terça-feira, 22 de julho de 2014

O dia mundial da resignação



Vai parecer esperança, mas não passa da velha resignação. Hoje acordei com vontade de dar um basta em todas as reservas. Acordei de um sono completo, com quarto envolvido nesses escuros absolutos que me dão anseios de procurar algum indício de luz de que não esteja cego, com um lençol macio, com o travesseiro usual entre as pernas e o outro caído manhosamente de lado, sem uso. Foi um sono reparador, sem sonhos, e por isso não teria motivos que de súbito, agora pela manhã, diante o computador, eu fosse assolado por esse gigantesco tédio. Faulkner está errado, pensei, Faulkner é um fingido; como acreditar que o homem sobreviverá?, como acreditar que o homem é bom? Vai ver é porque meu trabalho de ficção não me esteja parecendo nada promissor; palavras de mais, adjetivos que não se desgrudam de mim, advérbios que escondem a obstrução de uma coisa genuína. Leio o que escrevo e parece que sofri uma involução, voltei a escrever com aquela paixão adolescente sem consequências do colegial, que só cativava por procuração professoras piedosas, que queriam elas mesmas brincar que acreditavam que algum de seus alunos levavam a promessa. Um analfabetismo no final das contas. Vontade de desistir; a felicidade está mesmo na música perecível; vontade de ser um cantor sertanejo, vontade de me assumir da forma mais franca possível que não tenho nada, ser canalha de cara limpa e acolher os dividendos da onomatopeia. Criar uma musiquinha para celular, se isso ainda é viável. Vontade de ganhar um prêmio acumulado na loteria federal, e gastar ostensivamente o resto de vida jogando para todos os desafetos a arte da corrupção na prática, e não tentar fazer isso através do placebo pobre da escrita. Ser um Edmund Dantés que inventa a sua própria vingança, vai criando-a no momento em que faz dobrar diante de si os joelhos dessa criaturinha levianamente vendível que é o homem, esse homem que o bêbado Faulkner, mal se aguentando em pé no palanque do Nobel, mentiu acreditar.

A minha vontade hoje é ser desbragadamente ingênuo, não me proteger contra nada. A eterna proteção exaure. Dá vontade de, de uma vez por todas, me resignar diante esse otário cibernético, máquina, presidiário ou quem quer que seja, que todos os dias, infalivelmente, deposita em minha caixa de e-mails inúmeras tentativas das mais idiotas extorsões. Aumentar meu pênis, receber uma bolada de um milhão de dólares, enviar auxílio para algum senhor de cômico nome mutante entre indiano e angolês, encontrar aquela garota ninfomaníaca que me descobriu e me envia notificações lúbricas de imediata intimidade, requerer meu prêmio (mais uma vez, que sujeito sortudo eu sou!) na loteria inglesa (!), comprar um imóvel promocional em Recife, ir a uma festa literária para a qual me convidaram com honras (até isso!). Vou abrir esses e-mails e vou seguir diligentemente cada passo exigido por eles; chega. Hoje é meu dia da resignação. Vou assistir a esses programas de adivinhas que passam de madrugada na tevê aberta, e ligar para o número embaixo, mesmo sabendo que o programa é gravado, para exigir meus 150 reais, e quando me atrasarem de propósito com musiquinhas de Kenny G., ou gritarem em meu ouvido que tem novos enigmas que podem aumentar o dinheiro, vou esperar com paciência, até que a tarifa do "serviço" telefônico ascenda aos 4 dígitos e eles me façam perder, "ahhhh, lamentamos que você não tenha visto quantos dentes tem o desenho do bode; da próxima você leva". O que pode acontecer comigo? Perdas econômicas? A vida não é isso, além de todo retumbar dos bumbos da filosofia de boteco? Que eles me roubem. Quem sabe a verdade esteja na profunda desproteção; quem sabe Faulkner tenha visto com sinceridade e seu texto adocicado do Nobel seja canalha por osmose da falta de consolo cotidiano. Se essa entidade se esforça tanto para me enganar, se esforça religiosamente para isso, se em sua distância ela só pense no serzinho passível de vilipendiação que eu sou, há nisso uma forma evoluída de amor. Dizer assim provoca até arrepios na nuca, mas, no fundo no fundo, qual o argumento contrário? Vou agora mesmo responder à Samantha, que tremula com os seios voluptuosos quase para fora do top de ginástica na tarja ao lado da caixa de e-mails. Oi, estou vendo que você mora em Goiânia, a mesma cidade que eu, e, quem sabe, poderíamos nos encontrar para um drinque. Mas não sei se vou conseguir me conter com você! Me digam, por que não acreditar nela? Mesmo que eu tenha a absoluta certeza de que é um computador que me joga essas frases pré-formuladas e que um nível de tesão tão engajado às oito da manhã de uma terça-feira é algo que nem os anjos de Jó seriam capazes, mas... considerem o altruísmo que fundamenta a coisa, a fé de quem planejou, as horas de trabalho que nada devem à concentração e o abandono de um cientista diante sua pesquisa, ou o compositor diante sua partitura. Oi Samantha, como vai? Não moro em Goiânia, mas posso chegar aí em uma hora e meia, é só me dizer que horas que é o encontro. Obrigado por ser tão atenciosa, mas acho que exagera em seus elogios; não sou essa tentação física que você acredita ver; tudo não passa da generosidade de seu olhar. Mas devo avisar que eu é que fico um tanto assanhadinho depois de alguns drinques, ainda mais diante uma loira monumental como você. Minha conta bancária? Lá vai... 

Me recordo de não sei qual estoico, se na literatura ou na vida real, certa vez disse que era um encanto que às vezes um beija-flor viesse lhe atazanar as orelhas ou ficasse com o bico próximo a seu ombro; "não é enternecedor que um animalzinho destes te elogie ao confundir você com uma flor?" Claro que não sofro de uma estrondosa carência desse porte, mas hoje estou disposto a considerar que a ternura sofre uma brutal evolução. Não é enternecedor que um programa estelionatário na corrida louca da vida moderna escolha aleatoriamente você como remetente de todas as horas de zelo de quem o criou? Quando eu for me encontrar com a Samantha na capital hoje, vou sentir mais uma vez isso, como sinto a cada vez que tenho que enfrentar uma cidade grande. A vontade de assassinato que existe por trás de cada buzinada. Uma vez fui de carona com um amigo; ele parou diante a garagem de um prédio o tempo suficiente para retirar as malas do bagageiro para que sua esposa descesse, e um senhor esperou dentro de um carro do outro lado da rua, com elegante parcimônia, para poder entrar na garagem, até que esse amigo entrou no carro e deu a partida; então, o senhor começou a xingá-lo, filho da puta, caipira, vai tomar no cu seu bastardo, seu corno. O senhor fez isso com um ódio tão puro que o que antes era sua completa inofensividade invisível da qual eu nem reparara, agora eu o via como um guerreiro tribal psicopata que iria de uma hora para outra retirar uma pistola do porta-luvas e nos transformar a todos em estatística. A fuga da estatística no mundo moderno é nossa atual forma de ternura, me diz a voz de meu bêbado interno especialista em filosofia de caneca. E como fazer isso senão através da única coisa que sobrou de um depauperado aprendizado de amor ao próximo? Através da catarse do trânsito, ou da carranca no elevador, ou da virada de rosto em negação no shopping, ou da desconfiança esquizofrênica nas filas do banco da qual temos que nos comunicar em silêncio eloquente o quanto somos unidos no respeito sagrado em não tentarmos furá-la. Um dia, quando minha esposa passava por uma convalescênça logo após uma cirurgia cardíaca, eu resolvi aliviar a tensão inútil da espera indo à livraria de um shopping próximo, e na fila do caixa, onde eu via que havia apenas eu, um sujeito cortou vindo de não sei de onde por mim me dizendo que não iria aceitar que eu passasse na sua frente, ah, isso não!, eu pensei que se eu fosse um cidadão daquele mundo, seria lógico meu agradecimento por ele me oferecer daquela forma um calor humano de consolo, por mais estranho que tenha sido tal contato. Se não nos matamos após a buzinada e o xingamento, é porque nosso amor era legítimo, pois fugimos à estatística. Não seria impossível que o senhor e meu amigo se sentassem no final do dia para uma cerveja, e começassem uma forte amizade. Um dos personagens de meu romance despirocado é um conceituado especialista em Marx que deixa, de hora para outra, sua cátedra em uma universidade alemã e parte para um povoado esquecido do Caribe, e que mais tarde se descobre que seu desaparecimento aponta para a coincidência do surgimento das mais populares canções valenatas do rádio. Há um longo discurso com sotaque carregado de como tudo o que ele ambicionara no campo da escrita erudita se cumprira na composição das músicas banais de refrão fácil e que só falam do único sentimento que ainda traz um pouco de perseverança: o amor. Ele era um importante mantenedor da perseverança biológica da espécie, ele se julgava orgulhosamente um promulgador do equilíbrio social. Mesmo que houvessem facadas de bêbados nos bares dos povoados, sob o som de suas músicas, mas isso era a natural exacerbação que vem com derivativos da homeostase. A estatística não conta, a estatística é a mentira séria de uma derrota que nunca virá, que só existe no papel. Blá-blá-blá.

Por isso hoje minha vontade de cair em todos os engôdos, sem me sentir humilhado. Acessar os links sobre as ditas "celebridades", e confiar que elas são mesmo divinatórias. Fazer um mapa cabalístico das trivialidades delas e ver nisso um plano profundo da providência.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O embaraço das crinas



Li o último texto de Vladimir Safatle no site da Carta Capital ontem, logo após ter feito meu vasculhamento habitual no Facebook para a cata sistemática de notícias trivialescas. No Facebook, vi um diálogo entre duas mulheres da minha cidade, uma delas anunciando a necessidade de contratar um empregado, a outra oferecendo o filho para a vaga oferecida. Tal diálogo era, como o costume, um prodígio do autismo do analfabetismo funcional que se vê em 99% das ocorrência nas redes sociais. Ainda assim, era espantosamente difícil de entender o que as duas mulheres escreviam. Chamei minha esposa para ler, eu já estando quase chorando de tanto rir, e ela também caiu na gargalhada, logo após passar a incompreensão natural diante o cubismo da coisa. As palavras usadas pelas ditas cujas chegavam a ser involuntariamente quase obras de arte de uma ainda não de toda explorada forma de expressão verbal. De certa maneira dava uma estranha inveja por elas serem tão articuladas e conseguirem se entender tão bem. Passou pela minha mente uma fagulhar dúvida se elas não estavam de brincadeira, mas é claro que elas jamais ouviram falar do Monty Python _ talvez uma inversão da cena do carcereiro corcunda e do carcereiro magricela em A vida de Brian, que, às portas fechadas, discutiam eruditamente filosofia e altos assuntos, mas em suas atividades de algozes eram exemplarmente bestiais e onomatopeicos. O Facebook já não me alegra mais. Antes era um vício; acessava-o de hora em hora, mas não tanto nas esferas mais elevadas de um Milton Ribeiro e de um Idelber Avelar (que para a cultura as redes sociais não me servem em nada: o que não substitui o livro só me cativa por sua inerente patetice). Mas depois vira como todo espetáculo circense demorado: os palhaços perdem a graça, os bancos de madeira passam a pressionar o glúteos, os leões já se revelam gatos apalermados pela magreza e maus tratos, os malabaristas deixam de fascinar pelo talento de enganar a gravidade e passam a intuir tratados sociológicos sobre o sub-emprego; até os cavalos brancos, sobre os quais quase é impossível se quebrar a beleza plena de seus eufemismos, revelam aqui e ali nas crinas a certeza de que foi usado um shampoo inapropriado, comprado a preços promocionais em queima de estoque de loja veterinária. No Facebook (que me faz pensar esse emprego recorrente de um F, assim maiúsculo, para uma empresa que, ao contrário das coca-cola e das volkswagen, ou das kolinos e das durex, enfrentam uma renitência em se tornar realmente um adjetivo popular: esse F em caixa alta me assinala como a premonição de uma meteórica derrocada nesses tempos em que marcas bilionárias se orkuteam_ vai esse epitáfio para você, orkut, ou Orkut, olvidado que nunca utilizei), também a exposição demorada me cansou. Atualmente pouco ligo o computador, para falar a verdade, e o Facebook (nunca Face, para mim) já esgotou todo fetiche que tinha para me oferecer. Algumas vezes a Dani ainda me mostra algumas pérolas amarelecidas pela previsão, como um veterinário formado na mesma faculdade federal que eu, e dono de um pet-shop local, que perpetrou um texto em resposta a uma acusação postada na rede social de uma cliente inconformada por um cheque depositado antes da data, que melhor seria para a gramática e para a manutenção da já tão combalida imagem intelectual dos veterinários que ele pagasse os juros do cheque especial da cliente em vez de se lançar naquela aventura linguística (só para dar um gostinho, ele se referia, enraivecido, várias vezes sobre sua loja como "IMPRESSA", assim mesmo em maiúsculas, querendo dizer... (pasmo!), empresa_ toma agora as consequências do descaso mercurial contra as aulas de filosofia e português do primeiro ano, hijo de puta! [nosso professor de filosofia era um espanhol de elegante e inabalável estoicismo diante a inconsideração]).

O diabo é que faleceu João Ubaldo Ribeiro hoje. Nunca li nenhuma das ficções de Ubaldo, mas li um volume de crônicas jornalísticas dele, acho que chamado Sempre aos domingos (não sei de onde tirei que se chamava Outubro ou nada, mas que pesquisei no Google e vi que tal título é da banda Bidê ou Balde_ misturei com Ubaldo?). Neste livro há uma crônica que fala de sua ansiedade quando lançou seu grande romance, Viva o povo brasileiro, e de como ele atormentava seus amigos todos os dias na esperança de que eles já tivessem concluído a leitura da obra. Um deles lhe respondeu: "Mas Ubaldo, o livro é um calhamaço de 700 páginas, vai levar um tempo". A crônica me fez rir muito e pensar que Ubaldo era um grande escritor, e que eu deveria ler seu grande livro. Mas nunca li. Talvez o estalo surja, não devido à morte, mas por esses interesses repentinos que já me veio em ocasiões inesperadas e que sempre me faz ler coisas não programadas, sequer suspeitadas. Procurei na Carta Capital, antes de escrever isso aqui, a mesma Carta da crítica de Safatle sobre o crime tradicional milimetricamente mantido contra a educação nacional, e até então não vi qualquer menção à morte do que pode se dizer seja nosso maior escritor da última metade do século passado_ talvez assim que eu concluir esse post e voltar lá, a machete já esteja em letras garrafais, como um conserto súbito pelo inexplicável esquecimento. Espantei-me por ver que a Veja digital dedica o mesmo cabeçalho que dedicou aos dias da Copa a Ubaldo; até me enterneci com isso. (Recordei do Jô Soares contando a uma emocionada filha da Elis Regina como, ao chegar nas lojas de discos de Nova York, que todas tem uma estante dedicada exclusivamente a Elis_ coisa que, ele afirma, nunca viu no Brasil_ ele arrumava os cds da antiga amiga, recolocava em ordem alfabética ou de lançamento, alisava as capas dos vinis.)

Será que para isso eu nunca obterei a cura: o espanto de que uma simples lesão de um jogador de futebol brasileiro mereça dias e dias de acompanhamento em destaque em todas as mídias, mas a morte de alguém como Ubaldo passe pelo esquecimento, mesmo que momentâneo? 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A pesquisa, de Juan José Saer



A literatura muitas vezes descamba para a filologia dialógica mais pura entre amigos. Quando isso acontece, quando eu seguro em mãos um livro cujo tema de eixo para os outros temas movimentados mais identificáveis é a amizade em seus profundos matizes, me alargo mais na poltrona e relaxo de prazer. Analisando a isca desses meus trinta anos como leitor acirrado, vejo que grande parte dos livros que procurei por instinto ou por filiação direta trata da amizade. Nada de Huckleberry Finn ou Kim. O que estou falando é dos longos diálogos e intensos silêncios que permeiam a reflexão individual movida pelo conforto do companheirismo que existe em Montanha Mágica e Dias de Finados. A natureza humana, enfim, é o que mais vale, sendo que sua latente extraterrenidade entra na intuição das ideias que não são passíveis de expressão verbal, daí que um amigo console o outro que está alquebrado na cama não com palavras, mas com uma dança no quarto de hospital; daí que no extraordinário romance A pesquisa, de Juan José Saer, dois amigos do círculo de intelectuais são vistos sob um céu de iminente tempestade, sentados cada qual em silêncio em suas poltronas, parecendo "ter resolvido [] mergulhar no rio daquilo que lhes é exterior e deixar-se fluir, tranquilos, na correnteza". A amizade em sua corporificação mais extrema, sem muito zelo e energia juvenil, mas como o sucedâneo plausível único para o desabrigo dos perigos do mundo. A amizade justo para os que precisam dela e pela experiência alcançada são os que estão à altura de seu merecimento: os velhos ou os que estão de alguma forma na transição transfiguradora de um grande cansaço.

Como tudo na existência parece estar do avesso, atendendo a um humor de uma potestade sarcástica, a amizade tem suas armas para inventar a sensação de ordem. Daí nas reuniões de amigos haver sempre uma charutaria de qualquer tipo, um refinado maquinário mental alimentado por vinhos, cigarros, cafés, filatelia, para promover na sala fechada a impressão de segurança que não existe fora da parede de fumaça e de paletós pendurados nos cabides. E no romance de Juan José Saer um desses sucedâneos causados pela antiga amizade é tanto a literatura quanto o crime. Os amigos ouvem uma história recente, contada por um deles, de 28 velhinhas assassinadas no prazo de nove meses em Paris, e essa narrativa é entrecortada pela pesquisa que fazem sobre um manuscrito de um romance de oitocentas páginas encontrado no espólio de um outro amigo. O leitor vai sendo aos poucos aceito por essa comitiva fechada, vai sentindo o odor do charuto Romeo & Julieta, vai olhando a paisagem da costa da Argentina quando eles viajam de barco durante a investigação do manuscrito. Tanto o romance herdado (que eles não sabem ao certo quem é o autor), quanto o assassino das velhinhas procuram a mesma coisa: um sentido que exorbite a pasmaceirice cotidiana, um gesto efêmero mas que resulte em alguma reação de truculência contra o relógio biológico sem alma em que todos estão inseridos em prontificado determinismo de nascimento e morte, sem que nada possa ser feito contra. O assassino que anda pelas ruas de um inverno excessivamente rigoroso parisiense, e o autor indeterminado que narra as diferentes visões da tomada de Tróia do manuscrito, estão cada qual burlando o caos cosmológico, imprimindo a suas maneiras uma sensibilidade elétrica contra o vazio sensitivo que atravessa toda matéria e todo espaço. Estão ambos brincando como duas crianças que desaprenderam o desespero e confeccionam em particular um mundo próprio em que exercem suas deidades com mais justiça que o deus inexistente. E por isso são tão meticulosos e paranoicos, são prontificados a morrerem pela causa criada_ e por isso o amigo finado que deixou o manuscrito, em seu caráter dissipativo, parece não ser o real escritor dessas páginas. Um escolhe o assassinato violento e covarde para elevar a sua matemática à solitária plenitude contestatória, o outro escolhe o retorno ao tempo, o recolhimento em uma lógica insular própria. Há longas e propositais descrições de minúcias da paisagem feitas por Saer, plantas tropicais mostradas em seus mais detalhistas pecíolos, cantos de pássaros em seus tons instrumentais mais particulares, como a dizer o quanto pode ser requintado o extravasamento exagerado de nossa prisão sinestésica.

O romance tem muito desse típico argentinismo cerebral que não pode ser mais criticado por ser uma assinatura geográfica. Bebe de Henry James, de Faulkner, e de uma solidão em que se treinou a fundo particulares néctares de percepção que tornam a voz de Saer tão diferenciada. Um livro soberbo.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Cachorro morto



Ontem eu estava em uma praça junto a dois amigos, conversando (nós que pertencemos a essa aberração genética de não nos interessarmos nem um pouco por futebol) quando despontou a vitória da seleção. De súbito, as ruas ficaram tomadas por filas de carros com as portas abertas para que o funk de seus sistemas de som ultra-reverberantes tomasse todo o espaço, com gente sentada nas janelas dos carros, ou nas carrocerias, gritando “Brasil”. Entre esses carros, passou um Vectra com todas as 10 pessoas nele de corpos quase que por inteiro para fora, inclusive um moça com uma menina de 3 anos perigosamente equilibrada em suas pernas. Passou um sem número de motos empinando e fazendo firulas imprudentes entre a comitiva de carros. Foi uma baderna e uma falta de educação e gentileza na desculpa da catarse ufanista por umas três horas, com lixo sendo atirado no chão e todo tipo de bestialidade. Esperei que tudo se acalmasse para poder voltar para casa, antes ligando para minha esposa recomendando a ela que não saíssem por razão alguma de casa. Falamos entre nós, os três amigos, sobre o exemplo de caráter dado pelos torcedores japoneses, que após o jogo de seu time nessa copa, limparam, todos eles juntos, o lixo do estádio, ensacaram e ficaram por horas do lado de fora atentos para verem para onde os sacos seriam enviados pelo serviço de coletas. Essa seleção e esse povo não me representam, assim como qualquer dos políticos de qualquer filiação partidária que estão no poder agora. Fiquei embasbacado tentando seguir a linha explicativa que me mostrasse por que esse povo todo se esguelhava e se comportava como bichos da pior espécie por causa de um time de futebol_ sem contar que até para desinteressados pela bola como eu era notório que o jogo em questão era como chutar cachorro morto, não merecia tanta comemoração. O que faz com que sejam tão apaixonados assim? Eu tentei usar de toda minha sinceridade para ver se eu seria possível de conter tanta paixão. Vejamos: patriotismo? Seria uma belíssima ideia; em junho do ano passado, com 130 mil manifestantes na Rio Branco, na hora da novela, eu senti um amor inenarrável pelo Brasil; senti uma vertigem gigantesca e gigantesca felicidade por ser brasileiro. Por aquele Brasil de junho de 2013, eu seria bastante ufanista. Na verdade eu tenho em mim uma compulsiva necessidade de ser bairrista, de ter motivos para hastear a bandeira no quintal de casa. Mas claro que o Brasil de junho/13 talvez não exista, nunca tenha existido, seja lá qual distorção lisérgica explique aquilo. E eu, assim como todos que passavam dependurados nos carros_ assim como aquela loira de shortinho minúsculo que dançava lubricamente na pick-up de um dos veículos da comitiva_ jamais teríamos a cara de pau de hastear uma bandeira do país em nossos quintais. Passado o frenesi da Copa, eu sei que ninguém dos 20 mil habitantes da minha cidade tem uma bandeira do Brasil. Sei que, passado a Copa e recolhido o lixo de seus souvenires, ninguém que frequenta esse blog tem uma bandeira do Brasil. Sei também que alguém hastear a bandeira em seu quintal seria visto com suspeição; possivelmente seria repudiado por loucura pelos vizinhos. E, contudo, estavam todos gritando ontem como se fossem patriotas puros, guerreiros defensores de uma nação com motivos de sobra para lhes insuflar um orgulho inexorável. Meu grau de cinismo, ou meu grau de bestialidade, não comporta esse tipo de torcida. E daí que a seleção ganhe contra um cachorro morto? Ou leve a Copa, como está previsto pela maçonaria das instituições dos poderosos da bola? Qual fundamento para sentir orgulho DISTO? Não tenho mesmo esse nível de auto-enganação.

Não tem nada



Não se pode condenar o tom apologético de Melville em Moby Dick. O evangelismo primitivo desse livro não é mero ornamento inevitável vindo das crenças pessoais do autor, mas sua própria base de sustentação. Dizer "evangelismo" em referência a uma obra composta na mais alta esfera esotérica é incorrer no risco de cair no esteriótipo de estupidez massificada que tal termo com toda razão possui nos dias de hoje. Moby Dick tem a mesma visceralidade sensual que os grandes pastores de almas tinham no tempo em que foi escrito; tem essa mesma ingenuidade poderosa que expressa uma lucidez ilimitada que Borges disse ser o mote dos fundadores de religiões, tais como Whitman e Emerson, Blake e Swedenborg se aproximam de serem fundadores de religiões. Há tanta exultação adâmica em Moby Dick que é impossível ao bom leitor que este ainda fique atolado com os pés na realidade cínica e ultra-material corrente; é impossível que ele não seja abduzido pelo supremo convencimento dos símbolos e da loucura do livro. D. H. Laurence, no ensaio que acompanha minha edição de MD, condena o Melville humano com seus pecadilhos de afetação e sua seriedade pedante que hora e outra submerge o artista pleno, e diz que quando essa parte humana desaparece e ressurge com toda força o artista magnífico ninguém é páreo para Melville. O artista magnífico já nos arrebata na primeira página, seguindo adiante nas tantas anedotas e retratos de homens que vivem em uma dimensão peripatética contrária a toda sociologia; o artista Melville se mostra de forma solitariamente precoce sua localização em um tempo muito à frente dos outros grandes escritores do período, em sua decisão chocante de tratar do tema fundamental utilizando um quase infantil enfoque em um monstro marinho. Pode-se mesmo ouvir as consciências críticas que menosprezaram por completo MD durante quase meio século se justificando pela desfaçatez de Melville em tentar arrombar o tema fundamental não pelas portas usuais e mais prementes, não pelas revoluções ou guerras, ou pelos vícios urbanos, ou pelos assassinatos, pelos adultérios e a decadência de grandes famílias, mas, inusitada e autisticamente, através da figura colossal da baleia branca e de seu universo náutico específico. Melville antecipa os célebres escritores autistas ao colocar na boca de seu narrador o desejo de que fosse aceito no navio baleeiro apenas para ficar em seu canto pensando em nada, divagando sobre os significados filosóficos da vida, imolado da escala produtiva e tolerado com saudável indiferença. Melville viu tão mais peculiarmente longe que seus compatriotas das terras espirituais da escrita que foi o fundador de uma forma de dissipação preguiçosa que teria sua importância política impactante na imagem da nulidade humana do século XX na opção pela não-coaptação. Em sua época, ficou para trás do caos urgente e das incendiárias insurgências na literatura das transformações políticas que se viam em Stendhal e Dostoiévski, apenas para sair de sua hibernação anos depois para ser um tipo de criador moderno que sobrepôs-se a todos os outros com seu ineditismo em criar a baleia e, de forma mais revolucionária, esse personagem de profundidade inaudita que é o escriturário Bartleby. D. H. Laurence está enganado, pois quem criou uma figura como Bartleby jamais poderia falar do púlpito a não ser no idioma elevado de Emerson e Whitman.

Por isso Moby Dick tem um evangelismo transbordante de felicidade, a felicidade do louco de deus que abandona as convenções de uma sociedade em franca atrofia para confrontar o terror divino. Surpreendi-me por nunca ter lido esse termo antes, terror divino, que contudo parece tão óbvio. A baleia é a forma como esse terror divino, que por centenas de páginas vinha sendo abordado pela tangência, se corporifica na nudez da linguagem, e, para exorcizar o perigo do cinismo, daí a preparação toda de Melville em utilizar de um tom talmúdico grandiloquente. Sua grandiloquência não tem cinismo, mas tampouco tem a moral da visão evangélica de Tolstói. Laurence aceita a generosidade de que Moby Dick atinja todos os símbolos profundos de representação; aceita que a baleia seja Jesus, sem contudo abalizar com uma mera observação os riscos simplistas de apanhar a coisa somente por aí. Pois a presciência do criador de Bartleby nos dá também na imagem da baleia os símbolos inevitáveis do frenesi dos que pertenciam à grande nação americana quando ela arrebanhava em êxtase as características mais melífluas do império futuro, oferecendo a inspiração de perceber a queda. A baleia, vinda da mesma mente capaz de escrever sobre Bartleby (esse superior personagem que paira diretamente sobre Kafka, Musil, Joyce, Faulkner e Walser), traz a insinuação aráutica do monstro que está no final da estrada de todos os sonhos, da deformidade imperceptível mas frutificante que serve de sustento para todas as telas da liberdade. Talvez por isso o monstro seja durante todo o romance uma prefiguração, uma música indistinta escutada sempre ao longe, nunca palpável, nunca manifesta em suas linhas reais terrenas, nunca abarcável. Por isso o tom místico e sonhador, que vem por detrás de todas as tendências doutrinárias da voz de pastor de Ishmael, seja o personagem verdadeiro de Moby Dick. Por isso a tolice da leitura lânguida dos que acham que os diversos capítulos preparatórios sejam chatos e vagantes, infelizes surdos à retumbante poesia de Melville, à sua canção angustiada de tanta necessidade pura de enlevação. O monstro de Melville é o terror divino em estado puro, devastador em sua infinita indiferença que perdura por sobre todas as pequenas intenções humanas, mesmo as transvestidas com os contornos trágicos seculares da vingança, e sendo essa indiferença a raiz do motivo de todo o romance ser contaminado com essa alegria de um suicídio sagrado, de uma emancipação através de uma forma do Nada jamais passível de definição.

O monstro de Melville é tanto Cristo, quanto a América, quanto a Revolução, quanto a alma humana em seu esplendor de busca altruística mais nobre. É espantoso que não haja nenhum texto de Borges sobre esse romance, Borges que era tão sensível a esse tipo de percepção alienígena senciente. Moby Dick ainda é e continuará sendo por muito tempo o grande romance subestimado, aceito no cânone por sua estatura inequívoca mas nunca realmente percebido sem que seja dependente de seus penduricalhos geográficos de ser o grande romance americano. Como se esse que é o maior dos romances esotéricos pudesse ser mutilado com interpretações ufanistas.

Ele deve ser lido em escala contrapontística causal aos outros dois grandes monstros que derivaram do Cristo-baleia e da América edênica-baleia de Melville: o Old-Ben, o urso exilado e cansado de glória assassina de Faulkner, e Calígula, a águia caçadora de iguanas de Augie March, de Bellow. Old-Ben, o único ser verdadeiramente incorruptível fora do reino dos homens escassamente povoado de homens incorruptíveis, já escoou há tempos seu terror divinatório, sua fúria deística ilimitada, sua indiferença selvagemente elegante por tudo que não fosse força e assassinato; tornou-se, hereticamente, um animal velho carregado de medo, cujas últimas ações é a dança desesperada para incutir terror aos filhos e netos de seus antigos inimigos abatidos por ele quando ele era jovem e cheio de uma saúde monástica, a dança para ser deixado em paz. Old-Ben, contudo, ainda é temido por seu passado de glória, por sua exuberância violenta, mesmo todos sabendo que não passa de um pobre ancião querendo arrego; e por isso, seus caçadores incansáveis, herdeiros dos antigos caçadores fracassados cuja moral fora abatida pelo urso, arranjam todos os estratagemas possíveis para destruir o que resta do antigo Monstro, de seu potencial religioso residual. E os novos inimigos de Old-Ben apresentam todos os evidentes sinais de que os novos tempos em que o monstro purga o final inglório de seus dias é destituído por completo de qualquer distinção da antiga nobreza: o cão gigante é uma simples fera bestial, sem inteligência, sem dignidade, sem porte, tanto que sobrevive entre a corrente de seu ódio irracional trancado em uma cela escura, sem vistas para o exterior. Todo o mundo externo a Old-Ben sucumbe à evanescência absoluta de sacralidade: acaba-se o terror divino e acaba-se também, com um suspiro elliotiano, tudo o que antes revestia a simplicidade objetiva de milagre e religiosidade. A última vingança, então, ainda é de Old-Ben, a derradeira vitória ainda parte dele, pois de sua juventude vinha o caráter dinástico das grandes famílias americanas que então levavam o selo de poderem andar pelos campos do Senhor como beneficiários legítimos da criação, americanos genuínos com céu e terra ilimitados, sem apreensões de posse e sem serem vítimas da inclemência das labutas para a povoação do Éden lhes outorgado. A novela de Faulkner é impregnada de notas de compra de armazéns e títulos imobiliários que serviram a povoar a aldeia americana, numa arqueologia que só é pueril na ardilosidade genial de Faulkner que consegue fazer dessa páginas um epitáfio da força redencionista abortada pelo sucumbimento do homem à tentação de nomear as coisas, de dar seu nome à terra, de promover cercas e decretar-se proprietário. Old-Ben é o empobrecimento da baleia quando os heróis possíveis para um novo mundo se restringem a não irem para o mar, quando os heróis se instalam na terra segura e deixam para lá os grandes poderes da dissipação e do ócio. Old-Ben é o Cristo institucionalizado e sublevado de sua aspereza de absoluta liberdade, corrompido pelas igrejas formalizadas pela sustentação do lucro, da política cartorial que cria castas de escravos a serviço da propriedade, e da economia eunucoide que transforma filósofos caçadores em obesos fuxiqueiros sentados nas escadas dos armazéns ao final da tarde. Old-Ben é a nova américa sem nada de novo, em letras minúsculas, o cumprimento do previsível.

Bellow fecha a tríade. Se Old-Ben ainda era capaz de oferecer certa distinção com sua decadência, certa lembrança dos antigos sonhos de dignidade, a águia bellowiana esvazia Moby Dick com a mera transformação na paródia. Não há mais Cristo aqui. Nem monstro a águia consegue ser, empoleirada na caixa de descarga de um pequeno banheiro de uma vila perdida mexicana. Quando ela é levada a testar seu terror divino, a magnificência e larga nobreza de suas asas, na caça da iguana, ela simplesmente despenca no chão sobre o rastro do réptil em fuga vitoriosa, tal qual um comediante em um filme pastelão. E fica piedosamente murcha em seu canto, ciente de que não tem nada.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Enquanto Seu Lobo não vem: monólogos furados sobre Kubrick e as capas da Hipgnosis



Sou apaixonado pelo Kubrick. Sem o mínimo exagero, digo que 2001 é o melhor filme que assisti e transformou minha vida de forma profunda. A primeira vez que o vi foi na sessão dupla (de dois dias), em que passou pela rede Globo, quando eu tinha lá os meus 10 anos. Fiquei maravilhado com o filme, sem entende-lo nada, atravessando a madrugada. Passei anos da minha juventude lembrando cada cena dessa única audiência com absoluta precisão. Precisava entendê-lo urgentemente. Não é um filme para qualquer um, apesar do que, como as grandes obras primas, o próprio espanto da não-compreensão já é um levante para o sublime. Assisti-o várias e várias vezes, e a cada vez percebo algo novo, uma revelação magnífica nova_ não é, definitivamente, uma simples revelação estética, mas espiritual, filosófica, daí que nego o rótulo simplista de dizer de 2001 que seja “ficção científica”.
Por exemplo, após várias interpretações, da última vez que o re-assisti_ semana passada_, descobri algo que não tinha atentado antes: a luz do quarto do último-homem da escala evolutiva vem de baixo, não mais de cima. Que símbolo! Que eloquência de pensamento! Para o homem imunizado de todos os conflitos, a tal ponto que a simples queda de uma taça o faz ficar segundos a olhando, não há razão nenhuma para que exista a simples reverência ou consolo de uma luz vinda do alto. Essa luz do chão representa tanto o sucesso de uma evolução de bilhões de anos no aperfeiçoamento da técnica, quanto o fracasso inexorável do empreendimento da espécie. Nada por temer, nada para rezar, nem futebol nem deus, uma raça de seres assexuados naufragados no gigantismo asséptico de sua própria suficiência. Uma luz que vem de baixo, daria um bom título de romance.
Minha filha ontem mesmo pediu: “vamos assistir 2001?”. Sério mesmo, sem esnobismo. Ela só tem três anos, e adora a cena dos macacos. A filha do Milton assiste Laranja Mecânica junto ao pai, também.
Comprei a caixa de blue-rays do Kubrick numa promoção pela LC, e já assisti-os todos. Barry Lyndon, com sua frase final de que “a semelhança entre eles é nós, é que todos estaremos mortos um dia”, ou algo assim. Um bom filme, acima dos padrões. Assim como O iluminado, um filme de fotografia magnífica, mas com muitos defeitos que impossibilitam que ele seja mais que mediano_ seu final é preguiçoso, e a loucura de Jack Torrance é explorada de maneira apressada.
Os dois grandes filmes de K. são 2001 e Laranja Mecânica. Digo, GRANDES MESMO, grandes a um nível tarkovskiano.
Laranja Mecânica, que o reassisti há dois meses. Um adolescente atacado por todos os lados, maciçamente, por uma mídia espúria em último grau. Sexo ruim, música ruim, bebidas ruins, nível de proficiência na língua ruim. Não; aquelas cenas aberrantes de cor eram ruins mesmo na época em que o filme foi feito. Não se trata de defasagem temporal. O pênis de porcelana recurvo e grande, que Alex usa para matar a esposa do escritor, é uma abominação estética mesmo no final dos 60 e começo dos 1970. Os quadros da casa da massagista que Alex invade com seus asseclas, com ar de moderníssimos pendurados nas paredes, não passam de gosto medíocre de uma sociedade boçal sem profundidade, sem ideias, vivendo de aparências recíprocas. Quadros com mulheres e homens trepando.
O idioma que Alex fala é uma espécie de novilingua, recheada e sustentada por gírias vagabundas e vazias, sem revoltas e sem personalidade. Não é de se espantar que a violência seja a coisa mais natural do mundo. Traz uma semelhança com a luz do chão de 2001, em uma proporção mais rasteira: em vez da evolução da técnica, a sociedade alternativa de Alex se estancou na visão proletária clássica marxiana: uma sociedade de seres servilizados pela propaganda e a indústria de consumo. Uma sociedade ridícula, palhaçal, que atingiu um nível tão alto de caricatura que o tédio sem escape reverte para o massacre. O vestidinho curto, na altura da virilha, da velha mãe de Alex causa uma gargalhada imediata, sem auto-reconhecimento da plateia, sem a catarse da descoberta da própria vergonha da cretinice em que o espectador está inserido. Não sobra mais nada para uma sociedade alienada senão a implosão, como se a natureza humana tivesse um botão de auto-destruição diante tanto desvirtuamento da busca de suas qualidades intrínsecas.
E o ponto genial que Kubrick acha para finalizar essa sua monumental crítica é a Nona de Ludwick, que Alex tanto ama. A mais elevada obra do espírito só é consumida por Alex na tela de sua imaginação em que a Ode à Alegria serve como trilha de cenas celestiais de estupros e assassinatos. E aqui há a velha astúcia das incríveis coincidências: o filme é muito semelhante com o que Anthony Burguess escreveu: um Burguess que em sua auto-biografia revela a doença de espermorréia que tinha, e do estupro e espancamento que levaram ele e sua esposa à beira da morte, perpetrados por um grupo de adolescentes nazistas. O sexo e a violência já eram temas que extrapolavam o mero abuso de suas configurações coloridas que a mídia sempre fez, para um escritor que não parava de expelir esperma 24 horas por dia e que viu a esposa sendo violentada várias vezes por brutamontes de espinhas.
E a crítica de K. vai mais além: contra os auto-proclamados salvadores dos oprimidos da sociedade: ele bebe de Marx, e ataca os mercadores do templo de Marx. O escritor que denuncia Alex e o prende em sua casa, após o experimento que “cura” Alex, só o faz para que chegue à mídia (a grande e deística Mídia, como o Tubo em Vineland, de Pynchon), a comprovação do fracasso do partido governista quanto à tal cura. O intelectual não é movido por vingança nem altruísmos, mas simplesmente pela guerra partidária.
Agora me digam: Laranja Mecânica foi lançado em 1971, ou fala sobre o Brasil de hoje?

                          ___________________________________________________________


Alguém deveria fazer um estudo sobre o por que simplesmente não existem capas bonitas na MPB. Não há uma só capa da discografia de Chico que seja sequer razoável; são todas horríveis. O mais próximo que consigo pensar aqui de capas apresentáveis são umas duas só de álbuns do Milton Nascimento, e olha lá. As do Caetano são torpes, as do Raul contribuíram muito para restringi-lo um tempo na seara do brega; as dos Mutantes são os plágios costumeiros do Sgt. peppers, e até na fase pós-Rita Lee, em que eles deveriam ao menos beber da linha sofisticada de capas do rock progressivo e do estúdio Hipgnosis, as capas parecem propagandas de xampu da década de 70. Não é um assunto pequeno esse. As capas do Sinatra e de outros artistas populares norte-americanos são muito bonitas, mesmo que a maioria se limite a estampa do cantor, mas são fotos soberbas. Assim também com as fabulosas capas do jazz americano: um simples rosto focado de Miles Davis ou Donald Byrd são obras-primas. Agora, esses rostos do Chico apresentam sempre uma pessoa meio retraída, meio bairrista, visivelmente desconfortável. Talvez seja uma intuição precoce ele ter colocado suas fotos do registro policial de sua época de playboy delinquente na capa de um álbum como auto-crítica a essa limitação_ ou subestimação do público_ da estética fonográfica nacional. Essa vilania puramente mercadológica, sem preocupação de gosto, das capas da MPB refletem bem naquele disco “ao vivo” do Chico e do Caetano em que a mesma onda de palmas da platéia é acionada mecanicamente durante todas as músicas, num brutal artificialismo.