segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Situações



Por que estou imune aos recorrentes temas sobre a situação brasileira? Deixei disso, deixei de me interessar. Foi uma desistência tão sincera e inerradicável, que a avalizei ao detectar uma profunda tranquilidade em mim. Sobre o Brasil, tenho a lucidez de saber que talvez nunca vire o milionário em cujos meus planos me permitiria me deportar daqui para outro país. Assim, me abstive por questões estomacais de assistir telejornais e de dar a costumeira passadinha de olhos pelas manchetes cibernéticas. Tenho lá meus furores teatrais, meus complexos de vira-lata, mas não passa da conhecida sensação de cócegas do membro já amputado. Não há jeito; não há como fazer. Percebi que tal preocupação, de tão ingênua, pode causar um dano físico concreto. Vou dar apenas dois exemplos, rápidos e práticos, do por que não me preocupo mais e sigo vivendo minha vida singela sem dramalhões colossais.

Primeiro: na cidade em que moro, considero uma felicidade ter três amigos tão fanáticos por livros quanto eu. Quando eu ainda era abalável o suficiente pelo panorama, eles me salvaram de tédios profundos, aparecendo como por milagre ao final do dia para um daqueles momentos que me davam a certeza de estar "realmente tendo uma conversa fenomenal". Um deles, o Emerson, chega a ler bem mais do que eu. Ele parece mais um reciclador automático de livros do que propriamente um leitor. Basta dizer o título de um livro, que ele aciona sua voracidade efetiva, e lá vai ele engolir o tal livro. Assim se deu com coisas que eu jamais vou ler, como O ser e o nada, os livros do Dan Brown, ou cinco livros tomados emprestados da bibliografia de Freud, que ele os meteu para dentro com uma abnegação pelo sacrifício tão pura que parecia ser mesmo apenas uma questão de movimento pavloviano dos olhos. Pois este amigo é um professor concursado do serviço estadual de ensino na minha cidade. É um tipo folclórico, cabelos grisalhos rebelados circundando uma tonsura, barbas longas no mesmo feitio, olhos azuis minúsculos, e o costume sedimentado de usar somente bermudas e camisetas, estas últimas a maioria produzida por ele com estampas de aforismos literários que ele vai colhendo no meio de seu jardim de leituras estoicas. Ele usa bermudas para trabalhar, e é folclórica também a foto gigante grudada na parede de sua sala em que sua esposa aparece radiante de felicidade em seu vestido cerimonial de noiva, com buquê nas mãos enluvadas, ao lado de um Emerson com paletó e a bermuda corriqueira da qual não abriu mão nem no casamento.

Imagina-se o nível de pensamento crítico que um professor assim provoca em seus alunos, ou na parte minúscula deles desperta na sala de aula. Emerson é um típico professor engajado brasileiro. Uma personagem busterkeatoniano. Um Quixote. Ou, em menor grau pejorativo, um desses professores ranhetas que lotam a cenário nacional com sua estampa clichezística de devoto da esquerda e antigo leitor dos Cadernos do terceiro mundo. Independente de qual dessas facetas o enquadre, o certo é que se trata de um tipo perturbador, o que, casado à sua obsessão pelo trabalho, vem dilapidando a sua saúde ao longo dos anos. Direto vejo ele, em pleno domingo e feriado, preparando aulas, fazendo downloads de documentários didáticos, usando seu estômago forte de leitor multitudinário para digerir intragáveis livros sobre pedagogia moderna. Daí que ele teve dois princípios de enfarte, e teve que se correr às pressas com ele para a capital. Até então, ele fazia por relevar seu quadro depressivo medicado por tarja preta, pois lhe configurava certo charme dissidente. Mas agora, com o coração negando fogo, ele sentiu aquele gosto laminar na boca que parece vir da faca que lhe cortou todo eufemismo de permanência. Assim, finalmente seguiu os conselhos dados por nós seus amigos, e relaxou. Abriu mão da tarefa além da vida de salvar os jovens brasileiros da bestialidade e da alienação. Só faz o necessário.

Pois bem, e o que fez o Grande Sarcasmo Nacional com ele? Preparou uma retalhação genial, destruidora, desses atos majestosos da tragédia em que nada sobra de pé. Escombros. Esse paisinho sem graça e previsível inventou de lhe retirar as raízes que o sustentavam em seu desesperado ato de sobrevivência. Não bastasse o coitado sofrer do coração às custas do absurdo cotidiano, o paisinho quer-lhe agora o fígado inteiro. Ele me contou, os olhos azuis ainda mais afundados: a partir de janeiro do ano que vem, o colégio onde dá aula será militarizado. Em cada cidade do estado, um colégio será entregue aos militares. Daqui, pois, quatro rápidos meses. Ele terá que fazer a barba, vestir-se de calças compridas e tudo o mais que lhe mandarem fazer. Talvez bater continência, e envergar seu vasto conteúdo intelectual diante algum coronel cujos horizontes costumeiros não vão além dos mesmos muros e mesmos escritórios de ofícios marciais expedidos. Um coronel que ganha, deixa eu fazer aqui as contas, seis vezes e meia mais do que ele. Ou prestar a mesma prostração regimental diante um tenente que ganha três vezes mais, ou diante um soldado que ganha quase duas vezes mais do que ele. Todos esses ganham mais e trabalham bem menos. Todos esses são acobertados por lei para se aposentarem com 25 anos de carreira, enquanto meu amigo Emerson, que purga a mais insalubre das profissões, terá que passar por aquela conta sarcasticamente mirabolante da Rainha de Copas de somar 95 anos para se aposentar. Já insinuaram os segredos que devem ser preservados na caserna-escola, as partes dos livros que devem ser recondicionadas, mutiladas ou reescritas de maneira angularmente reversa. Ele imagina, se é que consegue, os alunos marchando no pátio, a burocracia anacrônica opressiva que irá se instaurar em um meio tão inócuo a ela, e que irá recair em cima de professores que, como ele, que estão a mais de dez anos na profissão, me parece de uma verdadeira violência. Isso será um evento único na história recente de um país ocidental democrático, um dos ineditismos servidos a escusos interesses individuais de alguns escolhidos para o enriquecimento descomunal que acontece nesse paisinho, sempre às custas do interesse público e da mínima lógica funcional. E o povo... o povo faz a sua parte... aplaude, tece loas, se arrebanha com a boca de caninos sedentos nas pre-filas para a matrícula de seus filhos que passarão por uma seleção meticulosa de admissão... o povo se compraz a ser apenas o povo de paisinho falido, fingindo que não sabe quem são os felizardos que aumentarão ainda mais suas riquezas com contratos de sistemas de ensino inventados às pressas para se inserir no esquema todo.

Segundo: um dos humores da minha vida é sempre me prestar a metáforas vivas, iridescentes, espraiadas na generosidade simbólica do meu cotidiano. Querem saber a nova sobre os representantes das mentalidades nacionais? Com vocês, os personagens dessa comédia: o intelectual inexpressivo, os playboys filhos de papai, a força policial mancomunada, e o povo... ahhh, o povinho boçal e sem representatividade...

Comecemos. A casa que faz divisa com o muro detrás da minha casa está desocupada faz anos. Serve, apenas, para festas retumbantes, com som automotivo e gritos dos jovens filhinhos de papai que voltam de suas faculdades na capital para curtirem finais de semana e feriados prolongados. Me informei: são os filhos de comerciantes locais, de dentista (o mesmo que me fez duas restaurações nos molares), de médico e não sei mais quem. Os caras usam a casa como se não houvesse amanhã, ou como se estivessem em uma ilha sem ninguém por perto. Como moro em um paisinho bem típico, sabendo da necessidade de se engolir sapos para poder aumentar o número de dias em sua calculadora etária, o que é salutar de se fazer no país ocidental mais violento do mundo, nas primeiras festas eu relevei. Mesmo impossibilitando sono de minha esposa grávida, e o meu, nós relevamos. Se tivesse acordado minha filha Júlia, lá vai, mas a Júlia não se incomodou nem um pouco com isso. Mas eu chamei a polícia várias vezes, e os boyzinhos, nossa classe intelectual por direito nominal configurado, visto que são todos universitários das faculdades de direito e medicina e odontologia, futuros juízes e senhores de nossos destinos e de nossas vidas, foram informados pela polícia que o reclamante era o vizinho do muro de trás. Daí começou a provocação. Janelas batendo às sete da manhã. Latas de cerveja atiradas na frente de casa. Uma vez uma sacola de lixo aparecendo no meu quintal. Eu filmei tudo. Produzi umas duas horas pormenorizadas de documentário sobre tudo. E fiz uma denúncia na delegacia. 

Coloquei a minha vizinha da direita, que reclamou vorazmente da balbúrdia para mim, e outro vizinho, como testemunhas. O que aconteceu? Quando chamados pela delegada, afirmaram que não ouviam nada porque, 1, tomavam corticoides que os apagavam, 2, que ouviam assim assim certo ruído, mas que isso não lhes incomodavam em nada. Não incomodavam, sendo que as vidraças da janela chegam a tremer. A delegada é a mesma da qual paguei três colchões de multa para a Santa Casa por tê-la "desacatado" por certa vez exercer meu papel de crítico em dizer que ela era negligente com seu trabalho. Não tem ela, pois, razão para gostar de mim. Mas as evidentes tentativas para descaracterizar o crime, partindo dela, não tinha só a ver com sua antipatia retaliativa por mim, mas porque o dono da tal casa foi funcionário comissionado da delegacia por dois anos, e este levava a delegada mais seus dois cãezinhos para consultas em clínicas veterinárias na capital, utilizando a viatura nas viagens. Os policiais só falaram a verdade nos depoimentos, porque eu fiz questão de ser taxativo em dizer que os havia filmado duas vezes em que foram acionados comparecendo à frente da casa e pedindo com excessiva polidez para que os filhos dos ditos poderosos "abaixassem um pouco o volume". É de gelar o sangue diante a potência metafórica sobre a fervilhante corrupção pátria ver todos esses elementos reunidos.

Me faz lembrar um conto de Chécov, em que um senhor chama a empregada de sua casa e passa a violentá-la com palavras, a insultando, a acusando de crimes imaginários, até fazê-la chorar descontroladamente, para então sorrir e confessar que tudo não passava de brincadeira de sua parte. A serviçal sai aliviada e feliz do quarto do amo, e esse conclui: "Meu Deus, é por isso que esse país está atolado na lama, com um povo assim."

E depois querem que eu leve a sério o que aconteceu neste dia 16 de agosto?

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Close Cover


Para quem viu o encantadoramente artesanal documentário de Marcelo Masagão, Nós que aqui estamos por vós esperamos, a trilha sonora se encontra neste álbum. Mertens é um músico belga que tem em sua discografia mais de 50 álbuns, que se destacam pela sensibilidade, experimentalismo e delicadeza de uma obra boa parte centrada em uma brilhante expressão minimalista. A história da união improvável entre Masagão e Mertens é a história de um cineasta brasileiro fã de um músico belga, que lhe escreve pedindo permissão de uso de suas músicas, e que recebe uma generosa concessão que irá render a composição exclusiva para mais um outro filme. Difícil não ficar tocado pela beleza de músicas desta seleção, como Close cover, Humility, Often a bird, Iris, The scene.


domingo, 19 de julho de 2015

Gato e rato, de Günter Grass



Já faz alguns dias que coloquei este livro no canto do blog como "Lendo", só que só fui pegá-lo para ler hoje. Comecei a lê-lo antes, mas as primeiras cinco páginas me pareceram muito morosas e parei. Como se eu não conhecesse Grass; como se eu não soubesse o quanto é estúpido não confiar em um livro de Grass. Pois retornei, ou comecei realmente Gato e rato, hoje, domingo, por volta das três da tarde, e faz meia hora que terminei a leitura. Estava na biblioteca aqui de casa e chorava copiosamente diante as últimas páginas. Como se vê, é um livrinho que se lê em um dia. Uma obra-prima tocante, sensível, verdadeira, dolorosa, profunda, de uma beleza típica de Grass, uma beleza desconcertante e impactuosa. Não há como não considerar Grass um gênio após a leitura desse livro. O cara morreu e não vejo reedições dele por aqui; não sei o que está acontecendo. Um romance como este deveria estar em reedição cuidadosa nas prateleiras, deveria ser alvo de resenhas e estudos. Talvez porque as tais cinco ou dez páginas morosas do começo peguem de um jeito ruim o leitor brasileiro, impossibilitando que ele tenha um deslumbramento diante a sublimidade da inigualável literatura de Grass. Desafio o leitor a ler este livrinho e sair dele ileso, sair dele sem uma lágrima mesmo que furtiva pelo canto do olho. Um livro inesquecível. Em uma consulta que fiz, neste exato momento existem 38 exemplares dele na Estante Virtual, com preços que variam de 6 reais a 40 reais_ comprei o meu por meros 5 reais. E é uma beleza de livrinho de bolso, charmosíssimo. Um preço muito pequeno para a quantidade de deleite que se obtém. 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A corrupção é nosso patrimônio cultural



Mês passado participei de um simpósio profissional. Desde quando fui comunicado fiquei puto da vida, porque tais coisas não servem para nada a não ser atender a determinadas exigências burocráticas sem pé nem cabeça por parte de instituições de controle. Mas no final, valeu a pena. Fiquei conhecendo ainda mais o quanto somos um povo subdesenvolvido no caráter e na moral. Somos um povo tosco espiritualmente. Foi um ensinamento de reafirmação de todas essas tristes verdades cotidianas. Lá estava só gente graúda. Juízes de direito, promotores do MP, e, especialmente, entidades importantes da minha profissão. Como vou falar sobre coisas que me comprometeriam, vou escrever com lapsos de nomes e empregando o mínimo de referenciais possíveis. Beneficio-me sempre do fato deste ser um blog obscuro, praticamente desconhecido, que nenhum de meus colegas de profissão imagina que exista. Então, lá vai. (Juro que tudo neste texto é verdade, e sem nenhum exagero.)

Costumo ser rigoroso em questão de horários. Cheguei uma hora e meia mais cedo (foi exagero, eu sei, mas queria me ver livre logo da tralha), de modos que pude estacionar de frente ao prédio, na sombra. Estava munido de meus fones de ouvido, que pretendia usar na surdina, sentado no local menos visível possível. No dia anterior havia comprado O livro do desassossego, por inacreditáveis dois reais na Fnac, mas fiquei pouco prazo o lendo, pois o espetáculo que estava para se produzir à minha frente me tomaria totalmente a atenção. O prédio fica em uma grande avenida na capital, tendo na esquina uma rotatória. Os carros foram chegando. As vagas à minha frente e atrás foram preenchidas, e logo se via carros barateando à procura de estacionamento. O primeiro ato de nossa contumaz grosseria nacional, de nossa alienação quanto ao respeito ao outro, de nossos arranjos e jeitinhos brasileiros, eu vi de um motorista que estacionou de frente à garagem da casa que fica em frente ao prédio. Não bastasse que ele interrompesse sem o mínimo sinal de comiseração a garagem de alguém, o indivíduo aproximou seu carro do que estava à frente, para-choque com para-choque. Saiu do carro com a cara mais limpa possível, e entrou no prédio, cujas portas já estavam abertas. Olhei para os lados para ver se alguém presenciara tamanho descalabro, mas aí que comecei a ver as tantas outras façanhas que estavam em andamento. Na casa ao lado do prédio, que me pareceu um misto de residência e loja de eletrônicos, já estavam três carros estacionados NA CALÇADA, em frente aos três portões nos quais haviam ostensivas placas com letras em vermelho avisando GARAGEM NÃO ESTACIONE SE ESTACIONAR O GUINCHO SERÁ IMEDIATAMENTE ACIONADO. Em frente a uma mini-garagem com três vagas preenchidas pertencente ao prédio, já havia uma trupe de caminhonetas Hilux estacionadas. Toda a avenida ficou tomada de carros. Quatro horas depois, quando saí para o almoço, eu vi o absurdo do absurdo: em uma das ilhas da rotatória havia um Golf estacionado EM CIMA. Durante os cursos da manhã, uma funcionária constantemente interrompia o palestrante para pedir que determinados donos de determinados carros retirassem seus veículos dos locais proibidos em que os deixara, e determinados sujeitos encasacados com ares suntuosos de bons pais e diletos trabalhadores de altos salários se levantavam e andavam calmamente até a porta.

Há muito minha profissão perdeu qualquer vínculo médico, o que é bastante natural, visto que a própria medicina humana pouco tem de medicina. Agronegócio é a palavra sacramental da vez desde que eu fazia o primeiro ano na faculdade. De modos que eu não deveria ter ficado assustado com o que foi dito nas palestras. Nenhuma referência a bem estar animal, a não ser em termos estritamente de consumo: a manutenção de níveis de stress condizentes com um bom ph da carne. O que mais se via ali era a relativização absoluta de todos os códigos de conduta de fiscalização, em prol dos lucros dos empresários e latifundiários. Praticamente, nenhum animal poderia ser descartável, que doença fosse que o estivesse acometendo. Só se a coisa fosse realmente brava. Animais com aspectos repulsivos (e aqui foram apresentadas várias fotos que revoluteavam o estômago, desde mutações com a quinta pata saindo das costas, até tristes animais em puro couro e osso e com cancros purulentos de diversas nomenclaturas patológicas), todos eles tinham seu aproveitamento. Se uma bola de pus fosse descoberto no fígado, era só cortá-la de forma circundante e o restante poderia em sã consciência ser fatiado e vendido nos balcões dos açougues. Um detalhe capital foi estabelecido para o devido esclarecimento didático da plateia: a diferença entre um animal caquético e um animal excessivamente magro. Era fácil se ater apenas ao aspecto fundamental: os dois poderiam ser consumidos, com condicionantes. O empresário não poderia ficar no prejuízo. Faça-se embutidos, patês, charque, farofas. 

A cereja do bolo foram os vídeos que um dos ministradores apresentou sobre seus serviços. Suas mãos aparecem, céleres, cortando todas as partes da carcaça, com rapidez, tudo feito para que ele parecesse tão virtuoso como um pianista de fama mundial. O Horowitz da faca. Enquanto mostrava os vídeos, ele ressaltava a importância de que o serviço fosse bem feito porque a carne brasileira é exportada para a Europa e para a Rússia. E nos vídeos, não apenas ele, mas nenhum de seus funcionários menores de equipe apareciam usando luvas. NENHUM. Suas mãos pegando em cisticercos, em carbúnculos, em edemas e líquidos orgânicos de todos os tipos, sem proteção alguma, e a mesma mazela submetida a todos seus auxiliares. Na hora das perguntas, ninguém foi capaz de soltar esse questionamento no ar, em uma sala tão repleta de patrícios automobilísticos infiltradores de espaços urbanos indiscriminados. Eu fiquei embasbacado, mas não poderia ser eu a fazer a pergunta, de maneiras que instiguei um desses falastrõezinhos de palestras que ficam em estado de volatilidade estalante a fazer, e ele pronunciou exemplarmente as palavras com o peito estufado. O palestrante titubeou, pigarreou, admitiu que o uso das luvas era obrigatório, e, fechando rapidamente o assunto, disse que alguns profissionais não a usavam de vez em quando porque retirava um pouco a sensibilidade para a descoberta de incorreções nas carnes. Tive que me controlar porque meu palhaço incorrigível e histriônico possesso interno quase saltou: camisinha então, nem se fala!

Será que ainda existem ingênuos que acreditam que a corrupção é uma deficiência das instâncias menos abastadas do povo? Os altos escalões são muitíssimos mais corruptos e aptos ao crime do que o pequeno comerciante e o aventureiro peripatético que vende produtos do mercado negro nas praças. O Brasil está em rápido processo de implosão, e o que ficará de epitáfio pode muito bem ser a frase do Marcola, o traficante que diz saber de cor o Divina Comédia, quando esteve diante os juízes e promotores: Vocês por acaso tem moral para me julgarem? Vocês são muito piores do que eu.

domingo, 12 de julho de 2015

O dia mundial da resignação



                                                             Texto com comentários, originalmente publicado aqui.

Vai parecer esperança, mas não passa da velha resignação. Hoje acordei com vontade de dar um basta em todas as reservas. Acordei de um sono completo, com quarto envolvido nesses escuros absolutos que me dão anseios de procurar algum indício de luz de que não esteja cego, com um lençol macio, com o travesseiro usual entre as pernas e o outro caído manhosamente de lado, sem uso. Foi um sono reparador, sem sonhos, e por isso não teria motivos que de súbito, agora pela manhã, diante o computador, eu fosse assolado por esse gigantesco tédio. Faulkner está errado, pensei, Faulkner é um fingido; como acreditar que o homem sobreviverá?, como acreditar que o homem é bom? Vai ver é porque meu trabalho de ficção não me esteja parecendo nada promissor; palavras de mais, adjetivos que não se desgrudam de mim, advérbios que escondem a obstrução de uma coisa genuína. Leio o que escrevo e parece que sofri uma involução, voltei a escrever com aquela paixão adolescente sem consequências do colegial, que só cativava por procuração professoras piedosas, que queriam elas mesmas brincar que acreditavam que algum de seus alunos levavam a promessa. Um analfabetismo no final das contas. Vontade de desistir; a felicidade está mesmo na música perecível; vontade de ser um cantor sertanejo, vontade de me assumir da forma mais franca possível que não tenho nada, ser canalha de cara limpa e acolher os dividendos da onomatopeia. Criar uma musiquinha para celular, se isso ainda é viável. Vontade de ganhar um prêmio acumulado na loteria federal, e gastar ostensivamente o resto de vida jogando para todos os desafetos a arte da corrupção na prática, e não tentar fazer isso através do placebo pobre da escrita. Ser um Edmund Dantés que inventa a sua própria vingança, vai criando-a no momento em que faz dobrar diante de si os joelhos dessa criaturinha levianamente vendível que é o homem, esse homem que o bêbado Faulkner, mal se aguentando em pé no palanque do Nobel, mentiu acreditar.

A minha vontade hoje é ser desbragadamente ingênuo, não me proteger contra nada. A eterna proteção exaure. Dá vontade de, de uma vez por todas, me resignar diante esse otário cibernético, máquina, presidiário ou quem quer que seja, que todos os dias, infalivelmente, deposita em minha caixa de e-mails inúmeras tentativas das mais idiotas extorsões. Aumentar meu pênis, receber uma bolada de um milhão de dólares, enviar auxílio para algum senhor de cômico nome mutante entre indiano e angolês, encontrar aquela garota ninfomaníaca que me descobriu e me envia notificações lúbricas de imediata intimidade, requerer meu prêmio (mais uma vez, que sujeito sortudo eu sou!) na loteria inglesa (!), comprar um imóvel promocional em Recife, ir a uma festa literária para a qual me convidaram com honras (até isso!). Vou abrir esses e-mails e vou seguir diligentemente cada passo exigido por eles; chega. Hoje é meu dia da resignação. Vou assistir a esses programas de adivinhas que passam de madrugada na tevê aberta, e ligar para o número embaixo, mesmo sabendo que o programa é gravado, para exigir meus 150 reais, e quando me atrasarem de propósito com musiquinhas de Kenny G., ou gritarem em meu ouvido que tem novos enigmas que podem aumentar o dinheiro, vou esperar com paciência, até que a tarifa do "serviço" telefônico ascenda aos 4 dígitos e eles me façam perder, "ahhhh, lamentamos que você não tenha visto quantos dentes tem o desenho do bode; da próxima você leva". O que pode acontecer comigo? Perdas econômicas? A vida não é isso, além de todo retumbar dos bumbos da filosofia de boteco? Que eles me roubem. Quem sabe a verdade esteja na profunda desproteção; quem sabe Faulkner tenha visto com sinceridade e seu texto adocicado do Nobel seja canalha por osmose da falta de consolo cotidiano. Se essa entidade se esforça tanto para me enganar, se esforça religiosamente para isso, se em sua distância ela só pense no serzinho passível de vilipendiação que eu sou, há nisso uma forma evoluída de amor. Dizer assim provoca até arrepios na nuca, mas, no fundo no fundo, qual o argumento contrário? Vou agora mesmo responder à Samantha, que tremula com os seios voluptuosos quase para fora do top de ginástica na tarja ao lado da caixa de e-mails. Oi, estou vendo que você mora em Goiânia, a mesma cidade que eu, e, quem sabe, poderíamos nos encontrar para um drinque. Mas não sei se vou conseguir me conter com você! Me digam, por que não acreditar nela? Mesmo que eu tenha a absoluta certeza de que é um computador que me joga essas frases pré-formuladas e que um nível de tesão tão engajado às oito da manhã de uma terça-feira é algo que nem os anjos de Jó seriam capazes, mas... considerem o altruísmo que fundamenta a coisa, a fé de quem planejou, as horas de trabalho que nada devem à concentração e o abandono de um cientista diante sua pesquisa, ou o compositor diante sua partitura. Oi Samantha, como vai? Não moro em Goiânia, mas posso chegar aí em uma hora e meia, é só me dizer que horas que é o encontro. Obrigado por ser tão atenciosa, mas acho que exagera em seus elogios; não sou essa tentação física que você acredita ver; tudo não passa da generosidade de seu olhar. Mas devo avisar que eu é que fico um tanto assanhadinho depois de alguns drinques, ainda mais diante uma loira monumental como você. Minha conta bancária? Lá vai... 

Me recordo de não sei qual estoico, se na literatura ou na vida real, certa vez disse que era um encanto que às vezes um beija-flor viesse lhe atazanar as orelhas ou ficasse com o bico próximo a seu ombro; "não é enternecedor que um animalzinho destes te elogie ao confundir você com uma flor?" Claro que não sofro de uma estrondosa carência desse porte, mas hoje estou disposto a considerar que a ternura sofre uma brutal evolução. Não é enternecedor que um programa estelionatário na corrida louca da vida moderna escolha aleatoriamente você como remetente de todas as horas de zelo de quem o criou? Quando eu for me encontrar com a Samantha na capital hoje, vou sentir mais uma vez isso, como sinto a cada vez que tenho que enfrentar uma cidade grande. A vontade de assassinato que existe por trás de cada buzinada. Uma vez fui de carona com um amigo; ele parou diante a garagem de um prédio o tempo suficiente para retirar as malas do bagageiro para que sua esposa descesse, e um senhor esperou dentro de um carro do outro lado da rua, com elegante parcimônia, para poder entrar na garagem, até que esse amigo entrou no carro e deu a partida; então, o senhor começou a xingá-lo, filho da puta, caipira, vai tomar no cu seu bastardo, seu corno. O senhor fez isso com um ódio tão puro que o que antes era sua completa inofensividade invisível da qual eu nem reparara, agora eu o via como um guerreiro tribal psicopata que iria de uma hora para outra retirar uma pistola do porta-luvas e nos transformar a todos em estatística. A fuga da estatística no mundo moderno é nossa atual forma de ternura, me diz a voz de meu bêbado interno especialista em filosofia de caneca. E como fazer isso senão através da única coisa que sobrou de um depauperado aprendizado de amor ao próximo? Através da catarse do trânsito, ou da carranca no elevador, ou da virada de rosto em negação no shopping, ou da desconfiança esquizofrênica nas filas do banco da qual temos que nos comunicar em silêncio eloquente o quanto somos unidos no respeito sagrado em não tentarmos furá-la. Um dia, quando minha esposa passava por uma convalescênça logo após uma cirurgia cardíaca, eu resolvi aliviar a tensão inútil da espera indo à livraria de um shopping próximo, e na fila do caixa, onde eu via que havia apenas eu, um sujeito cortou vindo de não sei de onde por mim me dizendo que não iria aceitar que eu passasse na sua frente, ah, isso não!, eu pensei que se eu fosse um cidadão daquele mundo, seria lógico meu agradecimento por ele me oferecer daquela forma um calor humano de consolo, por mais estranho que tenha sido tal contato. Se não nos matamos após a buzinada e o xingamento, é porque nosso amor era legítimo, pois fugimos à estatística. Não seria impossível que o senhor e meu amigo se sentassem no final do dia para uma cerveja, e começassem uma forte amizade. Um dos personagens de meu romance despirocado é um conceituado especialista em Marx que deixa, de hora para outra, sua cátedra em uma universidade alemã e parte para um povoado esquecido do Caribe, e que mais tarde se descobre que seu desaparecimento aponta para a coincidência do surgimento das mais populares canções valenatas do rádio. Há um longo discurso com sotaque carregado de como tudo o que ele ambicionara no campo da escrita erudita se cumprira na composição das músicas banais de refrão fácil e que só falam do único sentimento que ainda traz um pouco de perseverança: o amor. Ele era um importante mantenedor da perseverança biológica da espécie, ele se julgava orgulhosamente um promulgador do equilíbrio social. Mesmo que houvessem facadas de bêbados nos bares dos povoados, sob o som de suas músicas, mas isso era a natural exacerbação que vem com derivativos da homeostase. A estatística não conta, a estatística é a mentira séria de uma derrota que nunca virá, que só existe no papel. Blá-blá-blá.

Por isso hoje minha vontade de cair em todos os engôdos, sem me sentir humilhado. Acessar os links sobre as ditas "celebridades", e confiar que elas são mesmo divinatórias. Fazer um mapa cabalístico das trivialidades delas e ver nisso um plano profundo da providência.