sexta-feira, 5 de abril de 2024
Cafarnaum
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024
Uma distante rua em Omsk
Minha vida em busca do esclarecimento me mantém fora das formas pré fabricadas de pensamento, e eu sempre segui no sentido contrário do senso comum e do padrão instituído, seja da sociedade, da ciência, da filosofia, etc. Eu não digo que creio e nem que não creio. Eu posso afirmar apenas que me foi dado o sistema sensorial mais sofisticado do universo, com meu cérebro humano e toda a mágica intuitiva que ele me proporciona. Esses dias eu falava a uma amiga que ela, que tem 41 anos, é ainda muito jovem, pois não perdeu ninguém. Eu, quando tinha essa idade, era cercado por todos que ainda estavam vivos. Hoje, meus principais amigos já morreram, e eu sinto o estranho epíteto tardio de ser órfão. Era algo inimaginável essa solidão. Minha cunhada passou mal ontem em seu trabalho, e quando estava sendo socorrida viu entre seus colegas o seu pai, parado a observando. Seu pai que morreu faz dez anos. Meu melhor amigo, Galeb, que era um profundo espiritualista de enorme cultura, me disse, duas semanas antes de morrer: "você aciona o gravador em sua biblioteca silenciosa e pergunta por mim. Eu virei te dar a prova". Minha mãe morreu, eu visitei pela última vez seu apartamento desolado, um local que me trazia tantas e tantas lembranças. No quarto escuro, com aquele vazio duplamente profundo dos ambientes deserdados, eu forcei para ver o vulto dela sentado. Lembrei de Houldini, que procurou em vão pela mãe morta em invocações rituais. Tirei fotos, para ver mais tarde. Quem sabe algo pudesse ser flagrado, nebulosidades sutis, luminescências evasivas. Uma manhã, semana passada, eu acordei com a certeza de ter sonhado a noite inteira com o Galeb. Não me lembrava de nada, só de que fora uma das nossas conversas iluminadas e arrebatadoras. Será que é assim? Será que o espírito é mais sutil? De minha mãe eu sonhei não com ela, mas com sua ausência. Uma viagem que ela demorava por voltar. Uma tarde, estando sozinho em casa, ainda inconsolável, eu peguei enfim o gravador do celular. "Galeb, você está aí?". Deixei gravar cinco minutos. Ouvi e reouvi, no computador e na tv. Chiados, a estática que lembra o som residual da criação do universo e o som das nebulosas. Mas isso não quer dizer nada. Se ele respondesse prontamente, esse sacana inveterado, aí sim eu não iria acreditar. Iria achar que era uma distorção do meu anseio por ouví-lo.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024
Estratagemas mentais
O sr. Flibas pôde ver o céu por sobre a cidade. Era um despropósito assuntos pessoais serem tratados àquela altura. Não pareciam levados em conta. A jornada do homem havia degringolado para um grande acidente. Um ser solitário, brutalizado pela sobrevivência básica. Novamente ele pensava o quão privilegiado era Vergue. Partiria na hora certa em que as forças se convergiam para subtrai-los do planeta. Não imaginava que o fim fosse na explosão nuclear. No relógio das eras, décadas se resumiriam a segundos. Com a abolição do homem, o tempo seria extinto. Encontros de líderes políticos haviam sido feitos, Davos, Egito, Rio. Cantores de música pop haviam aparecido, a linearidade das sobrancelhas representando para os fãs que a situação era séria. Mesmo estes careciam da lucidez por não terem se isolado em cabanas na floresta, se eximido da carne vermelha, do lítio e do trabalho escravo. Tudo se enovelava numa mesma razão temática, a política, a ecologia, a luta de classes, a estupidez, a mentira midiática. Seriam dizimados por cânceres lentos e ensandecimentos que tornavam o cérebro tão gelatinoso como medusas marinhas. Vergue sentia essa manifestação do poder jurídico da potestade em sua garganta, com o tumor expandido-se por sua coluna vertebral, e ele mesmo, o sr. Flibas, estava com o sinete condenatório em seu encefalograma. Não havia chance de um adiamento. Os 32 homens justos da fábula judaica estavam mortos. Deus deveria sentir engulhos diante tamanha isenção, no projeto de criar um símile de si mesmo. Se Deus criara o homem à sua semelhança, contudo, deveria ter o mesmo gosto pela violência. Não seria mais que um macaco insaciável diante a bajulação de seus bonequinhos sem alma. O sr. Flibas vasculhava entre as tantas personalidades, e era com grande alívio (pois assim eximia-se de novos adiamentos), que não encontrasse ninguém. Em seu esforço para ter fé, somente via não haver como ser diferente. Os melhores haviam criado a bomba atômica, o sistema de castas, a bolsa de valores, os bancos, as ideologias religiosas. Mesmo a arte era limitada ao assassino dissipassivo instalado no núcleo genético da espécie. O militarismo triunfante de Beethoven. As peças de Shakespeare, que disciplinavam sua neta. Contendas de sexo e regicídios. Só assim para cativar a atenção desse símio ocupado com o ódio suicida. No andar que estávamos indo, seria preciso bilhões de anos para que algo realmente tomasse espaço naquele coração cheio de reminiscências do caçador faminto. Com apenas duzentos anos de capitalismo industrial toda a planilha havia se afundado na derrota. A superpopulação se integrara ao comércio de futilidades global. A não ser que houvesse a opção retirada do fundo da gaveta, uma lição em negativo esperando que tudo fosse feito da maneira correta. Eram muitos estratagemas mentais para fomentar um tanto só de fé em todo o absurdo. O deus da História emanando calor para aqueles abençoados melancólicos. Agora sobrara apenas a afasia. Havia apenas a consumação da falta de charme como valor absoluto. O sr. Flibas pensava nos que acreditavam na transmigração da alma, e ele não desejaria que, após os anos finais que teria que cumprir nessa prisão, ele viesse a acordar reencarnado num corpo humano. Mesmos os mais profundos crentes sentiam que a mais doce esperança estava em não haver nada depois desse martírio, embora a própria palavra que ele usava, no refúgio do seu cérebro, martírio, fosse um remanescente teísta. O que aquela neutralização sensorial vinda dos celulares trazia era a aceitação de que não era lógico que a eternidade fosse algo destinado a nós. O sr. Flibas achava que muitos nos lugares de poder já sabiam disso, e estes usavam os esqueletos da fé para explorar os que estavam embaixo. Se houvesse um panteão de existências eternas baseado no retorno didático, a prova em sentido contrário era que não havia, em milênios, nenhum sinal de revolta, o menor indício de que algum inconformado dissera “Já basta!”. Aqui seria justificável que só de séculos em séculos uma revolução acontecesse, cedendo ao acúmulo de ofensas, mas diante almas que tinham o conhecimento de serem eternas, naquele domo contendo nossas instâncias superiores, ninguém se indignar era algo inconcebível. Um trabalhador da linha de produção da Apple, se soubesse ser imortal, se prontificaria a ceder seu trajeto de aprendizado pelo medo da finitude numa galera escrava moderna?
terça-feira, 30 de janeiro de 2024
Resto
terça-feira, 5 de dezembro de 2023
Ioan
Quando estou melancólico, eu nunca espero os sinais mas eles sempre vem. Hoje foi ao sair de carro, no início de uma tempestade furiosa que cai com tudo agora sobre a cidade. Nós estávamos no bairro mais afastado, um belo e pacato lugar onde moram os mais pobres, onde os idosos ficam nas portas das casas em conversas alegres e arrastadas; então uma senhorinha, que parecia ter já seus oitenta anos, andava de frente a meu carro, no meio da rua. Ela carregava um fardo de lenha nas costas e, apesar de eu estar dirigindo muito lentamente para não assustá-la, quando ela me percebeu fez um movimento rápido para o lado da calçada, uma espécie de pulo jovial que bem poderia ser feito por uma menina de 10 anos. Passei por ela e ela virou o rosto para nós com um sorriso deslumbrante, cheio de imortalidade e vida. Aquilo deixou todos nós radiantes. "Como ela é linda!", a Dani disse. A Júlia disse: "Papai, parece aquela cena do Powaqqatsi". Já eu estou com o rosto dela nítido na cabeça e meu coração está cheio de esperança e conforto. Talvez isso esteja na raiz daquela crença judaica de que 36 pessoas, absolutamente desconhecidas e sem relevância social alguma, justificam a persistência do mundo. Nada pode com essa senhora, nem a guerra, nem a doença, nem a ignorância assassina. Tudo nela é espírito e fé.
sexta-feira, 24 de novembro de 2023
A chegada dos hunos
Até o dia do colapso. Que ele estivesse pelo pescoço com aquela comédia barata que o destino fizera com sua vida era algo para não passar batido a alguém com a mínima acuidade perceptiva; ele até era generoso em sinais indo da apatia mecânica, em que atravessar em marcha lenta um simples corredor era uma tarefa hercúlea lhe soando incompreensível quando se via chegando no outro extremo em direção à luz, até uma ira mercurial que lhe tomava conta de vez em quando e sempre lhe parecia surpreendente ninguém ter providenciado seu afastamento imediato da sociedade por conta disso. Mas o que lhe aconteceu extrapolou todas as expectativas. Não imaginaria que o mecanismo adotado seria o das vozes, e num primeiro momento até respirou aliviado diante a intuição de que isso ele poderia suportar. De certa forma, ainda estavam sendo condescendentes com ele, pois um rompimento de uma artéria cerebral obviamente teria sido muito pior, ou em vez de vozes viessem lhe esclarecer sobre a necessidade de um despertar espiritual através do uso pirotécnico das luzes. Lera em algum lugar sobre um homem que via luzes envolvendo um caudal de serafins de severos semblantes incorruptíveis descendo em conflagração dos céus, o que os exames médicos a que o obrigaram sua esposa e filhas empobreceu bastante a prostrante beleza do milagre ao aparelho de eletroencefalograma transcodificá-lo em um câncer no cérebro. Agora, vozes, e ainda a voz de tom sutil, impossível de saber a qual gênero pertencia, mas não diáfana nos moldes do tédio da moda das músicas celtas, era algo até bastante prazeroso, e sua memória conservava uma ingenuidade voraz que lhe dizia para não se preocupar com consequências fisiológicas. A primeira voz ouvida foi quando estava no escritório de seu chefe, lhe soando tão próxima ao ouvido, com uma determinação trivialesca em querer mostrar que fora conduzida por uma distância não apta a ser imaginada para esse plano dimensional afim de ficar junto dele, que ele se voltou para a cara sibarita cujas encarnações pregressas em corpos de reis e donzelas da corte sua alma moldara para abrigar-se naquele avatar agora rebaixado por uma inexplicável provação detrás da mesa. Viu seu chefe lhe dirigir um olhar desamparado, como se o tivesse flagrado em um momento sem retorno processando alguma descompressão interna na qual o punitivo abandono cósmico naquela vida medonha aparecia em uma nudez absoluta, e teve certeza que ele também a ouvira. Emitiu um sorrisinho de alguém que tinha uma doença terminal, mas quando Eme estava fechando a porta lhe ergueu o braço em um aceno de coragem. Eme tentou entender o que a voz lhe dissera. Parecia "Valentina"", ou, analisando mais tarde com um pendor mais acadêmico, "Mais valia". Seria mais valia? Rebobinava a fita da memória e lá estava a voz, um viking castrati em seu aterrizar etéreo no centro de todo aquele aparato estrutural do emprego que era como uma pedra lapidar em cima de suas energias para continuar vivendo, abrindo sua boca esfumaçante para dizer "Mais valia". Era tudo que precisava, se disse, com humor brincalhão, um espírito de luz marxista. Iria ser preciso fazer mais se aquilo fora enviado mesmo para o retirar de sua casca suicida de complacência. Será que mesmo seus anjos da guarda eram tão identificados com ele que não tinham também escapatória?, estavam geneticamente codificados para o embotamento assim como ele?
quarta-feira, 15 de novembro de 2023
A perrenga entre o Bom Samaritano e o Falo Ancestral (curtas sobre sexo)
Sem exceções, todos os homens da família da minha mãe, uma ora ou outra na vida, já destruíram suas vidas por conta de sexo. Há inúmeras histórias sobre esses homens que começam nelas como desbravadores incautos, animais superiores com amplos recursos de competição, e terminam em camas de hospitais, no bilhete não escrito do suicídio tentado, na bancarrota financeira, na separação de filhos e esposas. Entre eles, literalmente, dois ficaram loucos: um deles deixou tudo que tinha e sumiu no mapa, tendo-se notícias não confiáveis de que vaga pelo sul do país, em estado de semi-indigência; o outro ficou em coma por dois meses, depois da surra do marido da amante, e quando acordou a primeira coisa que disse, ainda entubado, era que precisava sair dali para ir atrás daquela que era o amor da sua vida.






