócio era o mesmo de Jonathan, de Davi.

  Para vocês que nunca ouviram falar do orfanato da Conceição, é onde fiquei desde quando me entendo por gente até quando me acharam com a idade suficiente para trabalhar. Talvez vocês não tenham por que saber sobre isso, pois fica em outro lugar, bem distante da cidade onde eu moro, e foram tantas as coisas que aconteceram desde então que não tenho como explicar mesmo para mim mesmo como já há muito não sou mais jovem e há muito moro nessa cidade, a ponto de todos me conhecerem e dizerem de forma unânime: Divan, seu tolo! Divan, seu mente mole! Divan, seu cérebro de galinha!

 O pastor não gostou que o tivesse tocado, seu corpo cheio de músculos e sua barriga grande mas contida por músculos igualmente fortes dando um inesperado pulo. Mas o que eu disse pareceu ter ultrapassado toda possibilidade de insulto, pois ele pisou no pedal e estava por parar a Kombi. Mas na última hora, ele só me olhou com a cara cheia de fúria bíblica, usando o espelho retrovisor para não perder a direção do carro. Eu só tinha repetido o que ouvira das enfermeiras, e não sabia quem era Jonathan e só sabia que Davi tinha sido um rei que dançava para Deus. Na minha primeira noite no asilo, sonhei que o pastor estava usando o pano branco solto que não escondia suas vergonhas, que diziam que Davi costumava usar, e em meu sonho o corpo forte e cheio de revolutas de firme gordura do pastor se cabriolava dançando para Deus, enquanto Dedé tocava sua sanfona e gritava com sua boca banguela e seus lábios sujos despejando baba gritavam: Bibom, Bibom.

  Mas esse meu sonho, pelo que veio logo em seguida, foi talvez o mais ameno dos meus pecados. No outro dia, assim que amanhecera, dois funcionários do asilo, vestidos de uniforme azul, me acordaram na ala comum onde ficava minha cama, e me conduziram até uma sala. Eram outros dois rapazes, diferentes dos que me receberam no dia anterior e disseram que eu não poderia entrar com meu colchão com o risco de distribuir uma peste de piolhos. Os da tarde anterior já tinham a cara cansada e pareciam mesmo que seriam logo substituídos no plantão, pois deveria ser uma tarefa e tanto lidar com todos aqueles velhos e tontos como eu. Haviam até mais tontos do que eu, do nível do Dedé, o que em uma noite só de convivência ali eu pude perceber. E era de todo incompreensível como não tinham pensado em mandar Dedé para ali também, assim ele não teria mais como importunar as meninas.

   Os dois rapazes me conduziram até a sala do diretor. Este era um homem que tinha uma cabeleira tão vasta que deveria ser um motivo e tanto para ele se olhar no espelho, uma vez que normalmente homens na idade dele já há muito passaram pela queda dos cabelos e sendo donos de calvícies de todos os tipos. Em vez de deixar os cabelos mais soltos para mostrar o quanto tinha nascido com uma boa sorte, ele os penteava de forma a ficarem todos os fios presos e encerados em uma franja curva grudada na testa. Seu rosto era cheio de rugas e os olhos tinham algo que só me inspirava a responder o que ele tivesse para perguntar. O rosto e os cabelos excessivamente negros e ensebados não combinavam, o que passava a perigosamente imagem que convidava ao riso de um homem com um gato dormindo na cabeça. Ele não pediu que eu me sentasse e não me cumprimentou.

   _ O pastor Duarte disse que você tem tendências contrárias às leis divinas. Ele não entrou em detalhes mas deixou claro o que pode ser.

  Eu fiquei tão grudado à minha decisão de só falar se ele fizesse uma pergunta, tão grudado quanto os cabelos estavam no cocuruto dele. Como não havia nenhuma pergunta, me mantive silencioso.

 _ Não podemos dizer que aqui só tenha gente decente. Isso seria um delírio tresloucado.

 Eu prestava muita atenção ao que ele dizia pois ele, por estar sentado atrás em uma mesa, tinha uma monte de palavras que eu nunca tinha escutado antes. Quando ele as falava, ele não olhava para mim, mas para um local no chão que era como se refletisse sua imagem e o inspirasse. Junto com o cuidado com os cabelos, ele usava roupas muito limpas, que mesmo no final do dia e depois dele andar entre as alas e mesmo perguntar a algum dos velhos como estavam, as mangas da camisa e o colarinho ficavam como se ele mal os houvessem vestidos.

 Colocando os olhos em mim de uma maneira que me fez gelar a espinha, ele me disse, antes de me dispensar:

 _ A Terra é um local natural para os desavergonhados e os sodomitas, mas não aqui em meu asilo. Não aqui entre meus internos. O senhor ficará sob constante observação nessa primeira semana. De modos que qualquer deslize de comportamento o senhor será devolvido às ruas.

  É claro que eu fiquei tão amuado como uma cachorrinho que tivessem jogado um balde de água fedorenta em cima. Eu fiquei de cabeça baixa o olhando com os olhos bem próximos das sobrancelhas, coisa que de alguma forma fez ele ficar ainda mais bravo.

 _ Os desviados costumam se esconder debaixo das pedras. É preciso que você sinta o poder do braço de deus para conter seus vícios e suas vontades apodrecidas. Levante essa cabeça e faça uma postura descente.

 Ele alteou tanto a voz que acontecia o fato curioso de seus cabelos ficarem imóveis, como se não fizessem parte de sua cabeça. À medida que ele colocava mais ódio no que dizia, mexendo a pele enrugada, parecia que seus cabelos eram uma espécie de chapéu, o que a falta de uma aba que o juntasse com o conjunto fazia flutuar como um barco. Eu não conseguia desprender meus olhos daquilo, e por minha boca o susto foi dando lugar a uma vontade incontrolável de riso.

  Eu sempre procuro escutar os conselhos que as boas pessoas querem me dar, para me pouparem de que minha falta de capacidade de pensar como um homem adulto me meta em enrascadas. Fiquei tentando adivinhar o que o Ernesto do mercado me diria, e mesmo Miltinho, com aquela zombaria cheia de bossa, teria para me aconselhar sobre como me conter diante aquele homem, mas o fato é que eu fui dominado pelo demônio que tanto me passa rasteiras perversas e caí numa gargalhada descontrolável.

 Como se a traição da minha boca não bastasse, minha mão e minhas pernas entraram no mesmo festim que criaram para me destruir uma apontando para os cabelos dele e as pernas dando pisadas de alegria no chão.

  _ O senhor está usando um chapéu em forma de cabelos. _ eu dizia, repetindo três vezes ao mesmo tempo que apontava e convidava aos dois rapazes para entrarem comigo no gracejo.

  O que resultou dessa minha pouca firmeza de espírito foi que aquele homem, que me disseram depois ser o senhor Sérgio, o diretor do asilo, mandou que me levassem até às portas do asilo e me liberassem, dessa vez sem mesmo ter direito ao meu colchão, que os que estavam no turno da noite queimaram na caldeira atrás do pátio. O diretor havia ficado vermelho com a minha atitude vil e mesmo em minha pouca capacidade de pensar como homem adulto eu maldizia ser tão ingrato. Enquanto eu andava pelo corredor para a saída, já sem um pingo de vontade de rir, tendo aquele demônio pulado fora de mim assim que cumprida sua função de me escorraçar, eu ia olhando as caras daqueles seres doentes, vestidos de camisolas, de cabelos esfiapados envolvendo as cabeças deformadas pela idade, e rezando a deus para que o meu erro não respingasse neles. Eles nada tinham a ver com meu grau de tontice, e eu pedia a deus que a raiva do diretor se queimasse rapidamente sem descontar em cima daqueles coitados. Se havia maldade na forma como as crianças e as pessoas lidavam comigo, como às vezes alguma alma compadecida me dizia, seria muito mais que justo, pois eu era mesmo a mais boba das criaturas.

  Como se deus quisesse fazer de uma forma boba comigo o que fizera com Jó ou Jacó, me mandando sofrimentos bobos que se vestissem com o que eu merecia, assim que eu fui colocado de fora do asilo, uma tempestade começou a cair. A placa onde estava escrito em letras azuis o nome do asilo começou a tremer e a encavalar a lata do meio para as beiradas, com a língua do vento passando pelo espaço entre ela e parede como um djin enfurecido. As duas palmeiras ainda jovens e não crescidas até a altura em que estavam ditas que cresceriam, jogavam suas cabeleiras verdes para a frente e soltavam gemidos grossos como se fossem aquelas árvores gordas da idade de cristo que tem na terra dos negros do outro lado do atlântico. Toda a rua de fronte, onde as casas em uma iluminação diurna de calmaria se mostrariam num plano inclinado para os quarteirões abaixo, tinham todas desaparecidas em um borrão polvilhado pela poeira do terreno vago onde haviam patrolas e montes de cal onde a prefeitura construía uma creche. Os pregos e ferros e sabe-se lá o que que estavam acumulados nesse terreno começaram a rugir e a se moverem, como se a tempestade os tivessem descoberto antes de colocar seus pés de vento de vez na estrada e resolvesse brincar com eles. Não precisava ter a cabeça no lugar para saber que eu tinha sido tolo pela última vez na minha vida, pois aquela garganta sedenta da natureza iria me devorar, me mastigar e jogar o que sobrasse dos meus ossos para bem longe. Como eu estivesse numa tristeza profunda, na hora que essas coisas aconteciam nada dessas verdades tinham passado pela cabeça e eu não pensava sobre esses perigos, mas em como eu era um bocó, um miolo mole, um toleirão. Eu seguia andando direto para a boca da fera e uma mão me pegou pelo ombro e me levou correndo de volta para o asilo.

   Era o pastor Duarte, que pouco faltara para me elevar com seus braços fortes e me atirar no pátio dentro do portão. Logo se fez claro que eles não poderiam me entregar àquele fim terrível e tinham que me aceitar, o que não deixava de me deixar surpreso diante essa graça de deus comigo.

  O diretor não quis saber de mim, pelo que o pastor disse. Finalmente pude ouvir a voz do pastor e era bem agradável, eu ficava com vontade de fechar os olhos e dormir. Eu notei que o demônio me rondava com esse tipo de pensamento e me encolhi, torcendo para que o pastor desse logo o fora dali e me deixasse em paz, antes que minha língua começasse a funcionar sob o comando de minha tolice.

  A segunda noite caiu sobre o asilo. Eles me retiraram da ala onde ficava todo mundo. Eu sabia que não ficaria por menos aquela história da minha risada, mas estava preparado para o que viesse. O principal era que eles não me chutariam mais para fora. Haviam dado um fim em meu colchão, e não iriam dar um fim na minha vida. Outros dois rapazes que não os outros quatro que eu conhecia me levaram para os fundos do prédio. Bateram de leve em uma porta, que ficava sozinha numa parede que não tinha mais muro a não ser o que segurava a porta, tudo o mais dos lados sendo os corredores. Uma enfermeira abriu a porta, uma senhora muito velha, tão velha quanto os outros pacientes. Ela me olhou sem que seus olhos dissessem alguma coisa e dispensou os rapazes. Pediu com uma delicadeza que amoleceu meu coração e me deixou com vontade de chorar para ocupar a cama. O ambiente era minúsculo, entrando-se pela porta, como se tivessem aproveitado uma dispensa e colocado duas camas de forma muito apertada. Eu me deitei na cama que ela mostrou, mantendo os braços ao longo do corpo. A cama era menor que meu corpo e meus pés ficaram para fora. Ela pediu que me virasse de lado e encolhesse as pernas, e aí eu coube por inteiro na cama. De lado, eu vi pela primeira vez que na outra cama havia um homem de barba comprida tão branca quanto os longos cabelos. Não o tinha visto porque, mesmo com a lâmpada que pendia de um fio estivesse acesa a luz fazia mais sombras do que esclarecia. Ele tinha os olhos arregalados e olhava imóvel para mim. Também estava deitado de lado, embora desse para ver que era menor do que eu, e duas mãos muito magras saíam do lençol que ele se cobrira e ficavam juntas ao queixo. Eu não consegui desgrudar meus olhos dos dele, tendo um medo profundo de que ele estivesse morto.

  _ Doutora, eu não posso dormir com um cadáver _ eu disse, contando as palavras para que uma profusão delas não saísse de novo da minha boca e me colocasse a perder.

_ Ele está tão vivo quanto o senhor_ ela me disse, com a voz calma. Lembrei de uma professora que eu tive no orfanato, há tantos anos, quando minha idade correspondia à idade em que ficou para sempre a minha cabeça. Por me lembrar de uma pessoa que deveria ter me feito bem, meu medo foi embora.

  A enfermeira saiu com o passo de quem tem muito o que fazer. O turno dela deveria ter começado junto com o dos rapazes mudos que levavam e traziam os velhos de um lugar a outro. Ao abrir a porta ela apagou a lâmpada, e depois fechou a porta. O vão entre a porta e a moldura da parede era espesso, de forma que a luz que vinha dos corredores entrava a iluminar um pouco o quarto. Fazia muito calor lá dentro, o que a chuva que continuava muito forte deveria ter alguma influência, mas tanto eu quanto meu companheiro não tirávamos os lençóis. Eu fui perdendo o jogo, não conseguindo manter os olhos fixos nele, e o sono veio até me dominar por completo.

  Dessa vez eu não tive nenhum sonho, o que me pareceu ser algo muito bom, uma vez que se meus sonhos continuassem a pegar emprestadas pessoas reais daqueles dias o diretor com seu cabelo poderia me fazer cair na gargalhada novamente. Se eu tive sonhos eles ficaram na região em que eles ficam quando a gente acorda, que um simples movimento de despertar os jogam para o fundo do esquecimento, mesmo o véu que os separa sendo tão fino. Já eram altas horas, como se costuma dizer, uma vez que não havia um pingo de ruído lá fora, fora o de goteiras que sobraram da chuva e caíam aos montes em filetes do telhado. Os passos dos funcionários e o arrastar dos pés de algum velho, que mesmo quando o sono uma hora e outra se desfazia e os olhos se deparavam com a semi escuridão para em seguida recaírem de volta nele os percebia, há muito se tornaram só lembrança, seus donos estando babando nos travesseiros e balbuciando os ocos disparates. Eu me sentia entre acordado e dormindo, pois em minha cabeça fraca uma névoa prendia memórias, sons ouvidos ao longo do dia, um pouco de aflição e um pouco de assomos de alegria, tudo junto, sem que nada tivesse peso suficiente para me saber ligado a esses pensamentos. Era como se minha cabeça pensasse por si só, descolada do corpo, e eu a visse flutuando no teto, o que era uma sensação agradável. Uma vez o Nepomuceno, o sargento da cidade, insistira para que eu tomasse com ele uma talagada de cachaça, e foi algo parecido que eu senti ao voltar me segurando pelos muros e postes, para a grande gargalhada que todos os policiais que estavam presentes no boteco me observando. “Divan, agora além de cabeça mole é um pé de cana”, diziam, a ponto de desfazerem as pregas bem passadas das fardas de tanto se contorcerem a cada vez que eu quase caía, colocando uma perna mais alta que minha cintura. “Só falta ir para a zona da Folha pra completar a vida boa, hein Divan?” E eu voltara o rosto, todo feliz, o que aquelas palavras de admiração pela minha desenvoltura em conseguir me manter em pé me enchiam de satisfação, e eu respondia: “Não, não! Um varão ungido não vai para a zona da Folha”. Que era o que o pastor costumava dizer do alto do seu púlpito, na igreja. Aí que eles riam à socapa, não se aguentando mais. E era assim que eu me sentia naquela noite, embora eu não tivesse tomado nenhuma bebida e estivesse assim sem muita consequência se eu tivesse que me colocar em pé.

  Desse modo, nessa sonolência descompromissada, eu olhei para onde estava meu parceiro, só me lembrando onde eu estava por puro acaso, e o vi, em pé. Não era o melhor espetáculo para se ver, eu devo dizer a vocês, pois se antes ele estava deitado e não passava de um outro velho dos mais feios mas ainda assim dentro de uma feiura suportável, em pé ele estava bastante assustador. Isso porque se via suas pernas, suas costas, e mesmo metade de seus fundilhos, uma vez que ao se levantar, a camisola dele arranjara por ficar presa dentro da anágua de maneiras que ele estava nu em uma das metades do corpo. Uma de suas pernas aparecia, muito magra, branca como se não fosse um humano mas uma cria entre figuras demoníacas. Como se a lepra e o câncer, se fossem figuras corporais, fossem se parecer com aquilo. Uma rede de raios negros subia das canelas às coxas, o que não poderiam ser apenas varizes, mas algo como se tivesse trincado por dentro e toda sua perna fosse se partir a qualquer momento em mil pedacinhos. De certa forma seria impossível para alguém que não soubesse, como eu já o sabia, que se tratava de um velho, saber se na verdade não estaria ali em pé uma versão de uma bruxa das mais perversas e más, uma baba yaga, uma Zelda Nariz de Verruga. E o mais pavoroso era a sua anágua, que na verdade não passava de uma pano muito sujo que mal envolvia a sua virilha, e que de onde eu estava não podia ser só impressão minha o fedor de fezes e urina. O aparafusamento das cabeças dos ossos de sua coluna apareciam nas costas como calombos que faltavam furar a pele, o que deveria ser a causa dele emitir gemidos altos que não paravam mais. Aquele corpo miserável não tinha forças para soltar para fora o grande grito que era certo estar dentro dele, pois os foles dos pulmões e a boca deveria estar quebrando e podridão, e por isso se continha com aiais de fazer gelar a alma, e xingamentos e pedidos de que o diabo o levasse de vez. Ele estava de costas para mim, com aquelas formas deterioradas quase por se esfregarem na minha cara, uma vez o espaço ali ser muito apertado, e erguia os braços de aflição para passar as mãos pelos restos de cabelos que tinha e os puxar. Como acontece com os últimos pelos que sobram na carcaça depois que toda a juventude foi embora, eles não arrancavam, eram tão fixos quanto as ervas daninhas na beira do rio. De modos que ele fazia uma força enlouquecida, revirando-se para os lados, e seus braços longos como tentáculos de uma lula velha saíam por cima sem os tufos que ele pretendia arrancar para alcançar algum alívio.

  Não se tinha como contar as horas diante um quadro medonho desses, mas deveria ter passado uma boa meia hora. Era estranho que ninguém ouvisse, pois eu ficava na torcida para que alguém aparecesse enfim para o fazer deitar novamente. Eu julguei que o dia era tão cheio daqueles ataques e gritos contidos que quando era chegada a permissão por dormir os enfermeiros apagavam de exaustão, seus ouvidos treinados a não darem atenção para mais nada. O que eu poderia fazer? Dormir eu já não conseguiria. Eu estava tão desperto quanto um cervo atocaiado numa noite de caça da onça. E eu estava tremendo de medo. Eu não podia desgrudar os olhos daquela criatura, pois ela de uma hora para outra podia partir para cima de mim.

  Foi então que aquele velho, de tanto resfolegar e chorar como o diabo Malaquias, arranjou por sentir sede. Seus olhos gigantes e estuporados ficaram se colocando em cada objeto que se dava para enxergar no escuro, passando várias vezes pela minha cabeça encolhida no lençol, e por final, para meu alivio, ele encontrou uma cabaça descansando no canto, logo atrás da cama dele. Em seus ataques de fúria, era bem possível que ele mesmo a colocara ali e se esquecera. Calando-se um pouco, para grande alegria dos meus ouvidos e dos meus nervos, ele andou com uma inesperada calma até a cabaça. Parecia que não era o mesmo sujeito afetado até as raízes dos dentes pelo delírio e alucinação. Andava balançando os braços como um lorde. Seus espichados pés chatos cheios de protuberâncias tocavam do dedão ao calcanhar o piso, como na cabeça dele dava para adivinhar que se passava a ideia de como um cavalheiro andaria. Ele se inclinou, estendendo o braço para a frente, e por sua gengiva pelada passaram umas palavras sem sentido, mas que eram subitamente gentis. Uma hora ele, antes de pegar a cabaça, em sua loucura, se virou para mim e balançou delicadamente a cabeça, como aqueles bonequinhos de mola que os ciganos vendem, os olhos estatelados e os cacos de dente se mostrando para ninguém. Eu fechei com mais força os olhos e só os abri quando, no silêncio que se seguiu, eu pude ouvir o som da garganta dele ingurgitando a água e os glute glute indicavam que ele estava virando a cabaça toda pela boca. Ele sorria e dizia mais palavras impossíveis de ouvir, enquanto bebia com um desespero de um sedento que tivesse atravessado o deserto. Chegou um instante em que ele errou o buraco por onde deve entrar a água e sair a fala e a coisa toda se inverteu, a água entrando direto onde não devia. Ele jogou a cabaça para a frente, que bateu na parede e caiu por sobre a cama dele, ensopando o colchão da água que restara, o que ainda era muita. Ele tentava puxar o ar, num som que na minha cabeça desmiolada me pareceu como o de um mudo gritando, como se Dedé faria se quisesse dar um berro. Ele parou com as baboseiras de se mexer e girar os braços, como havia feito, e ficara em pé, na mesma posição, com os braços abaixados, as mãos crivadas, o que com a nudez de seu corpo muito magro e branco tinha algo de um desses monges sagrados, como João Batista dando o batismo no Jordão. Ele puxava o ar e parecia que entendia que iria morrer, naquela calma que os doentes tem na cama quando o padre dá a extrema unção. Foi assim que o Fabiano, o dono da loja de pneu ficou, com essa calma que parece dizer que não há muita coisa pra se preocupar, quando todos os tratamentos para o cancro que o comia não deram em nada e ele se entregou para a morte.

  Deus não criou apenas a inteligência pra poder ajudar o homem, mas também criou aquilo que faz o homem pular do nada e partir sem planos e sem saber direito o que fazer numa hora dessas. E mesmo um ser tolo como eu, naquela hora, fui tomado por essas outras qualidades pouco valorizadas, e dei um pulo e antes de dar por mim, eu já havia agarrado aquele pobre fantasma pelas costas e o abraçava com todas as minhas forças. Eu era mais alto do que ele, o que foi uma surpresa descobrir isso, por todo o medo que a aparência de um espectro de pernas e braços grandes me fizera passar, de modos que eu o erguia todo do chão e jogava ele e a mim para trás, me mantendo bastante firme com os pés no chão. Fiz isso umas dez vezes e iria fazer sabe-se lá quantas vezes mais, no desespero que a procura pela vida nele me contaminara, quando então a porta se abriu de súbito e um bando de gente entrou.

  Eu só tive tempo de ver dois ou três dos funcionários de uniforme azul caindo em cima de mim e me atirando num bolo de pernas e braços junto com eles por cima da cama do velho. Por reflexo, eu soltara o meu companheiro assim que eles praticamente chutaram a porta, e minha cara estava afundada no lençol que eu sentia todo molhado sem saber se era de mijo, da água da cabaça ou dos perdigotos dos homens que me seguravam como se eu fosse um Hércules e precisasse de tanto. Eles travavam os dentes e dois deles me xingavam e me ameaçavam, um dizendo que eu teria que pagar por retirá-los da cama no meio da noite e no melhor sono.

   E foi assim que eu tive minha quarta ou quinta danação do dia, se é que vocês estão contando, por causa da minha tolice. Às vezes acho que não é só a burrice que leva um homem que tem o cérebro de uma criança a ser um desgraçado, sendo como se a burrice atraísse outras péssimas forças que ficam suspensas no ar esperando, pois mesmo para minha cabeça de piolho de cobra essa quantidade toda de má sorte em um único dia parece exagerada.  Era como se quando dona Odete me disse que Deus ajuda os tolos eu tivesse atiçado o Criador para ver se era verdade, jogando sobre ele tudo que eu podia fazer para me estrepar. Era como seu dissesse, muito bem, Senhor, me tirou dessa enrascada, mas vamos ver se essa proteção vale mesmo para alguma coisa, e então eu partisse para outra besteira ainda maior.

   Os homens me levaram para uma sala onde só havia uma cadeira. Tinha uma janela que dava para a área onde estavam as patrolas da prefeitura, e eu pude ver que a tempestade acabara de vez, não tendo nenhum traço de que existira com aquela fúria toda, como se tudo quisesse voltar a atenção para o que enfim eles fariam com um bobo como eu. Eles iriam me atirar no olho da rua agora, uma vez que eu poderia ir atrás do meu deplorável destino sem o risco de morte.

   O pastor Duarte apareceu. O rosto amarrotado. A barba naquela cara de profeta que ele tinha crescia em uma velocidade assustadora, pois ele só era reconhecível por detrás do negror por causa daquela sua voz grossa, que fazia até o mais corajoso dos mortais parar de medo. Eles me colocaram sentado na cadeira e me deixaram sozinho até ele chegar. Ele me olhou como se olha para um cão que se esperava incapaz de atacar mas que havia tascado uma mordida feia na mão do dono. Tinha uma grande decepção dos olhos dele. Eu fiquei tão triste que abaixei a cabeça, mas continuava olhando para ele com os olhos bem próximos das sobrancelhas. Ele bufou quando me viu olhando assim, o que me dei conta de que deveria ter me controlado pois na Kombi ele quis parar para me tirar esse olhar da cara. Vai ver na cabeça dele trazia recordações ruins. Eu não via os loucos dali olhando assim. Eles olhavam bem direto, de forma que me constrangia. Olhava a alma da gente. E o meu olhar era só covardia e pedido para que não me batessem. Embora, justiça seja feita, eu nunca tinha apanhado, a não ser em tempos distante de criança que eu sabia ter merecido. Mas eles riam de mim, tiravam chacota de meu rosto, babavam de deleite diante minha reação de patetice, mas nunca me batiam.

 _ Deus nos diz para perdoar setenta vezes sete. E é isso que eu procuro fazer, Ele mesmo é testemunho._ o pastor disse, como se para si mesmo.

  Eu procurava olhar agora com a cabeça erguida. Ergui tanto o queixo para não ofender a sensibilidade daquele generoso homem, que era difícil sorrir com os músculos do pescoço todos esticados. Minha mente entendeu que ele acabara de falar algo que era do culto da igreja, uma espécie de reza que os pastores costumam atirar para cima da congregação esperando uma resposta reverente.

 _ Amém, varão! Amém. Ashalabalaia!

 Ele me olhou com uma mistura de que não acreditava muito nas minhas palavras e as entendia muito bem, mas eu tive a sensação de que não eram as palavras ideais. Eu forcei minha mente a procurar outras palavras que eu costumava ouvir aqui e ali entre as beatas e os velhos quando saíam das igrejas nas noites de domingo, mas não consegui.

 _ Eu deveria ser o varão santo que deus gostaria que eu fosse, mas a pederastia é um pecado para o qual eu não tenho o conhecimento requerido para exercer o perdão. O pecado de Onã e de Sodoma, eu não consigo contemplar com a devida elevação do espírito.

  Eu não entendia nada do que ele falava, mas sabia que eram palavras compridas demais para não serem da mais alta pureza e beleza espiritual. Com o rosto o mais entortado para cima que eu conseguia, eu respondia com tudo que me vinha à cabeça.

 _ Glória aos Céus, ashalabalaia, são longuim três pulinhos vosmecê mequetrefe.

 Sem que esperassem amanhecer eles me colocaram para fora do asilo. Eu não vi o diretor, mas a enfermeira que me mandara deitar na cama me deu uma sacolinha de plástico com uma maçã e uma caixinha de leite com chocolate. Quando eu me sentei na calçada dois quarteirões abaixo, já sem ver ninguém daquele lugar amaldiçoado que pudesse me seguir, eu abri o pacote e vi, contente, que por detrás da caixinha de leite ainda tinha umas bolachas. Eu não estava com fome mas eu abri os pacotes e comi tudo mastigando rapidamente. Minha cabeça não tem inteligência mas é cheia de brincadeiras de passa tempo, pois eu imaginei que aquele lanche fora me dado por um castelo de um rei, e aquelas bolachas tinham poderes mágicos que a maga vestida de enfermeira havia nelas enfiado a título de me dar alguns prodígios. Eu comi a maçã e ria, com a boca cheia de casca e sumo branco, estendendo a mão para a frente e dizendo: Sinsalabim, e a pedra pintada de branco que alguém colocara de frente a uma casa para servir de banco perdia a noção de seu peso e flutuava cinco centímetros acima do chão. Depois, eu juntei três bolachas de uma vez na boca, as empurrando com os dedos para caberem, e eu estendia a mão para a velha macieira e de repente uns olhos antigos, cheios de uma perigosa sabedoria, surgiam no meio das galhas. Não era um gnomo e nem Rapapim, o mestre dos leprechauns, mas a própria árvore acordando de seu sono de dezenas de ano. “Olá, Divan, seu tolo!” Ela disse, “Como ousas me interromper de meu sono?”  E eu, para que ela não atirasse sua indignação sobre mim, já bebia pela metade o leite e disparava cuspindo gotas marrons em direção a ela, ordenando que ela obedecesse ao seu novo senhor. E ela então se inclinava, com os fios dos postes elétricos que atravessavam sua copa soltando faíscas, e com a voz cheia de temor respondia: “Me perdoe, ó nobre senhor Divan, o rei dos bobos. Sou sua serva para sempre e todo o sempre”.

  Eram sonhos tão bons e se deus quisesse resolver de vez essa lei que o obriga a cuidar de pessoas como eu, bastava ele nunca me acordar. Seria uma dor de cabeça a menos entre as tantas que ele deve ter em um mundo em que em cada canto tem um pecado, alguém pedindo para que lhe deem o pão, ou a vitória sobre o inimigo, ou a amada de volta, ou que deus lhe conceda que um filho, ou um pai ou uma esposa retornem do reino dos mortos e voltem a sorverem o ar com suas respirações da carne restabelecida. Se deus me desse ouvidos e cumprisse essa última e única coisa que eu ousava em lhe pedir, depois que ele foi tão bom comigo mas eu atirei tudo na lama, ele só faria um movimento com sua mão gloriosa e eu ficaria nesse sonho para sempre.

 Mas não foi o que aconteceu. O sonho havia prosseguido em uma série de danças de todos os objetos que ganharam vida naquela rua, não só a grande mangueira, e que se converteram ao amanhecer ao que eu demorei alguns segundos para perceber ser a ponta de um sapato. Eu abri os olhos assustado, e vi que era o sapato de um menino, um no meio de um bando deles que iam naquela hora para a escola. Estavam todos vestidos de uniforme branco e azul, e me cutucavam com a ponta do calçado e me convocavam com palavras entre raivosas e zombeteiras para que eu acordasse. Eu acordei sentindo antes um cansaço profundo do que tristeza por ter que repetir tudo de novo as tramoias e as sensaborices desse mundo sabe-se lá por quantos dias ou anos ou séculos a mais. A dor da terra não parecia ter mais fim, e tudo para o qual eu lançava meu olhar era duro e sem afeto e paciência. Eu pensei: para que viver? Os meninos, que se fossem um pouco só dispostos a ouvirem suas consciências, pois haveria de ter alguma luz de caridade ou mesmo de tino que os fizessem ver a grande perda de tempo de azucrinarem um bobo como eu, teriam me deixado ali com minha devastadora tristeza, em vez disso pareciam ter ficado mais motivados ainda. Fizeram um cerco em torno de mim e ficaram gritando, cantando, vociferando, jogando pedaços de pontas de lápis que eles retiraram dos apontadores de dentro de suas mochilas, como se fossem confetes para comemorar algo que eu deveria representar de muita alegria e muita honra. Eu com muito custo consegui me levantar. Eles gritavam: “Divan seu bêbado, emborcou todas essas noite”, e coisas assim.

  Coube a deus zelar mais uma vez pelos bobos, me dando a parcela que me cabe, e em três dias perambulando sem rumo pelas ruas, eu fui acolhido no Centro Betel. Eu tinha ido até o Osmar, para voltar a vender os picolés levando o carrinho pelas ruas, mas o Osmar disse que as vendas tinham sido tão ruins que ele tinha que fechar. Ele apontou um cartaz feito com papelão que ele grudara na parede, para que eu confirmasse, mas daí ele se lembrou que eu só conseguia assinar meu nome. Ele leu para mim que era o anúncio do congelador que ele colocara à venda. Iria fazer uma doação de todos os sorvetes e picolés que sobraram para a festa da igreja, e me deu um de morango para que eu não ficasse tão triste. Mas, como eu disse, depois de dormir no banco da rodoviária, um senhor me acordou e perguntou se eu não queria morar no Centro. Eu disse que qualquer lugar que tivesse um teto estaria bom para mim, pois duas noites de frio me pareceram terríveis demais para suportar. Ele me colocara em seu carrinho pequeno, que parecia desses carros que se veem em filmes em preto e branco.

  O centro era onde algumas pessoas invocavam espíritos. Não foi isso que o senhor me disse, mas eu me lembrei na mesma hora, assim que vi a pequena casa de telhado em bico, que era o que Marcinho e as pessoas falavam. Era um lugar amaldiçoado, que todas as pessoas evitavam. Assim que eu entrei eu vi que os dias na rua e aquela tempestade me ensinaram a não dar conversa para antigos medos, e assim eu só senti um leve frio correndo pelas minhas espinhas. Eu havia associado àquele lugar tantos fantasmas, bruxas, pretos velhos, macumbas e bodes nascido com duas cabeças, que agora eu me sentia como se algo da minha cabeça pequena realmente tivesse crescido finalmente. Eu via aquele lugar pelos olhos de um adulto, e não os adultos que normalmente falavam tantas coisas ruins.

 Era um pequeno asilo. Haviam só cinco pessoas. Havia um corredor de quatros ao lado da pequena casa onde os pastores que rezavam ali invocavam os espíritos. O velho que me levara se chamava Fagundes, e ele mesmo me disse que o nome não era pastor, mas que no fundo era quase a mesma coisa. Ali o nome certo era médium. Eu firmava minha boca bem fechada, e qualquer um que tossisse ou mostrasse o mais distante possível perto de um engasgo eu saía fora. Aquele lugar era bom demais, apenas mais quatro pessoas como eu, para que eu colocasse tudo a perder.

  Uma delas era uma moça. Era muito jovem. Na ficha de inscrição que eu tive de preencher com o secretário do centro, eles me disseram que pelo documento que eles pediram na prefeitura, eu tinha 62 anos. Eu deixei o queixo cair, e vi que minhas contas haviam parado aos trinta. Talvez fosse um engano, de modos que não levei a sério. Ou a prefeitura havia feito os cálculos errado ou de alguma forma os espíritos já queriam me receber me passando uma zombaria. Mas a moça, ela tinha vinte e dois anos. Seu rosto era bonito, muito branco. Seus cabelos chegavam à cintura, como se fosse uma larga cinta negra lisa. Os outros três eram um senhor magro, que vivia com um cigarro de palha na boca, um negro magro que era visto sempre com um livro em mão, e uma outra mulher também velha. Eu já era velho, então, o que me fazia ver aquelas outras pessoas torcendo para que minha pouca mente pudesse me colocar mais novo do que eles.

  Minha função era varrer e retirar os restos de comida da mesa do almoço. A comida era farta. No café da manhã se podia comer quantos pães se quisesse, embora por uma questão de não querer ser chamado de glutão cada um se limitasse a no máximo dois. Eu gostava muito de café, que eu costumava tomar em bares e padaria oferecido pelas pessoas e pelos donos, mas o senhor Fagundes disse que todo tipo de bebida que alterasse o humor não era servida ali. Eu fiquei tentando entender isso, pois o café nunca havia me parecido algo tão perigoso assim a ponto de se relacionar com a pinga e com a cangibrina. Mas de todo modo sem café eu me sentia realmente mais calmo. Todo o lugar era de uma calma de fazer a gente ficar com sono. E se podia dormir à vontade no meu quarto, desde que estivesse em pé e pronto para as tarefas do dia.

  As coisas iam indo assim, sem que o demônio quisesse me engambelar, durante semanas. Eu cumpria tudo que me cabia fazer à risca, e me prontificava a trabalhar mais. Não sei porque falam tão mal dos espíritas, pois eles sempre foram justos comigo, não me desgastando. “Preste atenção no pecado da preguiça, Divan. Você está indo muito bem”, o senhor Fagundes disse. As sessões espíritas eram nas quinta feiras, e no começo eu tinha muito medo. A moça bonita, Sara, me consolava dizendo que não havia razão para eu ter medo. Os espíritos eram seres como a gente, apenas que estavam desencarnados, não precisava mais do corpo. Eu sentia inveja deles, mas isso não diminuía meu medo. Eu estava esperando que ela dissesse algo no sentido de que eles não atravessariam a parede do centro e resolveriam dar uma voltinha pela frente dos quartos. Mas ela não estava ali para me consolar e o modo como deixava muita coisa por dizer me renovava o medo. Eu ouvia os rumores vindos do centro. Era como se todos ali estivessem de quatro e uma força animalesca saísse de seus corpos, produzindo um som como de vários “us” encaixados uns nos outros. Às vezes eu sentia um vento vindo de não sei de onde, e chegava a sentir uma espécie de sussurro em meus ouvidos. Eu pedia licença, que assim nos ensinara o senhor Fagundes, e seguia para meu quarto com os passos contados. Assim que fechava com delicadeza a porta, me jogava na cama e me rebuçava dos pés à cabeça, temeroso que alguém sem corpo fosse me puxar pela perna.

  Mas daí veio o fim da paz e o demônio resolveu mais uma vez prestar atenção em mim. E ele veio na figura da Divina. Era uma morena forte e desbocada que veio parar no centro. Não sei de onde o sr. Fagundes desencavou tal criatura, aliás todos nós sabíamos mas não o falávamos por vergonha. Ela tinha vindo da zona do Folha. Ela era o que se se diz “mulher de vida fácil”. Embora não tenha algo mais mentiroso do que isso, pois ela veio parar ali justamente porque a sua vida não era nada fácil. Diziam que ela esfaqueara um homem. O homem quis fazer não sei o que com ela e ela disse que por dinheiro nenhum faria isso. O homem cometeu o erro de lhe dar um tapa na cara, ao que ela pegou uma faca de ponta e a enfiou no bucho dele. Ele estrebuchou como um porco, e morreu em poucas horas. A sorte de Divina é que ela era louca desde sempre e de forma tão nítida que até o juiz não questionou que o lugar dela não era na cadeia. Ela tinha uma mente tão infantil quanto a minha e seria uma injustiça de tal tamanho leva-la para a cadeia que seria como um outro assassinato. O juiz mandou uma equipe de três enfermeiros para cuidar dela. Um psiquiatra vinha consulta-la todas as semanas. Nos primeiros dias ela era só sorriso, pedia desculpas onde ia, se nos via sentados pedia desculpas, se nos via na fila do café da manhã ia para o último lugar, atrás até dos funcionários, e de lá ficava com seu sorrisinhos que ela não removia da cara. Até o psiquiatra começava a dizer que ela havia se curada, o que fez com que o parente do homem esfaqueado, sua esposa ou seu filho, pedissem ao juiz para rever o caso e leva-la para a cadeia.

  Não precisou que o juiz atendesse o pedido, pois em poucos dias a Divina ficou tão louca de novo que até os espíritos deveriam ter abandonado o lugar. Ela era negra como chocolate, e seu cabelos eram amontoados de fios encardidos apontando cada lote para o alto. Era baixinha mas pesava mais que três mulheres comuns, e dispensou as roupas de cores claras do centro para vestir suas roupas escandalosas. Não se sabe de onde ela pegou de volta essas roupas, mas tudo era possível para uma pessoa que era o próprio demônio em pessoa. Ela acordava aos berros. Os enfermeiros iam bater em sua porta, e ela dizia nomes tão feios que alguns a gente só sabia que eram xingamentos porque não havia palavra de outro calibre que era pronunciada com aquele tom furioso.

  O pior de tudo é que Divina se apaixonou por mim. As pessoas diziam isso, de um modo brincalhão, antes de ela voltar a ficar louca. E eu tinha percebido isso, pois ela era sempre gentil com todos mas comigo o era de uma maneira diferente. E nós dois ficávamos até altas horas conversando na varanda, nas noites em que não tinha culto e os outros internos jogavam dominó e o negro Leo lia uma pilha de livros que colocava ali à mostra para nós ficarmos impressionados com ele. A Divina tinha a voz mais doce, e ria com suavidade. Era difícil, fechando os olhos, associar sua voz com seu corpo, que era rústico e gordo. E quando a luz era fraca, pois o zelador apagava a luz de frente à varanda para não junta aleluias nas épocas de chuva, eu fazia isso, fechava os olhos e a ouvia. Era como uma fada, de modos que me acostumei a quando abria os olhos ver a riqueza das variações das criaturas de Deus, pois passei a achar Divina tão bonita como se realmente fosse uma fada.

  Ela nunca falava do que tinha feito, e nunca falava de sua vida antes dali. Falava de seus tempos de criança, que haviam sido belos, e de seu primeiro namorado, ao que se limitava a dizer que era um tocador de viola. Havia tido três filhos, que moravam com o pai violeiro, e sua voz então ficava cheia de tristeza, o que a faiza mudar de assunto. Eu ficava feliz dela parar de falar daquelas épocas tão distantes de sua vida, e no fundo do meu coração era como se ela estivesse agora ali só para aquelas conversas comigo.

   O senhor Fagundes reconheceu que aquelas conversas que ela tinha comigo faziam bem para Divina, e as incentivava. Um dia ele apareceu num domingo, onde estávamos nós seis internos reunidos, e disse, em um tom respeitoso e ao mesmo tempo com um fundo de inocente brincadeira, que naquele dia faria a celebração de um casamento. Logo a Sara perguntou, com seus olhos frios que não emitiam nenhuma emoção, mas eram prenhes de bondade, de quem seria o casamento. Ao que o senhor Fagundes disse que seria entre o senhor Edinaldo Divan e a senhora Maria Divina do Rosário. Ele falava com as voz um pouco trêmula, e seus olhos tinham uma tendência somente naquela ocasião a pararem no ar e só voltarem a prestar atenção nas coisas depois de um sorriso. Era claro que ele havia bebido conhaque, que era a bebida que se servia no centro para agradar os espíritos, e sua cabeça estava endiabrada ou pelas taças que tomou ou por algum espírito desocupado que viera ali se divertir de alguma maneira. Não custou muito para que Divina e eu soubéssemos que se tratava de nós dois, o que pode parecer algo óbvio para vocês mas experimentem ter seus nomes pronunciados assim com todas as letras se vocês não pensam que se trata de um desconhecido. De modos que, por brincadeira, o senhor Fagundes nos colocou lado a lado e nos “casou”. Para que a encenação ficasse ainda mais realista, ele pediu que o velho Simão pegasse o caderno na saleta da administração em que se anotava as contas do mês e escreveu nossos nomes nele. Divina repetiu que ficaria comigo na saúde e na doença, e eu fui levado a dizer o mesmo. Quando chegou a hora do beijo, o senhor Fagundes disse que não haveria problema algum que Divina e eu nos tocássemos com mais demora os lábios, pois mesmo que o alto grau de embriaguez daquela noite tirasse alguma seriedade da cerimônia os espíritos sacramentavam os laços reais no plano de lá, o que talvez eles tratassem até com mais atenção o fato de tudo ter acontecido de modo despirocado. Assim, eu, com muita vergonha, mas Divina com uma determinação que a fazia parecer uma garotinha pronta para estourar um balão cheio de doces, nós dois nos beijamos. Eu nunca em minha vida tinha beijado uma mulher, e até hoje eu sinto aquela gotinha de água como se a fada Midalba me tivesse despejado uma filigrana de néctar dos lagos nos lábios. O senhor Fagundes olhava tudo num retraimento bonachão, como se seus pensamentos estivessem muito longe e, quando tentava se concentrar no momento, ficasse se dizendo algo do tipo de que, apesar de todas as circunstâncias, aqueles dois infelizes solitários que éramos Divina e eu merecíamos aquela felicidade, ainda que meu cérebro havia se maturado um tanto suficiente, para minha surpresa, para enxergar a fantasia naquilo, o doce engodo.

   Ao longo dos dias, porém, se via que Divina não levara a coisa da mesma maneira. No fim das conversas em grupo daquela noite, ela se despediu e voltou para seu quarto, com o rosto conservando um sorriso mas com aquele ar de que entedia ter que voltar para a vida real, de que tudo não passava de uma brincadeira. Ela sequer se despediu de mim, abaixando a cabeça, e perguntou ao porteiro Simão se podia lavar as louças. Simão respondeu que ele mesmo iria lavar e depois fechar a cantina, que ela voltasse tranquila para seu quarto. Eu voltei para o meu e assim que me deitei na cama caí em um sono profundo, que só teve fim na completa restauração do descanso na manhã. Fui para a fila do banheiro, escovei os poucos dentes que tenho, retirando a prótese dos dentes da frente da parte de baixo da boca e os escovando também. Assim que me sentei na mesa para o café, vi que Divina estava na outra mesa, separada de todos, e com o rosto todo transfigurado. Ela não olhava para ninguém e sempre que tinha que o fazer, emitia um sorrisinho nada bom. Por sua cabeça se via que passava um sem número de coisas.

   Ela me evitou por todo o dia, ainda que eu não a procurasse. Algo em mim dizia para ter cuidado com ela, e eu pensava naquela faca com que ela perfurara o bucho do homem que ela matou. No fim da tarde, quando eu varria o alpendre dos fundos do Centro, cantando baixinho um velho jingle que eu ouvia quando criança de uma casa de tecidos que anunciava pelo rádio, levei o maior susto ao virar e ver Divina atrás de mim. Ela me olhava com os olhos sem piscar, com uma concentração enlouquecida, como se sua visão atravessasse o meu corpo.

  _ Não podemos ficar aqui, temos que ter uma casinha com um jardim de gardênias na frente para quando o Zezinho nascer_ ela disse, com a voz tão sem os tons descansados e belos que ela costumava ter e sim com uma firmeza trêmula e apavorante.

 _ Zezinho? Seu filho vai se chamar Zezinho?_ eu arranjei por responder, o que meu cérebro sem rédeas ajuntou um sorriso de deboche infantil involuntário como se fôssemos dois meninos mal criados tripudiando um com outro na escola.

 _ Entre tantos nomes bonitos você arranjou por dar a seu filho o nome de Zezinho?_ eu disse ainda, percebendo a tendência que eu tenho de tampar o sol com a peneira me refugiando por detrás da minha bobice.

  Como eu disse, eu vinha reparando com assombro que, aos 62 anos, meu cérebro resolvia ora e outra sair de sua idade parada de menino de oito anos e avançar, pegando fagulhas inesperadas de entendimento. Pois eu entendi com a absoluta clareza o que Divina dizia. Eu entendia tão bem que resolvi não interferir com o pensamento, uma vez que alguma coisa dessa súbita meia inteligência insinuava que tudo tinha a ver com o ato fanfarronesco do casamento. Se Deus protege bobos como eu e loucas como a Divina, e conserva na terra o velho sonâmbulo que eu ajudei a desengasgar com a mesma desenvoltura de como conserva pessoas normais como o Miltinho e pessoas boas como o senhor Fagundes, dando a todos nós o direito de compartilharmos a beleza e a graça do mundo, com qual direito eu negaria a sacralidade dessas chacotas, dessas zombarias, dessas brincadeiras às custas de minha cara?, com que ousadia eu negaria que tais coisas não são sagradas e sérias?

  Então eu entendi. Eu e aquela mulher estávamos realmente casados no céu. Não era para menos que acontecera em uma casa onde os espíritos do outro mundo andam soltos e à vontade como se fossem internos como nós, pois o casamento entre Divina e eu, o beijo que nós demos na frente de todos, não fora firmado para sempre apenas nesse mundo, mas em todos os outros mundos possíveis. Não era para menos que me acontecera essa série de desgraças e acossamentos pelo demônio, desde o dia que eu gastei todo meu pobre dinheirinho com as caixas de fósforos, fui informado pela dona Arnete para sair do quarto e passei por tantas atribulações no asilo dos velhos. Eu estava sendo, na verdade, conduzido em proteção para aquele momento, para aquela mulher e para o filho meu que ela levava na barriga. Eu, Divan, o bobo, ia ser pai. Eu vi com toda clareza como são os esquemas de Deus, além da algazarra e das macaquices zombeteiras dos homens, e como a palavra “proteção” é bem mais profunda em seu significado do que a simples prevenção contra as tempestades e os chutes na cara que haviam me dado os moleques. Deus protegia os bobos não de forma a guardar-nos em seu manto, mas nos conduzindo ao longo de um caminho que parece apenas às nossas insuficientes inteligências um caminho acidentado mas que na verdade desde o primeiro passo se tem definido o ponto fixo onde irá se concluir, e meu ponto fixo era junto àquela mulher e àquele filho.

   Não vou me estender mais nessa minha história porque ela também já acabou. Vou contar de forma resumida tudo o que aconteceu em seguida. Seu Fagundes levou Divina a um médico que atestou que ela realmente estava grávida. Disseram que fazia já seis meses que o bebê estava instalado em sua barriga. Eu não posso dizer da maneira como seria excluída do escárnio das pessoas de frente à padaria que a criança é minha. E foi isso que de primeiro todo mundo dizia, com ar de gozação, alguns soltando gritos pelas minhas costas e pela minha frente, me dando os parabéns. Divan, você vai ter um filho lindo pois não tem como o menino não ser lindo sendo metade sangue seu e metade sangue da Divina. Mas no fundo, numa região além de qualquer contato com as palavras empobrecidas que estão à mercê do uso do entendimento humano, eu sei que eu sou o pai. Na verdade nasceu uma menina, que não pudemos colocar o nome de Zezinho, pela glória de Deus, mas colocamos Maria Celestina, como o quis Divina. Ela não deu mais crises, se tornou uma mãe calma, algumas vezes isso sendo resultado dos tantos remédios que o doutor Cardoso lhe passara. E foi nos dado pelo prefeito uma casinha na parte mais afastada da cidade, com dois quartos e uma salinha onde Maria Celestina brinca com as bonecas. Ela é tão negra quanto a mãe, e tem os olhos que nem se viessem todos os especialistas em bom senso me dizer o contrário eu não deixaria de ter certeza que são os meus olhos. E é tão bonita que as pessoas deixaram de falar pelas costas e pela frente. As pessoas de frente da padaria nos cumprimenta quando saímos os três juntos, com cordialidade e respeito, e os meninos, que cresceram e foram substituídos por outros meninos, estes e aqueles nunca mais saíram correndo em perseguição dizendo xingamentos e bobeiras.

   Todos aqui hoje dizem que eu sou um homem honrado, apesar de antes todos dizerem que eu era tão bobo que tinha a inteligência de um menino de oito anos.