Susan Sontag deve ter sido uma companhia maravilhosa. A felicidade que ela tinha pelas ideias e pela arte, sua total e absoluta dedicação ao pensamento, não deve ter passado batido para sua simpatia pessoal. Em tudo o que ela escreveu tem espírito. Em cada um de seus magistrais ensaios há êxtase, contemplação, engajamento, sinceridade, profundidade e leveza. Ela transformava os assuntos mais descansados e intranscedentes em uma revolução contra os conceitos instituídos. Foi graças a ela que coisas que antes eram tidas como lixo ou temas que não eram de bom tom mencioná-los, passou a serem vistos como alta cultura, como expressão artística relevante. Graças a Sontag vários escritores importantes, mas que estavam afundados em seus esquecimentos étnicos, foram trazidos para o centro da mídia cultural mundial. Ela destrinchou vários artistas obscuros; uma menção dela fazia com que esses criadores se tornassem notícia e alvos de uma irrestrita atenção. Mais ou menos o que Borges fez com vários autores esquecidos. A Companhia das Letras presenteia o leitor brasileiro neste final de ano com o segundo volume de seus deliciosos e imprescindíveis diários. Neles se vê, ainda mais que em seus ensaios, o quanto Sontag era uma energia comburente inesgotável. Feitos de fragmentos pequenos de textos e anotações soltas mas regradas, esses diários são uma fonte valiosa sobre as ideias, a fé imbatível na escrita e na literatura, e o rico cotidiano da autora com seus encontros com escritores e artistas de todos os nichos. É simplesmente uma delícia lê-los. Este segundo volume é mais generoso: tem 580 páginas, 250 mais que o primeiro. Sontag era inesgotável em ideias: aqui há enredos de romances, silogismos sobre todos os assuntos, listas de seus melhores livros, cronologias sobre seus projetos, segredos, conversas secretas. E em tudo, como eu disse, há espírito. É uma festa!
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Lendo Hermann Broch
Estou lendo "A morte de Virgílio", de Hermann Broch. Os escritores em alemão tem algo muito idiossincrático, que os tornam bastante distintos das outras literaturas. Eles acreditam profundamente que a literatura é algo sagrado, algo que possibilita que eles entrem em contato com Deus. Mesmo não acreditando em Deus, mesmo sendo avessos a toda ideia de espiritualidade, não há outros escritores que empreguem tanta espiritualidade na forma como escrevem como os da literatura em língua alemã. Eles não são estetas da palavra concisa como alguns russos, que também são escritores divinatórios; eles, pelo contrário, são palavrosos, cerebrais, olímpicos, pretensiosos ao extremo, brutalmente seguros da importância de seus papéis em manejarem algo tão poderoso e aristocrático quanto a escrita. Quando Grass ganhou o Nobel, me recordo de um crítico nacional dizendo que um escritor brasileiro jamais ganharia o prêmio porque este não se leva a sério. Os que escrevem em alemão não tem medo de ficarem loucos, de se tornarem mendigos (Musil assume quase essas duas realidades), de serem odiados, de serem perseguidos. A escrita é o templo deles, é o que lhes basta. E todos eles passam isso para o leitor, essa autarquia estética e ética, essa felicidade que é a maior de todas as felicidades, essa Missão. É assim que me deleito com esse romance de Broch, aceitando o convite. Enquanto o leio_ a mesma sensação de quando leio Mann, Musil e Grass_ sinto que nada mais importa, a não ser a sua leitura. É uma leitura tão inexoravelmente elevada que fico esses dias em um estado de imolação extraterrena, a mesma coisa que eu sentia quando me submergi em "O homem sem qualidades" ("Você está me chamando para me preocupar com isso? Sabe, por acaso, que eu estou lendo Musil?")
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Mais uma vez o prêmio Nobel
Aventa-se que tal prêmio homenageia a literatura beatnik, a contracultura libertária, certa apologia das drogas, certa vivacidade da língua jovial, o coloquialismo e a renovação meio bandida e anti-acadêmica da prosa poética,e, além do mais, é um cachimbo da paz com a literatura norte-americana. Então por que não deram o prêmio para o maior escritor norte-americano vivo, Thomas Pynchon, que representa isso tudo muito mais que Dylan? Pynchon tem uma legião de fãs apaixonados, assim como Dylan. Se a mulher tivesse dito "vai para Thomas Pynchon", seria uma convolução no mundo cultural, mais do que com Dylan. Estaria-se discutindo avidamente sobre literatura no mundo todo, em vez dessa bobeirinha efêmera que acontece e já está se apagando em torno do Dylan. Haveria uma super-exposição bastante positiva sobre modernidade artística e sobre o pós-modernismo nas letras _palavras pomposas e vazias no caso de Dylan, mas que se encaixam bem no caso de Pynchon. A academia sueca deu, na verdade, foi um tiro no pé se pretendia causar polêmica e chamar os holofotes para si. Se tivesse dado o prêmio para Roth seria uma reação morna, esperada, mas se desse a Pynchon seria um furacão de renovação na crítica literária e no mercado livreiro. Mas em vez disso, eles cometeram essa patacoada. O que reforça mais uma vez que literatura já não é mais o que importa para a academia.
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
Boêmios
Valter Hugo Mãe disse que trocaria seus 7 livros por um filho. Cada filho é um universo diferente. Minha filha Júlia quase nunca me diz "eu te amo", por isso quando o diz, sempre apaixonada, quase me leva às lágrimas. No dia dos pais, seus colegas da escola escreveram nos cartões de presente "Eu te amo, papai", ela me escreveu "Papai é meu puxa saco". O Eric recolhe uma pedra do vaso de plantas que temos na sala e a leva à boca; dou-lhe uma reprimenda: "Na boca não!"; ele engatinha a relativa distância entre nós dois, e me entrega a pedra; eu lhe digo: "Você pode brincar com a pedra, só não a coloque na boca", mas ele abana a mão negativamente querendo dizer: "Não, meu chapa, fique com essa sua pedra, parece tão importante para você", e vai se ocupar com outras coisas. Essa foto foi tirada pela Dani às 5 da manhã de hoje. O Eric acordou às 3 da madrugada e se recusava a dormir, e eu o trouxe à sala, embalei-o entre minhas pernas ao som dos Brandenburgo. Quando a Dani nos viu, ambos já estávamos afundado no mais profundo sono, e no aparelho de som rolava Live Evil do Black Sabbath. Minha admiração por Valter Hugo Mãe cresceu, tanto que na lista das compras dos livros do próximo mês dois títulos dele estão agendados. Sim, Mãe, filhos são muito bons! A impressão é que esse anarquismo completo na ordem do dia (e da noite), é uma das coisas que mais conta nessa felicidade. Vou restabelecendo o contato duramente cortado para que se possa ler e escrever nessas horas inesperadas, em que são por total e irrevogável direito deles.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Ler Wislawa Szymborska é rejuvenescer
Por serem tão poucos, cada poeta que me marcou tem seu momento temporal em que entrou em minha vida bem guardado na memória. Eliot foi-me apresentado no colégio, com as incipientes discussões filosóficas de minha classe de amigos. Os homens ocos era um hino elegante que nos alertava de uma distante maturidade contra a qual deveríamos nos manter em guarda_ e ter acesso às raríssimas edições de Quarta-feira de cinzas era ler agraciado um antigo evangelho pós-cristianismo. Uma tarde em que eu vagabundeava matando aula da universidade me deparei com O canto da estrada aberta, de Whitman. Estava em um volume velho de poetas universais em uma biblioteca na praça universitária, e não sei se foi por curiosidade em ler um poeta que meu preconceito identificava imediatamente como o representante falconesco da América imperial que me movera a lê-lo, achando eu que meu repúdio iria vir com fiel precisão. Sentei-me no chão entre as estantes e quase chorei diante aquilo. Era tão arrebatadoramente belo e verdadeiro, tão selvagem e celestial e ao mesmo tempo profundamente humano, que eu tinha que parar a leitura por alguns segundos para poder respirar. Foi a primeira vez, creio, que eu cogitei além de meros exercícios fantasiosos em abandonar tudo e seguir o que aquele cara ordenava. Livre e saudável, sigo pela estrada aberta. Era um livro que não se podia retirá-lo da seção especial em que ele ficava e levá-lo para o andar debaixo para a máquina de xerox, de modos que ia todo dia para copiá-lo à mão em meu caderno. Recito esse poema ainda hoje e o farei para sempre; sei-o de cor em português e em inglês. Uma noite de chuva peguei um ônibus vazio e fui até o shopping comprar uma coletânea do Seamus Heaney, um poeta telúrico bastante idiossincrático que surpreendentemente também se tornou fundamental para mim. Eugenio Montale eu conhecia desde a minha adolescência e o admirava, mas ele só foi entrar em minha vida de vez em uma etapa das mais difíceis em que o lia com a mesma fé com que alguns leem os Salmos. Thiago de Mello é o único que escreve em português que os caminhos erráticos e incompreensíveis da minha admiração aceita como imprescindível_ foi um grande amigo que me apresentou e meu amor por ele conta com reminiscências muito pessoais. Resta mais 4 poetas fundamentais. Maiakóvski é um dilema: odeio e amo na mesma medida, e não vivo sem ele. Salvatore Quasimodo tem sempre uma palavra amarga sobre tudo que me consola de uma maneira serotonínica. Juan Ramón Jiménez é meu poeta infantil e menor que me provou que há poetas menores que tem a mesma estatura espiritual dos gigantes, e é fundamental justamente porque a preguiça do idioma simplifica as coisas com esse erro estratégico de conceituar o conteúdo através de medidas volumétricas que não dizem nada. A outra poeta eu conheci há 4 anos, o que infere que cada um deles apareceu concordante com o encaixe exato em meu processo de maturação como indivíduo. Pois Wislawa Szymborska é uma mistura de todos esses outros poetas, com o acréscimo de fazer pouco caso de si e não ter o mínimo espalhafato vaidoso de achar que sua poesia seja libertária, revolucionária, meiga, iconoclasta ou que traga uma mensagem espiritual subliminar. Analisando a linha dessa minha apreciação tem-se um retrato bastante significativo sobre mim mesmo, sobre o que eu sou_ o que me espanta. É como se eu tivesse nascido com minhas necessidades estéticas e minha sede pelo aprendizado que vem da poesia já prontas, e meu único dever era descobrir passo a passo os poetas previamente assinalados que preenchiam essa cabala. Wislawa, julgo, é o desfecho de tudo que a poesia em não-prosa tem para enriquecer a minha existência. Todo o estrondo dos outros poetas continua quando os leio ou os recito de cor, mas na casa dos 40 anos, a sabedoria despojada de Wislawa, seu honesto hedonismo pela vida, sua nota embargada de velha senhora nonagenária que sobreviveu a tantos terrores da história, me cala profundamente e me acalenta de uma forma que hoje é dela que me sinto mais próximo. É uma escritora que atingiu há tempos a real compreensão de seu ofício, descarregou-se de toda pompa e todo fardo dos clichês modisticos de como um escritor deve se apresentar, e tal lucidez está em cada uma de suas obras: uma maturidade humana plena, uma voz que se desobriga da tolice de qualquer virilidade para se fazer ouvida, uma nudez belíssima em que a esbelta senhora explora sua visão desse mundo com essa sabedoria rara que se refresca com um falar para si mesmo que vai além da literatura. Nesse segundo volume de poemas que ora a Companhia das Letras lança da Wislawa no Brasil _ um fato que atesta o quanto ela é querida por aqui, visto que poucos poetas, mesmo os nobeliados, conseguem permeabilidade de vendas que autorize a publicação de outra obra_ , lemos ela dizendo em seu discurso em Estocolmo que não se considera uma boa poeta, que não faz poesia "muito bem". Em certo sentido, é isso que o leitor percebe, e os leitores superficiais somam na balbúrdia dos estúpidos da web comentários de que é injustiça premiar Wislawa e não poetas maiores que ela (como, certa vez vi citado, Cecília Meireles, na sempre tosca cobrança de ufanismos patrióticos). Eu percebo que Wislawa nunca se importou com isso; o que ela escreve vai além da poesia, é uma forma de expressar sua mais íntima experiência de vida através de observações que, mesmo as mais pueris, são carregadas de um espontâneo arrebatamento. Não é raro uma lágrima fugaz escorrer pelo rosto quando se a lê, nem deitar o livro no colo e ficar olhando o tempo com um maravilhamento novo. Ler Wislawa é rejuvenescer.
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
A Júlia e o blog vão fazer 6 anos
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| A Júlia com 1 ano, e a Júlia e o Eric |
Eu sempre falo que comigo todos os clichês da redenção pela paternidade aconteceram. Eu só descobri o que é mesmo o amor depois de ter filhos; eu só descobri o que é a felicidade plena depois de ter filhos; eu só descobri o quanto devemos respeitar milimetricamente cada pessoa e todo mundo depois de ter filhos (porque todo mundo é filho de alguém); eu só entendi de forma profunda o quanto meus pais me amaram, e o quanto eu lhes dei motivos para preocupações, depois de ter filhos. A Júlia me mostrou que eu não poderia amar duplamente um ser como eu a amo, e aí veio o Eric e me provou que eu posso, porque amo os dois da mesma maneira e na mesma intensidade. Fico os olhando por horas, enternecido, carregado de orgulho e mágica por eu ter contribuído por tamanhas perfeições. Um dia um colega meu criticava para mim a "coragem" de um amigo dele em expor seu filho recém nascido no Facebook, porque o menino havia nascido com o lábio leporino, e eu, antes mesmo de me conter, respondi a ele me admirando o quanto ele era estúpido em falar algo assim, porque um filho meu poderia ser de qualquer jeito que eu sentiria absoluto orgulho dele. A primeira gravidez da minha esposa, a Dani, foi de altíssimo risco, e o médico nos dissera com sinceridade que o bebê poderia nascer com alguma deficiência. Eu amaria a Júlia mesmo se ela tivesse nascido um rabanete, e ela nasceu minúscula, murchinha, cabia quase na minha mão; nasceu com uma imensa fragilidade de forma que eu tinha receio em pegá-la e machucá-la sem ver. O dia que eu as trouxe_ a Dani e ela_ para casa, enfrentamos uma chuva intensa na estrada, e viemos ouvindo no carro todo tipo de música abençoada, Pink Floyd abençoado, Led Zeppelin abençoado, Van Morrison abençoado, porque eu dirigia em estado de graça vendo as duas lá atrás pelo retrovisor, o ratinho rosa que era a Júlia em volta em mantas dormindo no bebê conforto, e o olhar da Dani repetindo o meu com o brilho do êxtase, a descansada e vaidosa plenitude da maternidade e da paternidade. Nós sabíamos que nada de ruim poderia acontecer com a gente. Chegamos à casa antiga em que eu morava, minha casa de solteiro caindo aos pedaços, com a auto-suficiência aristocrática dos permanentemente saudáveis e felizes, e colocamos a Júlia no berço junto à nossa cama e ficamos babando em cima dela, a menininha que, aos 3 meses de gestação, a Dani recebera o prognóstico de que ela tinha uma margem pequena de chance de nascer. E agora ela estava ali, o milagre do qual nunca duvidamos (o milagre do qual eu tinha tanta certeza que nem cheguei a pedir a Deus). Cinco anos depois, o médico da Dani autorizou que tivéssemos mais um filho; em uma semana engravidamos e sentimos o mesmo deslumbramento da gravidez. E aí nasceu o Eric, uma bola grande e gorda que era fisicamente o oposto da irmã. Hoje ele já está esbelto e dando seus primeiros passinhos pela casa. Amanhã será a festa de aniversário de 6 anos dela. As avós estão em casa e mais uma turma de amigos e parentes. E a vida, a resiliência e a ausência de medo, o amor e a luz, são sempre maravilhosos.
sábado, 17 de setembro de 2016
Leitura, a falta que você me faz
Já nas primeiras páginas o Gaspari fala do quanto o militarismo era corrupto, com fraudes na construção de hidrelétrica e dos planos de construção da bomba nuclear brasileira que custou, na época, o desvio de vultosos 30 milhões de dólares dos cofres públicos_ projetos que nunca chegaram a ser finalizados porque, além de corruptos, os militares eram muito ineficientes (a única coisa que sobrou do projeto da bomba atômica, diz o autor, foi um buraco de trezentos metros de fundura em que os sábios cientistas da ditadura intentariam explodir as bombas experimentais, valha-me santa Sucupira!). Gaspari_ que deve muito de seu estilo a Garcia Marquez_, brinda o leitor com uma impagável descrição carregada de ironia da "bravura" e "pragmatismo" dos generais e coronéis, apontando como eram bons em acumular papéis em seus escritórios e ficarem com suas caras de sono suportando o expediente até o fim. Aí vem essa gentinha miúda e iletrada, que infelizmente grassa em grande quantidade por toda a geografia, querendo a volta da ditadura, elogiando a austera "pobreza" dos presidentes e altos caciques militares após o fim do regime. Como a falta de leitura e o completo desinteresse pelo conhecimento é de extrema letalidade.
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