quinta-feira, 23 de abril de 2026

A poderosa risada

 

A Dani entrou para fazer a cirurgia cardíaca hoje às 5 da manhã. Eu fiquei na sala de espera lendo sobre o zen-budismo. Antes a Dani tomou banho no hospital e quando se sentou para esperar pelo enfermeiro com a cadeira de rodas eu apontei o cartaz que fala sobre retirar todos os adereços e lhe perguntei se ela tirou o piercing "lá de baixo". "Tirei essa noite e coloquei no seu pênis", ela respondeu. O zen-budismo fala sobre a gargalhada libertadora, a "poderosa risada". Mas o zen-budismo é muito frio. Principalmente para alguém que necessita de alguma entidade metafísica pra rezar e pedir pela proteção da pessoa que ama. A Dani acertou o Pix do lanche da semana de nossos filhos na escola na madrugada de ontem, no hotel, seis horas antes da cirurgia. Ela me disse que quando eu voltasse para nossa casa, há 170 quilômetros, eu não fosse ouvindo música clássica para não ficar com sono no voltante. Ela me disse para ouvir rock, alguma música bem agitada. "Mas eu estou há anos na fase do jazz, Dani", eu lhe digo. "Então escute Freddie Hubbard e Joe Henderson e John Coltrane, mas não Bobby Hutcherson. Vibrafone tem efeito entorpecente. E jamais Chet Baker". Eu fico oito horas esperando, lendo sobre o zen-budismo. O zen-budismo é frio, não crê na transcendência, não crê na glória. Meu nome é anunciado e eu vou para a ante sala da cirurgia. A Dani está bem. Eu vejo os médicos e as enfermeiras como seres benevolentes em um estágio de extrema pureza. Choro quando eles me apertam a mão, não consigo evitar. O zen-budismo diz que os Budas passam os dias bebendo chá e comendo arroz. O zen-budismo diz que devemos ver todo o universo em um grão de areia. Daí me dou conta: o zen-budismo não crê na glória porque acredita que já estamos nela. Ele não crê na transcendência porque já estamos na transcendência. Me parece uma parcela de iluminação ter esse insight, e eu sou assolado por uma alegria imensa. A alegria da Dani estar bem, da sombra desses quatro meses ter se dissipado, da ameaça do meu pesadelo recorrente da solidão não me atemorizar mais. Nós já estamos na glória, como isso só me ocorreu agora? Tudo já aconteceu e nós estamos na glória. E eu faço mais uma oração e não quero mais nada do que beber chá e comer arroz por toda a infinitude com ela, a Dani.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O mendigo do inverno

 

     




      Sua mãe havia sido uma defensora pública. Quando morreu, foram prestadas homenagens a ela pelo estado. Escritórios de advocatícia mandaram coroas de flores com os sobrenomes dos sócios escritos. Olhando-a no caixão, o rosto maquiado para atenuar o inchaço dos anti-inflamatórios, não era para qualquer um a insinuação do quanto foram inglórios seus últimos anos. O seu segundo marido, César, o pai de Esvertina, havia requisitado uma perícia médica para suas atitudes estranhas. De modos que enquanto vasculhavam em todos os setores da sua vida, ela mesma se rendera. Diante César, aceitou que algo não estava bem. Sua forma de ser desrespeitosa com os clientes, por exemplo, que gerara um processo de maus tratos por uma viúva; suas birras; até mesmo seu modo de suspirar acintosamente mostrando sua incompatibilidade com os colegas, só poderia ser uma afecção mental. Anselmo tinha certeza que não era preciso ir muito fundo para saber que ela mentia. Mas por mais que tentasse achar uma lógica, o arranjo de colocá-la em um manicômio não se coadunava com uma reviravolta em que ela pudesse sair vitoriosa. A única explicação é que quando ela era uma simples advogada, ganhando três vezes menos, ela se sentia autorizada a aprontar seus pequenos teatrinhos, a erguer a estrutura piedosa de seus escândalos. Os outros advogados apenas a olhavam, com o nível de assombro despencando a cada renovada encenação, e deixavam para lá. Queriam saber de seus salários e voltarem para suas famílias. E talvez a questão fosse essa. Para qual família a mãe deles iria voltar? Não era questão do abandono parental que ela havia sofrido desde muito pequena, mas os indícios mostravam que ela não havia tido sorte nesse quesito. Esvertina era uma adolescente rebelde, com a cabeça cheia de nada. A mãe encontrara anotações em uma agenda sobre dois abortos feitos em uma clínica clandestina. E ele mesmo, o que havia oferecido a ela? O álibi de uma omissão diante as tentações da juventude não se sustentava quando se considerava que, de uma forma ainda pior, ele abalara o coração da mãe. Ao menos haviam momentos em que as duas se desarmavam, um hormônio de harmonização feminina escorria dentro delas, mas quanto a ele, era só silêncio e uma opressiva solidão. Uma vez fizera a mãe gritar do nada, um grito animal, cheio do fermento do câncer que deveria já estar iniciando nela anos antecipados.

      A mãe nunca gostara dele e nunca disfarçara isso. Quando César percebeu esse fato político no cerne da família, os dois conversaram. Era um homem gigante, lhe dizendo que ele era um peso demais para a mãe. “Ângela não merece, nessa instância da vida, sustentar um filho já entrando na idade de sair de casa”, ele disse. César tinha os olhos azuis, o rosto balofo, os braços recurvos e grossos evidenciando uma dinastia de embuchadores médio europeus cuja genética procurava ansiosa por pragmáticos melhoramentos sem abrir mão de seu caráter étnico de vassalagem a raças imperiais dominantes. Sempre arvorava que seus pais eram descendentes diretos de alemães, aqueles caipiras obtusos com a impressão sagrada de superioridade como se fossem os detentores de uma imagem santa achada num ribeirinho. Cultivavam pequenas palavras consonantais, defendendo ser denominações usadas por defloradores de olhares bonachões em idílicas aldeias de vacas leiteiras. Era uma atração poderosa essa que sua mãe sentia por homens caricaturescos. O pai de Anselmo, ele mesmo, era um protótipo do estancieiro moreno elegantemente selvagem. Anselmo respondeu que precisava de um tempo, que assim que entrasse na faculdade iria dar o fora. Não achava que ele lhe repassasse uma sugestão da mãe; achava que ela conservava alguma reserva de calor que não lhe permitiria aquilo. Mas César aceitou, de forma mesmo considerável. Perguntou que curso ele se preparava para entrar, se fosse medicina os anos de espera por uma aprovação no vestibular poderiam ser estendidos indevidamente, o que “não seria o mais certo a fazer” com Ângela. Anselmo disse que faria história, o que não se exigia muito para passar. E assim fora. No final do ano ele obteve uma nota média para ser aceito pela federal, e no meio do semestre seguinte arranjou emprego em uma distribuidora de bebidas. Foi morar em um quarto em frente à praça universitária. O que para muitos seria um traumático ritual de passagem, para ele era um grande impulsor de felicidade. Na primeira semana ele se deitava no chão, colocando dois livros pegos com seu cartão de biblioteca como escoro da cabeça, e tinha sonhos esfuziantes. Nos finais de semana, não tendo para onde ir, ele ficava ali, olhando os losangos impraticáveis que a luz vinda pelo canto da janela brincava serem possíveis no teto, pelo menos naquele seu reduto onde o absurdo era uma cláusula contratual que fizera com a sua divindade. Foi um prosseguimento para um nível de alta proficiência de sua paz interna, que sempre lhe havia acompanhado, e que agora ele tinha suficientes motivos para saber que era o componente mais poderoso de seu caráter. Nos primeiros meses a mãe seguia uma cartilha de emancipação progressiva, ligando para o telefone fixo do corredor entre os quartos, falando com uma voz forçadamente chorosa que ele tinha que voltar “para sua casa”. Uma vez recebera uma cesta de bolachas. Encaixado como um gesto de humor incompreensível entre os pacotes havia um pênis de chocolate em volta de uma camisa de um time de futebol. Dera as bolachas para a faxineira que vinha limpar os corredores toda semana e o chocolate ele comera, mordendo a cabeça tão empreendedoramente exagerada para parecer obscena que no final parecia um elmo de história em quadrinhos. Um legionário romano de Asterix que despejou uma gosma de leite condensado demasiadamente doce em sua língua. Por final ela parou de ligar, e ficaram sem contatos por dois anos. Foram anos de uma liberdade que ele achara de uma plenitude meritória para ter-se atrasado tanto em obtê-la. De certa forma deveria agradecer a César, por aquele ultimato viril, que um garoto desprovido da figura autoritária de um pai precisaria ter para ativar sua testosterona adormecida pela doentia inércia do tom materno.

      Mas voltando à mãe, quando então surgiu a oportunidade dela pegar a vaga recém criada de defensora pública, oferecida por ser a mais velha da sala de advogados, ela aceitou. Não parecia em nada uma vantagem, pois teria que tratar com os seres mais degradados da esfera criminal e os acréscimos salariais que distinguiriam a nobreza da função não era uma expectativa certa. O governador sobre o qual caíra a obrigação judicial de montar a defensoria era um notório corrupto envolvido com as máfias de licitações mais perigosas do estado, de forma que todos sabiam que era uma furada. Seus colegas, os mesmos que fugiam de seus chiliques e fúrias intermitentes, consideraram que seria uma boa compensação cósmica ela quebrar a cara dessa maneira didática, e não lhe aconselharam sobre o que parecia o cumprimento de um carma evidente. Mas aconteceu algo inesperado. Em dois anos ela foi efetivada como primeira defensora pública do estado, com o estado abrindo concurso público e formalizando toda a ortodoxia do cargo. Em um mês sua mãe se tornou tão distinta quanto juízes, e o termo “doutora”, normalmente usado com um leve tom de desprezo crítico, passou a ser uma nomenclatura cheia do temor sagrado que se tem diante um alto representante da corte. Seus colegas ficaram em uma pane conjunta em que repetiram em um circunscrito quadro epidêmico as caras de incredulidade ofendida. A louca iria ganhar três vezes mais que eles, mais os penduricalhos que vem com abonos salariais e horas extras. Esvertina contara a Anselmo que quando a mãe, já vestida com um terno feminino com corte especial feito em uma alfaiataria de magnatas jurídicos, fora até sua antiga sala pegar seus pertences, seus cinco ou seis companheiros de anos de regime concêntrico ficaram estacados, como se uma esfinge improvável estivesse andando em fulgor lumínico entre eles. Calados, olhavam-na com o estarrecimento que no mais profundo âmago de suas memórias remetia a seres condenados à subserviência daquela geografia. A certeza da vitória da tolice espalhafatosa sobre a impressão de seus grandes e abscônditos méritos próprios diluída no sorrisinho de ódio aquiescente. E sua mãe se despedira deles usando um inédito tom de comedimento, um comedimento irritante, que deveria destruí-los continuamente toda noite diante a pobre mesa de jantar, o comedimento que era o propulsor das brigas com suas esposas e maridos, que os levavam a ser paus no cu nos trânsitos. Falara com uma voz surgida do nada, de regiões ignotas do caráter, uma doçura de aristocrata falando com seus serviçais. Esvertina ria alto ao contar que a mãe passara de mesa em mesa dando-lhes um abraço, para o qual aqueles seres profundamente derrotados tinham que se levantar, cônscios de suas sedentárias silhuetas paquidérmicas, obrigando-os a emularem o mesmo tom um nível só acima do falsete descarado. Anselmo se compadeceu daqueles seres, sentiu uma comunhão profunda com eles. Sentiu que era uma injustiça descomunal, inumana, o que o destino fazia com eles, e tanto era mais doloroso por ter sido uma chance extraordinária oferecida a todos e que eles abriram mão por suspeita de que só uma estúpida teria caído nela. E naquela altura de suas carreiras, um enredo de redenção compensatória do patinho feio feito de maneira tão inesperadamente tardia, era de deixar qualquer um enlouquecido. Aqueles seres haviam sofrido de maneira sem igual o horror que era viver com alguém como sua mãe que nem ele e nem Esvertina haviam experimentado.

  Mas a história, obviamente, não havia acabado aí. Houve uma continuação. Houve espaço para um segundo volume das aventuras extraordinárias de Ângela Duarte, seu "Vinte anos depois", após suas proezas sem igual de D’Artagnan eleita de forma gloriosamente bastarda para fazer parte da comitiva do rei. Anselmo reconhecia os traços da comédia que a mãe estava acostumada a infligir quando era mais uma do rebanho apascentado do baixo funcionalismo público, acrescida da novidade do que ela jamais intuíra dos tons sombrios de tragédia quando ascendeu-se para sua posição de patinho feio. Se tivesse sido inteligente o suficiente para se acomodar a essa imagem, se tivesse lido algum manual de conduta do guerreiro da luz ou do sábio conselheiro bélico dos tempos do Japão imperial, que aliás não era uma literatura estranha para a classe de jovens defensores públicos que se atribuíam uma predestinação celestial por terem passado no concurso, estes a teriam visto como uma excentricidade obsoleta mas tolerável. Teriam mesmo uma reverência típica a que se destina a uma mascote levemente cômica por sua doidivanice semiletrada. Veriam o seu descompasso de instrução técnica e seus momentos em que trancava os músculos do pescoço ao lado de seus clientes, não conseguindo soltar a voz, de frente às altas cortes, como algo de certa forma natural que aquele estado da federação que tinha muitos atributos das atrasadas leis da metade do século XX lhes colocava pelo caminho da modernidade. Era um empecilho que, olhando da posição correta do alto de seus narizes esnobes (que uma dia a mãe chorou de angústia ressaltando para Anselmo como eles eram prepotentes e esnobes!), era algo que até devotava o mérito às suas capacidades éticas de convivência com a obsolescência a ser varrida. Sua mãe lhe dizia sobre o que eles sussurravam nas primeiras semanas pelas suas costas, sobre sua idade, sobre sua tartamudez, sobre sua ignorância a princípios básicos das leis, até mesmo sobre seu modo excessivamente plebeu de conversar. Na festa de confraternização de fim de ano, a defensora pública colega dela que saiu com o seu nome no amigo secreto, no ato de descrição antes que o nome fosse anunciado típico dessas brincadeiras_ em que os demais tem que decifrar e anunciar em voz alta assim que todos os aspectos do retrato estejam suficientemente pintados_, descreveu sua mãe com termos incisivos a tal ponto que a simpatia subjacente ao humor foi destruída na maneira como todos riam em chacota. A moça falara coisas como “meu amigo um tanto tontinho”, no momento inicial onde não tinha limitado a questão para o gênero feminino, ao que, depois, usou termos de uma prolixidade tal que Ângela disse que lhe doía mais por saber que ela exagerava o efeito da bebida para justificar sua falta de reservas. “Minha amiga confunde mandado de injunção com mandado de busca”, e no final, quando já estava claro há muito com quem ela saíra, quem entre todos aqueles distintos profissionais com taças na mão e o riso eximido de freios civilizados para a crueldade era a única que cabia dentro da descrição jocosa, a colega de sua mãe deu a estocada, o passo de esgrima covarde sobre a adversária já caída no chão que ficaria no memorial glorioso da categoria a ser lembrado para sempre. Ela disse: “minha amiga vem com roupas tão exuberantes e vitorianas que muitas vezes parece a rainha mãe de uma corte de Carlota Joaquina”. E todos gritaram: “Ângela Duarte!”. Com os sorrisos lupinos incendiados da juventude de peles com a resplandecente camada subcutânea de gordura dos bem nascidos, dos que nunca sofreram na vida, dos que tinham todo o tempo do mundo para se enfiarem debaixo dos cobertores em suas camas continentais e estudarem dezoito horas por dia para o concurso. Enquanto sua mãe, que se formara em direito com muito custo quando Anselmo era ainda criança, trabalhando meio período como escriturária em um cartório, em uma universidade de quinta categoria, teve que traçar seu caminho para a investidura no cargo pelas portas do fundo. Ela se levantou, encolhida de ódio e vergonha, e foi até o núcleo das mesas onde a moça estava com os braços estendidos e com uma expressão cênica simulando ternura para com aquele espécime de serviçal estrangeira de baixo nível que algum erro piedoso instalara entre eles, os vencedores, os cultos, os poderosos e endinheirados. A moça era alta, de uma fria beleza protocolar que em outras circunstâncias Ângela dissera a Anselm nem seria vista na multidão, com suas bochechas demasiado infladas disfarçadas pela diminuição de peso que a função lhe fizera se impor com uma dieta, o corpo silhuetal metamorfoseado em fêmea sexualmente seletiva que despertava o perigo congratulatório nos homens em serem destruídos por aquela comunhão de mulher e divindade sob a qual recaía a decisão na balança de várias vidas e vários destinos. Ela lhe entregara o pacote floreado com um laço dourado, dando no rosto da mãe o toque sutil de face com face em que simulava um beijo de intimidade, e todos riam e transformavam progressivamente os gestos em suas caras em elegantes contrações contidas de asco e incredulidade. Tinham a ciência exata de aspergirem as quantidades certas de emoções de repúdio e solércia nas sinapses daquelas fibras nervosas ultracalibradas de seus músculos faciais. Tudo em nome da sofisticação de seus nomes de doutores, Ângela disse a Anselmo.

     Ela não era nada tola, ao contrário do que eles achavam. Aliás tinha um jogo de cintura de descobrir a melhor solução para casos complicados de defesa que os livros não cobriam, mas sua experiência de trinta anos como auxiliar de promotoria sim. E esses mesmos colegas tinham o distanciamento de admitirem isso, se não fosse a soberba faraônica que crescia dentro deles pela fusão nada auto elucidativa de hormônios da juventude e ego exacerbado. Quando sua mãe abrira o presente, na frente de todos, caiu-lhe no colo uma blusa branca de mangas compridas, ofensivamente amorfa, que não adiantava um espírito de boa vontade procurar nos mais estapafúrdios catálogos de moda que não encontraria um nicho social que a visse de outra maneira que não uma camisa de força. Nisso ninguém riu, como se todos tivessem combinado que a mensagem seria melhor difundida se impusessem caras sérias, averiguativas, como se fizessem uma metalinguagem para aumentar o efeito catártico de um humor elevado, como os grandes humoristas fazem ao conseguirem contar uma piada extremamente engraçada sem contraírem uma ruga de suas bocas desproporcionalmente severas.

  “Uma camisa de força, Anselmo”, Ângela dissera, em uma tarde em que estavam no apartamento dela, ele, Helena e Esvertina. Era aniversário de 65 anos dela, e ela lhe mostrara a peça a retirando de um plástico barato, que Anselmo não soube se era um envoltório que Ângela substituíra o original para dar maior figuração à crueza da ofensa, ou se a roupa é que era absurda o suficiente para retirar qualquer possibilidade de atenuantes. Ângela a desdobrara, estendendo uma manga pelo forro da cama e logo em seguida a outra, como se estivesse desembrulhando um componente de alguma formulação culinária secreta, ao que seria até mesmo lógico que no centro do pano branco levemente encardido houvesse uma caixinha enferrujada, contendo um pedaço de noz moscada. Eles não podiam ter feito isso com ela, Anselmo se lembrou de ter pensado. Aquilo era mesmo uma camisa de força. Eles tinham tripudiado de maneira violenta para cima de sua mãe. César apareceu no quarto, olhou para a roupa com seu treinado poder de achar uma síntese libertadora para tudo, e riu, dizendo que tinha sido uma ótima piada. “Para uma advogada com altos índices de fianças conquistadas para seus clientes, é uma boa metáfora associá-la a uma louca”, ele disse.

   Anselmo admirara tamanha capacidade de inventar uma metafísica para atos materialmente mesquinhos. Era óbvio que os colegas da mãe não estavam querendo dizer isso, não era mesmo um elogio. Mas não fazia mais parte de sua vida. Ele desceu os olhos para onde estava Ângela, sentada, e viu com a nitidez exclusiva dos filhos, que só o embrião reformulado e desenvolvido dentro das esferas biológicas de um progênie masculina seria capaz, que ela sofria, que ela sorria procurando seguir a solução civilizada do marido mas cujo sorriso não conseguia mais conter tanto inferno que havia dentro dela. Naquele instante Anselmo soube que teria notícias sobre o que ela vinha fazendo naquele meio de abastados, pois era inevitável que o ambiente não havia favorecido nenhuma possível tentativa de mudança que ela tivesse se disciplinado a realizar. Anselmo teve a nítida certeza de que ela havia aprontado das suas, que as loucuras que fazia entre os vira-latas encardidos iguais a ela no antigo gabinete da promotoria onde era tolerada por uma economia de energia, haviam se promulgado naquele olimpo judicial.

   As duas notícias ruins tinham vindo juntas. Foi na mesma semana que Helena perdeu espontaneamente o bebê que Esvertina lhe ligara dizendo que Ângela havia solicitado oficialmente tratamento psiquiátrico. Tinha-se passado seis meses do aniversário da mãe, quando ela lhe contara sobre a “camisa de força”, e Anselmo teve a impressão de que o roteirista que estava escrevendo aqueles enredos secundários de sua vida havia acionado um ponto morto no quesito imaginação. Parecia uma trama de algum romancista francês oitocentistas colocando rimas pobres nos eventos narrativos. Falar de camisa de força e logo em seguida ser enredado por uma era uma solução bastante preguiçosa. Anselmo jamais esperava que sua mãe estivesse de alguma forma associada a doenças mentais, o que analisando retroativamente era quase uma ingenuidade seletiva do modo como ele a enxergava. Ele apostava que era um estratagema de Ângela, aquela astuciosa atriz que usava com tremenda eficiência as instâncias mais piedosas de seu papel de coitadinha intelectualmente limitada. Lembrava de um filme em que Al Pacino, encenando Satanás, vaticinava que os verdadeiros detentores do poder requerem para si os disfarces de aleijados. Ele mesmo, o Pacino-diabo, entortava seu frágil corpo pequeno todo para um lado, para assim exercer sua maldade na invisibilidade que o manquejamento lhe outorgava ao sair do metrô. E era com essa mesma paleta manipuladora que Ângela se materializava para o mundo. Mas depois Anselmo pôs-se a limpar sua visão para ver com lucidez sua mãe. Quando Esvertina lhe contara, pelo telefone, que César a havia internado sob a concordância dela em uma clínica psiquiátrica cara, ele estava em volta com a conclusão da outra ponta da tragédia, em que Helena passava por uma curetagem em um hospital público.

    Enquanto Ângela era colocada em um quarto privado, com ar condicionado, com cortinas beges que adensavam a textura da sombra envolvente de maneira rumorejante e confortável, com um aparato de especialistas e enfermeiras para lhe atender, Helena fora se livrar dos tantos vestígios que o feto lhe deixara ao escapulir de seu útero na ala de enfermaria do Hospital Municipal. Enfiaram-lhe um bastão de aço pela vagina e o giraram de um lado para o outro, enquanto uma cânula de plástico sugava o material biológico que o menino desprendera em seu ato de fuga da existência: natas de sangue coagulado, grumos de células de um vermelho tão denso que não parecia de natureza humana, ao mesmo tempo que diante o olhar espantado de Helena eram as coisas mais profundamente humanas que ela já vira por virem com um traço da inerente podridão do destino final daquilo tudo, de toda a carne e da vida.

       Era evidente que quando Helena lhe descrevera essas coisas, em uma carta enviada meses depois que o relacionamento deles acabara de vez, ela estava sob o direcionamento de uma depressão profunda, não se poupando desses termos niilistas. Um filho nunca fizera parte dos programas dos dois, mas em um moto-contínuo para salvarem a união eles passaram a desconsiderar os métodos profiláticos de impedir uma gravidez. Helena tinha o costume de brincar que Anselmo era sua última esperança, num cronograma de relacionamentos terríveis, de ter um casamento. Ele não deixava essas indiretas disfarçadas de leveza escoarem pelo ralo dos ouvidos e concebia os arranjos para que aquela mulher tão destruída pelo restolho de homens não saísse de mãos abanando.

       Helena era deslumbrante de linda. Tinha olhos azuis esotéricos. Era impossível olhar para eles sem sentir um afluxo de correntes elétricas metafísicas atravessando o corpo. Era alta, morena, magra como uma guerreira egípcia, o que a fantasiação dessa figura absurda compensava sua inexistência histórica, pelo que tinha de correção pelo poder do verbo. Se alguma vez uma guerreira feminina egípcia tivesse existido, seria com os elevados atributos físicos manifestados nela. Não difícil de se sentir elogiado por ela trapacear em um jogo para se engravidar dele. Que ariana de pele oliva, saída das fontes vigorosas da genética, haveria de querer levar no ventre senão de um homem que tivesse passado por algum critério de escolha?

      Ela encenava uma peça de Pinter no teatro, fazendo o papel de uma estoica social superior, com aquela impiedade implacável e santificadamente violenta típicas de Pinter, e vê-la no palco havia debilitado toda concepção estrutural da paixão de Anselmo. Ele passara a ir assisti-la todas as noites de sexta e sábado, chegando mais cedo para se sentar na fileira da frente. Sua rendição diante aquela cada vez mais clara armadilha do desejo que estava construindo para si atingia níveis tão sérios que delirava ao pensar que sentia as gotas de saliva caindo-lhe no rosto, cada vez que a personagem passava numa contenção de fúria a poucos centímetros dele. Apresentou-se ao diretor da peça, um sujeito tão arquetípico em sua fremência dispersa em não conseguir prestar atenção em nada por mais de poucos segundos que de longe qualquer um poderia sentir sua áurea de visionário anarquista imune ao envelhecimento, alegando que estava escrevendo um texto para seu jornal sobre feminismo libertário e crime. O sujeito não se entusiasmou nem um pouco pela eficiência promovedora que um jornal inexpressivo do qual ele nunca tinha ouvido falar teria para a peça, e nem essa tinha sido a impressão pretendida por Anselmo, mas deixou que ele entrasse no camarim quando a encenação terminara para entrevistar a artista principal.

      Anselmo então pôde ver Helena pela primeira vez, desfeita da encarnação de frieza maquinal repetitiva cujas frases lacônicas ele já estava por decorar de tanto as ouvir em sua posição próxima ao palco, com os cabelos curtos mostrando-se surpreendentemente  crespos sem os aparatos da personagem, e falando com os funcionários do teatro com tanta desenvoltura que por um momento acreditou que era uma espécie de mediunidade dessas em que o agente físico costuma ser escolhido pelo espíritos por ser o mais simplório possível, como se o fator de baixa sofisticação do hospedeiro fosse determinante para não macular a pureza do transe. Ela ria alto, em uma voz surpreendentemente masculinizada, e usava expressões debochadas que revelavam uma consciência exacerbada de sua franca sexualidade, não policiada, não competitiva. Talvez por Anselmo estar no extremo oposto dessa consciência, vendo-a com o poder do fetiche renascido por uma mulher que há anos se achava imune de retornar a sentir, que ele achou aquilo desamparadamente ofensivo, como se essa espontaneidade fluídica estivesse dizendo que ele não tinha nenhuma chance de vir a ser visto da maneira como desejaria por ela, que ela não iria voltar a se armar dos arsenais do antigo jogo entre macho e fêmea apenas por causa dele, armas que ela havia deliberadamente desprovido do uso por uma série de experiências elucidativas quanto à estultice dessas abjetas danças de acasalamento.

    Não foi uma boa conversa. Pinter não fazia parte de suas leituras, o que lamentou pelas opções que poderiam ter surgido para conduzir aquela atmosfera para alguma zona filosófica que lhe desse as diretrizes de como adentrar aquela muralha de prosaísmo. Talvez um memorial de duas leituras bem aplicado tivesse poupado a total impotência de como voltar a se aproximar dela nos próximos dias. Ela foi muito protocolar com ele, respondendo às perguntas com atenta educação. Ele viu que as unhas dos pés dela estavam com restos de antigo esmalte, e lhe impressionou que a cor fosse azul. Talvez fosse uma concordância não destituída de nonsense entre as partes mais equidistantes de seu corpo, os pés e os olhos, ou fosse mais um indício do pouco caso que ela fazia naquela época à etiqueta sexual. Os dedos dos pés logo acima das unhas eram tortos, sofridos, expressando uma rusticidade de árvore de deserto ao mesmo tempo que um utensílio técnico cujo sentido não estivesse imediatamente explícito. Pés pictóricos, vangogianos. Ela havia posto um vestido de algodão negro, com as alças enlarguecidas pelo uso, mostrando a parte de cima dos seios, que eram concisos, atléticos, de uma maneira atrativamente insípida, como se estivessem restritos a um adendo de somenos importância ao resto suntuoso de beleza do rosto e do corpo. Como alguém como ela estivesse sozinha em um camarote à meia noite, conversando com um estranho jornalista como ele, enquanto umas cinco pessoas, a maioria homens, que fechavam o teatro, não eram passíveis de serem destruídos pelos seus encantos, é que era um mistério? Sem nenhum pretendente ou noivo ou esposo ou namorado a esperando do lado de fora, pensou, com os olhos averiguativos da batalha contra eventuais usurpadores daquele tesouro.

   Encerrando a entrevista, ela se despediu e ambos saíram mudos, um pouco constrangidos, pela porta de trás do teatro, onde o zelador os esperava para trancar a fechadura. Ela não tinha carro e ele se ofereceu para pagar-lhe um táxi, sem antes perguntar onde ela morava. Ela acenou, os olhos pesquisando mais um objeto interior que tinha o destino de permanecer alheio ao mérito de interesse de Anselmo. Resultou que a casa dela ficava em um quitinete próximo ao centro, enquanto o apartamento em que Anselmo morava ficava seguindo por uma das vias principais quilômetros abaixo. Ela desceu do carro dizendo um tchau que era a própria metáfora das condições climáticas da noite, sem vento, sem frio, amorfa e atonal, uma despedida que não tinha a capacidade de se impregnar do menor grau de dramaticidade que nem distantemente os envolvessem na condição de futuros amantes.

      Anselmo voltou para casa olhando as ruas desertas, as luminárias de um gigantesco depósito de bebidas, a concessionária de carros alemã, catalogando aqueles pontos de fixação que lhe ocuparam a vida inteira sem significado algum e que agora transiam de uma aura metafísica que prometia ceder a alguma espécie de síntese se fossem pressionados.

   Não teve tempo de dar ouvidos à sua voz interna de que estava sendo ridículo. Comprou em uma livraria do centro, que foi na tarde do dia seguinte, dois livros contendo quatro peças de Pinter. Leu-as no mesmo dia, sentindo como se em vez de em celebração com a sinestesia de um autor de percepção superior ele estivesse prolongando em uma interminável realidade alternativa a conversa com ela. Arrancou sorrisos que seu conhecimento cênico sabia só serem possíveis depois que muito decantados por conversas direcionadamente tolas, sorrisos que soavam a voz incomumente barítono para uma mulher tão bela. E então ele voltou à casa dela, de madrugada, e se sentou na esquina, debaixo de um cajueiro mirim cujas frondes tombadas sobre um muro baixo o obscurecia, sentindo-se um Cyrano de Bergerac. Não tinha o sonho disparatado de que ela fosse aparecer, apenas queria nutrir aquela redução de maturidade advinda do súbito sentimento por um mulher. Talvez tivesse ficado muito tempo na seara do intelecto e o que se passava consigo fosse um mecanismo de compensação psíquico que exigia controle, e ele estava receoso por desconhecer o quanto ele mantinha de áreas confiáveis de si que permitiria refrear na hora certa.

    Ele voltou para casa a pé. Demorou para que encontrasse os sem tetos, deitados dois quarteirões à frente da concessionária, sob a marquise de um grande shopping de produtos importados. Subiu para seu apartamento, disposto a esquecer. No elevador, olhou-se no espelho, desprezando a câmera pela qual o sonolento porteiro com cara de capanga menor da cosa nostra, com sua afilada mandíbula não confiável, deveria estar lhe olhando, com um deboche satisfeito pelos atributos distintos da baixa classe comunal que aquela moradia barata exsudava. Entrou no apartamento, que ainda estava no espectro etário do desmazelo do final de sua vida de solteirice, antes que o aprendizado sobre os benefícios da economia da organização sistemática lhe fosse herdado de seu casamento, e se deitou no colchão fino estendido por sobre o piso da sala. Coçou a barba, pensando se não era ela, a barba, que tinha posto tudo a perder, não tendo mais a suficiente ancoragem em seu distanciado auto escrutínio para ficar imune a esse tipo de conjecturas imaturas. Que se danassem Pinter e suas mulheres impiedosas, partícipes agraciadas da escumalha masculina. Era um poço de atração irresistível, ele pensava, que mexia com todos os entulhos traumáticos e tribais que ele levava dentro do seu torturado coração juvenil. Que ele exortasse de si todo coração juvenil, toda juventude, toda necessidade de destruição por uma nêmeses. Tudo o que importava para ele era aquele apartamento suburbano, aquela comunhão de pessoas pobres que andavam com seus ressaibos de orgulho cívico pelos cantos, olhando-se de esguelha com sorrisos intimamente pedindo misericórdia. Ele era um daqueles leões castrados, ornamentos do circo falido e mambembe da sociedade a qual tinha sido uma piedade imensa ter-lhes aceito se integrarem nela com esse disfarce. Ele queria a invisibilidade e havia trabalhado herculeamente por ela a vida toda, e não seria uma recaída ignóbil a um fetiche mal digerido, aparecido do nada, com a fulgurância do lixo dessensibilizante que a sexualidade extrema da mentalidade midiática impunha, que o faria perder tudo aquilo.

      Com isso em mente, Anselmo passou a esquecer de Helena, com a mesma isenção de drama que acondicionara todo o imobiliário de seu mundo particular. E teria ficado assim, tudo tendo sido evitado, se ele, dois meses depois, por pura afasia, pura falta do que fazer, não tivesse voltado ao teatro da praça, onde uma outra peça de Pinter estava sendo encenada, sentando-se dessa vez na última poltrona, e quando as luzes se apagaram e foi embora o público ralo composto em sua maioria por universitários sem outra coisa melhor para fazer do que usarem suas meia-entrada, ele foi sem pedir a ninguém ao camarim e bateu à porta. Percebeu sons de pessoas detrás das outras portas, falando com uma euforia de fim de expediente. Não havia dessa vez nem o zelador, o que lhe pareceu de uma estranha solidão pictórica que ela estivesse sob a convergência daquelas obrigações regulamentares, ao vê-la sentada na cadeira em frente ao espelho, ao lhe dizer de lá de dentro um “pode entrar”, como se aquela mesma solidão fosse a garantia compensatória de que num limbo como aquele seria impraticável que quem estivesse a lhe bater à porta fosse um perigo de qualquer natureza. E Anselmo foi até ela, procurou algum outro assento que pudesse usar para dirimir o súbito aspecto desagradável surgido de um homem inesperado como ele se interpondo com sua estatura ao lado de uma figura feminina quase servilmente sentada, mas não achou. Haviam cadeiras dispostas ao longo da parede com outros espelhos, mas todas estavam ocupadas com peças de roupas coloridas, cachecóis, bonés de imigrantes sicilianos, echarpes, uma peruca loira bastante artificial que ele não lembrava ter sido utilizada no palco, e mesmo um gato, que transparecia sobre a insistência espantada de um segundo olhar os olhos espectrais que pareciam mantidos em Anselmo até que Anselmo o notasse, como se fosse essa a única culminância aceitável da brincadeira, podendo ele então retornar à observância secreta de outras realidades inapreensíveis.

   Helena se endireitou na cadeira, sentando-se com os dois lados dos glúteos, e antes que se virasse de todo para vê-lo com a opulência daqueles olhos azuis que talvez fosse pela competição injusta que o gato se mostrasse tão borocoxô, ela esfregou com força enfática um lenço umedecido no rosto. Ela parou um instante, o observando.

    _ Olá, eu conheço você! _ ela disse.

 Aquele jeito de populacho, aquele espírito de ralé pinteriano, sempre deixava Anselmo desconcertado. Exprimia um poder espontâneo com tanto direito que seria inútil lhe causar inveja. Ele se sentia descompensado diante aquele modo de falar, que na verdade era mais do que isso, um posicionamento filosófico. Por mais que se violentasse para retirar uma fístula daquele traquejo indolente, ele se sentia uma criança diante aquele desleixo satisfeito pelo que a vida tinha de mais perverso e incontrolável. Fascinava-o e o incomodava ao mesmo tempo, fazendo nascer nele uma espécie de melindre reacionário. Por que ela não se comportava como uma mulher decente? ele pensava, com truculência defensiva.

   Ele respondeu o que tinha na língua, e não na mente esvaziada de artifícios diante a artimanha distribuída hipotenusicamente entre ela e o gato. Disse que havia vindo para vê-la e perguntar se ele poderia mais uma vez acompanhá-la até em casa. Talvez evitassem alguma eventualidade indesejada do destino, ele juntou sem o menor sentido, pensando, nem ele mesmo sabia, que uma insinuação dos velhos modelos clássicos de proteção feminil pelo macho lhe diminuísse o temor que sentia diante a independência dela. Ela lhe olhou séria, pensando de modo calculado sobre a oferta, o flerte, ou o simples pedido de companhia em um universo que para um homem com o aspecto desamparado dele devia parecer inamistoso e solitário, e colocou o papel umedecido por sobre o balcão em frente ao espelho. Estudava as inconveniências dessa proposta, sem nenhum traço de medo, apenas pelo prisma de causas e efeitos. Anselmo por um momento pensou se não poderia violar aquela irritante segurança dela, aquela empáfia de intangibilidade, segurando-a pelos braços, erguendo-a da cadeira e atirando-lhe em cima de uma das pilhas de tecidos disformes do chão. Talvez ela fosse uma dessas mulheres, que eram de certa raridade afinal de contas, essas que são soberbas até um ponto em que o homem adequado restituam-lhes à ordem natural administrando-lhes uma dose bem dada de truculência. Seria algo do tipo que os fins justificam os meios, e toda a brutalidade resultaria à força de alguns minutos em quebrar o gelo em um nível conquistado de entendimento. Se ele partisse para cima dela e deferisse-lhe um soco no rosto, não seria uma economia gigantesca de energia para chegaram logo à ternura?

      Nisso ele ouviu um rumorejar de alerta, uma interjeição feita com uma desenvoltura profissional na garganta, vindo do canto esquerdo de onde ele estava. Com espanto, Anselmo viu sentado por detrás de uma mini parede levantada ali sem propósito algum a não ser algum obscuro atendimento a treinos cênicos particulares antes que os atores entrassem no palco, um homem careca, rotundo, de porte mediano que em vez de diminuir acentuava sua musculatura, bem munido de braços que de tão hipertrofiados deixavam as mangas da camisa a ponto de explodirem. Ele olhava Anselmo com uma malícia, fixando-lhe diretamente a alma, como dizem, o que fez Anselmo ter ciência de que lera-lhe aquele pensamento bárbaro, e por isso o brilho assassino de cão de guarda nos cantos das pupilas, como se falasse através dele “tente”, “ouse tentar dar um murro na cara dela”. A cabeça dele era incomumente cheia de arestas, como se algum arquiteto não muito certo tivesse-lhe esculpida firmando arcobotantes como base de alguma peça maior, incongruente e incompreensível, que nunca fora concluída. Anselmo pensou em Aleister Crowley, uma figura que despertava-lhe medo em algum momento da infância.

  _ Esse é Ernesto, meu segurança_ ela disse, notando o desconforto.

  Ernesto não moveu um braço, nem mesmo quando Anselmo fez um gesto de cumprimento. Em resposta seu olhar ficou ainda mais malicioso, como se a solução lógica fosse denunciar as intenções de sua imaginação impraticável. Ela se levantou, pegou o casaco que estava pendurado em um suporta na parede, e disse “vamos”. Movimentava-se como um lince. Sua cintura era incomumente fina, a ponto de se não fosse a iconografia libidinosa da fera poderia parecer um defeito.

   Lá fora, andando ainda sem programação certa, ela lhe disse que Ernesto era gay. “Mas duvido que você faça seu tipo”, ajuntou, sorrindo alto e escorando a cabeça em seu ombro, em um gesto cuja fugacidade acentuava seu coloquialismo. Talvez ela estivesse mais predisposta a fazer os ritos sociais com aquele sujeito tão travado. Mais tarde ele saberia que ela o vira como um estudo clínico, como parte de uma atitude altruísta em evitar suicídios, ou colorir com tons menos lúgubres um filtro de depressão. Os dentes dela eram muito amarelados e ligeiramente tortos, não tão ligeiramente a ponto de ser a única coisa que lhe tirasse aquela soltura toda. Era seu calcanhar de Aquiles. Ela havia tido um acidente no laboratório de química do curso de enfermagem com sulfato ferroso, ou pelo menos foi isso o que ela lhe dissera. Ela era formada em enfermagem mas nunca exercera.

   _ Ele também é tele cinético_ Anselmo disse, enquanto cortavam pela praça do General, onde o Mendigo do Inverno estava sentado no mesmo local inadmoestável de sempre.

   Anselmo o via sempre que passava pela praça. Um templário de casaco bem fechado no pescoço e punhos, com uma barba samarcanda à altura do pomo-de-adão. Tinha olhos de quem reza segurando uma cimitarra por debaixo do pano grosso que o protegia da chuva e do sol. Naquela cidade em que se fazia campanhas com pequenos cartazes afixados ao lado dos semáforos, onde se lia “não deem esmolas aos mendigos”, a secreta proteção divina que atendia à sua fidelidade o mantinha invisível.  Talvez só Anselmo o visse, uma espécie de djin que se materializava toda vez que ele cruzava por ali. Helena, porém, deveria ser partícipe da mensagem que um dia ele estava destinado a revelar, pois ela também o viu. Olhou-o com genuíno interesse, como se tivesse uma sinestesia reversa de identificação. Talvez fosse um Aleph, ou um portal para um ponto futuro. Talvez, depois de tudo, depois que o drama iniciado ali fosse concluído com todos os purgativos morais da compreensão, Anselmo fosse descobrir que era um espelho temporal, que não estava vendo nada mais do que a si mesmo.

   _ Ele parece ter uma áurea espiritual_ ela disse, o homem não a ouvindo dentro da bolha de concentração em que estava. _ Parece entender alguma coisa que está alheia a nosso nível de frequência.

   Mas Anselmo disse que falava de Ernesto.

 _ Ele leu meus pensamentos e viu um momento em que minha imaginação traçou um rumo muito ruim para essa noite.

 _ Humm_ ela soltou-lhe o braço, que vinha segurando para poder andar por sobre as pedras desencaixadas sob a sombra da praça.

  Foi o momento em que ela se mostrou mais objetiva. Seria fácil descartá-lo se aquilo se mostrasse de alguma maneira inconveniente. Umas duas palavras em sua linguagem interseccionada com o submundo e a ausência efetiva de ponderação e aquilo tudo seria subtraído de seu horizonte de eventos. Seria uma brincadeira de mau gosto salientar um humor impossível por detrás de um ato de violência.

 _ Ernesto é leão de chácara. Trabalha em estâncias e boates da alta sociedade. Não é por ser gay que ele não teria lhe dado uma chave de braço que te enviaria para o hospital. Ser gay na verdade aumenta o potencial deletério dele.

   Ele esperou se era uma frase de efeito que teria uma explicação, mas ela se calou, olhando o chão com os olhos bem abertos. Calçava uma sandália de salto alto que em qualquer outra confluência de razões seria um erro terrível à sua incolumidade física. Para ela não interessava o mínimo, mas para alguma vertente incognoscível de presciência cósmica, aqueles sapatos eram como o jarrete de uma força divinatória, que transformava aqueles bloquetes desconjuntados e lombadas de raízes das grandes ceibas em uma barreira sobre a qual ela flutuava em um infalível equilíbrio. Um passo em falso foi possível em todo essa estrutura sincronizada, mas que resultou apenas em um salto que as longas pernas dela se firmaram em um espaço de terra antes da calçada. Como se precisasse de um instante para computar aquele erro solucionado no improviso de sua memória corporal, ela parou e se virou para ele, de olhos baixos. Seria a despedida, era o que estava escrito em sua silhueta de gazela salomônica, que voltava a negar qualquer tipo de direito a Anselmo.

  _É claro que eu não sou esse tipo de homem. Jamais machuquei nenhuma mulher na minha vida_ ele disse.

   Ela sorriu diante o tom juvenil dele e por um breve instante deixou ver que toda sua zanga era uma trapaça.

 _ Nem em situações em que um certo machucar fosse bem-vindo? _ ela perguntou, recolhendo o sorriso para que o arrulhar que este fazia no espaço fechado da boca estivesse à altura do erotismo da expressão.

   Se esperava algum constrangimento por parte dele como seguimento à sua timidez juvenil, a sinceridade com que ele respondeu a desarmou.

 _ Não. Nem isso. Para todos os fins eu sou um macho alfa fracassado.

 Ela então, para tentar restituir algo de sua superior indiferença, resolveu arriscar.

 _ E se aparecesse alguém agora, nessa hora da noite, um homem que transpirasse masculinidade de forma irresistível, um trânsfuga, um bandido, e se mostrasse uma ameaça que iria me subtrair de sua companhia. Se aquele homem vestido como um templário ali viesse atrás de nós com uma faca e me violentasse. O que você faria?

  Anselmo olhou o céu, povoado de estrelas, e suspirou em silêncio. Pela primeira vez ela abaixou os ombros e se tornou natural, de uma forma que pôde ver como ela deveria ser na verdade. A naturalidade de mulher desleixada, sexualmente liberada, de ideias de gênero radicais, era uma última carapaça que ela usava. Ele pensou quantas máscaras ela havia posto em prática e desistido, em sua atuação política na existência, para chegar até aquela, inamistosamente solitária e polida. Naquele momento os dois nutriram, em um intervalo que não deve ter durado um minuto, uma intensa admiração mútua, como dois jogadores de xadrez que reconhecem de súbito, após uma série de disputas imperturbavelmente consensuais, os atributos verdadeiros debaixo das técnicas aprimoradas e dos embustes posturais.

  _ Bom, eu iria me esfolar todo e sairia com muitos ossos quebrados, dependendo de se você quisesse ou não ser levada por esse bandoleiro.

  Ela caminhava lentamente, somente agora ele percebeu isso, que estavam caminhando já não prestando atenção aos passos, e ela emitiu um sorriso que Anselmo computou como finalmente o primeiro sorriso dela para ele. As pontas dos lábios se estenderam, mostrando o traçado dos dentes dela, e os olhos ficaram cheios de uma alacridade simpática. Daí em diante, por alguns meses, oito ao todo para ser exato, eles então se conheceram e se entregaram um ao outro, e seis desses meses foram incomumente felizes, cheios da sensação levitacional do amor. Seis meses entre oito, para qualquer perspectiva matemática, era uma boa estatística.

  Mas naquela noite, naquela mônada de tempo resgatada do infinito, ela voltou a passar seu braço pelo braço dele e dois passos à frente todo o plano da praça não lhe exercia nem a mais distante necessidade de cuidado. Ela então deitou seu rosto no ombro dele. Já estavam enlevados pelo êxtase, de forma que a possibilidade ou não dos dois pontinhos escuros horizontais, levemente liquefeitos pelo reflexo da luminária central, estarem postados neles, era algo que só fazia parte das inflexões dramáticas da narrativa. Toda a vida parecia plena e confiante.

     

      



 

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Histórias de amor no novo milênio

 


Vi um vídeo no Fantástico falando sobre os apartamentos caixotes de Hong Kong. Pessoas moram dentro de caixas menores que caixões. São dezenas delas em cada apartamento, com uma micro cozinha e um micro banheiro coletivo. Ao todo, são milhares, quem sabe milhões, que moram assim na China. A visão desses prédios é aterrorizante, gigantescos, cobrindo com suas cores pardas ciclópicas toda a área urbana. Não há o mínimo espaço para algo que não seja feio, brutal, sem alma, opressivo, aviltante. Em dado momento o repórter é expulso pelo dono do local, ou o gerente, que o aborda com a truculência de um miliciano. O repórter então sai para a rua e entrevista os que se dispõe. Uma senhora diz que lembra com dor a época em que era criança e morava em uma casa ampla, o que só existe agora na sua memória. Um homem diz que não tem mais onde morar, pois os aluguéis são altíssimos, e a grande maioria dos chineses ganha um salário de miséria, o menor do mundo. Os moradores encaixotados são serventes de açougues, funcionários da construção civil, chapas de feira, etc. Uma mulher, contudo, diz que é o paraíso, e é filmada no claustrofóbico espaço deitada. Antes, ela apanhava do marido e foi expulsa de casa, porque o marido não mais a queria, só sobrando morar ali. Pessoas tratadas como lixo, como números, numa sociedade desapiedada e sem traços de humanidade. Eu estou chegando na página 100 de História de amor no novo milênio, escrito por Can Xue, o que não é o verdadeiro nome da autora. Ela saiu de um cenário assim, do nível mais baixo da pirâmide trabalhista escravocrata chinesa, cursou até o ensino fundamental e é uma autodidata. Nietzsche falava sobre o regime chinês em Além do bem e do mal (ou será em Humano demasiadamente humano?), como uma figura retórica do inferno. Hoje, sociedades assim são elogiadas pelos progressistas e pelos capitalistas, o grande país que está tirando o Satã Americano da liderança global. Eu ainda não entendi onde a Xue quer chegar. É um romance que bebe generosamente de Kafka, com seus personagens regidos por morais heterodoxas e situações oníricas. O que me cativou de imediato é a liberdade irrestrita com a qual é escrito. A alegria extasiada da palavra. A forma como a autora mostra que aquele é o terreno só dela, amplo, ilimitado, cheio de espaço. Uma das personagens do romance diz que se tornou prostituta como escape para se livrar da vida terrível que levava na fábrica. A literatura nunca foi tão representativa da mentalidade de cada nação, com seus desejos, lamentos, temores, sonhos e vislumbres de redenção como agora.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Sátántangó

 


Não vi o filme Sátántangó, mas dizem que tem uma polêmica cena envolvendo a tortura e morte de um gato. Isso me fez afastar desse filme, ainda que o diretor tenha tentado se defender dizendo que o gato foi anestesiado, o que me parece ter piorado a situação. Mas no livro, obviamente, tem a mesma cena perturbadora. É perturbadora tanto pelo sofrimento de um animal quanto pelas questões filosóficas que ela suscita. Quem pratica esse ato abominável é Estike, uma menina com problemas mentais, a mais nova das irmãs, tornadas prostitutas, e do irmão (que é um pervertido idólatra). Estike é insustentavelmente pura, e isso que é o mais grave. Ela tem a pureza absurda de uma serial killer, ou a pureza absurda de um anjo? No livro, que é todo simbólico sobre a formação das religiões e das instituições de poder humanas, Estike pode ser vista como Cristo. Há uma cena em que ela se manifesta em uma áurea messiânica, depois de sua morte. O leitor é levado a se confrontar com a ideia de que a divindade, inserida na carne, envolve um processo tão amoral de subjeção e violência quanto a tortura feita por Estike. O experimento crístico que culminou na crucificação não seria ainda mais brutal? Um Deus encarnado no primitivo padrão terreno não envolveria um descompasso entre sua pureza e potência com os limites da realidade, que seria entendido pela nossa mente canhestra como algo brutal? Krasznahorkai nos faz ver a bestialização que se esconde nas religiões, e como a própria moral religiosa nos treinou para sermos hipócritas travestidos de piedade no alto da higiene de séculos de sacrifícios de animais a Jeová ou ao deus da hora. Toda religião, assim como todo aparato civilizacional, se fundamenta na barbárie e na violência, o que os aspectos metafísicos da transubstancialização evidenciam. Mas Krasznahorkai não é um niilista, é, pelo contrário, um autor religioso, metafísico. É um ateu que crê no sagrado, ainda que se resigne a perceber o sagrado pelas insinuações do sublime. Quando Estike se manifesta em espírito, os três homens que a vêem (Irimiás, Petrina e o "menino"), apavorados, rejeitam o milagre. Um diz que é a fome e a penúria que os fazem ter alucinações, "como nas trincheiras da guerra". E assim, conformados, o próximo ato desses três missionários é negociar com Páyer, o vendedor de armas. Irimiás é tanto são Paulo apóstolo como os herdeiros de Maomé, é um dos sacerdotes de Quetzalcoatl e O Grande Inquisidor. Irimiás, Petrina e o "menino" são os institucionalizadores da fé, os primeiros padres e papas e pastores. Petrina, diante da fulgurante luz de Estike, a menina Deus que testou sua plenipotência elegendo um gato para o primeiro arrebatamento, pergunta a Irimiás se ele acredita no inferno. "Deixe de bobeira", responde Irimiás. Nesse romance soberbo, Krasznahorkai nos leva onde ninguém nunca foi, no Cristo como primeira revelação satânica (lembrando Zizek), no Deus que ao se manifestar na terra incorre no paradoxo destruidor de ser impossível que um Deus se manifeste na terra. Que diferença tem a brutalidade de um gato torturado com o cadáver de um menino exposto na igreja católica, ou das tantas barbaridades escatológicas professadas por cada religião? Krasznahorkai reforça que a verdadeira religião existe, mas a religião da independência, da interioridade, da supressão, do absurdo. A primeira cena do livro mostra os apóstolos Irimiás e Petrina saindo de um cartório, um local sem elevação, sem valor, sem mistério. Os líderes dos homens, diz Krasznahorkai, são todos uns panacas trapaceiros e assassinos sem alma.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Senhorinhas

 




A Júlia adora senhorinhas. Quando ela vê uma senhorinha andando pela rua, com seu jeitinho fofo, ela me diz: "olha só que linda, papai, aquela senhorinha!". E eu invariavelmente respondo: "realmente é um encanto. Quem vê nem imagina que ela já foi de uma quadrilha violenta de assaltantes de banco". A Júlia de primeiro se admirava: "mesmo, papai!", e quando via que era brincadeira minha ela ria e dizia: "deixe de bobeira, papai". Se ela via uma senhorinha e cantava a meiguice de seu passo desbravador pela rua, eu dizia: "linda! Mas ela acaba de colocar chumbinho nos portões de cada vizinho que tem cachorros do bairro". Ou eu digo: "que coisa delicada! Ninguém imagina que ela esganou a irmã gêmea e escondeu o corpo num baú". A Júlia se delicia com essas barbaridades e sempre ri me dando bronca. Uma vez, de frente à livraria da cidade, quando saíamos com alguns livros, uma dessas senhorinhas, sentada numa cadeira de fio na calçada de sua casa, pega o Eric pelo braço e começa a mexer no cabelo dele. "Que menino bonito, vem cá na vovó". E o Eric, envergonhado, para e responde sobre seu nome, sua idade, essas coisas. Entramos no carro e todo mundo encantado com a fofurice daquela senhorinha, e eu digo, taciturno: "Ela mandou matar o marido há vinte anos, que agonizou no mesmo lugar em que ela está sentada. Ela foi presa por uma semana, subornou o delegado e os policiais e foi inocentada. Tinha as fitas telefônicas com as gravações da conversa dela com o pistoleiro, que foram todas apagadas". A Júlia, a Dani, e mesmo o Eric se admiram de eu ter dessa vez me aprimorado com tantos detalhes, e a Júlia retruca: "nossa papai, deixa de ser bobo". E eu insisto: "dessa vez é verdade, ela é a dona Adélia, tem dois filhos que desde então não conversam mais com ela". Precisei de dias de insistência pra convencer os três.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

O anticristo

 


Entro no facebook hoje. Vídeos que eu não quero ver são jogados na minha cara. Não quero ver um avião planando. Não quero ver um cara pendurado numa montanha. Não quero ver um vídeo caseiro de uma mulher de bermudas pegando um vaso na estante. Etc, etc, etc. Tudo de páginas que eu não sigo. E vem mais uma enxurrada de propaganda, as mais estúpidas possíveis. Não suporto e largo o celular. Creio que a depressão crônica que me toma todos os dias vem disso, dessa plenipotência da imbecilidade e do péssimo gosto. Me passa pela cabeça a impressão de que é assim que os poderosos sempre nos viram, os czares, césares, ditadores, colonizadores, presidentes, e as redes sociais agora nos mostra o segredo. A grande maioria da humanidade consiste de futilidade e ausência de espírito. Me lembro de Gurdjieff dizendo que só uma minúscula porcentagem de nós conseguiria a conquista da imortalidade. E Simone Weil dizendo que só poucos conseguem saber que existem, que vivem. Tudo o mais vai se apagar pela própria inanição do espírito, pela própria rarefação da consciência. Eu ainda fico aterrorizado de ver como nos deixamos chegar a isso. Minha avó me contava, quando eu era muito criança, sobre o anticristo. Que o anticristo iria marcar cada um dos habitantes da terra, e todos esses marcados iriam sucumbir e perecer. E eu, com oito anos e já muito cético, ria da ingenuidade pentecostal dessa senhora tão devota, pensando que quem seria burro pra se deixar marcar pelo anticristo. E hoje eu penso, quem me dera se houvessem elevadas entidades cósmicas, como um demônio, como um anticristo, para validar uma possível importância de nossas almas. Seres espirituais não tem interesse por nós. A realidade, se eu pudesse voltar no tempo e contar para minha avó, seria tão imbecil que ela jamais acreditaria. "Vó", eu lhe contaria, "o esplendor de Lúcifer não aconteceu, a senhora está errada. Quem nos dera! Aconteceu algo muito, muito, muito pior. Toda a humanidade, que está explodindo, oito bilhões, aceitou voluntariamente viver na mente de um adolescente. Toda a humanidade desistiu de planos maiores e se resignou pelo mais pobre, o mais abjeto, o mais feio, o mais perverso, e fica 24 horas só trabalhando feito um verme, feito uma mula, e vendo vídeos estúpidos. Sorrindo com carinhas estúpidas para mascarar a enorme tristeza. Não houve a glória do Mal, vó. Não houve a dignidade excruciante do inferno de Jó. Não houve fogo nem nenhum de nós teve a honra de ser transformado em uma estátua da sal. Houve só a abissal e brega burrice. Só as cores da miopia e os sons das dancinhas." Eliot disse que o fim viria não com um estrondo, mas com um lamento. E mesmo ele estava errado. O fim está vindo com um meme de um peido, e todos nós símios rindo do alto das árvores jogando bosta e se masturbando um nos outros. Até que tudo seja passado no rodo e não sobre nem uma fagulha de luz para testemunhar que seres como nós um dia existimos.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq

 



A leitura desse fenômeno de vendas, chamado Michel Houellebecq, suscita muitas cogitações sobre o que vem a ser carisma na literatura contemporânea. Houellebecq é retorcido com certa insistência, pelos seus leitores bem intencionados, para caber no molde de um Jonathan Swift e de um Albert Camus, e mesmo em suas primeiras obras ele tendo demonstrado não ter nenhum propósito de se equivaler a esses modelos, já em seus romances mais recentes vem reagindo passivamente a essa necessidade de entendimento, talvez de forma inconsciente. Em seu romance Plataforma, quando a temática das novas investiduras da dominação global através do turismo sexual dos antigos dominadores nas ex-colônias se junta à repercussão de um polêmica criada e exagerada pelos jornais, o carisma com muitas lacunas do autor sofre uma espécie de eufemização na tentativa de ver sarcasmo sofisticado no que aparentemente é apenas um niilismo grosseiro e uma astuta adequação ao que o público ávido por comprar livros requer. Tudo não passa de uma estratégia mercantil: o mercado encontra um escritor que polemiza dentro do gosto do freguês, e a mídia se apressa a potencializar o escândalo de uma elegante má reputação também ela com olhos raposinos nos lucros. É o par com sintonia perfeita para alimentar a fama e a glória para ambos os lados_ quantos jornalistas e formadores de opinião não passaram a se beneficiar largamente com documentários, reportagens e livros sobre Houellebecq?_: Houellebecq escreve Plataforma, um romance que só com muita credulidade poderia matizar delicadezas pontuais da política moderna como o turismo sexual e o islamismo, e a mídia ecoa com uma sensibilidade simuladamente ultrajada que realmente o autor brutaliza tanto o turismo sexual quanto o islamismo. Talvez o que satisfaz em primeiro plano o leitor nem seja a controversia, mas os mobiliários de cena os quais Houellebecq é pródigo em oferecer_ como paisagens, o tédio dos aeroportos e os apartamentos aquecidos de Paris_, mas a premissa sustentada pela propaganda feita para que as sublimidades de sua escrita passe a dar a impressão ao leitor de que ele está ganhando algo mais profundo do que um simples hedonismo de viagem: há ali uma sarcasmo político, um humanismo às avessas, uma fina experiência filosófica. Quando Houellebecq escreve todo um romance sobre turismo sexual, que qualquer um levemente bem informado sabe ser uma característica de todos os países, algo notório e incapaz de provocar surpresas, o imaginário criado como áurea à sua mensagem secreta é que quando ele aparenta defender a exploração de meninas em países subdesenvolvidos ele está, na verdade, emulando Swift quando este satiriza que a solução para conter a desigualdade social da Irlanda é comer os filhos dos irlandeses pobres. E no seguimento dessa colaboração entre escritor e mídia publicitária, Houellebecq encerra Plataforma com um massacre provocado por islamitas, o que dá à obra uma segunda vertente de incorreção. Se o leitor tiver ânimo para uma segunda leitura de Plataforma, verá que sua primeira impressão é a certa, de que tal romance tem 400 páginas dedicadas a descrições sexuais de uma insensibilização fisiológica (com uma repetição da frase, que é uma assinatura do autor em todos os seus livros: "ejaculei violentamente"), e uma longa e morosa catalogação sobre a burocracia de como funciona uma agencia de turismo internacional. Não que Houellebecq seja mal escritor, mas a questão é que ele parece ter perdido a mão, parece que seu excepcional talento demonstrado nesta que é sua única grande obra, Partículas elementares, se limita agora apenas a um bom cenógrafo. 

Uma recente pesquisa apontou que as crianças mais bem educadas do mundo são as francesas. Elas não fazem bagunça em aviões, elas não gritam, elas não pulam, elas não atravessam os assuntos dos adultos, elas não dão birra: uma criança francesa, pelo que enalteceu as revistas que ensinam as etiquetas do bom comportamento para famílias abastadas, para todos os efeitos do bem público, simplesmente não existe. Elas estão lá como composição do ambiente, mas são esvaziadas desde muito pequenas de qualquer potencial de perturbação. O segredo para se obter uma criança destas, reproduz por nossa terras virtuais o site da revista Veja, é porque os franceses não as tratam como crianças, os franceses deixam bem claro que as vidas dos pais estão desvinculadas das vidas de seus filhos, no tocante a tudo que esteja externo à manutenção financeira de seus estudos, alimentação e saúde. O carinho é algo protocolar, biológico, como deve ser entre bons conviventes de idades diametralmente opostas e que só por um acaso envolve detalhes escatológicos triviais como a gravidez e amamentação. Eu sempre achei que a excepcional assepsia da educação parental dos franceses determinou toda a literatura francesa. Determinou que seja algo impossível para a literatura francesa gerar um escritor como Kafka, por exemplo; e determinou que a atmosfera de abandono cósmico pretendido por Beckett para seus romances tenha levado Beckett a optar escrevê-los em francês. Nenhum escritor francês jamais teria a capacidade idiossincrática de centrar a figura do pai em sua obra, como fez Kafka, nem nas complexas identificações deístas do pai como em O processo e O castelo, nem mesmo no mais pungente debate com a tirania caseira do pai em Carta ao pai. Para um escritor francês, a figura do pai é meramente um assombro muito bem estancado em eras passadas a ponto de se tornar um reminiscente sem nenhum apelo filosófico em seus genes; o pai na literatura francesa tem um peso bovino, de animal associado a ilesas características reprodutoras, de uma figura que aparece nas fotos com uma seca intranscendência que é visto pelo seu filho com a falta de qualquer necessidade de esgotamento racional; o pai poupou o filho de especulações esotéricas, de nostalgias emocionalmente pouco econômicas e desgastantes; o pai oferece ao filho o dever de devolver no final da vida do pai a mesma polidez de ausência de toques desnecessários que este outorgou ao filho, na infância. Mesmo Camus, o menos francês dos escritores em francês, fracassou diante o abismo de tentar escrever uma elegia mais ocidental a seu pai, em O primeiro homem, quando todas as suas pretendidas observações sobre o túmulo do pai se transformam no mesmo ruído proximal e sem fôlego, expirado com pressa. E por isso o mais próximo do afeto paternal que se encontra na expressão francesa seja o da eutanásia do pai: seja no filme As invasões bárbaras, ou no romance de Houellebecq, O mapa e o território. Mas algo tão reativo para a arte como a figura do pai não é extirpado sem sérias consequências estéticas e significantes: a literatura francesa moderna é incapaz de se beneficiar da riqueza do tema da paternidade (temos aqui a mais gritante das exceções à regra na figura de Proust, principalmente na tocante e belíssima relação de paternidade entre o sr. Vinteuil e sua filha, que se acentua e perde todos os atenuantes regidos na educação da filha somente após a morte do pai, e na relação peculiar e terna do narrador com sua mãe).

Isso é amplamente visto nos romances de Houellebecq. Para nós, leitores sul-americanos, a assepsia da importância do pai é ainda mais implacável, nós que sempre fomos muito mau criados em nossos mimos de compensações supersticiosas e nossas balanças de afeto católicas, o que para o leitor francês de Houellebcq não passa de pedantismo circunstancial. Essa ausência de esoterismo afeta muito a qualidade da mais ambiciosa obra de Houellebecq, O mapa e o território. Esse romance é a prova de força do que sobra do carisma do autor quando ele tenta dar-se autonomia de escritor relevante negando-se a manter um contrato tão evidente de recíprocas garantias com a mídia polemista. Neste romance Houllebecq abre mão do sexo (há poucas cenas, e a usual frase "ejaculou violentamente"), não o colocando como um dos pés da obra; e aqui ele não recorre ao escândalo ou à maledicência. Sua tentativa de autonomia é respeitável, mas o que ele pretende ser a aproximação ao patamar sério de um Camus, acaba mostrando vários defeitos na obra. O defeito recorrente é o unidimensionalismo dos personagens: o herói da trama é bonzinho demais, racional demais, se permitindo um arroubo de violência moderada no final para ganhar legitimidade. As mulheres ainda são as sacerdotisas agradecidas dos desejos dos machos, que muito tem colaborado para as feministas verem no autor a encarnação do demônio, mas com menos disposição ao sacerdócio do que aparecem nos outros romances: elas arvoram uma inédita independência, sendo que a namorada do herói o deixa pela carreira profissional_ aqui, pela primeira vez, Houllebecq permite que uma de suas mulheres tenha humor, na figura da promotora de exposições do herói. O segundo e mais grave erro foi a técnica mal sucedida do próprio autor se pôr como um personagem no livo: na verdade é o que o livro tem de melhor, um Houellebecq pouco higiênico e com abstrusões de humor, mas o sentido da coisa fica incompreensível e a brutalidade da resolução dada ao artifício dá a impressão de uma mera comicidade gratuita.

A parte genuína da obra, a que parece capaz de alçar Houellebecq para um novo patamar, é a relação entre o pintor e herói da narrativa, Jed Martin, com seu pai. Martin é um recente milionário das artes, e seu pai é um profissional do ramo da arquitetura que está prestes a enfrentar o vazio de uma aposentadoria sem os vícios urbanos do excesso benemérito de trabalho. A convivência entre os dois, como não haveria de deixar de ser, é fria, distanciada, monologal, mecânica. Todo o peso da excepcional educação pragmática é visto na vida de Martin: seu determinismo ao sucesso, seu apartamento de alto luxo sem mobília em que ele dorme em um colchonete suportando o ronco do aquecedor sempre estragado, seus meses em que fica trancado em casa pintando, sem falar com ninguém, ao ponto de um simples pedido em uma padaria ser um esforço de desatrofiamento das cordas vocais. Martin vive a angústia de sua mãe ter suicidado antes que sua memória infantil pudesse perpetuar uma imagem dela. Martin é muito francês em seu polimento e suas reservas, em seu humanismo embutido aquém da racionalização. É o mais humano dos personagens de Houllebecq, em uma bibliografia recheada de personagens que estão situados além do bem e do mal, o mais próximo a um desentronamento de seu casulo para ser aquecido por uma impressão de alteridade. Uma vez, sem motivo algum, ele desce de seu apartamento e vai até o escritório do pai, apenas para estar diante dele, sabendo que a mesma inexorável falta de assunto vai abater sobre eles. O pai o recebe esbaforido, em pleno meio de um dia hipertensivo, e o repreende por assustá-lo e pelo nonsense da visita. Tempos depois, o próprio pai o visita, e eles bebem junto, num clima de intimidade desconcertante de uma primeira vez, e com o laconismo de sempre o pai lhe diz que vai recorrer à eutanásia em uma clínica suíça, porque se nega suportar o tratamento de um câncer de reto. É a última vez que se veem. Martin, em um novo arroubo, parte para procurar a clínica suíça para saber sobre os últimos momentos do pai, e encontra um prédio branco límpido e com a pureza sem exaltação dos muito ricos e muito civilizados. Lá, ele é atendido por uma mulher insípida e crua, avessa sem a mínima paciência a atender à vontade de Martin de saber o que seu pai viu e falou em seus momentos finais. Ele a soca e a espanca violentamente, a deixando atirada em evidente coma no chão, e sai diligentemente até o aeroporto, contando ser preso a qualquer hora. Neste momento, se fosse um filme, a plateia do cinema com certeza teria se regozijado em gritos e batido palmas. Martin vê que uma clínica destinada a multi-milionários jamais iria procurar os noticiários com uma denúncia de espancamento, e ele chega de volta a Paris. Quando ele estava procurando a clínica, um erro de interpretação idiomática faz com que o taxista o leve a um bordel de luxo. Houellebcq faz um novo esforço em adstringir o peso da vida com comparações do quanto seria melhor se o pai de Martin tivesse recorrido ao hedonismo do braço daquelas moças, no final da vida, em vez da solução da clínica. Inconscientemente ele acabou transformando todo o bem engendrado mobiliário de cena apto para reflexões mais profundas no mesmo clichê dessa vez sexualmente ponderado de seus outros livros. O único alcance obtido foi esse: a figura do pai fracassa em produzir algo substancial e vira uma decantada comédia. O que é revelado como mais diagnóstico desse fracasso é que o pai de Martin, na juventude, sonhou ser também um artista.

O vazio da paternidade é o tema de O mapa e o território. O personagem mais interessante, um chefe de polícia que é lamentavelmente aposentado da narrativa sem qualquer explicação próximo ao término do romance, é um pai fracassado por causa de sua oligoespermia, a quase nula produção de esperma. Isso que ele considera a maior dor da sua vida é contornada com o lenitivo da criação de um cachorrinho e de uma vida de atenções sanitárias recíprocas com a sua esposa. O próprio Houellebecq que aparece no livro é um órfão sedimentado, um órfão insofismável. O órfão padrão francês, com selo de qualidade. E tudo passa. A vida deles todos passa e é descrita até o fim a decomposição rumo à velhice e à morte de Martin. E o romance termina com a tristeza cada vez mais plástica e vazia de Houellebecq, que o conclui com o carisma típico de um escritor famoso que se sustenta pelo comedimento chique e pela competência de mobiliar bem a narrativa. Há uma tentativa de criticar a sociedade de consumo num novo coisismo em que Houllebecq faz de seu livro uma repetição da obra consumida, descrevendo manuais de funcionamento de carros e outros utensílios do desejo do homem moderno comum.

É impossível não se questionar por que Houellebecq é um dos escritores que mais se vendem no panorama atual das letras. Seus leitores são como ele? Ele fala o que pensa? Ele é uma forma ultra-moderna de sátiro? O que eu acho é que Houellebecq expressa muito mais sobre o que realmente é em seus livros, e o fato de ser brutalmente assassinado em O mapa e o território revela uma catarse auto-crítica que talvez aponta para uma nova exploração pessoal nas próximas obras. Ele se fez morrer talvez como forma de mea culpa. O que eu acho é que sua intranscendência é um espelho da mesma característica do homem consumidor de cultura do alto desse século XXI, bem localizado em sua falta de necessidade do autêntico e refestelado com o que a bijuteria fina da aparência do autêntico lhe dá de garantias de sofisticação e conteúdo. Uma leitura rarefeita e dentro de certos parâmetros válida, com a precisão de oferecer a matéria hercúlea de 400 páginas com a fluidez de leituras de revista. Uma leitura, no final das contas, inofensiva em toda sua comburência de coisa perigosa, fechada em seu círculo de validade ao ter como polo receptor um consumidor exatamente igual a ela.