Na faculdade eu tinha uma amiga que era fã de Hemingway. Ela era miúda, de óculos, ruivinha, e fazia medicina_ e era apaixonada por Hemingway. Era tão exótica em seu ambiente quanto eu com meu livro do William Golding nos pátios da Veterinária. O que mais me espantava não era o fato dela estar se integrando nos quadros da profissão que menos lê além dos compêndios técnicos, mas pelo fato dela, tão feminina, gostar de um autor que volta e meia utilizava a apologia de seus "colhões" como eixo condutor da frase. Eu perguntava para ela, realmente querendo saber, como uma mulher suportava ler Hemingway. Na minha incapacidade de correlação, imaginava que seria o mesmo que um homem ler Barbara Cartland. Ela me respondia que adorava aquele masculinismo, mas compreendia talvez de uma maneira que me faltava os meios a fragilidade do autor. Ela, por exemplo, detestara Adeus às armas, achava-o esquemático, cheio de clichês, com um final tão falho quanto um desfecho de uma novela televisiva mexicana, enquanto eu ainda estava sob o fascínio da extrema concisão daquela última página que, repeti para ela, segundo consta, Hemigway a reescrevera 30 vezes. Por outro lado, ela e eu dividíamos a reverência pelos contos de H., em especial Gato na chuva e Montes como elefantes brancos, e julgávamos também de comum acordo que Do outro lado do rio, por entre as árvores era seu melhor romance. Guardei desses anos meu preconceito ingênuo de achar que boa parte da literatura era insultuosa para mulheres, já que era escrita por homens e para homens.
Hoje estava acabando de ler o livro As pequenas virtudes, da Natalia Ginzburg, publicado pela Cosac Naify. Vou admitir: já li várias escritoras, mas só agora, com esse belíssimo livro em mãos, entendi. Talvez só me veio a compreensão porque, de forma geral, Ginzburg seja a mais feminina das escritoras. Ela, felizmente, não tem a ostensividade de gênero que às vezes extrapola o vulgar em Hemingway. Ginzburg é... como direi...absolutamente sem medo, absolutamente verdadeira. Não há nenhum artifício nela, para o bem ou para o mal. Ela é feminina de um jeito primordial, nela está a resignação e algo que transcende a resignação da mulher diante a sina de sofrer pela imaturidade e instabilidade do macho. Nunca vi uma escritora tão só, e tão preenchida da missão em analisar puramente a solidão da mulher no século passado, nas guerras, na deportação, no exílio. E o mais belo nela é sua desproteção, sua maneira de ser gigantesca sendo pequena. E o que torna isso maior ainda é que, ao contrário da literatura masculina, ela não precisa da astúcia para ter legitimidade, não precisa do ódio, do rancor, que são tão características da literatura produzida pelo gênero masculino. Todos os contos desse livro, grande parte bem ligeiros, são obras primas, calam fundo, são brisas frescas em um quarto acolhedoramente escuro. Não tem como sair desse livro sem cultivar um amor pela Ginzburg, sem procurar sua foto e ver seu rosto expressivo, não trivial, de ângulos tão propícios ao sofrimento e à reflexão, seu rosto espichado, pouco bonito, ou feito para ter todo o esplendor de sua beleza recolhida na velhice. Seu rosto não tem a propensão à neurastenia da Virginia Woolf, é bem mais forte; vê-se isso em sua falta de pudores para sorrir e se comportar com sua saudável normalidade nas fotos, ao contrário de Woolf, cuja incapacidade de sair da ética burguesa feminina de posar como um fauno deve tê-la irritado bastante. O conto Ele e eu, presente nesse volume, mostra seus sentimentos resignados diante a imposição patriarcal do marido, diante seus sarcasmos e sua tirania em rebaixá-la. Ginzburg usa de toda sua fragilidade assumida para construir uma das reivindicações mais tocantes para a liberdade de ser simples sem ser simplória; ela acaba saindo com uma estatura bem mais íntegra no final do conto do que seu marido, sem que, repito, tenha usado de nenhum artifício melífluo para tal. É um conto que em meus anos de ingenuidade eu acharia se tratar de uma literatura inócua ao homem, só assimilável a uma outra mulher, como um segredo, uma identificação, um sinal de pertencimento. Hoje percebo o mesmo que minha amiga, bem mais inteligente do que eu, em fazer da leitura um aprendizado sistemático, imune a clubismos. Uma felicidade sem tamanho ter encontrado esse livro.










