quarta-feira, 25 de abril de 2012

Experiências de Leitura (III)


Adorno foi severo em excesso com Walter Benjamin. Não consigo desapegar-me da imagem que as fotos de Benjamin oferecem de um cordeiro andando pelas ruas de Berlin, atravessando a Europa em fuga, subindo por descampados em madrugadas atrás da fronteira espanhola, sempre levando a tiracolo uma maleta com os últimos apaixonados originais de um ensaio e os tantos recortes para a grande compilação do pensamento humano, antes que a ceifa inevitável viesse calmamente sangrar-lhe o pescoço. As fotos de Benjamin mostram um homem limítrofe entre a intensa vida cerebral e a nostalgia de ternos recantos infantis desaparecidos. Sua obsessão por brinquedos antigos e pela pedagogia revela a intersecção entre o pensador e a criança, e em toda a sua escrita a observação dos silenciosos e inapreensíveis interstícios da realidade cotidiana denota as tardes e o quarto solitário em que o menino descobria o mundo dos dois lados do olhar. Essa vulnerabilidade vestigial quanto ao mundo dos adultos se revela na forma melancólica em que Benjamin depositara fé em uma carreira universitária ao apresentar a sua tese sobre as origens do drama barroco alemão para Adorno, e a sombra teatral que sempre lhe cobrou a máscara da comédia e da tragédia na própria pele determinou que a dessarroada negativa de Adorno lhe fizesse um pária peripatético que em vida nunca fora aceito pela academia.

Essa recusa de Adorno a apadrinhar uma carreira universitária para Benjamin me parece ser uma das maiores injustiças feitas entre dois intelectuais de peso. Não sei o que passava pela cabeça de Adorno, se ele via em seu pretenso pupilo um pensador grande demais que precisava ser podado das arestas através de uma benemérita crítica sistematicamente imposta, o que tornaria Adorno, em tal hipótese, um ser levianamente crente na longevidade de alguém como Benjamin num século como o século XX. Benjamin precisava ser protegido e Adorno se negou a tal, eis a questão. A vida e a obra de Benjamin se impregnaram, em consequência, de uma séria de suposições e realidades alternativas. Em torno do autor das Teses sobre a História se arvoraram os tão lúdicos e abortadamente impossíveis "e se...". E se Benjamin tivesse sido acolhido pela Escola de Frankfurt, o quanto a sobrevivência e a seguridade lhe teria feito produzir ainda mais sobre o quanto ele já escreveu aventurosamente no exílio. Como seria um texto de Benjamin sobre a obra de seu espécie de gêmeo do conto, Bruno Schulz, se Benjamin vivesse o suficiente para conhecer-lhe a obra.

A verdade é que a obra grandiosa de Benjamin e alguns estudos fundamentais sobre ele é que prevaleceram sobre o paralelismo. Não há como negar que uma das qualidades das coisas que Benjamin produziu deriva inevitavelmente da ciência por parte de quem lê da incompletude e precocidade do autor. A inerência erraticamente romântica e incorrigível de vê-lo como uma espécie de São João na ilha de Patmos diante o anjo da História confere a Benjamin um caráter de profeta às vezes tornado ingênuo pela própria fulgurante lucidez. Assim como Christopher McCandless, no filme Na Natureza Selvagem, que se refugia da sociedade de consumo num ônibus abandonado no Canadá, morre de inanição e frio a alguns metros de uma estrada federal que poderia tê-lo reconectado com o mundo e o salvo, Benjamin, na versão aceita de seu suicídio diante o desespero de não conseguir sua entrada pela fronteira franco-espanhola, um dia depois, se tivesse esperado, estaria com o passaporte em mãos assim como os demais fugitivos que lhe acompanhavam, e protegido de vez das garras da Gestapo. Hannah Arendt, em seu ensaio sobre Benjamin, não consegue poupar-se da ironia diante a essa proximidade centímetra entre a desgraça e o conforto que rondava o personagem de seu estudo.

Benjamin escreveu várias páginas do que há de melhor no pensamento do século passado. Seu estudo sobre Kafka consegue ser tão sublime quanto a obra de Kafka. Sua sensibilidade de leitor era algo tão acima da mais apurada genuinidade que criou um grupo recorrente de saudosistas do como Benjamin teria lido tal autor; ele transformou, enriquecendo, a forma de ler Proust, Baudelaire, Kafka, Brecht, os surrealistas. Uma experiência comparativa válida que revela o coração insurgente de Benjamin no que escreve é a leitura do ensaio de Coetzee sobre ele. Coetzee se demonstra um ensaísta acima da média, mas sua secura e sua senilidade acadêmica o nivelam pela medida da mera elegância conceitual de vaidoso laureado. Coetzee analisa milimetricamente a vida e a obra, sobretudo a inacabada Passagens, de Benjamin, de uma maneira clinicamente asséptica. O que Coetzee oferece ao leitor é um Benjamin morto e enrijecido de frio cadavérico por sobre uma mesa institucional, alguém que esteve em volta com a procura obsessiva de excertos do pensamento para compor seu enorme compêndio mas que nunca evoluiu além da patologia previsível aos observadores que sabem posteriormente de que seu fim foi inexorável. Coetzee tem uma técnica de depuração que tresanda inteligência fina que só pode ser neologizada como uma técnica morgueriana, de quem exuma matéria orgânica cujo fato de um dia ter sido ocupada pelo sinergismo da vida é apenas um apêndice antropológico. Bastante diferente das leituras de Benjamin. Pegue o texto de  Benjamin sobre Proust, por exemplo, exuberante de alegria criativa, sua profunda leitura de Kafka, que transforma para sempre a maneira de ler Kafka. Há uma foto conhecida de Benjamin debruçado sobre livros em uma mesa de biblioteca, tirada de maneira insuspeitável enquanto ele estava envolvido na leitura: assim ele escreve, sendo um comparsa do autor, usando sua genialidade para fazer uma generosa companhia com a genialidade do retratado. Eu poderia copiar aqui uma série de sentenças sublinhadas de Benjamin, para mostrar sua poesia, sua sensibilidade demolidora, seu esclarecimento luminoso. Adorno, que também me é essencial pelo seu Dialética do Esclarecimento e Minima Moralia, talvez estivesse enrijecido demais pela calcificação acadêmica para salvaguardar um nível de independência subversiva tão incivilizável como o de Benjamin. Talvez ele tivesse cogitado sobre as vantagens da marginalidade para Benjamin, sem sopesar sua profunda vulnerabilidade.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Experiências de Leitura (II)


Tomando um retumbante clichê clássico para o início deste post, por muito tempo desprezei Umberto Eco e tratei-o como um best-seller voltado para um público pretensamente sofisticado. Talvez essa antipatia tenha sido reforçada ainda mais por Eco ter virado febre entre os acadêmicos de humanas da minha época de universitário, e eu via com estranheza que eles muitas vezes colocavam o italiano no patamar de Kafka e Thomas Mann. Tentei mesmo ler O Nome da Rosa lá pelos idos dos 90, mas meu preconceito não conseguia vencer aquelas páginas e páginas de erudição sherlockiana cujo mote era atender a uma graça anacrônica proposital, no melhor estilo pop dos anos 80. Pois bem! No natal ganhei de presente de minha irmã, que sabe do meu gosto para livros mas não diferencia Nicholas Sparks de Elias Canetti, a nova sensação econiana O Cemitério de Praga. Claro que agradeci com veemência e até expressei uma alegria sincera pelo engano não ter sido tão grave, e a capa chamativa fez-me render à ficção de Eco. É um livro divertidíssimo e acho que o li na época certa, com as luzes e a leveza mercadológica onipresente das comemorações de fim de ano. Nas pesquisas pelos blogs literários confirmei que se tratava da mais simples criação do autor, o que reafirmava que minha proximidade dos 40 anos (idade que os gregos diziam ser o ápice das potencialidades físicas e mentais, o que me deixa sempre na expectativa de que enquanto carrego a caixa d´ água escada acima para o telhado da casa me venha a fulminação de um enredo genial para um romance) me deixou mais aberto e feliz à apreensão do mundo sob uma ótica límpida (feche o Corão, olhe livremente céu e a terra). Eco me pareceu nesta primeira leitura um mestre do thriller, com a modéstia de salientar que seu modelo, apesar da erudição incontestável da escrita, era Dumas pai.

Fui atrás imediatamente de O Nome da Rosa, contrariando minha rejeição a tomar livros emprestado, conseguindo-o de um amigo. Na metade do romance já me coçava a compulsão patológica de que eu tenho que ter esse livro. Mas me segurei e ainda não comprei um dos tantos exemplares a dez reais disponíveis pela Estante Virtual. Em vez disso, adquiri o Pêndulo de Foucault pelo mesmo preço e a descompostura da alegria que Eco causa me fez encavalar a leitura de um na rabeira do outro, como antigamente meus anos de fumante me obrigava a fazer com as gimbas acesas na ponta inflexionada de um novo cigarro. O Nome da Rosa tem 600 páginas mas parece não ter mais que 200, tamanha a agilidade da prosa. O mesmo acontece com o Pêndulo de Foucault, o melhor Eco que li até então. E é aqui o ponto a que quero chegar e o grande aprendizado que Eco tem a oferecer.

Em um ensaio introdutório de Marcelo Backes, ele ressalta o quanto Kafka é um exímio estilista da língua alemã mesmo usando apenas umas 300 palavras do idioma. Não há palavras difíceis em Kafka. Sua simplicidade é um dos méritos de sua genialidade. É uma afirmação que se fica pensando durante muito tempo, ao menos eu ainda a tenho como um fato misto de espantoso e lógico. Para o maior analista da burocracia terrena, espiritual, cartorial..., o maior conhecedor da opressão paternalista dos sistemas de controle humano, é natural que Kafka fosse o menos proparoxítona dos escritores (o que talvez seja uma contradição inerente à gramática alemã, mas tem todo sentido nas traduções para as línguas latinas, o que me faz agradecer a tese de Bernhard em Extinção de que muitas traduções são melhores que os textos originais). É de uma astúcia exemplar que o homem que espera por toda a vida ser recebido diante a Lei e que tem a sumária resposta de que a porta que lhe separa do juiz supremo foi feita só para ele e só para ele permanecerá fechada por toda a eternidade, nos leve a esse cúmulo do pesadelo com palavras fáceis e coloquias. Pois uma das minhas sismas enquanto escritor (qualé, não publiquei ainda mas sou escritor, porra!) sempre foi a que nunca devem ser usadas palavras difíceis. Hemingway diz isso, agravando a coisa ao ajuntar que também não se deve usar as palavras fundamentais (o que me fez lembrar aquele piada do homem que se vira para o motorista e diz "eu te amo", em resposta à placa colada acima da janela do ônibus que manda só falar ao motorista o necessário); Churchill disse que sempre se deve substituir as proparoxítonas pelas alternativas mais simples; Tolstói sentenciou algo parecido (quem nomeia uma das maiores criações humanas como Guerra e Paz não poderia afirmar outra coisa).

Então...Eco é uma afronta completa a essa norma primordial. Mann já contradizia esse preceito, mas Mann é Mann (sem trocadilhos) e ele pode fazer isso sem nenhuma contestação de nossa parte. As primeiras seis páginas de O Pêndulo de Foucault, por exemplo, são arduamente legíveis. Eco não só usa as palavras mais herméticas possíveis como segue por uma descrição exaustiva e minuciosa do pêndulo referido no título. O prodígio é como ele consegue vender seus livros igual a água, tanto que o pêndulo está esgotado, mesmo sua edição econômica, lançada dez anos depois do ano de publicação, não se acha mais. Em O Nome da Rosa, Eco nos dá cenas formidáveis da prosa mais paroxítona em que narra desde as técnicas de reprodução de livros na idade média, a perseguição de um assassino pelos salões oclusos da biblioteca do mosteiro, até uma saborosa compilação de anedotas de santos no diálogo impagável entre William de Baskerville e Jorge de Borgois lá para o final do romance. Eco desfaz de forma saudável toda repressão em torno do uso pleno da palavra. Sua erudição se torna, assim, seu maior trunfo. Ela que arma o cenário, tornando-se um elemento imagético dele na forma em que torna o leitor íntimo da palavra, no interior confortável da concha do idioma. Eco constrói o ambiente do mosteiro usando a palavra como pixels; cada detalhe físico e emocional é absolutamente visível dentro da pessoalidade construtiva de cada leitor. Essa maravilhosa competência de Eco, esse amor pela palavra e pelo conhecimento_ essa alegria imensa de escrever, como bem diagnosticou o Aguinaldo Médici_ me fez rever minha negação sobre a aceitação futura de Eco entre gente como Kafka e Joyce.

Novamente, minhas leituras espontâneas dessas férias me fez ter mais uma face do aprendizado de que a escrita jamais acabará. Entenda-se isso como a sobrevivência do romance e demais freguesias do discurso. O deleite de ler a narrativa literal ao extremo de Eco, sua imaginação, me trouxe a motivação rejuvenescida de que escrever é a mais essencial e livre, a mais solitária e fundamental das artes.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Experiências de Leitura (I)



Mais uma semana de férias pela frente. Três meses de licença prêmio, coladas a um mês de férias, em que viajamos por uma semana a Minas Gerais (decidimos ir a lugares mais distantes nas férias do ano que vem), e que me afundei em gratificantes variações de leitura. A vida de família é exigente demais para que eu ainda tenha a liberdade de antigamente de varar dias e noites na leitura, intercalada com períodos breves para lanches e cochilos, como certa vez ao ler Ulisses em quatro dias, e Os Demônios num recesso de carnaval. Quem é pai sabe da trinca no coração, quando nos fechamos no escritório nos fundos da casa e mãozinhas batem contra a porta chamando "papai, papai", e não há como não deixar o capítulo mais envolvente do romance que se está lendo, ou a parte mais instigante do ensaio de lado, e atender a esses apelos tão ternos e delicados. Mas mesmo assim, a contabilização de livros lidos neste período mostrou-se carregada de sinais significativos, que ao mesmo tempo desenham um diagnóstico sobre os caminhos da ficção e uma linha intuitiva dos meus interesses mais inconscientes sobre a escrita. 

Por exemplo: pouco há de comum entre livros como Como Mudar o Mundo, de Eric Hobsbawn, e Obras Reunidas, de Walter Benjamin, além dos interesses humanistas dos dois autores em pragmatizar através da análise da História as hipóteses de um mundo melhor; mas eu os li, quase lado a lado neste período, na febre eclética de saber um pouco mais o que se passa na cabeça de homens que ganham a etimologia desse termo por razões mais espiritualmente genuínas que os atributos da fita métrica cada vez mais medíocre e equivocada que vemos em publicações como nas revistas da editora Abril, que só neste meu intervalo de descanso lançou uma revista Super Interessante cuja capa brinca com a produção seriada futura de bebês "perfeitos", colocando a foto de um menininho de olhos azuis e cabelos louros; ou numa revista sobre História (que segue a rotina cimentada desse ramo nacional de se dirigir sempre a um eterno adolescente pré-vestibulando que pode se julgar um gênio emancipado por ser o seu alvo diretriz privilegiado) que revela enormes benefícios científicos promovidos pela ciência nazista, como informações pontuais sobre o tempo limite de pressurização que uma pessoa aguentaria num submarino (graças ao desabnegado sacrifício imposto a um prisioneiro de campo nazista que aguentou 15 segundos antes de morrer, aparecendo as fotos do antes e depois com o distanciamento asséptico de estar-se vendo um porquinho-da-índio num laboratório), e com a figura da capa sendo uma estigmatizada suástica com desenhos suficientemente amenizados do bigode de Hitler, máscaras de gás e tanques de guerra, que poderia ser usada como papel de parede num quartinho de bebê (o bebê ariano perfeito da outra revista); ou a última capa da Veja, que aponta festivamente a descoberta de que pessoas altas vivem mais e são mais bem sucedidas que pessoas baixas (!!!!!). [Há de se fazer aqui o uso cacofônico de uma chave, coisa que acho jamais ter feito neste blog e que não recomendo a ninguém que queira escrever um texto minimamente desobstruído de interrupções gratuitas de fôlego faça, mas essa matéria da Veja merece um adendo rápido: de onde, por Tutátis, eles tiraram isso?? Homens altos são, sob todos os aspectos de sucesso possíveis (até o da longevidade), melhores que os homens baixos??? É realmente eloquente a fé da Veja sobre o quão devem ser homenzinhos e mulherezinhas beirando o nanismo cerebral os leitores que lhe restam para se distraír com fabulações sem pé nem cabeça como essa e não se atentarem na verdade criminosa que subjaz nos porões desta revista. Qual a altura de Carlinhos Cachoeira? Basta umas simples concatenações de informações nestas cabeçinhas dispersas para destituir a tentativa de tal reportagem: para os que se ocupam com a literatura, há mil escritores baixos para cada um alto; há mil Faulkners para cada um Bertrand Russel, mil Naipaul para cada Hemingway; mas para a maioria de adeptos sequazes da felicidade terrena do capital que a assinam, Zuckerger tem 1,70 (não necessariamente alto); e, nesta pesquisa  de um programa do SBT em que se questiona qual o maior brasileiro de todos os tempos, a resposta certa seria Joelisson Fernandes da Silva, do alto de seus 2,3 metros.]

Mas voltemos ao assunto (?) do post. Nestes meses descobri que um simples conto de Juan Carlos Onetti, como, por exemplo, O Obstáculo, vale mais que toda a centena de contos que Roberto Bolaño escreveu. E essa é uma descoberta que fundamenta a certeza de que a literatura exige uma seriedade cíclica de seus renovadores para que a insurgência de coisas realmente brilhantes não fique apenas na intenção. Faz-se necessário que o escritor volte escalas mais pregressas de influência para ter a lucidez de que, muitas das vezes, a Substância criativa está, realmente, há uma ou duas gerações de distância. Li o maravilhoso livro de contos completos de Onetti publicado na série listrada da Companhia das Letras, umas três semanas após ter lido o apenas competente Chamadas Telefonicas, de Bolaño. Onetti despertou em mim a lembrança da época em que a escrita era aterrorizante e infinitamente compensatória de quando eu penava por procurar a musicalidade mais íntima e precisa para as minhas redações do colegial. Naquela época eu tinha a absoluta convicção de que seria escritor, e nem me passava a mais remota preocupação se seria lido ou não. Meus autores sacramentados eram gente que tinham a marca natural rara de serem escritores natos, homens a quem nenhuma outra atribuição profissional se acondicionava a suas independências de predestinados que não fosse a da escrita, e que eram portadores de uma felicidade imensa sobre todos os outros da espécia: o talento da escrita. Faulkner era meu modelo imprescindível. E agora, ao conhecer esses contos de Onetti, me veio de volta essa zona de conforto inadmoestável imune das insuficiências do dia e das exigências das contas de aluguel ou mesmo do leite das crianças. No prefácio deste volume de contos, Antonio Muñoz Molina traça um belo retrato de Onetti. Não há como não excitar o adolescente em mim que um dia escolheu a literatura como cátedra. Onetti, diz Molina, ao vê-lo em uma entrevista a uma televisão espanhola, era absolutamente descansado em relação à sua imagem de escritor. Não professava o iconicismo típico dos escritores em se acharem a azeitona da empada ou a cereja do bolo. Não acatava a escrita como um martírio fordiano das dez mil palavras datilografadas por dia, e da compulsão da ditadura das musas por sempre estar debruçado por sobre a máquina no quartinho escuro. Calmamente, ele tratava a literatura como um exercício livre, que podia acontecer agora e o ocupar durante dois dias inteiros, ou deixá-lo sem escrever por semanas e meses. Ele, que fora de tudo na vida, via a literatura não como distintivo de nobreza espiritual, mas como necessidade acalentada e desobstruída de vaidades em vencer a opacidade da existência através de investidas sincronizadas contra o mesmismo. E, desta forma, quem pode negar que contos como O Inferno Tão Temido e Um Sonho Realizado, dois entre os maiores já escritos por estas terras ou quaisquer outras no século passado, não tornam Onetti investido da nobreza e elitismo tipicamente inerentes aos grandes escritores? Bolaño vive referindo-se à depressão e à escrita compulsiva, nitidamente querendo convencer a musa através de uma pedantismo sutilmente rasteiro, mas o que me veio de forma mais poderosa da releitura hoje do conto de Onetti, O Obstáculo, é que Onetti tem esse eco fisiológico, esse emplasto físico de grudar no ouvido e na alma e nos obrigar a matutar sobre a enorme demonstração de experiência multitudinária ali impressa, durante muito tempo. A mesma característica vencedora do tempo que um conto de Tchécov tem se passando cento e cinquenta anos e nos afixando nas linhas vestigiais da idade de nossas almas como uma lembrança eterna. A alta literatura tem essa característica: a de nos convencer que nasceu  bem antes no tempo e cuja função é sempre a de nos lembrar de coisas que transcendem a nossa existência. Nos fazer atingir o que nossos pés no chão juravam ser inatingível. Por isso, não há nos contos de Bolaño, uma única frase que faça acender a indistinta lembrança, a inenarrável saudade; nos contos de Onetti isso nos é oferecido perigosamente em excesso. Meu livro está de alto a baixo todo sublinhado. Esses quatro meses, entre tantas experiências de leitura, me mostrou de forma incontestável que Onetti é o maior escritor latino-americano.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Lendo Singer



Há alguns anos que não procurava mais achar nos sebos esse que é um dos meus fetiches de leitor, o romance Sombras sobre o Rio Hudson, de Isaac Bashevis Singer. Digitei o título na Estante Virtual, por  acaso, e eis que encontro não um exemplar desse livro já fora de catálogo, mas um dezena, e a maioria a preços módicos. Comprei-o por 20 reais, o que é um espanto para quem sabe da qualidade e da raridade da obra, mas não tão surpreendente para quem já conhece as incríveis facilitações da EV. Como não estava nos meus projetos ler Singer por agora, assim que o volume chegou, guardei-o num lugar da estante que prefigura um esquecimento em alerta de pelo menos um ano. Por esta semana chega Contra o Dia, de modo que estou reservando as energias todas para as suas 1.088 páginas, e a imersão total no universo pynchoniano. Mas eis que folheio o Singer e, como é de se esperar, já estou na página 148 de suas 562.

De Singer li dois de seus grandes romances e uma quantidade de seus contos formidáveis. Não há contista superior a Singer no século XX. Mesmo Borges, Carver, Cortázar, por mais que sejam excelentes, não despertam em mim a confortável sensação advinda de um conto de Singer de que se usufruirá de uma alegria completa, que abarca a estética e o prazer de um narrativa pura. Não se vê nos contos de Singer as armadilhas do intelecto que nos contos de Borges aparecem como exagerada estrutura básica. O leitor lê a um conto de Singer sem a mínima necessidade de estar em guarda e armado contra suas vaidades eruditas. Penso que Singer conseguiu essa voz única, esse tom intimista que remete às fábulas e às milenares narrativas orais de aldeia, por sempre ter escrito em iídiche, o que lhe dava a certeza de que seu leitor seria alguém de sua família, de sua restrita casta espiritual. Nunca se sentiu despertado pela fama de que seu leitor pudesse estar em um centro urbano, lendo suas palavras em um metrô enquanto vai para o escritório. Singer sempre escreveu para o garoto da aldeia judaica confinada numa geografia e tempo estacionários, e por isso seus contos são tão atmosféricos e alienígenas. E por isso é tão gratificante ler Singer. Ele traz a impressão de que existe um significado subjacente pairando sobre o caos da modernidade, e que o segredo é tão simples quanto é abrangentemente complexo.

Contudo, Sombras sobre o Rio Hudson traz um Singer diferente. A começar pelo cenário: uma Nova York dos anos 1950. Talvez esse seja o único detalhe destoante, mas isso já configura uma série de elementos novos na narrativa singeriana. Não mais a aldeia polonesa, mas a grande capital dos negócios. Não mais o judeu feudal e prestes a se desenraizar, mas o capitalista sobrevivente do massacre que se imerge cada vez mais nos pecados do Império. E Singer, um escritor a que se possa sem nenhum remorso dar o atributo de genial, é inteligente demais para não fazer as pontes sutis e dolorosas que se insinuam neste tema perigoso. Os personagens desse livro são judeus ricos que tiveram seus filhos, esposas e maridos mortos nos campos de concentração alemães. Numa emulação ao existencialismo hedonista francês, essa consciência de que a ideia de deus não se coaduna à brutal experiência histórica leva alguns dos personagens à busca da felicidade imediata, surgida no adultério, na traição dos preceitos familiares, na refutação da fidelidade a um deus inexistente. O livro mostra as qualidades das circunstâncias que o gerou, tendo ele sido escrito em capítulos para jornais judaicos americanos: a prosa é fluida, rápida, intercalada com movimentos feitos para apreender sempre a atenção do leitor. O que vem de imediato na cabeça é a energia de um folhetim de Nelson Rodrigues. Singer sempre teve essa dinâmica de exímio contador de história que não entulha a narrativa com pesos desnecessários, e é justo nesse romance que se pode perceber o quanto ele tem a ensinar sobre todas as miudezas da arte do romance. Aqui ele é o mestre supremo; é difícil largar o livro; quer-se lê-lo na velocidade proposta pela escrita, mas as descrições de Nova York são soberbas demais e requer releituras encantatórias, os conflitos filosóficos dos personagens são profundos o bastante para torná-los íntimos do leitor. E, outro aspecto das situações históricas da produção da obra se faz visível: foi escrita em 1957-58. Por isso, a crítica da superfluidade dos judeus no mega-capitalismo cuja construção foi massivamente auxiliada por eles nos EUA se faz presente em todo o romance. Singer é tão ácido aqui quanto Roth na visão do judeu que se estereotipa na caricatura do deformado portador da usura e da lascívia. Talvez por essa negrura inevitável, Singer tenha se negado a publicar o romance em livro, e ele tenha saído apenas após a sua morte_ para o espanto geral da crítica que viu nele talvez a sua melhor obra (concordo).

Volto na visão que Singer tem de Nova York. Penso que uma das grandezas desse romance esteja aqui. A cidade é mostrada sempre coberta de neve, o que denota a nostalgia das aldeias nativas da Polônia nos personagens. Mesmo seu caráter opressivo é suavizado pelo filtro do olhar dos personagens, que veem os trabalhadores imigrantes, as luzes de neon, a superpopulação dos metrôs, as lanchonetes sujas sob a luz do amanhecer, os faróis dos carros de madrugada, de um distanciamento que muito tem do deportado espiritual de Kafka e da criança eterna de Bruno Schulz. Nova York de Singer é convertida em uma aldeia judaica ludibriada pelas emanações da ilusão estruturada do poder e do dinheiro, suas luzes nunca iluminam, mas ajudam a espalhar as sombras, seus céus são descritos como quem vê faixas de nuvens de gelo acima das altíssimas coberturas dos prédios, numa surda independência aos sons das máquinas e das angústias humanas. Sob um céu desses é que se torna possível que o marido traído, Stanislaw Luria, que perdeu a única mulher que amara nas câmaras de gás nazistas, se apresente ao professor Shrage, um símile intelectual estoico do sr. Sammler de Bellow, e lhe proponha uma comprovação ou refutação definitiva da imortalidade da alma: com seu suicídio, sua hipotética permanência fará todo o esforço para se comunicar com o professor, retornando da improvável dimensão dos mortos. A grandeza de Singer nos certifica que isso pode ser perfeitamente possível.

sábado, 31 de março de 2012

Patagônia

                                                                     Vladimir Safatle
Recuperei alguns amigos através da net, amigos da universidade, de bairros onde morei por algum tempo, de cidades onde a aventura do diploma recém ganho me fez ir e que me ficaram na memória como remansos que só existiam enquanto estive lá, com sua vida prosaica e sua população de mil habitantes. A net resgatou todos eles para mim, me mostrando que a distância os transformaram em diversos níveis de profundidade. Um dos meus melhores amigos, José Canavarros, que não o vejo há doze anos, o maluco despojado com quem aprendi muita coisa e formamos uma banda despretenciosa com um nome um pouco menos (God´s Sound), me fez ver o quanto eu mesmo me tornei outra pessoa. José tem dois filhos, assim como eu, e deve sentir a espécie de aturdimento que eu sinto pela roupa do adulto sereno e atarefado ter-lhe caído tão bem no corpo. Quando o vi pelo Facebook me passou uma fagulha de vergonha de reconhecimento por termos traído aquelas ideias seriíssimas de liberdade, e me doeu calmamente a memória de que quando o dia prefixado chegou, nossos pés se desviaram da longa trilha da Patagônia com a qual sonháramos tanto. Eu estudei espanhol, ele, que já o sabia, comprou e aprendeu a tocar um charango.

Também tive o choque de descobrir que um outro amigo dos tempos da veterinária morreu escorado a uma árvore. Poderia-se ter imaginado por detrás de seu olhar que não pousava mais que alguns segundos nos objetos, que as drogas o cosumiriam? Minha primeira namorada se casou, teve dois filhos, o marido a deixou, seu irmão deu-se um tiro fatal no ouvido, e a encontrei com o carro roubado acionando o seguro em  alguma esquina do Google. Ontem, porém, ou antes de ontem, me aconteceu o maior choque dessas redescobertas todas. Assistindo ao Jornal da Cultura, vejo que um dos usuais professores universitários que comentam por lá, não me era de forma nenhuma estranho. Aguardei o anúncio de seu nome e, era ele: Vladimir Safatle. Meu Deus, há quanto tempo não pensava nele! Estudamos juntos no Colégio Objetivo de Goiânia, e tínhamos 16 anos. Desde então, depois que nos afastamos, por uma incrível distração eu o havia apagado da memória. Não, é mentira. Uma ou outra vez,  trazido por alguma correlação de pensamento, punha-me a cogitar o que a vida tinha feito dele. Lembrava-me que um amigo daqueles tempos, que hoje, aliás, o encontrei médico pelos espaços virtuais, dizia que não chegaria aos trinta anos, um suicídio o aguardava cordatamente pela frente. Nunca compartilhei com essa teoria.

O Vladimir hoje, abaixo da calvície que lhe saiu melhor que o receio (entre os ruivos e os negros, a calvície cai bem, azar o meu!), é exatamente igual ao quando tinha 16 anos. Era um cara para lá de excentrico, e dono de um senso de humor que se firmava nas reticências e no olhar de resignação diante sua superioridade intelectual entre nós, os outros moleques. Conseguia despertar o riso alheio por se misturar a um senso de vergonha que compartilhávamos diante ao segredo que levava. Ele chegava à sala de aula sempre com alguma novidade chamativa no corpo, disfarçada como algo naturalíssimo. Ia com alfinetes enfiados na carne das bochechas, com a cara maquiada ou simplesmente com um risco enigmático rosa traçado da orelha  à boca. Dormia com o rosto no tampo da mesa religiosamente durante todas as aulas, insistindo em se levantar como um Lázaro ressuscitado por alguma besteira dita pelo professor para lançar com sua voz rouca (embargada ainda mais pelo sono) a verdade sobre o tema. Os professores não o gostavam muito, compreensível. Chegava quinze minutos antes das provas, com um olhar de desconhecimento simulado, e, com um caderno emprestado em mãos, em sua modéstia ostensiva mostrava o quanto sua concentração era primorosa por apreender o conteúdo de uma vez.

Ele tinha ido ao programa do Jota Silvestre e ganho o prêmio máximo de conhecimentos gerais. Sua figura de garoto esfalfado por uma felicidade estranha desvinculada aos brinquedos comuns dos outros garotos rodara o Brasil inteiro, a criança prodígio do Fantástico. Claro que um garoto cabeludo com a cara cheia de timidez estúpida como eu não poderia interessá-lo, e meu nível de autismo social era muito grande para também ele me interessar. Mas aí me deram um prêmio de literatura e ele se achegou a mim. Passou a me instruir em vernissagens que serviam bebidas alcóolicas, me apresentou ao García Márquez, ao Joy Division, e me emprestou o Crime e Castigo em volume duplo. Fui a uma apresentação de sua banda "Oficina de Testes", e até hoje não compreendo o disparate da música dark que ele compunha aceitar um vocalista rebolante que queria ser o Paulo Ricardo.

Uma vez eu levei a melhor sobre ele. Para fugir ao martírio de assistir ao Beijo da Mulher Aranha, anunciei ao bilheteiro que tínhamos 16 anos. Em represália, quase fomos linchados pelo público impressionado de Alienígenas do Espaço, quando ele passou a comentar alacremente cada cena do filme em voz alta. Sua casa tinha um ambiente pesadamente intelectual. Ele era uma cópia do pai, taciturno, avidamente grudado a suas crenças políticas, se havia carinho por ali era segredo para horas noturnas, escondido do olhar alheio e da consciência de autoimportância. Minha família também tinha o mesmo hermetismo, mas essa semelhança em vez de me alegrar me deixava mais deprimido. Preferia os amigos com radiosa normalidade burguesa.

Nossa amizade chegou ao fim por causa de um aspirador de pó. Havíamos comprado, cada qual, o LP que trazia a melhor canção nunca cantada pela Madonna, "Maria Madalena", de uma tal de Sandra . Estávamos na casa de minha mãe e ele, num de seus arroubos de inconstância, olhou para o aspirador de pó  e, sentenciando-o como objeto fútil da burguesia, lançou-se a destruí-lo com os pés e mãos até reduzir a coisa a fragmentos de plástico. Rolamos no chão na porrada, um enforcando o outro até não sei quem obter a rendição. Ele saíu pela porta, para minutos depois voltar para pegar a Sandra que havia esquecido por sobre a mesa. Nunca mais nos vimos, o que pode ser razão da bolha de supressão que minha memória criou.

O que eu posso dizer agora, do alto da minha maioridade, caso Vladimir tenha um tracking tão bom a ponto de cavucar esse blog obscuro. Cara, eu também odiava aquele aspirador!


Resposta via e-mail do Vladimir ao post:



"Charlles,

Primeiro, creio que estou te devendo um aspirador novo. Nao consigo lembrar porque eu o quebrei, mas temos que nos encontrar para que eu possa pagar esta dívida. Fiquei muito sensibilizado com seu texto. É sempre meio aterrador nos descobrirmos pelos olhos dos amigos antigos. Talvez você também tenha a impressao de que a vida de alguém acaba sendo uma sucessao de personagens que ficam meio pelo caminho. Algo se vai e algo fica.
Bem, entendi que você virou veterinário e mora em algum lugar que nao é Goiânia, certo? Entao, seria legal ter mais notícias tuas. De fato, eu também tenho boas lembrancas desta época.

Um grande abraco,
Vladimir

quarta-feira, 21 de março de 2012

Contra o Dia



Sabe aquela criança à espera pelo presente prometido no natal? Pois desde que vi hoje no site da Cia das Letras que Contra o Dia, de Thomas Pynchon, já está disponível para a venda, retornei à expectativa da infância pelo brinquedo embaixo da cama. Já o encomendei agora pelo site da Livraria Cultura, que sempre coloca os pré-lançamentos com descontos substanciais (Guerra e Paz comprei 50 reais mais barato; e agora, esse Pynchon com 25% a menos). Já conheço a via sacra. Amanhã a LC vai me mandar um e-mail dizendo que a editora ainda não lançou o livro, mas assim que o fizer o envio será imediato; daqui uma semana o site da Cia das Letras o porá como lançamentos da semana, e então, umas duas semanas adiante, as 1088 páginas chegarão às minhas mãos. Cheiros, tatos, e a prosa de Pynchon durante um bom tempo pela frente. Essas exaltações que me comprovam que o bom e velho livro é eterno!

terça-feira, 20 de março de 2012

O poeta e o mundo (A Matéria da Revista Piauí de Maio de 2007 sobre Wislawa Szymborska)

Creio que Wislawa Szymborska está a se tornar uma paixão_ com toda a certeza para mim, para o Fernando (que me deu a dica e me fez achar nos arquivos on-line da Piauí os textos abaixo), para o Farinatti que foi fisgado pela necessidade de comprovar o livro da Cia das Letras. Quem sabe até a Caminhante abre a mão, num rasgo assombroso de perdularismo, e adquira o livrinho. Bem, estou a fantasiar milagres (a Caminhante gastando 39 pilas num livro!!! Loucura). Segue as páginas da Piauí, um tesouro, uma maravilha...
Wislawa Szymborska nasceu em 1923, no vilarejo polonês de Bninie. Morava em Cracóvia desde os 8 anos. Levou uma vida singela, sem grandes atropelos. Durante a Segunda Guerra, foi funcionária do departamento de estradas de ferro. Mais tarde, trabalhou como secretária, ilustradora e, durante décadas, como editora de uma revista cultural. Começou a escrever poesia aos vinte e poucos anos. Em 1949, seu primeiro livro foi censurado pelo regime comunista, que o considerou obscuro demais para as massas. Talvez Szymborska tenha levado a sério a advertência, pois a obra que viria a consagrá-la é de uma desafetação exemplar. A dicção é coloquial, despojada de retórica e efeito poético. São poemas claros como água pura.

Mas é possível espantar-se com a água, e assim é Wislawa Szymborska: ela se surpreende, seja com as miudezas da vida, seja com os horrores da História. É uma poesia do assombro. Há um espanto de natureza quase darwiniana, suscitado pelo fato de estarmos aqui - nós e não outros. Há o que nasce da consciência de que ninguém está no centro de nada, de que o mundo segue adiante sem o nosso testemunho. Quanto à História, Szymborska a enfrenta sem abrir a guarda para sentimentalismos. O pior acontece, e será esquecido.

Em 1996, a poeta ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Tinha 73 anos e era praticamente desconhecida fora da Polônia. Foi talvez o único sobressalto de sua vida. No Brasil, Ana Cristina Cesar e Nelson Ascher traduziram alguns de seus poemas. Regina Przybycien, professora da Universidade Federal do Paraná, publicou na revista Oroboro uma pequena seleta de traduções. piauí publica nove poemas traduzidos em conjunto por Sylvio Fraga Neto e Danuta Haczyn´ska da Nóbrega; ele, a partir da tradução inglesa, ela, do original polonês. O discurso de Wislawa Szymborska na Academia Sueca foi traduzido do inglês por Rubens Figueiredo.

***

Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir - a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha - serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto - quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.

Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles... Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos - ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico "escritor" ou substituir "poeta" pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa mui¬to mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa idéia. Chamaram-no de "parasita" porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.

Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar - em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos - a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.

Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da platéia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza - será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? - podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.

Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece... Quem agüentaria assistir a esse tipo de coisa?

Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.

Quando ocorre de me perguntarem sobre o assunto, também me esquivo. Mas minha resposta é esta: a inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros - eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Difi¬culdades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam. Seja lá o que for a inspiração, ela nasce de um contínuo "não sei".

Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm - aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.

Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.

Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles "sabem", e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.

É por isso que dou tanto valor à pequena frase "não sei". É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo "não sei", as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo - no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma "não sei", na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer "não sei", e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.

Poetas, se autênticos, também devem repetir "não sei". Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas "obras".

Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. "Não há nada de novo sob o sol - foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol - aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.

E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às idéias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria - de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: 'Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar'. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você."

O mundo - o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo - ele é assombroso.

Mas "assombroso" é um epíteto que oculta uma armadilha lógica. Ficamos assombrados, afinal de contas, por coisas que divergem de alguma norma conhecida e universalmente aceita, de um truísmo ao qual nos habituamos. Mas a questão é que não existe esse mundo óbvio. Nosso assombro existe per se e não se baseia numa comparação com outra coisa.

Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como "o mundo comum", "vida comum", "o desenrolar comum dos acontecimentos". Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.

Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera.

FOTOGRAFIA DO 11 DE SETEMBRO
Pularam dos andares em chamas-
um, dois, alguns outros,
acima, abaixo.
A fotografia os manteve em vida,
e agora os preserva
acima da terra rumo à terra.
Ainda estão completos,
cada um com seu próprio rosto
e sangue bem guardado.
Há tempo suficiente
para cabelos voarem,
para chaves e moedas
caírem dos bolsos.
Permanecem nos domínios do ar,
na esfera de lugares
que acabam de se abrir.
Só posso fazer duas coisas por eles-
descrever este vôo
e não acrescentar o último verso.



POR UM ACASO
Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.



A ALEGRIA DE ESCREVER
Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi?
É para beber da água escrita,
que desenha seu focinho?
Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?
Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade
ele apura as orelhas sob meus dedos.
Silêncio-essa palavra ressoa na textura do papel
e afasta os galhos
que brotam da palavra floresta.
Sobre a folha em branco há letras espreitando
que podem tomar o mau caminho
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa.
Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme,
cercar o cervo e apontar as armas.
Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.
No preto-e-branco vigem outras leis.
Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nem uma folha cairá
e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.
Então existe um mundo
onde eu possa impor o destino?
Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?
Uma existência que, a meu comando, não terá fim?
A alegria de escrever.
O poder de preservar.
Vingança de uma mão mortal.

A CORTESIA DOS CEGOS
O poeta lê seus versos para os cegos.
Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja.
Suas mãos tremem.
Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão.
Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes.
Uma aventura perigosa
para as estrelas da poesia,
para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para o peixe tão cintilante sob a água
e o falcão tão alto e quieto no céu.
Ele lê-pois já não pode parar-
sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,
telhados vermelhos que se contam no vale,
números irrequietos na camisa dos jogadores
e a desconhecida, nua, na fresta da porta.
Ele gostaria de omitir-embora seja impossível-
todos os santos no teto da catedral,
a mão que acena do trem em partida,
a lente do microscópio, o anel e seu brilho,
as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de
fotografia.
Mas é enorme a cortesia dos cegos,
admirável a sua compreensão, a sua grandeza.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.
Um deles até se aproxima
com o livro de cabeça para baixo
pedindo um autógrafo invisível.



BEM CEDO
Ainda durmo,
mas enquanto isso as coisas acontecem.
A janela embranquece,
a escuridão se acinzenta,
o quarto emerge de um espaço indefinido,
listas pálidas e instáveis buscam apoio.
Na fila, sem pressa,
pois isso é uma cerimônia,
amanhecem as superfícies do teto e das paredes,
as formas se destacam
umas das outras,
as da esquerda das da direita.
As distâncias entre os objetos vibram,
as primeiras luzes cintilam
no copo, na maçaneta.
As coisas deixam de ser impressões, já existem,
como o que ontem foi deslocado,
o que caiu no chão
e o que está contido nas molduras.
Apenas os detalhes continuam invisíveis.
Mas atenção, atenção, atenção,
tudo indica que as cores estão retornando
e mesmo a mínima coisa recebe de volta sua matiz,
acompanhada de uma ponta de sombra.
Raramente isso me surpreende, mas deveria.
Normalmente eu acordo, testemunha atrasada,
o milagre finalizado,
o dia definido
e a aurora magistralmente transformada em manhã.



AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS
Quando eu falo a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando eu falo a palavra Silêncio,
o destruo.
Quando eu falo a palavra Nada,
crio algo que nenhum não-ser comporta.



ENCONTRO INESPERADO
Nós nos tratamos com extrema cortesia,
dizemos: quanto tempo, que bom revê-lo.
Nossos tigres bebem leite.
Nossos falcões preferem o chão.
Nossos tubarões se afogam no mar.
Nossos lobos bocejam diante da jaula aberta.
Nossas cobras perderam seu lampejo,
nossos macacos, sua graça; nossos pavões, suas plumas.
Faz tempo que os morcegos deixaram nossos cabelos.
Caímos em silêncio no meio da conversa,
e não há sorriso que nos salve.
Nossos humanos
não sabem falar uns com os outros.



O FIM E O INÍCIO
Depois de toda guerra
alguém tem que fazer a faxina.
As coisas não vão
se ajeitar sozinhas.
Alguém tem que tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.
Alguém tem que abrir caminho
pelo lamaçal e as cinzas,
as molas dos sofás,
os cacos de vidro,
os trapos ensangüentados.
Alguém tem que arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém tem que envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.
Não é fotogênico
e leva anos.
Todas as câmeras já foram
para outra guerra.
Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.
Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.
De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.
Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.
Alguém tem que deitar ali
na grama que cobriu
as causas e conseqüências,
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.



PAISAGEM COM GRÃO DE AREIA
Nós o chamamos de grão de areia,
mas ele não se considera nem grão nem areia.
Vive perfeitamente bem sem um nome,
seja genérico, particular,
provisório, permanente,
incorreto ou preciso.
Nosso olhar, nosso toque nada significam para ele.
Ele não se sente observado e tocado.
E o fato de que caiu no parapeito
é uma experiência nossa, não dele.
Poderia cair em qualquer outro lugar,
sem saber se parou de cair
ou se continua caindo.
A janela tem uma bela vista do lago,
mas a vista não se vê a si mesma.
Ela existe nesse mundo
sem cor, sem formato,
sem som, sem cheiro e sem dor.
O fundo do lago existe sem chão
e sua margem, sem beira.
Sua água não se sente nem seca nem molhada
e suas ondas nem uma nem muitas.
Elas quebram surdas a seu próprio barulho
em pedras nem grandes nem pequenas.
E tudo isso sob um céu que por natureza não é céu,
onde o sol se põe sem se pôr
e se esconde sem se esconder por trás de uma nuvem indiferente,
agitada por um vento
que sopra apenas por soprar.
Um segundo passa.
Outro.
Um terceiro.
Mas esses três segundos são apenas nossos.
O tempo passou feito um mensageiro com notícias urgentes.
Mas isso é apenas nossa símile.
O personagem é inventado, sua pressa imaginária,
sua notícia desumana.