quinta-feira, 7 de setembro de 2023
Fissuras
segunda-feira, 4 de setembro de 2023
Cary Grant
A Dani me mandou ir a uma marcenaria hoje de manhã para finalizar a compra de uma mesa. Mostrou-me uma conta de facebook com a pessoa com quem eu teria que falar, dona da empresa. Eu olhei bem as fotos, parado com o celular ao lado da Dani. Instintivamente, olhei para a Dani e disse: "É com essa mulher que devo falar?". "Sim", ela respondeu, descansadamente. É claro que a Dani tem plena confiança em mim e somos lúcidos o bastante sobre os efeitos naturais da hidrostática corporal, mas por mais que ela tenha consciência que um homem de 50 anos como eu já está há muito fora do mercado libidinal eu me senti ofendido que ela não se importasse que eu falasse com aquela mulher.
Virtù
Ser filho de um casal que se divorciou quando eu tinha 8 anos desenvolveu bastante a noção do que meus pais temiam fracassar em mim. Os dois tinham pavores opostos. Meu pai, nos nossos encontros mensais, na certa passava noites sem dormir quando ouvia minha voz fina, o jeito sensível que um menino na ingenuidade do deserto hormonal tem de caminhar e de se portar. Minha mãe via em mim um pervertido, na linha contrária, que apesar da minha timidez patológica sempre dizia para eu ficar longe das primas. A natureza da supressão nos torna maquiavelicamente lúcidos, e eu recebia essas coisas com um ar terno, ainda não conseguindo verbalizar a verdade intuída do quanto eles, que eram pais tão jovens, se rendiam ao desamparo.
A real
segunda-feira, 30 de janeiro de 2023
Insignificâncias
sexta-feira, 6 de janeiro de 2023
Miriam
Ontem me lembrei com certo saudosismo da Miriam. Há mais de vinte anos eu fiquei desempregado e resolvi atacar os bancos. Saquei toda a grana que tinha no meu limite e gastei toda a margem do cartão de crédito. Não tinha com o que pagar e não estava nem lixando para isso. Vivi um ano de uma renda de poupança que eu tinha e desse dinheiro do banco e do cartão. Ficava em casa, dormia bêbado de madrugada e acordava todo dia depois do meio dia. Era solteiro, vivia sozinho e não tinha que prestar contas a ninguém. Daí apareceu a Miriam. Não, não era uma mulher fatal que apareceu para complicar ainda mais minha vida, mas uma funcionária da seção de cobranças do banco. Era uma terrorista esquizofrênica, para resumir. A primeira vez ela me ligou, a voz aguda, parecendo de uma das irmãs da Marge Simpson, e já direto me disse que eu era um miserável de um vagabundo e que tinha que arcar com minha dívida no banco. Eu fiquei sem resposta diante essa técnica crua de convencimento, e confesso que, pelo estágio psicológico em que estava, quase chorei. Desliguei na cara dela. Ela ligou de novo, cheia da alegria da vitória por ver que eu era um bunda mole sensível, e me disse: "E além do mais é um viadinho chupa rola de um derrotado que não aguenta a verdade na cara. Paga o banco, sua bicha!". Vi que eu tinha que adotar outro método de reação e tentei argumentar, perguntando porque ela agia assim, que não precisava me ofender. Ouvi um suspiro do outro lado, e um silêncio, crente que a havia enternecido, mas então ela disse: "Eu não sou sua mãe, seu retardado, pra ficar com pena de você. Eu não tenho nenhum filho bandido estelionatário e ladrão que dá cano em banco. É graças a merdas como você que as taxas estão tão altas nesse país, para compensar a cara de pau". E ela dizia essas coisas todas com fúria, mas sem perder a compostura. Parecia que fazia as unhas ou dava o peito para um filho (aquele que jamais seria como eu), enquanto me descascava todo. Eu é que comecei a ficar puto com aquilo, e quando devolvi na mesma moeda ela recorreu a um nível de profissionalismo tão elevado que se eu reproduzir no Facebook eu seria bloqueado por um semestre. Eu não deixava por menos, chamava ela de puth4, bisch4te, mandava ela lavar a bwc3tt4, coisas que eu nunca disse a ninguém mas um desempregado não é um ser humano então que tudo fosse para a pqp. Ela deveria ganhar muito bem ou tremendamente mal, porque me ligava todo o dia ou por excesso de eficiência reconhecida ou para descontar em mim a vida dura que tinha. Eu esperava o telefone tocar, sabendo que só podia ser ela, porque com o desemprego eu me tornei invisível e muitas pessoas só foram saber que eu não tinha morrido quando ressurgi, um ano depois, concursado. Então, paradoxalmente, eu só tinha a Miriam. Uma vez a gente estava gritando um com o outro (ela já estava apaixonada, já levava a coisa para o nível pessoal, já tinha jogado o bebê para o berço e esbravejava com aquele seio pingando leite para fora do vestido), e ela disse algo de um grau de escatologia tão abjeta, tão impossível de ser colocada no limite do verbo, que ambos paramos para reavaliar aquela joia nascida do nada e começamos a rir. Ela ria que quase chorava. Ela disse: "depois dessa não dá, eu te ligo amanhã". Eu disse: "então tá, tchau". Passaram três dias e nada dela ligar. Eu fiquei ressentido por ter talvez dito algo inconveniente, que não tivesse sido demasiadamente ofensivo, que a tivesse feito desistir de mim. Mas eis que o telefone tocou, de noite, quando eu preparava uma linguiça para comer com um pão, enquanto ouvia um cd do Doves que eu havia comprado com o dinheiro roubado do banco. "O pilantra tá aí ouvindo musiquinha de marica. Vai pagar o que você deve ao banco, seu travesti de esquina". Eu corri para abaixar o som, feliz da vida, e devolvi o xingamento colocando a moral dela em dúvida e definindo certas partes de sua fisiologia de maneira nada meritosa. Recordo que bebi as quatro doses de Caninha da Roça com Coca-Cola, me sentindo cheio de animação por ter "falado" com a Miriam, e desmaiei. Acordei no outro dia com a Ana Maria Braga narrando os atentados às Torres Gêmeas, ao vivo, e vi que o resto de esperança que eu tinha se desmoronava, o que me causou muito alívio. Eu estava com o passaporte pronto para ir aos EUA trabalhar numa empresa de distribuição de propaganda em sinal de trânsito de um tio meu, mas o Osama bin Laden havia mudado meus planos. Mesmo novamente empregado, eu nunca paguei as contas do bando e do cartão. Fiquei cinco anos livre da escravidão do crédito, até que um dia o Serasa me mandou um comunicado, dizendo que minha dívida havia expirado. E ontem, não sei por quais razões psicológicas, assistindo à série Caleidoscópio, me retornou a Miriam à memória. Vai ver porque é uma história que trata de assaltantes de banco.
sábado, 10 de dezembro de 2022
Pés de Barro
Estreou na Paramount um documentário que vale muito não pelo que ele diz, mas pelo que está nas entrelinhas. É o documentário cinicamente hagiográfico que conta como Liam Gallagher, o vocalista da extinta banda Oasis e um dos seres humanos mais antipáticos que existe, conseguiu o feito inacreditável de lotar uma das maiores arenas do mundo, Knebworth, na Inglaterra, em abril de 2022. No início do vídeo, com sua imodesta característica, Liam diz que nem Bono, nem Mick Jagger, ou Freddy Mercury, conseguiriam esse feito, em carreira solo. E é algo realmente espantoso! E é esse mistério, que não é desvendado senão de forma velada, que faz essa obra imperdível. Eu gostava de Oasis quando eu tinha vinte e poucos anos. Ainda tenho uns 5 cds deles, mas há muito tempo não tenho interesse em ouvir. Creio que Oasis é uma das bandas que mais envelheceu mal da história do rock, com sua fatídica parede de som rebuscado, sem riff, sustentada em plágios feitos sem a mínima vergonha, e com canções que não se firmaram na mentalidade musical (a gente não vê a obra deles em filmes, ou citadas pelo mundo midiático, como vemos direto os Beatles, ou mesmo bandas mais recentes como Radiohead). Isso, contudo, se você não for da classe média britânica arruinada, tornada órfâ pelo Brexit, sem dinheiro, sem perspectivas, pouco instruída, terceiromundizada e louca para desabafar tudo isso acrescido à quarentena aprisionante de uma pandemia mundial. No vídeo vemos que, pelo menos, um representativo montante de 80 mil pessoas (o público que foi ver Liam em Knebworth), adora Liam Gallagher. Há o depoimento acompanhado de vários fãs durante sete dias antes do show até o momento do show, e gente diversa que tem o traço comum de idolatrar o roqueiro. Tem um pastor evangélico que diz que Liam é tão importante quanto a Bíblia. Tem uma maravilhosamente extrovertida garotinha de 10 anos que, se sugere, se curou do câncer graças ao apoio mental unidirecionado do músico. Há uma moça que teve de faltar à prova final da faculdade porque era no mesmo dia do show. Etc. E isso tudo entremeado com depoimentos do próprio Liam tentando se fazer de menos arrogante, ele que é um cara espertíssimo e sabe vender como ninguém uma imagem de pop star perigoso e egocentricamente desbocado (o que acho que ele faz bem isso, pois entre essa pose de marginal social de boutique e o bom mocismo xaroposo de gente como o Dave Grohl, a primeira leva a melhor e desperta mais fetichismo). Mas aí vem o suprassumo da coisa, as imagens surpreendentes para um programa de rock autobajulador de uma Grâ Bretanha à beira da falência, a enorme pobreza, a rasteirice de um povo que resolveu emburrecidamente pela diáspora étnica em vez da união. Os próprios testemunhos colhidos revelam desesperança e medo, batendo na tecla repetitiva de que o show de um astro obsoleto, que o resto do mundo não está nem aí mais para ele, é um escape, uma fuga momentânea. O clima do filme é de tristeza, nitidamente. A cena final, das pessoas se retirando do campo após a catarse extinguida do espetáculo, cabisbaixas, de volta para suas vidas medíocres, é de enorme desalento. Os apartamentos apresentados de cada fã são em periferias mal cuidadas, cômodos minúsculos, semelhantes aos que pululam na imprensa sobre as condições de moradia atrozes da Coréia do Sul e da China. Por detrás dessa panfletagem, a câmera mostra que nada está bem no capitalismo desmedido, na proliferação da mentira cibernética que alimenta imbecis, na falta de consciência, na alienação profunda. As pessoas andam tão à míngua diante uma vida desespiritualizada pela subserviência total ao mercado, que até os ídolos de pés de barro são úteis para o alívio instantâneo. E Liam Gallagher soube lucrar como ninguém com isso.





