quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Volta à Ítaca

       



 

 Creio que nunca ficou sabendo, as fontes da onisciência que rondavam a faculdade nunca lhe disseram isso, mas eu fui atrás de você naqueles dias. Assim que chegamos da Europa eu testei minhas novas apreensões sobre a vida, a maleabilidade de humor a que a tradição homérica do jovem ocidental de classe média diz que a volta a Ítaca deve suscitar, e não sentia nenhuma mudança. Eu olhava para o silêncio do meu quarto no pavilhão das linguistas e não via nada do que deveria ver; havia uma grande deficiência no sentir daquela minha pessoa que retornara, algo que me angustiava. Era uma porta para o retorno revigorado de todos os traumas da minha não-aceitação e de meus complexos de inferioridade, que eram o que me movera a fazer um deslocamento tão radical não só na minha geografia como no ambiente da minha alma, e eu não poderia deixar que essas coisas voltassem, pelo menos sem antes exigir delas respeito ao prazo para que ao menos me fosse concedido o direito a algum espanto. Mas lá estava aquilo tudo batendo à minha porta, não sendo esse o termo correto, bater, já que a ausência de ruídos era uma característica nova, a planificação da qualquer dialética que envolvesse contestação fazia com que essas coisas me esperassem pacificadas, como se eu fosse o império britânico naqueles raios de parâmetros metafóricos e meus antigos medos fossem os hindus famélicos de um advogado raquítico professando a não-resistência. Eu me lembro que anos antes, quando eu era ainda mais nova, o que pode parecer uma redundância dizer isso porque não há como não sermos outra coisa além de mais novos quando dizemos “anos antes”, mas a incorreção serve para retirar um lastro de expressividade que as palavras em suas ordens regimentar às vezes não tem, pois só quando meu corpo começou a se tornar independentemente aviltante, arranjando por si novos contornos expansivos, por mais que minha vaidade tivesse ensejo em conter essas novas perspectivas com exercícios e dietas, só quando a energia se dissipou dele, do meu corpo, e ficar à frente da tv começou a ser uma nova forma eufemística de tentar pegar a redenção pelas bordas, essa redenção que vai ver estão muito certos os que desde sempre afirmaram que ela não existe, só quando essas coisas passaram a ocorrer é que me dei conta do quanto eu era nova, o quanto o tempo foi sarcasticamente generoso na porção de juventude que coube me dar, por amplas partes da memória que eu recorra eu encontrarei faces diferentes de minha juventude que chegam a ser incongruentes, será que era mesmo eu, será que eu fui mesmo assim tão afortunadamente jovem em um mundo e em uma biologia que só me faz perceber o tesouro disso de forma retrospectiva, quando já não posso mais ver e agir dentro desse avatar sabendo estar nele no momento contínuo do presente, mas observando de um futuro em que tudo isso virou vapor, sumiu, evanesceu-se.

           A odisseia fizera bem para Kyria_ que profunda inocência a minha, que falta sagrada de premonição para ter achado isso, diante tudo o que ela viria a sofrer_, fizera bem para meu pobre e errático Timos, mas não para mim, que continuava como era antes, acrescentada apenas com a frágil lembrança do ar da França e da vertigem dos alpes suíços, uma quantas geometrias velhas e umas cornijas eônicas apelando para alguma indevassável nostalgia da espécie. Eu sabia que tudo havia acabado entre nós dois, de forma beatífica, ambos deveríamos apresentar um sorriso letárgico, falar sobre nossos antigos problemas como velhos octogenários falam de seus brinquedos de madeira sumidos no parque da mansão desaparecida. Ah, dizermos como é inefável a vida e essas porcarias abstratas a que estão cheios os jovens, sempre achando que estão passando de uma revolução mental e uma subversão do olhar intermitentes. Daí eu fui ao seu dormitório, creio que duas semanas depois; fui na cara dura, sem ter inventado nenhuma desculpa para justificar um ato tão anacrônica naquela nova fase de nossas vidas, mas não o encontrei. Seus antigos colegas me disseram que você havia sumido, pago a parte do aluguel correspondente e se mudado para a casa de alguém, não me lembro, de uma tia que voltara de Albuquerque, não sei. Passei dias desesperada diante o aborto da lógica de saber que te amava, que tudo o que eu havia passado para exorcizá-lo tinha sido um esforço vão, que enfim você com seu rancor invencível pela estrutura do mundo, suas fobias sobre a dominação e seu ódio ao poder estavam certos, o que acabava o transfigurando como um super-homem para mim, olhe só o quanto eu estava perdida e o quanto eu precisava de ajuda a ponto de cair no erro de supor que ela deveria vir de você. (Não se magoe ao ouvir isso, foram duas décadas e meia atrás e eu analiso aquela que eu fui com o destemor amoral de saber que eu estava enfunado em um estágio muito para trás de todos os passos evolutivos que você com certeza deu para frente, no caminho da luz, ou, sem sarcasmo, no caminho pelo menos do distanciamento daquelas sombras que já não tinham capacidade de te assustar.)

        Caí em um catastrófico mau humor; as espinhas pulularam meu rosto de forma que se não fique desfigurada foi porque a compadecida piedade do tempo ajudou enchendo minha pele de camadas extras de gordura, estufando a maioria dos buracos das cicatrizes das espinhas para fora. Fiquei emporcalhada, não tomava banho, vestia as mesmas roupas, aproveitando aqueles dias finais antes das aulas, imaginando onde estaria você, se você retornaria para seu curso, o mais natural seria que você fizessem como Ivan Karamázov e assumisse sua falta de teto, seu magistral desvinculo a todas as instituições terrenas, seu peripatetismo por entre as dores do mundo para colhê-las e as reportar para seu núcleo espiritual conservado. Então eu fui justamente recorrer à maior e a mais simbólica das falácias de nosso namoro, o violinista. Não soube porque, vai ver se eu fosse até onde estivera a possiblidade de nossa mais abrupta desavença eu cambiasse algo que ficou para trás indigerível e isso pudesse me trazer uma transformação empobrecida e de segundo nível que eu teria direito já que minha odisseia foi inaproveitada. Oskar Liebeumicth, era o nome dele, ainda me lembro. Nascera em Principado de Mônaco, essa exoticidade ajudara que eu memorizasse alguns pormenores literários de sua personalidade. Encontrei-o nos ensaios de um quarteto de Schubert, no centro cultural da faculdade de música. Para o desagrado dos seus temores profundos, ele havia cortado o feixe de crina equina, fazendo um topete que lhe conferia um substituto burguês e bem menos proteinizado da áurea de macho dionisíaco de antes. Assisti ao ensaio e depois fui falar com ele. Na verdade me ofereci explicitamente a ele. Sem nenhum pudor, ou ao menos eu imagino que fora assim, nessa altura da observação oracular em que a velha narradora em seu sofá de couro italiano com o terceiro cálice de camembert na mão supõe interpretar essas fraquezas tremeluzentes e profundamente aterrorizadas transfiguradas em ousadia. Agora pensando bem creio que, se Oskar Liebeumich, o paganini das terras lendárias da lavagem de dinheiro e do paraíso dos magnatas bancários, me viu naquela noite com os olhos enfeitiçados pela minha graça feminil despertadora de libido as circunstâncias da imprevisibilidade como eu me apresentei deve ter colocado um filtro de aparo diante seus sensores corporais para que ele se apresentasse muito polido, muito distanciado, muito cavaleiril. 

      Eu estava quase chorando, de pé entre os poucos senhores e algumas senhoras prussianas em seu camarim para lhe dar os cumprimentos, minhas pernas mal me sustinham por cima dos sapatos marrons estornil que eu comprara em uma loja chique da cidade grande em uma das minhas andanças solitárias; eu sentia a meia calça que lhe acompanhavam, silentemente desconjuntada nas pontas dos dedos dos pés que ficavam massacrados no bico fino, e que mais acima enlaçavam minhas belas pernas de então até se findarem no início representado pela liga da cintura, esquentando minha virilha seca tornada desesperadoramente dessexualizada embrulhada na calcinha depois desse exorcismo que nós três buscamos encontrar a dez mil quilômetros e só você e Kyria haviam encontrado. Eu estava para chorar, parada na porta daquela salinha onde os grandes astros do futuro se maquiam e respiram a solidão efêmera de antes da apresentação, e que naquele momento tudo eram apenas promessas, Oskar Liebeumich ainda estava um ou dois anos longe de ser famoso como um dos violinistas mais jovens e talentosos, assim como as mulheres não eram prussianas um milímetro na realidade afora na minha imaginação exercida em romances de exilados russos, talvez donas de casa, estudantes de arte em cursos vendidos em apostilas e em encontros quinzenais, sem reconhecimento pelo ministério da educação, assim como os magnatas não deveriam ser nada senão velhos donos de livrarias cults da parte mais arborizada da cidade. Eu também era uma formação insurgente do que alguns anos depois eu viria a ser, a solteirona convicta, mesmo que entre a verdade e o conceito houvesse um marido despachado sem cerimônia e com mútuo compadecimento pela erraticidade humana, parada ali olhando o ás do instrumento com os olhos de uma vampira exangue, uma noive do Drácula que algum van Helsin distraído arrancada com a estaca sua morticidade sem fazê-la soltar o grito de terror secular antes de a pele se dissolver com os ossos e sobrar apenas uma múmia de duzentos anos, sobrando por misericórdia uma dama sem charme e com os olhos e boca borrados e já escoada de qualquer conteúdo peçonhento. Oskar sorria e beijava os visitantes e foi aí que me viu; o tempo ficou suspenso, como se a natureza tivesse feito um foco em seu belo rosto de queixo viril e nariz insuportavelmente aquilino para mostrar que eu lhe causara uma apreensão suficiente para ter-lhe cortado o sorriso_ o sorriso que, junto a tudo o mais daquela perfeição adâmica o deixava perdido de ódio e medo, o medo macho santificado por todas as biologias de que o padrão genético angariado em algum mapa de superioridade quantitativa haveria de fazê-lo destruído e humilhado, castrado e vituperado. 

        Ele se lembrava de mim, claro. Ássia, uma das poucas vantagens de ter um nome subalternamente midiático, uma propaganda que toda pessoa culta quer se reconhecer no entendimento consagrado. Engraçado que se passaram oito meses, não havia nenhuma história, só havia em sua cabeça, Timos, em sua cabeça e posteriormente na minha, por tanta insistência sua. É para rir mesmo, temos que rir disso. Nós fizemos se abdicar todas as arraigadas narrativas de nossos pesadelos e de nossas cismas imaturas, e tínhamos agora o direito de sermos livres, de termos nascidos de novo, e era isso que eu sabia que você e Kyria estariam fazendo, de olhar radiante e claro, de pés firmes e cheios de vigor, desbravando a vida salutar, que não se exibe, a vida filosófica e carregada de fé sublime, e eu estava tão atrasada e caída em fracasso e havia traído tão profundamente o propósito que eu revertera meu curso e decidira voltar a uma dessas histórias, a mais banal e contraproducente delas. A história com Oskar Liebeumich, o violinista do País de Gales que fizeram meu ex-namorado ficar enlouquecido de ciúmes. Por que você teve a audácia de achar que poderia remover essa fantasma pesado de um Oskar Liebeumich de sua vida? Por que você tinha a petulância de achar que seria assim tão fácil? O que um mês nos Alpes, e uma noite em Paris onde se achara merecedor de um bacanal íntimo com duas irmãs, haviam feito de legítimo para te dar a certeza de uma experiência libertadora genuína? Isso não existia, meu caro! Foi isso que eu tinha descoberto no trâmite daquela ilusão toda. Não existem arrebatamentos, ou se existem não são concedidos assim tão levianamente para jovens cheios de empáfia como éramos nós. Um sono, um langor de eras e gerações, passados pelo sangue apaziguado até um incrível grau de indolência de nossos avós boçais, para nossos pais boçais, e inoculados com extrema confiança em nossos avatares juvenis boçais, olheiras, odor rançoso piorado com perfumes caros, e com nossos buracos e falos tesos e sem graça de tanta manipulação sem nenhum pingo de sagrado.

       Por que Kyria iria realizar de forma tão escorregadia e pacificada sua vocação ao comando mundial, sua imersão ao mundo empresarial, apenas porque ela atingira uma certa disposição interpretativa auto-convincente de ter esquecido o que deveria ser esquecido? 

          Por que você, Timos, iria atingir o próximo passo natural de ser um Ivan Karamázov ou o que é que diabos você gostaria de ser afinal das contas após tanta trama deixada pelo meio e tanta paixão intelectual cujo fim lógico era sempre escamotear o objeto visível para que ele continuasse não-visível e suficientemente obnubilado, para assim dar ensejo maior ao que você não queria ser? E por que apenas eu dessa tríade havia feito o trajeto santificado, a via sacra transformadora, tendo caído na armadilha de abrir os olhos antes da coisa ter se completada e assim visto os mecanismos expostos que não deveriam ter sido vistos, contemplado a farsa de tudo?

           Quando Oskar Liebeumich dispensara as visitas, tendo me agarrado pela mão na frente dos olhares questionativos, bocas arreganhadas querendo perguntar se a grande promessa musical afinal tinha uma namorada mas sem a coragem para o fazer, me levando para o carro tendo retirado o casaco do terno e envolvido meus ombros com ele, eu fiz o que não poderia fazer na situação, chorei, em silêncio mas bombasticamente, você sabe que eu não tinha esse talento que algumas mulheres frágeis e belas tem de se tornaram exponencialmente ainda mais frágeis e belas quando choram, a ponto de se tornarem insuportavelmente hipnóticas para os homens; os homens, pelo contrário, estavam passivos a se desinteressarem de vez ao me verem chorar, fico vermelha em excesso, músculos até então relegados a um sono eterno eram chamados a darem sua contração máxima em meu rosto, de forma que se via algo do que havia reservado para o sortudo detrás daquela beleza prometêica dali a umas boas décadas, quando nem o rímel sutil nem a hena indiana mais cara poderiam esconder a velha murcha que eu estava destinada a ser. Mas mesmo assim, Oskar Liebeumich estava suficientemente interessado para que me colocasse no carro minúsculo, francês, estilo como é aquele do Mr. Bean da séria de televisão, e me levasse até seu apartamento. Ele só me dizia que estava tudo bem, me olhava com surpresa enquanto girava o volante dirigindo sua máquina enxuta e prosaicamente funcional até sua moradia querendo saber mas não perguntando o que havia acontecido. Subimos, não tinha porteiro no prédio, um prédio escuro de paredes descascadas, de certa forma tendo algo a ver com a disciplina ilesa de desejos desviantes dele, serviria para o deixar mais concentrado, me fascinava com algumas pinceladas de sombra a capacidade dessas pessoas de transportar toda sua necessidade estética para um mundo inoculável e hermeticamente privado apesar do cimento horroroso e do cinza prostrante. 

          Ah, Timos, o violinista era o oposto de todos nossos temores_ meus e seus. Onde estava meu pensamento, em que substrato do hades ele titubeava as pernas para me fazer enxergar toda a situação como a de uma mulher fragilizada que estava prestes a ser sodomizada pelo seu protetor ocasional, que tanto seria uma sodomização passível da mais purgativa critica bíblica pelo agente infrigidor ser um violinista, um ser devoto à arte, devoto do silêncio. Eu não seria puta nas mãos dele. Ele me cedeu sua cama, eu já não chorava mas mantinha-me calada. No rol das vergonhas aquela era até uma espécime pouco vistosa, com sua desprovidão de brio e sem desenhos peculiares nas secas asas presas ao corpo cravado na placa. Era como se minha derrota me devesse aquela pausa em todos os processos cerebrais e preconceitos civilizatórios, me dando o direito de ser estúpida, sem entraves do que eu julgava ter criado de socialmente importante em minha personalidade. Que se danasse meu academicismo, minha cultura, os tantos livros que eu li, os idiomas que eu aprendi, que se fodesse eu saber as trintas aulas avançadas do diagrama chinês. Eu tinha o direito de me livrar daquela entidade em que eu me encarnei de uma menina ocidental predestinada. Eu não era nada, e como era bom ser nada em um apartamento pequeno, iluminado como uma caverna tangida de amarelo cheio de calor e recolhimento, com os objetos aparecendo apenas o suficiente para o olhar apontar sua existência sem intuir suas funções e seus significados, uma moradia povoada na discreta medida certa de totens, amuletos, pequenos quadros paisagísticos, uma mesa com livros que eram tão sofisticados que prescindiam da necessidade de serem lidos, estavam ali porque tudo ali tinha apenas essa exigência descomplicada: existirem sem justificativa, ou então com uma justificativa que o estágio em que elas e eu estávamos na ocupação do espaço e do tempo não precisava ser adquirida agora. Um sursis. 

          Eu dormi com uma alegria que eu não sentia desde que era criança, desde que meu pai me vinha à noite da loja de armarinhos que tinha e me dava um beijo, cheirando a cola e a raspas de madeira, os talos do bigode se dobrando com uma incrível maciez contra meu rosto me enchendo da sensação de que tudo tem sua plenitude no universo, tudo tem sua tenridez e delicadeza, tudo está moldado em uma escala do sagrado e talvez o drama nessa terra fosse apenas um incidente involuntário resultado de nossa procuração não permitida em tentarmos achar o nível de calibragem certo, o peculiar e ultra-fino tom que nos dê o indicativo da posição correspondente de cada nota nessa melodia imorredoura e perene e eterna. Meu pai que era dono de uma loja de antiguidades e que trabalhara por 30 anos como professor de mecânica quântica na universidade central, e junto ao qual eu aprendera tanta coisa que não vem ao caso falar agora. Será que Freud e Lacan, ou a revista de psicologia, ou os anais de psiquiatria tem que ser codificadas com a mesma leveza que eu senti naquele apartamento? A nostalgia do pai. Descubra o perfume que o pai usava a você vai fazer com ela o que quiser. Mas que merda, será que foi realmente a isso que nossa pífia capacidade de transcendência nos levou? É disso que nós fugimos, abraçando essas experiências forjadas com unhas e dentes e querendo receber o arrebatamento pelas beiradas, por dedução, atingir o reino perdido com a indolência da sensação do choque do acidente que é querer obtê-lo e não pela limpidez impossível de um pouso seguro. Não há pouso seguro. Lembra daqueles reis todos das dinastias chinesas, e os vinte czares Románov. Eles enforcavam bebês e evisceravam mulheres grávidas, empalava embaixadores e samurais titubeantes, desmembravam irmãos, envenenavam mães, mandava para o exílio no ártico como gratidão as noivas rejeitadas. Tudo no mundo é um choque contínuo e de energia inesgotável em que a mínima percepção do inominável é um efeito colateral não estabelecido nas leis desse lado de cá, o que torna a fagulha de obtenção um milagre. Você estava certo mais uma vez, como sempre esteve certo e eu me recusava a sequer levar a sério essa sua lacônica cosmogonia. Não podia ser tão simples, minha vaidade intelectual prenhe de vitalidade não podia admitir que a aspiração ampla para uma multifacetada dialética fosse acondicionada em uma teoria tão sem graça e coesa, sem reverberação e perfeitamente prática. Sua teoria do segredo da existência era uma fórmula de bakara infalível.

           Tudo era vão, o ser humano era inconfiável e em última instância tendente ao morticínio, e a paz poderia ser simulada através do isolamento. Você era o santo da não-coaptação, o São Francisco cínico da negação. De uma forma diferente na finalidade das sombras, Kyria era semelhante a você. Ela chegara à mesma apreensão da verdade por caminhos próprios, com uma capacidade mais sólida que a sua, com um ingrediente feminino não-filosófico que era mais avançado e menos tediosamente amparado em uma melancolia heroica que a sua. Não há personagens femininos relevantes nos Irmãos Karamázov; ela não poderia nem ser associada àquela que mais pareceria com ela no panteão de mulheres melífluas e fortes de Dostoievski, a M..., pois Kyria era impermeável à maldade, e a bondade e os infernos das dúvidas espirituais estavam longe a uma distância impossível dela. Uma vez você me disse que sua vida poderia ser, na melhor das hipóteses, a continuação nunca escrita dos Karamázov, realizada no século posterior e em uma sociedade material outra que não a Rússia de aldeias de estradas de terra enlameadas do romance original.

             Algumas vezes você me dizia que sua história alternativa pretendida não giravam em torno das grandes questões humanas, não queria saber o que seria do mundo se Hitler tivesse ganho a guerra, ou se Lênin não tivesse morrido, ou melhor ainda, se Tesla não tivesse sido destruído pela campanha difamatória dos magnatas que não queriam que os automóveis fossem movidos a eletromagnetismo e nem que a energia elétrica fosse distribuída de graça. Você gostaria muito de ver a história alternativa em que o velho Dostoiévski tivesse vivido mais uns bons 5 anos para que escrevesse a continuação daquela inusitada jornada de dois irmãos cujas opções já haviam sido extintas no primeiro livro. Aliosha Karamázov e Ivan Karamázov_ já que a terceira perna desse painel metafísico, o hedonista Dmitri, fora suficientemente coerente para morrer dentro da capacidade cumulativa de transtornos que a quantidade de anos que sua faixa etária lhe deu sobre essa terra. Aliosha era o santo, o homem que alcançara toda pureza e visão leve e compadecida, e Ivan era o filósofo, o errante questionativo e a mente que não para. Dois espíritos muito antigos, forjados talvez não no início do cosmos, como aquele outro mais sagaz e transposto em definitivo para outro planto que está nas escrituras, mas no princípio computável das mazelas e dos horrores que tão bem se serviu a mente que os inventara, mil anos talvez, ou talvez no início dos Románov, 1613, ou talvez eles fossem reencarnações assustadas pela imprevisibilidade do relógio teológico de samurais ninjins, que traíram a coligação por não verem mais razão na morte, nem que fosse o assassinato autorizado pelo qjin e por deus de seus inimigos. Eu também gostaria que algo do que seria esse livro viesse a tona, contanto que minha curiosidade seja menos predisposta que a sua por me entregar a enredos que me destituísse da narrativa convencional dessa realidade_ levei tanto tempo para me acondicionar a ela, me desviando o máximo possível dos seus percalços, que não iria querer me abster do animal semi-domado (ou do animal que presume ter nos esquecido por um tempo, em nossa idade avançada e já não despertadora de seu interesse). Mas você quis saber como seria fazendo-se de si mesmo a reencarnação da trama inexistente.

           O fato de não ter um cérebro megatômico de tal potência por detrás, regendo seus destino e seus pensamentos_ estar livre de um Dostoiévski como um deus, o mais dicotômico e dual dos deuses, espargindo ternura e estridente loucura e eventuais mortes estapafúrdias pelo caminho, talvez como seja o próprio deus ortodoxo que, mudando-se aqui e ali em detalhes de somenos importância e tangidos de cores diferentes, é o deus de todas as religiões desde o começo do mundo. Estando livre de um deus assim, você pode ser um herói adâmico com uma liberdade ainda mais insuportável e extasiante do que a do Ivan Karamázov. Ivan se escandalizava de deus permitir a morte de uma criança, o que Timos Karamázov não poderia enriquecer essa incongruência brutal com tudo que ele sabe do século XX que Ivan não soube? Se Ivan não suportava a complacência de um deus que permitia que os cães de um nobre da corte czarista trucidasse o filho pequeno de uma das servas da propriedade, ou que a menina morresse de frio no porão da casa no inverno cumprindo o castigo do pai de se sentar sobre o barril de água, o que ele pensaria das tantas e tantas filhinhas desse mesmo deus que morreram nas desapropriações de terra dos kolkhozes, vítimas da fome, do canibalismo das próprias mães; o que Ivan pensaria dos fornos crematórios de Auschwitz e Treblinka, dos massacres de Ruanda, das crianças prostitutas das beiras do asfalto no Brasil, das crianças índias albinas caçadas e massacradas e tantas tantas e tantas outras. Eu havia lido Tolstói e Turgueniev quando estava no colegial e alguns anos antes, meu pai e minha mãe revezavam na leitura de Gógol, A dama do cachorrinho e tudo que fosse publicados nas línguas que eles conheciam do áspero e desestabilizador e comovente Checov, mas do dostoiévski eu confesso que nunca me atraia muito, eu tinha com ele uma ligação pouco venal e determinantemente respeitosa em que eu lhe dava a concessão de aceitar sua grandeza sem precisar comprová-la. 

         Creio que tinha lido a história do Ralkolnikov, que todo mundo minimamente declarado pensante havia lido, e só. Peguei os Karamázov na biblioteca da universidade antes do feriado da páscoa, motivada pelas tantas referências que você fazia da obra, e o li uma sentada, como dizem, li dividindo o livro com tudo que me estivesse pela frente, comida, lavar as louças, atender o telefone com a ligação de algumas das meninas que foram para a casa dos pais, com a ida ao supermercado para comprar gorgonzola, e finalmente na cama, com o cobertor puxado até o queixo com um cuidado redobrado pois eu entrava na aldeia invernal em que Dmitri Karamázov estava amarrado pelos mujiques para passar pelo seu destino definido do julgamento de assassinato. Talvez seja mesmo o maior romance já escrito. Ele me envolveu tanto que após ler, após passar pelos meninos que bateram no pai do pequeno D., depois pelo Grande Inquisidor (recebendo o sopro de tudo o que eu havia lido do existencialismo), e sobre o monólogo do Ivan e do stárets Józima, após fechar o livro em sua última página foi que percebi que a experiência havia sido tão cativante que nem cheguei a pensar nos ganhos que sua leitura teria em nosso namoro. O quanto eu estava inconscientemente me preparando para chegar mais próxima a você, meu pequeno Ivan, para onde mais o Ivan libertado dos grilhões da moral e do pensamento iria após ter enxergado tão longe senão para uma clínica de abortos?

            Naquela época você era uma promessa, como Oskar Liebeumich, a seu modo turvo e impactante. Eu passava horas de adolescente apaixonada tentando imaginar o que você estava destinado a se tornar, mas sua completa deflação a tudo não permitia ver o que seria. Um escritor, um ensaísta, era a aproximação mais cabal a que eu chegava. Mas para isso eu cogitava que seria necessário um certo empenho, e sua extraterrenidade não era compatível com uma carreira acadêmica ou com os processos bajulatórios para angariar uma bolsa de doutorado. Você brigava com todo mundo, era algo que me afligia no que eu tinha de mais feminino e pragmático. Eu confesso que pensava que nosso namoro poderia dar em algo maior, mais duradouro, eu era uma moça esperançosa por debaixo de minhas ambições pessoais irrestritas, eu chegava a acalentar um andamento temporal em que nós sobrevivêssemos ao enfado e à necessidade de conhecer novos amores e alcançássemos vitoriosos um patamar depois de realizadas nossas ambições profissionais pessoais, e viéssemos a nos unir em um desses casamentos metalinguísticos e elegantemente possíveis a toda contradição em que se lançam escritores, cientistas e importantes sumidades mundiais. 

           Não vai rir de mim agora se eu disser que meus moldes eram ternamente ambiciosos, a nível de uma Angel e Marie Curie e Sartre e Bouviar. Eles não podiam ser tão infelizes como aparentam nas fotos e nas fofocas oficiais, tão estranhos, reptilínicos, doentes e obcecados na promoção do sofrimento mútuo; não podia ser que alguma missão outorgada nesse mundo viesse com o adendo perverso de que os super-homens e as super-mulheres devessem se comportar no refúgio do lar como cobras peçonhentas; deveria ser a imprensa específica para esse tipo de gente ousada e rara que não sabe que não se tece sobre ela as mesmas aberrações que se tece sobre as pessoas comuns, as que morrem de sífilis e que introduzem nos canais vaginais das esposas objetos impossíveis. Eu pensava que duraríamos, mas o que você poderia ser? Desde o começo eu soube meu lugar, o que eu seria, mas e você? Ivan karamázov não podia se casar, levar uma vida comum, suburbana. O grande vazio era seu único deus, e sua existência, atravessando gerações e cláusulas atemporais no registro das encarnações sucessivas só se presta ao eterno diálogo com esse deus silencioso, imóvel e mimado, que quer tudo de seu servo para si. Uma relação bem mais doentia que a das sumidades artísticas dessa terra; você já tinha o seu Angel Curie e seu James Joyce; seu deus era quem te mandava torpedos com uma letra concupiscente trêmula no papel amarfanhado te pedindo obscenidades para mais tarde.

          Desculpe, fui longe demais. Sobre o violinista? Não, mais uma vez eu tenho que ser 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Emerson

Uma das mais tocantes cenas da literatura está em Dia de Finados, de Cees Nooteboom. Um amigo dança para outro amigo enfermo em seu quarto de hospital, após este ter se recobrado de seu estado de quase morte. Sem dizer uma palavra, ele entra no quarto e, sem música, executa com extrema seriedade os passos desengonçados da dança. Dia de Finados foi um dos tantos livros que eu dei de presente para meu amigo Emerson. Semana passada, ao ouvir que Emerson tinha saído do estado grave para estável, eu fiz o plano de que, assim que ele voltasse para casa e estivesse apto a receber visita, eu iria colocar "O Pulso", dos Titãs, no meu celular, e iria dançar para ele. Eu sou um péssimo dançarino e profundamente tímido para esses arroubos, mas eu estava convicto. Imaginei algo tão ridículo quanto aquele vídeo do Houellebcq dançando no deserto. Algo me dizia que quanto mais ridículo, maior seria a catarse. Não importa quem estivesse presente, todos iriam ver o sujeito com cara de idiota, de quase dois metros de altura e 110 quilos pulando e agitando os braços enquanto a voz imponderável da música fosse elencando cada uma das doenças que teriam feito a fatal diferença se o pulso ainda não pulsasse. Eu manifestei os sintomas da covid no primeiro dia desse ano, fiquei muito, mas muito mal, a ponto de pensar mesmo que iria para a UTI. Essa é outra história e só serve aqui para dizer que, quando enfim eu pude andar mais que dez passos, eu coloquei em volume máximo "O Pulso", e ouvi umas três vezes, junto com "Todo mundo quer amor". Eu que sou paranoico em jamais perturbar os vizinhos; eu que sequer gostava dos Titãs. Andei em torno da casa chorando, e ouvindo essas músicas, que eu senti uma necessidade inexorável de escutar, sabe-se lá por quê. Eu contei isso ao Emerson, antes dele mesmo se contaminar, e aconselhei: se você pegar, se tranque em casa, tome anti-inflamatório, se alimente bem, tome muita água, e só. Mas não; sem apresentar sintomas sérios, ele ia todos os dias ao médico e, num ato colossal de desespero, ele voluntariamente se internou em um hospital a 400 quilômetros de sua casa. Ficou três dias na enfermaria, sem propósito algum e, depressivo, muito assustado, e vendo o terror de perto de um pronto-socorro em época de pandemia, a doença tomou total frente nele e o levou à UTI, à entubação. Hoje o celular me acorda com a informação de uma amiga de que o pulso do Emerson parou de pulsar. Estou todo o dia sentindo o quanto eu o amava e nem sabia, e tremo a cada vez que sinto o quanto ele me fará falta. Com quem conversar agora? Parte da minha alegria com os livros e com a música se devia a ele, à ânsia de lhe apresentar aquilo nesses campos que eu acabara de descobrir. Suas últimas palavras para a esposa, antes de ser entubado, pelo vídeo do whatsapp, foram: "Eu devia ter aproveitado melhor a vida". Suas últimas palavras para mim, na fila do banco, quando comentávamos sobre o boato de alguns dias atrás sobre ele estar mal com a covid, foram: "Mas quem sabe eu não venha a pegar? Eu vou deixar um testamento doando meus livros para você". Eu respondi: "Eu tenho todos os livros que você tem". Ele retrucou: "Tem alguns escondidos que você não tem". Respondi: "Esses não me interessam".

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Um dia mais e me expulsarás, talvez com zanga


Antes, como todo mundo, eu andava atrás de meus antigos e desaparecidos amigos pela net. Por ter obtido sucesso na procura eu parei com isso. Tenho uns 5 amigos que me eram fundamentais, provado isso pelos sonhos estranhos que eu passava a ter ansiando abraçá-los. Amigos que éramos tão gêmeos no humor, nos gostos, nas angústias, nas promessas, que minha alma sofria muito diante a nostalgia da juventude extraordinária que eles me proporcionaram. Com eles eu tive uma banda de rock, as mais pynchonianas aventuras de viagens e bebedeiras (e passa por aí minha paixão por Pynchon), os amores platônicos em que o bom era quebrarmos as caras para suportá-los mais intensos, as longas e madrugadinas conversas, os projetos mirabolantes, o deslumbre com a literatura. Tive uma juventude plenamente feliz com esses caras; eu tenho a sorte de ter uma estrela imantada que atrai esse tipo de gente. Um deles, desses meus amigos imortais, eu conheci quando pegava o ônibus para o colégio Objetivo; todo dia eu encontrava com seu sorriso ultra-simpático que me causava nojo e sua aproximação para conversarmos, e eu sempre fugia dele até que ele me conquistou. Esse aí é o Marlon, que, há dois anos, achei seu telefone e liguei para ele, com meu coração saindo pela boca, e quando ele atendeu eu fui tão irreverente, tentado recriar nosso ambiente, xingando-o de filho da puta por que sumiu de mim, e ele do outro lado em uma frieza monumental, quase me tratando por senhor. Despedi com um fiapo de voz e considerei que nossa amizade acabara, ou eu continuaria me referindo a ela no passado. Ele mora em uma cidade próxima daqui, algumas vezes pensei em ir lá de surpresa, mas eu tive tantos assombros diante o que o tempo e a vida comezinha fizera com esses meus antes radiantes amigos que desisti. Desses 5 amigos, apenas um conserva uma reserva suficiente do que era antes para que nós ainda possamos nos falar, o Fernando, que veio aqui em casa jantar conosco ontem. Os outros vou falar: encontrei com um no shopping há uns oito anos, e o cara tinha o olhar cheio de um espantoso rancor, o que percebi que ele tinha uma medo pavoroso de descobrir que eu me dera bem na vida, estava melhor que ele; quando nos despedimos no estacionamento, eu vi que ele desmoronava e me odiava para sempre ao ver o carro em que eu estava, e só não falei para ele não se preocupar porque era o carro da minha mãe porque eu estava em estado de choque. Eu fui embora remoendo o pensamento de se eu também me tornara tão babaca e previsível, se em mim todo o frescor e a poesia e a infantilidade de outrora havia sido exterminada e, diante os olhos dele, eu era um ser de uma boçalidade pesada.

Os outros: um virara um comerciante que o riso superficial que ele achara para suplantar o escândalo glótico que era antes sua demonstração diante o espetáculo incerto da vida me deixara em depressão por um bom tempo, reforçado pelo tapinha nas costas e pelo "vamos nos falar hein?, não vamos nos distanciar mais não, meu caro", que me deixou numa imensa broxada (e esse, porra, esse era o que eu mais amava). O outro, o outro apenas virou um pai de família, apenas murchou em seu nicho, com conforto se esvaziou de tudo, esvaziou-se tão hereticamente de toda e qualquer loucura, que me oferecia em sua sempre sinceridade descansada as opções progressivas de conversar sobre comida e o que se poderia fazer a níveis médicos para reduzir essa comida do calibre das veias. (Há dois outros: o Safatle, que me chamou para jantarmos juntos, e que um dia eu irei, e a Inamar, uma amiga minha com o qual eu dividia natais nos quais eu não tinha lugar para ir e passava em sua casa acolhedora, e que eu contava sobre meus planos de virar missionário na África, e ela me contava sobre seu sonho absurdo e meio ridículo, mas que eu a amava demais para nunca ser honesto com ela sobre isso, de ser apresentadora de um programa infantil televisivo. Depois de uns cinco anos a reencontro, quando eu passava minhas tardes de desempregado nos tristes cinemas do centro da cidade, e ela me chega pelas costas falando ortodoxamente (como se ela na época já soubesse de antemão o que o tempo destrói nas pessoas, e agisse com delicadeza comigo): oi, sou a Inamar, se lembra?; nós fomos sem graça tomar um açaí, nós que éramos os seres mais desbocados do mundo, e depois subimos uns quarteirões até sua casa nova, e ela me apresentou para sua irmã, o que foi uma apresentação estranha porque eu conhecia sua irmã mas sua irmã e eu, talvez fingindo, encenamos que não nos conhecíamos (você precisava ver o Charlles quando era novo, era o menino mais lindo que eu já vira, a Inamar disse, atirando tudo na minha cara barbada e meu cansaço de peregrino que me destruía; aí eu me acendeu que isso poderia ser uma vingança, porque lembrei com um renovado constrangimento a vez em que ela me beijara inesperadamente na floresta do campus universitário e eu tive o descabimento de lhe dizer que foi como beijar minha irmã). E aí ela me pergunta se eu fui para a África e eu respondo que não, e ela se levanta, demora uns 3 minutos procurando uma caixa no raque da televisão, ergue a caixa com sofreguidão e leva para o sofá, e de dentro dela retira umas fitas VHS que ela põe para tocar no videocassete e eu vejo a coisa mais terna e assombrosa que me reabilita da tristeza, vejo ela vestida com roupas de homem, camisa bege e calças de brim largas, com um microfone na mão aparecendo na tela do televisor, apresentando um programa de televisão em que aparece cercada de crianças, um programa de extrema pobreza visual e orçamentária, e eu olho para ela com os olhos arregalados e já com a boca escancarada para morrer de rir e cair nos braços dela e ela me devolve um olhar de mãe diante seu filho mais querido, seu filho enjeitado com lábio leporino que ela mostra com orgulho e distribui fotos dele por toda a sala para que todos vejam, e daí aparece nas imagens a sua irmã, a irmã que eu conheço mas nós simulamos que não nos conhecíamos, vestida como o Xuxa, loura e desengonçada, que é a estrela da coisa, e nós rimos desbragadamente, na verdade isso me enche de uma adstringência que eu não consigo explicar, as gincanas, as músicas que elas mesmas compuseram e gravaram. Foram dez programas, ela me disse, com direito no último deles à despedida com choro. Ficamos até tarde da noite assistindo a todos eles.

E ontem o Fernando, o médico pediatra, com sua esposa, veio jantar conosco. Encontramo-nos há cerca de cinco anos, em um supermercado, ele que me gritou na fila, veio até mim e me deu um puta abraço, ele de branco e eu de jaleco todo cagado de bosta de vaca e sangue porque acabara de fazer uma cesariana numa vaca. Passamos meses só nos falando por telefone, querendo saber onde o outro morava, e nos encontrando esporadicamente em padarias e no hospital onde ele trabalha; como ele era novo na cidade, ele não sabia dizer com precisão seu endereço e, passado um tempo, por ironia, a Dani descobre que ele era nosso vizinho de esquina. Ele desistira da vida na capital, que estava acabando com sua saúde, e fizera o concurso público para médico da prefeitura da minha cidade, candidato único. Desistira de uma vida ensandecida que lhe dava 50 mil por mês, para passar com os 9 mil e quinhentos de seu cargo concursado mais uns atendimentos que ele faz em outra cidade vizinha. Era um leitor voraz e um poeta artesanal rigoroso na nossa juventude, e disso sobrou pouca coisa. Mas nossa conversa sempre é recheada de nonsense e desenvoltura. Ele, assim como todos os outro 4, eram convidados todos os anos, por minha mãe, para meu aniversário, como um ritual. Era sempre surpresa, mas todos nós já estávamos fartos de saber sobre a festa. Minha mãe encomendava o bolo, as comidas, os enfeites, no intuito explícito de me constranger, o cavalão de espinhas na cara e pêlos na mão com chapeuzinho de aniversário, o filhinho da mamãe. E todos davam corda para minha mãe curtindo ainda mais com a minha cara, exigindo que se cantasse a musiquinha e que eu soprasse a porra da vela do bolo, e minha mãe coroava a sangria me dando um beijo na frente de todos e me chamando pelo apelido de infância que ela nunca usava a não ser nessas ocasiões, Naninho isso, Naninho aquilo, e fazia parte da sagração todos se calarem para que ela recontasse os eventos mais diabólicos que o Naninho teve o descomedimento de cometer, a vez em que Naninho entrou no caminhão do pai, o acionou e o grande Mercedes Benz varou a cerca da casa lá embaixo da baixada, tendo-se a sorte de não ter matado e nem ferido ninguém, inclusive o próprio demônio porque Naninha havia pulado assim que percebera a miséria que estava fazendo, e todos caindo na gargalhada olhando para mim; a vez em que Naninho sumira da avó na catedral e fora descoberto na sacristia com o saco de hóstias na mão mandando um a um do corpo de Crista para a boca; a vez em que Naninho subira no sofá, retirara a sua porcaria para fora das calças e mijara na boca de seu tio Pedrinho que estava desmaiado deitado no sofá, e como a sua tia Tânia o protegera da sova da sua vida ao escondê-lo atrás dela para que o tio Pedrinho não o pegasse pela moleira. E assim ia, todas essas coisas relembradas pelo Fernando ontem, para uma Dani deliciada mas para a qual minha própria mãe já havia contado essas e outras histórias.

Daí que depois da janta o Fernando me fala da nova séria de Globo, Justiça, que ele e sua esposa vinham acompanhando, e eu me entusiasmo, visto conhecer o gosto do Fernando para as coisas, mas isso é tema para um próximo post.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Trilhos


 

No trem para S., encostei-me à quina do banco com a janela, o rosto um pouco abaixado de encontro à gola da camisa do exército, com os olhos nivelados com a paisagem mutante lá fora. Os sons das rodas de ferro sendo alavancadas pelas barras de impulsão; a cabine cujos encaixes tremiam quando toda a máquina se recolhia em sua dimensão retilínea para poder passar pelas curvas dos trilhos; os vidros cedendo, de forma quase imperceptível, às leis da termodinâmica, sofrendo dentro das atribuições estudadas pelos engenheiros de construção a compressão dos encaixes metálicos_ tudo ia massageando meu ego destroçado, que só naqueles instantes de consciência que a brutalidade dos mecanismos do mundo envolvia tudo o mais que existia, as coisas delicadas e as coisas que respondiam às suas funções mais rígidas, compreendia que havia uma zona de equilíbrio para que a fragilidade pudesse sobreviver em relativa paz com a força absoluta. Halperin, Halperin_ uma voz dizia, balançando a cabeça sob a canção milenar da sabedoria expressa com resignação_ a sua jornada, no fundo, olhando com uma capacidade mais restringida para a admiração, talvez possa ser interrompida num estágio mais precoce, a procura apaziguada pela aceitação de que seu lugar seja entre os que se silenciaram sem medo diante os grandes enigmas. Talvez a nobreza verdadeira seja apenas o deixar-se ficar sonolentamente ao embalo das coisas milenares. Eu achava mesmo que essa voz agora dizia algo que enfim podia dar ouvidos, afinal o que diabos eu procurava? Não me pareceu que a revolução, nos moldes adotados pela turma de Ernesto e Libertad, justificasse a grande sede por propósitos que me dominava. Aliás, qualquer revolução, me parecia, era um enorme engodo, cujas motivações nunca eram as que propagavam nos ideários onde seus heroísmos de cartilha pensados sob eflúvios alcoólicos à noite eram impressos, mas suas turbinas se moviam por recalcadas ambições pessoais_ dominação, sexo (no caso de Libertad), falta do que fazer diante a pequenez do bípede a quem não foi dado a constituição própria para o vôo. Como estava cansado desses propósitos majestosos.
            De frente a mim, com as cabecinhas apoiadas no encosto do banco, havia um menino de uns oito anos e uma menina mais velha, talvez uns treze, que desde que o trem se colocara em movimento me estudavam com atenção. Meu olho roxo e minha aparência geral de destruição os deixavam impressionados. Eram loiros, sardentos, e seus pais, parecia ter-lhes adotado o estilo de criação de os deixarem à mercê da sujeira saudável para reforçar seus sistemas de defesa. A menina, de imediato, só de olhá-la, já se podia perceber ser a antípoda ativa do rapazinho, de cujo rosto partia uma total dependência dos humores da irmã. Se a menina sorria por nenhum motivo, sua cópia masculina e mais nova estendia a face num sorriso também sem explicação; se ela, por sua vez, balançava a cabeça ao embalo de uma melodia secreta, ele também passava a cantar, repetindo o ar de alheamento, sua canção particular. A menina tinha um olhar diabólico, parecia conhecer profundamente o estágio de torpor exausto dos pais_ um homem e uma mulher mirradinhos, com uma perfeita máscara de estupidificação nas caras_, e aproveitava com astúcia a liberdade involuntária que tinha. Minha presença arranjada pela benemérita providência divina, logo atrás de seu banco, era uma ocasião deslumbrante da qual ela tinha de demonstrar com todo afinco estar à altura do merecimento. Um ser que transparecia conotações ainda distantes de sua experiência, de que se situava num impreciso limite com o invisível, mexia com as considerações sobre bondade e medo que aquele casal simplório havia lhe inculcado. Seus olhinhos perversos procuravam algum indício de que eu fosse culpado por minha aparência, para então desembaraçar-se de qualquer remorso e ser também um instrumento para acentuar meu expurgo. Fazia-me caretas discretas, que pareciam dizer “não, bobo, não tenho tempo para você”, e retornava a estudar a composição de sua proeza vocálica, que apenas fazia fundo sonoro à procura por novas curiosidades oferecidas pelo ambiente. E o pequeno ser que lhe arremedava fazia o mesmo, revirando o pescocinho, com uma segurança de que aquele era o caminho certo para novas diversões. Então ela mostrou toda a potência de seu conceito sobre estranhos, me crivando um olhar onde a graduação de sua certeza era expressa pelo movimento das pálpebras_ quando se semi-fechavam, que era o que fazia então para manter toda sua concentração sobre mim, estava deixando claro que sabia o que eu representava. Não era tola para cair nos arranjos que os adultos demonstravam criar para submetê-la; reconhecia que muita coisa lhe passava batido pela condição de ainda ser criança_ esse termo que limitava sua vontade e contra a qual destinava toda sua rebeldia, inclusive o seu desprezo pelo irmão cuja estupidez era ainda maior por adotá-la como modelo, mas tinha um confiança em si mesmo que a tornava militante contra essa estupidez que lhe chegava de todos os cantos.
            Decidi confrontá-la, pois estas idéias todas aparecerem na minha mente e me vi tomado por uma súbita admiração por aquela menina. Oposição poderia ser verdadeira amizade, como já disse o velho Blake, e ela não iria querer que eu lhe viesse com a amolação de tratá-la como uma menina. Pus um ar de severidade nos olhos, resisti ao seu encaramento e disse, (não sei por que):
            _ Essas feridas eu as ganhei numa briga de trem, semana passada.
            Ela não mostrou nenhuma reação de empuxo contra ter-lhe dirigido a palavra. Seu olhar abrandou-se um pouco, não em sinal de começo de confiança, mas para avaliar o sentido daquilo. De súbito, passei a crer que ela fosse uma espécie de criança ultra precoce, que nada haveria de mais familiar a seu espírito centenário a realidade atroz dos trens, para a qual vagabundos e deserdados gerais faziam meio corrente para atravessar de canto a canto o país. Um traço de mulher madura, não de todo desprovido da feiúra temerosa das anormalidades, passava por seu rosto à medida que refletia. Então, ela recolocou os olhos em mim, carregados de faíscas opinativas como estavam há meio minuto, e me disse:
            _ Nada incomoda mais aos punhos do senhor Santiago do que vagabundos feito você.
            Sua voz era árida como cacos de vidro roçando uma parede, mas ainda assim bastante doce. Respirei aliviado. Não, não! Era uma criança como qualquer outra. Eu estava no planeta usual que a detivera de experiências alienígenas por esses anos todos. Olhei para ela por sobre o desnuviamento de meu sorriso, achando que se ela tivesse realmente os anos a mais que de primeiro achei ter, saberia que eu roubei a expressão de piedade terna pela arrogância inofensiva da inocência de algum filme americano de década de cinqüenta. Mas ela levava a coisa ainda bem a sério. Apostava nos protetores músculos desse seu herói das viagens, Santiago.
            _ Pois não foi Santiago que fez isso a você. Santiago não deixa sobreviventes._ daí ela pôs a língua para fora, uma língua rosada de algum produto dulcicorado de mercado que seus pais omissos deveriam achar ser parte da força imunizadora do mundo livre, e me virou as costas, pulando sentada sobre seu banco e saindo de vista. O protótipo masculino seguiu-lhe o exemplo, lanceando a língua, embora de forma sedutoramente desprovida de conotações políticas quanto a conhecidos poderosos do ramo da segurança de trens, mas permaneceu olhando para mim com os olhos cheios de hilaridade vazia, sentida apenas pelo fato maravilhoso de estar vivo.

domingo, 28 de junho de 2020

Scenio



Enrietta foi assassinada há 13 anos. O sr. Flibas parou diante o semáforo para pedestres, que no momento apresentava o homenzinho em pose marcial circunscrito em seu quadrângulo vermelho, e olhou os rostos atônitos do outro lado da rua apontando seus olhos para onde ele estava sem o verem. Foi no bairro de São Bento, a dez quilômetros dali, quando Enrietta ia às seis da manhã para o serviço de conselho tutelar no qual se ingressara fazia um ano. O rapaz_ na verdade, um pertencente à faixa etária indefinida entre a infância e a adolescência_, passara por ela, estacara dois metros além e, como se algo que exigisse sua atenção tivesse quase passado batido, mas que se recuperara pelo seu afinco em ser efetivo a algum zelo irretocável, deu meia volta e voltou calmamente até onde ela estava, naquela mesma posição em que o sr. Flibas agora estava diante o semáforo, à espera de que a marcha de carros fosse interrompida na transversal e o caminho para as pessoas fosse liberado. Ela levava uma bolsa de pano bordado com uma mixórdia de desenhos africanos pendurada no ombro, e na hora em que o menino a puxou com violência, seu corpo pendera para o lado; o desequilíbrio fez com que os grandes óculos ray-ban escuros ficassem inclinados no meio do rosto e seus cabelos crespos, que lhe conferiam o principal toque de personalidade, formassem um nimbo na região acima da testa, o que era o detalhe mais visível na câmera de monitoramento de uma panificadora, que registrara tudo e que os policiais mostraram para o sr. Flibas alguns dias depois. A luz vermelha se apagou e o quadrângulo verde, com o homenzinho atarefado estendendo a perna para efetuar um passo, acendeu, o efeito entre cores tão avessas provocando o acionamento de todas as pernas da fila lateral de pedestres que esperavam por aquela adstringente libertação. O sr. Flibas agilizou para chegar ao outro lado, com a desconfiança supersticiosa de que os carros parados eram seres brutais de vontade própria que poderiam avançar a qualquer momento, sem respeito às leis. Enrietta jamais fizera aquele gesto que ele fazia agora, jamais atravessara a rua. Nos primeiros meses, mesmo nos primeiros lentos e imprecisos 5 anos, ele caía na divagação de se não comportava uma culpa pessoal em não ter sido audaz o suficiente para ensina-la a controlar certos movimentos condicionados. Se não teria sido um grande lapso não ter dedicado a instruir um ser tão imolado pela malícia sobre a corrupção que imperava do lado de fora da porta de seu refúgio. Talvez ela não teria simulado reação, como puxar a bolsa de volta, respondendo proporcionalmente à força do ladrão com a energia muscular de seu braço fino mas vigoroso. Algum transeunte que testemunhara a cena talvez tivesse expressado um gesto de admiração e achado que a história teria sido ganha, o mal enxotado e a pobre figura de David vitorioso sido representado na transfiguração de uma raquítica mulher de meia idade, quando o rapaz se estatelou no chão, sem a bolsa e de olhar primeiramente atordoado de surpresa. Mas o sr. Flibas, os policiais e a história já sentenciada de sua vida, sabiam, ao ver num ângulo apical e em preto-e-branco na imagem gravada, que a conclusão não havia sido essa. O movimento da funda tinha sido feito, não com precisão suficiente, e a pedra passara em direção perdida alheia à cabeça do Golias. O mal não se evadira, se levantara em suas orgulhosas e ofendidas pernas juvenis, fitara com um ódio transfigurador o que tinha pela frente, e acertara em Enrietta um murro carregado de fúria que a fez cair instantaneamente sem vida. Foi isso que o laudo do instituto médico legal declararia para o inquérito, um murro tão bem dado que partira seu maxilar e lhe causara uma hemorragia cerebral instantânea. Essa aberração fria, asséptica e sem transcendência o fazia ter pensamentos absurdos como achar que era uma sorte ela não ter sentido a série de chutes que o criminoso dera em sua cabeça em seguida. Não queria se lembrar daquilo, daquela cena registrada nas fitas da caixa da panificadora; os agentes policiais tocaram-lhe nas costas e pediram gentilmente que se retirasse, enquanto um deles dava o sinal para que desligassem o vídeo, mas já era tarde, por distração todos estavam de frente à televisão e a cena continuara a transcorrer, cada um afundado em seus pensamentos, confusos diante a análise que tinham de fazer diante algo que a tecnologia destilara até uma seca trivialidade, desinflando através da repetição a brutalidade de um assassinato absolutamente desproporcional e vazio.
            O sr. Flibas seguiu a recomendação do policial e passou pela porta até o outro lado da pequena sala de perícias, onde a efervescência de uma delegacia de policia continuava à toda com algumas pessoas sentadas à espera de que fossem promovidas de seres congelados no interstício entre a ação e a captura para o centro de interrogatórios pormenorizados, ao que alguns deles responderiam com prontidão, como se narrassem eventos cometidos não por eles mas por desconhecidos tomados pelo ensandecimento; outros iriam se calar com uma fúria concentrada; outros não falariam nada com nada, perturbados pela química ou pela loucura do excesso de afronta que a vida lhes fazia. Seus olhos aturdidos pousaram por um longo momento em uma mulher que estava em uma das cadeiras ligadas por uma barra de aço embaixo, sentada em uma pose inusitada, como se seu corpo não tivesse apenas um metro e cinquenta e cinco centímetros de altura ou algo em torno disso mas fosse extenso o suficiente para atravessar pelas outras cadeiras numa declarada provocação. Mascava chiclete, era morena, cabelos crespos, ensebados e juntados em feixes pontiagudos revelando uma série de cuidados cosméticos tentados sem nenhuma resposta satisfatória e deixados assim como estavam, inóspitos, irregulares, um quebra-cabeça; aliás, ela percebera que era alvo da deseducada atenção do sr. Flibas, através da percepção da presa que costuma saber da presença do predador através de radares sensoriais sutis, e por isso ela parou de mascar o chiclete; o corpo, que emitia um movimento barcolejante, levando a perna cruzada acompanhando a linha da outra perna até onde ficava o limite da cadeira de uma outra mulher mais velha sentada a seu lado, se interrompeu, e seus olhos foram se iluminando de algo que parecia uma intensidade furiosa emitida à distância de dentro de uma caverna, o que faria seu observador cogitar se de dentro pularia uma fera atiçada ou revoariam criaturas noturnas acuadas em busca de outro refúgio. O sr. Flibas a via, mas não a enxergava; sua mente estava desbaratinada; um enorme cansaço como jamais sentira antes afundou seu peso em seus ombros, de forma que ele se encolhera e seus braços retos e desamparados sentiam a necessidade insurgente de abraçarem alguma coisa, nem que fosse seu próprio corpo. Seu cérebro sofrera uma pane, deixando os membros que tinham a obrigação de comandar a seus próprios domínios, e, em consequência, era como se sua alma partisse por um instante, o que ocasionara deixar seus olhos firmemente presos no último objeto em que se sentaram. Os policiais foram buscar um laudo para que ele assinasse e o deixaram ali, tomado por uma insípida vontade de desaparecer. Algo estava muito errado com o que estava acontecendo. Ele não merecia aquilo. Não, não; não era uma questão filosófica, não era uma reivindicação moral, que isso ficasse nos livros, nos compêndios e nos tratados, ele pouco se importava com eles; o que exigia em um destemperado silêncio era seu direito de não ser interessante, era seu mérito em ser invisível, era que a lei cumprisse sua obrigação sobre ele no antigo acordo que ele fez em não imolar o mundo, em não querer do mundo nada a não ser a sua porção satisfatória ínfima e cabível para que levasse sua vida, estendesse complacente sua não competição no jogo e fosse deixado em paz; sua animalidade, porque ao menos seres como ele e Enrietta tinham o direito de perfazerem seus anos em exílio pacífico, não chamando a atenção daquela fúria tão ocupada e sequiosa do mundo. Mas, como se o mistério inquirido não aceitasse mais capitulação, seu devaneio foi quebrado pela pequena mulher, que se levantara agora da cadeira e avançara para o sr. Flibas, os braços formando duas asas com as mãos na cintura, os olhos arregalados, a boca cuspindo chispas de impropérios por entre cacos de dentes amarelos. O sr. Flibas olhava-a com tênue estupefação, como se aquilo não condissesse com alguma linha de lógica que ainda se prestasse a envolver aquela zona da realidade, e a mulher esmoreceu, percebeu seu abatimento, provavelmente sentiu através dos canais telepáticos dos grandes sofredores o inferno que lhe ia por dentro e parou, silenciou de uma vez; voltou seu corpo miúdo e se sentou com uma nova integridade, como se o que vira no sr. Flibas, em sua apatia, exigisse dela uma postura respeitosa. O sr. Flibas vira que era uma menina ainda.

domingo, 24 de março de 2019

Vislumbre de uma estação


                         


Timos passou a noite em sonhos estranhos. O que mais o assustava era que ao acordar pouco se lembrava deles. Antes era fácil. Bastava que aquele ocre mundo em perspectiva lhe enviasse algum sinal, geralmente quando fazia o chá ou olhava pela janela a rua aos poucos se acendendo, e com base nessa pequena distração do lado de lá quanto ao zelo de seus segredos ele seguia a pista e quase todo o sonho lhe aparecia de volta, como se o lacre não funcionasse bem e ficasse uma abertura por onde algo mais passava. Agora não era mais assim; necessitava de muito esforço, mas esforço nesse assunto era uma ofensiva inútil. Achava que não era porque estivesse envelhecendo; algumas poucas coisas melhoram com a idade, e a aproximação dos outros elementos do sono deveriam fazer com que as apreensões de quando estava lá não fossem barradas de modo tão definitivo ao acordar.  
             Quando preparava o chá preto veio-lhe uma fagulha do que era, um estampido que espalhava luz e que a mancha em negativo revelava. Era sobre sua avó. Nunca sonhara com ela, nem quando era criança e ela, de certo modo, exercera uma influência factível de lhe impressionar; e nem quando morrera há oito meses. Ela morreu com 92 anos. A mãe de sua mãe. Chamava-se Mircéa. Tinha sido governanta nos EUA. Trabalhara com nomes importantes e pagavam caro pelos seus serviços. Quando voltara, após 50 anos que teriam rendido um livro de memórias fabuloso_ e, dependendo do grau de rancor que sua misoginia estivesse com a condição humana, bastante desiludido_, a vida se tornara para ela uma comunhão inexorável entre o tédio e a mesmice. A família aprendera logo a não usar com ela alguns dos atos sociais; perguntar sobre sua saúde, por exemplo, era cair na armadilha de ouvir como resposta a alma encarnada em uma senhora de um filósofo classicista alemão que não tinha nenhuma digna gratidão pela longevidade. Ela perfilava uma série de queixumes sobre doenças com minuciosa exatidão que fazia o interlocutor pensar o quanto a literatura do rancor perdia por não existir o tal livro de memórias. Sua avó e Schopenhauer; era uma espécie de Thomas Bernhard cuja Áustria cínica e repugnante que tinha para purgar era seu próprio corpo e os dias incontáveis que lhe restavam pela frente e que voltaram a ser tão asfixiantemente longos como os da infância. A última vez que Timos a vira, em um aniversário de 3 anos atrás, ela se recusara a olhar para ele quando algum parente engraçadinho lhe perguntou se ela se lembrava quem era aquele rapaz. Ela respondera, com uma lápide de mal humor que azedaria até o canto dos pardais se eles houvessem pela janela, que aquele não poderia ser o Timos que ela conhecera, tão lindo e arthuriano, e se transformara nesse bolchevique barbudo e mal encarado. Foram estes os termos que ela usara. Empregava um timbre de voz reticente, como se tudo que o mundo lhe emitia para que ela o conceituasse não merecesse senão aquele hausto de fôlego fissíparo. Timos sorriu, admirado por aquela estética altiva, e se sentara em silêncio duas cadeiras longe dela. Ficara magoado, de certa forma. 
            A avó tinha sido um exemplo de vida para ele. Um de seus discursos mentais quando o assunto era a crítica desiludida do padrão familiar de ganância por posição social e dinheiro e por cortejos sexuais de todos os estilos, era na avó que Timos pensava, em sua aspereza, sua concentração, sua corajosa disposição em não fazer parte do mundo óbvio e brutalizado. Sua mãe lhe contara que tivera pouco contato com ela quando era criança e mesmo na adolescência o círculo fechado com censuras atemorizantes contra a mulher que abandonara os filhos criado pela esposa substituta do pai (e pelo silêncio omisso dele) não lhe permitia que tivesse um real contato com ela. Você nunca pensou que teria se identificado com ela?, Timos perguntara à mãe. Ela o olhou com os olhos acendidos pela incrivelmente não cogitada ideia e negou, talvez para não dar o braço a torcer por aquela obviedade da qual não suspeitara, e a seu favor disse que Mircea se esvaziara dos sonhos e da ilusão necessária à vida, em prol de um regime espartano de pureza que a transformava cada vez mais em uma misantropa insuportável. A irmã de sua mãe, a tia Alda, havia adotado uma menina alsaciana e a velha falava pelos cantos sobre o derrisório tom oliva da pele dela, o que era sabido por todos. E a avó desprezava com veemência incontornável o prosaísmo daquele povo subdesenvolvido da cidade, tão avesso a atirar o lixo na lata de lixo e não nas calçadas e incapaz de dirigir um carro de modo minimamente não homicida. 
               Timos levava essas coisas como desabafo de uma mulher que exigira o divórcio numa época em que isso era a heresia inaudita que deveria servir a reerguer as fogueiras calvinistas na mente de todo mundo, quando descobrira a rede de concubinas que seu marido alimentava. As pessoas a admoestaram, viraram as costas para aquela esnobe embrutecida pela ilusão de casta que seus diplomas de pedagogia lhe incutira, e ficaram do lado do injustiçado esposo, o patriarca de cabelos colados à moleira da cabeça por vaselinas Iliodora e de bigodes perfumados que a maledicência popular jamais assimilariam dentro da visão pejorativa do cafajeste barato que seduz pobres arrumadeiras de quarto, mas sim como a estampa que necessariamente há de se ter um doutor farmacêutico que respeita tradicionais normas de higiene social. A mãe não a chamava de mãe, só Mircea, o que, com os anos, ia apegando certo desconforto e o nome ganhava na boca das filhas refratáveis um peso excessivo, como se em vez do nome daquela mulher que suportara tanta solidão e se demonstrara ser uma rocha de vontade e persistência estivessem repetindo a alcunha de um demônio que já não as aterrorizavam. 
          Naquelas cartas, Timos disse à sua mãe, sobre os gordos pacotes de folhas amarelas apergaminhadas que Mircéa, inesperadamente, começou a enviar dos EUA para ele do nada, cheio de pensamentos recolhidos e retumbantes, naquelas cartas ela não se mostrava dessa maneira sem vida; pelo contrário, ela me contou tudo do seu ângulo de visão, o que acontecera entre ela e meu avô para que ela atingisse tal ponto de escolhas. A desembargadora jamais permitia que falassem contra seu pai, o icônico e estranhamente canonizável pelos tantos pecados que tinha boticário, era a fraqueza reservada para sua mãe ter entre as tantas qualidades de vulto de sua inteligência e sua independência. 
          A mãe o olhara com o cenho já posicionado para exigir que ele mudasse de assunto, tendo retido a colherzinha na xícara de chá, mas Timos trafegou espertamente para um atalho. O avô se casou com a empregada, não se casou?, depois que Mircéa saiu de casa e atravessou o oceano para a América, havia uma madrasta na sua casa, não havia? Então eram fatos, a desembargadora não podia ir contra eles, eram notícias da narrativa da família bastante conhecida e já chegando ao estágio de não ter mais quem sentisse vontade de examinar mais o assunto. Pois nessas cartas, Mircéa falava das agruras do novo mundo, da estranheza que era falar uma língua que ela aprendera na academia por questão de ler os volumes de educação internacionais não traduzidos no país, mas que agora ela tinha que utilizá-la para sobreviver não mais com a cultura, mas com a subserviência doméstica, saber como se fala polidamente com uma madame casada com o mecenas das pias de banheiro de porcelana Avidecent, ou como lidar com o rosto gargulino do agente de emprego que lhe pergunta quais as condições de contrato que ela leu no formulário 25 estariam de acordo com sua capacidade de mão-de-obra, se sua instrução era de grau 4 ou 9, se ela sabia o que era uma comunhão de direitos empregatícios em que um casal em litígio de separação receberiam-na na casa em horários diferentes para não terem que se ver nos momentos mais delicados da questão judicial. E ela voltava para casa depois dessas aventuras sombrias, atravessando as ruas geladas de geometrias que deveriam lhe oprimir por se sentir apequenada naquele universo prisional que lhe lançara muito cedo um destino que pouquíssimas pessoas conseguiriam suportar. 
            Você já pensou por que ela mandava essas cartas para mim?, Timos perguntou, e a mãe, nunca querendo ser engolida pelas sugestões perigosas que a falsa simpatia do filho abria naquelas vastas visões panorâmicas, sorria e dizia que era porque ele era o único que ela não conhecia para odiá-lo. Você tinha 13 anos e ela ainda não te conhecia, só foram se ver dois anos depois, quando ela retornara para cá. Pois eu sei, ele respondeu, o tom triste e extasiado ao mesmo tempo, o que não era um oximoro impossível na prática quando ele já antevia a alegria que lhe causava quartos solitários em um dos quais era o quarto do apartamento da mãe em que ele abria as cartas da avó e as lia com uma atenção perfunctória, como se o amarelo inusitado da folha alimentasse a impressão de que desvendava uma segredo faraônico reservado apenas a ele. Tudo bem, Timos, e mãe, que havia tomado o chá talvez mais rapidamente que em uma situação em que o espírito de revisão das anistias mútuas de todos os envolvidos não estivesse tão alardeante, enxugou as mãos em um pano de prato após lavar a sua xícara de carrara e se voltou pronta para ouvi-lo com exímia atenção, mesmo que isso pudesse envolver passagens do discurso que poderia por o dia de comunhão entre os dois em ruínas. Timos a olhou fundo nos olhos_ essa conversa acontecera há 20 anos, como tudo na vida do progressivamente distante Timos parecia ter ocorrido_, as pupilas tremendo e as mãos crispadas em um gesto teatral shakespereano, um tanto inconsciente nele para que se importasse com o ridículo. Ela sabia que eu era o primeiro da nossa família a nascer livre, ele disse.
           Ele era ainda muito jovem para ter dito isso. Teria acreditado mesmo nisso em algum momento da juventude, naquela falácia tão fácil de cair mesmo os espíritos calejados? Livre de quê, se ele estava na fila da consumação em passo lento e regrado para fazer o mesmo cronograma que todo mundo. Fez sua faculdade, ingressou-se em uma escola ouvindo o eco daquele coro repetido à exaustão de que melhoraria os índices educacionais do país, e só encontrara a mesma falta de horizontes, alunos basbaques sentados com nébulas de distrações nos cérebros, dispostos a soldarem os ouvidos e se entregarem ao mar infinito de aberrações da mentira. Para quem então sua avó escrevia? Quem ela fantasiava que algum dia aquele menino ectoplásmico que alguma vez deveria tê-la visitado em sonhos se tornaria? Um filósofo, um eremita, um médico, um advogado. Não conseguia acreditar que no fundo daquela renitente esperança dela houvesse a imagem de um adulto misógino e arredio, e aqueles fossem seus ensinamentos de como odiar o mundo com suficiente estilo. Manual do rancor da senhora exilada, da diaba branca da família que andava pela vila nas noites de lua cheia atrás de sua filha diaba desaparecida. Por detrás daquele ensejo havia sua última fé de que a criança que a lia de alguma forma não seria contaminada por suas palavras amargas, sua apreensão sufocante da realidade de presídio de toda a terra.
                Ela destilava sua ira, exsudava um tanto do fel de seu desespero calibrado no papel, mas não queria que o menino fosse intoxicado. Era o paradoxo da condenada que joga suas cartas pelas grades do presídio supondo achar o ouvinte perfeito, e entre tantos andantes pelo muro do lado de fora ela havia tido a sorte rara de ter à sua inteira disposição um mensageiro já pronto, já visualizável com alguma exatidão entre a névoa de sua utopia. Ele não soube dizer isso à mãe, mas a mãe entendeu bem o que ele queria dizer. Ele interpretara que ela lhe ouvia com uma aquiescência aceitando a sua exclusividade cheia de expectativas no caminho diferente que ele seguiria para não se tornar um boçal, achava com orgulho que botara a desembargadora no chinelo e mostrava a sua originalidade predestinada, o segundo membro da família, ele e a avó, que romperiam para si o muro do dogma escritorial em que os outros estavam trancados do lado de dentro. E os anos se passaram e a avó não o reconhecera. Depois de todas as cartas, depois que retornara da América e os dois se encontraram e tomaram alguns sorvetes, e ambos insistiram durante um tempo em forçarem aquele laço que perdia desamparadamente o laço quando transposto das palavras para a atmosfera, ela o rejeitara como um traidor, ela o excluíra de seu hermético clube da dignidade rancorosa que tinha apenas ela como membro.
         Antes de ir para a clínica, na madrugada fria em que os ruídos já eram ouvidos pela ciência da acústica formada entre canos, cimento, vácuo e pessoas nas ruas, ele se lembrou do sonho. Havia uma sala ampla, bem iluminada, com uma luz incisiva de uma série de lâmpadas fluorescentes, paredes brancas e uma ressonância oca e infinita que revelava que era uma estação de passagem, uma zona de embarque. A avó estava sentada em um dos bancos largos de metal, solitária como em um documentário sobre a velhice abandonada. Ela estava vestida com um terno cinzento, bem alinhado, saia da mesma cor tendendo para o branco, um lenço bem apessoado no pescoço, um uniforme inglês que revelava uma distinta funcionária exemplar. Seus sapatos eram escuros e bem tratados, ela devia engraxa-los todos os dias, mas na posição em que estava sentada, com as pernas juntas em v lateral, os tornozelos em primeiro plano e os pés enfiados suavemente para debaixo do assento, revelavam que estavam frouxos nas laterais, como se os houvesse comprado por engano ou por alguma comodidade econômica um número maior, como se estivesse cansada, um cansaço malbaratado, como se aquele local ermo a que ninguém pareceria apetecível a agradasse. Um local que era um retrato de seu espírito. No sonho ele observava a cena sabendo-se que não estava lá, a limpidez da imagem sendo transmitido para suas vistas concentradas como se numa tela, um cinema frio e escuro que cambiava o que sua avó sentia no exterior da pele por sob o terno estando naquele local. 
         O rosto dela estava desfocado, ou a mente em atividade idílica de Timos não estava sendo totalmente receptiva no centro da projeção. Ela não o via, os dois estavam mais distantes que duas galáxias, talvez ela estivesse em outro mundo, no mundo de lá, no tal reino dos mortos, talvez aquela amostra de sua nova aventura na opressiva eternidade fosse mais uma das reativações constantes do enigma que esse lado de cá não se cansa de propor, um novo mistério dentro de incontáveis outros mistérios que nunca seriam resolvidos porque seu propósito era apenas uma gratuita enganação. Quem o propôs, se havia mesmo algum jogador, não se preocupava nem um pouco com alguma lógica coerente, algum resultado que zerasse a equação. Depois acordara, ou passara para outras questiúnculas que pregara em sua percepção durante aquele dia e que tentavam por alguma razão absurda se resolverem na forma de sonhos_ como se a vigília fosse um estágio desacreditado na ortodoxia da dialética das sensações acumuladas e a resolução do que elas queriam dizer passassem para a ludismo do sono.
         Sua avó não era só a primeira exilada da família, pelo menos na linha recente dos últimos cem anos buscados na árvore genealógica, mas também era a única suicida. Aos 97 anos, ela se dera ao luxo de se matar. Até isso foi ao gosto dela, partiu de seu inteiro livre arbítrio destituído de glamour. Não usara veneno, como parecia ser a escolha de maior sucesso entre os velhos, pendurar-se por uma corda pelo pescoço deveria lhe parecer pavoroso e de contra toda a ética de sua vida, assim como qualquer das outras soluções que desfigurassem o corpo. 
        Na certa imaginava que seria uma vingança oferecida em bandeja para todas as pessoas que desprezara ostensivamente se suas pernas varicosas, sua pele sensível ao nível de se rasgar por um simples toque, se sua cara sem o eufemismo da maquiagem, de um azul baço e libidinoso que só se via na carne no estágio terminal da vida, aparecesse em alguma situação fora de seu controle, atirado do quarto andar no asfalto, esfacelado por um projétil. Isso estaria fora de cogitação. Por isso ela resolvera apenas parar de comer. Fechara a boca não só para as papinhas indignas e as frutas picadas que as enfermeiras particulares lhe davam, como também parou de conversar. Não emitiu nem o mais sussurrante som. 
          No final do primeiro dia, as enfermeiras telefonaram para a desembargadora e para o outro filho advogado, tio M. Eles foram para o apartamento e encontraram-na deitada na cama de solteira, os braços e pernas rígidos da antiga menina emburrada, talvez era assim que ela ficava na cama de febre quando sua mãe lhe trazia a sopa, encontraram-na olhando para um ponto só no espaço, determinantemente não cruzando o olhar com seus filhos ou com qualquer outro espécime deste mundo pueril em que ela estupidamente, agora via, perseverara em estar. A desembargadora lhe falou com um tom amável sincero recuperado no fundo de todo o depósito de atitudes defensivas que tivera contra ela ao longo da vida. 
              Não era mais a mulher anacronicamente elegante que tentava falar com ela no quintal de casa, aparecida como se do nada mas que se tratava de um arranjo estratégico dos adultos envolvidos para permitir que chegasse nos filhos sem os espantar, sem os estarrecer; era apenas o resquício do antigo ego poderoso, era a desistência, era o arrependimento de ter sido enganada sempre de que havia um pote não de ouro mas pelo menos de um respeito surpreendente e resplandecentemente novo que os esperassem no fim de toda aquela indignidade pujante e asquerosa que eles tinham que atravessar sem propósito algum. Era só uma velha senhora sem mais cartas na manga, sem mais ódios, sem mais rancores, sem mais disputas, sem mais enfrentamentos para ver se encontrava o palhaço que iria lhe colocar nos ombros e passear com ela pelo picadeiro circular acima de todos os outros a escolhida, não mais palavras frias e bem calculadas para desestabilizar, não mais olhares atravessados que dardejavam pelos cantos, nada mais disso. Tudo um imenso tempo perdido, tudo um grande exercício de idiotice em que ninguém nunca era melhor que ninguém, apenas igualmente imbecis. 
           E o filho, o advogado de controle absoluto sobre seus sentimentos, que falava com uma voz de trovão que treinara durante toda a adolescência e juventude, até firmar-se como algo natural seu, segurando-lhe a mão e tentando invoca-la daquele invólucro, falando com uma tenacidade que usava com seus clientes no escritório, acreditando que naquele assunto exórdio as regras do mercado de invocação da verdade relativa também funcionassem, era só repetir o mantra cotidiano. 
         Chamaram a ambulância e a levaram para o hospital. Dois dias do mesmo modo, e ela entrou em coma. Os vidros opacos que se adaptavam à luz ambiente e as horas rígidas para que só os filhos visitassem na UTI cara impediram, enfim, que vissem a desfiguração inevitável de toda maneira que seu corpo sofrera, as veias azuis sob a camisola comunal e despersonalizante, os aprofundamentos zigomáticos da murchação da carne. 
        Timos estava na clínica quando a mãe lhe telefonara para avisar que a avó morrera. Nunca ouvira a voz da mãe daquele jeito, tão triste, tão sombria. Ela só falara o básico, não queria consolações e nem entrar em muito detalhe. Não lhe pedira para que fosse ao hospital, mas ele sabia que era isso que ela mais desejaria, e ele saiu às pressas só avisando para Ofélia, que lhe olhou como se a informação de que tivesse uma avó, e ela fosse humana o suficiente para morrer, o demovesse do local onde ele estava na zona resolvida em que ela definira com um prego numa placa de isopor.
          Na época, quando vestira o casaco e abrira a porta, parando na calçada para se situar de volta no frio de chuva e vento da rua, passou-lhe pela cabeça que um círculo se fechava e que seria num dia apropriado que os dois se encontrariam novamente. Era uma história sem encaixes narrativos satisfatórios e completamente entregue à aleatoriedade, mas o velho cinismo cósmico, que muito provavelmente trabalhava em ponto morto, continuava insinuando que havia um sentido por detrás das desbastadas camadas do enigma. Se tinha uma coisa que ele determinadamente não desejava era ir ao hospital.


quarta-feira, 9 de maio de 2018

Já pensou?

Já pensou se todos os delírios do brasileiro médio se tornassem realidade?; um país em que acontecesse, ao mesmo tempo, do governo mais capitalista da sua história ter feito uma revolução comunista bolivariana; em que os estados do sul e São Paulo decretassem independência e terem, assim, se transformados não nos óbvios Paraguais que seriam seus destinos, mas em Suécias confortáveis e subitamente de altos padrões culturais e financeiros; em que o mundo dobrasse os joelhos e confirmasse que Olavo de Carvalho não só é o maior pensador da atualidade, como é o maior depois de Sócrates; em que os Alexandres Frotas, as Joices Hasselnãoseidasquantas, os artistas ex-globais falidos e sem fama, os playboyzinhos neoliberais que querem viver das custas do estado, os youtubers, etc, assumissem todos o poder e se revelassem não os parvos mercenários com medo do desemprego que são, mas gênios econômicos que provassem a todos, através de uma riqueza generalizada, que a venda da nação era mesmo o melhor a ser feito; em que um fascista era eleito e se vestisse de Rambo e saneasse todo o país com ações pirotécnicas de altíssimo risco mas afiadamente eficientes, matando bandidos, explodindo favelas, empalando políticos corruptos na praça do Congresso, tudo antes do churrasco de comemoração cossaca cristã feita pelos seus nobres seguidores com fogueiras a céu aberto, e tudo com trilha sonora adrenérgica e filmada em tempo real para de quebra promover o excelente cinema nacional; em que, além disso tudo, houvesse um sistema político em que seus personagens não fossem primeiras damas inexpressivas que caíssem em lagos para salvar cachorrinhos, nem mandatários e chefões da políticas afundados em uma cafonice e breguice sem igual, mas príncipes e princesas e duques de uma realeza finíssima e elegante. Pena que todo esse sonho esquizofrênico tão lindo seria imediatamente destruído, escoado para o abismo, visto que o planeta teria se tornado achatado pois o delírio atenderia também aqueles brasileiros que acreditam que a Terra é plana.