Ontem ouvi por acaso uma música de minha juventude. Arc of diver, do Steve Winwood. Eu quase tive que me sentar para suportar a carga emocional tremenda. Era a música que eu ouvia nas férias que passei com meu pai, em São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, na casa do meu tio. Me veio a lembrança poderosa do frio, das igrejas coloniais, dos olhares das moças para o rapaz tímido e bonito que eu era (quem não é de uma beleza estonteante aos 17 anos?). Era tudo um sonho real, de uma delicadeza profunda. Eu lia O processo, e meu pai, O exorcista, no quarto à noite. À mesa da casa do meu tio sentávamos meu tio Nute, minha prima Patrícia, de 13 anos, minha tia, meu pai e eu. A conversa era animada, cheia de conforto e carinho. Meu pai apontava para meu nariz e para o nariz de minha prima e dizia: "são iguais, narizes petulantes". E todos riam. Nunca mais voltei para lá. Da mesa, minha prima morreu ainda jovem de um avc. Meu tio Nute não suportou a tristeza da perda e morreu um ano depois. Meu pai sucumbiu ao câncer, sem conhecer meus filhos, seus netos que ele teria amado além de todas as coisas. Para onde vai isso tudo? Será que tudo isso se perde? Será que a reivindicação de uma continuidade só tem sua lógica diante a evocação da música? Ou será que a própria efemeridade é que dá substância a isso que, por falta de uma palavra ainda não inventada, alguns conceituam como beleza_ "para consumar a beleza do propósito de Deus"? Esses dias eu tive um sonho. Em espírito eu atravessei o mundo. Entrei em florestas. Nadei nas águas escuras de um grande lago escocês à noite. Sem medo. O que eu senti ao acordar foi isso: sem medo. Eu tive uma sensação quase insuportável de felicidade, algo que também a palavra não foi feita para comportar, uma infinita confiança no pertencimento. Eu era o cosmos. "We'll hold today to ransom 'til our quartz clock stop until yesterday".
charlles campos
sábado, 18 de julho de 2026
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Notas sobre Carolina
domingo, 21 de junho de 2026
Seamus Heaney
Por uns bons anos eu tive um dente da frente maior do que o outro. O encolhido tinha a metade do tamanho, e era escuro. Só que eu não percebia. Por uns bons anos eu passei em uma absoluta ignorância quanto a isso. É claro que eu tinha espelho em casa mas toda vez que eu me olhava os dois dentes tinham o mesmo tamanho, encorpados, saudáveis, íntegros. E como o cara que tem uma suvaqueira brava, ninguém me dava o toque. Nenhum amigo me alertava sobre aquele dente descalcificado. Até que uma moça desconhecida, do nada, no meio da rua um certo dia, como no ato de misericórdia cruel que tinham todos me poupado, me disse: "eu ficaria com você, mas você deveria antes consertar esse seu dente". Eu não sei por que cargas d'água ela disse essa frase, com essas duas sentenças gratuitas, mas disse. Eu voltei para casa com aquele dilema na cabeça, fui ao espelho, arreganhei os dentes e...nada, dois dentes perfeitos. Eu passei a mão e...perfeitos. O celular não tinha a presença demoníaca irreversível de hoje, sendo apenas o primeiro dos três 6 na testa, mas eu tinha um. Tirei uma foto. E, finalmente, eu vi! Eu era horrível! Um barnabé! Debi e Loide. E ninguém tinha me avisado. Eu corri para o dentista e, em três consultas e ao preço extorsivo clássico da categoria, eis o dente restaurado. Mas essa impossibilidade que meu cérebro criou para que eu não visse foi um dos maiores impactos da minha vida. Ainda hoje eu gasto muito tutano analisando isso. Isso descambou para aspectos mais amplos, sobre o quanto de erros eu tinha que eu não via. Por estar próximo demais a mim, eu não via. Que reação psíquica surreal e sem propósito do meu cérebro. Por que ele me poupara dessa lucidez? Achava que assim estava me resguardando de me magoar? Mas não foi pior? Quantas e quantas pessoas não deveriam falar desse meu dente pelas costas? Eu deveria ter até um apelido secreto. Boca de esgoto! Stonehenge! Mas essa lembrança me veio hoje porque eu estava lendo uns textos meus que escrevi há 15 anos e vi que em todos eu estou brincando com o Eric, pondo o Eric pra dormir, passeando com o Eric. Mas..., o Eric mesmo só nasceu cinco anos depois! E nestes textos eu acreditava piamente e estava sendo absolutamente sincero! Seria meu cérebro me pegando outra peça? Ele me considera um bobão tão sensível que precisa sempre me iludir com esses artefatos? É sua maneira de me dizer "na volta a gente compra?". (E o pior que há nisso um elemento esotérico, é claro, porque o cérebro, como se pode bem suspeitar, sou eu mesmo, não é um parasita despregado e independente de mim. Eu sou ele e ele sou eu. Se ele me enganou, de certa maneira eu sabia que estava sendo enganado. Ano passado eu extrai um dos grandes dentes da mandíbula, e como ser banguela me trouxe uma felicidade libertária! Meu pai não tinha muitos dos dentes, porque eu teria que ter todos? E o Eric, bom, isso eu não consigo verbalizar, não em um texto apressado. Talvez isso forme um elo que só a mente por detrás do cérebro consegue ver. Talvez seja um esforço evolutivo, o início prototípico e antecipado em séculos de alguma capacidade clarividente que nossos distantes descendentes vão desenvolver_ talvez, vamos dizer, eu não ter agora um dente, está destinado a ser notado pelo Eric e isso forme a aritmética lógica daqui uns anos. Para meu cérebro, para minha mente, ou para o meu eu mais profundo e verdadeiro, ter um dente podre não significa nada, ou significa a minha absoluta independência da opinião alheia, o meu bem estar comigo mesmo; e a época real do aparecimento do Eric esteja em uma eternidade atemporal cuja burocracia do tempo tenha apenas uma das representatividades.)
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Sestércios
E havia Sestércios. Se não fosse tudo o mais
que atestava estarmos em uma casa de velhos, só ele já daria vazão a esse fato.
Era uma criatura tirânica, também muito velha, cujo costume de receber uma
grande reserva de mimos lhe incutisse uma protoconsciência de soberba. Era
natural que as assimilações sobre imperadores, pompas palacianas e
a frieza cruel de um perfil rapínico, erraticamente instalado em um galo, lhe
dessem um ar de déspota enlouquecido. Ele morava dentro de um engradado de cerveja lhe destinado por uma antiga e esquecida derrota, o que atestava que ele havia conseguido
alguma exceção de humildade em sua autoimportância ao se adaptar àquela ruína.
Vendo-o sair de dentro do engradado,
abaixando a cabeça, dando seus passos cautelosos de reumático — com as penas
grandes que cresceram além da conta, como crescem demasiadamente as
sobrancelhas dos velhos —, era fácil depreender que sua história pessoal havia
passado por uma reeducação. Ele se punha, então, de corpo inteiro no piso do
alpendre, ao lado da máquina de lavar roupa, indiferente a seu universo
inglório de roupas estendidas e às botas sempre sujas paradas ao lado da porta
que dava para a cozinha. Fremia sua cabeça, onde o acaso das espécies não
destinara nenhuma mínima possibilidade de expansão mental, e passava a dar
passinhos aturdidos, sincréticos, de um general ciente de sua obsolescência,
necessitando, porém, de algum grau de astúcia para gerenciar o conforto doméstico
de sua senilidade.
Mesmo depois de todas as batalhas do ego
pelas quais aquela coalizão de intimidade caseira o fizera passar, havia o
sinal de condescendência amorosa que a vovó lhe dispensava na pequena escadaria
de caixas e vasilhames com plantas anãs, colocadas ali para que ele subisse até
a pia. Ele andava com seu equilíbrio régio e um tanto mais apurado para evitar
um tombo pela borda, e podia subir com um pulo que lhe devolvia algo da
faceirice da juventude. Assim, instalava-se no alto da mureta, de onde emitia
seu canto que, a cada dia, ia ficando mais constrangedor. Seu pescoço sofria
uma dilatação que parecia desconjuntar toda a estrutura corporal, e então um
som sem firmeza, nem um pouco eloquente da masculinidade que ele estava certo
de impingir, alçava-se pelo ar. Vovó
Leira parava o que estava fazendo por um rápido segundo — uma espécie de limite
imperativo que deveria conceder a ele — e, da mesma maneira rápida, fazia uma
consideração de valor.
Ele ficava na pequena despensa a céu aberto
que dava de frente para o grande quintal de entrada da casa, como um vigia ou
um almuaden: ora se deslocando de um lado para o outro, fazendo sua cabeça se
mover pulando alguns quadros de realidade, de frente para trás, como a trave
automática de uma alavanca defeituosa; ora tirando aquela sua convocação sem
sentido, mas prenhe de significados íntimos, para espécies de devotos
invisíveis. Leira o tratava com um respeito estranho, que tinha algo de culpado
e de uma eterna desculpa. Desse modo, quando ele se aventurava a andar pelo
interior da casa, aparecendo com sua magreza de asilo pela sala, Leira lhe
destinava um olhar prolongado, questionativo, à espera talvez de que ele
externalizasse o desejo que, enfim, vivia atolado em sua garganta sem que ele
nunca o dissesse.
Ele se aproximava de onde ela estivesse
sentada e, só quando ela se distraía dele, vinha tocar-lhe timidamente o
tornozelo com sua cabeça sem charme. Algo se acionava na vovó e ela, só por
conta de uma reação astuciosa, não parava de falar, mantendo o fôlego e o
assunto um tom mais baixo enquanto sentia com um deslumbramento temeroso, cheio
de repúdio e piedade, o galo a tocando, arranhando-se em sua meia pochê grossa,
dando mais superfície à sua volúpia ao colocar todo o tronco nessa jogada ousada
e solipsista.
Seria interessante ver um animal tão arisco
quanto uma ave dessas ser pega no colo e acarinhada. Eu, quando via essas
cenas, ficava na expectativa de que vovó o recolhesse nos braços, mas uma ética
darwiniana — de não amolecer a tenacidade de um trabalho de milhares de anos
que o tornara uma casca seca, esvaziada de qualquer necessidade de ternura —
mantinha a ordem natural. Deixava-o se satisfazer naquelas migalhas de uma
perdida intuição afetiva até que uma espécie de constrangimento final o
acordasse para o ridículo daquilo. Num pulo em que um quadrângulo cinemático
inteiro era removido diante dos olhos do espectador, Sestércios se dava conta
de sua responsabilidade classista na rigorosa hierarquia das espécies e se
afastava da perna da vovó, indo se ocupar de alguma outra eventualidade
fortuita, desaparecendo nas sombras da sala.
Vovó Leira considerava Sestércios o monarca
em desgraça que ele de fato era, aceitando suas idiossincrasias e seus humores
arbitrários e inconstantes. Ela destinava três horas de seu dia, no final da
tarde, para bordar as peças especiais de pano que mandava o capitão Bombo
vender na feira da marreta. Sentava-se na banqueta artesanal, alojada como um
apertado braço de madeira em L ao lado da máquina Singer creme, e guiava as
beiradas das mantas pela feroz agulha de aço; mantinha uma mão próxima à
imersão da linha e a outra nas barbas do pano que sobravam sobre seu colo.
Sestércios se incomodava com o grande ruído
que aquela coisa fazia, expondo seu desconforto com cicios mal-humorados e
exclamações de indignação. Enquanto Vovó compunha seus desenhos refinados de
donzelas elizabetanas sendo cortejadas à beira de lagos, sob o pôr do sol de
uma Sorbonne idealizada, Sestércios andava por um meio círculo amplo. O trajeto
passava por debaixo da mesa de aroeira da sala e delimitava seu terreno
pontilhado sob as cadeiras, pelo divã psicanalítico — do qual ele mesmo
aprendera a tomar posse mais tarde — e pela estante de carrara marrom, cujas
portas com janelas de vidro guardavam as porcelanas antigas.
Quando via que sua taxativa manifestação
contra aquela grosseria incompreensível e indevidamente barulhenta não surtia
efeito, ele abaixava a cabeça. Recolhia a ossatura esternal, cuja constituição
naturalmente viril o prejudicava por induzir nos observadores expectativas
infundadas, e ia se achegando, como se levado por uma atração suicida, até a
fonte do distúrbio.
Quando menos se esperava, Vovó Leira se
subtraía por um instante de sua poderosa imersão intelectual naqueles labirintos
artísticos intrincados. Ao percebê-lo encolhido em seus pés descalços,
empurrava-o com seus dedos longos e joanados — disformes e estranhamente
exorbitantes para sua idade, pela forma como insinuavam uma juventude
apreendida e conservada naqueles dez soldados anulares de tamanhos grandes
demais para os padrões naturais — para junto de si. Formava-se ali uma
fortaleza de estruturas humanas e rebotalhos de panos cadentes, onde as
sinapses sensoriais do galo pareciam ficar entre afavelmente aturdidas e lisergicamente
ensonadas diante de tanta informação.
Era algo digno de se ver quando chegamos ali na primeira semana: uma amostra de como funcionavam as zonas intestinas mais zelosas do sagrado andamento de um cotidiano próprio. O quadro de uma velha senhora costureira com um galo mambembe entre os pés desfazia-se de seu caráter fantástico quando se via o que ela imprimia nos tecidos com aquela máquina potente. As sombras da sala, no ponto onde os dois ficavam, eram furadas pela janela estrategicamente situada atrás e no alto de Vovó. O arranjo talvez fosse precário demais para favorecer vistas que, na idade dela, já mereceriam um recurso mais aprimorado.
domingo, 14 de junho de 2026
A primeira página
As
pessoas têm dificuldade de perceber que suas vidas estão mais vinculadas aos
processos políticos do que imaginam. Não é culpa delas se a mamadeira posta
para ferver todas as manhãs as retira da compreensão do todo. Ou se a fila do
pão, tão ligada a antigas carências medievais, só consegue requisitar de seus
espíritos sonolentos uma apreensão superficial da realidade — como aqueles
homenzinhos de narizes compridos desenhados nos cantos dos cadernos escolares,
espiando por cima do muro. A desvantagem é que, nos planos burocráticos da
existência, todas elas são pegas desprevenidas. Se soubessem que os pensamentos
que têm ao entardecer, sentadas no sofá, são os mesmos que passaram pela cabeça
de Pedro, o Grande, ou de Carlos XII, e que as vastidões de tédio das
segundas-feiras não haviam sido melhor diagnosticadas pela visão da imperatriz
Irene Sarantapeco, talvez tivessem aparatos psicológicos para suportar seus
sofrimentos. Restaria a intuição consoladora de que suas possíveis grandezas e
inerentes insuficiências foram todas trituradas pela medianidade imposta — um
triturador para o qual conceitos como poder e glória nada valem.
Acordado pela
manhã, antes mesmo que o despertador na cabeceira soasse, o Sr. Omeno Flibas já
pensava. Abriu os olhos diante da janela fechada que dava para os prédios
vizinhos, a maioria tão antigos quanto aquele em que vivia há três décadas, e
lançou-se nessas jornadas acidentadas, reverberantes e viciosas da mente.
Quando Ângela, sua esposa, era viva, ele costumava levar a parte mais densa
desses pensamentos para a mesa do café, pois ela tinha o dom constituído de lhe
infundir doses generosas de alívio. No mais das vezes, ouvia-o com as
sobrancelhas franzidas, denotando uma atenção empenhada, para aos poucos
esboçar o sorriso estabilizador que indicava que tudo não passava de um
descompasso exagerado, típico da personalidade dele. Ele não se ofendia. Cedia
diante daquela natureza que insistia em restabelecer a leveza onde ele teimava
em enxergar gravidade. Não que ela apequenasse suas aflições; isso seria
impossível vindo da única pessoa de quem ele tinha plena certeza do amor. Era
apenas a maneira dela gestar a homeostase do casamento com sua delicada
economia emocional.
De toda
forma, o Sr. Flibas pensou, Ângela não estava mais lá. Havia morrido há vinte e
três anos, completados exatamente naquele dia. Ela ainda existia nas imagens de
segurança apreendidas pela polícia técnica: andando com a bolsa pendurada no
braço, usando o vestido discreto de seu serviço de assistência social e, logo
em seguida, como por um cruel passe de mágica, sumindo. Na tela, o predador de
casaco e capuz realizava, entre os pixels de baixa definição, a aproximação e o
retorno. Depois, a franca natureza humana da violência e do extermínio. Restou
à mente racionalizante o peso de reinterpretar eternamente a crueza da cena sob
moldes sociológicos e filosóficos. Depois de tanto tempo, ele ainda não
encontrava o nexo correto das palavras para dizer que Ângela fora assassinada
em um assalto; que bastara o soco certeiro de um jovem para que ela caísse no
chão, já sem vida. Esse aspecto limítrofe da realidade — não a rigidez física
do corpo de Ângela, mas a fragilidade das estruturas do mundo — causava-lhe um
profundo espanto. Como era possível que as leis cósmicas, tão intransigentes,
cedessem tão prontamente ao pulso de alguém que recém saíra da adolescência? Ao
braço fino de um magrelo de vinte anos? Seja como for, a verdade era
incontornável. E ele próprio já passara dos setenta. No fim das contas, o que
importava? Eram apenas exercícios de entretenimento de quem, se antes cultivava
uma ilusão de permanência, agora sabia que tudo não passava de ruminações de
uma mente sem muito material para queimar.
O senhor Omeno Flibas usava seu rastreio mental
para identificar em si alguma necessidade de persistência no mundo. Não num
mundo qualquer, não no mundo dos velhos como ele. Aquela instância da lembrança
agora era identificada como as obsoletas coisas do passado. Havia a consciência
de que só há um mundo, sendo todo o mais puro trabalho da retórica—panoramas do
eufemismo que, no fundo, não podem ser desassociados do fator político da
existência.
Deitado com o corpo virado para a janela, os sons e
as luzes da cidade, já tão cedo lá fora, o angustiavam. Ele suspirou uma vez,
pesadamente, como um personagem médio-oriental de algum conto judaico. Nunca
fora boa coisa a ascensão da mente, pensou, os esforços da lucidez, as proezas
do esclarecimento. Por que lera tantos livros? Por que passara toda a vida
debruçado sobre ideias, cultivando joguetes que não deram em nada? Foram feitos
para não darem em nada. Teorias existenciais, negações com anseios de
substituir a natureza, apelos deístas, a procura de significado, a
hermenêutica, a sociologia, as reviravoltas da história, a conflagração dos
povos, a violência primal inerradicável, a utopia, a distopia, o estoicismo, o
design inteligente, a pura plenitude do átomo. Tudo apenas brincadeiras no
vazio, passatempo, inutilidades cuja futilidade só não se vê por sua aplicação
em distrair do fato de que a coisa toda não faz sentido. Apelos de injeção
fisiológica de hormônios para fazer com que o ser humano, esse animal tão
combalido, sinta algum anseio por sair da cama.
Mas, mesmo assim, esse enorme engodo, como num
comum acordo global, continuava a mover milhões de intenções. Por mais que se
sentisse apreensivo pelas conjunções da história, ainda assim era um
privilegiado. Lá fora, os que não tinham o mesmo benefício de uma solidão
cercada de sombras gentis estavam no metrô, andando pelas ruas cheias de lixo,
entre traficantes e sem-teto—ou sendo eles mesmos os traficantes e os sem-teto.
Seres embotados, sem o usufruto da nobreza que Deus lhes destinara, caídos em
uma armadilha milenar; um pequeno lapso ocorrido em algum momento do teatro de
dominação e nunca reparado. E agora estavam lá, como cobaias com o olhar sempre
estarrecido pela fugidia recordação desse cômico engano: os descendentes de
escravos e de bárbaros sanguinários, de piratas agrilhoados e sentenciados de
antigos Estados desaparecidos, todos transformados pela trivialidade dos novos
tempos em meros serviçais da máquina.
Ele mesmo, o que poderia esperar mais daquilo tudo?
E o fato era que não podia chamar de depressão. Ainda sentia a antiga alegria
pela vida. Talvez "alegria" fosse uma palavra inadequadamente forte,
e o acerto ficasse nas escolhas gramaticais menores. Um leve deleite. Não havia
mais nenhum sentido de explicação efusiva, mas, mesmo assim, ele admirava a
conexão de todos aqueles esquemas.
Ele se levantou. Dobrou o lençol para o lado,
fazendo uma ponta em "V" próxima à cabeceira. Era uma ordem de
segurança para si mesmo de que, mais tarde, poria tudo em seu devido lugar.
Pegou o grande travesseiro de tecido sintético, e o posicionou junto
à parede. Calçou os chinelos. Um homem de setenta anos deve prestar exímia
atenção ao equilíbrio. Estava de pijama.
No banheiro contíguo ao quarto, alteou o queixo
enquanto se olhava com uma perspicácia seca e plasticamente severa no espelho,
lembrando-se de um imperador romano menor, dos mais perversos, em seus banhos
palaciais privados. Deu dois passos e, com os movimentos concernentes, soltou
um fluxo de urina na privada. Seria um déspota facilmente demovido apenas pela
inextorquível aparência, um semblante expressivo do denodo e da devoção do
intelecto. Os senadores de uma autarquia que tivesse um tirano como aquele logo
poriam as diretrizes em ordem, sem nenhum problema. Ele sorriu diante desse
humor errático, que seu psicologismo deveria ter lhe enviado por nós de
análises perdidas.
Pegou a escova de dentes do armarinho, deixando que
sua imagem se descompusesse em um borrão veloz quando abriu a porta, e escovou
os dentes com concentrada solicitude. Cuspiu a espuma, observando-a com uma
curiosidade que tinha em sua instantaneidade a devida medida de suas
conclusões; depois, fez bochechos com o enxaguante cianótico mentolado.
Na volta para o quarto, gravou nos reflexos para que sua mente se lembrasse de retirar a garrafa de inox cheia de água, que ele punha ali todo início de noite. Distantemente, poderia resgatar o álibi de que conservava um apuro clínico sobre a boa manutenção dos órgãos internos. O fluxo de urina já não podia comportar esse epíteto, mas a degeneração dos esfíncteres compensava pela clareza do líquido. Um corpo bem hidratado. Lembrou-se, de súbito, de um antigo colega de trabalho que se vangloriava de beber três litros de água por dia. Pequenas instâncias da trivialidade que tinham o mesmo peso homeostático de Platão e de Mestre Eckhart.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
A poderosa risada
A Dani entrou para fazer a cirurgia cardíaca hoje às 5 da manhã. Eu fiquei na sala de espera lendo sobre o zen-budismo. Antes a Dani tomou banho no hospital e quando se sentou para esperar pelo enfermeiro com a cadeira de rodas eu apontei o cartaz que fala sobre retirar todos os adereços e lhe perguntei se ela tirou o piercing "lá de baixo". "Tirei essa noite e coloquei no seu pênis", ela respondeu. O zen-budismo fala sobre a gargalhada libertadora, a "poderosa risada". Mas o zen-budismo é muito frio. Principalmente para alguém que necessita de alguma entidade metafísica pra rezar e pedir pela proteção da pessoa que ama. A Dani acertou o Pix do lanche da semana de nossos filhos na escola na madrugada de ontem, no hotel, seis horas antes da cirurgia. Ela me disse que quando eu voltasse para nossa casa, há 170 quilômetros, eu não fosse ouvindo música clássica para não ficar com sono no voltante. Ela me disse para ouvir rock, alguma música bem agitada. "Mas eu estou há anos na fase do jazz, Dani", eu lhe digo. "Então escute Freddie Hubbard e Joe Henderson e John Coltrane, mas não Bobby Hutcherson. Vibrafone tem efeito entorpecente. E jamais Chet Baker". Eu fico oito horas esperando, lendo sobre o zen-budismo. O zen-budismo é frio, não crê na transcendência, não crê na glória. Meu nome é anunciado e eu vou para a ante sala da cirurgia. A Dani está bem. Eu vejo os médicos e as enfermeiras como seres benevolentes em um estágio de extrema pureza. Choro quando eles me apertam a mão, não consigo evitar. O zen-budismo diz que os Budas passam os dias bebendo chá e comendo arroz. O zen-budismo diz que devemos ver todo o universo em um grão de areia. Daí me dou conta: o zen-budismo não crê na glória porque acredita que já estamos nela. Ele não crê na transcendência porque já estamos na transcendência. Me parece uma parcela de iluminação ter esse insight, e eu sou assolado por uma alegria imensa. A alegria da Dani estar bem, da sombra desses quatro meses ter se dissipado, da ameaça do meu pesadelo recorrente da solidão não me atemorizar mais. Nós já estamos na glória, como isso só me ocorreu agora? Tudo já aconteceu e nós estamos na glória. E eu faço mais uma oração e não quero mais nada do que beber chá e comer arroz por toda a infinitude com ela, a Dani.
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Histórias de amor no novo milênio
Vi um vídeo no Fantástico falando sobre os apartamentos caixotes de Hong Kong. Pessoas moram dentro de caixas menores que caixões. São dezenas delas em cada apartamento, com uma micro cozinha e um micro banheiro coletivo. Ao todo, são milhares, quem sabe milhões, que moram assim na China. A visão desses prédios é aterrorizante, gigantescos, cobrindo com suas cores pardas ciclópicas toda a área urbana. Não há o mínimo espaço para algo que não seja feio, brutal, sem alma, opressivo, aviltante. Em dado momento o repórter é expulso pelo dono do local, ou o gerente, que o aborda com a truculência de um miliciano. O repórter então sai para a rua e entrevista os que se dispõe. Uma senhora diz que lembra com dor a época em que era criança e morava em uma casa ampla, o que só existe agora na sua memória. Um homem diz que não tem mais onde morar, pois os aluguéis são altíssimos, e a grande maioria dos chineses ganha um salário de miséria, o menor do mundo. Os moradores encaixotados são serventes de açougues, funcionários da construção civil, chapas de feira, etc. Uma mulher, contudo, diz que é o paraíso, e é filmada no claustrofóbico espaço deitada. Antes, ela apanhava do marido e foi expulsa de casa, porque o marido não mais a queria, só sobrando morar ali. Pessoas tratadas como lixo, como números, numa sociedade desapiedada e sem traços de humanidade. Eu estou chegando na página 100 de História de amor no novo milênio, escrito por Can Xue, o que não é o verdadeiro nome da autora. Ela saiu de um cenário assim, do nível mais baixo da pirâmide trabalhista escravocrata chinesa, cursou até o ensino fundamental e é uma autodidata. Nietzsche falava sobre o regime chinês em Além do bem e do mal (ou será em Humano demasiadamente humano?), como uma figura retórica do inferno. Hoje, sociedades assim são elogiadas pelos progressistas e pelos capitalistas, o grande país que está tirando o Satã Americano da liderança global. Eu ainda não entendi onde a Xue quer chegar. É um romance que bebe generosamente de Kafka, com seus personagens regidos por morais heterodoxas e situações oníricas. O que me cativou de imediato é a liberdade irrestrita com a qual é escrito. A alegria extasiada da palavra. A forma como a autora mostra que aquele é o terreno só dela, amplo, ilimitado, cheio de espaço. Uma das personagens do romance diz que se tornou prostituta como escape para se livrar da vida terrível que levava na fábrica. A literatura nunca foi tão representativa da mentalidade de cada nação, com seus desejos, lamentos, temores, sonhos e vislumbres de redenção como agora.





