quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Theodor Adorno

 
Um olhar desviado da trilha batida, um ódio à brutalidade, uma procura de novos conceitos ainda não abarcados pelo modelo geral, é a última esperança para o pensamento.
                                                                                     (Minima Moralia)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A Tinta que Falta

Numa antiga anedota que circulava na hoje falecida República Democrática Alemã, um operário alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que toda correpondência será lida pelos censores, ele combina com os amigos: "Vamos combinar um código: se uma carta estiver escrita em tinta azul, o que ela diz é verdade; se estiver escrita em tinta vermelha, tudo é mentira." Um mês depois, os amigos recebem uma carta escrita em tinta azul: "Tudo aqui é maravilhoso: as lojas vivem cheias, a comida é abundante, os apartamentos são grandes e bem aquecidos, os cinemas exibem filmes do Ocidente, há muitas garotas, sempre prontas para um programa_ o único senão é que não se consegue encontrar tinta vermelha."
                                     (Bem-Vindo ao Deserto do Real, Slavoj Zizek)
Slavoj Zizek: "Sentimo-nos livres pela falta de uma lingua em que articular nossa não liberdade"

sábado, 27 de agosto de 2011

Algo Cintila no Tecido Esgarçado_ Vila-Matas escrevendo sobre Sebald

W. G. Sebald

Passa uma gaivota e sigo-a, e lembro certos comentários de W.G.Sebald acerca do mistério e da incidência do gênero fantástico no excêntrico, certos comentários também sobre supostas casualidades e coincidências que poderiam não ser o que são se contássemos com melhores meios de percepção, não sê-lo porque, na noite dos séculos, ficamos, um dia, depois que se ouviram disparos no paraíso, muito limitados mentalmente: "Prefiro escrever sobre pessoas bastante excêntricas e o excêntrico tem algo de fantástico. Esse tipo de coisa, além do mais, também nos sucede. A mim, por exemplo, aconteceu recentemente de estar num museu de Londres para ver dois quadros. Atrás de mim estava um casal que, creio, conversava em polonês. Um cavalheiro e uma dama, de aspecto muito estranho, não pareciam de nosso tempo. Depois, à tarde, precisei ir à estação de metrô mais periférica de Londres, uma cidade de quinze milhões de habitantes. Não havia ninguém. Salvo esses dois do museu. Ali estavam."

Sebald é um grande leitor de Borges, a quem sempre elogiava por compreender muito cedo o erro que supôs expulsar a metafísica da filosofia. Porque de fato, diz Sebald, há coisas que não podemos explicar facilmente, e porque, para além do social, faz parte de nossa condição humana, antes mais que agora, manter certa relação com os que nos antecederam. Recordar os mortos é algo que nos distingue da animalidade.

Sou um espião e constante leitor de Sebald, de suas longas caminhadas à Robert Walser, de sua exploração do mundo dos mortos, de suas incursões fantásicas no espaço dos excêntricos. Comentando o caso raro dos poloneses da estação periférica, disse Sebald: "Não são casualidades, mas em alguma parte há uma relação que de quando em quando cintila através de um tecido esgarçado."
                                             (O mal de Montano, Enrique Vila-Matas)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Apocalipsismos


No filme A Estrada, a evocação do fim parte de onde em Solaris, de Tarkovski, a ilusão de recomeço  surge na submersão do personagem principal na crença em que sua esposa não havia suicidado. Em Tarkovski, pode-se adotar essa catarse desesperada, que não necessita dispor de mais efeitos de convencimento porque o enredo acaba aí, não há mais filme e as cortinas se fecham sobre essa loucura apiedante. O astronauta que se enredou nos sonhos causados pelo planeta ectoplásmico Solaris pode passar toda a eternidade como sempre quis, sem as angústias filosóficas que o acometiam, sem os pesadelos de que a morta lhe aparecia com o rosto carregado de acusações de culpa, sem a realidade de que está anos-luz de qualquer geografia terrestre que lhe seja familiar: sua rendição a Solaris lhe garante em troca voltar à lembrança da tarde em que ele, sua mulher e seu filho se deitam no gramado de sua casa de campo, absorvidos na mais sólida felicidade. O que importa os desdobramentos de seu possível despertar desse sonho?, o que importa se o astronauta não fez outra coisa que ser derrotado uma segunda vez, depois que se desatou de sua resignação ao estoicismo e se lançou nos braços lisérgicos de Solaris?, o que importa se essa fantasia não é senão os momentos iniciais de sua morte? Para a platéia, esse último e definitivo instante não só justifica a vida do astronauta como é o ponto nodal onde se coincidem poderosamente o alívio diante o niilismo da condição da história e a redenção do astronauta, o seu arrebatamento da crueza da existência. Por detrás dessa síncope freudiana onde se desaloja o recalque, há uma compensação estreitamente ligada ao mérito do martírio cristão. O astronauta, que foi voluntário para deixar o planeta Terra, alcança seu momento sublime que o liberta da culpa, da perda, da ausência de sentido; e tanto é maior esse escape quando pensamos que ele não despediu-se em definitivo da Terra, mas das avenidas gigantescas e vazias, e dos silêncios urbanos planificados da União Soviética de Tarkóvski, do protótipo de emancipação social mal realizado que descambou num pesadelo insuportavelmente pesado. Se Tarkovski mostra cenários de escombros e ruínas em filmes como Stalker, em que um depósito de ferro velho se espraia ao longo da margem de um rio florestal, com o propósito de provocar a sensação de "descanso do capitalismo", em Solaris a cena final é o descanso ao comunismo, a rendição em admitir não mais acreditar que o ser humano possa abraçar a Grande Ideia. No filme À Espera de um Milagre, o indío cherokee no corredor da morte diz que o paraíso seria voltar e viver para sempre num momento de sua vida, quando se refugiou com uma moça numa cabana da montanha. Como todo ato de abnegação de superfície enganadora, o astronauta se sacrifica por um mentira egoísta, uma deportação do mundo real.

A Estrada é um negativo da última cena de Solaris mas que avança de forma corajosa para todo o longo discurso apocalíptico a que Tarkóvski alude. O pai e filho de um planeta Terra ominosamente destruído fazem parte dos sobreviventes da espécie humana que purgam o mais antieufemístico experimento filosófico: viver os derradeiros meses de absoluta carência em que sucumbirá a história. Não há alimentos, não há vegetação, não há animais. Existem apenas a peregrinação rumo a lugar nenhum, a paisagem cinzenta onipresente e o canibalismo, contra o qual o pai guarda um revólver com duas balas que deve ser usado contra eles mesmos caso sejam pegos pelos canibais. O pai ensina ao filho que deve colocar a ponta da arma de encontro o queixo e efetuar o disparo. Os conselhos que o pai dá ao filho ao longo do filme são todos dessa lava de sinceridade dura. Muito do desespero de sua mulher o contaminara depois que ela própria vencera suas tentativas de dissuasão e praticara o suicídio. Quando ela clamava para que a deixasse levar o filho com ela, ele, as sobrancelhas arqueadas, as feições maleabilizadas por um incognoscível heroísmo niilista, se dobrava para dentro de si mesmo, negando o pedido e sabendo que não poderia salvar a esposa. Seu filho, ele monologa enquanto atravessa um campo acinzentado por uma morte total e insubtraível, é a forma com que deus fala com ele, se alguma vez deus falara com ele. O impacto congelante do filme é justamente esse, entre todas as desgraças óbvias que são conhecidas dos filmes apocalípticos, a maior é a realidade explícita de que não há mais lugar para a mais inofensiva ilusão. O pai não tem o conforto de se afundar numa fantasia de retorno tarkovskiana. Não há mais a possibilidade desses artifícios de retornos plásticos, de analgésicos psicológicos para aliviar numa sobra de sonho a certeza do fim. Ser o último representante da espécie que detêm um vestígio de luz moral é um fardo sem propósito, algo de uma insuportável loucura. A Estrada seria um filme mais duro ainda de assistir se tivesse caído nas mãos de um Tarkovski moderno e independente que pudesse ter o benefício de olhar a substância do que sobrou das expectativas humanas a partir de um lugar lúcido na América. Quais cores ele teria usado para representar a destruição da paisagem, já que um de seus méritos maiores foi sempre prescindir dos efeitos especiais? Teria esse Tarkóvski usado em substituição à ausência de um técnica cinematográfica caríssima a mesma astúcia sublime que fez em Solaris para representar a solidão extrema de uma sociedade planificada futura, usando longos takes das ruas soviéticas? Ninguém como Tarkovski conseguia traduzir o vazio e o medo interior (ou o medo do vazio) nas filmagens puras da natureza, seja urbana ou os escombros urbanos despejados no campo.

Dos diretores americanos atuais, há uma dupla que detêm o mesmo poderoso talento de Tarkóvski em explorar a mentalidade de derrocada e de trânsito para lugar nenhum do homem moderno. Trata-se dos irmãos Coen, cujo mote sensitivo de seus filmes é o de carregar o espectador de uma sombria premonição que algumas vezes trafega pelo terreno de insinuações kafkianas. Seus estudos do contraste da vida simples com a promiscuidade multitudinária das grandes cidades usa de um moralismo vago mas suficientemente não deletério para a sua arte, no estilo tire suas próprias conclusões e desprovido de qualquer cinismo maniqueísta. O casal imune à doença de assassinatos banais de Fargo, no final do filme em que a policial interpretada por Frances McDormand retorna para o refúgio seguro do seu lar, é mostrado sentado diante a televisão, num laconismo carinhoso mas sem surpresas do amor estabelecido. Nos filmes dos irmãos Coen já não se espera alcançar o grande Outro, os personagens já possuem um gene plenamente adaptado vindo do trabalho de acomodação paulatina das gerações anteriores para se manterem num estado acomodativo inquestionável. Os vilões só querem para si_ só são biologicamente capazes de querer para si_ algum tipo de benefício oferecido pelo pobre horizonte restringido ao mínimo denominador comum da ausência do grande Outro: alguns milhares de dólares, alguma falcatrua que não envolve o apreço das cobiças gigantescas dos gângsters dos filmes noir. São desprovidos de emoções exautadas, tanto de amores furiosos ou ambições furiosas; entram em atribulações apenas pela propensão natural da espécie, mas não por uma convocação demoníaca. Os personagens que tem direito à felicidade morna da não participação são aqueles que, seguindo a máxima pascaliana, não saem de seus quartos para não promoverem o mal. São personagens que não vivem tempos interessantes, e, na norma moderna de um presente perpétuo, refestelam-se no restolho plastificado das grandes emoções, simulam serem cidadãos e seres humanos involuntariamente, reagindo à concepção secreta que trabalham no interior de seus genes, pois não sabem o que na verdade é um ser humano e um cidadão.

Não à toa que um dos maiores filmes dos irmãos Coen veio do casamento com a obra de um escritor sintomático como Cormac McCarthy, o autor do romance que gerou a adaptação de A Estrada. Em Onde os Fracos Não Tem Vez, a adaptação da obra de McCarthy feita pelos irmãos Coen, vemos uma série de personagens automotivos, que são impulsionados a agirem por razão nenhuma. O assassino interpretado por Javier Bardem vai deixando uma fileira de corpos por onde passa, usando um compressor de ar e uma espingarda com silenciador. No meio do filme, um policial oferece a análise do assassino: ele não mata por dinheiro, mas por ser uma máquina inexplicável e compulsiva. O assassino detêm, contudo, um código moral, que usa em duas de suas vítimas para avaliar se o destino consubstanciado no cara ou coroa de uma moeda vai autorizar que elas sejam mortas ou poupadas. Não há uma metafísica, uma transcendência, um universo mental exra-orbitante, ou qualquer espiritualidade no mundo bastante aproximado do real criado pelos irmãos Coen. É um mundo intersticial que subjaz no deserto das grandes ideias, das grandes aspirações, um mundo apaticamente desumorado e regido por uma funcionalidade cega e sem eficiência_ porque não procura eficiência, a eficiência não tem sentido. São comédias criadas para não terem graça, e tragédias feitas para não obterem nenhum impacto trágico. Aí a genialidade dos irmãos Coen: lidar com as emoções aplainadas, o vazio de sentido. Daí que o impacto vem como a inesperada e ensurdecedora explosão da barreira de som quebrada, quando os irmãos Coen sorrateiramente nos manda por cima a moral sintomática, a cobrança subliminar por reação. Não há um grande Outro, ou Ele só surge na inversão indestituível da morte, como em Um Homem Sério, na magnífica cena final, uma das maiores do cinema, em que tudo feito pelo homem do título para escapar de um destino cotidiano é engolido por uma outra solução da qual ele não pode se safar. Ou as cenas gêmeas de Onde os Fracos Não Tem Vez, em que o assassino e o cowboy feridos, cada um em um momento e lugar diferente, perguntam a um adolescente (a nova geração) quanto querem por sua camisa, para que possam esconder o sangue das feridas. Ao cowboy, o adolescente junto com seu grupo, estipulam um preço alto, a visão do sofrimento não motiva qualquer outra reação humanitária ou de pena diante a alteridade. Diante o assassino, um dos adolescentes lhe entrega a camisa e diz que não precisa ser pago, que a camisa lhe será dada  de graça; o assassino não aceita a gentileza, e impõe que o adolescente receba um maço de dinheiro pela camisa. Quando foge, o adolescente sem a camisa e seu colega começam a discutir pelo dinheiro.

Slavoj Zizek diz que a humanidade nesses tempos determinantes em que vigoram diferentes correntes de apocalipsismos, tanto o ecológico, o biopolítico e o do caminho para a total desregulamentação dos mercados, deveria assumir a tentativa de solução de que o grande Outro não existe, e trabalhar na recuperação a partir daí. Aceitar que o fim não está confortavelmente próximo, mas é uma realidade inevitável em franca velocidade_ e trabalhar do futuro para o passado para mudar essa nossa triste condição. Não cogitarmos intimamente que haverá alguma força exterior que nos salvará, que agirá por nós. Não o descrédito existencialista, não um recurso vaidoso sartreano de empolarmos de filosofia niilista e reivindicarmos a supremacia da liberdade humana. Zizek propõe algo de extrema chatice funcional e desprovida de qualquer instigante exercício imagético: a restauração da humanidade feita por nós mesmos, através dos únicos canais utilizáveis que se fazem efetivos, a política, a economia, o controle reducionista direto. Nada de abstrações e lamentos sofismáveis. E cita o que foi dito por um amigo, que nos tempos atuais os poetas são mais importantes que os filósofos e analistas políticos, pois eles oferecem a alucinação que está além da teoria assepsiada pelo filtro de equilíbrio acadêmico. Nisso, a mensagem de Solaris, desatrela-se do propósito político circunscrito à crítica da sociedade planificada da União Soviética e amplia-se para toda a humanidade. Filmes como A Estrada e os filmes dos irmãos Coen já não falam da condição caótica dos Estados Unidos ou de uma nação e um povo específico. Como diz Zizek, o conceito de Marx para o proletariado há muito já se subtraiu dos funcionários escravizados das fábricas alemães e inglesas, e abarca agora todos nós. Todo nós compomos a nova proletarização em nossos redutos grupais onde, aos poucos, a ausência do Estado nos condiciona a uma marginalização onde são empregadas regras internas próprias. A favela vai se tornando o mundo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Deus ex machina

Anos antes de conhecer minha esposa eu trabalhava como médico veterinário do departamento de patologia e controle de zoonoses, da Defesa Animal do estado. Éramos um grupo de três, consistindo em mais um veterinário e um auxiliar técnico, e viajávamos por todo o estado para coleta de material biológico o qual tínhamos que entregar ao núcleo laboratorial num prazo estipulado, para que lá fizessem os usuais cronogramas de estatísticas sobre raiva, peste suína, febre aftosa, estomatites em geral e uma série de outras doenças acometedoras de animais de granja ou de pastoreio. Nossa especialidade, porém, era a eliminação sistemática de morcegos vampiros, que fazíamos com tão boa vontade (coisa que a maioria das outras equipes se desviava devido às agruras envolvidas) que recebemos a alcunha de Morcegões pelos colegas de serviço. Era mesmo uma ocupação destinada aos porra-loucas, àqueles que não tinham esposas e filhos e nem se importavam em não voltar todas as tardes a uma residência fixa. Os felizes selecionados tinham que ter a disposição de desbravar matas fechadas atrás de cavernas, assim como a condição física de um bogatyr para suportar passar noites ao relento, esperando que uma quantidade suficiente de hematófagos se prendesse pelas asas às redes que estendíamos em torno de currais e outros locais estratégicos. As diárias pagas eram ótimas, mas era o tipo de função em que valia a filosofia compulsória de que dinheiro não é tudo na vida.

Foi lá que conheci meu companheiro de equipe, o Sérgio, um veterinário dez anos mais velho, uma lenda pelas suas extremas contradições. Tinha uma aparência que, sob a total inércia muscular, transmitia o desamparo de uma vítima constante das atribulações do destino, uma cabeça totalmente calva de tartaruga marinha, uns olhos azuis quase cobertos por duas rugas palpebrares acentuando-lhe a miopia, e um corpo esguio desprovido de pêlos conservando a mesma condição impúbere desde a infância até o que deveria ser a sua feitura no seu futuro leito de morte. Contudo, quando se movia e falava_ acontecendo com demasiada frequência_ toda essa primeira impressão era pulverizada, e ele mostrava ser uma bomba de energia e um prolixo humorista que conseguia convergir a atenção de quem estivesse presente para suas narrativas hipnóticas que envolvia todos os assuntos. Parecia um ser sedentário, mas já havia trabalhado em pesquisas na Austrália e em Israel e, bem, estava ali na equipe, o que desvirtuava o conceito. Era um cavalheiro com as mulheres, mas tinha duas ex-esposas e três filhas para as quais pagava pensão, e um talento de radiografar à distância e para os amigos embevecidos quais veterinárias dos cursos semestrais gostavam de praticar sexo oral, quais eram frígidas e quais eram verdadeiras máquinas insaciáveis por debaixo das carinhas inconspícuas de moças comportadas. Fumava não um cigarro atrás do outro, como dizem, mas um único cigarro perpétuo, pois era quase impossível flagar a ligeira pausa em que tirava o tubo de nicotina da boca. De imediato nos demos muito bem, pois naquele universo de músicas sertanejas éramos patinhos feios que adoravam blues, jazz e o rock dos anos clássicos. Mas sua melhor qualidade era uma maestria para a boa vida a qual chegava a extremos da mais perfeita malandragem em disfarçar de trabalho exaustivo o que na verdade eram férias remuneradas, pois nas nossas peregrinações à caça de morcegos ele conseguia favores dos fazendeiros interessados de maneira que hospedávamos em chacáras confortáveis cujos donos lhe entregavam não só as chaves das portas como o direito ao uso de freezers abarrotados de cerveja.

Foi numa chácara dessas_ na verdade um agrupamento de chácaras de alto requinte, pertencente a um grupo empresarial kardecista, conforme me informara o Sérgio_ que ficamos cinco dias, apenas nós três. Enrolávamos as redes em volta dos currais onde estavam os cavalos parasitados, à tardezinha, e pelas três da madrugada fazíamos uma pausa nas conversas acaloradas em torno da churrasqueira e das cervejas para descermos até lá e desenrolar os morcegos que eram apanhados pela armadilha. Lembro que ouvíamos o novo cd do Clapton tocando com B.B.King, presente de uma de suas filhas, quando, enquanto passávamos a pasta vampiricida nas costas dos morcegos, ele me confessara por entre a fumaça do cigarro que os proprietários do lugar eram do mesmo centro espírita que ele frequentava. Não me surpreendera em nada, pois já havia cogitado que por detrás de seus modos dissolutos haveria uma inquirição religiosa. Daí fomos por toda a noite em assuntos espirituias, em que ele intersticiava a suposta seriedade de suas crenças com piadas das quais ríamos até perdermos os fôlegos.

Acho que foi duas semanas depois dessa estadia, quando coletávamos sangue dos suínos de uma granja, que o acidente aconteceu. Foi próximo a uma cidade chamada Faina. Voltávamos do almoço para a granja, e no cruzamento da rodovia um caminhoneiro avançou sem olhar para os lados. Eu freei o carro, virando-o de lado, de forma que a batida pegou pelo lado do passageiro, onde o Sérgio estava sentado. Eu sofri danos mais sérios, quebrando o tornozelo da perna direita e rasgando alguns pontos do rosto acertado pelo vidro espatifado. Mas o Sérgio, assim que saiu do carro e se posicionou em pé ao lado da lataria retorcida, que provocou mais choque. Colocando sua cabeça para baixo, as carnes do rosto ficavam penduradas como um livro segurado pela lombada. Ao nosso companheiro técnico acontecera de quebrar duas costelas, sem consequências. Ficamos internados no hospital da cidade, pois a equipe médica do estado só poderia nos buscar na manhã do outro dia. Um clínico geral costurara a face do Sérgio e os rasgões em minha sobrancelha e na bochecha, e colocara uma tala para imobilizar minha perna. Deixara a recomendação de que futuramente teríamos que nos submeter a uma cirurgia estética de restauração. Durante a noite, o Sérgio aparece em meu quarto numa cadeira de rodas, com o rosto enfaixado. Pela primeira vez o vi sem o cigarro. Disse-me que depois disso iria arranjar uma outra mulher para se amasiar, e me sugeriu que também me quietasse dessa vida de porra-louca. Eu estava deprimido e só queria me lastimar em silêncio ouvindo a chuva cair sobre aquele hospital perdido num povoado desconhecido. O Sérgio talvez havia percebido que a coisa mexera comigo e insistia em me animar. Na certa sabia que subliminarmente eu era muito vaidoso de minha aparência física e aqueles rasgos na cara me faziam imaginar futuras rejeições. Tentou reativar naquela hora nossa conversa sobre os sinais metafísicos das leituras que cada um havia feito de Carlos Castañeda, de como o universo nos manda constantes sinais, nunca se cansa de nos mandar inúmeros e infinitos sinais...

Desistindo, ele freccionou as rodas da cadeira rumo à porta do quarto. Lamentou terem-lhe escondido os cigarros e deve ter mandado os médicos à merda diante o corredor tomado por uma meia luz azulada de deserção. Se voltou para uma última pergunta:

_ Quando você viu o caminhão atravessado na nossa frente, lembra o que você disse? Pois eu lembro: "Meu Deus do céu!". Você gritou "meu Deus do céu!". Se tivesse gritado "puta que pariu", aí sim estaríamos na merda!

Se virou para minha cara eximida de sorriso, e saiu.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Kraftwerk


Já há algum tempo eu pensava escrever sobre a banda alemã Kraftwerk, uma das minhas preferidas. Almejava falar sobre as subliminariedades da música dessa banda, sua ironia, seu modo de brincar com a própria resignação diante a inevitabilidade dos efeitos colaterais da tecnologia, mas ia adiando por uma série de fatores. Um deles é que não quero recair mais uma vez na crítica baumaniana contra o "moderno", e outro é que algumas constatações adquiridas através de conversas tanto com amigos reais quanto virtuais me deixam em dúvida se a apreensão da vertente de ironia muito fina promovida pelo Kraftwerk é uma característica facilmente conseguida pelos ouvintes atuais. Posso ser criticado de elitismo de gosto ao afirmar que certos nuances significativos do humor e da crítica ficaram atrofiados com o correr dos anos, o que talvez seja mesmo um preconceito meu ao me espantar com o fato de algumas pessoas que viram a apresentação do Kraftwerk no Brasil (quando eles fizeram os shows de abertura do Radiohead) não saíram com uma boa opinião sobre a banda. O Kraftwerk foi um ícone para a minha geração_ para os estudantes da década de 1980 que hoje beiram os quarenta_, e essa forte presença formadora se conserva no mesmo alto grau de vinte anos atrás quanto a uma das maneiras cognitivas de vermos o mundo moderno que é uma das heranças preciosas dos irmãos Hutter, de Schneider e Schult: com um lirismo e um romantismo propositalmente piegas e retrógrado, com um humor decantado, que se resvala no conformismo. Uma das pessoas com quem falei sobre o show afirmou que os achou chatos, demonstrou que não entendeu bem o que há por detrás do minimalismo dançante das músicas (no mundo atual, já dizia Cortázar, o que realmente importa é o que subjaz atrás das coisas). Fiz uma coletânea deles e dei de presente a um amigo, mas esse só a escutou por educação ao meu lado, e nunca mais. De forma que Kraftwerk se torna aos poucos um dos meus tesouros secretos, que mais vale não os expor ao mundo circundante para não provocar estranhamento. Mas hoje me deparei com um post do Marcos Donizetti, do blog E Eu com Isso, que trata do Kraftwerk da mesma forma apaixonada, e em resposta a uma crítica depreciativa do Diogo Mainard. O Mainard foi ao show da banda no Brasil, e escreveu:

"Acompanhei seus primeiros discos. Autobahn e Radio-Activity. Em 1977, quando saiu Trans-Europe Express, eu já desistira do grupo. Tinha 15 anos. Era velho demais. Quase a idade de Mozart em 1775. Naquele tempo, o Kraftwerk evocava o futuro. Mas era uma imagem do futuro de 30 anos atrás. Ridiculamente datada. Embolorada. Caduca. Com seus uniformes aderentes, com sua imobilidade no palco, com suas letras afásicas, com seus arranjos elementares, com sua batida narcótica, com sua tecnologia rudimentar, o futurismo caipira do Kraftwerk era igual ao do seriado de TV com marionetes “Os Thunderbirds”.

Nada surpreendente partindo de quem parte. O Marcos Donizetti já coloca os devidos pingos nos is , aludindo a outro interessante blog que responde muito acima do nível do Mainard, quanto a uma defesa do Kraftwerk, mencionando os erros crassos sobre as datas cronológicas do lançamento dos álbuns da banda e outros detalhes que revelam o que todos já sabemos sobre Mainard: ou ele sofre de uma esclerose mental ou é apenas o leviano cheio de cacoetes e desinteressante que possui a estapafurdíce de usar a classe alta como distinção de cultura elevada. Mainard não entendeu absolutamente nada do Kraftwerk. O Kraftwerk não precisa de defensores, ainda mais contra quem, mas, assim como Donizetti e o Mário do blog Different Thinker fizeram, é bom brincar sobre os ataques de botinha da Gucci do Mainard. 

Antoine Badiou deu um prognóstico sobre a sociedade moderna, dizendo que a subjetividade das formas de dominação está tão cada vez mais avançada na mistura com as idiossincrasias do universo urbano atual, de forma que os poetas são mais importantes para compreendermos o que se passa na política, na economia e na velha Questão Social, do que os filósofos e analistas políticos. A poesia fria, concisa, sincopada, desprotegidamente infantil do Kraftwerk, serve como um tratado sobre as mentalidades na época em que as máquinas e o ciber-espaço se tornam o cenário aparentemente definitivo para o qual a humanidade vai se mudando a um rítmo acelerado. E o Kraftwerk foi um precursor dos sons do niilismo que vem sendo desenvolvido por bandas como Radiohead, Sigur Rós, Sonic Youth, através dos primeiros álbuns minimalistas da banda (que não são os citados pelo Mainard), álbuns totalmente instrumentais que  prefiguram a atmosfera cáustica de rendição que se vê nos principais álbuns da banda nos anos 70. Mesmo na também excelente banda anterior da qual partiram parte dos integrantes do Kraftwerk, a Neu!, vemos as atenas de percepção da eletricidade alienizante, ultra-veloz, que não permite que a atenção se firme no mesmo objeto por mais que rápidos segundos, nas longas sessões rítmicas de 10 minutos em que qualquer forma de canção é abolida e substituida por percussão e notas de teclado estendidas.

O Kraftwerk, contudo, é o pai distante de todos os filhos que formam a música pop dos dias de hoje. Por mais que as bandas o celebrem, como é o caso da versão do U2 para Neon Lights, o riff copiado pelo Coldplay, a apropriação de solos sampliados por bandas de rap americanas, a forma de adoração do Radiohead em convidá-los para a abertura de seus shows, o Kraftwerk, a título de não abraçar a ruína cenográfica exercitada pelas guitarras tocadas com arco de violino, o uso do Teremim e as letras apocalípticas empregadas por essas bandas, traça um retrato dos efeitos colaterais da tecnologia onipresente com uma imparcialidade lúcida, que simula o mais perfeito conformismo. Como um crítico disse certa vez da obra de Samuel Beckett: ela é tão pessimista e não deixa vislumbrar a mínima fagulha de alívio, que acaba por oferecer chances ainda não possíveis de redenção; a música do Kraftwerk, adotando essa inversão beckettiana, aceita de maneira tão aparentemente saudável a imersão total nos computadores, na robótica, nos feixes de laser da transmissão de informações, que seu deslumbramento infantil diante uma calculadora, seu retardarismo cerebral frente os milagres dos campos atravessados por trens expressos, são tão purificados de reação que se tornam eles mesmos a forma mais impactante de resistência. Enquanto as bandas dos sons da ruína retiram o humano de suas músicas, numa mistura de stream of consciousness desindividualizado e coletivo, o Kraftwerk coloca um protótipo profundamente humano como sujeito de suas músicas, sujeitos que são tão antípodas da máquina que provocam na mente do ouvinte a sensação de estar vendo-lhes os olhos arregalados, cheios de um espiritual arrebatamento. Enquanto o indivíduo do Radiohead é o último a habitar a Terra, antes da catástrofe, o indivíduo do Kraftwerk é o primeiro homem, em seu estágio infantil diante o Advento, diante o paraíso tecnológico. Por exemplo, na sublime música Pocket Calculator, a letra não passa de uma constrangedora referência de como o personagem manipula sua calculadora de bolso:

I'm the operator with my pocket calculator
I'm the operator with my pocket calculator
I am adding and subtracting
I'm controlling and composing
I'm the operator with my pocket calculator
I'm the operator with my pocket calculator

I am adding and subtracting
I'm controlling and composing
By pressing down a special key, it plays a little melody
By pressing down a special key, it plays a little melody

I'm the operator with my pocket calculator
I'm the operator with my pocket calculator


( Eu sou o operador com minha calculadora de bolso
Eu sou o operador com minha calculadora de bolso
Eu adiciono e subtraio
Eu controlo e componho
Eu sou o operador com minha calculadora de bolso
Eu sou o operador com minha calculadora de bolso

Eu adiciono e subtraio
Eu controlo e componho
Apertando uma tecla especial, ela toca uma pequena melodia
Apertando uma tecla especial, ela toca uma pequena melodia

Eu sou o operador com minha calculadora de bolso
Eu sou o operador com minha calculadora de bolso)



E a magia reside nos mínimos detalhes: quando ele aperta uma tecla especial, a calculadora realmente oferece uma pequena melodia, que a ouvimos em sua forma mais simples e doce. E quem ouviu Neon Lights sabe do que estou falando, essa que é uma das músicas mais belas dos últimos 30 anos, uma perfeita canção de amor que oculta por completo qualquer amor ou alvo amado, mas que através das pulsões das luzes de neon que perfaz cada um de seus oito minutos de duração, vemos as ruas noturnas, o céu invisibilizado pela cidade feita de luz, e a voz fraca, desprotegida, do indivíduo que anda pela solidão magnânima de um mundo sintético que só não o devora em sua pequinez por ser ele que lhe dá referencial para existir, já que é o único dos dois que realmente possui espírito. A angústia nessa música que retrata algo semelhante à felicidade vazia de uma criança adquirindo lucidez numa noite de natal num shopping explode no solo em que é como a entrada por dentro da cintilância do neon, que envolve e submerge tudo. É realmente incrível que uma música com essa superfície seja tão tocante e tão sentimental de se ouvir.

Tem também a sinfonia eletrônica Autobahn, que descreve por sons uma viagem pelas grandes pistas de asfalto da Alemanha moderna, com os amortecedores passando pelos grooves de atenção, as faixas de sinalização atravessando em velocidade hipnótica por debaixo do carro, o anoitecer visto pelo parabrisa, os faróis batendo no rosto, vindos da pista contrária, e os belíssimos solos de guitarra que se consubstanciam no teclado que revelam a mesma criança kraftwerkiana se embevecendo com a natureza nas margens da rodovia. E o acréscimo crítico subliminar de que era uma ode ao carro em plena crise do petróleo da década de 1970. Tem o sombrio álbum Radio-Activity, um experimento de sons que se inicia com uma peça de 7 minutos que congela a circulação com as emissões de rádio que se assemelham a um código morse premonitório, dizendo na mesma cadência de cantiga de rodas costumeira: Radioactivity Is in the air for you and me.

A maneira do Kraftwerk em ser à frente do seu tempo_ que fatalmente não foi entendida pelo colunista daquele hebdomadário_ já estava estabelecida desde a visão que se tinha dele os ouvintes da década de 1970: uma banda retrógrada, com terninhos propositalmente idiotas, com uma posição de caipiras na imobilidade de seus integrantes nas performances ao vivo, com muito humor e uma capacidade adstringente de não se levarem e de não serem levados a sério. E, astutamente, nisso residia a sua suprema força.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Modo como Vivemos Hoje

 
"Em épocas recentes, como nos anos 1970, a ideia de que o objetivo da vida era ficar rico e que o governo existia para facilitar isso seria ridicularizada não apenas pelos críticos tradicionais do capitalismo como também por alguns de seus defensores mais convictos. A indiferença relativa pela riqueza em si se disseminou na época do pós-guerra. Uma pesquisa entre estudantes ingleses realizada em 1949 mostrou que quanto mais inteligente o estudante fosse, mais tendência tinha a escolher uma carreira interessante, com salários razoáveis, em vez de um emprego que simplesmente lhe pagaria bem. Os estudantes e universitários de hoje conseguem imaginar poucas opções além de buscar um emprego lucrativo.

Por onde devemos começar para corrigir a criação de uma geração obcecada pela busca da riqueza material e indiferente ao resto? Talvez seja preciso começar lembrando a nós mesmos e nossos filhos de que nem sempre foi assim. Pensar "economisticamente", como temos feito nos últimos trinta anos, não é intrínseco aos seres humanos. Houve um tempo em que organizávamos nossas vidas de maneira diferente."
                                                            
                                                                            O Mal Ronda a Terra, Tony Judt