segunda-feira, 12 de abril de 2021

Trilhos


 

No trem para S., encostei-me à quina do banco com a janela, o rosto um pouco abaixado de encontro à gola da camisa do exército, com os olhos nivelados com a paisagem mutante lá fora. Os sons das rodas de ferro sendo alavancadas pelas barras de impulsão; a cabine cujos encaixes tremiam quando toda a máquina se recolhia em sua dimensão retilínea para poder passar pelas curvas dos trilhos; os vidros cedendo, de forma quase imperceptível, às leis da termodinâmica, sofrendo dentro das atribuições estudadas pelos engenheiros de construção a compressão dos encaixes metálicos_ tudo ia massageando meu ego destroçado, que só naqueles instantes de consciência que a brutalidade dos mecanismos do mundo envolvia tudo o mais que existia, as coisas delicadas e as coisas que respondiam às suas funções mais rígidas, compreendia que havia uma zona de equilíbrio para que a fragilidade pudesse sobreviver em relativa paz com a força absoluta. Halperin, Halperin_ uma voz dizia, balançando a cabeça sob a canção milenar da sabedoria expressa com resignação_ a sua jornada, no fundo, olhando com uma capacidade mais restringida para a admiração, talvez possa ser interrompida num estágio mais precoce, a procura apaziguada pela aceitação de que seu lugar seja entre os que se silenciaram sem medo diante os grandes enigmas. Talvez a nobreza verdadeira seja apenas o deixar-se ficar sonolentamente ao embalo das coisas milenares. Eu achava mesmo que essa voz agora dizia algo que enfim podia dar ouvidos, afinal o que diabos eu procurava? Não me pareceu que a revolução, nos moldes adotados pela turma de Ernesto e Libertad, justificasse a grande sede por propósitos que me dominava. Aliás, qualquer revolução, me parecia, era um enorme engodo, cujas motivações nunca eram as que propagavam nos ideários onde seus heroísmos de cartilha pensados sob eflúvios alcoólicos à noite eram impressos, mas suas turbinas se moviam por recalcadas ambições pessoais_ dominação, sexo (no caso de Libertad), falta do que fazer diante a pequenez do bípede a quem não foi dado a constituição própria para o vôo. Como estava cansado desses propósitos majestosos.
            De frente a mim, com as cabecinhas apoiadas no encosto do banco, havia um menino de uns oito anos e uma menina mais velha, talvez uns treze, que desde que o trem se colocara em movimento me estudavam com atenção. Meu olho roxo e minha aparência geral de destruição os deixavam impressionados. Eram loiros, sardentos, e seus pais, parecia ter-lhes adotado o estilo de criação de os deixarem à mercê da sujeira saudável para reforçar seus sistemas de defesa. A menina, de imediato, só de olhá-la, já se podia perceber ser a antípoda ativa do rapazinho, de cujo rosto partia uma total dependência dos humores da irmã. Se a menina sorria por nenhum motivo, sua cópia masculina e mais nova estendia a face num sorriso também sem explicação; se ela, por sua vez, balançava a cabeça ao embalo de uma melodia secreta, ele também passava a cantar, repetindo o ar de alheamento, sua canção particular. A menina tinha um olhar diabólico, parecia conhecer profundamente o estágio de torpor exausto dos pais_ um homem e uma mulher mirradinhos, com uma perfeita máscara de estupidificação nas caras_, e aproveitava com astúcia a liberdade involuntária que tinha. Minha presença arranjada pela benemérita providência divina, logo atrás de seu banco, era uma ocasião deslumbrante da qual ela tinha de demonstrar com todo afinco estar à altura do merecimento. Um ser que transparecia conotações ainda distantes de sua experiência, de que se situava num impreciso limite com o invisível, mexia com as considerações sobre bondade e medo que aquele casal simplório havia lhe inculcado. Seus olhinhos perversos procuravam algum indício de que eu fosse culpado por minha aparência, para então desembaraçar-se de qualquer remorso e ser também um instrumento para acentuar meu expurgo. Fazia-me caretas discretas, que pareciam dizer “não, bobo, não tenho tempo para você”, e retornava a estudar a composição de sua proeza vocálica, que apenas fazia fundo sonoro à procura por novas curiosidades oferecidas pelo ambiente. E o pequeno ser que lhe arremedava fazia o mesmo, revirando o pescocinho, com uma segurança de que aquele era o caminho certo para novas diversões. Então ela mostrou toda a potência de seu conceito sobre estranhos, me crivando um olhar onde a graduação de sua certeza era expressa pelo movimento das pálpebras_ quando se semi-fechavam, que era o que fazia então para manter toda sua concentração sobre mim, estava deixando claro que sabia o que eu representava. Não era tola para cair nos arranjos que os adultos demonstravam criar para submetê-la; reconhecia que muita coisa lhe passava batido pela condição de ainda ser criança_ esse termo que limitava sua vontade e contra a qual destinava toda sua rebeldia, inclusive o seu desprezo pelo irmão cuja estupidez era ainda maior por adotá-la como modelo, mas tinha um confiança em si mesmo que a tornava militante contra essa estupidez que lhe chegava de todos os cantos.
            Decidi confrontá-la, pois estas idéias todas aparecerem na minha mente e me vi tomado por uma súbita admiração por aquela menina. Oposição poderia ser verdadeira amizade, como já disse o velho Blake, e ela não iria querer que eu lhe viesse com a amolação de tratá-la como uma menina. Pus um ar de severidade nos olhos, resisti ao seu encaramento e disse, (não sei por que):
            _ Essas feridas eu as ganhei numa briga de trem, semana passada.
            Ela não mostrou nenhuma reação de empuxo contra ter-lhe dirigido a palavra. Seu olhar abrandou-se um pouco, não em sinal de começo de confiança, mas para avaliar o sentido daquilo. De súbito, passei a crer que ela fosse uma espécie de criança ultra precoce, que nada haveria de mais familiar a seu espírito centenário a realidade atroz dos trens, para a qual vagabundos e deserdados gerais faziam meio corrente para atravessar de canto a canto o país. Um traço de mulher madura, não de todo desprovido da feiúra temerosa das anormalidades, passava por seu rosto à medida que refletia. Então, ela recolocou os olhos em mim, carregados de faíscas opinativas como estavam há meio minuto, e me disse:
            _ Nada incomoda mais aos punhos do senhor Santiago do que vagabundos feito você.
            Sua voz era árida como cacos de vidro roçando uma parede, mas ainda assim bastante doce. Respirei aliviado. Não, não! Era uma criança como qualquer outra. Eu estava no planeta usual que a detivera de experiências alienígenas por esses anos todos. Olhei para ela por sobre o desnuviamento de meu sorriso, achando que se ela tivesse realmente os anos a mais que de primeiro achei ter, saberia que eu roubei a expressão de piedade terna pela arrogância inofensiva da inocência de algum filme americano de década de cinqüenta. Mas ela levava a coisa ainda bem a sério. Apostava nos protetores músculos desse seu herói das viagens, Santiago.
            _ Pois não foi Santiago que fez isso a você. Santiago não deixa sobreviventes._ daí ela pôs a língua para fora, uma língua rosada de algum produto dulcicorado de mercado que seus pais omissos deveriam achar ser parte da força imunizadora do mundo livre, e me virou as costas, pulando sentada sobre seu banco e saindo de vista. O protótipo masculino seguiu-lhe o exemplo, lanceando a língua, embora de forma sedutoramente desprovida de conotações políticas quanto a conhecidos poderosos do ramo da segurança de trens, mas permaneceu olhando para mim com os olhos cheios de hilaridade vazia, sentida apenas pelo fato maravilhoso de estar vivo.

sábado, 10 de abril de 2021

Incidentes Protocolares


 

O que permeava o mais profundo da mente do meu avô era sua consciência de que fazia parte de alguma casta ainda não de toda determinada, cujas raízes eram obscuras e os méritos não descobertos, mas que outorgava a ele seu direito de pertencimento irrevogável. Naquela aldeiota perdida no meio das serras, onde a lentidão era dominante e o tédio temperava os humores e regia a filosofia resignada de alguns, ele se mostrava sempre altivo, andando com seu passo galante por entre os jogadores de caixeta que promoviam campeonatos particulares arrastados por epopeias semanais e que ele premiava seus campeões alternantes com caixas de elixir paregórico e balas de gengibre. Dormia ainda na pensão da velha Ofélia, uma senhora rude de feições impenetráveis, que o surpreendia com algum vislumbre de que estivesse por romper sua casca protetora com algum inesperado sorriso e com uma ainda mais inesperada confissão de algum antigo amor nostálgico, mas que quando parecia estar no limiar da revelação voltava a cair em seu fado eterno de lamúria silenciosa e remoer de alguma dor encalacrada há muito tempo na alma. Já tinha a farmácia estabelecida e os clientes fiéis que lhe permitiam comprar para si uma casa própria, como soe ser a respeitabilidade esperada de um doutor, mas ele insistia em permanecer no mesmo quartinho da pensão, um cubículo com uma janela basculante e uma cama de solteiro que seus pés de vara pau ficavam para fora na hora de dormir, e cujo teto de telhas sem forro distribuía com generosidade democrática os sons das paixões não de todo sinceras das meretrizes no cio e gatas pardas caçadas nas noites para sanar sua solidão, de modos que os peregrinos, cuja sorte de suas erráticas aventuras os faziam parar ali, podiam ouvir com um lastro de inveja suas performances sobre-humanas, assombrados ao constatarem ao raiar do dia que tamanho prodígio vinha de um homem de aparência tão impoluta que só uma mente doentia imaginaria ser o mesmo animal desconsolável que os impossibilitara o sono, não se sentindo seguros de reclamarem à inquilina. Se bem que, com o tempo, a velha Ofélia acabou ficando cúmplice de suas lubricidades, de tal maneira que passara a facilitar suas caçadas de uma forma que ele já não precisava sair pelas ruas, colocando as vendedoras ou as professoras que vinham dar cursos de aperfeiçoamento para os funcionários municipais nos quartos ao lado do dele, o que, as presas já amaciadas ao longo do dia com seus sorrisos, sua polidez estudadamente distante e astutamente desinteressada, seu cálculo preciso em tocar-lhes a mão na hora de se servirem no jantar como se fossem inocentes acidentes, caíam desbaratadas na armadilha já pronta quando ele as puxava para o cubículo e as faziam esquecer de suas promessas de fidelidade feitas aos maridos e namorados com uma culpa que só lhes aumentava o prazer de agirem como putas.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Um Duelo

       


         Mamãe cortou o cabelo. Era um feixe negro e liso que ia até sua cintura, um parasita de vaidade ostensiva com o qual ela não tinha mais nada em comum. Não o enrolava e o prendia em um coque arquitetônico de antigamente, cujo segredo para se chegar à ciência de achar o ponto certo de amarra era algo tão cuidadosamente guardado quando ela era uma garota da velha cidade interiorana, e agora, passados os meses que pareciam anos de quando deixara tanto a cidade quanto aquele seu avatar idílico, ela só o deixava ali, flanando em suas costas, se alteando à vontade de uma brisa enfeitiçante que cativava olhares dos que lhe estivessem em volta. Foi-se o tempo em que o tratava bem, o nutria com cremes de ervas e shampoos delicados, que o escovava alegorizando uns trejeitos preguiçosos e concentrados, as coisas que fazia quando morava em Altarosa e era uma donzela destinada ao casamento com algum mandatário de terras. Agora que caíra no mundo real, ela, como se de um dia para o outro abriu os olhos e deixou para trás tudo que fosse daquele outro mundo distante. Seus cabelos foram perdendo o viço, tornaram-se quebradiços, já era outro o vento desinteressado que vinha soprar neles sem que seu propósito fosse o de conservar a mesma união e cada qual ia para um lado e fazia estranhas figuras hieróglifas no ar. O que antes o anarquismo capilar realçava a beleza do rosto de minha mãe, agora dava um tom de velhice precoce na maneira em que o caos estabelecido sugeria um queixo mais duro que o normal, ensombrecia os olhos, não cobria as pontas das orelhas. Não precisava a avó pentecostal jogar uma de suas indiretas sarcásticas, nem as filhas satélites fazerem craque de sorrisos falsamente silenciados, pois ela sabia melhor que ninguém o que aquele corpo estranho e incongruente representava. Ela desprezava tanto os cabelos que não tinha tempo de pensar neles. Em sua cabeça a técnica para excisá-los consistia em ter que ir para uma cabeleireira especializada e ficar horas sob uma atenção minuciosa, e isso já não mais corroborava com seu espírito novo que lhe surgira com o êxodo. Se ela não pegou a faca de cozinha amolada e deu ela mesmo um cabo ao problema foi porque a violência do ato a desgastava, não entrava em seus arranjos domésticos de mãe que tinha dois filhos para criar; era como se ela fizesse concessões ao mundo no que ele tinha de pior e, apesar da pobreza que dava suas caras pela nossa frente, ela nunca atingiria esse nível de abjeção. Os cabelos não mais representavam o selo de que ela era uma dama; ser uma dona honrada tinha agora a ver com seriedade e penitência.

          No nosso prédio havia famílias de argelinos, franceses, senegaleses, árabes, armênios, italianos, turcos; gente de todo tipo, cada qual promovendo seu nível de barulho, cada qual com seu timbre linguístico aviário que, em determinadas horas, formava uma tapeçaria sonora de múltiplas camadas, sendo impossível se ater a uma linha de sentido. Nas horas do almoço, que era a hora universal em que os rebentos dos deuses de infinitas caras e dos filhos de todas as idades da diáspora tinham em comum para se quietarem e fartarem seus estômagos, era possível ouvir um ruído uníssono, contínuo, concentradamente intenso e libidinoso, que subia pelos conductos dos elevadores e pelos corredores das escadas e ficava como uma energia étnica em pulsão perigosa, martelando os ouvidos, fazendo fricções sutis nos pés através de sua propagação pelos assoalhos; o organismo que respirava naqueles dez andares de quartos sombrios e janelas flamejantes cujas lâmpadas econômicas entravam em um torpor meditativo, um ronronar peristáltico. A uniformidade a que chegava o som nutria as formas de como esse som se apresentava durante as outras horas menos sagradas do dia, de maneiras que tudo ficava como se debaixo de uma redoma de vidro, os gritos das crianças, a severidade da ordem dos velhos patriarcas para que as mulheres lhes passassem a pasta, ou o baba ghanoush, ou o caldo de rins de cordeiro, ou o cevapi, dependendo de qual parte do espectro geográfico eles vieram, removidos e atirados no teatro caótico daquela babel de proporções reduzidas.

           Mamãe parara de escrever no caderno velho de espiral, rasgado nas beiradas e com páginas transformadas em murais neolíticos com riscos de caneta sobrepostos; pousou a caneta na mesa, se levantou, arrastando de debaixo da mesa as chinelas de taco para que seus pés se posicionassem dentro delas e, sem dizer nenhuma palavra, saiu pela porta do apartamento. Desceu os lances de escadas no escuro, porque a lâmpada dali queimara há uma semana, se esbarrando com as outras pessoas que faziam das suas na dormência do horário, e foi se postar em pé de frente à porta do apartamento do térreo, do bósnio Shivídia Mensur. Todos conheciam Shivídia Mensur, sua cara de ladrão de caravanas, seus longos bigodes de embuchador, seu ar geral de grave perigo. Sentado na cadeira de madeira, ele passava suas longas horas de ócio contemplando o regulamento de sua digestão, mastigando um palito, de camiseta sem mangas branca e encardida, de calças beges de cambraia folgadas e nunca passadas, e o boné de beisebol que um dia fora azul céu mas que estava impregnado de gordura e descorado pelo álcool do aspersor que usava para desinfetar a lâmina de barbear. Quando não analisava o universo para ele sempre assombroso de si mesmo, Shivídia dedicava a ler um jornal que algum conterrâneo deixara-lhe por agrado ou por inconsciente sadismo, o mesmo número eterno de vinte anos atrás, em que as manchetes já não o deviam fazer suspirar de nostalgia por narrar sempre e eternamente, enquanto durasse a consistência já um tanto esgarçada do papel, a entrada do general com canhões que determinara que ele e mais milhares de outros fugissem de um país que passara a não mais existir, mas agora o motivando apenas a se recordar de alguma faxineira de peitos vultosos ou uma bilheterista da estação de Medugorje com as quais ele trocava olhares acalorados e que agora deveriam ambas estarem longe, espalhadas pelo globo, rendidas como ele a uma velhice cujo conhecimento das vanidades da existência não lhe sugeria mais nenhum suspiro.

       Minha mãe deu um pigarreio ligeiro mas determinado, suficiente para que Shivídia, que não estava lendo o jornal, movesse lentamente seus olhos empapuçados da parede amarela e os colocasse sobre ela. Minha mãe deveria ter sido afetada pela profunda tristeza que aqueles olhos transmitiam, porque sua voz, que antes preparara para ser a mais seca possível, se suavizara, como se subvertida a um tom mais baixo. Shivídia a vislumbrou por detrás da nébula tremeluzente do passado e viu ou a bilheterista ou a faxineira, mas como seu espírito era ineludível, tinha plena consciência de não cair naquela ilusão sem mais consequências a não ser pregar-lhe uma peça. Todos sabiam que não era um homem de muita conversa e também de um nível de competência que ia até o simples exercício de aparar cabelos e barbas; para isso bastava que se sentassem na cadeira de couro cinco centímetros mais elevada que o habitual e, com os olhos em paciente observação a si mesmo no espelho frontal, o cliente deixasse que ele fizesse o que tinha que fazer para sobreviver. Haveria dezenas de senhores menos taciturnos e amplos de simpatia que realizavam o trabalho de apara capilar melhor que ele, mas aquele inferno que não angariava um pequeno minuto de silêncio e que estava sempre na iminência de explodir era só aparente, as pessoas ainda eram pessoas e tinham o coração da espécie aptos a se condoer mutuamente e a se sustentarem. Como o desconsolado Shivídia Mensur compraria seus fumos aromáticos e suas lascas de bastirma se os velhos, os funcionários das vendas locais, os assaltantezinhos de feira, as mulheres que catavam lixo nas cercanias, não fossem até ele para que ele despoluísse um pouco o tanto de selvageria que seus corpos lutavam mês a mês para colocarem para fora?

            Então minha mãe lhe diz, com um gesto, que era para Shivídia Mensur cortar o rabo negro, seco e mal tratado, num movimento com a mão que simulava o golpe de uma faca. O bósnio falava toscamente o português, com a incorrigível incapacidade de usar de maneira certa os gêneros e os plurais que tem os homens de sua estirpe; mesmo que se dedicasse anos a ouvir com extrema atenção como falavam os nativos, se assim fosse possível furar o bloqueio de tantas línguas que corria pelo prédio, ainda assim algo de dissoluto em seu espírito de segregado se manteria indomável a se entregar às normas corretas de uma outra pátria. A língua era o primeiro e último foco de resistência em se agarrar à nostalgia de sua antiga e desaparecida nação, o único ponto de concordância mantida entre ele e as mulheres cujas vidas de cachorro sem lar foram privadas de formarem com ele seus direitos interrompidos do calor de uma família e uma linhagem numerosa de descendentes. Mas entendeu que a moça lhe impunha uma complicação sem igual que ele não merecia e nem estava apto para abraçar. Olhou estupefato para o objeto negro que ela segurava pelo meio em uma das mãos, como se fosse um tapete persa mal cuidado que estivesse lhe oferecendo para comprar, e piscou duas vezes pensando em um gorgulho em voz alta que maldito esse dia por lhe virem com enigmas que ele já se fizera pela idade e pelas amarguras sucessivas sem a mínima obrigação de tomar conhecimento, sequer resolver. Minha mãe não se deu por vencida, estava ali para arrancar aquele parasita e estava suficientemente decidida a não se esmorecer pelo ar de afronta desdenhosa de um iugoslavo barrigudo; já engolira o vestígio de educação que lhe viera por ter visto alguma simpatia muito velada no barbeiro e sentia o frêmito de má civilidade lhe subir pela garganta. Não era à toa que ela pairava no imaginário daquelas pessoas atoladas em seus isolamentos gramaticais associada a uma leoa que a ponderação aconselhava evitar. Ela entrou na saleta sem que o armênio tivesse tempo de se levantar, e, num gesto desembaraçado e involuntariamente feminino, se sentou na cadeira de couro. Shivídia, como se lhe tivessem concluído o tapa em câmera lenta que ele esperava assim que a vira parada à porta, balançou os braços e se levantou sem jeito da cadeira, quase caindo para trás com o peso de sua pança enquanto repetia niet niet, mê senhora niet, no no. Minha mãe se agarrou aos braços da cadeira e franziu as sobrancelhas num gesto que, assim como a estival sombra juvenil do ato de se sentar, lhe dava uma graça provocativa, rememorosa de sua antiga beleza provinciana, que vai ver tais coisas não passaram despercebido pelo barbeiro por invocar agora com uma voz de clemência que ele não estava apto a tratar de mulheres do porte de minha mãe. Ele coçou a calva, esfregou as mãos nas frentes da calça, olhou no espelho aquele quadro surrealístico que nem nas mais distorcidas realidades alternativas seria idílica ao se ver em pé detrás de uma moça de rosto e corpo esplendorosos, apesar das tantas tentativas dela em destruir quaisquer traços de suavidade que tivesse os substituindo por expressões grosseiras; olhou para fora em busca de um socorro que a indiferença coletiva sequer sabia o drama que de súbito a potestade havia lhe enviado. Mudo, parou os movimentos de aflição e olhou minha mãe pelo espelho, com tudo o que lhe conferira o terror de embuchador vindo à míngua, estando no lugar a cara de um gordo e velho que lhe pedia que não lhe fizesse aquela extrema injustiça. Minha mãe, lívida, a pele mais translúcida do que o habitual mostrando o canal fluvial de umas delicadas veias na testa, olhava para o mesmo ponto, os olhos arregalados de um fulgor que beirava a certeza terrível de uma bruxa. Shivídia pegou o avental, armou-o por sobre a barriga, como se ele tivesse um peso que um simples pano jamais teria, com um ar de quem estava sendo obrigado sob tortura a fazer algo de consequências ainda não medidas mas que tanto mais seria terrível para ele. Minha mãe então desviou os olhos para a imagem dele, as pupilas tremendo uma só vez delicadas e intensamente, como se uma figura clássica em um quadro sobre um demente tivesse de súbito se movido para mirar o espectador que a observava.

          Shivídia Mensur pegou a tesoura rombuda e enferrujada, com manchas amarelas que indicavam respingos de alguma substância química indefinível, e minha mãe percebeu o quanto as mãos daquele brutamontes eram pequenas. Ele estudava o objeto que tinha que trabalhar, o longo pêndulo morto espraiado da cabeça da mulher prosseguindo-se pelas costas da cadeira; observava-o de um lado e do outro, retorcendo-se para que uma ótica inatingível lhe desse um sinal do que fazer; mordeu o lábio inferior e proferiu uma espécie de mantra rápido e pela primeira vez olhou com um olhar profissional, sem reservas, para minha mãe. Faça da forma mais rápida possível, ela disse, no que parece que ele enfim entendeu o idioma dela. Ele picotou as pontas, com investidas ponderadas da tesoura, e uns fiapos que perdiam o negror e ficavam translúcidos assim que cortados caíam flutuando no chão. Ele a olhou com ar interrogativo, e ela fechou a cara com enfado como resposta. Daí ele respirou fundo, ergueu a tesoura com uma resolução que perdia a indecisão de maneira mais fácil que ele supunha, e o mergulhou na linha da nuca, com a boca do objeto aberto até o limite possível abarcando um volumoso feixe de cabelo. A tesoura era velha mas tinha uma afiação extraordinária, vai ver era por isso que a conservava, pois sincronizado ao som agudo e metálico, um dos sons mais inapropriadamente rápidos para os anos pacientes que levara à formação do que ele extinguia em um segundo, um maço de cabelo da mamãe foi jogado ao chão, o peso o fazendo cair agora de uma vez. O armênio, sem olhar pelo espelho e aliviado por ter sido lhe indicado como se livrar daquela descomunal incumbência, feliz que afinal a vida lhe mostrava mais uma vez que nada lhe era magnânimo e sobre nenhuma ação humana se podia recair o pesar de uma elevada importância, repetiu o trinado fino e cirúrgico da tesoura até que o restante da cauda senhorial do que fora aquela menina transfugada em mulher que lhe entrara na sala. Ele parou o gesto e perguntou à minha mãe se era pra continuar, naquele idioma formado pela precisão entre eles que era mais um diálogo entre mudos, e ela fez que sim com a cabeça.

        Quem me contou essa história foi o próprio Shivídia Mensur, que não tinha nenhuma suspeita que eu fosse filho de seu personagem principal, uma semana depois quando eu também me sentara ali para que ele desbastasse o descalabro selvagem e embaraçado que me crescia acima das orelhas. Até então ninguém sabia quem resolvera aquele incômodo para mamãe, quando ela entrara pelo apartamento não tendo nenhuma diferença de um rapazinho imberbe de pescoço longo e cabelos baixos quase a um estilo militar, apenas com a extravagância doidivanas de ao invés de estar enfunado em um uniforme do exército estar dentro de um vestido. Ninguém falou nada, porque ninguém falava nada dentro daquele apartamento, mas todos pararam por um momento o que estavam fazendo para olhar aquela nova presença entre nós. Um segundo só foi o bastante, o que demorou mais que o que comporta oficialmente esse limite de tempo, em que avaliaram aquela quebra violenta na rotina da casa, aquela comunicação cheia de êxito e vingança que a cabeça impávida e combativa de mamãe expressava em seu mutismo, e no final das contas, ao abaixarem os olhos a título de que mantinham o código de conduta de se manterem isolados sem se meterem um nas vidas dos outros, mesmo com um arzinho vestigial de esnobe indiferença, o veredito era positivo, o que cada um achava era a confirmação unânime de que aquele cabelo condizia melhor com a nova personalidade daquela ex-menina. Se tivesse uma comunicação subliminar secreta que possibilitasse que eles expusessem sem grandes danos ao orgulho o que lhes iam pelas mentes, eles iriam cumprimenta-la por ter incorporado o espírito real da mulher dura e invergável que ela era.


domingo, 28 de junho de 2020

Scenio



Enrietta foi assassinada há 13 anos. O sr. Flibas parou diante o semáforo para pedestres, que no momento apresentava o homenzinho em pose marcial circunscrito em seu quadrângulo vermelho, e olhou os rostos atônitos do outro lado da rua apontando seus olhos para onde ele estava sem o verem. Foi no bairro de São Bento, a dez quilômetros dali, quando Enrietta ia às seis da manhã para o serviço de conselho tutelar no qual se ingressara fazia um ano. O rapaz_ na verdade, um pertencente à faixa etária indefinida entre a infância e a adolescência_, passara por ela, estacara dois metros além e, como se algo que exigisse sua atenção tivesse quase passado batido, mas que se recuperara pelo seu afinco em ser efetivo a algum zelo irretocável, deu meia volta e voltou calmamente até onde ela estava, naquela mesma posição em que o sr. Flibas agora estava diante o semáforo, à espera de que a marcha de carros fosse interrompida na transversal e o caminho para as pessoas fosse liberado. Ela levava uma bolsa de pano bordado com uma mixórdia de desenhos africanos pendurada no ombro, e na hora em que o menino a puxou com violência, seu corpo pendera para o lado; o desequilíbrio fez com que os grandes óculos ray-ban escuros ficassem inclinados no meio do rosto e seus cabelos crespos, que lhe conferiam o principal toque de personalidade, formassem um nimbo na região acima da testa, o que era o detalhe mais visível na câmera de monitoramento de uma panificadora, que registrara tudo e que os policiais mostraram para o sr. Flibas alguns dias depois. A luz vermelha se apagou e o quadrângulo verde, com o homenzinho atarefado estendendo a perna para efetuar um passo, acendeu, o efeito entre cores tão avessas provocando o acionamento de todas as pernas da fila lateral de pedestres que esperavam por aquela adstringente libertação. O sr. Flibas agilizou para chegar ao outro lado, com a desconfiança supersticiosa de que os carros parados eram seres brutais de vontade própria que poderiam avançar a qualquer momento, sem respeito às leis. Enrietta jamais fizera aquele gesto que ele fazia agora, jamais atravessara a rua. Nos primeiros meses, mesmo nos primeiros lentos e imprecisos 5 anos, ele caía na divagação de se não comportava uma culpa pessoal em não ter sido audaz o suficiente para ensina-la a controlar certos movimentos condicionados. Se não teria sido um grande lapso não ter dedicado a instruir um ser tão imolado pela malícia sobre a corrupção que imperava do lado de fora da porta de seu refúgio. Talvez ela não teria simulado reação, como puxar a bolsa de volta, respondendo proporcionalmente à força do ladrão com a energia muscular de seu braço fino mas vigoroso. Algum transeunte que testemunhara a cena talvez tivesse expressado um gesto de admiração e achado que a história teria sido ganha, o mal enxotado e a pobre figura de David vitorioso sido representado na transfiguração de uma raquítica mulher de meia idade, quando o rapaz se estatelou no chão, sem a bolsa e de olhar primeiramente atordoado de surpresa. Mas o sr. Flibas, os policiais e a história já sentenciada de sua vida, sabiam, ao ver num ângulo apical e em preto-e-branco na imagem gravada, que a conclusão não havia sido essa. O movimento da funda tinha sido feito, não com precisão suficiente, e a pedra passara em direção perdida alheia à cabeça do Golias. O mal não se evadira, se levantara em suas orgulhosas e ofendidas pernas juvenis, fitara com um ódio transfigurador o que tinha pela frente, e acertara em Enrietta um murro carregado de fúria que a fez cair instantaneamente sem vida. Foi isso que o laudo do instituto médico legal declararia para o inquérito, um murro tão bem dado que partira seu maxilar e lhe causara uma hemorragia cerebral instantânea. Essa aberração fria, asséptica e sem transcendência o fazia ter pensamentos absurdos como achar que era uma sorte ela não ter sentido a série de chutes que o criminoso dera em sua cabeça em seguida. Não queria se lembrar daquilo, daquela cena registrada nas fitas da caixa da panificadora; os agentes policiais tocaram-lhe nas costas e pediram gentilmente que se retirasse, enquanto um deles dava o sinal para que desligassem o vídeo, mas já era tarde, por distração todos estavam de frente à televisão e a cena continuara a transcorrer, cada um afundado em seus pensamentos, confusos diante a análise que tinham de fazer diante algo que a tecnologia destilara até uma seca trivialidade, desinflando através da repetição a brutalidade de um assassinato absolutamente desproporcional e vazio.
            O sr. Flibas seguiu a recomendação do policial e passou pela porta até o outro lado da pequena sala de perícias, onde a efervescência de uma delegacia de policia continuava à toda com algumas pessoas sentadas à espera de que fossem promovidas de seres congelados no interstício entre a ação e a captura para o centro de interrogatórios pormenorizados, ao que alguns deles responderiam com prontidão, como se narrassem eventos cometidos não por eles mas por desconhecidos tomados pelo ensandecimento; outros iriam se calar com uma fúria concentrada; outros não falariam nada com nada, perturbados pela química ou pela loucura do excesso de afronta que a vida lhes fazia. Seus olhos aturdidos pousaram por um longo momento em uma mulher que estava em uma das cadeiras ligadas por uma barra de aço embaixo, sentada em uma pose inusitada, como se seu corpo não tivesse apenas um metro e cinquenta e cinco centímetros de altura ou algo em torno disso mas fosse extenso o suficiente para atravessar pelas outras cadeiras numa declarada provocação. Mascava chiclete, era morena, cabelos crespos, ensebados e juntados em feixes pontiagudos revelando uma série de cuidados cosméticos tentados sem nenhuma resposta satisfatória e deixados assim como estavam, inóspitos, irregulares, um quebra-cabeça; aliás, ela percebera que era alvo da deseducada atenção do sr. Flibas, através da percepção da presa que costuma saber da presença do predador através de radares sensoriais sutis, e por isso ela parou de mascar o chiclete; o corpo, que emitia um movimento barcolejante, levando a perna cruzada acompanhando a linha da outra perna até onde ficava o limite da cadeira de uma outra mulher mais velha sentada a seu lado, se interrompeu, e seus olhos foram se iluminando de algo que parecia uma intensidade furiosa emitida à distância de dentro de uma caverna, o que faria seu observador cogitar se de dentro pularia uma fera atiçada ou revoariam criaturas noturnas acuadas em busca de outro refúgio. O sr. Flibas a via, mas não a enxergava; sua mente estava desbaratinada; um enorme cansaço como jamais sentira antes afundou seu peso em seus ombros, de forma que ele se encolhera e seus braços retos e desamparados sentiam a necessidade insurgente de abraçarem alguma coisa, nem que fosse seu próprio corpo. Seu cérebro sofrera uma pane, deixando os membros que tinham a obrigação de comandar a seus próprios domínios, e, em consequência, era como se sua alma partisse por um instante, o que ocasionara deixar seus olhos firmemente presos no último objeto em que se sentaram. Os policiais foram buscar um laudo para que ele assinasse e o deixaram ali, tomado por uma insípida vontade de desaparecer. Algo estava muito errado com o que estava acontecendo. Ele não merecia aquilo. Não, não; não era uma questão filosófica, não era uma reivindicação moral, que isso ficasse nos livros, nos compêndios e nos tratados, ele pouco se importava com eles; o que exigia em um destemperado silêncio era seu direito de não ser interessante, era seu mérito em ser invisível, era que a lei cumprisse sua obrigação sobre ele no antigo acordo que ele fez em não imolar o mundo, em não querer do mundo nada a não ser a sua porção satisfatória ínfima e cabível para que levasse sua vida, estendesse complacente sua não competição no jogo e fosse deixado em paz; sua animalidade, porque ao menos seres como ele e Enrietta tinham o direito de perfazerem seus anos em exílio pacífico, não chamando a atenção daquela fúria tão ocupada e sequiosa do mundo. Mas, como se o mistério inquirido não aceitasse mais capitulação, seu devaneio foi quebrado pela pequena mulher, que se levantara agora da cadeira e avançara para o sr. Flibas, os braços formando duas asas com as mãos na cintura, os olhos arregalados, a boca cuspindo chispas de impropérios por entre cacos de dentes amarelos. O sr. Flibas olhava-a com tênue estupefação, como se aquilo não condissesse com alguma linha de lógica que ainda se prestasse a envolver aquela zona da realidade, e a mulher esmoreceu, percebeu seu abatimento, provavelmente sentiu através dos canais telepáticos dos grandes sofredores o inferno que lhe ia por dentro e parou, silenciou de uma vez; voltou seu corpo miúdo e se sentou com uma nova integridade, como se o que vira no sr. Flibas, em sua apatia, exigisse dela uma postura respeitosa. O sr. Flibas vira que era uma menina ainda.

domingo, 24 de março de 2019

Vislumbre de uma estação


                         


Timos passou a noite em sonhos estranhos. O que mais o assustava era que ao acordar pouco se lembrava deles. Antes era fácil. Bastava que aquele ocre mundo em perspectiva lhe enviasse algum sinal, geralmente quando fazia o chá ou olhava pela janela a rua aos poucos se acendendo, e com base nessa pequena distração do lado de lá quanto ao zelo de seus segredos ele seguia a pista e quase todo o sonho lhe aparecia de volta, como se o lacre não funcionasse bem e ficasse uma abertura por onde algo mais passava. Agora não era mais assim; necessitava de muito esforço, mas esforço nesse assunto era uma ofensiva inútil. Achava que não era porque estivesse envelhecendo; algumas poucas coisas melhoram com a idade, e a aproximação dos outros elementos do sono deveriam fazer com que as apreensões de quando estava lá não fossem barradas de modo tão definitivo ao acordar.  
             Quando preparava o chá preto veio-lhe uma fagulha do que era, um estampido que espalhava luz e que a mancha em negativo revelava. Era sobre sua avó. Nunca sonhara com ela, nem quando era criança e ela, de certo modo, exercera uma influência factível de lhe impressionar; e nem quando morrera há oito meses. Ela morreu com 92 anos. A mãe de sua mãe. Chamava-se Mircéa. Tinha sido governanta nos EUA. Trabalhara com nomes importantes e pagavam caro pelos seus serviços. Quando voltara, após 50 anos que teriam rendido um livro de memórias fabuloso_ e, dependendo do grau de rancor que sua misoginia estivesse com a condição humana, bastante desiludido_, a vida se tornara para ela uma comunhão inexorável entre o tédio e a mesmice. A família aprendera logo a não usar com ela alguns dos atos sociais; perguntar sobre sua saúde, por exemplo, era cair na armadilha de ouvir como resposta a alma encarnada em uma senhora de um filósofo classicista alemão que não tinha nenhuma digna gratidão pela longevidade. Ela perfilava uma série de queixumes sobre doenças com minuciosa exatidão que fazia o interlocutor pensar o quanto a literatura do rancor perdia por não existir o tal livro de memórias. Sua avó e Schopenhauer; era uma espécie de Thomas Bernhard cuja Áustria cínica e repugnante que tinha para purgar era seu próprio corpo e os dias incontáveis que lhe restavam pela frente e que voltaram a ser tão asfixiantemente longos como os da infância. A última vez que Timos a vira, em um aniversário de 3 anos atrás, ela se recusara a olhar para ele quando algum parente engraçadinho lhe perguntou se ela se lembrava quem era aquele rapaz. Ela respondera, com uma lápide de mal humor que azedaria até o canto dos pardais se eles houvessem pela janela, que aquele não poderia ser o Timos que ela conhecera, tão lindo e arthuriano, e se transformara nesse bolchevique barbudo e mal encarado. Foram estes os termos que ela usara. Empregava um timbre de voz reticente, como se tudo que o mundo lhe emitia para que ela o conceituasse não merecesse senão aquele hausto de fôlego fissíparo. Timos sorriu, admirado por aquela estética altiva, e se sentara em silêncio duas cadeiras longe dela. Ficara magoado, de certa forma. 
            A avó tinha sido um exemplo de vida para ele. Um de seus discursos mentais quando o assunto era a crítica desiludida do padrão familiar de ganância por posição social e dinheiro e por cortejos sexuais de todos os estilos, era na avó que Timos pensava, em sua aspereza, sua concentração, sua corajosa disposição em não fazer parte do mundo óbvio e brutalizado. Sua mãe lhe contara que tivera pouco contato com ela quando era criança e mesmo na adolescência o círculo fechado com censuras atemorizantes contra a mulher que abandonara os filhos criado pela esposa substituta do pai (e pelo silêncio omisso dele) não lhe permitia que tivesse um real contato com ela. Você nunca pensou que teria se identificado com ela?, Timos perguntara à mãe. Ela o olhou com os olhos acendidos pela incrivelmente não cogitada ideia e negou, talvez para não dar o braço a torcer por aquela obviedade da qual não suspeitara, e a seu favor disse que Mircea se esvaziara dos sonhos e da ilusão necessária à vida, em prol de um regime espartano de pureza que a transformava cada vez mais em uma misantropa insuportável. A irmã de sua mãe, a tia Alda, havia adotado uma menina alsaciana e a velha falava pelos cantos sobre o derrisório tom oliva da pele dela, o que era sabido por todos. E a avó desprezava com veemência incontornável o prosaísmo daquele povo subdesenvolvido da cidade, tão avesso a atirar o lixo na lata de lixo e não nas calçadas e incapaz de dirigir um carro de modo minimamente não homicida. 
               Timos levava essas coisas como desabafo de uma mulher que exigira o divórcio numa época em que isso era a heresia inaudita que deveria servir a reerguer as fogueiras calvinistas na mente de todo mundo, quando descobrira a rede de concubinas que seu marido alimentava. As pessoas a admoestaram, viraram as costas para aquela esnobe embrutecida pela ilusão de casta que seus diplomas de pedagogia lhe incutira, e ficaram do lado do injustiçado esposo, o patriarca de cabelos colados à moleira da cabeça por vaselinas Iliodora e de bigodes perfumados que a maledicência popular jamais assimilariam dentro da visão pejorativa do cafajeste barato que seduz pobres arrumadeiras de quarto, mas sim como a estampa que necessariamente há de se ter um doutor farmacêutico que respeita tradicionais normas de higiene social. A mãe não a chamava de mãe, só Mircea, o que, com os anos, ia apegando certo desconforto e o nome ganhava na boca das filhas refratáveis um peso excessivo, como se em vez do nome daquela mulher que suportara tanta solidão e se demonstrara ser uma rocha de vontade e persistência estivessem repetindo a alcunha de um demônio que já não as aterrorizavam. 
          Naquelas cartas, Timos disse à sua mãe, sobre os gordos pacotes de folhas amarelas apergaminhadas que Mircéa, inesperadamente, começou a enviar dos EUA para ele do nada, cheio de pensamentos recolhidos e retumbantes, naquelas cartas ela não se mostrava dessa maneira sem vida; pelo contrário, ela me contou tudo do seu ângulo de visão, o que acontecera entre ela e meu avô para que ela atingisse tal ponto de escolhas. A desembargadora jamais permitia que falassem contra seu pai, o icônico e estranhamente canonizável pelos tantos pecados que tinha boticário, era a fraqueza reservada para sua mãe ter entre as tantas qualidades de vulto de sua inteligência e sua independência. 
          A mãe o olhara com o cenho já posicionado para exigir que ele mudasse de assunto, tendo retido a colherzinha na xícara de chá, mas Timos trafegou espertamente para um atalho. O avô se casou com a empregada, não se casou?, depois que Mircéa saiu de casa e atravessou o oceano para a América, havia uma madrasta na sua casa, não havia? Então eram fatos, a desembargadora não podia ir contra eles, eram notícias da narrativa da família bastante conhecida e já chegando ao estágio de não ter mais quem sentisse vontade de examinar mais o assunto. Pois nessas cartas, Mircéa falava das agruras do novo mundo, da estranheza que era falar uma língua que ela aprendera na academia por questão de ler os volumes de educação internacionais não traduzidos no país, mas que agora ela tinha que utilizá-la para sobreviver não mais com a cultura, mas com a subserviência doméstica, saber como se fala polidamente com uma madame casada com o mecenas das pias de banheiro de porcelana Avidecent, ou como lidar com o rosto gargulino do agente de emprego que lhe pergunta quais as condições de contrato que ela leu no formulário 25 estariam de acordo com sua capacidade de mão-de-obra, se sua instrução era de grau 4 ou 9, se ela sabia o que era uma comunhão de direitos empregatícios em que um casal em litígio de separação receberiam-na na casa em horários diferentes para não terem que se ver nos momentos mais delicados da questão judicial. E ela voltava para casa depois dessas aventuras sombrias, atravessando as ruas geladas de geometrias que deveriam lhe oprimir por se sentir apequenada naquele universo prisional que lhe lançara muito cedo um destino que pouquíssimas pessoas conseguiriam suportar. 
            Você já pensou por que ela mandava essas cartas para mim?, Timos perguntou, e a mãe, nunca querendo ser engolida pelas sugestões perigosas que a falsa simpatia do filho abria naquelas vastas visões panorâmicas, sorria e dizia que era porque ele era o único que ela não conhecia para odiá-lo. Você tinha 13 anos e ela ainda não te conhecia, só foram se ver dois anos depois, quando ela retornara para cá. Pois eu sei, ele respondeu, o tom triste e extasiado ao mesmo tempo, o que não era um oximoro impossível na prática quando ele já antevia a alegria que lhe causava quartos solitários em um dos quais era o quarto do apartamento da mãe em que ele abria as cartas da avó e as lia com uma atenção perfunctória, como se o amarelo inusitado da folha alimentasse a impressão de que desvendava uma segredo faraônico reservado apenas a ele. Tudo bem, Timos, e mãe, que havia tomado o chá talvez mais rapidamente que em uma situação em que o espírito de revisão das anistias mútuas de todos os envolvidos não estivesse tão alardeante, enxugou as mãos em um pano de prato após lavar a sua xícara de carrara e se voltou pronta para ouvi-lo com exímia atenção, mesmo que isso pudesse envolver passagens do discurso que poderia por o dia de comunhão entre os dois em ruínas. Timos a olhou fundo nos olhos_ essa conversa acontecera há 20 anos, como tudo na vida do progressivamente distante Timos parecia ter ocorrido_, as pupilas tremendo e as mãos crispadas em um gesto teatral shakespereano, um tanto inconsciente nele para que se importasse com o ridículo. Ela sabia que eu era o primeiro da nossa família a nascer livre, ele disse.
           Ele era ainda muito jovem para ter dito isso. Teria acreditado mesmo nisso em algum momento da juventude, naquela falácia tão fácil de cair mesmo os espíritos calejados? Livre de quê, se ele estava na fila da consumação em passo lento e regrado para fazer o mesmo cronograma que todo mundo. Fez sua faculdade, ingressou-se em uma escola ouvindo o eco daquele coro repetido à exaustão de que melhoraria os índices educacionais do país, e só encontrara a mesma falta de horizontes, alunos basbaques sentados com nébulas de distrações nos cérebros, dispostos a soldarem os ouvidos e se entregarem ao mar infinito de aberrações da mentira. Para quem então sua avó escrevia? Quem ela fantasiava que algum dia aquele menino ectoplásmico que alguma vez deveria tê-la visitado em sonhos se tornaria? Um filósofo, um eremita, um médico, um advogado. Não conseguia acreditar que no fundo daquela renitente esperança dela houvesse a imagem de um adulto misógino e arredio, e aqueles fossem seus ensinamentos de como odiar o mundo com suficiente estilo. Manual do rancor da senhora exilada, da diaba branca da família que andava pela vila nas noites de lua cheia atrás de sua filha diaba desaparecida. Por detrás daquele ensejo havia sua última fé de que a criança que a lia de alguma forma não seria contaminada por suas palavras amargas, sua apreensão sufocante da realidade de presídio de toda a terra.
                Ela destilava sua ira, exsudava um tanto do fel de seu desespero calibrado no papel, mas não queria que o menino fosse intoxicado. Era o paradoxo da condenada que joga suas cartas pelas grades do presídio supondo achar o ouvinte perfeito, e entre tantos andantes pelo muro do lado de fora ela havia tido a sorte rara de ter à sua inteira disposição um mensageiro já pronto, já visualizável com alguma exatidão entre a névoa de sua utopia. Ele não soube dizer isso à mãe, mas a mãe entendeu bem o que ele queria dizer. Ele interpretara que ela lhe ouvia com uma aquiescência aceitando a sua exclusividade cheia de expectativas no caminho diferente que ele seguiria para não se tornar um boçal, achava com orgulho que botara a desembargadora no chinelo e mostrava a sua originalidade predestinada, o segundo membro da família, ele e a avó, que romperiam para si o muro do dogma escritorial em que os outros estavam trancados do lado de dentro. E os anos se passaram e a avó não o reconhecera. Depois de todas as cartas, depois que retornara da América e os dois se encontraram e tomaram alguns sorvetes, e ambos insistiram durante um tempo em forçarem aquele laço que perdia desamparadamente o laço quando transposto das palavras para a atmosfera, ela o rejeitara como um traidor, ela o excluíra de seu hermético clube da dignidade rancorosa que tinha apenas ela como membro.
         Antes de ir para a clínica, na madrugada fria em que os ruídos já eram ouvidos pela ciência da acústica formada entre canos, cimento, vácuo e pessoas nas ruas, ele se lembrou do sonho. Havia uma sala ampla, bem iluminada, com uma luz incisiva de uma série de lâmpadas fluorescentes, paredes brancas e uma ressonância oca e infinita que revelava que era uma estação de passagem, uma zona de embarque. A avó estava sentada em um dos bancos largos de metal, solitária como em um documentário sobre a velhice abandonada. Ela estava vestida com um terno cinzento, bem alinhado, saia da mesma cor tendendo para o branco, um lenço bem apessoado no pescoço, um uniforme inglês que revelava uma distinta funcionária exemplar. Seus sapatos eram escuros e bem tratados, ela devia engraxa-los todos os dias, mas na posição em que estava sentada, com as pernas juntas em v lateral, os tornozelos em primeiro plano e os pés enfiados suavemente para debaixo do assento, revelavam que estavam frouxos nas laterais, como se os houvesse comprado por engano ou por alguma comodidade econômica um número maior, como se estivesse cansada, um cansaço malbaratado, como se aquele local ermo a que ninguém pareceria apetecível a agradasse. Um local que era um retrato de seu espírito. No sonho ele observava a cena sabendo-se que não estava lá, a limpidez da imagem sendo transmitido para suas vistas concentradas como se numa tela, um cinema frio e escuro que cambiava o que sua avó sentia no exterior da pele por sob o terno estando naquele local. 
         O rosto dela estava desfocado, ou a mente em atividade idílica de Timos não estava sendo totalmente receptiva no centro da projeção. Ela não o via, os dois estavam mais distantes que duas galáxias, talvez ela estivesse em outro mundo, no mundo de lá, no tal reino dos mortos, talvez aquela amostra de sua nova aventura na opressiva eternidade fosse mais uma das reativações constantes do enigma que esse lado de cá não se cansa de propor, um novo mistério dentro de incontáveis outros mistérios que nunca seriam resolvidos porque seu propósito era apenas uma gratuita enganação. Quem o propôs, se havia mesmo algum jogador, não se preocupava nem um pouco com alguma lógica coerente, algum resultado que zerasse a equação. Depois acordara, ou passara para outras questiúnculas que pregara em sua percepção durante aquele dia e que tentavam por alguma razão absurda se resolverem na forma de sonhos_ como se a vigília fosse um estágio desacreditado na ortodoxia da dialética das sensações acumuladas e a resolução do que elas queriam dizer passassem para a ludismo do sono.
         Sua avó não era só a primeira exilada da família, pelo menos na linha recente dos últimos cem anos buscados na árvore genealógica, mas também era a única suicida. Aos 97 anos, ela se dera ao luxo de se matar. Até isso foi ao gosto dela, partiu de seu inteiro livre arbítrio destituído de glamour. Não usara veneno, como parecia ser a escolha de maior sucesso entre os velhos, pendurar-se por uma corda pelo pescoço deveria lhe parecer pavoroso e de contra toda a ética de sua vida, assim como qualquer das outras soluções que desfigurassem o corpo. 
        Na certa imaginava que seria uma vingança oferecida em bandeja para todas as pessoas que desprezara ostensivamente se suas pernas varicosas, sua pele sensível ao nível de se rasgar por um simples toque, se sua cara sem o eufemismo da maquiagem, de um azul baço e libidinoso que só se via na carne no estágio terminal da vida, aparecesse em alguma situação fora de seu controle, atirado do quarto andar no asfalto, esfacelado por um projétil. Isso estaria fora de cogitação. Por isso ela resolvera apenas parar de comer. Fechara a boca não só para as papinhas indignas e as frutas picadas que as enfermeiras particulares lhe davam, como também parou de conversar. Não emitiu nem o mais sussurrante som. 
          No final do primeiro dia, as enfermeiras telefonaram para a desembargadora e para o outro filho advogado, tio M. Eles foram para o apartamento e encontraram-na deitada na cama de solteira, os braços e pernas rígidos da antiga menina emburrada, talvez era assim que ela ficava na cama de febre quando sua mãe lhe trazia a sopa, encontraram-na olhando para um ponto só no espaço, determinantemente não cruzando o olhar com seus filhos ou com qualquer outro espécime deste mundo pueril em que ela estupidamente, agora via, perseverara em estar. A desembargadora lhe falou com um tom amável sincero recuperado no fundo de todo o depósito de atitudes defensivas que tivera contra ela ao longo da vida. 
              Não era mais a mulher anacronicamente elegante que tentava falar com ela no quintal de casa, aparecida como se do nada mas que se tratava de um arranjo estratégico dos adultos envolvidos para permitir que chegasse nos filhos sem os espantar, sem os estarrecer; era apenas o resquício do antigo ego poderoso, era a desistência, era o arrependimento de ter sido enganada sempre de que havia um pote não de ouro mas pelo menos de um respeito surpreendente e resplandecentemente novo que os esperassem no fim de toda aquela indignidade pujante e asquerosa que eles tinham que atravessar sem propósito algum. Era só uma velha senhora sem mais cartas na manga, sem mais ódios, sem mais rancores, sem mais disputas, sem mais enfrentamentos para ver se encontrava o palhaço que iria lhe colocar nos ombros e passear com ela pelo picadeiro circular acima de todos os outros a escolhida, não mais palavras frias e bem calculadas para desestabilizar, não mais olhares atravessados que dardejavam pelos cantos, nada mais disso. Tudo um imenso tempo perdido, tudo um grande exercício de idiotice em que ninguém nunca era melhor que ninguém, apenas igualmente imbecis. 
           E o filho, o advogado de controle absoluto sobre seus sentimentos, que falava com uma voz de trovão que treinara durante toda a adolescência e juventude, até firmar-se como algo natural seu, segurando-lhe a mão e tentando invoca-la daquele invólucro, falando com uma tenacidade que usava com seus clientes no escritório, acreditando que naquele assunto exórdio as regras do mercado de invocação da verdade relativa também funcionassem, era só repetir o mantra cotidiano. 
         Chamaram a ambulância e a levaram para o hospital. Dois dias do mesmo modo, e ela entrou em coma. Os vidros opacos que se adaptavam à luz ambiente e as horas rígidas para que só os filhos visitassem na UTI cara impediram, enfim, que vissem a desfiguração inevitável de toda maneira que seu corpo sofrera, as veias azuis sob a camisola comunal e despersonalizante, os aprofundamentos zigomáticos da murchação da carne. 
        Timos estava na clínica quando a mãe lhe telefonara para avisar que a avó morrera. Nunca ouvira a voz da mãe daquele jeito, tão triste, tão sombria. Ela só falara o básico, não queria consolações e nem entrar em muito detalhe. Não lhe pedira para que fosse ao hospital, mas ele sabia que era isso que ela mais desejaria, e ele saiu às pressas só avisando para Ofélia, que lhe olhou como se a informação de que tivesse uma avó, e ela fosse humana o suficiente para morrer, o demovesse do local onde ele estava na zona resolvida em que ela definira com um prego numa placa de isopor.
          Na época, quando vestira o casaco e abrira a porta, parando na calçada para se situar de volta no frio de chuva e vento da rua, passou-lhe pela cabeça que um círculo se fechava e que seria num dia apropriado que os dois se encontrariam novamente. Era uma história sem encaixes narrativos satisfatórios e completamente entregue à aleatoriedade, mas o velho cinismo cósmico, que muito provavelmente trabalhava em ponto morto, continuava insinuando que havia um sentido por detrás das desbastadas camadas do enigma. Se tinha uma coisa que ele determinadamente não desejava era ir ao hospital.


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Já pensou?

Já pensou se todos os delírios do brasileiro médio se tornassem realidade?; um país em que acontecesse, ao mesmo tempo, do governo mais capitalista da sua história ter feito uma revolução comunista bolivariana; em que os estados do sul e São Paulo decretassem independência e terem, assim, se transformados não nos óbvios Paraguais que seriam seus destinos, mas em Suécias confortáveis e subitamente de altos padrões culturais e financeiros; em que o mundo dobrasse os joelhos e confirmasse que Olavo de Carvalho não só é o maior pensador da atualidade, como é o maior depois de Sócrates; em que os Alexandres Frotas, as Joices Hasselnãoseidasquantas, os artistas ex-globais falidos e sem fama, os playboyzinhos neoliberais que querem viver das custas do estado, os youtubers, etc, assumissem todos o poder e se revelassem não os parvos mercenários com medo do desemprego que são, mas gênios econômicos que provassem a todos, através de uma riqueza generalizada, que a venda da nação era mesmo o melhor a ser feito; em que um fascista era eleito e se vestisse de Rambo e saneasse todo o país com ações pirotécnicas de altíssimo risco mas afiadamente eficientes, matando bandidos, explodindo favelas, empalando políticos corruptos na praça do Congresso, tudo antes do churrasco de comemoração cossaca cristã feita pelos seus nobres seguidores com fogueiras a céu aberto, e tudo com trilha sonora adrenérgica e filmada em tempo real para de quebra promover o excelente cinema nacional; em que, além disso tudo, houvesse um sistema político em que seus personagens não fossem primeiras damas inexpressivas que caíssem em lagos para salvar cachorrinhos, nem mandatários e chefões da políticas afundados em uma cafonice e breguice sem igual, mas príncipes e princesas e duques de uma realeza finíssima e elegante. Pena que todo esse sonho esquizofrênico tão lindo seria imediatamente destruído, escoado para o abismo, visto que o planeta teria se tornado achatado pois o delírio atenderia também aqueles brasileiros que acreditam que a Terra é plana.

domingo, 1 de abril de 2018

Azulejos



Não tenho a inteligência funcional que fez ricos alguns integrantes da minha família. Sou um completo estúpido em relações publicas, a ponto de não transmitir muito entusiasmo no cumprimento aos vizinhos. Não sei parar de frente ao portão e ficar alguns minutos na troca de conversa funcional cujo propósito não é o conteúdo do que se diz em si, mas o som da fala preenchendo um tempo contábil de cordialidade para que no natal se tenha o nome lembrado na oração junto à mesa da ceia, ou para ser avisado para prender o cachorro e recolher as crianças no quarto porque um ouriço-cacheiro fora visto passando pela rua, ou para dar o número do telefone à moça de voz anasalada do crediário e ela possa ouvir pelo outro lado que somos gente de boa índole e polidos de qualquer extravagância, nunca tendo sido flagrados andando ao lado do muro olhando os pássaros ou contando as nuvens, ou parando no meio dos gestos marciais vespertinos para falarmos em como Albenondes fez mal em não levar Lucinda para um passeio na carruagem do conde de Wallenberg; enfim tão normais quanto esse homem dócil que certo dia a polícia resolve cavar a terra dos fundos de sua casa e encontra enterrados 37 cadáveres de mulheres que outrora todas tinham os cabelos curtos, na faixa de 27 anos, ascensoristas por temperamento e adeptas do uso de maquiagem facial indelével. Nunca ficarei rico por esses meios e tampouco me elegerei para a Câmara Municipal.

_________________________

A impressão de que estava ficando louco me tomava conta quando era mais jovem. Era algo perturbador: eu achava que fosse implodir e uma apreensão da verdade não permitiria mais que eu continuasse vivo. Aos 17 tive uma crise. Dizem que a coisa não vem de uma vez, mas vai se criando. De súbito o tecido estendido ao máximo se parte e tudo nos cai em cima. O cérebro não apaga a coisa com a tarja de Censurado por Questões de Sanidade, como faz com acidentes físicos ( minha mãe nunca se lembra das 17 horas entre o traumatismo craniano e a primeira fase da recuperação); é como se o cérebro quisesse um porta-retrato de sua maturação radical por inteiro, e o cérebro é o cérebro fazer o quê. Estava sentado no banco de uma praça, à noite, o avião que estacionaram no lugar da fonte, em memória a um general esquecido ou a alguma virtude de derrota de guerra, pressagiando a vertigem das superposições significativas, e me veio uma imensa lucidez, um instante em que todos os ornamentos sumiram e só ficara eu e um infinito vazio contra o qual não se erguia nada, dentro do qual nenhuma sombra ou luz se enunciava, uma espécie de plenipotência do átomo que não se deixava questionar ou transcender. Uma iluminação do avesso de que eu era matéria orgânica perecível, e só. Durou, creio, uns cinco minutos, mais eu não aguentaria. Quando foi embora o foi por inteiro, um ruflar de asas em que não sobrara uma pena para mostrar como prova. Só a marca em baixo relevo da lembrança, como a impressão que a radiação desenha no chão, contornando a forma do corpo evaporado.

______________________


Conheci depois uma moça que viveu 7 meses nesse inferno. Era amarrada na cama pelos pais, nos primeiros meses, e monitorada sem trégua obedecendo-se a regra severa de não se deixar nenhum objeto perfurante por perto, nenhum cadarço, comprimidos, trancando-a durante o dia e se sentando ao lado da cama à noite, ouvindo seu respirar de animal ferrenhamente obcecado  pela fuga, seus olhos atentos que apareciam vagarosamente no escuro por sobre o travesseiro, solenemente planejadores. Os pais não aceitavam visitas; a casa, naquele descuido em que se deixa levar pelo desvelo, foi ficando cheia de sombras e silêncio, de forma que as pessoas de fora se questionavam se isso não agravava a situação da enferma, mas os pais sabiam que a depressão dela atingira um nível de auto-gerência tão profundo, que aspectos de fora não lhe significavam nada. Era uma colega de faculdade e uma noite os pais permitiram que nós entrássemos para vê-la, talvez isso lhe fizesse bem, ver os antigos amigos.  Era uma moça realmente linda, com traços exóticos indianos, apesar de não ter nenhum ascendente oriental conhecido. Eu brincara cortejá-la certa vez, mas tornamo-nos mesmo era amigos. Ela estava de camisola, sentada atravessada na cama, com as costas apoiadas contra a parede. Tinha um ar coloquial demais para ser alvo de um experimento psicológico, de maneiras que caímos na leviandade de que nosso humor despudorado conseguiria fazer o que os médico falharam. Ela não era receptiva a nenhuma de nossas brincadeiras, estava além de qualquer contato, não se zangava e não tinha auto-crítica. Utilizando o espaço da fala destinado aos atos sociais de como vai e como foi o seu dia, nos comunicou que iria cortar os pulsos. Isso para ela não tinha nenhuma importância. Ela se recuperou. Casou-se com um fazendeiro. Tem hoje, o que se chama de uma vida normal. Na verdade me pareceu que ela nunca se curara, mas atingira um estágio adaptativo de encenação persistente mas pouco talentoso. Percebia-se a tendência de seus olhos para a dispersão. Seu marido era obtuso o suficiente para achar que uma mulher colada à megalomania financeira era assim mesmo, uma boneca de carne da qual não é cavalheiresco exigir participação efetiva na realidade. Como naquele pesadelo em que o sonhador vai saindo de um quarto para outros infinitos quartos exteriores até chegar ao último que lhe possibilitará acordar incólume, ela parecia ter sido desperta antes de completada a jornada, e ficado confinada numa zona intermediária para sempre.

_______________________________




A foto mais memorável de Robert Capa, entre as tantas que fez em sua incursão com John Steinbeck à União Soviética, foi apreendida pelos guardas do partido. Mostrava a menina louca de menos de 8 anos que morava sozinha nos escombros de uma rua bombardeada. Acostumara-se a viver como um animal, e em determinadas horas podia ser vista saindo do meio das lajes destruídas, com seu único vestido esfarrapado, seus pés descalços imundos, para pegar o pouco de comida que as pessoas sacrificavam de seus já minguados orçamentos para alimentá-la. Na verdade não era fácil vê-la. Mas a câmera paciente de Capa conseguiu flagrá-la em sua pressa arredia, em suas feições consonantais. A foto se perdeu para sempre. Consigo imaginar seus prováveis ângulos, a luz na qual foi tirada, a plasticidade do cenário em preto-e-branco ao fundo, mas  nunca consegui imaginar a menina. Quando tento, me vem apenas os modelos de Sebastião Salgado, ou uma criança feliz, com ambos os pais, selecionada num teste de estúdio. Uma representação de uma grandiosidade dramática falsa e previsível que sei que ela jamais teve.