sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Uma Súbita Saudade


Tenho uma imaginação hiperatrofiada, o tipo de benefício dúbio que me entretém em longas filas de banco ou na sombra de um dia morto. Grande parte dela, creio eu, veio dos poucos momentos que tive com meu pai, nos encontros cheio de culpa que minha mãe divorciada nos cedia com o preço de atulhar a atmosfera de presságios e proibições. Um certo dia, meu pai me sequestrou. Entrei no seu chevete novo, naquele ano mais inocente em que a gagueira provocada pela separação dos dois ainda me afigurava o pior dos infernos, e passamos um mês inteiro confinados numa fazenda que ainda hoje estou por descobrir de quem era. Passadas as horas de puro terror em que vi confirmadas as suspeitas de minha mãe de que aquele homem era capaz de tudo para separar-me dela, esse mês foi o melhor da minha vida. Todo mundo estava lá, como num crime premeditado, minhas tias, meus tios. Quando li vinhas da ira, refiz aquele calor familiar, aquele humor despojado e espiritual que tive por trinta dias. Mas findo aquele período, meu avõ materno apareceu, conciliador, conversou com ele quinze minutos, e meu pai foi até mim, sorrindo: “Naninho, chegou a hora de ir embora”

Meu pai contava mentiras grandiosas para mim. Carregava-me no bolso da camisa, quando eu era bebê. Em certas épocas eu voava por sobre os postes de luz e me sentava nos fios elétricos, deixando todos desesperados a me procurarem, até que ele percebia termos passado dos limites e me sinalizava com a cara compungida para que eu descesse.

Em 1990 eu abandonei a faculdade, meio que fugi de casa e fui até o meio da Amazônia atrás dele, a metade do caminho de carona. Haviam dito que ele sofrera um acidente, uma tora de madeira teria caído em cima dele. A forte impressão de sua imunidade me confortava em não acreditar naquilo, o que confirmei ao vê-lo aparecer de barba, com um semblante de Aureliano Buendia, pela soleira da porta de sua nova casa, com sua nova família, num povoado esquecido chamado São Miguel. Sua nova esposa tinha minha idade, os olhos verdes, e a lucidez da bondade que só um espírito muito antigo podia ter. Estava feliz, com saúde. Andando pela floresta, ele fez um movimento de abranger a mata com o braço e disse: “Deus também esta aqui!”

Há três anos ele foi devastado por um câncer. Vê-lo, então, foi terrivelmente doloroso. Herdei dele, também, o amor exacerbado pelos animais, principalmente cães. Um semana depois de que foi enterrado, meu cão latia de madrugada. Um cãozinho miúdo, magro até os ossos, como sabendo que em minha casa poderia ter sua última guarida, estava deitado de frente ao portão. Até então eu não tinha cedido à crueza absoluta daqueles dias; peguei o animalzinho com um pano, trouxe para os fundos de casa, coloquei-o no quarto de despensa e passei a noite lá, corroído por uma piedade ilógica, junto dele.

O filtro contra a realidade da existência havia falhado, como ás vezes acontece. E a visão de um túmulo em nada corrobora para que o filtro volte a funcionar.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Luz Interior


Aguardo ansiosamente o documentário de três horas e meia de Martin Scorsese sobre George Harrison, Leaving in The Material World, cujo DVD está prometido ainda para esse ano. O excerto abaixo, que me deixou inusitadamente comovido nessa hora da manhã, é do depoimento de um Ringo Star com lágrimas nos olhos e mal conseguindo falar, sobre seu último encontro com Harrison:

-- Nas últimas semanas de vida do George ele estava na Suíça, eu fui visitá-lo. Ele estava muito doente, só podia ficar deitado. Só deitado. E, embora ele estivesse doente e eu o estivesse visitando, em seguida eu iria para Boston, porque minha filha [refere-se a Lee Starkey, a caçula de seus três filhos] estava com um tumor cerebral. Eu lhe disse ‘tenho que ir embora, ir a Boston’… e ele disse…foram as últimas palavras que ouvi ele dizer, na verdade: ‘Você quer que eu vá com você?’. [Emoção, risos]. Oh, Deus. Era o lado incrível do George.”

domingo, 30 de outubro de 2011

J. M. Coetzee

Chega o domingo de novo. Ele e Bev Shaw estão concentrados em sua sessão de Lösung. Um a um ele vai trazendo os gatos, depois os cachorros: os velhos, os cegos, os mancos, os aleijados, os mutilados, mas também os jovens, os sãos, todos os que chegaram ao fim de seu período. Um a um, Bev toca, conversa, consola e sacrifica. Depois se afasta e fica olhando enquanto ele encerra os restos numa mortalha de plástico preto.
Ele e Bev não falam. Ele já aprendeu, com ela, a concentrar toda atenção no animal que estão matando, dando-lhe o que não tem mais nenhuma dificuldade de chamar pelo nome correto: amor.
Amarra o último saco e leva até a porta. Vinte e três. Sobrou só um jovem cachorro, aquele que gosta de música, aquele que, com meia chance, já teria enveredado atrás dos companheiros para dentro do prédio da clínica, para dentro da sala de operações com sua mesa de tampo metálico, onde ainda paira a mistura de cheiros intensos, inclusive um que ainda não sentiu na sua vida: o cheiro da expiração, o cheiro macio e breve da alma libertada.
O que o cachorro não entenderá nunca (nem num mês inteiro de domingos!, ele pensa), o que seu focinho nunca lhe dirá, é que se pode entrar em uma sala absolutamente comum e nunca mais sair. Algo acontece naquela sala, algo não mencionável: ali a alma é arrancada do corpo; paira brevemente no ar, se torcendo e contorcendo; depois é sugada para longe e desaparece. Será incompreensível para ele, essa sala que não é uma sala, mas um buraco por onde se escorre para fora da existência.

Vai ficando cada vez mais fácil, Bev Shaw lhe disse uma vez. Mais difícil, mas mais fácil também. A gente se acostuma com as coisas ficando mais difíceis; a gente acaba não se assustando mais quando o que era o mais difícil do difícil fica ainda mais difícil. Ele pode salvar o jovem cachorro, se quiser, deixar para a semana seguinte. Mas chegará a hora, isso não pode ser evitado, em que terá de trazê-lo para Bev Shaw na sala de operações (talvez o traga nos braços, talvez faça isso por ele) e o acariciará, abrindo a pelagem negra para que a agulha penetre na veia, sussurrando para ele, dando-lhe apoio no momento em que, surpreendidas, suas pernas cederão; e então, quando sua alma sair, ele o dobrará e embalará em seu saco, e no dia seguinte o levará para as chamas e cuidará para que seja queimado, eliminado. Fará tudo isso por ele quando chegar ua hora. Será pouco, menos que pouco: nada.


Ele atravessa a sala. “Foi o último?”, Bev Shaw pergunta.
“Tem mais um”.
Abre a porta do compartimento. “Venha”, diz, curva-se, abre os braços. O cachorro arrasta a parte traseira alejada, fareja seu rosto, lambe sua face, seus lábios, sua orelha. Não o detém. “Venha”.
Levando-o no colo como um carneiro, entra na sala de operações. “Achei que ia deixar esse para a semana que vem”, diz Bev Shaw. “Vai desistir dele?”
“É. Vou desistir”.
                                                                                              (Desonra, J. M. Coetzee)                                                                                                
 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O Livro que Eu Esfregaria na Cara de Deus


Singer certa vez respondeu ainda acreditar na existência de Deus, mas que assim que tivesse a oportunidade, esfregaria muita coisa na cara do Onipotente. Eu, por outro lado, se tivesse que fazer Deus ler um único livro para entender o desamparo da condição humana, não optaria pela tapeçaria de concupiscência das sagas e contos do velho autor judeu, mas esse que é o mais mortal e angustiante dos livros, o mais abissalmente depressivo, recebido nas cordas de um violoncelo por Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser. Que pese a procura desesperada dos romances de Dostoiévski, a revolta sem saída de Tolstoi, a agudeza sem propósito das ranhuras da superfície da alma de Primo Levi, as incontáveis investidas contra as grades de Nietzsche, não há outra obra da literatura que traga tanta demasiada lucidez sobre as misérias totais da existência que esse romance irrepetível de Kundera. Não leio mais nada de Kundera e nunca lerei, tudo além desse romance que tenha saído pela pena do tcheco conspurca a mensagem arcangélica única desse último evangelho. Não há um outro escritor que não lhe inveje até as unhas dos pés diante tamanha proeza. Os encontros e desencontros de Tomas e Teresa, a dissipação da ilusão da juventude que advém desses percalços; a abominação fatídica da História, que nada mais é do que arranjos do parco entendimento ortodoxo para sistematizar a indiferença e a aleatoriedade da vida. Esfregaria na cara de Deus a injustiça extrema de ter-se invertido tudo o que faria um tantinho de sentido se tivesse sido colocado na ordem correta, a experiência antes do fim, o arrependimento antes do fenecimento das forças, a misericórdia antes do abate incontornável pelo mal. Há mais verdade humana e mais candura significativa no olhar da cadela Karenina, em seu fugaz instante de sofrimento antes da morte, do que em todos esses propósitos e projetos intuídos e atribuídos à Grande Mente.

Fimose


Lembro que eu tinha uns oito anos e minha mãe me levou até a repartição onde trabalhava, abaixou minha bermuda até os joelhos e perguntou diante um homem com o desamparado ar dos funcionários públicos: isso aqui é fimose? O homem retirou os óculos, examinou com uma certa fagulha não de todo desinteressada de atenção, apesar do tédio mortal, e, após sopesar os prós e os contras, respondeu taxativo: não, isso não é fimose. Não sei se anterior a isso ou anos depois_ mas que era ainda muito criança_ recordo que tive uma infecção na glande e tive que tomar muitos banhos de bacia com uma água azul turquesa. Depois de curado, criou-se a certeza finalmente abalizada de que qualquer pele que tivesse nascido colada a algum lugar nas minhas regiões baixas havia sido solta, o que encerrava para sempre o enigma da fimose para minha mãe. Mas a fimose continuava em mim ao menos ao nível mental, como um fantasma, como se houvesse acontecido comigo a lenda urbana clássica do afogamento do irmão gêmeo em que o irmão sobrevivente não sabe se é ele mesmo ou o outro que morreu. Eu não sabia se aqueles banhos depurativos haviam levado de vez a fimose ou se serviram apenas para o artifício pérfido de autorizar o silêncio em torno da pele sobressalente que, com isso, adquiria toda a autoridade para crescer em personalidade até tomar conta do meu corpo e ganhar vida própria. As conversas da adolescência serviram-me para dimensionar o desastre da coisa: aparentemente ninguém, nenhum rapaz da minha idade, sabia ao certo o que era fimose. Alguns diziam que era o equivalente ao hímen feminino, e que só se rompia na primeira relação sexual. Havia uma classe distintiva de entendidos que vaticinava que fimose era um afinamento peniano, e que os infelizes que a tinham seriam impotentes durante toda a vida. Outros, com a inocência quebrada dos que leram apressados livros proibidos dos pais, afirmavam que era uma anomalia que só ocorria em médio-orientais, que estava até na Bíblia onde Deus ordenava sua excisão já logo após o nascimento. Ou seja, era uma ignorância sofisticada a qual podia-se preencher com uma ilimitada gama de imaginação especulativa, que servia para poses de masculinidade incipiente e ostentação de experiências sexuais inventadas, mas que não escondia a universalidade do atraso no campo do esclarecimento quanto ao próprio corpo tanto para os que tinham pai quanto para os que não o tinham.

(O assunto "pênis" na minha adolescência era o maior dos tabus. É incrível pensar como isso deveria soar anacrônico hoje, com essa frenética repaginada 4.0 da liberdade sexual onde feministas se deliciam em falar deliberadamente as palavras proibidas, e a homossexualidade por um triz não se torna de vez a febre comportamental da hora. Uma olhada por alto nos diálogos aerados do clube feminista não destoa muito das conversas de banheiro de times de futebol de bairro: há tanto "pau", "buceta", "trepada", "chupar o cacete", "dar o cu",_ e uma nova modalidade afetiva que me faria brochar na hora se ouvisse uma adepta dizer, em meus áureos tempos de galo ciscante: buça !_ que dá a sensação de que assim que cada uma se vê a sós em suas casas, ou devem respirar aliviadas por ainda poderem mijar sentadas, ou então devem ter uma prisão de ventre tão devastadora por os orifícios naturais sofrerem o acondicionamento recalcado de não suportarem mais a simplicidade de suas puras funções orgânicas. Mas deixa eu voltar ao tema... na minha adolescência a salvaguardagem da própria masculinidade era um tarefa diuturna, um graal vigiado incansavelmente, um exercício templário tenso, um...bom, acho que já fui suficientemente enfático. Era uma ofensa mortal passarem a mão em sua bunda, o que só dirimia a necessidade assassina de vingar a afronta se você passasse de volta a mão na bunda do adversário. Nos pátios do colégio era comum ver perseguições selvagens entre dois meninos, a cara de insanidade fixa no que perseguia, e a cara meio de traquinagem meio de aturdimento do segundo, e o que estavam resolvendo não era um bullying de roubo de lanche ou de ter sido atirado na caçamba de lixo,  mas a equiparação da honra e a imposição do respeito superior de devolver aquela mácula inaudita de ter-se a bunda violada pela mão do inimigo. Era uma coisa estúpida, eu reconheço hoje. Acho que todos que conheci, que hoje beiram os quarenta, percebem, com o sorriso adstringido, que era uma estupidez sem tamanho, típica da adolescência. Já vi no comportamento juvenil de hoje que não se dá mais a excessiva importância que se dava à vigilância da bunda, como na minha época. Respiro aliviado, e invejo a leveza dos alunos de 17 anos que passam em bandos diante a minha casa, todos os dias, e dividem tapas nas bundas com uma virilidade tranquila, uma masculinidade segura. Mas devo confessar que não se precisa ter estudado em herméticos internatos ingleses para ter esse período da vida como um dos piores geradores de trauma para a vida toda. Por mais que meu humor tenha hiperatrofiado, e eu sinta os ombros livres de tanto peso inútil, ainda percebo o eco daquele tempo incrustado em mim. Já deixei minha esposa embasbacada diante minha reação espontânea a algum movimento desatento dela que circunavegue pela baixa Patagônia. E esses dias um colega de trabalho, ao passarmos em sentidos opostos por um corredor estreito, me pressionou contra a parede de uma forma muito mais literal do que minha abnegação estava preparada para avaliar prosaicamente. Me vi soltando um enfurecido: "qualé meurmão, prestatenção chegado.", e quase não consegui controlar o adolescente em mim que queria porque queria fazer com que ele passasse de novo pelo corredor, invertendo-se os papéis. Pura estupidez!)

Duas situações tardias me fizeram ter conhecimento libertador do meu pênis. A primeira foi há 3 anos, quando cismei que estava crescendo um caroço em meu testículo esquerdo. Passava por lá os dedos e o caroço insistia em mostrar seu contorno anormal além da minha capacidade de auto-eufemização. Como perguntar para um amigo se a circunferência de seu saco tinha também alguma variação notificável? Depois de uns quatro meses que tomei coragem e fui consultar um andrologista. O médico era da minha idade, de boa aparência, ar ponderado e visivelmente profissional ao extremo, o que calava os resquícios de honra adolescente da minha parte. Ele pediu solicitamente, depois de ter me feito as perguntas de praxe, se podia apalpar meu testículo. Fiquei de pé, como me mandou, e ele ajoelhou à minha frente. Como percebeu meu julgamento equivocado de que me examinaria por sobre a calça, pediu que eu me desnudasse até as coxas. De luvas, segurou com delicada firmeza meu testículo esquerdo por um momento, e depois se levantou, agradecendo e dizendo que eu poderia subir as calças. Não é câncer, ele me disse de uma vez. O alívio fez com que eu relaxasse, o que deu prosseguimento a uma extensa conversa entre nós que me esclareceu sobre diversos tabus. Ele mesmo me confessou, não sei se por puro dever de camaradagem, que sua escolha de especialização muito tinha a ver pelo desconhecimento medieval que os homens sofriam quanto o próprio corpo. Falei sobre o mistério da fimose, e ele confirmou que era uma das dúvidas mais frequentes mesmo entre homens maduros como eu. Saí de lá com a sensação de ter sido exorcizado, apenas para sofrer uma vergonha lancinante dois dias depois em que tive que ficar pelado diante três enfermeiras para os exames de tomografia. O resultado dos exames acabou fazendo uma justiça poética à suposta fimose que levei a vida toda acreditando ter: não era uma pele sobressalente e renitente que eu tinha, mas um epididimo naturalmente maior que o outro, o que muito certamente havia nascido comigo assim e só agora eu havia dado por conta.

A segunda vez foi no exame pediátrico de rotina de meu filho. Também isso revela uma das coincidências rimadas da minha vida. O pediatra e eu nos reconhecemos aos gritos no supermercado principal da cidade. "Charlles, é você?". "Fernando, é você?" Abraçamo-nos diante a multidão na fila dos caixas, e ficamos uma meia-hora alheiada em pé, atrapalhando os passantes, relembrando os anos do colégio em que frequentamos juntos, e indagando o que a vida nos havia feito nesses dez anos em que desaparecemos um do outro. Ele trocava a vida em Brasília por uma rotina menos remunerada e mais tranquila ao ser aprovado no concurso municipal para médicos da cidade. Detalhe: havia sido candidato único. Levei meus filhos nele, o que me causou embaraço por notar que cem mães ficaram à espera em nossa longa consulta. Ele confirmou o que eu já sabia no íntimo: meu filho não tinha fimose; era um exemplar dessa geração sem bagagens desnecessárias, sossegada e livre, que os nossos anos de preocupações fantasiosas conseguiram engendrar e tínhamos a obrigação de manter saudavelmente distante de toda a nossa sofrida e ridícula inquietação.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Breviário Bloguístico


Convidaram-me a dar uma palestra em um colégio agrotécnico de uma cidadezinha próxima. Fiz um amigo entre um dos funcionários, um sujeito altíssimo e magro que chega a ser meio acorcundado. Tem um ar de menino prontificado e tímido, apesar de ter lá os seus 25 anos. Fez o curso de História e diz me conhecer de vista de lá, e eu não recordo tê-lo visto em momento algum. Eu havia feito um comentário sobre os mujiques e seus procedimentos de agricultura, lido em Anna Karenina. Na verdade não citei a fonte para uma platéia que pouco teria pra saber quem foi Tostói, mas esse novo amigo me procurou após o término da palestra e me disse ter lido o livro. Fiquei deslumbrado, ainda mais que ele revelara que havia lido os romances principais de Dostoiévski e muito mais. Ontem fui à casa dele, uma residência grande a arejada cuja presença dos pais aumenta mais a impressão de que vive no contínum permanente de sua saudável adolescência. Duas estantes forradas de livros muito bem cuidados, a maioria os volumes promocionais da Martin Clarte. As capas desses livros, como se sabe, são excessivas em cores, e há o arremedo despropositado de sempre aparecerem rostos e corpos de sílfides nas capas que nada tem a ver com Madame Bovary ou a pobre azarada da Lizavéta. Fui tomado por uma reminiscência dos meus anos de Ediouro, cada livro comprado eram semanas de felicidade terrena. Foi um prazer conversar com esse novo amigo, mas me ficou forte a consciência de uma pirâmide de rejeição. Quem lê Dostoiévski e Nietzsche nos originais me veriam como um iniciante, assim como o vi pelas traduções mais fiéis que tenho a oportunidade de ler. Quando íamos nos despedimos, entretanto, tive uma surpresa. Um volume de quase 600 páginas da íntegra de Flores da Relva, lançada pela Marin Claret. O livro soltava fagulhas nas minhas mãos. Tenho três traduções de Whitman, mas nenhuma completa, e eis que descubro ali que a Martin Claret foi a primeira e única editora brasileira que publicou a obra inteira. Na verdade pouco me interessa mesmo a fidelidade das traduções; sou pela teoria de Thomas Bernhard de que há traduções que são melhores que o original; não consigo achar o The Raven melhor que O Corvo que tenho de memória, numa das traduções menos afamadas ("era meia-noite, e eu refletia, a ler doutrina de antiquíssimos manuais"); e não há alegria mais genuína e completa que a que percebo nesse amigo diante sua tarefa de aquisição de esclarecimento, pois a tive em igual proporção dos meus tempos de pocket books de sebo.

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Daí que minha esposa, que vem de uma casta de mulheres centenárias que algumas ainda tem a desfaçatez de morrerem de antiquados acidentes domésticos, me solta a mais perversa das chantagens emocionais, dizendo que eu, entre nós dois, é que tenho uma saúde de ferro, sendo ela a que, em um ano, passou por três cirurgias. "Por isso te peço para parares de tomar vinho", diz, embora a segunda conjugação seja uma licença beletrista da minha parte, e continua, "queres que nossos dois filhos fiquem órfãos, futuramente?". Nada me comove mais e me faz pensar. Que belo elogio truncado, apelar para minha saúde de ferro. Apesar do evidente filisterismo da coisa, empreito-me a deixar o vício do vinho de uma vez por todas. Minha disputa dos últimos cinco anos não é outra que a acirrada batalha para não cair nos inúmeros correlatos sensuais que me levam ao vinho, e que, todo lugar a que se olha em minha vida, eles aparecem, luciferinamente com ar da mais beatífica ingenuidade. Caio com a mesma prontidão das mulheres de pouca vontade que, volta e meia, dividem a cama com os salafrários contra os quais juraram definitivamente nem dirigirem um olhar. Faço uma lista dos itens potencialmente perigosos e sigo a linha do bem com determinação: jamais ouvir Mingus à noite, e sozinho; dar um tempo nas leituras de Omar Khayyam; não assistir comédias românticas com casais quarentões de Nova York (sempre abrem uma garrafa de tinto); evitar firmemente saber qualquer coisa dos costumes franceses, espanhóis e portugueses atuais. Evito, então, os noticiários médicos sobre os benefícios do resveratrol, as conversas com amigos. Fujo, aliviado, para as páginas do magnífico Declínio e Queda do Império Romano, que tem sido um ótimo sucedâneo noturno, mas eis que a prova das intrusões metafísicas se me revela nessa frase que nada me faz duvidar que foi posta ali por um Gibbon diabólico e carregado das mais nefastas intenções: "Aqueles cinco maravilhosos anos em Lausanne eu os passei encharcado de vinho do Porto e preconceitos, entre os monges de Oxford." Haec omnia tibi dabo, si cadenz adoraveris me.


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Joseph Conrad



"O homem passa a vida inteira tentando pronunciar suas últimas palavras"
(Frase de Otta Lara Resende, plagiada de Lord Jim, de Joseph Conrad)