E havia Sestércios. Se não fosse tudo o mais
que atestava estarmos em uma casa de velhos, só ele já daria vazão a esse fato.
Era uma criatura tirânica, também muito velha, cujo costume de receber uma
grande reserva de mimos lhe incutisse uma protoconsciência de soberba. Era
natural que as assimilações sobre imperadores, pompas palacianas e
a frieza cruel de um perfil rapínico, erraticamente instalado em um galo, lhe
dessem um ar de déspota enlouquecido. Ele morava dentro de um engradado de cerveja lhe destinado por uma antiga e esquecida derrota, o que atestava que ele havia conseguido
alguma exceção de humildade em sua autoimportância ao se adaptar àquela ruína.
Vendo-o sair de dentro do engradado,
abaixando a cabeça, dando seus passos cautelosos de reumático — com as penas
grandes que cresceram além da conta, como crescem demasiadamente as
sobrancelhas dos velhos —, era fácil depreender que sua história pessoal havia
passado por uma reeducação. Ele se punha, então, de corpo inteiro no piso do
alpendre, ao lado da máquina de lavar roupa, indiferente a seu universo
inglório de roupas estendidas e às botas sempre sujas paradas ao lado da porta
que dava para a cozinha. Fremia sua cabeça, onde o acaso das espécies não
destinara nenhuma mínima possibilidade de expansão mental, e passava a dar
passinhos aturdidos, sincréticos, de um general ciente de sua obsolescência,
necessitando, porém, de algum grau de astúcia para gerenciar o conforto doméstico
de sua senilidade.
Mesmo depois de todas as batalhas do ego
pelas quais aquela coalizão de intimidade caseira o fizera passar, havia o
sinal de condescendência amorosa que a vovó lhe dispensava na pequena escadaria
de caixas e vasilhames com plantas anãs, colocadas ali para que ele subisse até
a pia. Ele andava com seu equilíbrio régio e um tanto mais apurado para evitar
um tombo pela borda, e podia subir com um pulo que lhe devolvia algo da
faceirice da juventude. Assim, instalava-se no alto da mureta, de onde emitia
seu canto que, a cada dia, ia ficando mais constrangedor. Seu pescoço sofria
uma dilatação que parecia desconjuntar toda a estrutura corporal, e então um
som sem firmeza, nem um pouco eloquente da masculinidade que ele estava certo
de impingir, alçava-se pelo ar. Vovó
Leira parava o que estava fazendo por um rápido segundo — uma espécie de limite
imperativo que deveria conceder a ele — e, da mesma maneira rápida, fazia uma
consideração de valor.
Ele ficava na pequena despensa a céu aberto
que dava de frente para o grande quintal de entrada da casa, como um vigia ou
um almuaden: ora se deslocando de um lado para o outro, fazendo sua cabeça se
mover pulando alguns quadros de realidade, de frente para trás, como a trave
automática de uma alavanca defeituosa; ora tirando aquela sua convocação sem
sentido, mas prenhe de significados íntimos, para espécies de devotos
invisíveis. Leira o tratava com um respeito estranho, que tinha algo de culpado
e de uma eterna desculpa. Desse modo, quando ele se aventurava a andar pelo
interior da casa, aparecendo com sua magreza de asilo pela sala, Leira lhe
destinava um olhar prolongado, questionativo, à espera talvez de que ele
externalizasse o desejo que, enfim, vivia atolado em sua garganta sem que ele
nunca o dissesse.
Ele se aproximava de onde ela estivesse
sentada e, só quando ela se distraía dele, vinha tocar-lhe timidamente o
tornozelo com sua cabeça sem charme. Algo se acionava na vovó e ela, só por
conta de uma reação astuciosa, não parava de falar, mantendo o fôlego e o
assunto um tom mais baixo enquanto sentia com um deslumbramento temeroso, cheio
de repúdio e piedade, o galo a tocando, arranhando-se em sua meia pochê grossa,
dando mais superfície à sua volúpia ao colocar todo o tronco nessa jogada ousada
e solipsista.
Seria interessante ver um animal tão arisco
quanto uma ave dessas ser pega no colo e acarinhada. Eu, quando via essas
cenas, ficava na expectativa de que vovó o recolhesse nos braços, mas uma ética
darwiniana — de não amolecer a tenacidade de um trabalho de milhares de anos
que o tornara uma casca seca, esvaziada de qualquer necessidade de ternura —
mantinha a ordem natural. Deixava-o se satisfazer naquelas migalhas de uma
perdida intuição afetiva até que uma espécie de constrangimento final o
acordasse para o ridículo daquilo. Num pulo em que um quadrângulo cinemático
inteiro era removido diante dos olhos do espectador, Sestércios se dava conta
de sua responsabilidade classista na rigorosa hierarquia das espécies e se
afastava da perna da vovó, indo se ocupar de alguma outra eventualidade
fortuita, desaparecendo nas sombras da sala.
Vovó Leira considerava Sestércios o monarca
em desgraça que ele de fato era, aceitando suas idiossincrasias e seus humores
arbitrários e inconstantes. Ela destinava três horas de seu dia, no final da
tarde, para bordar as peças especiais de pano que mandava o capitão Bombo
vender na feira da marreta. Sentava-se na banqueta artesanal, alojada como um
apertado braço de madeira em L ao lado da máquina Singer creme, e guiava as
beiradas das mantas pela feroz agulha de aço; mantinha uma mão próxima à
imersão da linha e a outra nas barbas do pano que sobravam sobre seu colo.
Sestércios se incomodava com o grande ruído
que aquela coisa fazia, expondo seu desconforto com cicios mal-humorados e
exclamações de indignação. Enquanto Vovó compunha seus desenhos refinados de
donzelas elizabetanas sendo cortejadas à beira de lagos, sob o pôr do sol de
uma Sorbonne idealizada, Sestércios andava por um meio círculo amplo. O trajeto
passava por debaixo da mesa de aroeira da sala e delimitava seu terreno
pontilhado sob as cadeiras, pelo divã psicanalítico — do qual ele mesmo
aprendera a tomar posse mais tarde — e pela estante de carrara marrom, cujas
portas com janelas de vidro guardavam as porcelanas antigas.
Quando via que sua taxativa manifestação
contra aquela grosseria incompreensível e indevidamente barulhenta não surtia
efeito, ele abaixava a cabeça. Recolhia a ossatura esternal, cuja constituição
naturalmente viril o prejudicava por induzir nos observadores expectativas
infundadas, e ia se achegando, como se levado por uma atração suicida, até a
fonte do distúrbio.
Quando menos se esperava, Vovó Leira se
subtraía por um instante de sua poderosa imersão intelectual naqueles labirintos
artísticos intrincados. Ao percebê-lo encolhido em seus pés descalços,
empurrava-o com seus dedos longos e joanados — disformes e estranhamente
exorbitantes para sua idade, pela forma como insinuavam uma juventude
apreendida e conservada naqueles dez soldados anulares de tamanhos grandes
demais para os padrões naturais — para junto de si. Formava-se ali uma
fortaleza de estruturas humanas e rebotalhos de panos cadentes, onde as
sinapses sensoriais do galo pareciam ficar entre afavelmente aturdidas e lisergicamente
ensonadas diante de tanta informação.
Era algo digno de se ver quando chegamos ali na primeira semana: uma amostra de como funcionavam as zonas intestinas mais zelosas do sagrado andamento de um cotidiano próprio. O quadro de uma velha senhora costureira com um galo mambembe entre os pés desfazia-se de seu caráter fantástico quando se via o que ela imprimia nos tecidos com aquela máquina potente. As sombras da sala, no ponto onde os dois ficavam, eram furadas pela janela estrategicamente situada atrás e no alto de Vovó. O arranjo talvez fosse precário demais para favorecer vistas que, na idade dela, já mereceriam um recurso mais aprimorado.

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