domingo, 21 de junho de 2026

Seamus Heaney

 


Por uns bons anos eu tive um dente da frente maior do que o outro. O encolhido tinha a metade do tamanho, e era escuro. Só que eu não percebia. Por uns bons anos eu passei em uma absoluta ignorância quanto a isso. É claro que eu tinha espelho em casa mas toda vez que eu me olhava os dois dentes tinham o mesmo tamanho, encorpados, saudáveis, íntegros. E como o cara que tem uma suvaqueira brava, ninguém me dava o toque. Nenhum amigo me alertava sobre aquele dente descalcificado. Até que uma moça desconhecida, do nada, no meio da rua um certo dia, como no ato de misericórdia cruel que tinham todos me poupado, me disse: "eu ficaria com você, mas você deveria antes consertar esse seu dente". Eu não sei por que cargas d'água ela disse essa frase, com essas duas sentenças gratuitas, mas disse. Eu voltei para casa com aquele dilema na cabeça, fui ao espelho, arreganhei os dentes e...nada, dois dentes perfeitos. Eu passei a mão e...perfeitos. O celular não tinha a presença demoníaca irreversível de hoje, sendo apenas o primeiro dos três 6 na testa, mas eu tinha um. Tirei uma foto. E, finalmente, eu vi! Eu era horrível! Um barnabé! Debi e Loide. E ninguém tinha me avisado. Eu corri para o dentista e, em três consultas e ao preço extorsivo clássico da categoria, eis o dente restaurado. Mas essa impossibilidade que meu cérebro criou para que eu não visse foi um dos maiores impactos da minha vida. Ainda hoje eu gasto muito tutano analisando isso. Isso descambou para aspectos mais amplos, sobre o quanto de erros eu tinha que eu não via. Por estar próximo demais a mim, eu não via. Que reação psíquica surreal e sem propósito do meu cérebro. Por que ele me poupara dessa lucidez? Achava que assim estava me resguardando de me magoar? Mas não foi pior? Quantas e quantas pessoas não deveriam falar desse meu dente pelas costas? Eu deveria ter até um apelido secreto. Boca de esgoto! Stonehenge! Mas essa lembrança me veio hoje porque eu estava lendo uns textos meus que escrevi há 15 anos e vi que em todos eu estou brincando com o Eric, pondo o Eric pra dormir, passeando com o Eric. Mas..., o Eric mesmo só nasceu cinco anos depois! E nestes textos eu acreditava piamente e estava sendo absolutamente sincero! Seria meu cérebro me pegando outra peça? Ele me considera um bobão tão sensível que precisa sempre me iludir com esses artefatos? É sua maneira de me dizer "na volta a gente compra?". (E o pior que há nisso um elemento esotérico, é claro, porque o cérebro, como se pode bem suspeitar, sou eu mesmo, não é um parasita despregado e independente de mim. Eu sou ele e ele sou eu. Se ele me enganou, de certa maneira eu sabia que estava sendo enganado. Ano passado eu extrai um dos grandes dentes da mandíbula, e como ser banguela me trouxe uma felicidade libertária! Meu pai não tinha muitos dos dentes, porque eu teria que ter todos? E o Eric, bom, isso eu não consigo verbalizar, não em um texto apressado. Talvez isso forme um elo que só a mente por detrás do cérebro consegue ver. Talvez seja um esforço evolutivo, o início prototípico e antecipado em séculos de alguma capacidade clarividente que nossos distantes descendentes vão desenvolver_ talvez, vamos dizer, eu não ter agora um dente, está destinado a ser notado pelo Eric e isso forme a aritmética lógica daqui uns anos. Para meu cérebro, para minha mente, ou para o meu eu mais profundo e verdadeiro, ter um dente podre não significa nada, ou significa a minha absoluta independência da opinião alheia, o meu bem estar comigo mesmo; e a época real do aparecimento do Eric esteja em uma eternidade atemporal cuja burocracia do tempo tenha apenas uma das representatividades.)

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