Por que estou imune aos recorrentes temas sobre a situação brasileira? Deixei disso, deixei de me interessar. Foi uma desistência tão sincera e inerradicável, que a avalizei ao detectar uma profunda tranquilidade em mim. Sobre o Brasil, tenho a lucidez de saber que talvez nunca vire o milionário em cujos meus planos me permitiria me deportar daqui para outro país. Assim, me abstive por questões estomacais de assistir telejornais e de dar a costumeira passadinha de olhos pelas manchetes cibernéticas. Tenho lá meus furores teatrais, meus complexos de vira-lata, mas não passa da conhecida sensação de cócegas do membro já amputado. Não há jeito; não há como fazer. Percebi que tal preocupação, de tão ingênua, pode causar um dano físico concreto. Vou dar apenas dois exemplos, rápidos e práticos, do por que não me preocupo mais e sigo vivendo minha vida singela sem dramalhões colossais.
Primeiro: na cidade em que moro, considero uma felicidade ter três amigos tão fanáticos por livros quanto eu. Quando eu ainda era abalável o suficiente pelo panorama, eles me salvaram de tédios profundos, aparecendo como por milagre ao final do dia para um daqueles momentos que me davam a certeza de estar "realmente tendo uma conversa fenomenal". Um deles, o Emerson, chega a ler bem mais do que eu. Ele parece mais um reciclador automático de livros do que propriamente um leitor. Basta dizer o título de um livro, que ele aciona sua voracidade efetiva, e lá vai ele engolir o tal livro. Assim se deu com coisas que eu jamais vou ler, como O ser e o nada, os livros do Dan Brown, ou cinco livros tomados emprestados da bibliografia de Freud, que ele os meteu para dentro com uma abnegação pelo sacrifício tão pura que parecia ser mesmo apenas uma questão de movimento pavloviano dos olhos. Pois este amigo é um professor concursado do serviço estadual de ensino na minha cidade. É um tipo folclórico, cabelos grisalhos rebelados circundando uma tonsura, barbas longas no mesmo feitio, olhos azuis minúsculos, e o costume sedimentado de usar somente bermudas e camisetas, estas últimas a maioria produzida por ele com estampas de aforismos literários que ele vai colhendo no meio de seu jardim de leituras estoicas. Ele usa bermudas para trabalhar, e é folclórica também a foto gigante grudada na parede de sua sala em que sua esposa aparece radiante de felicidade em seu vestido cerimonial de noiva, com buquê nas mãos enluvadas, ao lado de um Emerson com paletó e a bermuda corriqueira da qual não abriu mão nem no casamento.
Imagina-se o nível de pensamento crítico que um professor assim provoca em seus alunos, ou na parte minúscula deles desperta na sala de aula. Emerson é um típico professor engajado brasileiro. Uma personagem busterkeatoniano. Um Quixote. Ou, em menor grau pejorativo, um desses professores ranhetas que lotam a cenário nacional com sua estampa clichezística de devoto da esquerda e antigo leitor dos Cadernos do terceiro mundo. Independente de qual dessas facetas o enquadre, o certo é que se trata de um tipo perturbador, o que, casado à sua obsessão pelo trabalho, vem dilapidando a sua saúde ao longo dos anos. Direto vejo ele, em pleno domingo e feriado, preparando aulas, fazendo downloads de documentários didáticos, usando seu estômago forte de leitor multitudinário para digerir intragáveis livros sobre pedagogia moderna. Daí que ele teve dois princípios de enfarte, e teve que se correr às pressas com ele para a capital. Até então, ele fazia por relevar seu quadro depressivo medicado por tarja preta, pois lhe configurava certo charme dissidente. Mas agora, com o coração negando fogo, ele sentiu aquele gosto laminar na boca que parece vir da faca que lhe cortou todo eufemismo de permanência. Assim, finalmente seguiu os conselhos dados por nós seus amigos, e relaxou. Abriu mão da tarefa além da vida de salvar os jovens brasileiros da bestialidade e da alienação. Só faz o necessário.
Pois bem, e o que fez o Grande Sarcasmo Nacional com ele? Preparou uma retalhação genial, destruidora, desses atos majestosos da tragédia em que nada sobra de pé. Escombros. Esse paisinho sem graça e previsível inventou de lhe retirar as raízes que o sustentavam em seu desesperado ato de sobrevivência. Não bastasse o coitado sofrer do coração às custas do absurdo cotidiano, o paisinho quer-lhe agora o fígado inteiro. Ele me contou, os olhos azuis ainda mais afundados: a partir de janeiro do ano que vem, o colégio onde dá aula será militarizado. Em cada cidade do estado, um colégio será entregue aos militares. Daqui, pois, quatro rápidos meses. Ele terá que fazer a barba, vestir-se de calças compridas e tudo o mais que lhe mandarem fazer. Talvez bater continência, e envergar seu vasto conteúdo intelectual diante algum coronel cujos horizontes costumeiros não vão além dos mesmos muros e mesmos escritórios de ofícios marciais expedidos. Um coronel que ganha, deixa eu fazer aqui as contas, seis vezes e meia mais do que ele. Ou prestar a mesma prostração regimental diante um tenente que ganha três vezes mais, ou diante um soldado que ganha quase duas vezes mais do que ele. Todos esses ganham mais e trabalham bem menos. Todos esses são acobertados por lei para se aposentarem com 25 anos de carreira, enquanto meu amigo Emerson, que purga a mais insalubre das profissões, terá que passar por aquela conta sarcasticamente mirabolante da Rainha de Copas de somar 95 anos para se aposentar. Já insinuaram os segredos que devem ser preservados na caserna-escola, as partes dos livros que devem ser recondicionadas, mutiladas ou reescritas de maneira angularmente reversa. Ele imagina, se é que consegue, os alunos marchando no pátio, a burocracia anacrônica opressiva que irá se instaurar em um meio tão inócuo a ela, e que irá recair em cima de professores que, como ele, que estão a mais de dez anos na profissão, me parece de uma verdadeira violência. Isso será um evento único na história recente de um país ocidental democrático, um dos ineditismos servidos a escusos interesses individuais de alguns escolhidos para o enriquecimento descomunal que acontece nesse paisinho, sempre às custas do interesse público e da mínima lógica funcional. E o povo... o povo faz a sua parte... aplaude, tece loas, se arrebanha com a boca de caninos sedentos nas pre-filas para a matrícula de seus filhos que passarão por uma seleção meticulosa de admissão... o povo se compraz a ser apenas o povo de paisinho falido, fingindo que não sabe quem são os felizardos que aumentarão ainda mais suas riquezas com contratos de sistemas de ensino inventados às pressas para se inserir no esquema todo.
Segundo: um dos humores da minha vida é sempre me prestar a metáforas vivas, iridescentes, espraiadas na generosidade simbólica do meu cotidiano. Querem saber a nova sobre os representantes das mentalidades nacionais? Com vocês, os personagens dessa comédia: o intelectual inexpressivo, os playboys filhos de papai, a força policial mancomunada, e o povo... ahhh, o povinho boçal e sem representatividade...
Comecemos. A casa que faz divisa com o muro detrás da minha casa está desocupada faz anos. Serve, apenas, para festas retumbantes, com som automotivo e gritos dos jovens filhinhos de papai que voltam de suas faculdades na capital para curtirem finais de semana e feriados prolongados. Me informei: são os filhos de comerciantes locais, de dentista (o mesmo que me fez duas restaurações nos molares), de médico e não sei mais quem. Os caras usam a casa como se não houvesse amanhã, ou como se estivessem em uma ilha sem ninguém por perto. Como moro em um paisinho bem típico, sabendo da necessidade de se engolir sapos para poder aumentar o número de dias em sua calculadora etária, o que é salutar de se fazer no país ocidental mais violento do mundo, nas primeiras festas eu relevei. Mesmo impossibilitando sono de minha esposa grávida, e o meu, nós relevamos. Se tivesse acordado minha filha Júlia, lá vai, mas a Júlia não se incomodou nem um pouco com isso. Mas eu chamei a polícia várias vezes, e os boyzinhos, nossa classe intelectual por direito nominal configurado, visto que são todos universitários das faculdades de direito e medicina e odontologia, futuros juízes e senhores de nossos destinos e de nossas vidas, foram informados pela polícia que o reclamante era o vizinho do muro de trás. Daí começou a provocação. Janelas batendo às sete da manhã. Latas de cerveja atiradas na frente de casa. Uma vez uma sacola de lixo aparecendo no meu quintal. Eu filmei tudo. Produzi umas duas horas pormenorizadas de documentário sobre tudo. E fiz uma denúncia na delegacia.
Coloquei a minha vizinha da direita, que reclamou vorazmente da balbúrdia para mim, e outro vizinho, como testemunhas. O que aconteceu? Quando chamados pela delegada, afirmaram que não ouviam nada porque, 1, tomavam corticoides que os apagavam, 2, que ouviam assim assim certo ruído, mas que isso não lhes incomodavam em nada. Não incomodavam, sendo que as vidraças da janela chegam a tremer. A delegada é a mesma da qual paguei três colchões de multa para a Santa Casa por tê-la "desacatado" por certa vez exercer meu papel de crítico em dizer que ela era negligente com seu trabalho. Não tem ela, pois, razão para gostar de mim. Mas as evidentes tentativas para descaracterizar o crime, partindo dela, não tinha só a ver com sua antipatia retaliativa por mim, mas porque o dono da tal casa foi funcionário comissionado da delegacia por dois anos, e este levava a delegada mais seus dois cãezinhos para consultas em clínicas veterinárias na capital, utilizando a viatura nas viagens. Os policiais só falaram a verdade nos depoimentos, porque eu fiz questão de ser taxativo em dizer que os havia filmado duas vezes em que foram acionados comparecendo à frente da casa e pedindo com excessiva polidez para que os filhos dos ditos poderosos "abaixassem um pouco o volume". É de gelar o sangue diante a potência metafórica sobre a fervilhante corrupção pátria ver todos esses elementos reunidos.
Me faz lembrar um conto de Chécov, em que um senhor chama a empregada de sua casa e passa a violentá-la com palavras, a insultando, a acusando de crimes imaginários, até fazê-la chorar descontroladamente, para então sorrir e confessar que tudo não passava de brincadeira de sua parte. A serviçal sai aliviada e feliz do quarto do amo, e esse conclui: "Meu Deus, é por isso que esse país está atolado na lama, com um povo assim."
E depois querem que eu leve a sério o que aconteceu neste dia 16 de agosto?







