charlles campos
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Notas sobre Carolina
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Sestércios
E havia Sestércios. Se não fosse tudo o mais
que atestava estarmos em uma casa de velhos, só ele já daria vazão a esse fato.
Era uma criatura tirânica, também muito velha, cujo costume de receber uma
grande reserva de mimos incutira nela uma protoconsciência de soberba. Era
natural que as assimilações fantasistas sobre imperadores, pompas palacianas e
a frieza cruel de um perfil rapínico, erraticamente instalado em um galo, lhe
dessem um ar de déspota enlouquecido. Ele morava dentro de um engradado de cerveja
Polar que parecia ter-lhe sido destinado como um ato de concessão vinda de
alguma antiga e esquecida derrota, o que atestava que ele havia conseguido
alguma exceção de humildade em sua autoimportância ao se adaptar àquela ruína.
Vendo-o sair de dentro do engradado,
abaixando a cabeça, dando seus passos cautelosos de reumático — com as penas
grandes que cresceram além da conta, como crescem demasiadamente as
sobrancelhas dos velhos —, era fácil depreender que sua história pessoal havia
passado por uma reeducação. Ele se punha, então, de corpo inteiro no piso do
alpendre, ao lado da máquina de lavar roupa, indiferente a seu universo
inglório de roupas estendidas e às botas sempre sujas paradas ao lado da porta
que dava para a cozinha. Fremia sua cabeça, onde o acaso das espécies não
destinara nenhuma mínima possibilidade de expansão mental, e passava a dar
passinhos aturdidos, sincréticos, de um general ciente de sua obsolescência,
necessitando, porém, de algum grau de astúcia para gerenciar o conforto doméstico
de sua senilidade.
Mesmo depois de todas as batalhas do ego
pelas quais aquela coalizão de intimidade caseira o fizera passar, havia o
sinal de condescendência amorosa que a vovó lhe dispensava na pequena escadaria
de caixas e vasilhames com plantas anãs, colocadas ali para que ele subisse até
a pia. Ele andava com seu equilíbrio régio e um tanto mais apurado para evitar
um tombo pela borda, e podia subir com um pulo que lhe devolvia algo da
faceirice da juventude. Assim, instalava-se no alto da mureta, de onde emitia
seu canto que, a cada dia, ia ficando mais constrangedor. Seu pescoço sofria
uma dilatação que parecia desconjuntar toda a estrutura corporal, e então um
som sem firmeza, nem um pouco eloquente da masculinidade que ele estava certo
de impingir, alçava-se pelo ar. Vovó
Leira parava o que estava fazendo por um rápido segundo — uma espécie de limite
imperativo que deveria conceder a ele — e, da mesma maneira rápida, fazia uma
consideração de valor.
Ele ficava na pequena despensa a céu aberto
que dava de frente para o grande quintal de entrada da casa, como um vigia ou
um almuaden: ora se deslocando de um lado para o outro, fazendo sua cabeça se
mover pulando alguns quadros de realidade, de frente para trás, como a trave
automática de uma alavanca defeituosa; ora tirando aquela sua convocação sem
sentido, mas prenhe de significados íntimos, para espécies de devotos
invisíveis. Leira o tratava com um respeito estranho, que tinha algo de culpado
e de uma eterna desculpa. Desse modo, quando ele se aventurava a andar pelo
interior da casa, aparecendo com sua magreza de asilo pela sala, Leira lhe
destinava um olhar prolongado, questionativo, à espera talvez de que ele
externalizasse o desejo que, enfim, vivia atolado em sua garganta sem que ele
nunca o dissesse.
Ele se aproximava de onde ela estivesse
sentada e, só quando ela se distraía dele, vinha tocar-lhe timidamente o
tornozelo com sua cabeça sem charme. Algo se acionava na vovó e ela, só por
conta de uma reação astuciosa, não parava de falar, mantendo o fôlego e o
assunto um tom mais baixo enquanto sentia com um deslumbramento temeroso, cheio
de repúdio e piedade, o galo a tocando, arranhando-se em sua meia pochê grossa,
dando mais superfície à sua volúpia ao colocar todo o tronco nessa jogada ousada
e solipsista.
Seria interessante ver um animal tão arisco
quanto uma ave dessas ser pega no colo e acarinhada. Eu, quando via essas
cenas, ficava na expectativa de que vovó o recolhesse nos braços, mas uma ética
darwiniana — de não amolecer a tenacidade de um trabalho de milhares de anos
que o tornara uma casca seca, esvaziada de qualquer necessidade de ternura —
mantinha a ordem natural. Deixava-o se satisfazer naquelas migalhas de uma
perdida intuição afetiva até que uma espécie de constrangimento final o
acordasse para o ridículo daquilo. Num pulo em que um quadrângulo cinemático
inteiro era removido diante dos olhos do espectador, Sestércios se dava conta
de sua responsabilidade classista na rigorosa hierarquia das espécies e se
afastava da perna da vovó, indo se ocupar de alguma outra eventualidade
fortuita, desaparecendo nas sombras da sala.
Vovó Leira considerava Sestércios o monarca
em desgraça que ele de fato era, aceitando suas idiossincrasias e seus humores
arbitrários e inconstantes. Ela destinava três horas de seu dia, no final da
tarde, para bordar as peças especiais de pano que mandava o capitão Bombo
vender na feira da marreta. Sentava-se na banqueta artesanal, alojada como um
apertado braço de madeira em L ao lado da máquina Singer creme, e guiava as
beiradas das mantas pela feroz agulha de aço; mantinha uma mão próxima à
imersão da linha e a outra nas barbas do pano que sobravam sobre seu colo.
Sestércios se incomodava com o grande ruído
que aquela coisa fazia, expondo seu desconforto com cicios mal-humorados e
exclamações de indignação. Enquanto Vovó compunha seus desenhos refinados de
donzelas elizabetanas sendo cortejadas à beira de lagos, sob o pôr do sol de
uma Sorbonne idealizada, Sestércios andava por um meio círculo amplo. O trajeto
passava por debaixo da mesa de aroeira da sala e delimitava seu terreno
pontilhado sob as cadeiras, pelo divã psicanalítico — do qual ele mesmo
aprendera a tomar posse mais tarde — e pela estante de carrara marrom, cujas
portas com janelas de vidro guardavam as porcelanas antigas.
Quando via que sua taxativa manifestação
contra aquela grosseria incompreensível e indevidamente barulhenta não surtia
efeito, ele abaixava a cabeça. Recolhia a ossatura esternal, cuja constituição
naturalmente viril o prejudicava por induzir nos observadores expectativas
infundadas, e ia se achegando, como se levado por uma atração suicida, até a
fonte do distúrbio.
Quando menos se esperava, Vovó Leira se
subtraía por um instante de sua poderosa imersão intelectual naqueles labirintos
artísticos intrincados. Ao percebê-lo encolhido em seus pés descalços,
empurrava-o com seus dedos longos e joanados — disformes e estranhamente
exorbitantes para sua idade, pela forma como insinuavam uma juventude
apreendida e conservada naqueles dez soldados anulares de tamanhos grandes
demais para os padrões naturais — para junto de si. Formava-se ali uma
fortaleza de estruturas humanas e rebotalhos de panos cadentes, onde as
sinapses sensoriais do galo pareciam ficar entre afavelmente aturdidas e lisergicamente
ensonadas diante de tanta informação.
Era algo digno de se ver quando chegamos ali na primeira semana: uma amostra de como funcionavam as zonas intestinas mais zelosas do sagrado andamento de um cotidiano próprio. O quadro de uma velha senhora costureira com um galo mambembe entre os pés desfazia-se de seu caráter fantástico quando se via o que ela imprimia nos tecidos com aquela máquina potente. As sombras da sala, no ponto onde os dois ficavam, eram furadas pela janela estrategicamente situada atrás e no alto de Vovó. O arranjo talvez fosse precário demais para favorecer vistas que, na idade dela, já mereceriam um recurso mais aprimorado.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
A poderosa risada
A Dani entrou para fazer a cirurgia cardíaca hoje às 5 da manhã. Eu fiquei na sala de espera lendo sobre o zen-budismo. Antes a Dani tomou banho no hospital e quando se sentou para esperar pelo enfermeiro com a cadeira de rodas eu apontei o cartaz que fala sobre retirar todos os adereços e lhe perguntei se ela tirou o piercing "lá de baixo". "Tirei essa noite e coloquei no seu pênis", ela respondeu. O zen-budismo fala sobre a gargalhada libertadora, a "poderosa risada". Mas o zen-budismo é muito frio. Principalmente para alguém que necessita de alguma entidade metafísica pra rezar e pedir pela proteção da pessoa que ama. A Dani acertou o Pix do lanche da semana de nossos filhos na escola na madrugada de ontem, no hotel, seis horas antes da cirurgia. Ela me disse que quando eu voltasse para nossa casa, há 170 quilômetros, eu não fosse ouvindo música clássica para não ficar com sono no voltante. Ela me disse para ouvir rock, alguma música bem agitada. "Mas eu estou há anos na fase do jazz, Dani", eu lhe digo. "Então escute Freddie Hubbard e Joe Henderson e John Coltrane, mas não Bobby Hutcherson. Vibrafone tem efeito entorpecente. E jamais Chet Baker". Eu fico oito horas esperando, lendo sobre o zen-budismo. O zen-budismo é frio, não crê na transcendência, não crê na glória. Meu nome é anunciado e eu vou para a ante sala da cirurgia. A Dani está bem. Eu vejo os médicos e as enfermeiras como seres benevolentes em um estágio de extrema pureza. Choro quando eles me apertam a mão, não consigo evitar. O zen-budismo diz que os Budas passam os dias bebendo chá e comendo arroz. O zen-budismo diz que devemos ver todo o universo em um grão de areia. Daí me dou conta: o zen-budismo não crê na glória porque acredita que já estamos nela. Ele não crê na transcendência porque já estamos na transcendência. Me parece uma parcela de iluminação ter esse insight, e eu sou assolado por uma alegria imensa. A alegria da Dani estar bem, da sombra desses quatro meses ter se dissipado, da ameaça do meu pesadelo recorrente da solidão não me atemorizar mais. Nós já estamos na glória, como isso só me ocorreu agora? Tudo já aconteceu e nós estamos na glória. E eu faço mais uma oração e não quero mais nada do que beber chá e comer arroz por toda a infinitude com ela, a Dani.
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Histórias de amor no novo milênio
Vi um vídeo no Fantástico falando sobre os apartamentos caixotes de Hong Kong. Pessoas moram dentro de caixas menores que caixões. São dezenas delas em cada apartamento, com uma micro cozinha e um micro banheiro coletivo. Ao todo, são milhares, quem sabe milhões, que moram assim na China. A visão desses prédios é aterrorizante, gigantescos, cobrindo com suas cores pardas ciclópicas toda a área urbana. Não há o mínimo espaço para algo que não seja feio, brutal, sem alma, opressivo, aviltante. Em dado momento o repórter é expulso pelo dono do local, ou o gerente, que o aborda com a truculência de um miliciano. O repórter então sai para a rua e entrevista os que se dispõe. Uma senhora diz que lembra com dor a época em que era criança e morava em uma casa ampla, o que só existe agora na sua memória. Um homem diz que não tem mais onde morar, pois os aluguéis são altíssimos, e a grande maioria dos chineses ganha um salário de miséria, o menor do mundo. Os moradores encaixotados são serventes de açougues, funcionários da construção civil, chapas de feira, etc. Uma mulher, contudo, diz que é o paraíso, e é filmada no claustrofóbico espaço deitada. Antes, ela apanhava do marido e foi expulsa de casa, porque o marido não mais a queria, só sobrando morar ali. Pessoas tratadas como lixo, como números, numa sociedade desapiedada e sem traços de humanidade. Eu estou chegando na página 100 de História de amor no novo milênio, escrito por Can Xue, o que não é o verdadeiro nome da autora. Ela saiu de um cenário assim, do nível mais baixo da pirâmide trabalhista escravocrata chinesa, cursou até o ensino fundamental e é uma autodidata. Nietzsche falava sobre o regime chinês em Além do bem e do mal (ou será em Humano demasiadamente humano?), como uma figura retórica do inferno. Hoje, sociedades assim são elogiadas pelos progressistas e pelos capitalistas, o grande país que está tirando o Satã Americano da liderança global. Eu ainda não entendi onde a Xue quer chegar. É um romance que bebe generosamente de Kafka, com seus personagens regidos por morais heterodoxas e situações oníricas. O que me cativou de imediato é a liberdade irrestrita com a qual é escrito. A alegria extasiada da palavra. A forma como a autora mostra que aquele é o terreno só dela, amplo, ilimitado, cheio de espaço. Uma das personagens do romance diz que se tornou prostituta como escape para se livrar da vida terrível que levava na fábrica. A literatura nunca foi tão representativa da mentalidade de cada nação, com seus desejos, lamentos, temores, sonhos e vislumbres de redenção como agora.
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
Sátántangó
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Senhorinhas
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025
O anticristo
Entro no facebook hoje. Vídeos que eu não quero ver são jogados na minha cara. Não quero ver um avião planando. Não quero ver um cara pendurado numa montanha. Não quero ver um vídeo caseiro de uma mulher de bermudas pegando um vaso na estante. Etc, etc, etc. Tudo de páginas que eu não sigo. E vem mais uma enxurrada de propaganda, as mais estúpidas possíveis. Não suporto e largo o celular. Creio que a depressão crônica que me toma todos os dias vem disso, dessa plenipotência da imbecilidade e do péssimo gosto. Me passa pela cabeça a impressão de que é assim que os poderosos sempre nos viram, os czares, césares, ditadores, colonizadores, presidentes, e as redes sociais agora nos mostra o segredo. A grande maioria da humanidade consiste de futilidade e ausência de espírito. Me lembro de Gurdjieff dizendo que só uma minúscula porcentagem de nós conseguiria a conquista da imortalidade. E Simone Weil dizendo que só poucos conseguem saber que existem, que vivem. Tudo o mais vai se apagar pela própria inanição do espírito, pela própria rarefação da consciência. Eu ainda fico aterrorizado de ver como nos deixamos chegar a isso. Minha avó me contava, quando eu era muito criança, sobre o anticristo. Que o anticristo iria marcar cada um dos habitantes da terra, e todos esses marcados iriam sucumbir e perecer. E eu, com oito anos e já muito cético, ria da ingenuidade pentecostal dessa senhora tão devota, pensando que quem seria burro pra se deixar marcar pelo anticristo. E hoje eu penso, quem me dera se houvessem elevadas entidades cósmicas, como um demônio, como um anticristo, para validar uma possível importância de nossas almas. Seres espirituais não tem interesse por nós. A realidade, se eu pudesse voltar no tempo e contar para minha avó, seria tão imbecil que ela jamais acreditaria. "Vó", eu lhe contaria, "o esplendor de Lúcifer não aconteceu, a senhora está errada. Quem nos dera! Aconteceu algo muito, muito, muito pior. Toda a humanidade, que está explodindo, oito bilhões, aceitou voluntariamente viver na mente de um adolescente. Toda a humanidade desistiu de planos maiores e se resignou pelo mais pobre, o mais abjeto, o mais feio, o mais perverso, e fica 24 horas só trabalhando feito um verme, feito uma mula, e vendo vídeos estúpidos. Sorrindo com carinhas estúpidas para mascarar a enorme tristeza. Não houve a glória do Mal, vó. Não houve a dignidade excruciante do inferno de Jó. Não houve fogo nem nenhum de nós teve a honra de ser transformado em uma estátua da sal. Houve só a abissal e brega burrice. Só as cores da miopia e os sons das dancinhas." Eliot disse que o fim viria não com um estrondo, mas com um lamento. E mesmo ele estava errado. O fim está vindo com um meme de um peido, e todos nós símios rindo do alto das árvores jogando bosta e se masturbando um nos outros. Até que tudo seja passado no rodo e não sobre nem uma fagulha de luz para testemunhar que seres como nós um dia existimos.






