O Brasil tem algo de Coréia do Norte. É tão fechado, e para nós que aqui moramos sem possibilidade a curto prazo de sairmos para além de suas fronteiras, parece que vive um outro tipo de realidade toda própria. A cada dia me vem a certeza de que a verdade brasileira é insondável, permanente, indevassável e aprisionante, e que nos submetemos com tal inclemência a ela que estamos em descompasso em compreender o que se passa no restante do mundo. Eu vejo, com temor profundo, que a brasilidade me distorceu a tal ponto que comprometeu minhas faculdades de entendimento. Eu só consigo entender sob a ótica acondicionante de viver no Brasil. Por exemplo, esse filósofo, escritor, ou o que quer que seja (o sinal do meu comprometimento neuromotor é não estar à altura de definir o que tal sujeito é), esse Ovalo de Caspalho... ele...o cara é tão..., mas tão ignóbil e espúrio e sem substância, que eu fico pensando com toda sinceridade: alguém como ele é possível de existir em outro país, em outra pressão atmosférica que não seja a do Brasil? Fico horas olhando o Facebook dele e fico em consequência frio de medo. O que nos tornamos? Isso foi progressivo; algum dia fomos melhores e nos degradamos nisso, ou sempre fomos assim tão insípidos, irrisórios? Porque, vamos falar a verdade, não se trata de complexo de vira-latas, quisera deus que fosse algo tão simples e contornável com o exercício sedicioso de um amor-próprio alimentado com disciplinada sofreguidão: o fato é que assim como estamos, assim como nos apresentamos, somos mesmos um povo menor, vergonhosamente menor. Eu sou daqui e não fico nem um pouco feliz em dizer isso. Me parte o coração e me enche de bile ver o desprezo despejado com tanta falta de cerimônia para cima de nós. O assunto é seriíssimo!! Esse Ovalo, filósofo, redundância encarnada... todo o Facebook dele é de uma bestialidade medonha, uma azucrinação e pornografia mental, promiscuidade sem tamanho. Leem seus textos e os dos seus absurdos seguidores e façam o exercício de como aquilo parece aos olhos de um leitor estrangeiro. Dá uma vergonha prostrante. Há um mapa da América Latina em que o Brasil aparece com a foto sobreposta de um ânus. Como alguém dá atenção a um cara desses? Toda frase do cara tem um xingamento, as palavras mais chulas. Daí, ele entremeia com pequenos textos de um lirismo tão raso, que nos comentários aparecem os celerados elogiando a beleza daquilo, a profunda poesia. Percebam a preguiça com que escrevo isso aqui; não tenho o mínimo ensejo em escrever sobre Ovalo. Um ególatra puro. A foto que estampa seu Face faz referência à serenidade ostensiva de sua cabeça ao beijar a criança (neto?), algo que lhe deve soar helênico, a estante abarrotada de livros atrás. Uma foto feita não para mostrar a criança, mas o velho. E não há o mínimo conteúdo nas coisas que ele escreve, mas mesmo assim... um caudal de seguidores! Não é para menos. Visito outros endereços virtuais e vejo, por exemplo, alguém dizendo sobre Dostoiévski, e assim, como um movimento condicionado inevitável, os comentários que se seguem são de "entendedores de Dostoiévski" que não leram nada além da wikipédia, ou conservam uma onisciência de papo de boteco. E esses, notem, são pessoas letradas, altos profissionais e gente descolada, gente de bom gosto. É por isso, será? Assim como o brasileiro adora ostentar supremacia social através de qual carro ele compra, é indispensável para o brasileiro descolado apenas arvorar cultura e esclarecimento? Pouco lhe importa ser, mas parecer? Assim explicaria muita coisa: Ovalo cai quase como uma luva, e soma-se a isso o fato de ser um filósofo com recursos high tech, o que agracia a vaidade de todo mundo que quer ser visto por todo mundo. A serotonina do ódio direcionado no espaço virtual, e do elogiar em conjunto. O único tema do sujeito é ele mesmo. Essa inelutável convergência para se ser o Chacrinha em cada área de atuação do brasileiro deveria ser fonte de estudos sérios para nos tentar salvar.
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Seria uma evolução inalcançável se tivéssemos um veículo torpe, enojante, visceral, bruto, violento, descerebrado e desentorpecente como a Charlie Hebdo. Eu já disse aqui, em outra dessas ocasiões de minhas análises sobre o país, que eu compraria uma revista masculina em que viesse um hipotético ensaio fotográfico de uma mulher que, naquela data, estava sendo investigada no incipiente processo contra a corrupção na Petrobrás, mulher cuja estética corporal notoriamente expressiva do crime que cometera a tornava incondizente com a nudez expositiva. O que eu estava a dizer é que, a afronta a que alcança o equilíbrio entre criminosos no poder e o povo que os alimenta é tão irrespirável, que eu tenho a urgente necessidade de me haver com uma outra forma de expressão. E, já que a intocabilidade desses corruptos é tão insofismável, a burrice exorbitante do povo tão encalacrada, o absurdo de ver um nu desses abriria inéditas e insuspeitas maneiras de percepção. Precisamos aqui recorrermos a novos e mirabolantes exercícios de desentorpecimento, e a Charlie Hebdo cumpre bem esse papel em seu país de origem. Isso porque ela não pretende a genialidade, não busca o amor de seus leitores, não busca, sequer, leitores; prescinde corajosamente até do humor. O que ela faz é, restringindo à definição de uma única palavra: repulsivo. E é aí que, mais uma vez, está o x da questão. A Charlie tem apenas uma ambição: ser o ponto cego. Antes dos atentados que massacraram parte substancial de seus editorialistas e chargistas, as suas vendas eram mínimas, o interesse pelo que diziam só atingia os noticiários baseado no termômetro do calor de reação que uns desocupados tinham contra o que para estes era ultrajante e ofensivo. A Charlie seguia incólume em sua personalidade imutável de ser o que era: o ponto cego. Uma vez arvorada, sem pretender ou fazer nada para isso, à condição de ícone, bandeira da liberdade e símbolo cult nacional da França, ela prova a fidelidade à sua identidade ao não se envaidecer com esse amor a ponto de traí-lo, de jogá-lo na sarjeta. Os milhões que se dedicaram a comprar seus exemplares e torná-la um frenesi de vendas agora, em parcelas representativas, se dedicam a desbancá-la do posto de bem-amada graças a uma charge recente em que ela parece a eles ter ultrapassado os limites. Como se ultrapassar limites fosse algo programático para a revista, como se uma revista que sempre foi o que é, repulsiva e burra (na acepção do termo correlacionada a uma total despretensão de ter conteúdo), tivesse ainda algo a dever à cordialidade do mundo externo a seu escritório. Com a última charge, a polêmica e racista, como está sendo vista por muitos, charge em que o menino sírio afogado é imaginado em uma hipotética sobrevivência adulta apalpando a bunda de alemãs, a Charlie Hebdo ameaça perder o título de baluarte moderno da liberdade de expressão para voltar a ser apenas a Charlie Hebdo. O mundo prova um pouco da burrice que vemos na Coreia do Norte brasileira ao espelhar em franca armadilha o que a charge da Charlie tenciona: a hipócrita vociferação recheada de ódio, típica de fundamentalistas, mas partindo da Europa altamente civilizada. Os comentários daqueles que se sentiram enganados ao vestirem camisas com a frase Je suis Charlie, e agora viram o racismo e intolerância da recente charge, enchem os editores da revista de prazer por verem a missão cumprida: a burrice em estado puro, selvagem e ingênua, é genialmente confrontadora. A charge, como bem acusou alguns, faz parte de um tríptico, em que a conclusão revela a alfinetada na predisposição confortável de se chorar com a foto da criança morta na praia, desde que não se tenha que dispender um mínimo esforço para uma auto-análise de como esses piedosos espectadores no aquecimento de suas casas veem com demérito e preconceito os refugiados sírios. Como esses para os quais o choro é uma catarse estética linda do corpinho do menino afogado querem que tais refugiados se mantenham o mais distante de suas fronteiras. Não, a Charlie não tem bom gosto, é idiota e desprezível, mas está no final de uma escala de evolução dialética (para a qual mesmo o europeu para quem é escrita parece mostrar descompasso na recepção da mensagem) em que nós coreanos rastejamos ainda com nossa adoração a Ovalos. A Charlie faz da chacota o objeto de elucidação impactante; já aqui, a mensagem levada ao estado de culto de alguém como Ovalo mostra que a chacota somos nós.







