domingo, 18 de agosto de 2024

Um livrinho só

 



É muito perigosa essa veneração inconsciente que o brasileiro sente pela televisão. O Brasil por décadas teve um único e restrito ambiente midiático, construído por duas ou três emissoras de tv que moldaram o imaginário nacional. Foram décadas em que as oligarquias fizeram o que queriam com a gente, através da grande arma de imbecilização dominadora da tv. Digo isso pois vivi os anos 70, 80, 90 e 2000, e ela, a tv brasileira, sempre esteve presente, alerta, ditatorial, zelosa pelo grande capital de ignorância coletiva que ela criou. Nós somos o único país do mundo que teve um velho vestido de palhaço jogando bacalhau na cara da plateia. O único país do mundo que uma loira seminua apresentava um programa para crianças. A TV mudava o regime político, decidia quando reinstauraria uma democracia frágil na medida de seus interesses, escolhia presidentes, escolhia corte de cabelo e posturas estéticas. A TV dominava tudo, tudo. Como nunca aconteceu antes em nenhum outro país, não com a perversão de mostrar coisas como simulações de cenas pornôs na hora do almoço para toda a família, como na Banheira do Gugu. Então, quando vejo pessoas que se dizem leitoras, esclarecidas, cantando loas para Silvio Santos, eu me pergunto para que serve um livro para essas pessoas. Não é gosto. Não é respeito à liberdade de consumir a besteira que quiser. Mas sim constatar como o efeito dessa doença imposta no país é grave e difícil de se erradicar. É graças a essa exposição tão radical e massiva a esse vazio programado que foi possivel um Collor e um Bolsonaro chegarem à presidência. A idolatria por palhaços fascistas como Bolsonaro surge com a idolatria a pessoas como Silvio Santos, a ponto de criar a falácia incontestável de que Sílvio é "o maior comunicador do mundo", um homem bom, de bom coração, etc, etc. Se um livro não serve para enriquecer a consciência e ampliar os poderes mentais para enxergar a obviedade de que esse Sílvio nunca passou de um instrumento para essas oligarquias, ou se está lendo os livros errados ou então se está lendo muito mal. Eu nem digo ler livros de história, mas, eu imagino, ler autores como Thomas Mann, Olga Tokarczuk, ou uma gama de outros de mesmo nível independente de qual país venham. Um livro bem lido, escrito por alguém com uma real elevação de pensamento, não permite jamais que alguém veja em Sílvio Santos ou em atores e jornalistas da tv próceres da grandeza cultural de um país. Pelo contrário, um livrinho, um livrinho só, desses que tem a nobreza intelectual de poder colocar os pés na mesa, lido com o devido envolvimento, já dá as bases para se saber os canalhas que esses "heróis" na verdade são.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Cafarnaum



 Quando eu fiquei muito mal da covid, a ponto de se eu me apresentasse a um hospital eles me entubariam (e eu não estaria aqui agora), eu tive uma vivência profunda do tédio. Eu tinha me isolado na biblioteca e intimado a todos de não se aproximarem, mas a Júlia, o Eric e a Dani praticamente arrombaram a porta e se deitaram afrontosamente no colchão que eu tinha estendido lá, do meu lado. O resultado foi que todos se contaminaram, expressando sintomas brandos. Ruim mesmo ficou eu. Um dia eu tentei erguer meu braço e não consegui. Perdi oito quilos em uma semana. Enzimas do meu cérebro foram reduzidas quase a zero, a ponto de essa percepção me fulminar. Era um estágio de profunda depressão. Recordo que me sentei com o Eric para ver um desenho, e me marcou o quanto o urso do desenho sofria, se desgastava em uma vida sem sentido, lutando contra uns esquilinhos azuis que nasceram para atormentá-lo. Eu pensava: "Isso é uma síntese precisa demais da existência humana para ser um desenho infantil!" A revelação de que o tédio é o moto perpétuo da existência e a única força que move o universo foi a coisa mais importante que me aconteceu. Eu me recuperei. Parei de beber. Parei de ter compulsão pela comida. Perdi 25 quilos e mantenho meu peso ideal até hoje. Todas essas coisas, bebida, comida, eu as tinha para vencer o tédio. Todas as noites tinha a hora do rock n roll, em que eu bebia uma garrafa de vinho ouvindo música, e depois comia um nababesco jantar. Hoje eu como regradamente, o mínimo possível. O drible ao tédio foi embora, mas também foram a hipertensão, a gota, a gastrite, e a baixa estima. Mas voltemos ao tédio: eu constatei o seguinte, se o espírito for imortal, o tédio é a constante universal. Um amigo espiritualista me disse certa vez que Deus criara a reencarnação para enganarmos o tédio. Uma ideia que me pareceu estúpida. O tédio tem de ser confrontado, aceito, interiorizado, enlevado. Se tivesse outro nome, que não essa pecha de tédio, poderíamos compreendê-lo mais corretamente. Se chamasse, por exemplo, cafarnaum. E eis que me deparo com esse livro do Kierkegaard, O desespero humano, no qual ele fala sobre essa minha descoberta pessoal. O desespero só pode ser sentido pelo ser humano, e ele vem como algo positivo, pois é a limpeza de eufemismos quando o espírito se vê diante de deus. Como já disse antes, eu leio muito, demasiado até, mas não levo nada a sério do que leio. Como Borges falou a respeito de Tomás de Aquino, grande parte da filosofia e da ciência me parece apenas uma bem engendrada ficção. Mas levo as intuições a sério. Se somos imortais? Se deus existe? Eu recebo essas intuições com as mesmas reservas que recebo as opostas, de que tudo é o Átomo (o que me parece, devo dizer, uma tolice maior ainda!). Mas eu sei que, se a vida imortal existir, não será para todos. Gorenstein diz que deus pouco se importa com a caridade. O que importa no eterno é o enriquecimento espiritual, o que a caridade seria uma mera consequência, visto o mal sempre, sempre, sempre ser burro. E o enriquecimento espiritual nada mais é que a convivência ativa com o tédio e o desespero. Somente seres imortais e eternos sentem o desespero. Camus também escreveu sobre isso, quando disse que devemos ser fanaticamente lúcidos, lúcidos até beirarmos a insanidade.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Uma distante rua em Omsk

 



Minha vida em busca do esclarecimento me mantém fora das formas pré fabricadas de pensamento, e eu sempre segui no sentido contrário do senso comum e do padrão instituído, seja da sociedade, da ciência, da filosofia, etc. Eu não digo que creio e nem que não creio. Eu posso afirmar apenas que me foi dado o sistema sensorial mais sofisticado do universo, com meu cérebro humano e toda a mágica intuitiva que ele me proporciona. Esses dias eu falava a uma amiga que ela, que tem 41 anos, é ainda muito jovem, pois não perdeu ninguém. Eu, quando tinha essa idade, era cercado por todos que ainda estavam vivos. Hoje, meus principais amigos já morreram, e eu sinto o estranho epíteto tardio de ser órfão. Era algo inimaginável essa solidão. Minha cunhada passou mal ontem em seu trabalho, e quando estava sendo socorrida viu entre seus colegas o seu pai, parado a observando. Seu pai que morreu faz dez anos. Meu melhor amigo, Galeb, que era um profundo espiritualista de enorme cultura, me disse, duas semanas antes de morrer: "você aciona o gravador em sua biblioteca silenciosa e pergunta por mim. Eu virei te dar a prova". Minha mãe morreu, eu visitei pela última vez seu apartamento desolado, um local que me trazia tantas e tantas lembranças. No quarto escuro, com aquele vazio duplamente profundo dos ambientes deserdados, eu forcei para ver o vulto dela sentado. Lembrei de Houldini, que procurou em vão pela mãe morta em invocações rituais. Tirei fotos, para ver mais tarde. Quem sabe algo pudesse ser flagrado, nebulosidades sutis, luminescências evasivas. Uma manhã, semana passada, eu acordei com a certeza de ter sonhado a noite inteira com o Galeb. Não me lembrava de nada, só de que fora uma das nossas conversas iluminadas e arrebatadoras. Será que é assim? Será que o espírito é mais sutil? De minha mãe eu sonhei não com ela, mas com sua ausência. Uma viagem que ela demorava por voltar. Uma tarde, estando sozinho em casa, ainda inconsolável, eu peguei enfim o gravador do celular. "Galeb, você está aí?". Deixei gravar cinco minutos. Ouvi e reouvi, no computador e na tv. Chiados, a estática que lembra o som residual da criação do universo e o som das nebulosas. Mas isso não quer dizer nada. Se ele respondesse prontamente, esse sacana inveterado, aí sim eu não iria acreditar. Iria achar que era uma distorção do meu anseio por ouví-lo.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Estratagemas mentais




  O sr. Flibas pôde ver o céu por sobre a cidade. Era um despropósito assuntos pessoais serem tratados àquela altura. Não pareciam levados em conta. A jornada do homem havia degringolado para um grande acidente. Um ser solitário, brutalizado pela sobrevivência básica. Novamente ele pensava o quão privilegiado era Vergue. Partiria na hora certa em que as forças se convergiam para subtrai-los do planeta. Não imaginava que o fim fosse na explosão nuclear. No relógio das eras, décadas se resumiriam a segundos. Com a abolição do homem, o tempo seria extinto. Encontros de líderes políticos haviam sido feitos, Davos, Egito, Rio. Cantores de música pop haviam aparecido, a linearidade das sobrancelhas representando para os fãs que a situação era séria. Mesmo estes careciam da lucidez por não terem se isolado em cabanas na floresta, se eximido da carne vermelha, do lítio e do trabalho escravo. Tudo se enovelava numa mesma razão temática, a política, a ecologia, a luta de classes, a estupidez, a mentira midiática. Seriam dizimados por cânceres lentos e ensandecimentos que tornavam o cérebro tão gelatinoso como medusas marinhas. Vergue sentia essa manifestação do poder jurídico da potestade em sua garganta, com o tumor expandido-se por sua coluna vertebral, e ele mesmo, o sr. Flibas, estava com o sinete condenatório em seu encefalograma. Não havia chance de um adiamento. Os 32 homens justos da fábula judaica estavam mortos. Deus deveria sentir engulhos diante tamanha isenção, no projeto de criar um símile de si mesmo. Se Deus criara o homem à sua semelhança, contudo, deveria ter o mesmo gosto pela violência. Não seria mais que um macaco insaciável diante a bajulação de seus bonequinhos sem alma. O sr. Flibas vasculhava entre as tantas personalidades, e era com grande alívio (pois assim eximia-se de novos adiamentos), que não encontrasse ninguém. Em seu esforço para ter fé, somente via não haver como ser diferente. Os melhores haviam criado a bomba atômica, o sistema de castas, a bolsa de valores, os bancos, as ideologias religiosas. Mesmo a arte era limitada ao assassino dissipassivo instalado no núcleo genético da espécie. O militarismo triunfante de Beethoven. As peças de Shakespeare, que disciplinavam sua neta. Contendas de sexo e regicídios. Só assim para cativar a atenção desse símio ocupado com o ódio suicida. No andar que estávamos indo, seria preciso bilhões de anos para que algo realmente tomasse espaço naquele coração cheio de reminiscências do caçador faminto. Com apenas duzentos anos de capitalismo industrial toda a planilha havia se afundado na derrota. A superpopulação se integrara ao comércio de futilidades global. A não ser que houvesse a opção retirada do fundo da gaveta, uma lição em negativo esperando que tudo fosse feito da maneira correta. Eram muitos estratagemas mentais para fomentar um tanto só de fé em todo o absurdo. O deus da História emanando calor para aqueles abençoados melancólicos. Agora sobrara apenas a afasia. Havia apenas a consumação da falta de charme como valor absoluto.  O sr. Flibas pensava nos que acreditavam na transmigração da alma, e ele não desejaria que, após os anos finais que teria que cumprir nessa prisão, ele viesse a acordar reencarnado num corpo humano. Mesmos os mais profundos crentes sentiam que a mais doce esperança estava em não haver nada depois desse martírio, embora a própria palavra que ele usava, no refúgio do seu  cérebro, martírio, fosse um remanescente teísta. O que aquela  neutralização sensorial vinda dos celulares trazia era a aceitação de que não era lógico que a eternidade fosse algo destinado a nós. O sr. Flibas achava que muitos nos lugares de poder já sabiam disso, e estes usavam os esqueletos da fé para explorar os que estavam embaixo. Se houvesse um panteão de existências eternas baseado no retorno didático, a prova em sentido contrário era que não havia, em milênios, nenhum sinal de revolta, o menor indício de que algum inconformado dissera “Já basta!”. Aqui seria justificável que só de séculos em séculos uma revolução acontecesse, cedendo ao acúmulo de ofensas, mas diante almas que tinham o conhecimento de serem eternas, naquele domo contendo nossas instâncias superiores, ninguém se indignar era algo inconcebível. Um trabalhador da linha de produção da Apple, se soubesse ser imortal, se prontificaria a ceder seu trajeto de aprendizado pelo medo da finitude numa galera escrava moderna?

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Resto




  Quando ela voltou da cozinha com as chaves, tendo corrido a cortina da janela para que também ali o sol não entrasse, encontrou-o onde o havia deixado um pouco mais cedo, sentado em sua poltrona de couro. Como todos os anos, naquele dia, ele em nada mudava seu itinerário pela casa, apenas exercendo com mais peso a sua inércia astuciosa, acordando de madrugada, vestindo-se com menos apuro do que antigamente mas ainda assim a camisa velha e as calças de brim lhe dando um ar perfeitamente composto e sóbrio. Dormia_ o que ela sabia por conhecê-lo tão bem, por ser por cinco décadas a receptora atenta de todos seus gestos e manhas, de toda a ordem marcial que desde o primeiro dia em que ele a pusera para viver naquela casa ela pressentira que aquilo se tornaria com a velhice um decálogo de preconceitos e ódios por tudo que lhe fosse diferente. Seus braços não se descontraíam no sono, mesmo pousados cada um no espaldar da poltrona mantinham uma atitude belicosa, os dedos artríticos encrespados segurando-se na borda do couro como se temesse uma repentina ruptura na constância de sua falta de sonhos; seu rosto como uma máscara mortuária, ela não sabendo dizer o quanto era desesperadamente inexpressivo com aquele crânio querendo se libertar da pele, as sobrancelhas sempre contraídas como se _ela pensou_ no fundo nunca tivesse feito outra coisa além de repudiar violentamente a si mesmo. Quando ela se aproximou mais, um tremor descomunal a fez se segurar na mesa da sala. Meu Deus, pensou, como ele sempre fora apiedante e solitário. Não um demônio, mas um ser muito mais baixo e sem legitimidade, a verdadeira vítima. Só uma mulher como ela poderia amá-lo como ela o amava, e só uma velha como ela poderia perceber o desassombro e a extensão desse amor. Não havia muito o que amar naquele corpo. Era tão insubstancial como um bebê que tivesse-lhe saído inteiro e com toda impossibilidade de esperança de dentro dela. Como se pudesse substituir o que se fora por aquele e tal substituição só agora fosse concluída, só agora quando não mais lhe serviria a proteção que ela lhe daria e pelo pouco tempo que lhes restava. Quando ela passou por ele sabia que o despertaria de seu tênue sono. Estava preparada para se deixar segurar pelo seu olhar irredutível, e como se a compaixão tivesse extravasado e contaminado o ambiente, percebeu um tom novo nos olhos dele. Como se lhe comunicasse que estava disposto a ceder dessa vez, se ela não lhe pedisse, se, nesse ano, ela não lhe pedisse, o isentasse de ter de proibi-la, se soubesse agir por conta própria. Sem fazer questão de esconder as chaves, ficou mantendo o olhar no dele, como se tivessem a nítida consciência de que se seguravam um no outro por aquela delicada fimbria de sanidade. Então ela não perdeu mais tempo. Avançou escada acima com determinação, com todas as suas forças, ouvindo-o dizer pelas suas costas com sua voz cinzenta de barítono aposentado:”ele nunca precisou de nós”, contra o que ela lhe devolveu a frase que havia segurado por tanto tempo “como não se ele está me chamando, será possível que não o escuta chamando pela casa toda”, mas não lhe saindo nada senão um esgar cansado e agudo e firme. Depois de subir as escadas, colocou a chave na fechadura, sentindo uma alegria selvagem que devia lhe acentuar ainda mais o ar de doida varrida, e destrancou a porta. Riu ao imaginar a possibilidade daquele velho dar um pulo da poltrona e escalar as escadas de três em três degraus para impedi-la. Empurrou a maçaneta e a porta se abriu lugubremente. Ele estava deitado na cama na mesma posição que o deixara. Estava acordado e a olhava com serenidade, não parecia ter duvidado que ela lhe responderia ao chamado. Ela avançou com um sorriso trêmulo, não acreditando mas sabendo que era verdade. Sua percepção de dona de casa admirando que os móveis estivessem tão limpos, e lençol e o cobertor tão brancos que podia-se percebê-los na penumbra. Caminhou com cautela até a cama, sentou-se a seu lado ao mesmo tempo em que ele se levantava das cobertas. Conteve-o carinhosamente com seus velhos braços, impondo a força necessária para mantê-lo abraçado. Sentiu o hálito característico de quando acordava pela manhã mas dessa vez não lhe lembraria de escovar os dentes ao se levantar. Queria apenas continuar a tê-lo nos braços, não o soltaria dessa vez por nada e estava determinada a esquecer de tudo, de avisar ao velho o quanto ele estava enganado esses anos todos, abraçá-lo firme e esquecer de dar asas àquela observação involuntária de como as cicatrizes no corpo dele haviam se reduzido a linhas delgadas, que haviam tornadas imperceptíveis até quase desaparecerem por completo. 

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Ioan



 Quando estou melancólico, eu nunca espero os sinais mas eles sempre vem. Hoje foi ao sair de carro, no início de uma tempestade furiosa que cai com tudo agora sobre a cidade. Nós estávamos no bairro mais afastado, um belo e pacato lugar onde moram os mais pobres, onde os idosos ficam nas portas das casas em conversas alegres e arrastadas; então uma senhorinha, que parecia ter já seus oitenta anos, andava de frente a meu carro, no meio da rua. Ela carregava um fardo de lenha nas costas e, apesar de eu estar dirigindo muito lentamente para não assustá-la, quando ela me percebeu fez um movimento rápido para o lado da calçada, uma espécie de pulo jovial que bem poderia ser feito por uma menina de 10 anos. Passei por ela e ela virou o rosto para nós com um sorriso deslumbrante, cheio de imortalidade e vida. Aquilo deixou todos nós radiantes. "Como ela é linda!", a Dani disse. A Júlia disse: "Papai, parece aquela cena do Powaqqatsi". Já eu estou com o rosto dela nítido na cabeça e meu coração está cheio de esperança e conforto. Talvez isso esteja na raiz daquela crença judaica de que 36 pessoas, absolutamente desconhecidas e sem relevância social alguma, justificam a persistência do mundo. Nada pode com essa senhora, nem a guerra, nem a doença, nem a ignorância assassina. Tudo nela é espírito e fé.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

A chegada dos hunos



 Até o dia do colapso. Que ele estivesse pelo pescoço com aquela comédia barata que o destino fizera com sua vida era algo para não passar batido a alguém com a mínima acuidade perceptiva; ele até era generoso em sinais indo da apatia mecânica, em que atravessar em marcha lenta um simples corredor era uma tarefa hercúlea lhe soando incompreensível quando se via chegando no outro extremo em direção à luz, até uma ira mercurial que lhe tomava conta de vez em quando e sempre lhe parecia surpreendente ninguém ter providenciado seu afastamento imediato da sociedade por conta disso. Mas o que lhe aconteceu extrapolou todas as expectativas. Não imaginaria que o mecanismo adotado seria o das vozes, e num primeiro momento até respirou aliviado diante a intuição de que isso ele poderia suportar. De certa forma, ainda estavam sendo condescendentes com ele, pois um rompimento de uma artéria cerebral obviamente teria sido muito pior, ou em vez de vozes viessem lhe esclarecer sobre a necessidade de um despertar espiritual através do uso pirotécnico das luzes. Lera em algum lugar sobre um homem que via luzes envolvendo um caudal de serafins de severos semblantes incorruptíveis descendo em conflagração dos céus, o que os exames médicos a que o obrigaram sua esposa e filhas empobreceu bastante a prostrante beleza do milagre ao aparelho de eletroencefalograma transcodificá-lo em um câncer no cérebro. Agora, vozes, e ainda a voz de tom sutil, impossível de saber a qual gênero pertencia, mas não diáfana nos moldes do tédio da moda das músicas celtas, era algo até bastante prazeroso, e sua memória conservava uma ingenuidade voraz que lhe dizia para não se preocupar com consequências fisiológicas. A primeira voz ouvida foi quando estava no escritório de seu chefe, lhe soando tão próxima ao ouvido, com uma determinação trivialesca em querer mostrar que fora conduzida por uma distância não apta a ser imaginada para esse plano dimensional afim de ficar junto dele, que ele se voltou para a cara sibarita cujas encarnações pregressas em corpos de reis e donzelas da corte sua alma moldara para abrigar-se naquele avatar agora rebaixado por uma inexplicável provação detrás da mesa. Viu seu chefe lhe dirigir um olhar desamparado, como se o tivesse flagrado em um momento sem retorno processando alguma descompressão interna na qual o punitivo abandono cósmico naquela vida medonha aparecia em uma nudez absoluta, e teve certeza que ele também a ouvira. Emitiu um sorrisinho de alguém que tinha uma doença terminal, mas quando Eme estava fechando a porta lhe ergueu o braço em um aceno de coragem. Eme tentou entender o que a voz lhe dissera. Parecia "Valentina"", ou, analisando mais tarde com um pendor mais acadêmico, "Mais valia". Seria mais valia? Rebobinava a fita da memória e lá estava a voz, um viking castrati em seu aterrizar etéreo no centro de todo aquele aparato estrutural do emprego que era como uma pedra lapidar em cima de suas energias para continuar vivendo, abrindo sua boca esfumaçante para dizer "Mais valia". Era tudo que precisava, se disse, com humor brincalhão, um espírito de luz marxista. Iria ser preciso fazer mais se aquilo fora enviado mesmo para o retirar de sua casca suicida de complacência. Será que mesmo seus anjos da guarda eram tão identificados com ele que não tinham também escapatória?, estavam geneticamente codificados para o embotamento assim como ele?


Daí foi que notou que uma voz próxima à cabeça era talvez mais aflitivo a longo prazo do que a visão de luzes. Se deu por isso quando estava sentado no sofá com Eike, assistindo à final do campeonato Macarrões Tornytonny de perguntas e respostas na televisão, um programa com índices de audiência devastadores para a economia do país que tinha que parar e fechar as portas dos comércios mais cedo, e que a secretaria de transportes públicos tinha que espremer todas as cartilhas de gestão de riscos para fazer os metrôs e ônibus chegarem com a frota aumentada em seus devidos pontos e estações meia hora antes dos horários costumeiros e assim antes do espetáculo começar afim de evitar qualquer comoção social, qualquer guerrilha ativada pela astúcia da história, e que só os macarrões Tornytonny era quem lucravam com essa bem arranjada estratégia das agências da mídia. A massiva exposição das embalagens coloridas do macarrão instantâneo, que obedecia à ordem do prisma de degradação da luz branca assim como cada luz correspondia a uma foto suculenta de sabor_ vermelho para camarão, amarelo para frango caipira, verde para molho de verduras, marrom para picanha_, fazia com que os receptores neuroniais que se desembocavam nas papilas gustativas ficassem em estado de frenesi paranoico pavloviano. Eike estava devorando seu prato de macarrões Tornytonny sabor pimenta dedo-de-moça, os filetes helicoidais tensionados no alto do garfo próximo à boca descendo por trinta centímetros de rastafári de materialização química suculenta, enquanto à sua frente descansava no colo uma massa quatro-queijos de macarrão Tornytonny cujo abandono paulatino de vapor o transformava em algo próximo à condição sintética, quando a voz voltou com tudo. Tinham passado a tarde daquele primeiro dia (ele e a voz), em estática entrevista sensual de namoro, sentado sozinho no apartamento competindo com as palmeiras quem simulava com mais sucesso indiferença ao ruído dos carros que passavam na rua abaixo, ela lhe contando sobre as regiões de pura eternidade que deixara para estar ali com ele, e ele às vezes pontilhando a sinfonia sincopada com monossílabos de inadvertência que deveriam reforçar a simbiose inter-genérica que se formava entre eles. Estava mesmo ficando louco, pensava, enquanto balançava a cabeça afirmativamente para não ser indelicado em deixar a voz pensar que falava sozinha. Seu sistema mental estava em franco erodimento, agora de uma vez por todas e sem desculpa. Suava frio e agradecia por estar sozinho para suportar aquilo: o dia em que o cérebro de Eme Skhole enfim se transformou em geleia. Talvez por o medo ter se acentuado demais nele, a voz por finesse resolveu dar um tempo, como uma dama que percebe que os coquetéis que tomou a mais começam a abalar as boas maneiras exigidas pelo anfitrião da casa. Ele pôde restaurar a fundação sobre a qual se equilibrava o antropológico aparato de suas certezas motivadoras básicas, e prosseguiu. Até o momento em que o apresentador do perguntas e respostas do Macarrões Tornytonny fez a sua primeira pergunta para os dois participantes, aqueles dois hunos apostólicos que impiedosamente escalpelara mais que metaforicamente todos seus adversários em dez semanas cruentsa até chegarem ali em glória diante toda a nação para concorrerem ao prêmio de meio milhão. As perguntas começaram com pouca dificuldade, referentes a ciclos geodésicos e estações do ano. Para um cidadão comum eram algo impossível para seus cérebros mutilados pela passagem por um rápido e circunstancial sistema de ensino responderem, e que tinham uma poesia embotante tecida propositalmente para levemente insinuar acolhedoras situações para se comer o Macarrão Tornytonny. Até que Eme deu-se por vencido de que ele próprio, saído de um ciclo nababesco de carros de motores injetados e sexo nos banheiros da escola com meninas destinadas a integrarem o exército do assistencialismo público, não poderia saber as respostas às perguntas mais complicadas dos últimos blocos do programa. Mas mesmo assim, as respostas lhe vinham assopradas no ouvido: u`+ u3 - u, Zona de Convergência Intertropical, Kaminaljuyú, Soledad Orozco, Plutão, nó de escota, Marlene Dietrich e não Karoline Herfurth. Repetia baixinho somente para si mesmo, para confirmar a cola soprada pela entidade imaterial, sem que Eike ouvisse, e segundos depois a mesma resposta aparecia sendo dita na tv. Foi para o quarto antes da pergunta final e se olhou no espelho, tampou os ouvidos com força até que só pôde notar a retumbância do zunido pulsando nas têmporas, e bem na superfície daquele isolamento de músculos e nervos contraídos escutou com cinzelada nitidez a voz lhe sussurrar uma palavra. Maersalalhasbas. Voltou para a sala enquanto os confetes e serpentinas caíam por sobre o ganhador, um rapaz de óculos com uma camisa negra de mangas compridas dos cortadores de pulso fracassados que permanecia congelado em incrédulo contentamento no meio da euforia caótica de plateia e apresentador estridentes, e fez a pergunta mais angustiante de seus treze anos de casamento por ela não ter nenhuma salvaguarda de trivialidade que deveria ter, ao que Eike lhe respondeu sorridente, se afundando de alívio no sofá junto com 40 milhões de outros espectadores pelo país: qual o nome do filho de Isaías?, dá para acreditar que perguntaram isso? quem iria saber?