Há algumas semanas uma garota conseguiu o direito da eutanásia. Uma garota que, após um estupro, tentou o suicídio saltando de um prédio e ficou paraplégica. Esse livro é o mais triste, o mais terrível, o mais desconsolado já escrito. Seu autor, Baron Biza, passou por sofrimentos que a própria urdidura da existência parece não conceber. Sofrimentos que destroem a filosofia, a religião, o contrato social e reduz tudo à brutalidade animal destituída de alma. Um sofrimento tão indizível que toda a família do autor se suicidou. Não é um livro para todo mundo. Se existe algo mais, não propriamente deus, mas algum pífio sinal de nobreza, uma filigrana de apreensão de algum reino, ele tem que passar por esses solitários inatingíveis a qualquer consolo, esses seres que vivenciaram o que não é suportável, o que não é permitido, o que não pode ser normal. Essa inefabilidade insustentável tem que se legitimar na explicação do por que, apesar de ser inconcebível, isso aconteceu.
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Notas sobre "O deserto e sua semente", de Jorge Baron Biza
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Em 2666, Roberto Bolano descreve em centenas de páginas um exaustivo compilado jornalístico sobre o assassinato de mulheres nas maquiladoras do México. Alguns leitores criticaram dizendo que o romance seria melhor se o editor tivesse retirado essas páginas. A sensação ao lê-las é de enfado, de continuidade amorfa, de indiferença. E esse é o propósito de Bolano, acusar a indiferença na serialização midiática da violência. Algo parecido faz Jorge Baron Biza. O narrador de O deserto e sua semente lê para a mãe no hospital em Milão. A mãe foi desfigurada por ácido sulfúrico lançado em um ataque brutal e covarde do marido. Todo seu rosto foi consumido até os ossos. Ela não tem mais as pálpebras, de forma que o narrador não sabe se ela está dormindo ou acordada. De súbito, no meio do texto, há uma inserção de uma longa cena de batalha em itálico. De primeiro o leitor se assusta com aquilo e logo pergunta qual o propósito de interromper uma narrativa tão envolvente e intimista com aquelas páginas enfadonhas. Daí vem a resposta, um cutucar, uma dessas resoluções raras da literatura que Hemingway descreveu como o momento em que o leitor sente um fio gelado descendo pela espinha. O leitor se vê dentro da mãe sem rosto, deitado na cama de hospital, após passar pelas primeiras de infinitas cirurgias de reconstrução. O leitor sente o que ela sente ao ouvir o filho ler um livro. Ali, no profundo distanciamento com a vontade de viver ouvindo o enredo vazio de uma descrição de guerra (as páginas que o narrador lê para ela), o leitor sente que ela vai se suicidar . Que o tédio descomunal daquelas páginas é a perda do entusiasmo por prosseguir, é a excisão também feita pelo ataque do ácido da atenção mínima que se tem de ter para seguir existindo. O leitor chega ao fim daquelas páginas propositalmente chatíssimas com os olhos marejados. Jorge Baron Biza, depois de páginas descrevendo o martírio da mãe, com esse recurso finalmente nos conduz para dentro de todo o abandono e solidão de sua mãe.
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Raul Baron Biza foi um dos seres mais desprezíveis. Há indícios de que ele matou sua primeira esposa, a atriz suíça Myriam Stefford, num acidente de avião muito suspeito. Ele erigiu para ela um mausoléu de 82 metros, enterrando-a com um diamante valioso. É o mausoléu mais alto da Argentina. Anos depois ele se casou com a intelectual feminista Rosa Clotilde Sabattini, que quando lhe pediu o divórcio ele lhe jogou um copo de ácido sulfúrico que lhe desfigurou todo o rosto e queimou profundamente suas mãos e seu peito. Em seguida ele foi para seu apartamento e se desferiu um tiro mortal na cabeça. Seu corpo estava sentado na cama, a mão com uma pistola e a outra com um copo de whisky. Ele legou também um pesado mausoléu para Rosa Clotilde em vida, que foi a saga de 14 anos de cirurgias reconstrutivas antes que ela se atirasse de um prédio. Em seu egocentrismo de macho intransigente, seu propósito declarado foi cegar sua vítima para que a última imagem que passasse por sua retina fosse o do seu rosto insultado. Foi algo tão cruel que destruiu toda sua família, levando seus dois filhos e sua esposa ao suicydhio. Jorge Baron Biza disseca essa violência do macho argentino tão cantada por outro Jorge, o Borges, e tão enraigada na tradição sagrada do sangue daquele país. Biza relata o antagonismo entre sua mãe e Evita Perón, mencionada apenas como "a esposa do General" no seu livro. O antagonismo entre a mente esclarecida, combativa e libertária que tinha sua mãe e o fanatismo tosco, brutal e atrasado do peronismo. Biza não perdoa a si mesmo. Sua mãe vê os indícios de sua leviandade de playboy frio e lhe diz: "não siga os passos de seu pai". Lendo as diversas cenas na Itália eu estranhei a forma da escrita. Cheguei a cogitar se Sérgio Molina tinha perdido a sua mestria na tradução, pois os diálogos tem verbos mal conjugados e palavras estranhas, não encaixáveis, revelando um mau ouvido para a linguagem trivial. Daí que eu fui ver que era mais uma das artimanhas estéticas cheias de nuances desse grande escritor que foi Biza. A incorreção verbal é o sinal de como ele se via através das pessoas. Os erros de conjugação é o reflexo autopunitivo de sua corcunda de macho latino americano de frente à civilização, é o seu quasimodismo. Em uma cena em que um europeu lhe induz a fazer sexo violento com uma prostituta, ele cede até a metade, ao que o europeu lhe admoesta: "por que esse pudor? Não é assim que vocês latinos americanos são?" Esse seu grande e perturbado livro foi sua exploração do quanto ser diferente do pai ou igual não era uma questão perfeita, mas um palimpsesto onde sua coragem seria expurgar toda a violência de si até que seu fundo espiritual ficasse translúcido, mostrasse se haveria uma substância resquicial. "Declarei-me pacífico", seu narrador escreve, "não por amor aos destinos que a paz pudesse me proporcionar, mas por conhecimento temeroso dos cantos da alma onde é gerada a violência." Biza levou essa sua auto exploração até onde ele suportou, e em vez de mausoléus da dor e do ego, ele deixou uma obra prima antes dele também se atirar de um prédio. Foi sua forma de responder à mãe.
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