Ontem ouvi por acaso uma música de minha juventude. Arc of diver, do Steve Winwood. Eu quase tive que me sentar para suportar a carga emocional tremenda. Era a música que eu ouvia nas férias que passei com meu pai, em São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, na casa do meu tio. Me veio a lembrança poderosa do frio, das igrejas coloniais, dos olhares das moças para o rapaz tímido e bonito que eu era (quem não é de uma beleza estonteante aos 17 anos?). Era tudo um sonho real, de uma delicadeza profunda. Eu lia O processo, e meu pai, O exorcista, no quarto à noite. À mesa da casa do meu tio sentávamos meu tio Nute, minha prima Patrícia, de 13 anos, minha tia, meu pai e eu. A conversa era animada, cheia de conforto e carinho. Meu pai apontava para meu nariz e para o nariz de minha prima e dizia: "são iguais, narizes petulantes". E todos riam. Nunca mais voltei para lá. Da mesa, minha prima morreu ainda jovem de um avc. Meu tio Nute não suportou a tristeza da perda e morreu um ano depois. Meu pai sucumbiu ao câncer, sem conhecer meus filhos, seus netos que ele teria amado além de todas as coisas. Para onde vai isso tudo? Será que tudo isso se perde? Será que a reivindicação de uma continuidade só tem sua lógica diante a evocação da música? Ou será que a própria efemeridade é que dá substância a isso que, por falta de uma palavra ainda não inventada, alguns conceituam como beleza_ "para consumar a beleza do propósito de Deus"? Esses dias eu tive um sonho. Em espírito eu atravessei o mundo. Entrei em florestas. Nadei nas águas escuras de um grande lago escocês à noite. Sem medo. O que eu senti ao acordar foi isso: sem medo. Eu tive uma sensação quase insuportável de felicidade, algo que também a palavra não foi feita para comportar, uma infinita confiança no pertencimento. Eu era o cosmos. "We'll hold today to ransom 'til our quartz clock stop until yesterday".
charlles campos
sábado, 18 de julho de 2026
quinta-feira, 23 de abril de 2026
A poderosa risada
A Dani entrou para fazer a cirurgia cardíaca hoje às 5 da manhã. Eu fiquei na sala de espera lendo sobre o zen-budismo. Antes a Dani tomou banho no hospital e quando se sentou para esperar pelo enfermeiro com a cadeira de rodas eu apontei o cartaz que fala sobre retirar todos os adereços e lhe perguntei se ela tirou o piercing "lá de baixo". "Tirei essa noite e coloquei no seu pênis", ela respondeu. O zen-budismo fala sobre a gargalhada libertadora, a "poderosa risada". Mas o zen-budismo é muito frio. Principalmente para alguém que necessita de alguma entidade metafísica pra rezar e pedir pela proteção da pessoa que ama. A Dani acertou o Pix do lanche da semana de nossos filhos na escola na madrugada de ontem, no hotel, seis horas antes da cirurgia. Ela me disse que quando eu voltasse para nossa casa, há 170 quilômetros, eu não fosse ouvindo música clássica para não ficar com sono no voltante. Ela me disse para ouvir rock, alguma música bem agitada. "Mas eu estou há anos na fase do jazz, Dani", eu lhe digo. "Então escute Freddie Hubbard e Joe Henderson e John Coltrane, mas não Bobby Hutcherson. Vibrafone tem efeito entorpecente. E jamais Chet Baker". Eu fico oito horas esperando, lendo sobre o zen-budismo. O zen-budismo é frio, não crê na transcendência, não crê na glória. Meu nome é anunciado e eu vou para a ante sala da cirurgia. A Dani está bem. Eu vejo os médicos e as enfermeiras como seres benevolentes em um estágio de extrema pureza. Choro quando eles me apertam a mão, não consigo evitar. O zen-budismo diz que os Budas passam os dias bebendo chá e comendo arroz. O zen-budismo diz que devemos ver todo o universo em um grão de areia. Daí me dou conta: o zen-budismo não crê na glória porque acredita que já estamos nela. Ele não crê na transcendência porque já estamos na transcendência. Me parece uma parcela de iluminação ter esse insight, e eu sou assolado por uma alegria imensa. A alegria da Dani estar bem, da sombra desses quatro meses ter se dissipado, da ameaça do meu pesadelo recorrente da solidão não me atemorizar mais. Nós já estamos na glória, como isso só me ocorreu agora? Tudo já aconteceu e nós estamos na glória. E eu faço mais uma oração e não quero mais nada do que beber chá e comer arroz por toda a infinitude com ela, a Dani.
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Histórias de amor no novo milênio
Vi um vídeo no Fantástico falando sobre os apartamentos caixotes de Hong Kong. Pessoas moram dentro de caixas menores que caixões. São dezenas delas em cada apartamento, com uma micro cozinha e um micro banheiro coletivo. Ao todo, são milhares, quem sabe milhões, que moram assim na China. A visão desses prédios é aterrorizante, gigantescos, cobrindo com suas cores pardas ciclópicas toda a área urbana. Não há o mínimo espaço para algo que não seja feio, brutal, sem alma, opressivo, aviltante. Em dado momento o repórter é expulso pelo dono do local, ou o gerente, que o aborda com a truculência de um miliciano. O repórter então sai para a rua e entrevista os que se dispõe. Uma senhora diz que lembra com dor a época em que era criança e morava em uma casa ampla, o que só existe agora na sua memória. Um homem diz que não tem mais onde morar, pois os aluguéis são altíssimos, e a grande maioria dos chineses ganha um salário de miséria, o menor do mundo. Os moradores encaixotados são serventes de açougues, funcionários da construção civil, chapas de feira, etc. Uma mulher, contudo, diz que é o paraíso, e é filmada no claustrofóbico espaço deitada. Antes, ela apanhava do marido e foi expulsa de casa, porque o marido não mais a queria, só sobrando morar ali. Pessoas tratadas como lixo, como números, numa sociedade desapiedada e sem traços de humanidade. Eu estou chegando na página 100 de História de amor no novo milênio, escrito por Can Xue, o que não é o verdadeiro nome da autora. Ela saiu de um cenário assim, do nível mais baixo da pirâmide trabalhista escravocrata chinesa, cursou até o ensino fundamental e é uma autodidata. Nietzsche falava sobre o regime chinês em Além do bem e do mal (ou será em Humano demasiadamente humano?), como uma figura retórica do inferno. Hoje, sociedades assim são elogiadas pelos progressistas e pelos capitalistas, o grande país que está tirando o Satã Americano da liderança global. Eu ainda não entendi onde a Xue quer chegar. É um romance que bebe generosamente de Kafka, com seus personagens regidos por morais heterodoxas e situações oníricas. O que me cativou de imediato é a liberdade irrestrita com a qual é escrito. A alegria extasiada da palavra. A forma como a autora mostra que aquele é o terreno só dela, amplo, ilimitado, cheio de espaço. Uma das personagens do romance diz que se tornou prostituta como escape para se livrar da vida terrível que levava na fábrica. A literatura nunca foi tão representativa da mentalidade de cada nação, com seus desejos, lamentos, temores, sonhos e vislumbres de redenção como agora.
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
Sátántangó
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Senhorinhas
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025
O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq
sexta-feira, 27 de dezembro de 2024
Emmanuel Carrère 2
Emmanuel Carrère está no calor sufocante da ilha grega de Leros, hospedado na casa de uma amiga. A amiga oferece o chuveiro para que ele tome um banho, mas ele recusa. Está há uns bons dias sem tomar banho, e sente um "prazer sombrio em marinar no meu suor nervoso e nas minhas roupas rançosas". Eles saem à noite para beber. Carrère toma incontáveis garrafas de vinho. Volta para a casa da amiga, dança com ela ao som da Polonaise "heróica" de Chopin, tocada por Vladimir Horowitz. Depois, ele e a amiga não fazem amor, o que ele não se lembra "graças a quem de nós dois esse erro foi evitado", o que fica a suspeita que para o sensualista exacerbado e dedicado cultor erótico que ele é, na certa a recusa foi da mulher. O que não é de se espantar, visto a sua roupa que há dias não troca, a sua cueca que há dias não troca. Essa cena é narrada em Ioga, depois de Carrère tratar dos jovens médio orientais refugiados num abrigo grego, numa tentativa desaforada de ser um escritor com preocupações sociais e senso histórico. É desconcertante para o leitor ver na recusa de Carrère em tomar banho o limite clínico real de sua capacidade em ser altruísta, em pensar fora de si, em realmente ser "um grande escritor". E o mais desconcertante é que o nojo que eu, pelo menos, senti, ao imaginar o odor que um corpo europeu masculino de sessenta anos despende privado da mínima higienização por dias, aumenta por saber que Carrère mesmo não percebeu isso ao escrever o texto. Ele não dá dicas morais ou metafóricas a serem retiradas dessa porquidão, ele escreve isso sem a mínima autocrítica, desmerecendo todo esforço anterior empregado na obra por ser uma pessoa melhor, menos egoísta.






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