Enquanto todo mundo se esmerava nos preparativos para a festa de aniversário de 4 anos da Júlia, sábado passado, me foi incumbida a tarefa de ir ao shopping comprar os presentes. A Dani deveria saber que era uma erro muito grande me mandar a um shopping que tem o milagre de duas grandes livrarias, após meses em que eu não dei as caras na cidade. Fui na Livraria Saraiva, perambulei meio decepcionado pelas faltas de opções além do trivial nas estantes, e desci em seguida para o térreo, onde fica a fnarc. Lá sim é um templo. Deve ter cem mil livros para mais (é a impressão que dá). Visitei aquele lugar faz um ano, e me surpreendi que ainda estivesse lá, ocupando aquele espaço todo em que caberia umas 5 lojas de eletrodomésticos e aparelhos celulares. Fiquei umas boas três horas na fnarc. Era só em pensar no título de um livro, o mais distantes e improvável, e pimba, tinha ele na loja. Tem toda a coleção do Tolstói e toda do Dostoiévski. Já na entrada me estaquei de espanto ao ver uma edição em volume único dos Irmãos Karamazóv, da editora 34, que eu em absoluto sabia que existia. Vi a extravagante edição de Bartleby da Cosac, e mais uma infinidade de livros que não me recordo por agora. Isso só na áreas de romance e biografia, porque a seção de artes também era imensa. E gente por tudo quanto é lado, de livros nas mãos, conversando polidamente entre si. E crianças sentadas nos carpetes lendo. Num lugar desses me pergunto se são corretas as afirmações de que não se lê no Brasil. Será que é uma falácia? Comprei 4 livros: 78 reais tudo. Comprei a edição da 34 de Memórias do Subsolo (já na primeira reimpressão da sexta edição), que há tempos namorava e que estou ansioso para reler assim que terminar os Karamazóv; comprei a edição de bolso de Khadji-Murát, e, ao me aproximar da fila do caixa (não queria comprar mais, apesar de saber que assim que entrando em casa me arrependeria de ter deixado passar tanta coisa, pois espero a chegada pelos correios de O homem sem qualidades e Fala, memória, o que atulharia demais a lista de leituras), vejo no balcão de descontos uma biografia do Bob Dylan e Pulp Head, cada um por 12,90. Pego-os olhando em volta numa mistura de gesto defensivo e vontade de vanglória. A moça do caixa é docemente educada. Uma trupe de palhaços invade a loja com tambores e gritaria, e se posiciona na ala infantil, sendo imediatamente rodeada por crianças e pais. Tudo muito simpático e generoso. Sobrou uma hora antes da hora da festa de aniversário para enfrentar o tumulto estúpido na loja de brinquedos, de frente aos presentes idiotas de selvageria guerreira para meninos e futilidade caseira para meninas, e esbarrando com a vulgaridade estridente dos pais. Não suportei ficar lá cinco minutos e voltei para a casa da minha mãe. Depois levaria a Júlia para que ela escolhesse, dentro de seu feliz bom gosto, um presente personalizado. Que bom seria se houvesse uma loja de brinquedos com a mesma espiritualidade da livraria; brinquedos como os da belíssima séria Baby Einstein.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
sábado, 11 de outubro de 2014
Alma
Encerrei ontem o primeiro volume de Os irmãos Karamázov, na edição da Editora 34. É um dos livros mais maravilhosos que já li. Estou sobre o forte impacto dele. Lá se encontra de tudo, e, muito possivelmente, propostas sinceras sobre a inviável salvação da sociedade. As páginas sobre a vida do Padre Zóssima são de tremer a alma, são absurdamente tocantes e verdadeiras. Doistoiévski, meus caros; não houve nenhum escritor como ele. A ele é permitido fazer isso, impregnar as páginas desse seu grande romance com essas palavras que hoje soam tão relevantes e atuais, mas ao mesmo tempo tão escamoteadas e ensurdecidas pela moda. Em determinada parte, Zóssima diz que nada é mais difícil para o homem do que enxergar o óbvio e adotar a mudança de comportamento necessária; nada é mais difícil ao homem do que realizar a coisa mais simples e fácil. São palavras poderosas demais e ao mesmo tempo enlouquecedoras, pois indica que nada mudará no coração do homem. Mas Zóssima tece um consolo: acredite no homem; se houver um igual a você, com a mesma fé na bondade humana, então a situação já será bastante otimista. E as páginas, aquelas 50 páginas quase insuportavelmente lúcidas e extremamente inteligentes, aquelas 50 páginas arrebatadoras que antecedem e incluem o capítulo do Grande Inquisidor? Não há, em toda literatura_ sem exageros_ nada que se compare a estas páginas. Ao lê-las, vi que me acompanhavam os olhos deslumbrados de todos os grandes criadores intelectuais do século passado. É uma comunhão. Eu havia lido este livro quando tinha 17 anos, e não havia gostado. Não sei por quê. Por isso, só fui comprar esta edição mês passado, quando já tenho toda a bibliografia de Dostoiévski em mais que uma edição na minha biblioteca. E que bom que tenha sido assim. O livro me chega na melhor hora da minha vida para poder absorver seus infinitos significados. Começo a entender a frase de Dostoiévski que tirou Solzenítskin de seu centro de equilíbrio: "a beleza salvará o mundo". Há muito para se falar, e creio que nos próximos dias, assim como me ocupei de Tolstói há alguns anos, vou tratar aqui em maior grau sobre Dostoiévski_ e aqui entra as correlações com 2014 o ano mais quente da história, e o caos e o suicídio social. Um livro que tem transformado profundamente minha alma.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Uma conversa com Ramiro Conceição (retirada de comentários meus no blog do Milton Ribeiro)
Vamos falar sério agora, Ramiro. Entre Dilma e Aécio, eu fico com a Dilma. É a mesma coisa que falar, numa comparação grotesca e horrível, que entre a dengue hemorrágica e o ebola, com a dengue hemorrágica tem-se uma estatística menos mórbida de sobrevivência. Mas que bom, se houvesse um Brasil menos terrível, um pouco mais próximo do mínimo ideal, não termos que optar por nenhum desses dois caminhos. Mas já que não há alternativa_ e Marina era, digamos, uma febre paralisante da mesma forma letal mas de diagnóstico indefinível_, eu fico com a Dilma. Não quer dizer que eu fico com um partido específico, mas eu estava conversando com muita sinceridade com um velho senhor amigo meu aqui em casa, e ele me disse, além dos papos de indignação, que em doze anos o Brasil teve uma mudança milagrosa. Eu me lembro de boa parte dos tempos de agruras a que ele se referia: a hiper-inflação, o salário mínimo menor do mundo (nossa ambição era, pasmo, que ele fosse ao menos de 100 dólares!), o fato de quem tinha carro era uma minoria muito endinheirada, o fechamento do comércio e da indústria e como isso nos condicionava à mesma marca de sabonete durante décadas, a inalcançável universidade para os filhos e mesmo para si mesmo, etc, etc. A pobreza e a fome visível. Eu mesmo, certa vez, tive que ir a uma favela próxima ao edifício onde morava com a minha mãe, para buscar uma trouxa de roupas lavadas, e fiquei chocado diante a miséria da mulher que nos lavava a roupa, uma miséria tão intensa que parecia um clichê, parecia algo arranjado sob holofotes, com o filho doente mental e a casa de pau a pique. A mulher, da qual me lembro com total clareza, parecia uma personagem dos quadros de Van Gogh, na angulosidade de seu rosto, no embrutecimento de sua estética sublevada pelo cotidiano infernal de ouvir os gritos da criatura que tinha instalada no único quarto, e que era seu filho de uns vinte anos, um ser que eu vislumbrei de fora enquanto esperava que ela enrolasse o lençol por cima do conjunto de roupas e me passasse, e que me pareceu uma espécie de polvo, ou de alienígena; parecia que possuía tentáculos que não paravam de se mexer em constante agonia, enquanto sua teratogenia o condicionava a uivos violentos. Aquele rapaz era como um símbolo da situação geral, pensou minha mente moldada pelas figuras do ensino sociológico com o qual eu tentava me sofisticar e ter um pouco de compensação contra meu subdesenvolvimento, era um leviatã que cada um de nós tínhamos em graus e realidades pessoais a atestar a cada hora a aberração que era um Estado em situação de indigência espiritual, um país que se aproximava do século XXI sem que houvesse qualquer sinal disso dentro de seu território.
E isso foi há meros 15 anos. A favela já não existe mais, foi demolida para a construção de um viaduto. Eu fui o primeiro lá em casa a conseguir comprar um carro. Tive o salário atrasado por 9 meses, num emprego público que eu tinha (sob o PMDB), e quando recebi todo o atrasado, uma bolada, comprei um fiat uno quatro portas. Nem minha mãe tinha carro na época, ela uma advogada que sempre fez parte da elite do funcionarismo público. Olhando de agora, esse Brasil parece surreal, africano demais, como o suportávamos? Eramos todos, de um ou outra maneira, pobres, não importa de qual classe (classe, hahaha?) eramos. Todos pobres. Todos, no pé da palavra, subdesenvolvidos. Eu torci para terminar meu ensino superior, forçando os anos com o lombo, para que o pessoal do PSDB não privatizasse a universidade federal onde estudava, porque assim, seria a deserção.
Só um tolo, um estúpido, negaria as conquistas cósmicas desses 12 anos. Mas, o que o povo está fazendo? Você tem acesso ao facebook, não? Se formos avaliar pela estultície geral que a ralé promove pelo face, a Dilma já era. Como em um filme de terror ultra-realista, a mesma massa de manobra que o povo brasileiro foi a história toda aparece no face, com ar doutoral de quem acredita que erros crassos de português e xingamentos recíprocos equivalem a sóbrias análises políticas, descambando para o lado do retorno ao passado. É claro que o Aécio é a repaginação freddiekrugeana do Collor, e é claro que os semi-letrados do face são a velha povoalha de cara pintada e grito rebelde promovida pelas velhas dominadoras da mídia, a Globovejaeodiaboaquatro. Vi no facebook de uma mulher da dita elite econômica da minha cidade, um post de revirar o estômago, em que aparece o Aécio e sua esposa, e as seguintes frases: "Chega de feiúra! Queremos gente linda no congresso.", assim mesmo, ipsis literis. E a dita mulher, meu caro, a gênia repetidora das estultícies de comando do ciberespaço, ela mesma uma nordestina, com os traços característicos nordestinos, com o fenótipo específico do nordestino que nada tem a ver com os modelos antagônicos que ela estava louvando. O PT anda bem mal nas redes sociais, e na pesquisa de ontem, há duas semanas das eleições, parece que o vetor aponta para uma curva descendente.
E só um tolo ou um apaixonado ideológico é capaz de negar que esse novo escândalo é bem mais que uma simples conspiração política. Claro que orquestraram matematicamente para soltar a bomba no segundo turno, claro que tem muita perfídia e manipulação por detrás, mas… caro amigo, vamos falar a verdade, né? Quanto mais se nega o que aparece como uma evidência em retumbante clareza em HD, mais a curva decídua ganha velocidade. Não vai ser agora,no alto da desgraça feita, que a ingenuidade forjada vai parar o grande caminhão descontrolado ladeira abaixo. O que eu acho que vai acontecer, é que, infelizmente, o PT vai pagar pelos tantos frutos deletérios que plantou, por ter desprezado a força da estupidez sincronizada do populacho, a astúcia da história. Abusou demais, mas demais mesmo, a ponto de que o benefício de ter nos transformado em diplomados consumidores alegremente endividados pelos planos de financiamento a se perder de vista (o que é bom, fazer o quê?), vai ser varrido para debaixo do tapete, esquecido…
E só vai sobrar mneomonicamente a farsa, a corrupção, a babélia descarada do dízimo para pagar as caras multas judiciais que acompanhavam as prisões de Genuíno e Dirceu eodiaboaquatro. O povo brasileiro não priva pela honestidade, e não é dos que mais se importa com o cheiro do estrume contando que nele ele também tenha sua porção pessoal de rolação na merda_ vide que na época do PC Farias, teve gente que lucrou absurdo com a venda dos bonequinhos do facínora para uma multidão que esfregava a barriguinha de porcelana dizendo que trazia a sorte do dinheiro_, mas nessa loucura do momento eleitoral tudo se transveste em santimônia, em cânticos de redenção e pedidos de justiça. O velho brasileirinho padrão, libidinoso por gorjetas e apertos de mão, ascende para o nível moral de um mujique dostoeivisquiano, fremente de indignada idoneidade, à beira de matar a família Romanov. E os Romanov da hora é a família do PT. Vide a propaganda política que se iniciou ontem, a Dilma tentando absurdamente, histrionicamente, dizer que seu governo vai ser regido pelo Novo, e combaterá a corrupção; e, em contrapartida, após ver esse acidente de publicidade (cadê o Duda Mendonça, meu deus?), segui vendo a propaganda do Aécio e de imediato pensei: o cara vai ganhar. A música de fundo, a lembrança de um “herói” da pátria, que foi avô do candidato. Não tem mais para ninguém. Espero estar enganado. Não vai ser bom para o país. Não creio que vá ser bom. O ebola é fatal demais, e os portos estão abertos (só para fechar a metáfora pra lá de ruim). O Lula deve estar em desespero. Se lhe sobra alguma auto-consciência no alto de seu deísmo, deve estar se lamentando cada vez que negou o mensalão, cada vez que passou a mão escondendo a promiscuidade de um companheiro. A Dilma fez, neste sentido, muito mais que seu mentor, a ponto de, há quatro anos, ter passado por um período em que mesmo os detratores reconheciam que o governo Dilma era muito superior que o do Lula por ser o governo Lula sem o Lula. Mas ela foi engolfada pelo partido, porque a estupidez suicida em médio prazo sempre tem sua determinação inarredável em direção ao abismo. Agora é tarde, e essa sua negação missionária, Ramiro, em mais uma vez repetir a homilia do santo padre do partido de que não houve nada, aumenta mais o repúdio contra a horda por parte de todo mundo.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
A neve estava suja
Suspeito que seja por ter ouvido meio erraticamente um desses intelectuais brasileiros presos pela ditadura militar dizer que três meses de prisão foi ótimo para ele poder ler Guerra e paz em sossego. Assim, tendo retornado de forma involuntária a um ciclo de leituras de Dostoiévski (em busca das leituras essenciais), me vem à mente a fantasia de que estou preso em uma cela individual de um presídio de proteção máxima, com um absoluto tempo livre pela frente para ler Os irmão Karamazóv. De certa forma bastante concreta, essa é uma das felicidades do leitor. Ninguém ficaria feliz em ficar sozinho em uma cela individual, mesmo que elas apareçam na tv com toda sua brancura e sua higiene e seu silêncio abençoado, vide os pedidos de clemência dos condenados e o esforço que os advogados fazem em vão para os retornarem ao cenário da superpopulação das cadeias comuns. Um leitor ficaria feliz. Que maravilha abrir a história dos Karamazóv e se inserir para o mundo daquelas páginas em um ambiente mais recolhido que o de uma biblioteca. Dostoiévski mesmo escreveu que a maior selvageria que acontecia com os detentos era a impossibilidade de se estar sozinho, a ponto de ser um esforço sem tamanho conseguir pensar.
Nesse jogo de correlações entre Dostoiévski e o ambiente criminal, visito o site da Companhia das Letras e me deparo com o romance que mais se aproximou à intensidade dos livros do russo no século XX. E aqui com o título traduzido com maior fidelidade ao original: A neve estava suja. E com uma belíssima capa. O romance de George Simenon que me deu um soco no estômago quando o li em meus vinte anos e do qual mesmo após tanto tempo conservo boa parte de suas imagens impactantes. Visito o site da Cia com certa apreensão, me dividindo entre a vontade de ter uma boa surpresa e da necessidade de não encontrar nada substancial por algum tempo até que ponha minhas leituras em dia. E A neve estava suja com certeza é uma excelente surpresa.
A meu ver, este romance traz uma das melhores primeiras frases da literatura, uma abertura que tem a violência velada e a premonição sufocante das aberturas de Kafka. É um romance cujo desbaratino por não se saber o que fazer com sua impressão de grandiosidade, uma vez que os esteriótipos o enquadram na área dos romances populares e baratos, faz com que suas qualidades fiquem ainda mais evidentes. O fato de ser pulp-fiction, de ser de um autor que escrevia romances inteiros no enquadro temporal de uma semana, de um autor que, voluntariamente, retirou tudo do texto até uma limpidez comercial astuciosa, faz com que o romance seja de uma crueza quase sobre-humana_ ou sub-humana, considerando a brutalidade animalesca dos personagens. Na minha vida de leitor, nunca encontrei uma cena de assassinato que fosse tão vil, tão obscena e pavorosa, tão gratuita e insofismável quanto a relatada neste romance. Em Crime e castigo, acompanhamos todas as elucubrações filosóficas do assassino, e o assassinato ganha avaliações profundas por todo o restante da obra. Mas neste Simenon, a linguagem de romance de banca e o propósito evidente de sub-literatura, faz com que o crime prescinda de toda bijuteria, de todo eufemismo, de toda vênia à tradição clássica de não ofender o leitor; o ambiente livre da descartabilidade e do lixo dão uma força única à desumanidade de Simenon. Este romance é tão único e doloroso, que mesmo seu gêmeo mais próximo, Brighton Rock, de Graham Greene, parece um tanto palavroso e inglês, um tanto polido e lento. A neve estava suja talvez possa ser apontado como literatura francesa em respeito a uma corrente um tanto efêmera mas representativa daquela literatura, em que a nudez se apresentou com um poder imbatível, o que fez com que Beckett escrevesse seus romances em francês: tem a linguagem chula de beco, o traquejo de gangue, a falta de piedade dos que nasceram sem a precisão de lentes ideológicas para ver a realidade de morticínio. E neste romance vemos essa escola de maneira pura, bebemos todo o proveito que ela traz para, hoje, sabermos por onde se pode renovar a escrita e torná-la sanguínea e essencial.
Ainda não tenho esse livro, e ele ainda não foi lançado. Assim que lançado, serei um dos primeiros a comprá-lo.
domingo, 28 de setembro de 2014
Um conto perfeito
Esperando meus filhos e minha esposa saírem do culto, sentado na praça em frente à igreja, debaixo de um ipê amarelo. Choveu toda a noite e o domingo é glorioso, alegre e tranquilo. Peguei um livro quase a esmo na estante para me fazer companhia, e coube que tal livro fosse o volume de contos policiais de William Faulkner, Lance mortal, lançado pela editora Benvirá. Procuro o menor conto do livro e o releio: a maravilha de curtas 25 páginas intitulada Um erro de química. Quem me visse acharia que ou eu tivesse algum problema de infantilismo mental ou estava passando por um final de bebedeira da madrugada de sábado. Fiquei pasmo pela excelência da história, desse que sem dúvida é um conto perfeito. Tem tudo lá: True detectives, espantosas maquinações sinestésicas de suspense que cativam a atenção do leitor com uma grande dose de hipnotismo-pânico, a canastrice convincente do exagero que faz homenagem à literatura de gênero, e até uma metalinguagem bem-humorada no último parágrafo bastante típico do virtuosismo de Faulkner. O que me faz, às vezes, me distanciar de Faulkner?, me vi perguntando. Convido qualquer apreciador de literatura a ler esse conto e não ter a absoluta certeza da genialidade de Faulkner. O cara é a raiz daquela excelência feita na literatura do século XX. Eu ria, apertava o livro, olhava para alguns passantes com a fantasia de pensar em dizer "vocês viram isso?, o que esse cara fez?". Não só a escrita perfeita, como um conhecimento humano e uma sabedoria bem acima da média. O tipo de leitura que te faz pensar em muitas e intrincadas coisas; o tipo de prevenção definitiva contra o alzheimer que em poucos anos consumirá epidemicamente uma maioria de cérebros amaciados por entretenimento e cultura ruim. Uma das coisas que eu sempre penso é: esse cara não era um intelectual, não era uma acadêmico, o muito que perigosamente se pode dizer dele com sua aprovação é que não passava de um caipira, e só nessas 25 páginas, que não estão entre o que ele fez de melhor, ele vence o mundo todo. É bom demais ler Bellow e Roth, mas me assola uma consciência de perda de tempo imensa por não estar fazendo como há 20 anos, cotidianamente em contato maciço com o universo de Faulkner.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
O pintassilgo, de Donna Tartt
Depois de ler O pintassilgo, novo romance de Donna Tartt, é difícil não dar ouvidos para críticos como James Wood que acusam o infantilismo na produção da atual literatura. Desconsiderando diagnósticos mais genéricos, como o de Vargas Llosa, que diz que o infantilismo é uma praga espiritual oriunda da degeneração do gosto que assola todas as vertentes da cultura de 20 anos para cá, o romance da Tartt por si mesmo desperta cogitações sérias de que essa pobreza, vinda de uma visão limitada do mundo, revela de maneira menos segura para nosso conforto civilizatório que a atrofia da experiência está também fazendo seus estragos no campo da imaginação. E experiência tem sido um tabu para os escritores norte-americanos, essa classe de criadores que sofre de maneira mais primordial a transformação do mundo físico da experiência tradicional para o virtualismo sinestésico que simula a coisa autêntica. Tartt, por inúmeras vezes neste seu romance, se enquadra na crítica que Joseph Bródski fez a uma obra de Solzenítskin: assim como o autor russo de Pavilhão de Cancerosos, ela tangencia a sublimidade, bate nas portas de uma expressão que se adivinha grandiosa, para logo em seguida morrer na praia. Ela nunca acontece nas altas esferas artísticas as quais desde sua foto com ar vitoriano nas orelhas do livro ela promete ser capaz de acontecer. Ela sempre perde a linha de concentração e cede de maneira até ofensiva aos interesses batidos do mercado de imagens feitas, todas elas dedicadas à alta percentagem de atender ao gosto infanto-juvenil. Tudo é um tanto mais grave porque Tartt é, indiscutivelmente, uma escritora que tem mais qualidades e bem mais talento que o restante de seus pares; é capaz de descrições formidáveis, de construção de personagens precisamente verdadeiros (que são realçados pela generosa quantidade de movimento que a autora dá a eles: personagens que oferecem uma humana e ilimitável gradação de olhares enquanto conversam); e de páginas que aventuram reflexões filosóficas que seriam relevantes se na própria ação de escrevê-las não viesse a reação subjacente dela moderar o tom para não espantar o modelo de leitor jovial que ela enxerga do outro lado do livro.
Além da falta de consistência. As primeiras 200 páginas são muito boas. O leitor que traz na cabeça os apegos que o fez se interessar pelo livro_ de ser dickensiano e meio que na contramão do virtuosismo técnico modístico dos romances americanos atuais_, se alegra ao ver o apartamento um pé abaixo da linha da sarjeta onde o jovem herói do romance vai morar, com todas as suas sombras e seu conforto de antiquário cheio de móveis antigos e livros empilhados, com as janelinhas nubladas polvilhadas pela chuva constante. O leitor é levado à melhor parte de seu memorial de leituras introspectivas quando o jovem herói se encontra com a menina de olhar enigmático que ele viu por último no atentado terrorista que matou sua mãe, a menina meio que deformada pela explosão, com metade da cabeça restaurada por placas de metal, deitada em um quarto soturno do apartamento e ouvindo Arvo Part em doses regradas para combater sua enorme dor de cabeça. Há uma beleza tocante nisso, uma beleza clássica pelo alquebramento sereno; há um convite feliz para o diálogo e para o recolhimento valioso que a grande literatura oferece. Eu poderia seguir pelas 700 páginas se tudo acontecesse dentro dessa atmosfera do quarto. Não que as 700 páginas do livro funcionassem melhor naquela falácia costumeira de que se fossem menos as páginas... ; o livro tinha que ter mesmo suas 700 páginas, mas gastadas com outras coisas, gastadas com a capacidade abortada de Tartt de recolhimento. Talvez A história secreta tenha conquistado tantos adeptos por causa desse recolhimento, o que verei em uma das minhas próximas leituras. Mas aqui, Tartt atende com exageros ao gosto do infantilismo, com um arremedo pedante de tudo que ela imagina ser cool e euforicamente provocante, de tudo que ela imagina em sua ingenuidade de escritora adulta com amplo potencial ser o que agrada à juvenília.
O interessante é que, para o leitor atento, fica fácil notar que Tartt não domina nada o universo juvenil urbano moderno. Seu adolescente problemático narrador se droga demais, toma todos os tipos de narcóticos possíveis como se fossem balinhas M&M de chocolate, e ainda assim, no auge da paranoia, lê O idiota e escreve ensaios estudantis de dez páginas sobre Thoureau e literatura inglesa. Em seu i-pod (que, perdoem minha ignorância sobre o assunto, me parece uma peça anacrônica de se possuir como um utensílio trivial na época em que as cenas são narradas, 14 anos atrás), ele tem "tudo o que há de melhor em hip-hop", ao lado de Shostakovitch, Mahler e Bach. Tartt se divide entre o que gostaria de fazer com o livro, com o que deve fazer para o mercado editorial, e os personagens sofrem com esse bipolarismo de comportamentos e gostos. Tartt gostaria de situar todo seu livro em uma Nova York sombria e dickensiana, mas resolve atirar seu herói por 200 páginas na cidade mais no extremo disso (como se houvesse um certo masoquismo em sua escolha), Las Vegas. E mesmo nessa cidade intranscedente ela consegue jogar suas pitadas de fog londrino, pois o herói mora em um bairro de casas abandonadas aonde os carteiros não chegam, como uma versão esquisita do universo de Oliver Twist, e nunca menciona nem de longe o glamour neônico da cidade.
O pintassilgo é um zeitsgest do romance moderno americano. Enquanto a literatura europeia aproveita, em um de seus ramos, do revisionismo histórico, como Sebald e Nooteboom, a literatura norte-americana se perde em suas instâncias medianas em explorar uma espécie de instante perpétuo provocado por um novo extasiamento em relação à nova repaginação de poder financeiro da América, caindo no efeito colateral de transformar tudo em uma súmula de Hollywood e sitcom.
O interessante é que, para o leitor atento, fica fácil notar que Tartt não domina nada o universo juvenil urbano moderno. Seu adolescente problemático narrador se droga demais, toma todos os tipos de narcóticos possíveis como se fossem balinhas M&M de chocolate, e ainda assim, no auge da paranoia, lê O idiota e escreve ensaios estudantis de dez páginas sobre Thoureau e literatura inglesa. Em seu i-pod (que, perdoem minha ignorância sobre o assunto, me parece uma peça anacrônica de se possuir como um utensílio trivial na época em que as cenas são narradas, 14 anos atrás), ele tem "tudo o que há de melhor em hip-hop", ao lado de Shostakovitch, Mahler e Bach. Tartt se divide entre o que gostaria de fazer com o livro, com o que deve fazer para o mercado editorial, e os personagens sofrem com esse bipolarismo de comportamentos e gostos. Tartt gostaria de situar todo seu livro em uma Nova York sombria e dickensiana, mas resolve atirar seu herói por 200 páginas na cidade mais no extremo disso (como se houvesse um certo masoquismo em sua escolha), Las Vegas. E mesmo nessa cidade intranscedente ela consegue jogar suas pitadas de fog londrino, pois o herói mora em um bairro de casas abandonadas aonde os carteiros não chegam, como uma versão esquisita do universo de Oliver Twist, e nunca menciona nem de longe o glamour neônico da cidade.
O pintassilgo é um zeitsgest do romance moderno americano. Enquanto a literatura europeia aproveita, em um de seus ramos, do revisionismo histórico, como Sebald e Nooteboom, a literatura norte-americana se perde em suas instâncias medianas em explorar uma espécie de instante perpétuo provocado por um novo extasiamento em relação à nova repaginação de poder financeiro da América, caindo no efeito colateral de transformar tudo em uma súmula de Hollywood e sitcom.
Assinar:
Postagens (Atom)






