Depois que o motor havia rateado,
soltando fumaças quase sólidas de poluentes no engasgo do carburador, Martina
começou a ser paranoica em relação à qualidade do combustível que usávamos. Não
era certo que pudéssemos nos dar ao luxo de escolher, em um percurso onde se
via postos de gasolina de beira de estrada que só eram mantidos em pé por causa
de anos em que a sujeira acumulada se solidificou dando força de sustentação às
paredes. Se perguntássemos em nosso esforçado castelhano qual a procedência da gasolina
para o frentista, esse iria nos rechaçar com uma reprimenda ríspida dizendo que
não se falava de política por ali. Aconteceu uma vez, com o sujeito magro de
cara tapada, com tocos de dentes na boca e um olho estuporado pela bebida, que
na hora de soltar a trava da bomba de combustível nos disse que o general
Lucerda sabia da qualidade de tudo que transitava pelo continente. Tinham medo
de espiões do governo, e ver duas pessoas como nós, tão clichê do jovem
doidivanas sul-americano era muito suspeito. A maioria achava que éramos
informantes das juntas militares, ora de Pinochet, ora de Luzerda, ora de
Figueiredo, ou que diabos de ditador que proclamara seu mando absoluto
dependendo do país em que estivéssemos.
_ Por essa eu não esperava, Halp_ Martina disse_ Eu temia que nos
deparássemos com estupradores, ladrões, assassinos foragidos, ou, na melhor das
hipóteses, esses estelionatários com tendências artísticas como mágicos
mambembes que pedem para você ver em qual copo está a moeda enquanto lhe tira a
carteira por trás. Mas que eles é que iriam ter medo de nós, essa é nova!
Ela ria com os pés no painel da Kombi. Havia pintado as unhas dos pés de
verde metálico, e o vento vindo da janela servia para secar o esmalte. Essa
vantagem inesperada a fazia mais audaciosa. Ela explorava até onde ia nossa
sorte mandando aqueles sujeitinhos de ar enfadado, possivelmente bastardos
levados pela vida a trabalharem naqueles serviços inglórios, averiguar com os
gerentes os comprovantes de procedência da gasolina. O sujeitinho ia de ombros
baixos, enxugando a nunca com um trapo imundo, e voltava cinco minutos depois
com um homem que tendia a ser um pouco mais velho e sempre gordo, com um o ar
contido para não deixar a fúria extravasar antes de certificar a quem ela seria
dirigida. Nos estudava com os olhos cheios de ponderação, a mandíbula travada,
nos olhando de alto a baixo. Os cabelos tingidos de Martina, que haviam
crescido nos últimos meses de viagem e as raízes tornaram a ficar negras, lhe
dando uma aparência desleixada. O meu aspecto de hippie com os apetrechos de
barba e cabelos longos ainda em teste de o que manter da figura clichê básica
do gênero. Estudava a Kombi amarela, com a moldura retangular das janelas
branca, e cada um desses gerentes reformava em questão de segundos a realidade
que seus olhos emplastravam dentro de seus conhecimentos sociológicos práticos.
Ou éramos loucos fumadores de maconha, tão loucos que estávamos nos atirando
para as gargantas mais perigosas de governos autoritários com um alvo de
captura nas costas, ou éramos nós mesmos elementos desses governos enviados
para investigar como a soberania da pátria e a imunidade contra as sedições
antirrevolucionárias comunistas estava vigorando naqueles cantos remotos. O
sujeito engolia a fúria e com uma subserviência tocante nos apertava as mãos,
sendo um tanto mais gentil em apenas tocar as pontas dos dedos de Martina,
intuindo que talvez fosse a própria filha do coronel Bustamante ou uma sobrinha
neta do Médice, e com uma ordem ríspida mandava o pobre magrelo bastardo ir
pegar as notas fiscais e os atestados de qualidade.
Era um dos delírios de olhos abertos que nós tínhamos naquela viagem,
muito disso tendo me contaminado de Martina. Ela ia descrevendo aspectos
geográficos de cada lugar pelo qual passávamos. Mostrava as casas de adobe das
pequenas aldeias paraguaias falando que era parte da estrutura arquitetônica
dos plantadores toltecas. Falava sobre o impaludismo visível na barriga
destendida das crianças que nos olhavam em pé, nuas, de frente às portas.
Falava dos sintomas e me olhava com um olhar doutoral para dizer sobre o
remédio profilático inventado por uma pesquisadora mexicana do início do
século. Fazia como se não mencionar o nome da pesquisadora fosse uma
consideração modesta contra o excesso de didatismo de sua parte, de modos que
se eu perguntasse seria uma deselegância a ser computado entre minhas falhas.
Ela falava um espanhol correto, funcionalmente limitado, e dizia que não
balançar a cabeça quando ouvia a resposta dos nativos era uma forma de mostrar
que era perfeitamente integrada ao idioma. Ela a cada dia escrevia nas margens das páginas do seu dicionário espanhol português Michelin um mínimo de dez
palavras novas que aprendia. Sua caligrafia enviesada, tão disforme que deveria
ser algum indicativo de que sua incapacidade de se submeter à atenção ordeira
vinha desde os tempos do ensino fundamental, registrava as palavras como as
ouvia, na velocidade incruenta do papagueamento do latino médio. Muitas dessas
palavras se perdiam quando ela não as encontrava no dicionário, o que lhe
deixava indignada. Se pudesse pedir para que uma velha inca vendedora de
aljarasca falasse de vagar, ou se pudesse pedir a um lavrador estancieiro que
repetisse a última aparte de sua sentença. De todo modo, sua confiança de que
se incorporava àquilo tudo com um simples posicionamento mimético surtia
efeito, na medida em que se tornava vazia para se deixar preencher com aqueles cenários exóticos de sol e chuva, aqueles seres de pele da cor do entardecer cujos
cabelos lhe deslumbravam pela pureza de crina de um animal de puro sangue,
aquela natureza vasta e ainda indomável com estradas primitivas transitadas por
carros de marcas desconhecidas. Ela estava cada vez mais em êxtase, aos poucos
se deixando levar pela humildade de não poder abarcar a amplidão ilimitada
daqueles violentos assédios sinestésicos de montanhas, vales, cachoeiras e
faróis noturnos aparecendo como avantesmas perdidos na linha enfadonha e
interminável das rodovias.
Na parte de trás da Kombi levávamos nossas bagagens, o baú de tecidos
bordados com as imagens de santos que havíamos conseguido vender apenas uma
peça num posto de caminhoneiros, a gaiola onde ficava sua jibóia albina
Gertrudes, e os utensílios de cozinha. Colado à porta traseira vinha
uma estantezinha de ferro que ela pediu para que eu pedisse ao capitão Bombo
adquirir em algum ferro velho em São Paulo, antes de partirmos; que o capitão
Bombo pintara de cinza num gesto esperado de carinho, e onde guardávamos nossos
livros. Martina não achou a coisa estúpida, como qualquer outra pessoa teria
achado, inclusive todas as antigas namoradas que eu tive, e mesmo eu, mas a
considerou um adendo lúdico que se encaixava bem ao conforto caseiro que
pretendíamos dar ao máximo ao veículo. Ela se deitou ao lado da estante, depois
que eu a acoplei no encaixe da porta, e cruzou as pernas, balançando o pé
vestido com uma meia de algodão, fingindo para si mesma, como uma criança
ensaiando com seriedade alguma brincadeira, que lia um livro que ainda eu não
tinha depositado ali.
_ Temos que levar Moby Dick_ ela disse, me olhando com os olhos
progressivamente requerentes, depois de ter saídos do transe._ Imagine nós
estacionando no campo, ao anoitecer, e lendo Ismael falando sobre âncoras,
mastros e o virtuosismo do uso do arpo, sob a luz do lampião a gás?
Ela tinha um poder sem igual de me fazer entrar nas suas fantasias, o
que me fez entender aquela sugestão íntima. Mas não encontrei nenhum volume de
Moby Dick nos sebos, por incrível que pareça, mas não usei isso como
desistência não o substituindo por livros de Jack London e nem coisas
como A Ilha do tesouro ou com coisas como Viagem à
Patagônia. Eu absorvera completamente a intuição de precisarmos de companhia de
filósofos metafísicos que de uma forma bem compreendida pela mente afiada de
Martina correspondia à finalidade heterodoxa de nossa viagem, e por isso eu
trouxe meu volume de William James e uma coletânea magra mas substancial de
Whitman. Ela trouxe os livros de Carlos Castaneda, os quais muitos eram
responsáveis pela sua ânsia por aquela aventura. Não podíamos levar muitos
livros para não dar uma conotação avessa ao desejo de não interpormos nenhum
filtro entre nós e a existência do mundo, por mais que esse filtro tivesse esse
nível e calibragem.
Mas os pontos delicados dessas bagagens eram a cobra e a espingarda de
Martina. Considerando pelo item mais politicamente arriscado, a espingarda
seria algo que poderia ser visto com algum
propósito de banditismo, mas também era uma necessidade de segurança óbvia.
Martina sabia manejá-la com maestria. Ela era louca por armas, o que num primeiro momento não
condizia com seus posicionamentos pacifistas. Ela falava por alto que já tinha
tido uma mangun 44 e uma Glock 45, e que quando morava em São Paulo nunca saía de madrugada voltando do seu emprego de garçonete no bar do
Japa sem seu revólver cromado 38. Ela o colocava preso num aparato que ela
desenvolvera junto ao cinto e colado debaixo da blusa, de modos que até quando
servia aqueles delinquentes filhos da puta que arranjavam bicos temporários nos
taxis e nos serviços de carga e descarga ela o portava. Se alguns deles se engraçassem
com ela ela se sentia melhor sabendo que num caso extremo poderia retirar a arma
num átimo e render o sujeito. Nunca precisou, o que ela assimilava como sendo o
poder magnético natural que tais objetos exalam. Eram tidas como coisas más
porque o vulgo havia sido doutrinado a não ver o caráter de transformação
política que tem um cidadão armado. Eram absolutamente seguras, como gatinhos
domesticados. Era como ter um tigre fiel ao seu lado, que na maior parte
realizava o sono da estabilidade saudável, mas que no menor transtorno da linha
de respeito, ele acordava com os dentes arreganhados e sua presença
respeitável.
Nunca perguntei se ela teve que atirar em alguém, era um dos assuntos
sobre o qual seria deselegante se aprofundar. E tanto eu quanto ela sabíamos do
fundamento de nosso relacionamento, que não tinha nada de sexual e nem mesmo
afetivo, sendo uma espécie de companheirismo confiável em nome da exploração do
que havia do lado de lá do tédio. Talvez por isso não levávamos todos os livros
que queríamos, Martina não tendo feito caso de acharmos de algum modo um
exemplar de Moby Dick, pois a própria leitura prolongada nos remetia à burguesia apaziguada e servil da monotonia doméstica. Ela então tinha todos
cuidados posiceis com a arma. Ela a edsmonatva, e a quadrada em comparimentos
separados da Kombi. O cano ela o escondia num aprofunfdamento à frente do pneu
traiseiro da direita, uma caixa que ela fizera na lataria do veículo que
comportava como uma luva o tamanho do cano. O cão da espingarda ela o guardava
num espaço atrás das malas num aparadpor do teto. E o cabo, que era grande e
não se podia desmontar, ela o guardava numa sacola que ficava bem escondida
debaixo da cobra. Era uma atitude temerário, pois algum policial de fronteira
poderia, em vez de retroceder diante o animal, querer que ela o mostrasse de
perto, para averiguar se não tinha nenhum caráter clandestino em ter uma cobra
viajando livremente pelas Américas.
_ Eu tenho fé que um policia de fronteira não vai fazer caso de uma
espingarda, Halp. Lá é uma terra de milícia e da lei natural, do cara um por
si. Aposto que todos aqueles caminhoneiros e foragidos da justiça de outros
países atrásde uma vida nova andam armados. A gente tende a ir achando ser uma
coisa de outro mundo mas é a coisa mais corriqueira.
O assunto da cobra envolvia uma preocupação de ordem de como manter um
animal de três metros que era puro músculo alimentado. Martina levava uma
pqueno zollógico de ramsters no bagageiro de cima. A técnica era mantê-los
longe do apurado olfato de Gertrides, que poderia passar longas horas de
transtornos sentindo o odor provocante da comida. Era um animal
tranquilo, com a calma sobrenatural dos seres que detem certo conhecimento
demoníaco indevassável. Uma sacertode milenar que estava em uma eterna oração
muda, indiferente aos mesquinhos preceitos terrenos que a
envolvia. Quando era hora do jantar, que era um evento feito uma vez a cada
três dias, Martina retirava um rato do zoológico, pegando-o pelo rabo, e se
preparava com uma solenidade puramente funcional para leva-lo em oferenda
àquela deusa melifluamente gélida. O ratinho nem tentava fugir, na ignorância
do destino que estava por sucumbir, se limitando a mexer os bigodes rapidamente
não como contestação mas para desfazer-se de algum último desconforto, uma
última reação que suas sinapses produziam de uma sensação de coceira.
Martina pedia para que eu deixasse a porta traseira semi aberta. Somente
um raio de sol incidia em linha reta até onde estava a cobra, como a luz que
vem do átrio de uma igreja para iluminar o ícone devocional no altar. Martina
falava palavras de carinho, como se fala com um bichinho doméstico qualquer, ou
como se fala com uma criança. Não usava diminutivos, em deferência ao porte
cerimonial da cobra, mas sua voz era sussurrante, ponderando frases curtas que
terminavam em um retórico tom questionativo. “Você está com fome, princesa? Mas
claro que a princesa está com fome”. Talvez não lhe escapasse o propósito muito
profundo de afirmar a Gertrudes, naquela ação tão íntima de alimentação, que ela
era a sua dona, que sem ela aquela pompa altiva e cheia de intuições
inclementes não resultaria em nenhuma posição de poder, mas de fome e abandono.
Talvez com aquela voz cheia de consoantes amenizadores da realidade
indomesticável do animal estivesse a astúcia de Martina em dizer à cobra que
ela era apenas um buda de brinquedo, um deus mais decaidamente mortal do que
ela, pois sem aqueles cuidados de ter ratos em cativeiro itinerante que para a cobra eram preocupações ridículas de um mundo rebaixado ela não teria nem
como ter aquela vida dentro do tabernáculo circunstancial da carroceria da
Kombi.
Mas Gertrudes não se dobrava, só acordando e se dignando a perceber a
presença de Martina quando o odor do rato se fazia tão forte que os instintos
da fome suplantavam os instintos da indiferença. Martina erguia com uma mão a
parte de cima da gaiola e segurava com a outra mão o ratinho pela
ponta do rabo. Tanto presa quanto predador ficavam em uma imobilidade alheia à
física e mesmo aos papéis que cada um cumpria naquele sacrifício ritual. A cobra
se mantinha em um substancial passo à frente no conhecimento de como se daria o
desfecho daquilo, mantendo os olhos abertos e deixando toda a comburência que
se acendia no núcleo do seu coração gelado aparecer no flagra de sua língua se projetando ansiosamente para fora. O pobre ratinho em um
micro segundo, como se a tragédia milenar a qual toda sua existência se
restringia lhe cobrasse sadicamente essa lucidez, percebia aquele ser
multidimensional do tamanho de um mundo abaixo dele, a poucos centímetros, movendo-se com um vagar cheio de matemática e incontestável determinismo, e Martina
alegava que sentia o corpo dele congelar. Sentia seu coração se encher de
terror premonitório e parar, como se depois do sadismo viesse uma benção final
piedosa que lhe poupasse do sofrimento. Ela abria a mão e o rato caía, e se
todas essas predições de misericórdia fossem puro fruto retórico de Martina e
não funcionasse bulhufas, ele não tinha tempo de sequer dar um mínimo
movimento, pois a cobra o abocanhava com uma violência concisa, abrupta, como
se toda a energia conservada durante esses três dias de puro imobilismo se
gastasse naquela propulsão velocíssima.
Trazíamos um saco de ração para hamsters e pequenos roedores, e Martina
uma vez procurou no rótulo se podia ser usada para gatos.
_ Você pensa em dar um gato para Gertrudes comer?_ perguntei.
_ Não se perde nada com a curiosidade investigativa. Foi a curiosidade
investigativa que fez com que essas estradas por onde vamos fossem desbravadas
para a Patagônia. Quem pensaria em ir para a Patagônia a não ser os movidos por
tais pensamentos intrusivos?
_
Tá bom. Espero que essa sua imaginação desbravadora tenha pensado como deve ser
segurar um gato de dez quilos pela calda por cima de uma anaconda albina.
_
Eu não penso em dar um gato para Trudes, Halp. Eu sei que essa sua cabecinha com ideias humanitárias está cheia de apreensões sobre isso. Eu só leio o
rótulo e, para seu governo, essa ração não é indicada. Não tem potássio
suficiente.
_ Nesse caso, uma ração menos nutritiva seria
menos ou mais apta a um gato para fazê-lo mais receptivo a ser oferecido como
almoço para uma cobra?
Ela aceitava que o absurdo da coisa se desviasse para o alívio humorístico
e seus olhos se semi fechavam.
_Não conhecemos a situação dos gatos abandonados da Patagônia. O que
eles podem caçar para sobreviver? Talvez já sejam naturalmente muito
desnutridos e uma ração de hamsters os tornem mais sonolentos. Isso facilitaria
bem as coisas, Halp.
Mas quando chegamos a Hostachild, no Paraguai, haviam apenas mais dois hamsters. Dois pouco animados serezinhos de olhos vermelhos que comiam uma bola de ração como judeus rezando numa sinagoga, um ato impessoal que não falava nada sobre eles. Martina não me deixava alimentar nenhum tipo de consideração por aquelas criaturas, falando sobre o grau de estupidez que os condicionavam a ser as melhores cobaias científicas. Eu não lhes dirigia qualquer olhar mais terno do que dirigiria à cobra, e na verdade sentia que um ser suntuoso como Gertrudes merecia uma consideração honorífica mais elevada na escala biológica, mas Martina queria deixar meu distanciamento emocional absolutamente seguro para ela, me relatando que aquelas fofuras se distinguiam pela perversidade.
_ São ratos, Halp, só são movidos pela necessidade de se reproduzirem com extrema
rapidez para formarem bandos de assassinos impiedosos. Se nós dois caíssemos
mortos aqui, eles nos comeriam, disse.
_ E Gertrudes ficaria feliz com isso por depois os devorar mais
gordinhos_ eu provocava.
Ela elevava os olhos no seu gesto contumaz de dispensar aos
céus a minha ignorância, mas concordava que Gertrudes era tão impermeável à
ternura quanto um terremoto. Ela tinha consciência de que a cobra não a
reconhecia sequer como um outro ser vivo, visto não ter nenhum interesse em seu
sistema de recompensas, quanto mais como sua dona. Mas todo dia tinha o momento
de contato entre as duas, Martina retirando a cobra da gaiola e a segurando no
braço com toda delicadeza. Falava com ela com suas entonações de princesa,
fazendo-lhe carinho na cabeça, incentivando-a a se relaxar. Somente quando a sentia se enrolando em seu braço a ponto de o
apertar, Martina então deixava de conversar com a cobra para estudar uma
recepção preventiva àquele abraço. Pela cabeça de Martina deveria passar a
compreensão do que o rato sentia quando caía naquele cadafalso e era tragado da
existência. Ela se sentava, porque a cobra se tornava nesse momento
inesperadamente pesada, e ficava em silêncio. Ela conhecia bem o animal, porque
logo o susto passava e havia até uma espécie de troca muito intrínseca entre as duas, ela com seu braço imóvel e a cobra tornando a voltar ao seu sono.
Quando chegamos a Hochstadt era a vez dela de dirigir. Chegamos quase
seis da tarde e ela estacionou a Kombi numa rua que tinha o nome de algum
general alemão, no que parecia as zonas mais periféricas do centro. As lojas
estavam fechando, e os funcionários pegavam suas bicicletas ou se dirigiam a um
ponto de ônibus na esquina. Um homem vestido com um macacão encardido, um
cigarro jogando fumaça em seu rosto demasiado seco, desceu a porta corrediça de
uma pequena loja e nos olhou, sem muito interesse. Talvez pensasse que fôssemos
alguns clientes tardios, ou talvez, de alguma forma naquele generoso mostruário
de carros velhos nosso veículo o tivesse impressionado de algum jeito. Saiu com
um andar relaxado até um chevette uns dez passos à frente e avançou com desenvoltura com o carro, de forma tão lenta
quanto todo seu comportamento, e sumiu dobrando a esquina. Fazia frio e dava
para sentir, talvez por puro fruto da imaginação, os primeiros ventos da pradaria
retilínea do Chile. Respirávamos, de todo modo, o oxigênio que as correntes
marítimas do Pacífico e da região antártica a apenas mil quilômetros para baixo
fazia circular dentro de seu cone atmosférico, e isso nos enchia de êxtase.
_ Vamos procurar um restaurante para jantar?_ Martina disse.
_ É pra já.
A
tranca da porta do motorista não funcionava e tínhamos que amontoar nossas
bagagens e sairmos estrategicamente por trás. Um ladrão mais determinado
conseguiria abrir a porta mas teria dificuldade em empurrar aquele peso, o que
no sistema esotérico de prevenção que nós desenvolvemos diminuiria um pouco as
chances de sermos roubados se chegássemos a tempo. Por esses quilômetros que
atravessamos isso nunca acontecera, de alguém tentar invadir a Kombi, mesmo
porque de longe se via que não tinha nada atrativo a se levar dali. Mas era um
cuidado intuitivo que a aproximação das raízes antropológicas daquela viagem
tornava mais apurado, pela visão de como a solidão geográfica aumentava as
artimanhas do ganho.
Vimos que por sorte achamos uma das ruas mais tranquilas do centro, pois
as outras laterais e perpendiculares o comércio ainda dava seus últimos
resfôlegos de vida, com as lojas ainda cheias e pessoas e luzes todas acesas. O
cheiro de fritura velha se sentia por todo lugar, o que correspondia com as
sobras de mbejú e lampreado. Aquele cheiro rançoso, intermediado com um frescor
subliminar de queijo e pimenta vermelha, mexia com nossos estômagos. O
raciocínio ficava deixado em segundo plano, e coisas como asco ou a lógica
orgânica natural do corpo em se fechar a insalubridades suspeitas eram
substituídas por um desejo intempestivo por comer. Martina parou em uma barraca
com uma índia gorda, de expressão impassível, com um turbante na cabeça. Nós
dois não ligávamos muito por cuidados profiláticos quanto a higiene antes da
viagem, e o fascínio de que ali nos obrigava a deixar de lado todo vestígio de
escrúpulo nos deixava livres como seres adânicos no éden. Uma das minhas
passagens preferidas dos evangelhos era a de Jesus admoestando um fariseu por
ter cobrado dele e de seus discípulos que lavassem as mãos antes da refeição.
“O que contamina vem de dentro”. A mulher tinha um queixo imperial,
cesarianamente quadrangular, descente de reis toltecas que por mais distante
que estivessem no tempo não retirara a certeza predestinada daquele rosto. Ela
nos dirigira um olhar fixo que intuía uma generosidade puramente mercantilista,
que irai se escoar depois que o trato comercial fosse concluído. Lemos no
cartaz de papelão afixado no alto da banca e pedimos aleatoriamente, sem
entendermos nada dos nomes paraguaios correspondentes às comidas. A mulher
acendeu o bico de fogo debaixo do tacho de cobre com a linha de superfície
dourada do óleo ponteada aqui e ali de ilhotas de gordura coagulada, e pegou da
estufa onde estavam as matérias primas duas porções de uma carne afiletada que
não se podia determinar de que animal era. Depois que ela fritara as porções
com um virtuosismo silencioso de uma malabarista de facas afiadas, ela colocara
a carne em duas massas finas circulares de uma espécie de pão ázimo à base de
mandioca e nos entregara. Disse num espanhol melódico e monossilábico alguma
coisa sobre os molhos em bisnagas dispostos no nível de nossos rostos, e disse
o preço. Quatro guaranis. Eu segurei a comida de Martina para que ela pegasse o
dinheiro que havia trocado na casa de câmbio na fronteira do Paraguai de sua
bolsa, e depois que pagou seguimos comendo em frente, não sem antes untarmos a
coisa com pimenta. Era delicioso e paramos um pouco à frente para olharmos se
alguma névoa mística anunciativa saía da cabeça daquela xamã culinária, mas a
mulher já juntava os materiais para encerrar o expediente. Suspeitamos que
fosse carne de porco, mas poderia ser caburé frito que comeríamos com as bocas
salivando do mesmo jeito.
Pelas paredes do conglomerado de pequenas lojas pelo qual passávamos
rumo a lugar nenhum víamos os retratos de cores desmaidas, que me lembravam as
revistas pornográficas impressas em prensas clandestinas e vendidas nas bancas
da avenida de março, com a figura de um homem com um quepe de um tamanho
comicamente exagerado. O homem aparecia do busto para cima, vestido com uma
farda negra, com franjas laranjas acortinadas e bastante chamativas nos ombros.
Tinha quatro medalhas da mesma proporção grandiloquente grudadas ao peito, com
cruzes de malta que pareciam lápides de ferro, que em mentes imaginativas não
deveria passar despercebido o humor involuntário de ser uma caricatura sobre a
queda do império romano bem mais duradouro do que aquela republiqueta dequinta
categoria que era o Paraguai. Acima de um colarinho de onde se dependurava um
pingente com um pentágono e outra cru, estava o rosto pintado para não ser nem
um pouco ameaçador do general, com um ar convidativo de um dono de uma padaria
de bolos. O desenhista não conseguira esconder uma volúpia nos traços
afrancesados e no nariz fino e quebrado, revelando um ser para o qual não se
esperava nem a mais remota e relativa grandeza. Ele parecia ser um contínuo de
escritório com horas regradas para aproveitar suas lautas refeições à mesa, o
que talvez fosse parte de toda a pretensão política deixar claro que seria a
melhor coisa a se manter aquele estômago bonachão alimentado afastando assim
das atribulações sanguinárias que aconteceriam se o povo não visse que aquilo
era um feudo pessoal seu e não um país. Em seu peito atravessava uma faixa em
roxo, branco e vermelho, onde dentro de um círculo ovoide mal traçado estava
escrito Republica del Paraguay. E embaixo, terminava tudo com a informação
contundente de que aquele era o General Alfredo Strossner, El Presidente.
Do lado de cada porta corrediça havia um cartaz daquele. As cores eram
baças e não dava para ver se era efeito da exposição ao tempo ou uma economia
nacional das tintas.
Chegamos a uma praça cheia de árvores e com crianças brincando em um
parque. Sentamos no banco e Martina pegou o resto da comida e jogou numa cesta
fixa de metal do outro lado, andando alegre acenando para as crianças na volta.
Estava com a pele eletrizadas, prenhe de saúde. Seu olho que não via brilhava
da mesma forma que o outro, o que aumentava minha suspeita infundada de que ela
não era cega. Aquele seu olho cego parecia combinar bem com a multitude de
raças e cores que víamos espalhadas por todos os cantos, os tantos alemães
chicanos de olhos azuis e caras apalermadas, os índios de rostos cinérios
cheios de uma encalacrada dignidade que não sairia dali nem às custas das
tantas surras e martírios pelos quais a sucessão de governos despóticos havia
feito. Um olho cego no nascimento, aparecido na consumação de uma das tantas
doenças escondidas nos genes que vinham à tona devido à mistura de sangue, mas
que mantinha a lubricidade, a engenhosidade vívida natural e a motilidade. De forma
que Martina só me revelara o fato como por acaso, sem consideração alguma
quanto à importância daquilo, só porque um dia mencionei uma fixidez a título
de expressar um elogio.
Tínhamos que procurar um local para tomarmos um banho. Não preciso dizer
que para se predispor a um jornada dessas o espírito tem que vir com a intenção
dos velhos timoneiros colombianos, para os quais as certezas da civilidade não
passavam de comodismos afeminados. Nossos esforços por pararmos em cada posto
de gasolina ou hotelzinho de estrada para alugarmos o chuveiro por uma hora
deixou de ser umas das primeiras preocupações, ainda que uma noção bem
fundamentada sobre as exalações de um corpo sob variações ambientais tão
intermitentes nos fizesse felizes ao vermos mesmo um casebre de paredes
perfuradas de balas de bandoleiros desde que tivesse o anúncio de preços de
banho. Martina tinha alergia a perfumes, e o cheiro natural que expelia de seus
sovacos e seu pescoço era de uma acidez defumada agradável, que depois se agravava
com tons fúngicos intensos quando ela tirava as botas. Ela não tinha chulé, o
que era algo realmente admirável, mas de seus pés vinham um odor de couro
apimentado e árido, o que combinava com sua áurea de independências roceira.
Ela tinha ciência dessas suas ambíguas qualidades e sempre se mantinha
vigilante quanto a mim, para que eu não me cedesse ao relapso natural que ela via
em mim quanto ao meus próprios odores bem mais excruciantes. Ela me comprara em
Tiaz, numa botica artesanal, um pó de almíscar amargo e sempre me lembrava para
esfregar nos pés e lançar duas pitadas dentro de cada sapato. Meus sovacos
também exalavam um fedor tenebroso, mas eu nunca deixava de me lembrar de usar
neles o desodorante spray.
Saímos da praça depois de vermos o busto de outro general das antigas,
tão das antigas que o atual não se importara em enxotar pois não haveria melhor
esquecimento do que aquela exposição coberta de cagadas de pássaros. Paramos de
frente a umas escadinhas que se afundavam entre dois estabelecimentos, um de
empréstimos que prometiam juros baixos e uma engraxataria de sapatos. Na
plaquinha vinha escrito “Pensíon Herman Boschwaldt”, um nome que nos induziu a
subirmos para verificar como o que parecia um barão de uma casta consonantal
tão magnífica havia decaído tanto. Encontramos um balcão vazio, espremido no
alto das escadas, com uma poltrona de couro em boas condições de frente e uma
luminária de luz amarela desgastada dobrada no alto sobre um livro de registros
aberto. Um corredor que saía pelo lado mostrava as portas dos tantos quartos.
Martina chamou “holá, tenie alguém aí?”, ao que ouvimos o som de alguém que
parecia ter sido acionado a se levantar e que suspirava e tossia. Naquele
começo de noite moroso em um país desconhecido, nossa curiosidade infantil
esperava ver o que vigorava por debaixo da incansável mesmice universal, e
tínhamos a esperança que aquele Boschwaldt recompensasse nossas expectativas.
Apareceu passando pela cortina de miçangas um homem de cabelos brancos, olhos
penetrantes que mesmo com sono nos olhou com uma reservada desconfiança. Tinha
um bigode que lhe conferia respeito, legitimamente teutônico. E via que ao se
apresentar havia vestido antes um casaco de sarja enrustecida. Estava
acostumado a pessoas de todas as vertentes do espectro social para se assombrar
com nossa aparência e na certa pensou que éramos um casal procurando um quarto
alugado a horas, pois nos disse que os quartos transitórios infelizmente
estavam todos ocupados. Martina sorriu me olhando, como que encantada que
naquele momento a atividade sexual estivesse em pleno andamento para a
manutenção da espécie, e disse por mim em seu espanhol pragmático que estávamos
querendo um banho. O alemão, da mesma maneira impávida, se virou para pegar uma
chave na gaveta e nos entregou, dizendo que haviam três chuveiros no banheiro
do fim do corredor, mas que só um funcionava. Não sei por que ele mencionou a
quantidade de chuveiros, talvez por alguma vaidade em mostrar que havia alguma
promessa de requinte por detrás da aparência geral de espelunca do lugar. Eu
disse de imediato que Martina poderia ir primeiro tomar banho, que eu
esperaria. Ele concordou sem interpor nenhuma réplica, colocando sua mochila na
poltrona para pegar sua toalha e sua roupa limpa de substituição na poltrona.
Sentei na poltrona e o alemão ficou fingindo que escrevia alguma coisa
num caderno. Colocara uns óculos que faziam seus olhos azuis ficarem
disformemente liquefeitos à medida que a luz da luminária incidia um intenso
brilho nas lentes. Eu procurava não olhar para ele, pois senti que ele me
dirigia olhares que tinham a sugestão de discrição mas eram para serem
incisivos. O erro dessa hora foi de ordem espacial, pois não haviam pontos
suficientes de convergência a que eu pudesse deixar meu olhar em salvaguarda.
Havia a foto onipresente do general na parede atrás dele, o que se percebia que
foi removido para um canto, com a margem de liberdade garantida pelo poder da
modéstia em não se acreditar que a polícia teria disposição a fazer batidas constantes
em espeluncas assim. Além disso, o que tinha para ver era só o corredor, que
mantinha em sua fixidez subequatorial as imagens de subdesenvolvimento
matizadas de insinuações de crimes obscuros, trazidas pela memória da espécie.
Senti algum alívio ao notar que no centro da parede atrás do alemão, no espaço
onde Strossner fora ousadamente removido, uma foto em preto e branco de um
outro homem. Seu rosto fora registrado de lado, numa posição que as fotos da
época, metade do século, mostravam ter feito parte de certa tendência
modística, como para enfatizar uma dinâmica postural de atividade que ao mesmo
tempo tornava a testa iluminada por uma luz representativa de profundidade. O
homem retratado se parecia com o homem no balcão, apenas que era uns trinta anos
mais novo, mas tinha um estrabismo e uma falha nítida num distanciamento entre
os dois dentes superiores da frente. De alguma forma que não sei explicar eu
sabia que os dois não eram a mesma pessoa, que aquele senhor sinistro,
desconfiado, cheio de valores pessoais postos em confronto com os meus_ um
rapazola que tinha todos os traços que sua casta desprezava, a começar pelos
cabelos e pela magreza nem um pouco militar_, era um prosseguimento daquele
outro, um filho orgulhoso, o tipo de orgulho viril e irrevogável vindo de uma
afronta que jamais poderia ser esquecida.
Os dois tragos que carrulim que eu havia bebido acompanhando a carne de
porco, uma combinação letal cuja única vantagem era atestar a indolente
sensação de imortalidade da juventude, estavam alto no meu cérebro. As tristes
reminiscências do corredor, que não vinham de lugar nenhum de minha experiência
passada, só podiam ser alimentadas pela imaginação do álcool. Eu não estava nem
um pouco melancólico e diante o olhar de uma reserva pressagiadora do homem
minhas pernas balançavam de anseio por conversar. O que ele poderia fazer de
mal a mim diante tal tentativa de socialização a não ser me desconsiderar até
que Martina voltasse? Minha mente anabolizada pelo carrulim trabalhava
languidamente, transitando por correlações entre aquele sujeito e o seu
antepassado na foto como se lançasse eflúvios odoríficos pelo ar, eflúvios
cheios da simpatia do perfume rançoso que para um ébrio soam como azaleia. Eu o
olhava sem pudor, sentindo que em minha boca esparramou o sorriso matreiro que
a bebedeira cobre com certo aval filosófico. Todo bêbado detém a filosofia de
que o grande elo universal entre os homens é uma verdade incontestável a que
ele chegou pela administração da dose certa.
_ Fez a coisa certa_ eu arranjei por dizer.
O homem parou de escrever num gesto em stacatto que tinha algo de
suavidade, o que me encheu de segurança em continuar. Um gesto daqueles, com
uma precisão tão infinitesimal, só poderia vir de alguém com vida interior.
Adivinhei traços de serenidade no que antes tinha conjecturado ser misantropia,
ou pelo menos o currilum adivinhara isso. Ele demorou uns cinco segundos para
responder, o que nos pareceu testar a teoria daquele outro alemão que tinha
descoberto a relatividade do tempo, pois que foram cinco segundos demasiado
longos. Ele perguntou só para perguntar, para seguir um cronograma, pois havia
entendido perfeitamente a minha observação. Sua voz tinha sim um sotaque alemão
forte. Essas raças superiores tem uma trave atômica instalada no cerne de si
mesmas que estabelece o limite a que podem permitir a miscigenação mesmo numa
terra estranha, e ela passava pela irremovível permanência do sotaque. Vai ver
aquele homem viera para aquele país longínquo ainda na infância, aprendera
exemplarmente aquela língua cabocla enfeitiçada, mas ainda assim demonstrava
como se fosse parte de seu virtuosismo um sotaque que era a sua maneira
combativa de se fazer caricaturesco. “Como disse?”, perguntou. E eu apontei
para o homem de certa maneira bonito da foto, mas com algo de decaimento
burocrático, um certo plebeísmo cambiado pelo cotidiano de gabinete. Daí eu
percebi, na lucidez instantânea que vem a inteligência do álcool, que era a
foto de um militar. Aquele homem da foto era um militar alemão.
_ Ele é mais simpático do que o general_ eu disse, cheio de pilhéria.
_ Depende do ponto de vista referencial_ ele me respondeu, com as
sílabas quase cantaroladas naquele seus trejeitos de sapateiro de aldeia. Um
consertador de solados de tradição venerável de algum canto de Dorf, de olhar
introspectivo mas sumamente gentil.
Eu fiquei pensando no que queria dizer essa frase. A intuição perceptiva
do álcool logo me deu as diretrizes, de forma fulminante, na mesma hora em que
os óculos rajados de uma bandeira de luz branca deixavam ver os olhos cheios de
desconfiança e asco dele me olhavam, por cima da armação. Ele ficou
absolutamente em silêncio, escrevendo algo naquele livro que parecia ser
interminável. Por se tratar de registros de hóspedes, haveria de estar
escrevendo algum nome tão extenso que nem o costume alemão daria conta. E foi o
que o durimil falou por mim, sem que eu percebesse.
_ O senhor deve ter recebido algum conterrâneo polonês, de muitas
sílabas, pois ainda não concluiu por escrever o nome.
E dei uma risada que ecoou para meu grande estupor bastante alto, como
se tivesse algum afunilamento acústico que atirara todo o riso corredor
adentro. Ouvi uma descarga vindo do fim do corredor e cogitei que Martina havia
usado a provada e só iria entrar na ducha agora. Um pesar me abateu por cima,
como um presságio de que meu bonacheirismo postiço não iria aguentar por muito
tempo manter aquela conversa.
_ Por que citou isso, meu jovem. Por que citou um polonês?
Ele havia deposto a caneta e cruzara os braços no tampo do balcão, se
inclinando. Não havia mais nenhum traço de humor no rosto dele. Ele parecia
disposto naquela hora a explorar todas as nuances obscuras de provocação que
ele achava existir no meu inocente comentário.
Eu me sentei num pulo, me aprumando de maneira mais séria na poltrona, e
disse que era só uma brincadeira, eu não estava querendo dizer nada com isso.
_
Mas foi uma escolha de palavras inusitada, logo após de se referir a meu pai_e
se inclinou ligeiramente para acentuar o retrato na parede_ e depois falar que
eu estou escrevendo um nome de um polonês em uma lista. Você com certeza está
se julgando muito bem informado sobre mim e meus antepassados.
_
Pois eu não sei nadado senhor e dos seus antepassados. Nunca vi o senhor antes
na minha vida e venho de muito longe, não sendo desse local. Não teria como ter
nenhuma informação a seu respeito, pois estamos de passagem. Só queremos uma
ducha, e depois o senhor não nos verá mais.
Ele se colocou imóvel, na mesma posição de braços no balcão. Parecia
analisar cada palavras minha como se enfim tivesse aprendido o espanhol trôpego
que eu falava há pouco tempo. Eu mesmo me vi rememorando o que eu havia acabado
de dizer, a fim de ter certeza de que não tivesse falado uma estupidez sem
igual. Talvez a leitura de William James em espanhol, que eu havia comprado
para a jornada, e que eu fazia pelo menos vinte páginas por dia, não tivesse me
dado o nível de aprimoramento que eu imaginava para me tirar ao menos de
problemas básicos. Mas nada me pareceu fora da ordem, e nem tão pouco passível
de molestar aquele homem de algum modo. Sua fixidez em mim começava a me
perturbar, e eu resolvi o encarar de volta. Mantive seu olhar com uma temeridade
nervosa, o que o fez perder o jogo desviando os olhos. Mas o fez sem que
denotasse uma vitória gestual retórica para mim, pois entrou num movimento
lento e decidido pela cortina de miçangas. Eu torcia para que Martina
aparecesse logo, mas tendo agora tempo para apurar os ouvidos, escutei a
ignição metálica da torneira sendo acionada, um trinado fino e cortante que
veio do fim do corredor, e então ouvi o som do chuveiro. Ela iria lavar os
cabelos e aproveitar até o último guarani, mas afinal de contas era o mais
seguro a se fazer ter eu ficado ali de frente àquele filho ressentido de um
soldado alemão e não ela. Quando ela voltasse, eu daria um jeito de sinalizar
para ela me esperar fora do prédio, e eu daria uma forma de lavar bem lavado os
sovacos, os pés e as partes íntimas, para logo darmos o fora dali.
Passaram-se cinco minutos, em que não dera prazo para que eu abaixasse a
guarda, ficando atento ao mínimo movimento. Daí ele voltou com uma caixa de
madeira bem feita, sólida e negra, com as beiradas ligeiramente corroídas
mostrando o desgaste inevitável dos tantos anos. Colocou a caixa no tampo e a
abriu, sem me dirigir um olhar sequer. Seu bigode, que em um mundo alternativo
em que as insinuações históricas que me vinham fugazmente sobre a razão de se ter
uma cidade alemã em pleno território paraguaio fossem menos eloquentes,
conservaria o ar de simpatia com os descansados chinelos nos pés de um tio
amistoso. Mas ali o bigode ficara mais inflexível e com a aparência de uma
morsa de pelos crespos, formando um volume seco e queimado pelo excesso de sol
acima de sua boca. Ele então retirou um objeto enrolado em um pano de seda
muito fino, de cor marrom feio e distinto, e o colocou do lado. Me olhou,
mantendo o bigode de novo retilíneo e intocável, imune a qualquer manifestação
sensorial. Desdobrou o pano em dois movimentos laterais e retirou uma pistola,
a erguendo com uma mão com o cano apontado para a parede.
_ É uma luger semi automática usada na segunda guerra por esse homem. _
e deu uma guinada rápida com a sobrancelha para seu pai_ Aposto que o general
Strossner nunca teve que matar um inimigo, seja de qual nacionalidade fosse, se
polonês, ou francês, ou belga, ou um dos miseráveis bolcheviques. E suar para
isso uma arma que gerou o protótipo de todo o exército desse país.
Era nítido que se tratava de uma arma bem velha, que talvez nem chegasse
e disparar, mas isso não aliviava em nada minha apreensão. Eu não ria me
levantar e chegar próximo à ele, que antes me parecia sinistro e agora com uma
coisa daquelas poderia assumir todo tipo de situação desconfortável, se era
isso que ele esperava. Eu fiquei calado, já sem conseguir ouvir nada que vinha
do corredor. Umas estrelas negras surgiram no meu campo visual e eu atribuí ao
efeito da súbita diluição potencialidade pelo fígado prevendo ter que destinar
uma concentração de energia extra para uma eventual fuga. Se eu permanecesse
ali na mesma posição, com meu corpo se preparando de forma autônoma para um
exercício físico extenuante, me fez pensar se essa desproporção de intenções
não poderia gerar um desmaio. E havia o estômago, que refluía fitas de ácido
cortante para minha garganta.
_ Essa Luger matou sete soldados poloneses na batalha de 1939. Meu pai
alvejou um polaco na testa, a bala perfurando o capacete. Estava detrás de uma
moita, sob um frio de vinte graus negativos, e meu pai o viu somente quando ele
pulou da moita para cima dele. Nesse caso o comando alemão cuidava de maneira
muito melhor de seus soldados do que os comandos polacos e bolcheviques. Ao
menos o erário de Berlim destinava recursos para botas resistentes e pós
antissépticos que evitavam a gangrena fúngica. Já ouviu falar de gangrena
fúngica?
Eu não respondi, entorpecido por aquele sotaque que ficava mais
pronunciado. Era como se eu estivesse diante um nazista, em algum filme
hollywoodiano, e o sujeito ressaltava propositalmente tal impressão exagerando
nos “erres” e no tom de escarro queimprimia no final de cada sentença.
Eu me levantei mas fiquei de frente a ele.
_ Meu senhor, eu não quero confusão. Quero dispensar o banho, e só vou
esperar minha amiga sair para irmos embora.
Ele fez um gesto de surpresa me olhando por cima dos óculos, com a arma
deitada nas mãos. Parecia decepcionado com aquela minha atitude, e de maneira
até mesmo surpreso. Como se o didatismo empenhado que estava usando para me
educar de súbito tivesse sido rejeitado com uma indelicada falta de respeito.
_ O senhor já pagou, meu rapaz. Aliás, sua amiga o fez. Ficaria ruim se
desfizéssemos um trato mercantilista nessa altura.
_
Não precisa me devolver o dinheiro. Só peço que me deixe esperar aqui mais um
pouco_ e inclinei o corpo para olhar para o fundo do corredor. Com uma intrusão
de um elemento de surrealismo a mais, se ouvia a voz de Martina cantarolando um
bolero. Cantava baixo, mas a acústica do corredor se revelara com uma fluidez
inusitada a ponto de fazer a voz de Martina chegar de forma nítida até nós. Eu
olhei para o alemão e vi que ele apreciava a voz, o que me fez, não sei por
quais correlações íntimas e obscuras, ver o perigo de alguma sugestão sexual.
Até então era uma conversa quebrada sobre temas nebulosos, ambiguidades que
levadas com a suficiente evasiva pacifista poderiam não dar em nada sobre
orgulhos nacionais. Eu queria que a Polônia, a Alemanha e aquela terra de
índios se explodissem.
_ Sua amiga tem uma bela voz. Eu só espero que não incomode os outros
inquilinos.
_ Temos um trato então. Eu tenho que cumprí-lo. O senhor não tem outro
chuveiro para que possa me banhar, sem ter que esperar por ela?
Ele suspirou, e então fez algo inesperado. Eu havia me aproximado do
início do corredor, tentando de maneira estúpida ver Martina, mesmo sabendo que
seria uma intromissão inadequada e fisicamente impossível, pela porta estar
fechada. Eu estava à mão do homem, e foi isso que ele fez, me pegou pela manga
da camisa num movimento pesado mas preciso, e me trouxe para bem perto de si.
_ Você quer bancar o engraçadinho com essa história de eu estar
escrevendo um nome polonês, não é? Um hippie fedorento e drogado como você, que
veio sabe-se lá de qual canto desse amplo território de primitivos. Só porque
você tem a pele branca, a barba rala, e essa altura que revela que alguma
bisavó sua índia teve a felicidade de ser deflorada por um foragido italiano,
se acha no direito de vir me ofender, um Walgnestein, me chamando de nazista. E
dizendo que meu pai, por ter servido por obrigação incontornável, ao exército
de Hitler, deveria ficar numa posição subalterna menor que a do general
Stroessner. Você é um delator, não é, seu hippie de merda.
Ele falava com uma voz moderada, refinada em um tom admiravelmente
controlado para ser mais baixo, e eu sentia pelo ar respingado de saliva que
atingia minha orelha que um orgulho primordial havia se mantido inviolável
nele. Senti o cheiro de uma colônia não de todo popular em seu hálito, como se
ele tivesse improvisado uma solução de pasta de dente, anis e álcool para fazer
gargarejos. Eu ficava instintivamente de olho na arma, que naquele momento
fugira ao meu ângulo de visão, e então o ímpeto adrenérgico que meu corpo havia
preparado para aquela ruptura da noção de segurança transbordou pela minha
circulação sanguínea. Num movimento de desvio elíptico em que eu ao mesmo tempo
me livrava de suas garras e virava o tronco como movido por uma roldana
hidráulica, me permitindo ver tudo o que transcorria da cintura para baixo do
homem, minhas mãos cataram a pistola num bote preciso. Minha mente não se
permitiu se descuidar com as brechas de irracionalismo inconsequente surgido
nessas ações, me impondo que mantivesse a pistola apontada para baixo, não a
direcionando a ele. Ele me olhou com os olhos arregalados de choque, sua
respiração se tornando cheia de falhas que ele puxou com força para suprir os
pulmões. Colocara as mãos para cima, não estendendo os braços, ficando com os
anti braços em ângulo reto. Veio-me à cabeça que ele era velho demais e deveria
sofrer de algum tipo de reumatismo.
_ Eu não vou apontar esse troço para você. Eu nem sei se isso realmente
funciona.
_
Você não sabe manejar uma arma_ ele perguntou, sem inteção de revidar. Parecia
considerar que minha figura degenerada era suficientemente convincente para
passar por sobre aquela falha de conhecimento e o ferir mesmo assim.
_ Eu não preciso saber isso isso, senhor. Só a peguei por um ato reflexo
de proteção. Sendo assim, é melhor agirmos com cautela porque eu ainda estou
bem dominando pelos meus instintos.
_ Escute, você poder ir embora. Se m permitir abaixar os braços vou
pegar o seu dinheiro.
_
Se se mover por agora, eu não sei se poderia manter controlados os meus atos
reflexos.
Ele ficou com os braços erguidos. Não fechava a boca, o que me deixava
incomodado. Um alemão tão cheio de poses e pompas não controlar o peso da
mandíbula me soava como alguma espécie de ardil.
_
Pode abaixar os braços, por favor.
Nessa hora me veio um receio profundo,
paranoico, de que a polícia fosse aparecer a qualquer momento. Minha condição
era insegura em todos os sentidos, e a fraca ilusão que Martina e eu
brincávamos de alimentar de que tivéssemos alguma insinuação de seres a serem
deixados em paz me parecia ridícula. E passei a suspeitar que aquele sujeito
não deveria estar ali sozinho, haveria de ter uma esposa, ou um filho que
reproduzisse por mais uma geração aquela cara espúria de perversidade
protocolar do nazista da foto. Eu me inclinei para ver se Martina não estava
vindo, mas o som do chuveiro e da cantoria agora reduzida a murmúrios (deveria
estar lavando os cabelos e mantendo a boca fechada para que o xampu não
entrasse) ainda continuava. Meu corpo teve um relaxamento súbito, como se o
fígado tivesse enviado ao cérebro que acabara de concluir a questão, e eu de
imediato virei a pistola com o cabo em direção ao homem e a entreguei.
_ Tome aqui isso.
Dava para ver que ele nutria um comportamento íntimo de soldado,
apreendido talvez pelas memórias que o pai deixara escrito das trincheiras para
seu usufruto particular, pois ele pegou a pistola com uma gana selvagem,
desesperada e radiante, e a virou dessa vez sem a menor reserva para mim.
_ Ei, ei. Abaixe isso. Não há por que mais continuarmos com essa._ eu
disse, numa voz tão equilibrada e madura que foi o que ele fez, abaixou a arma.
Eu tornei a me sentar na poltrona sem olhá-lo, mas um vestígio
preventivamente útil de me ater ao mínimo possível de relevante que estava
transcorrendo na realidade me fez ficar com toda minha percepção voltada para
ele. Pelos cantos dos olhos o vi se sentar e colocar a arma de volta na caixa.
Ficamos por bons cinco minutos nisso, em silêncio, ou talvez mais.
_ Em outra situação isso não teria acabado bem_ ele me disse, de forma
branda.
Eu vi que ele abaixara a cabeça. O grande
bigode seco com as pontas em riste despenteadas apontando uma para cada lado.
_
Mas devemos ser agradecidos por isso_ ele concluiu, e me olhando, perguntou:
vai querer o dinheiro de volta?
_
Se tudo estiver bem para o senhor, eu gostaria se tomar o banho.
_
Tudo bem.
Martina chegou na mesma hora toda vestida, os
cabelos molhados com a cor escura conferida pela água. Parecia frágil e
sensual, não o portento cerebral cheio de ironias dialéticas. Estava vestida
com uma blusa com babados na gola que desciam ao meio de onde estavam seus
seios. Só podemos ver isso, ou pelo menos eu o vi_ não me mantive atento ao
alemão para notar alguma dessas peculiaridades_, porque ela descera a grande toalha
azul turquesa felpuda que ela tanto adorava dos cabelos e a enrolava nas mãos.
Usava uma saia festiva, que era sua assinatura insubjugável, uma de suas saias
que pareciam ter sido feitas sob sua determinação de não atender a nenhuma
moda, sendo de um vanguardismo antigo e de certa forma charmosamente obsoleto.
Ela se julgava com razão tão perceptiva à constante de irracionalismo cotidiano
que eu senti certa piedade diante sua descansada ingenuidade da atmosfera do
ambiente. Ela estava radiante, rejuvenescida. Seus traços morenos em seu rosto
fino e delicado expressavam uma lubricidade vivificante, que me contaminou me
tirando em parte da apreensão. Eu peguei minha toalha da mochila, o pote
fechado com um velho sabonete de bordas todas enrugadas pelas sucessivas
condensações, peguei meu chinelo, uma bolsinha com o xampu e os apetrechos de
higiene bucal, e uma das sacolas de supermercado de guardávamos para colocar as
roupas sujas, e fui para o banheiro. Um casal acabava de abrir a porta de um
dos quartos, um homem baixinho careca, com ar de quem fora duplamemte devastado
em sua humildade de caixeiro viajante pelo mulherão moreno e atarefado em puxar
a barra de seu vestido para baixo e que dava quase o dobro de seu tamanho. A
mulher se esbarrou em mim e me pediu desculpa com uma voz aflautada poderosa,
me passando a mão pelo ombro como se para ver se aquele seu corpo
libidinosamente bem provido não havia me machucado. Ela me falou em alemão, Es tut mir leid, meine Liebe, o que me
fez achar que ela me tivera como um dos moradores da cidade.
O local de banho tinha uma privada e era bem limpo. Martina havia suado
de forma primorosa o rodo que estava deitado com o cabo à parede. Eu me sentei
na privada e me aliviei, agradecido pelos confortos da civilização, num estado
de despojamento que para mim aquele pequena demonstração de um luxo suficiente
bastava. Depois liguei a ducha e, para minha total decepção, a água estava
gelada. Tentei, usando a ponta do cabo do rodo, resolver o problema mexendo no
dispositivo de mudança de temperatura do chuveiro, mas a água continuava
gelada. Enfrentei os arrepiantes filetes que caiam em quantidade profusa me
movendo para debaixo deles em parcela, primeiro molhando meus braços, depois as
coxas, a virilha, e só depois, ainda sem ter surtido qualquer atenuante na
sensação ártica da água, molhava a barriga. Escovei os dentes enquanto lavava
os cabelos com o xampu mentolado. Meus dentes sensíveis da arcada inferior
atrás deram seus apitos de dor diante a temperatura gelada, e eu fiquei com uma
quantidade de água segura na boca fazendo gargarejo até que ficasse mais
quente, daí distribuí pelos dentes e a dor passou. Nós já tínhamos tomado
banhos em diversas partes da jornada para eu saber que Martina amava as altas
temperaturas, de forma que não era possível que ela tivesse se lavado naquela
água. A luz do teto, vinda de uma lâmpada alojada no fim de um fio trançado,
mostrava que não se tratava de um corte de energia. Mesmo assim, finalmente
percebi que meu corpo não refutava de todo aquela agressão, se permitindo ficar
por um tempo totalmente debaixo do jorro do chuveiro. A vantagem é que o
pequeno espelho grudado acima da pia não embaçou, e eu pude me vestir e pentear
o cabelo estudando as mudanças que as intempéries naturais e da sociologia
haviam produzido em mim naqueles dias. O ato de evasão à aparente única opção
de saída pela violência, que fora meu gesto por mim naquele momento diante o
espelho ainda incompreensível de entregar de volta a arma ao alemão, parecia
ter angariado um ar de sensatez ao meu rosto. Será que enfim você está
encontrando o que sempre procurou, Halperin, minha mente falava. Aquelas vagas
de fúria e desolamento finalmente encontraram uma fístula em seu aparato
espiritual para serem enxotadas? Sem prejuízo de ninguém e para maior
engrandecimento de sua alma.
Já vestido e com o corpo restaurado em grande parte da sobriedade, de
volta à saleta vi que Martina não estava mais lá. O alemão atendia dois casais
de índios, aliás um de índios e o outro de um índio cholo e uma loirinha de ar
enfastiado e gordinha, que triturava um chiclete com uma constância fordiana
que parecia manter toda sua paciência com aquela vida no mastigamento. O alemão
fez que não me viu, e eu saí com o corpo encolhido pelo canto da parede,
segurando meu casaco. Martina estava sentada na calçada, de frente ao hotel, a
luz daquela pobreza dimensional que era todo cenário caída sobre ela com uma
certa ternura, como se fosse uma velha avó lelé da cuca já despojada de seusr
recursos mentais para apenas mantê-la sentada no colo. Ela estava com uma
garrafa de cachaça na mão e a bebia contemplativamente, já tendo olhado o
suficiente os meandros daquele material de janelas, lixo e sombras tentando
reter uma fímbria da poesia inalcançável delas, e agora se voltava para alguma
profunda região interior. Não me viu chegar, o que me fez pisar um pouco mais
forte para não assustá-la. Ela despertou de uma vez e se levantou, segurando a
mochila e a garrafa. Queria também dar o fora daquele lugar, o que me fez
respirar aliviado pensando no aconchego da Kombi.
_ Como estamos longe de casa, querido.
_ Essa cidade de nazistas parece estar longe da realidade.
_ Se desentendeu com o carrasco do hotel?
_ Sim, bastante. Ele me apontou uma arma.
Ela me olhou sem parar o passo. Seu olhar
ficou subitamente preocupado, sem direito a brincadeiras.
_
O que você fez, Halp? Você não reagiu, espero.
E, irracionalmente, ela começou a me
olhar de alto a baixo mas depois ficou tranquila, sabendo do absurdo que seria
acreditar que o alemão tivesse disparado a arma em mim.
_
É melhor não falarmos disso. Deu tudo certo. Ele cismou que eu estivesse
tripudiando de um avô dele, que estava na foto do retrato.
_
Eu deixei a pistola na Kombi. Seria muito problemático trazer ela, numa
situação dessas a confusão assumiria níveis estratosféricos.
_ Eu acho que ele era, afinal de contas,
bem civilizado. Até mesmo do ponto de vista tecnológico. De alguma forma que eu
não sei como, ele tinha um dispositivo que desligou a água quente do chuveiro.
_ Puta merda, Halp. Você tomou banho num
frio desses na água gelada_ e ela soltou uma grande gargalhada.
_ Sim. Talvez seja um arranjo novo que
esses refugiados de Hitler tenham desenvolvido em Auschwitz




