quinta-feira, 2 de abril de 2026

Tabernáculo

 


Martina pedia para que eu deixasse a porta traseira da Kombi semi aberta. Um raio de sol incidia em linha reta até onde estava a cobra, como a luz que vem do vitral de uma igreja para iluminar o ícone devocional no altar. Martina falava palavras de carinho, como se fala com um bichinho doméstico qualquer, ou como se fala com uma criança. Não usava diminutivos, em deferência ao porte cerimonial, mas sua voz era sussurrante, ponderando frases curtas que terminavam em um retórico tom questionativo. “Você está com fome, princesa? Mas claro que a princesa está com fome”. Talvez não lhe escapasse o propósito de afirmar à Sra. Murdstone, naquela ação tão íntima de alimentação, que ela era a sua dona, que sem ela aquela pompa altiva não resultaria em nenhuma posição de poder. Talvez com aquela voz cheia de consoantes amenizadoras da indomesticável realidade do animal estivesse a astúcia de Martina em dizer que ela era apenas um buda de brinquedo, um deus decaidamente mais mortal do que ela, pois sem os cuidados de ter ratos em cativeiro itinerante que para a cobra eram preocupações ridículas de um mundo rebaixado ela não teria nem como ter aquela vida dentro do tabernáculo circunstancial da carroceria da Kombi.

  Mas a Sra. Murdstone não se dobrava, só se dignando a perceber a presença de Martina quando o odor do rato se fazia tão forte que os instintos da fome suplantavam os instintos da indiferença. Martina erguia a parte de cima da gaiola e segurava o ratinho pela ponta do rabo. Tanto presa quanto predador ficavam em uma imobilidade alheia aos papéis que cada um cumpria naquele sacrifício ritual. A cobra mantinha os olhos abertos deixando toda a comburência do núcleo do seu coração gelado na língua se projetando para fora. O pobre ratinho, como se a tragédia milenar a qual toda sua existência se restringia lhe cobrasse sadicamente essa lucidez, percebia aquele ser multidimensional do tamanho de um mundo, poucos centímetros abaixo, movendo-se com um vagar cheio de determinismo, e Martina alegava que sentia o corpo dele congelar. Sentia seu coração se encher de terror e parar, como se depois do sadismo viesse uma benção final que lhe poupasse do sofrimento. Ela abria a mão e o rato caía, e se todas essas predições de misericórdia fossem puro fruto retórico e não funcionassem bulhufas, ele não tinha tempo de sequer dar um mínimo movimento, pois a cobra o abocanhava com uma violência abrupta, como se toda a energia conservada durante esses três dias de puro imobilismo se gastasse naquela propulsão velocíssima.

   Trazíamos um saco de ração para hamsters e pequenos roedores, e Martina uma vez procurou no rótulo se podia ser usada para gatos.

  _ Você pensa em dar um gato para Sra. Murdstone?_ perguntei.

  _ Não se perde nada com a curiosidade investigativa. Foi a curiosidade investigativa que fez com que essas estradas por onde vamos fossem desbravadas. Quem pensaria em ir para a Patagônia a não ser os movidos por tais pensamentos intrusivos?

 _ Tá bom. Espero que essa sua imaginação desbravadora tenha pensado como deve ser segurar um gato de dez quilos pela cauda por cima de uma anaconda albina.

 _ Eu não penso em dar um gato para a Sra. Murds, Halp. Eu sei que essa sua cabecinha com ideias humanitárias está cheia de apreensões sobre isso. Eu só leio o rótulo e, para seu governo, essa ração não é indicada. Não tem potássio suficiente.

  _ Nesse caso, uma ração menos nutritiva seria menos ou mais apta a um gato ser servido como almoço para uma cobra?

   Ela aceitava que o absurdo da coisa se desviasse para o alívio humorístico e seus olhos se semi fechavam.

  _Não conhecemos a situação dos gatos abandonados da Patagônia. O que eles podem caçar para sobreviver? Talvez já sejam naturalmente muito desnutridos e uma ração de hamsters os tornem mais sonolentos. Isso facilitaria bem as coisas.

  Mas quando chegamos a Hochschild haviam apenas mais dois hamsters. Dois pouco animados serezinhos de olhos vermelhos que comiam uma bola de ração como judeus rezando numa sinagoga, um ato impessoal que não falava nada sobre eles. Martina não me deixava alimentar nenhum tipo de consideração por aquelas criaturas, falando sobre o grau de estupidez que os condicionavam a ser as melhores cobaias. Eu não lhes dirigia qualquer olhar mais terno do que dirigiria à cobra, e na verdade sentia que um ser suntuoso como a Sra. Murdstone merecia uma consideração honorífica mais elevada na escala biológica, mas Martina queria deixar meu distanciamento emocional absolutamente seguro, relatando que aquelas fofuras se distinguiam pela perversidade. 

  _ São ratos, Halp, só são movidos pela necessidade de se reproduzirem com extrema rapidez para formarem bandos de assassinos impiedosos. Se nós dois caíssemos mortos aqui, eles nos comeriam.

   _ E a Sra. Murdstone ficaria feliz com isso por depois os devorar mais gordinhos_ eu provocava.

   Ela elevava os olhos no seu gesto contumaz de dispensar aos céus a minha ignorância, mas concordava que a Sra. Murdstone era tão impermeável à ternura quanto um terremoto. Ela tinha consciência de que a cobra não a reconhecia sequer como um outro ser vivo, visto não ter nenhum interesse em seu sistema de recompensas, quanto mais como sua dona. Mas todo dia tinha o momento de contato entre as duas, Martina retirando a cobra da gaiola e a segurando no braço com toda delicadeza. Falava com ela com suas entonações de princesa, fazendo-lhe carinho na cabeça, incentivando-a a se relaxar. Somente quando a sentia se enrolando em seu braço, Martina então deixava de falar para estudar uma recepção preventiva àquele abraço. Pela cabeça de Martina deveria passar a compreensão do que o rato sentia quando caía naquele cadafalso e era tragado da existência. Ela se sentava, porque a cobra se tornava nesse momento inesperadamente pesada, e ficava em silêncio. Ela conhecia bem o animal, porque logo o susto passava e havia até uma espécie de troca muito intrínseca entre as duas, ela com seu braço imóvel e a cobra tornando a voltar ao seu sono.


   

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