Há algumas semanas uma garota conseguiu o direito da eutanásia. Uma garota que, após um estupro, tentou o suicídio saltando de um prédio e ficou paraplégica. Esse livro é o mais triste, o mais terrível, o mais desconsolado já escrito. Seu autor, Baron Biza, passou por sofrimentos que a própria urdidura da existência parece não conceber. Sofrimentos que destroem a filosofia, a religião, o contrato social e reduz tudo à brutalidade animal destituída de alma. Um sofrimento tão indizível que toda a família do autor se suicidou. Não é um livro para todo mundo. Se existe algo mais, não propriamente deus, mas algum pífio sinal de nobreza, uma filigrana de apreensão de algum reino, ele tem que passar por esses solitários inatingíveis a qualquer consolo, esses seres que vivenciaram o que não é suportável, o que não é permitido, o que não pode ser normal. Essa inefabilidade insustentável tem que se legitimar na explicação do por que, apesar de ser inconcebível, isso aconteceu.
charlles campos
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Notas sobre "O deserto e sua semente", de Jorge Baron Biza
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Tabernáculo
Martina pedia para que eu deixasse a porta traseira da Kombi semi aberta. Somente um raio de sol incidia em linha reta até onde estava a cobra, como a luz que vem do vitral de uma igreja para iluminar o ícone devocional no altar. Martina falava palavras de carinho, como se fala com um bichinho doméstico qualquer, ou como se fala com uma criança. Não usava diminutivos, em deferência ao porte cerimonial da cobra, mas sua voz era sussurrante, ponderando frases curtas que terminavam em um retórico tom questionativo. “Você está com fome, princesa? Mas claro que a princesa está com fome”. Talvez não lhe escapasse o propósito muito profundo de afirmar a Gertrudes, naquela ação tão íntima de alimentação, que ela era a sua dona, que sem ela aquela pompa altiva e cheia de intuições inclementes não resultaria em nenhuma posição de poder, mas de fome e abandono. Talvez com aquela voz cheia de consoantes amenizadoras da realidade indomesticável do animal estivesse a astúcia de Martina em dizer à cobra que ela era apenas um buda de brinquedo, um deus mais decaidamente mortal do que ela, pois sem os cuidados de ter ratos em cativeiro itinerante que para a cobra eram preocupações ridículas de um mundo rebaixado ela não teria nem como ter aquela vida dentro do tabernáculo circunstancial da carroceria da Kombi.
Mas Gertrudes não se dobrava, só acordando e se dignando a perceber a presença de Martina quando o odor do rato se fazia tão forte que os instintos da fome suplantavam os instintos da indiferença. Martina erguia com uma mão a parte de cima da gaiola e segurava com a outra mão o ratinho pela ponta do rabo. Tanto presa quanto predador ficavam em uma imobilidade alheia à física e mesmo aos papéis que cada um cumpria naquele sacrifício ritual. A cobra se mantinha em um substancial passo à frente no conhecimento de como se daria o desfecho daquilo, mantendo os olhos abertos e deixando toda a comburência que se acendia no núcleo do seu coração gelado aparecer no flagra de sua língua se projetando ansiosamente para fora. O pobre ratinho em um micro segundo, como se a tragédia milenar a qual toda sua existência se restringia lhe cobrasse sadicamente essa lucidez, percebia aquele ser multidimensional do tamanho de um mundo abaixo dele, a poucos centímetros, movendo-se com um vagar cheio de matemática e incontestável determinismo, e Martina alegava que sentia o corpo dele congelar. Sentia seu coração se encher de terror premonitório e parar, como se depois do sadismo viesse uma benção final piedosa que lhe poupasse do sofrimento. Ela abria a mão e o rato caía, e se todas essas predições de misericórdia fossem puro fruto retórico de Martina e não funcionasse bulhufas, ele não tinha tempo de sequer dar um mínimo movimento, pois a cobra o abocanhava com uma violência concisa, abrupta, como se toda a energia conservada durante esses três dias de puro imobilismo se gastasse naquela propulsão velocíssima.
Trazíamos um saco de ração para hamsters e pequenos roedores, e Martina uma vez procurou no rótulo se podia ser usada para gatos.
_ Você pensa em dar um gato para Gertrudes?_ perguntei.
_ Não se perde nada com a curiosidade investigativa. Foi a curiosidade investigativa que fez com que essas estradas por onde vamos fossem desbravadas. Quem pensaria em ir para a Patagônia a não ser os movidos por tais pensamentos intrusivos?
_ Tá bom. Espero que essa sua imaginação desbravadora tenha pensado como deve ser segurar um gato de dez quilos pela cauda por cima de uma anaconda albina.
_ Eu não penso em dar um gato para Trudes, Halp. Eu sei que essa sua cabecinha com ideias humanitárias está cheia de apreensões sobre isso. Eu só leio o rótulo e, para seu governo, essa ração não é indicada. Não tem potássio suficiente.
_ Nesse caso, uma ração menos nutritiva seria menos ou mais apta a um gato para fazê-lo mais receptivo a ser oferecido como almoço para uma cobra?
Ela aceitava que o absurdo da coisa se desviasse para o alívio humorístico e seus olhos se semi fechavam.
_Não conhecemos a situação dos gatos abandonados da Patagônia. O que eles podem caçar para sobreviver? Talvez já sejam naturalmente muito desnutridos e uma ração de hamsters os tornem mais sonolentos. Isso facilitaria bem as coisas, Halp.
Mas quando chegamos a Hochschild, no Paraguai, haviam apenas mais dois hamsters. Dois pouco animados serezinhos de olhos vermelhos que comiam uma bola de ração como judeus rezando numa sinagoga, um ato impessoal que não falava nada sobre eles. Martina não me deixava alimentar nenhum tipo de consideração por aquelas criaturas, falando sobre o grau de estupidez que os condicionavam a ser as melhores cobaias científicas. Eu não lhes dirigia qualquer olhar mais terno do que dirigiria à cobra, e na verdade sentia que um ser suntuoso como Gertrudes merecia uma consideração honorífica mais elevada na escala biológica, mas Martina queria deixar meu distanciamento emocional absolutamente seguro para ela, me relatando que aquelas fofuras se distinguiam pela perversidade.
_ São ratos, Halp, só são movidos pela necessidade de se reproduzirem com extrema rapidez para formarem bandos de assassinos impiedosos. Se nós dois caíssemos mortos aqui, eles nos comeriam.
_ E Gertrudes ficaria feliz com isso por depois os devorar mais gordinhos_ eu provocava.
Ela elevava os olhos no seu gesto contumaz de dispensar aos céus a minha ignorância, mas concordava que Gertrudes era tão impermeável à ternura quanto um terremoto. Ela tinha consciência de que a cobra não a reconhecia sequer como um outro ser vivo, visto não ter nenhum interesse em seu sistema de recompensas, quanto mais como sua dona. Mas todo dia tinha o momento de contato entre as duas, Martina retirando a cobra da gaiola e a segurando no braço com toda delicadeza. Falava com ela com suas entonações de princesa, fazendo-lhe carinho na cabeça, incentivando-a a se relaxar. Somente quando a sentia se enrolando em seu braço a ponto de o apertar, Martina então deixava de conversar com a cobra para estudar uma recepção preventiva àquele abraço. Pela cabeça de Martina deveria passar a compreensão do que o rato sentia quando caía naquele cadafalso e era tragado da existência. Ela se sentava, porque a cobra se tornava nesse momento inesperadamente pesada, e ficava em silêncio. Ela conhecia bem o animal, porque logo o susto passava e havia até uma espécie de troca muito intrínseca entre as duas, ela com seu braço imóvel e a cobra tornando a voltar ao seu sono.
(De "As aventuras de Halperin Sas")
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Histórias de amor no novo milênio
Vi um vídeo no Fantástico falando sobre os apartamentos caixotes de Hong Kong. Pessoas moram dentro de caixas menores que caixões. São dezenas delas em cada apartamento, com uma micro cozinha e um micro banheiro coletivo. Ao todo, são milhares, quem sabe milhões, que moram assim na China. A visão desses prédios é aterrorizante, gigantescos, cobrindo com suas cores pardas ciclópicas toda a área urbana. Não há o mínimo espaço para algo que não seja feio, brutal, sem alma, opressivo, aviltante. Em dado momento o repórter é expulso pelo dono do local, ou o gerente, que o aborda com a truculência de um miliciano. O repórter então sai para a rua e entrevista os que se dispõe. Uma senhora diz que lembra com dor a época em que era criança e morava em uma casa ampla, o que só existe agora na sua memória. Um homem diz que não tem mais onde morar, pois os aluguéis são altíssimos, e a grande maioria dos chineses ganha um salário de miséria, o menor do mundo. Os moradores encaixotados são serventes de açougues, funcionários da construção civil, chapas de feira, etc. Uma mulher, contudo, diz que é o paraíso, e é filmada no claustrofóbico espaço deitada. Antes, ela apanhava do marido e foi expulsa de casa, porque o marido não mais a queria, só sobrando morar ali. Pessoas tratadas como lixo, como números, numa sociedade desapiedada e sem traços de humanidade. Eu estou chegando na página 100 de História de amor no novo milênio, escrito por Can Xue, o que não é o verdadeiro nome da autora. Ela saiu de um cenário assim, do nível mais baixo da pirâmide trabalhista escravocrata chinesa, cursou até o ensino fundamental e é uma autodidata. Nietzsche falava sobre o regime chinês em Além do bem e do mal (ou será em Humano demasiadamente humano?), como uma figura retórica do inferno. Hoje, sociedades assim são elogiadas pelos progressistas e pelos capitalistas, o grande país que está tirando o Satã Americano da liderança global. Eu ainda não entendi onde a Xue quer chegar. É um romance que bebe generosamente de Kafka, com seus personagens regidos por morais heterodoxas e situações oníricas. O que me cativou de imediato é a liberdade irrestrita com a qual é escrito. A alegria extasiada da palavra. A forma como a autora mostra que aquele é o terreno só dela, amplo, ilimitado, cheio de espaço. Uma das personagens do romance diz que se tornou prostituta como escape para se livrar da vida terrível que levava na fábrica. A literatura nunca foi tão representativa da mentalidade de cada nação, com seus desejos, lamentos, temores, sonhos e vislumbres de redenção como agora.
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
Sátántangó
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Senhorinhas
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025
O anticristo
Entro no facebook hoje. Vídeos que eu não quero ver são jogados na minha cara. Não quero ver um avião planando. Não quero ver um cara pendurado numa montanha. Não quero ver um vídeo caseiro de uma mulher de bermudas pegando um vaso na estante. Etc, etc, etc. Tudo de páginas que eu não sigo. E vem mais uma enxurrada de propaganda, as mais estúpidas possíveis. Não suporto e largo o celular. Creio que a depressão crônica que me toma todos os dias vem disso, dessa plenipotência da imbecilidade e do péssimo gosto. Me passa pela cabeça a impressão de que é assim que os poderosos sempre nos viram, os czares, césares, ditadores, colonizadores, presidentes, e as redes sociais agora nos mostra o segredo. A grande maioria da humanidade consiste de futilidade e ausência de espírito. Me lembro de Gurdjieff dizendo que só uma minúscula porcentagem de nós conseguiria a conquista da imortalidade. E Simone Weil dizendo que só poucos conseguem saber que existem, que vivem. Tudo o mais vai se apagar pela própria inanição do espírito, pela própria rarefação da consciência. Eu ainda fico aterrorizado de ver como nos deixamos chegar a isso. Minha avó me contava, quando eu era muito criança, sobre o anticristo. Que o anticristo iria marcar cada um dos habitantes da terra, e todos esses marcados iriam sucumbir e perecer. E eu, com oito anos e já muito cético, ria da ingenuidade pentecostal dessa senhora tão devota, pensando que quem seria burro pra se deixar marcar pelo anticristo. E hoje eu penso, quem me dera se houvessem elevadas entidades cósmicas, como um demônio, como um anticristo, para validar uma possível importância de nossas almas. Seres espirituais não tem interesse por nós. A realidade, se eu pudesse voltar no tempo e contar para minha avó, seria tão imbecil que ela jamais acreditaria. "Vó", eu lhe contaria, "o esplendor de Lúcifer não aconteceu, a senhora está errada. Quem nos dera! Aconteceu algo muito, muito, muito pior. Toda a humanidade, que está explodindo, oito bilhões, aceitou voluntariamente viver na mente de um adolescente. Toda a humanidade desistiu de planos maiores e se resignou pelo mais pobre, o mais abjeto, o mais feio, o mais perverso, e fica 24 horas só trabalhando feito um verme, feito uma mula, e vendo vídeos estúpidos. Sorrindo com carinhas estúpidas para mascarar a enorme tristeza. Não houve a glória do Mal, vó. Não houve a dignidade excruciante do inferno de Jó. Não houve fogo nem nenhum de nós teve a honra de ser transformado em uma estátua da sal. Houve só a abissal e brega burrice. Só as cores da miopia e os sons das dancinhas." Eliot disse que o fim viria não com um estrondo, mas com um lamento. E mesmo ele estava errado. O fim está vindo com um meme de um peido, e todos nós símios rindo do alto das árvores jogando bosta e se masturbando um nos outros. Até que tudo seja passado no rodo e não sobre nem uma fagulha de luz para testemunhar que seres como nós um dia existimos.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025
O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq






