quarta-feira, 17 de junho de 2026

Sestércios

  



E havia Sestércios. Se não fosse tudo o mais que atestava estarmos em uma casa de velhos, só ele já daria vazão a esse fato. Era uma criatura tirânica, também muito velha, cujo costume de receber uma grande reserva de mimos incutira nela uma protoconsciência de soberba. Era natural que as assimilações fantasistas sobre imperadores, pompas palacianas e a frieza cruel de um perfil rapínico, erraticamente instalado em um galo, lhe dessem um ar de déspota enlouquecido. Ele morava dentro de um engradado de cerveja Polar que parecia ter-lhe sido destinado como um ato de concessão vinda de alguma antiga e esquecida derrota, o que atestava que ele havia conseguido alguma exceção de humildade em sua autoimportância ao se adaptar àquela ruína.

Vendo-o sair de dentro do engradado, abaixando a cabeça, dando seus passos cautelosos de reumático — com as penas grandes que cresceram além da conta, como crescem demasiadamente as sobrancelhas dos velhos —, era fácil depreender que sua história pessoal havia passado por uma reeducação. Ele se punha, então, de corpo inteiro no piso do alpendre, ao lado da máquina de lavar roupa, indiferente a seu universo inglório de roupas estendidas e às botas sempre sujas paradas ao lado da porta que dava para a cozinha. Fremia sua cabeça, onde o acaso das espécies não destinara nenhuma mínima possibilidade de expansão mental, e passava a dar passinhos aturdidos, sincréticos, de um general ciente de sua obsolescência, necessitando, porém, de algum grau de astúcia para gerenciar o conforto doméstico de sua senilidade.
Mesmo depois de todas as batalhas do ego pelas quais aquela coalizão de intimidade caseira o fizera passar, havia o sinal de condescendência amorosa que a vovó lhe dispensava na pequena escadaria de caixas e vasilhames com plantas anãs, colocadas ali para que ele subisse até a pia. Ele andava com seu equilíbrio régio e um tanto mais apurado para evitar um tombo pela borda, e podia subir com um pulo que lhe devolvia algo da faceirice da juventude. Assim, instalava-se no alto da mureta, de onde emitia seu canto que, a cada dia, ia ficando mais constrangedor. Seu pescoço sofria uma dilatação que parecia desconjuntar toda a estrutura corporal, e então um som sem firmeza, nem um pouco eloquente da masculinidade que ele estava certo de impingir, alçava-se pelo ar. Vovó Leira parava o que estava fazendo por um rápido segundo — uma espécie de limite imperativo que deveria conceder a ele — e, da mesma maneira rápida, fazia uma consideração de valor.
Ele ficava na pequena despensa a céu aberto que dava de frente para o grande quintal de entrada da casa, como um vigia ou um almuaden: ora se deslocando de um lado para o outro, fazendo sua cabeça se mover pulando alguns quadros de realidade, de frente para trás, como a trave automática de uma alavanca defeituosa; ora tirando aquela sua convocação sem sentido, mas prenhe de significados íntimos, para espécies de devotos invisíveis. Leira o tratava com um respeito estranho, que tinha algo de culpado e de uma eterna desculpa. Desse modo, quando ele se aventurava a andar pelo interior da casa, aparecendo com sua magreza de asilo pela sala, Leira lhe destinava um olhar prolongado, questionativo, à espera talvez de que ele externalizasse o desejo que, enfim, vivia atolado em sua garganta sem que ele nunca o dissesse.
Ele se aproximava de onde ela estivesse sentada e, só quando ela se distraía dele, vinha tocar-lhe timidamente o tornozelo com sua cabeça sem charme. Algo se acionava na vovó e ela, só por conta de uma reação astuciosa, não parava de falar, mantendo o fôlego e o assunto um tom mais baixo enquanto sentia com um deslumbramento temeroso, cheio de repúdio e piedade, o galo a tocando, arranhando-se em sua meia pochê grossa, dando mais superfície à sua volúpia ao colocar todo o tronco nessa jogada ousada e solipsista.
Seria interessante ver um animal tão arisco quanto uma ave dessas ser pega no colo e acarinhada. Eu, quando via essas cenas, ficava na expectativa de que vovó o recolhesse nos braços, mas uma ética darwiniana — de não amolecer a tenacidade de um trabalho de milhares de anos que o tornara uma casca seca, esvaziada de qualquer necessidade de ternura — mantinha a ordem natural. Deixava-o se satisfazer naquelas migalhas de uma perdida intuição afetiva até que uma espécie de constrangimento final o acordasse para o ridículo daquilo. Num pulo em que um quadrângulo cinemático inteiro era removido diante dos olhos do espectador, Sestércios se dava conta de sua responsabilidade classista na rigorosa hierarquia das espécies e se afastava da perna da vovó, indo se ocupar de alguma outra eventualidade fortuita, desaparecendo nas sombras da sala.
Vovó Leira considerava Sestércios o monarca em desgraça que ele de fato era, aceitando suas idiossincrasias e seus humores arbitrários e inconstantes. Ela destinava três horas de seu dia, no final da tarde, para bordar as peças especiais de pano que mandava o capitão Bombo vender na feira da marreta. Sentava-se na banqueta artesanal, alojada como um apertado braço de madeira em L ao lado da máquina Singer creme, e guiava as beiradas das mantas pela feroz agulha de aço; mantinha uma mão próxima à imersão da linha e a outra nas barbas do pano que sobravam sobre seu colo.
Sestércios se incomodava com o grande ruído que aquela coisa fazia, expondo seu desconforto com cicios mal-humorados e exclamações de indignação. Enquanto Vovó compunha seus desenhos refinados de donzelas elizabetanas sendo cortejadas à beira de lagos, sob o pôr do sol de uma Sorbonne idealizada, Sestércios andava por um meio círculo amplo. O trajeto passava por debaixo da mesa de aroeira da sala e delimitava seu terreno pontilhado sob as cadeiras, pelo divã psicanalítico — do qual ele mesmo aprendera a tomar posse mais tarde — e pela estante de carrara marrom, cujas portas com janelas de vidro guardavam as porcelanas antigas.
Quando via que sua taxativa manifestação contra aquela grosseria incompreensível e indevidamente barulhenta não surtia efeito, ele abaixava a cabeça. Recolhia a ossatura esternal, cuja constituição naturalmente viril o prejudicava por induzir nos observadores expectativas infundadas, e ia se achegando, como se levado por uma atração suicida, até a fonte do distúrbio.
Quando menos se esperava, Vovó Leira se subtraía por um instante de sua poderosa imersão intelectual naqueles labirintos artísticos intrincados. Ao percebê-lo encolhido em seus pés descalços, empurrava-o com seus dedos longos e joanados — disformes e estranhamente exorbitantes para sua idade, pela forma como insinuavam uma juventude apreendida e conservada naqueles dez soldados anulares de tamanhos grandes demais para os padrões naturais — para junto de si. Formava-se ali uma fortaleza de estruturas humanas e rebotalhos de panos cadentes, onde as sinapses sensoriais do galo pareciam ficar entre afavelmente aturdidas e lisergicamente ensonadas diante de tanta informação.
Era algo digno de se ver quando chegamos ali na primeira semana: uma amostra de como funcionavam as zonas intestinas mais zelosas do sagrado andamento de um cotidiano próprio. O quadro de uma velha senhora costureira com um galo mambembe entre os pés desfazia-se de seu caráter fantástico quando se via o que ela imprimia nos tecidos com aquela máquina potente. As sombras da sala, no ponto onde os dois ficavam, eram furadas pela janela estrategicamente situada atrás e no alto de Vovó. O arranjo talvez fosse precário demais para favorecer vistas que, na idade dela, já mereceriam um recurso mais aprimorado.
Ela não tolerava que ninguém, a não ser Sestércios, se aproximasse para se intrometer em seu ofício. Seria, de resto, uma preocupação inútil; ninguém, além do galo maltrapilho, tinha o pensamento minimamente inclinado à possibilidade de tal ousadia. O rosto de Vovó se transfigurava quando ela estava sentada ali, em perfeita interação com a máquina, como uma profeta rembrandtiana sob a arcada de um antigo palácio municipal. Recolhia, das vertentes variadas e profundas de sua imaginação, cenários e tipos humanos de outras dimensões que não existiam no mundo concreto, mas vinham parar ali, como que por uma indução metafísica.

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