quinta-feira, 28 de junho de 2012

Três Sombras, de Cyril Pedrosa



Há muito me distanciei do universo das histórias em quadrinhos. Acho-o importante; uma das portas para o interesse da leitura. Semana passada, por influência das teorias de Walter Benjamin sobre a apreciação intelectual da criança (ele incentiva os livros em preto e branco, que estimulam a imaginação, assim como a participação da criança na arte adulta, condenando a estupidificação em limitá-la aos palhacinhos coloridos e as muitas vezes cansativas canções infantis), li Três Sombras, de Cyril Pedrosa. Constatei duas verdades: uma vez leitor de quadrinhos, a recuperação do deslumbramento juvenil diante um gibi é instantâneo; e que os quadrinhos é um gênero literário infantil por fundamento e natureza, sendo que grande parte da sofisticação advinda dos títulos dos últimos vinte anos vem justamente da competência dos seus criadores em conseguir driblar essa característica. Um exemplo notável dessa segunda observação está em Maus, de Art Spiegelman, e Watchmen, de Alan Moore: por mais que seus temas sejam adultos e contundentes, é indissociável a emanação de fábula do primeiro, e as malhas colantes dos heróis do segundo o firmam no sério dogma de que, por mais que a filosofia seja boa, a raiz sempre será as usinas de entretenimento adolescente da Marvel e da DC Comics.

Três Sombras engana os desavisados sobre o quão apurado o estágio dos quadrinhos está na atualidade. Trata-se da história de um pai que é obrigado a fugir com seu filho, desde quando o menino se vê ameaçado por três sombras que, apesar de nunca se deixarem ver senão à distância, e não externalizarem nenhuma palavra, deixam claro que o idílio da infância havia se encerrado. A narrativa parte de um vilarejo bucólico, transita por aldeias medievais com as típicas casas de altos telhados recurvos, faz sua lição de apresentar navios naufragantes com seus capitães estoicos, e retorna ao ponto de origem não sem antes vislumbrar o inefável. E o leitor desgarrado do que subjaz de originalidade sob essas fórmulas normativas acaba por se ver perdido diante o deslumbramento que uma tal aparente simplicidade tem a oferecer. Eu tive que retornar a leitura três vezes, depois que fechado o volume, para ver se havia entendido mesmo a história. O final deixa o aperto no coração e a impressão de insuficiência  que temos diante um bom filme e um bom romance. Mais não seria inteligente dizer para a segurança do deleite dos prováveis futuros leitores.

sábado, 16 de junho de 2012

Bloomsday 2012




16 de junho. Hoje é um dia especial para todos os agraciados pela leitura de Ulisses, de James Joyce. Para todos que sabem que a felicidade é continuamente encontrada nas grandes leituras. Para todos que amam os livros; que nunca foram contemplados pela exaustão ou a insuficiência diante as palavras. Trata-se do Bloomsday, o dia em que transcorreu toda a ação de Ulisses, em 16 de junho de 1904 (na verdade o final do romance pega as primeiras horas da madrugada do dia 17 de junho, fato que pouquíssimamente é comentado; mas tudo bem, abre precedente para aumentar-se o prazo da comemoração). Eu já encontrei a felicidade na leitura de muitos livros: Anna Kariênina, Os Demônios, Herzog, O Teatro de Sabbath, Longe e Há Muito Tempo, Absalão, Absalão, Luz em Agosto, A Montanha Mágica... e a felicidade que me esperava em Ulisses, em quatro dias febris de 2006, me mostrou de uma vez por todas que o maior poder da literatura é isentarnos da consciência do passar dos anos, dando-nos uma imperativa certeza da continuação da juventude. Que a leitura nos mantem jovens eu já o sabia nem que fosse pela constatação não-oficial de que doenças degenerativas pouco acontecem com leitores, ou que leitores não se suicidam com frequência, afora, nesses dois casos, as exceções da regra das últimas informações sobre Garcia Marquez, o Alzheimer da narradora de Reparação, e todos os adeptos da solução do eternamente jovem Werther ao longo dos últimos três séculos. Os velhos notórios dos quadros da UTI dos hospitais costumam serem retirados dos sofás em frente à televisão, ou de frente a janelas que dão para as sempreternas tramas de vizinhos em trânsito. E os suicidas são ocupados demais com seus desesperos financeiros para dignarem-se ao tamborete tombado sob a corda por motivos de desalento da alma.

Tenho as três traduções de Ulisses para o português do Brasil, e o livro original. Pela década de 90, tentei de todas as formas ler a do Houaiss, mas nunca consegui. Fiz fila ao grande número dos que acham Ulisses a mais empolada e leviana enganação da indústria cultural livresca, o que por si já daria um enredo poderoso para uma sátira conspiratória de empresários desvirtuados das indústrias do amianto e da exploração do diamante africano para dedicarem suas vidas a pregar uma peça em um por cento da humanidade que ainda lê. Só fui conseguir ler a tradução da professora Bernardina, no auge da aclamação do lançamento da Alfaguara. Ulisses só pode ser lido com uma atenção despreocupada. Não é um livro sagrado. É um livro divertido, fascinante, elétrico, maravilhoso. Se há uma conspiração para estragar sua leitura, ela é feita, talvez involuntariamente, pelas pessoas que o amam, quando ressaltam que sua dificuldade é hermetismo, ou que a grande força retórica de Joyce se centra em tolos jogos e fusão de palavras. Ulisses é tão difícil de se ler quanto qualquer livro de Dostoiévski ou Tolstói, nada além disso. Não é um livro destinado para 99,9% da humanidade. Como toda produção do alto intelecto, é uma obra elitista. Barram-se em suas portas os que não exercem a capacidade de atenção, os que limitam o alcance da visão para os informativos da sessão de preços e cotações de mercadoria, os intrinsecamente preguiçosos, os que bocejam em uma sinfonia de Beethoven, os doutores pragmáticos em armadilhas televisivas de danças sensuais da moda, os que se transportaram em definitivo para o universo digital. Por isso é uma data a ser celebrada, o dia de hoje. O dia da conflagração maçônica dos que tem um tesouro íntimo inigualável guardado a sete chaves. Como disse certo crítico, os livros não nos tornam melhores, mas mais ricos. Celebremos nossa fortuna.

(Seguem nos dois posts abaixo, um pequeno texto sobre Ulisses, e uma resenha sobre um bom romance sobre o Bloomsday, retirados da memoriabilia do blog.)

Pequeno Comentário Sobre Ulisses, de James Joyce




Esse é um dos livros em que o enredo é o de menos. Importa a incrível vivacidade e energia verbal de Joyce. É o anti-limite de sua superioridade como escritor acima de todos os outros_ de Mann, de Faulkner, Proust, Kafka_ que iria subir à estratosfera e se perder com o livro seguinte, o ilegível Finnegans Wake. Trata-se de uma brincadeira bem urdida, uma ciranda calculada na espontaneidade de um severo trabalho de anos, não uma tentativa, mas uma culminação do resumo do ser humano e de sua história, e um enorme deboche à febril ciência da psicanálise (se tudo que passa pela cabeça de um homem comum é simploriamente banal, é ridículo sistematizar seu comportamento contraditório numa cabala do subconsciente). Ama-se Bloom e sua esposa, ama-se Dedalus e o excessivamente extrovertido Buck Mulligan, com todos os seus pecados, suas desimportâncias, suas carências.


É o romance da falta de sutilezas, da falta de coqueteria, o romance essencialmente não-burguês (não ANTI-burguês, pois revela o enorme descaso do autor para contrapor uma reação à uma sociedade medíocre), não-científico, e, por mais que possa ser surpreendente, não-literário. Dedica-se todo à celebração da literatura, mas é anti-empolação e anti-oitocentismo. Tanto que depois de Ulisses, aboliu-se a possibilidade de escrever como Victor Hugo, Sully Prudhomme, Romain Rolland, e outros. Ulisses aboliu a literatura em diversos países, obrigando os novos escritores à adaptação. É a suprema manifestação do humor, do humanismo, da redenção velada. Uma mistura de Nona Sinfonia com a fuga da Sinfonia Júpiter, com cabrioladas de um jazz que abriu as portas para as correntes de ritmos de Coltrane e dos minimalistas. O maior mérito de Joyce foi ter controlado sua extraterrestridade para dar à obra um caráter perfeitamente legível, pois seria natural que depois de ter rompido todos os limites, seu último passo seria Finnegans Wake, assim como o passo seguinte_ o estilo tardio_ de Beethoven fosse os ùltimos quartetos e a Missa Solemnis.


Aldous Huxley lamentou que Joyce tivesse optado pela abdução. Poderia ter escrito importantes livros da estatura dos de Stendhal. Mas é compreensível. Deportou-se do mundo dos viventes. Não lhe diria nada a estranheza e prazer de incompreensão libidinosa que o mundo adotaria ao analisar as cartas singelas que escrevia para Nora Barnacle, seu amor de toda a vida. Onde revelava a leveza de seu espírito, a ralé via apenas a sujeira sexual de um intelectual reprimido. Por isso é desconcertante que achemos de uma beleza sem igual as passagens de Bloom se masturbando, de Molly cedendo-se mais uma vez com seus repetitivos sim, sim,sim, da última página, de Mulligan se atirando seminu ao mar, ao lado dos pescadores. Uma impossível beleza nesses gestos prosaicos, e uma lucidez que desmascara toda a hipocrisia, toda pompa. Uma declaração de amor à humanidade, antes de mais nada, mas uma humanidade ainda de um distante porvir, livre das tralhas da ciência e das hierarquias, e centrada no cultivo das idiossincrasias soltas e intimistas de si mesma.


Por isso que é tão espantoso a Buck Mulligan quando Stephen Dedalus revela que, no leito de morte de sua  mãe, se recusou a se ajoelhar; mas não pelo constrangimento à mãe, mas pelo constrangimento contra si mesmo. A liberdade do homem que tomou suas próprias rédeas e manda as convenções e a opinião alheia às favas…



Dublinesca





Um dos álibis que se pode alegar contra os sinais anunciados da tão aclamada morte do romance é que mesmo seu definhamento consegue servir de tema para toda a obra de um dos mais relevantes romancistas da atualidade. Praticamente todos os livros do espanhol Enrique Vila-Matas tratam da morte do romance, utilizando-se para evidenciá-la de uma série de personagens cuja reação ao avanço de uma era de iletralidade é a da abstinência criativa ou a recusa pura e simples de escrever. Vila-Matas tece um jogo curioso de referências diretas aos mais importantes escritores da literatura, de forma a fazer produzir no leitor a “doença da literatura” que incapacita espiritualmente seus heróis, mas tem o cuidado mercadológico de não incorrer em modelos muito herméticos, abrindo as janelas de suas narrativas para que o ar de dias ensolarados tenha livre acesso. Vila-Matas, pois, se presta ao que grandes escritores que se recusaram a ser objeto de fetiche de uma minoria de apreciadores especialistas fizeram para alcançar o grande público: administraram suas caixinhas de truques e surpresas de forma a serem bastante permeáveis às vendas exponenciais, e com isso, mais uma vez, reforça a duração do romance. Recheia seus enredos de sombras, chuvas, sonhos, personagens misteriosos, equivalências que supõem a mágica, viagens para aprazíveis cidades históricas européias, micro-ensaios bem estruturados sobre livros, fofocas atuais ou muito antigas sobre escritores; além de servir-se da internet para propagar os personagens cuja face impressa jura que existem mas que as consultas pelo Google revelam inventados. A astúcia desse procedimento é que o leitor, na consulta, cai na rede de fãs que o autor arrebanha pelo mundo, à semelhança dos que se descabelam na escavação de códigos nas páginas de Thomas Pynchon.

Mas engana-se quem achar que Vila-Matas é apenas um leitor cuja leitura de todos os livros não deixou outra opção que fazer-se ele mesmo um funcionário de sua memorialística literária. Como na comprovação da excelência das costureiras, pode-se perceber o grande calo profissional que Vila-Matas tem na mão em seu recente romance, Dublinesca. Trata-se das aventuras de Samuel Riba, um editor aposentado que vive para ruminar os dias gloriosos do romance, dos quais participou ativamente, mesmo sem nunca ter encontrado o jovem gênio das letras que sempre procurara, e que, como ato ritual ao que ele vê como “o fim da Galáxia de Gutenberg” e a consagração decisiva da era digital, encena com um grupo de amigos o enterro do romance indo para Dublin no Bloomsday. Desde a primeira página vemos que só sobra a Riba o encerramento tortuoso no qual sucumbem os pacientes terminais; a cada passagem de seus dias na Espanha, à espera que chegue a data prevista para a viagem, intrudam-se elementos de pesadelos tomados da literatura que não lhe possibilita saber onde prossegue a realidade e onde se irrompe o sonho. Mesmo as visitas habituais a seus velhos pais, todas as quartas-feiras, que no mais não passam de tediosas obrigações cumpridas à risca, são contaminadas pelo onírico que escapa dessas frestas do cotidiano.

Mesmo Riba sendo o que ele vê como uma versão mais velha e culta de um hikikomori, nome que se dá aos jovens japoneses que já se alienaram do mundo trancando-se nos quartos das casas dos pais e não saindo de frente do computador, pois ele mesmo sucumbe às horas pesadas de exposição ao Google, não lhe escapa a verdade de que a cada dia vai se tornando mais e mais obsoleto. Sua esposa se converte ao budismo, e, numa determinada cena em que Riba a observa dormindo, está mais jovem e possuída de uma beleza plena. Sua viagem a Dublin, a qual era a última chance de integrá-lo a algum significado de pertença_ mesmo que fosse de pertencer a um grupo que se enterrava sob um réquiem de resignação à modernidade_ se mostra, apesar da beleza da paisagem em que Riba se identifica como pertencendo ao mar da Irlanda, um completo fracasso na comunicação com os amigos.

A bela editoração da CosacNaify complementa a alusão de que Vila-Matas trata de temas profundos com uma leveza que não se corrompe por nenhuma das duas opções (deixar de ser leveza aniquilando-se na imanência das matérias tratadas, ou tornando-se superficialidade pura): a ilustração da capa, as letras grandes, a feição corporal de objeto perfeitamente comestível e um quê do requinte de ornamento de mesa de catálogos fotográficos. Mas Vila-Matas prescinde desses artifícios, ainda que eles complementem a sua arte. O livro vale por suas reflexões requintadas sobre a modernidade, sua ironia fina sobre a geração de cultores virtuais em que a maioria da humanidade está se tornando, sua prosa que não é permissiva e não faz concessões, seus resvalos gratificantes numa premonição de níveis mais profundos do discurso. Mesmo as partes que cairiam na ineficiência e no desgaste, Vila-Matas as convertem em agilidade perfeitamente convincente.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Saruê


Neste feriado recebemos aqui em casa minha mãe, minha irmã e uma tia. Vieram na quinta, de ônibus, e foram embora na tarde de domingo (elas tem muito medo de dirigir em rodovias). O clima da casa ficou totalmente feminino, com sacolas de presentes, risos parenteando fofocas, receitas de tortas holandesas sendo postas na prática na cozinha, coxas de frango assando dentro de pacotes plásticos de tempero pré-fabricado, conversas prolongadas noite adentro, com todas deitadas na cama de casal (todas mais o Eric, que diplomaticamente tinha que deixar o pai sozinho na biblioteca dos fundos e interagir com a algaravia da parte da família que vem de dois em dois meses). Eu fico muito deslocado nestas visitas, e a grande bênção é que todas não dão a mínima para mim, o que me permite uma adstringente invisibilidade. A Júlia se esquece tanto do pai nestes momentos que por vezes tropeça nos meus pés e se levanta rapidamente, tomando o rumo da balbúrdia com algum pano de mesa ou camisa suja que retirou de algum lugar e revestiu com eles a cabeça. Nesses paradoxos do caos, nesse feriado eu tive muito tempo livre para ficar comigo mesmo e botar as leituras em dia. E tive tempo de sobra para compensar certo distanciamento que vinha tendo com o Miles, e que me deixava preocupado por notar nele um recuo meio depressivo devido à minha omissão involuntária. Fiz bastante carinho nele, saímos para passear de carro e à pé, e retornamos as brincadeiras de rasgar sacolinhas e atirar objetos para ele ir buscar. Levei uma bronca tremenda da Dani por ter deixado o Miles rasgar uma revista velha que ela ainda não tinha lido, e por lançar uma bandeja de plástico que achei ter sido escorada na pia para ser jogada fora, e que o Miles destruiu em prodigiosos vinte segundos de alegria furiosa.

Na sexta-feira comprei um Gato Negro e fui bebê-lo à noite numa pracinha desolada em frente a um templo desativado da Universal. Sentei-me no banco com a garrafa aberta e com um copo plástico, e bebericava o vinho enquanto via, enlevado, o vento frio revoar as árvores e as pequenas peças de lixo da calçada. Estava absolutamente sozinho e afastado dos sons de festa de quatro quadras mais para baixo, na praça central. Estava decidido a abrir aos poucos a minha sensibilidade alterante à bebida, coisa que imaginava ter voltado à estaca zero devido aos tantos meses de abstinência_ as últimas garrafas esvaziadas me pegavam no final mais sóbrio do que  antes, atestando que ou eu avançava para novos estágios de subjeção alcoólica ou continuava a beber apenas pelo sabor das uvas fermentadas_, pois queria apreender sem pressa o que aquela noite e aquele deserto tinham para me dizer. Os altos vidros do templo permaneciam soberbamente imóveis ao vento, conservando um sobrancelhamento indiferente ao musgo que crescia a olhos vistos nas bases das paredes e das teias cinzas proliferadas abaixo da cornija da frente.

O fato desses vidros estarem intactos numa praça conhecida como Praça da Maconha deveria ter motivado o pastor desistente a reavaliar com mais fé a persistência em angariar um rebanho financeiramente viável. O próprio banco no qual eu estava sentado atestava que a turba invisível que agia de madrugada não costumava ter tanto respeito por objetos não vigiados: faltava-lhe duas traves de madeira abaixo de mim, de modo que eu estava suavemente com os glúteos afundados para baixo. No meio desse devaneamento vejo um vulto caminhando de frente ao templo. Arregaço os olhos e percebo ser um homem que poderia ter qualquer idade acima dos 60 anos. Andava furtivamente e com a clara consciência de que havia alguém ali que logo iria vê-lo, e quando entrou sem direito a dúvidas dentro do ângulo da minha visão, adotou uma atitude misto de criança e um bicho silvestre qualquer interessado em aproximação. Usava uma camisa de mangas compridas que ia até os pulsos, e uma calça de flanela desgastada, mais umas botinas bege que lhe davam ainda mais uma áurea de animal híbrido, fruto de algum cruzamento improvável que determinava que aquela hora era a única ideal para que desse as caras no mundo. Quando completou seus passos estudados em linha reta, fez uma curva rápida para a rua e veio cordatamente se sentar no banco ao lado do meu. Tudo sem me olhar; revirava a cabeça observando como se pela primeira vez as árvores da praça e eu notava o brilho prontificado na periferia da pupila onde eu estava instalado. Tinha um rosto desmaiadamente servil, que me atiçou fundamente a curiosidade. Eu não estava querendo companhia, mas algo no rosto dele, que não consegui firmar quando dava seus passos inseguros e bambeantes, me instigava. Parecia para dentro, em um primeiro momento, com alguma deformidade inapreensível. Na faculdade havia visto cães com os rostos mutilados a tal ponto que os zigomáticos e as cavidades nasais ficavam expostas, e o velho gnomo me passava essa suspeita. Mas ao mesmo tempo eu sabia que sua inofensividade era tanta que não comportava nenhum grau de tragédia mais acima de uma solidão destinada aos bobos. Lembrei de um marsupial típico do cerrado, um ratinho descabelado e maltrapilho que poderia viver cem anos devido a sua total fealdade estragar-lhe para sempre como presa, e me veio a certeza de que um saruê havia se metamorfoseado em humano  aquela noite onde o frio de desolação escondia enfim uma melifluosidade que me escapava. Vai ver o pastor fez mesmo bem em sumir dali, pois no momento nenhuma inspiração erraticamente eclesiástica me despertara para o fato de que talvez se cumpria alguma maldição divina por eu estar quebrando a promessa feita com meu rosto nas mãos piedosas de minha esposa que não voltaria a beber.

Mas tive a oportunidade de olhar o rosto do velho e constatar que o estranhismo era que seus ângulos magros me faziam associar a algo da prontificada lealdade do meu cão. Percebi que ele era bem mais velho, 70 anos, talvez 90 anos bem vividos de total humildade saruênica. Fui tomado de um mau-humor irrequieto, pensando que ele deveria fazer o favor de não perturbar senhores incautos que se aventuram em praças da maconha, nas quais nem a interseção de duvidosas forças de deus havia surtido efeito, para ficar só, inteiramente só. Eu sentia o vinho enlanguescer os caminhos arteriais até o cérebro, e me ative ao meu direito de incomunicabilidade. Cinco mulheres e um guri barulhento não haviam conseguido me tirar de meu silêncio em minha própria casa, não seria um protótipo caboclo de Sméagol que faria isso. Em outros momentos adoraria falar com ele, mas não aquele hora. O velho, que também me fizera crer que se falasse notaria sua voz um tanto anasalada (um fanho e um gago numa noite solitária), contrariando as minhas expectativas, não me dirigiu uma palavra sequer. Ficou em absoluto silêncio, de braços cruzados olhando à frente a rede oceânica de sombras e ventos.

Voltei dali uma hora para casa. Quando me levantei e entrei no carro, olhei pelo rabo de olho que ele me ignorava combativamente, mas conservava uma cauda de sorriso no canto da boca para quaisquer recaída diplomática de minha parte. Na manhã de sábado minha esposa me acorda no colchão de solteiro na biblioteca e diz que o pai dela estava na esquina mais longe aqui de casa, esperando que eu levasse as crianças para ele as ver. Mas que diabo, resmunguei, por que o Seu Gercino não vem aqui e entra para ver as crianças? A Dani responde que é que seu pai estava com o Seu Juvenil, e esse se negava a entrar em casa desde que viu o movimento e constatou que haviam visitas. Meu sogro, o seu Gercino, foi diagnosticado há mais de dois anos (seis meses antes do nascimento da Júlia), com um câncer terminal, que se criara em um dos rins e se proliferara para fígado, estômago e intestinos. Os médicos lhe haviam sido francos e dito que a quimioterapia só iria apressar o processo, que ele voltasse para casa, comesse e fizesse de tudo, para aproveitar os poucos meses que lhe restava. Ele ficara em profunda depressão nas primeiras semanas, chorando pelos cantos. Aceitou participar das sessões de acompanhamento psicológico do hospital, no qual conheceu o Seu Juvenil, um mulato de mesma idade que ele, que havia tido seis tumores no maxilar, devido ao tabagismo de toda a vida, e cuja excisão cirúrgica lhe levara o queixo. Tornaram-se amigos inseparáveis, ocupados em longas viagens para pescarias. Seu Juvenil era um homem curiosamente assimétrico, que afrontava a perspectiva mesmo para os mais preparados de ante-mão para a confrontação com o seu problema. A falta do queixo tornara difícil entender suas vocalizações, que eram muito abafadas e despendiam o odor de nicotina de décadas que transvertia os ares do ambiente. Meses depois da remoção dos tumores, uma nova massa compacta brotou na pequena parte que lhe restava do queixo, onde antes ficavam os dentes sisos, e crescera tanto que dera uma aparência tão mais distorcida a seu rosto que era como se tivesse saído de uma tela cubista. Isso lhe servia ao propósito de não mais parar de fumar, já que a coisa não tinha mais jeito.

Ele e meu sogro haviam alcançado um altaneiro e despreocupado grau de adaptação à doença. Meu sogro sorria, estoico, ao me relatar em sua última visita como se pode conviver bem com a doença. Ele não tomava mais água ou líquido algum há quase três anos, para não sobrecarregar seus rins deteriorados. O seu Juvenil só se alimentava de leite e bolachas dissolvidas no leite, como ensinou a Dani a fazer em sua última visita_ sendo traduzido por uma das irmãs da Dani que tem o dom quase esotérico de entendê-lo cristalinamente. Eu liguei para seu Gercino e disse que era um descabimento eles se recusarem a entrar na minha casa só porque minha mãe estava aqui. Mas meu sogro transmitia a decisão peremptória do amigo de que não iria entrar. Levei as crianças para que o avô as visse, e lá pelos tantos minutos de conversa os convenci, finalmente, a entrarem em casa. Seu Juvenil cumprimentou da varanda às pessoas de dentro, e só se levantou de seu canto em que olhava pacífica e sobriamente o tempo_ sem a mínima importância para o que transcorria em torno_ para se aproximar de mim e balbuciar uma pergunta que me lançou no mais profundo constrangimento. Eu não conseguia entender o que ele estava dizendo, além de uma única e improvável frase. Ele a repetia para mim e eu só balançava a cabeça, até que seu Gercino surgiu à porta para me salvar. "Ele pergunta se aqui tem algum banheiro externo que ele possa usar". Seu Gercino respondeu que não e o acompanhou até um dos banheiros de dentro da casa. Eu estava suado de esforço em entender o que ele dizia. A mim a frase enevoada de cigarro mausoléico e de ausência tecidual teimava em ser: "O senhor tem veneno?"

terça-feira, 12 de junho de 2012

De Novo


 Não quero aprender a viver, quero descobrir a vida de uma vez e para sempre. (Juan Carlos Onetti)