As
pessoas têm dificuldade de perceber que suas vidas estão mais vinculadas aos
processos políticos do que imaginam. Não é culpa delas se a mamadeira posta
para ferver todas as manhãs as retira da compreensão do todo. Ou se a fila do
pão, tão ligada a antigas carências medievais, só consegue requisitar de seus
espíritos sonolentos uma apreensão superficial da realidade — como aqueles
homenzinhos de narizes compridos desenhados nos cantos dos cadernos escolares,
espiando por cima do muro. A desvantagem é que, nos planos burocráticos da
existência, todas elas são pegas desprevenidas. Se soubessem que os pensamentos
que têm ao entardecer, sentadas no sofá, são os mesmos que passaram pela cabeça
de Pedro, o Grande, ou de Carlos XII, e que as vastidões de tédio das
segundas-feiras não haviam sido melhor diagnosticadas pela visão da imperatriz
Irene Sarantapeco, talvez tivessem aparatos psicológicos para suportar seus
sofrimentos. Restaria a intuição consoladora de que suas possíveis grandezas e
inerentes insuficiências foram todas trituradas pela medianidade imposta — um
triturador para o qual conceitos como poder e glória nada valem.
Acordado pela
manhã, antes mesmo que o despertador na cabeceira soasse, o Sr. Omeno Flibas já
pensava. Abriu os olhos diante da janela fechada que dava para os prédios
vizinhos, a maioria tão antigos quanto aquele em que vivia há três décadas, e
lançou-se nessas jornadas acidentadas, reverberantes e viciosas da mente.
Quando Ângela, sua esposa, era viva, ele costumava levar a parte mais densa
desses pensamentos para a mesa do café, pois ela tinha o dom constituído de lhe
infundir doses generosas de alívio. No mais das vezes, ouvia-o com as
sobrancelhas franzidas, denotando uma atenção empenhada, para aos poucos
esboçar o sorriso estabilizador que indicava que tudo não passava de um
descompasso exagerado, típico da personalidade dele. Ele não se ofendia. Cedia
diante daquela natureza que insistia em restabelecer a leveza onde ele teimava
em enxergar gravidade. Não que ela apequenasse suas aflições; isso seria
impossível vindo da única pessoa de quem ele tinha plena certeza do amor. Era
apenas a maneira dela gestar a homeostase do casamento com sua delicada
economia emocional.
De toda
forma, o Sr. Flibas pensou, Ângela não estava mais lá. Havia morrido há vinte e
três anos, completados exatamente naquele dia. Ela ainda existia nas imagens de
segurança apreendidas pela polícia técnica: andando com a bolsa pendurada no
braço, usando o vestido discreto de seu serviço de assistência social e, logo
em seguida, como por um passe de mágica cruel, sumindo. Na tela, o predador de
casaco e capuz realizava, entre os pixels de baixa definição, a aproximação e o
retorno. Depois, a franca natureza humana da violência e do extermínio. Restou
à mente racionalizante o peso de reinterpretar eternamente a crueza da cena sob
moldes sociológicos e filosóficos. Depois de tanto tempo, ele ainda não
encontrava o nexo correto das palavras para dizer que Ângela fora assassinada
em um assalto; que bastara o soco certeiro de um jovem para que ela caísse no
chão, já sem vida. Esse aspecto limítrofe da realidade — não a rigidez física
do corpo de Ângela, mas a fragilidade das estruturas do mundo — causava-lhe um
profundo espanto. Como era possível que as leis cósmicas, tão intransigentes,
cedessem tão prontamente ao pulso de alguém que recém saíra da adolescência? Ao
braço fino de um magrelo de vinte anos? Seja como for, a verdade era
incontornável. E ele próprio já passara dos setenta. No fim das contas, o que
importava? Eram apenas exercícios de entretenimento de quem, se antes cultivava
uma ilusão de permanência, agora sabia que tudo não passava de ruminações de
uma mente sem muito material para queimar.
O senhor Omeno Flibas usava seu rastreio mental
para identificar em si alguma necessidade de persistência no mundo. Não num
mundo qualquer, não no mundo dos velhos como ele. Aquela instância da lembrança
agora era identificada como as obsoletas coisas do passado. Havia a consciência
de que só há um mundo, sendo todo o mais puro trabalho da retórica—panoramas do
eufemismo que, no fundo, não podem ser desassociados do fator político da
existência.
Deitado com o corpo virado para a janela, os sons e
as luzes da cidade, já tão cedo lá fora, o angustiavam. Ele suspirou uma vez,
pesadamente, como um personagem médio-oriental de algum conto judaico. Nunca
fora boa coisa a ascensão da mente, pensou, os esforços da lucidez, as proezas
do esclarecimento. Por que lera tantos livros? Por que passara toda a vida
debruçado sobre ideias, cultivando joguetes que não deram em nada? Foram feitos
para não darem em nada. Teorias existenciais, negações com anseios de
substituir a natureza, apelos deístas, a procura de significado, a
hermenêutica, a sociologia, as reviravoltas da história, a conflagração dos
povos, a violência primal inerradicável, a utopia, a distopia, o estoicismo, o
design inteligente, a pura plenitude do átomo. Tudo apenas brincadeiras no
vazio, passatempo, inutilidades cuja futilidade só não se vê por sua aplicação
em distrair do fato de que a coisa toda não faz sentido. Apelos de injeção
fisiológica de hormônios para fazer com que o ser humano, esse animal tão
combalido, sinta algum anseio por sair da cama.
Mas, mesmo assim, esse enorme engodo, como num
comum acordo global, continuava a mover milhões de intenções. Por mais que se
sentisse apreensivo pelas conjunções da história, ainda assim era um
privilegiado. Lá fora, os que não tinham o mesmo benefício de uma solidão
cercada de sombras gentis estavam no metrô, andando pelas ruas cheias de lixo,
entre traficantes e sem-teto—ou sendo eles mesmos os traficantes e os sem-teto.
Seres embotados, sem o usufruto da nobreza que Deus lhes destinara, caídos em
uma armadilha milenar; um pequeno lapso ocorrido em algum momento do teatro de
dominação e nunca reparado. E agora estavam lá, como cobaias com o olhar sempre
estarrecido pela fugidia recordação desse cômico engano: os descendentes de
escravos e de bárbaros sanguinários, de piratas agrilhoados e sentenciados de
antigos Estados desaparecidos, todos transformados pela trivialidade dos novos
tempos em meros serviçais da máquina.
Ele mesmo, o que poderia esperar mais daquilo tudo?
E o fato era que não podia chamar de depressão. Ainda sentia a antiga alegria
pela vida. Talvez "alegria" fosse uma palavra inadequadamente forte,
e o acerto ficasse nas escolhas gramaticais menores. Um leve deleite. Não havia
mais nenhum sentido de explicação efusiva, mas, mesmo assim, ele admirava a
conexão de todos aqueles esquemas.
Ele se levantou. Dobrou o lençol para o lado,
fazendo uma ponta em "V" próxima à cabeceira. Era uma ordem de
segurança para si mesmo de que, mais tarde, poria tudo em seu devido lugar.
Pegou o grande travesseiro de tecido sintético, e o posicionou junto
à parede. Calçou os chinelos. Um homem de setenta anos deve prestar exímia
atenção ao equilíbrio. Estava de pijama.
No banheiro contíguo ao quarto, alteou o queixo
enquanto se olhava com uma perspicácia seca e plasticamente severa no espelho,
lembrando-se de um imperador romano menor, dos mais perversos, em seus banhos
palaciais privados. Deu dois passos e, com os movimentos concernentes, soltou
um fluxo de urina na privada. Seria um déspota facilmente demovido apenas pela
inextorquível aparência, um semblante expressivo do denodo e da devoção do
intelecto. Os senadores de uma autarquia que tivesse um tirano como aquele logo
poriam as diretrizes em ordem, sem nenhum problema. Ele sorriu diante desse
humor errático, que seu psicologismo deveria ter lhe enviado por nós de
análises perdidas.
Pegou a escova de dentes do armarinho, deixando que
sua imagem se descompusesse em um borrão veloz quando abriu a porta, e escovou
os dentes com concentrada solicitude. Cuspiu a espuma, observando-a com uma
curiosidade que tinha em sua instantaneidade a devida medida de suas
conclusões; depois, fez bochechos com o enxaguante cianótico mentolado.
Na volta para o quarto, gravou nos reflexos para
que sua mente se lembrasse de retirar a garrafa de inox cheia de água, que ele
punha ali todo início de noite. Distantemente, poderia resgatar o álibi de que
conservava um apuro clínico sobre a boa manutenção dos órgãos internos. O fluxo
de urina já não podia comportar esse epíteto, mas a degeneração dos esfíncteres
compensava pela clareza do líquido. Um corpo bem hidratado. Lembrou-se, de
súbito, de um antigo colega de trabalho que se vangloriava de beber três litros
de água por dia. Pequenas instâncias da trivialidade que tinham o mesmo peso
homeostático de Platão e do Mestre Eckhart.
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