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Por muito tempo acreditei que a minha família era fincada na obsessiva normalidade do interesse monotemático de seus integrantes pela busca da "grana e poder" para que ela pudesse alegar ter um passado, ter uma dessas histórias que se elipsam em direção infinitamente regressiva rumo a uma mais antiga e centenária árvore genealógica que vemos como característica romântica nos livros. Até o fim da minha adolescência, a convicção de pertencer a um vago agrupamento de pessoas que, por acaso mais protocolar de esporádicos encontros de natal do que propriamente co-sanguíneo, nada tinha de interessante a contar, era uma das poucas coisas insofismáveis da minha vida. Eu tinha tanta certeza de não ser digno das famílias tolstoianas, carregadas de conflitos cósmicos e violências que solidificavam um invejável mutualismo, que nunca pensei nisso, mesmo naqueles anos em que Tolstói e Faulkner eram os pretensos embasamentos da minha assim projetada carreira de escritor. Quando eu me lançava em meus exercícios literários, e ousava inventar algo no estilo de saga de Garcia Marquez, logo percebia a insustentabilidade de toda a frágil simulação de uma memória familiar a ser contada, porque o que eu na verdade tinha de uma ressonante ausência de conhecimento sobre minha família era muito mal substituída por uma imaginação artificial sobre famílias inventadas.
Passei muitos anos sem escrever nada, me limitando a tecer rápidos rascunhos de romances e contos que eu jamais iria escrever, e que se revelavam como epitáfios de uma intuição maior de algo inapreensível, de um espaço que necessitava urgentemente ser preenchido pelo que cada vez eu sabia que dependia inteiramente de uma cansativa pesquisa interna, e não dos arroubos de fantasias para as quais a criança em mim já estava crescida demais para dar autenticidade. Eu observava a correria cega em que se lançava minha mãe, a provável representante direta com a qual eu tinha mais contato daquela rumorosa suposição de conteúdos secretos a serem revelados, e não sabia mesmo como me aproximar dela, como contê-la com a mão segurando-a delicadamente pelo braço e fazendo-a parar, fazendo-a deixar de realizar aquela dança da "grana e do poder" que haviam incutido nela como uma espécie do mais arraigado muçulmanismo. Eu ria ao imaginar como ela me enxergaria com um espanto abissal se eu tivesse tal coragem, como ela esquivaria-se em um reflexo físico visível diante aquela inconcebível ameaça, o que logo seria substituído, na fração de segundos em que seu instinto de defesa arranjaria a compreensão rápida para dar conta da situação, por um ódio concentrado em ver em mim uma espécie de doença indolente, de feminilidade repugnante, de maluquice confronto à salutar economia emotiva. Por isso eu sempre a deixei em paz, com seus negócios do direito e sua ocupada rotina de me oferecer proteção e entusiasmo combativo pela vida até que eu pudesse me virar por mim mesmo. Uma vez só, por uma espécie de teste de qualificação se aquela severa evasiva poderia ser feita em nosso relacionamento, eu teci um comentário absurdo, que me deixou toldado por uma vergonha profunda logo depois que falei.
Eu havia encontrado uma série de negativos esquecidos em uma desfarelante caixa de sapatos, ao ser retirado o entulho de um antigo guarda-roupas de um dos quartos da casa, e em um deles me surpreendi com a bela moça de cabelos negros colossais que lhe iam abaixo da cintura que aparecia em um vestido ousadamente curto para a época. Para se ver tais negativos, necessitava-se olhá-los contra a luz por um visor de vidro minúsculo instalado em uma das extremidades de uma caixinha do tamanho de meio polegar, para que os foscos fantasmas brancos se convergissem para as pessoas coloridas que surgiam sempre com sorrisos cuja obsoleta qualidade das cores dava a impressão de se tratar de um mundo programadamente feliz onde tudo se situava sob a iluminação de um estúdio fotográfico. Por mais que tais fotos pudessem ser recentes, o que não era o caso daquelas, as cores tinham essa característica de uma memória materializada sob um sol baço e antiquado, como se desgastada pela viagem que fizeram do subconsciente até a impressão no fotolito. Eu fui enganado pela impressão dispendida por essas cores, de ser algo já acontecido há tanto tempo que estava imune da ironia e da inerente acusação contra o passar do tempo, e falei à minha mãe: "Percebo que uma das coisas que herdei de meu pai foi o gosto pelas guapas paraguaias". O erro foi que ela entendeu de imediato. Na mesma velocidade em que a vergonha me incapacitou instantaneamente na cadeira da cozinha, aquela luz perigosa de ser confrontada por um desvio padrão em seu rígido sistema de homeostase doméstica acendeu nos olhos da minha mãe. Nessas horas raríssimas, que eu conservo talvez, além deste, dois ou três episódios de reação semelhante, eu poderia esperar tanto um tapa, quanto um laconismo de um trovão divinatório que não admitia resposta me mandando para o castigo no quarto, mas aquele mutismo que se seguiu ao que minha alma se congelou ao averiguar se tratar de um ar de mofa, de uma superior resignação quanto à minha incorrigível aptidão para o infatiloidismo, destruiu muitas estruturas que eu havia erigido em meu caráter e que eu até então achava serem inabaláveis. Se me sobrasse o artifício ainda mais pueril do choro, eu teria recorrido a ele naquele momento, o que na certa seria benéfico como resposta de capitulação generalizada diante sua inteligência, mas nem isso eu pude fazer. Ela viu no bolso da minha camisa a caixinha ótica vermelha com o negativo e a lente, e conservou seu silêncio; em suma, a caixa de negativos não representava nada para ela, coisa que eu só fui perceber ter caído em mais um engano das aparências quando a linha temporariamente obstruída de sua vaidade ganhasse uma reconversão muscular anos depois, em que lhe pesava muito perceber o quanto sua vida fora desgastada em artifícios sibilinos demais de tão óbvios para não serem senão tardiamente perceptíveis, e aquela bela moça das fotos passar a ser sua inimiga mortal, sua confrontante melíflua que sempre estava para lhe esnobar daquele mundo eterno a sua sensaboria inglória, sua velhice sem explicação.
Ela não requereu a caixa de negativos de mim. Bebeu seu copo de suco de pêssego, após ter diligentemente ingerido seu último pedaço de bife, e se retirou da mesa levando o prato sujo para a pia. O cerne daquele conflito sutil era a vulgaridade do que ela via constantemente em meu pai ressurgindo com uma assertividade anacronicamente sem retoques em seu filho para que pudesse ter um selo de maldição parental. Era uma gratuidade grosseira demais minha tentativa de explorar outras opções de discurso para que alguma emanação de recalques edipianos partisse daquela minha frase infeliz. Eu era apenas vazio, ela concluíra, enquanto jogava os restos do arroz na caixa de lixo ao lado da torneira da pia, e aquilo era o tipo de autenticidade falsa que nenhuma trabalhadora e estudante de direito compulsivo mereceria ter para quebrar o precioso silêncio da companhia tática que tínhamos na hora da janta. Eu recoloquei a caixa de negativos em seu lugar, plantando-a com zelo em seu ninho de caos no guarda-roupas, e jamais tornei a olhar aquelas fotos que hoje me seriam valiosíssimas, que hoje daria um de meus dedos à escolha por elas. Eu havia visto cada uma delas, muitas e muitas vezes, de forma que me lembro do conteúdo de algumas com matemática precisão. Meu pai aparecia sempre muito negro nelas, ele que era um moreno médio que lembrava certas tonalidades mediterrâneas, com seu topete de cantor de rock dos anos 50, seu ar de lascívia etílica que era mais uma outra expressão de sua timidez do que propriamente distinção erótica outorgada pela guitarra que levava onipresente junto a si. Meus tios e tias com seus 20 anos, naquela cidade provinciana em que o destino era mais uma conformação geográfica cujo andamento se individualizava em fios centrífugos a alimentar em todos os aventureiros da diáspora a nostalgia do retorno para o coreto da praça, para o bar do Anfimônio, para o cinema Espártaco, para os carros de latarias tão duras quanto se fazia necessário um padrão de indústria também contaminada por aquela ingenuidade primeva que ainda não tinha descoberto o enorme potencial de riqueza que havia na perecividade. Todos desapiedadamente jovens. Se fosse acreditar em uma entidade do mal controladora, o próprio tempo havia tirado as fotos, para poder colar aquela coleção de entusiásticos de uma saúde e beleza eternas em seu mural onde cada uma se revoluteava em agonia em torno da agulha de aço cravada nos peitos como fazem as borboletas em seus últimos instantes de vida combativa fincadas no mostruário.
Muitos dias depois vi minha mãe sentada no chão do quarto, com a caixa no colo, se dedicando a olhar cada um dos negativos com seu olho levemente estarrecido em que se permitia o encanto, enquanto o outro olho se fechava com determinação para assim toda a mágica daquelas cores ultra-dimensionais pudesse ser captada. Ela não viu que eu a via. Talvez aquele fosse o momento que minha imprudência havia antecipado equivocadamente para aquele mal fadado jantar, e vendo agora de minha idade madura, de minha posição já calosamente acostumada com tantos medos a ponto de eles terem ficado tão desbotados quanto as cores dos fotogramas, eu deveria ter saído de meu esconderijo e ousado fazer da ocasião o ponto zero para uma nova etapa de comunicação com minha mãe. Imagino-me na impossível atitude de me sentar ao lado dela e pegar os fotogramas sem lhe dizer nada e compartilhar com ela aquela experiência. Por que seria tão difícil?, por que a distância entre a soleira da porta até os poucos metros onde ela estava se prolongaram infinitamente? Um medo idiota, uma vergonha imbecil. De todas as possibilidades que cada um de nós negamos existir quando se pergunta se se tem algo do que se arrepender, não me são mais insuportáveis o beijo não dado quando era o momento irrepetível em que ele deveria ser dado, nem a prova que não foi feita para o emprego dos sonhos, nem a viagem recusada onde o mundo nas fotos parecia nunca mais ser possível de voltar a ter o mesmo maravilhamento, nem as tantas e infindáveis palavras que nasceram para os tantos e infindáveis momentos em que contudo elas foram abortadas; mas o que me causa mais um insuportável arrependimento é justo a aceitação besta da inexorável imutabilidade do instante, da impressão conformada de que o instante está pronto e sem direito algum a sair um milímetro sequer de sua previsibilidade. O que me dói é o peso que suportei por anos de que certas coisas são imutáveis, que não possuem a comburência sensível dos incríveis atos de espontaneidade louca para os quais parecem ser feitas nosso arrependimento de não termos sido loucos à altura. Se eu tivesse ido até ela, mesmo para receber uma resposta ainda mais destruidora, se muito de nossos mundos pessoais não tivessem se tornado outra coisa completamente diferentes do acidente que fora, ao menos aquelas fotos, tenho certeza, teriam se conservado.
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